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- Desafio Literário de outubro/2019: Gabriel García Márquez
Gabriel García Márquez, escritor colombiano que está entre os grandes nomes da ficção do século XX, será o autor analisado no Desafio Literário de outubro. Vencedor do Nobel de Literatura de 1982, García Márquez é considerado o principal representante do realismo mágico latino-americano. Sua obra-prima, “Cem Anos de Solidão” (Record), é até hoje um dos livros mais traduzidos e lidos no mundo. Há quem aponte (merecidamente) esse título como o mais simbólico da língua espanhola, depois de “Dom Quixote de La Mancha” (Abril). Só por essas particularidades, a escolha do escritor colombiano para integrar nossos estudos já se justifica. Ele será o terceiro Nobel de Literatura a participar dessa temporada do Desafio Literário. Vale lembrar que José Saramago (Portugal) e Orhan Pamuk (Turquia) foram analisados no Bonas Histórias em abril e julho, respectivamente. Nascido em Aracataca (norte da Colômbia), em 1927, Gabriel García Márquez faleceu na Cidade do México (onde morava há décadas), em 2014. Aos 87 anos, ele sofria de demência, o que o impossibilitava de escrever e de dar entrevistas nos últimos anos. Seu romance derradeiro, “Memórias de Minhas Putas Tristes” (Record), é de 2004. Essa obra é o vigésimo quinto livro ficcional do autor, que também produziu alguns títulos não ficcionais, principalmente crônicas jornalísticas. Sua estreia na literatura aconteceu, em 1955, com a publicação de “A Revoada: O Enterro do Diabo” (Record). Naquele mesmo ano, “Relato de Um Náufrago” (Record) foi lançado em capítulos no jornal El Espectador. Apenas mais tarde, quando o autor já se tornara popular na Colômbia, essa história seria editada em livro e vendida nas livrarias. Com “Ninguém Escreve ao Coronel” (Record), novela de 1961, Gabriel García Márquez tornou-se um autor conhecido nacionalmente. Porém, a sua fama só ultrapassaria as fronteiras colombianas a partir de 1967, com a publicação do incontestável “Cem Anos de Solidão”. Era o início da carreira internacional do escritor. As décadas de 1980 e 1990 representaram o auge da popularidade de García Márquez, uma das figuras mais carismáticas da literatura contemporânea. Das suas obras produzidas nesse período, destacam-se “Crônica de Uma Morte Anunciada” (Record), de 1981 (lançado um ano antes do recebimento do Nobel) e “O Amor no Tempos de Cólera” (Record), de 1985. Vale a pena lembrar que além de novelas, romances e crônicas, o colombiano também produziu contos. “Olhos do Cão Azul” (Record), de 1972, e “Doze Contos Peregrinos” (Record), de 1992, são as mais famosas coletâneas desse gênero. O mais interessante do portfólio de Gabriel García Márquez é que, como um Nobel, ele foi publicado quase integralmente em português (algo que dificilmente acontece quando o autor não é tão premiado). Assim, o leitor brasileiro não tem dificuldades para encontrar hoje em dia os livros deste escritor. A maioria está no catálogo atual das livrarias e um ou outro mais antigo pode ser achado facilmente nos sebos. Feita essa pequena introdução, garanto que estou preparado para estudar seis das principais obras de García Márquez nas próximas quatros semanas. Os livros escolhidos para a análise do Desafio Literário são: “Relato de Um Náufrago”, “Ninguém Escreve ao Coronel”, “Cem Anos de Solidão”, “Crônica de Uma Morte Anunciada”, “O Amor no Tempos de Cólera” e “Memórias de Minhas Putas Tristes”. Após essas leituras, construirei, em um post específico, o perfil estilístico de Gabriel García Márquez. Confira, abaixo, o calendário de posts sobre esse autor do Bonas Histórias de outubro: - 6 de outubro - Análise de “Relato de Um Náufrago” (Record) - 10 de outubro – Análise de “Ninguém Escreve ao Coronel” (Record) - 14 de outubro – Análise de “Cem Anos de Solidão” (Record) - 18 de outubro – Análise de “Crônica de Uma Morte Anunciada” (Record) - 22 de outubro – Análise de “O Amor no Tempos de Cólera” (Record) - 26 de outubro – Análise de “Memórias de Minhas Putas Tristes” (Record) - 30 de outubro – Análise da Literatura de Gabriel García Márquez E aí, preparado(a) para me acompanhar na investigação de um dos nomes mais importantes da literatura da segunda metade do século XX? Saiba que você é minha companhia nessa viagem empolgante pelo universo ficcional de Gabriel García Márquez. Já no próximo domingo, voltarei ao Bonas Histórias para postar minhas impressões sobre “Relato de Um Náufrago”. Bom Desafio Literário para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #GabrielGarcíaMárquez #RealismoMágico #LiteraturaColombiana #LiteraturaClássica
- Filmes: Bacurau – O premiado terror brasileiro
Há muito tempo, um filme brasileiro não despertava tanta expectativa em seu lançamento como “Bacurau” (2019). O motivo é nobre: a conquista do Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano. As últimas vezes que longas-metragens nacionais receberam tanto destaque no tradicional festival de cinema francês foram na distante década de 1960. “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, conquistou a Palma de Ouro e “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, venceu o Prêmio da Crítica Internacional. De lá para cá, tivemos um hiato de mais de meia década. Agora, enfim, uma produção brasileira (na verdade, trata-se de um filme franco-brasileiro) voltou a ser premiada em Cannes. Curiosamente, “Bacurau” foi preterido, há poucas semanas, pela Academia Brasileira de Cinema na escolha do representante brasileiro ao Oscar de 2020. O vencedor desta disputa interna, que representará nosso país na mais importante premiação do cinema mundial (na categoria Melhor Filme Estrangeiro), foi “A Vida Invisível”, filme de Karim Aïnouz. Para quem não se lembra de Aïnouz, ele foi diretor de “Madame Satã” (2002), “O Céu de Suely” (2006) e “Praia do Futuro” (2014). Os fãs de “Bacurau”, obviamente, chiaram quanto a opção da Academia. Como consequência à conquista de prêmios importantes na Europa, “Bacurau” se tornou um dos grandes acontecimentos culturais do ano em nosso país. Sua estreia aconteceu no finalzinho do mês passado, mais precisamente no dia 29 de agosto. Tão logo iniciaram as sessões do filme nas salas de cinema, corri para conferi-lo. Contudo, só agora estou conseguindo produzir um post a respeito aqui no Bonas Histórias. Para aqueles que possam reclamar do atraso, só tenho duas coisas a dizer: desculpe-me pela demora; e antes tarde do que nunca (como já dizia o velho ditado popular que vem recheado de clichês!). Filmado integralmente no Sertão potiguar, “Bacurau” foi dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a talentosa dupla do aclamado “Aquarius” (2016). Como já tinha acontecido com o longa-metragem anterior, este também veio envolto em muitas polêmicas (a maioria de ordem político-ideológica). A principal delas trata do preconceito aos nordestinos (um tema que nosso Presidente da República encampou pessoalmente há alguns meses quando se dirigiu aos governadores daquela região). Esse sentimento de ódio aos nordestinos é o que alimenta a trama do filme. Além do preconceito central, há outros: a citação a uma personagem chamada Lunga (no longa-metragem, parece que seu nome é Lula), que é perseguida injustamente (??!) pelo governo de Brasília; e a cisão do território do país em duas partes (Brasil do Sul e Brasil do Norte) – o que evidencia a polarização entre direita e esquerda e, principalmente, Sul versus Norte). Não faltam, portanto, ingredientes para tornar essa produção explosiva. No elenco de “Bacurau”, temos uma mistura de nomes conhecidos do cinema brasileiro e europeu (Sônia Braga e Udo Kier, por exemplo) com atores de menor destaque, mas em franca ascensão na carreira (Silvero Pereira, Barbara Colen, Karine Teles e Thomas Aquino), novatos em produções de alcance nacional (Thardelly Lima) e figuras há muito tempo distante das telonas (Wilson Rabelo). Essa combinação se mostrou acertada (ao menos a atuação da equipe não atrapalhou o desempenho do longa-metragem). “Bacurau” tem pouco mais de duas horas de duração (são exatos 130 minutos) e se enquadra mais no gênero de terror, pelo menos no meu ponto de vista. Esta produção também pode ser encarada como um thriller fantástico, uma distopia terceiro mundista, um faroeste brasileiro, uma ficção científica ou mesmo tudo isso junto. O principal acerto de “Bacurau” está justamente na criação de um clima de suspense e de pânico que embasa seu conflito narrativo do início ao fim. Como filme de terror, temos uma história redondinha, redondinha (com muito mais acertos do que erros). Sua qualidade dramática é inegável. Orçado em R$ 7,7 milhões, esta produção vem colecionando alguns prêmios mundo a fora. Além do Festival de Cannes, ela conquistou o prêmio de melhor filme do Festival de Munique e de Lima. Só na sua primeira semana de lançamento no Brasil, “Bacurau” arrecadou mais de R$ 2 milhões em bilheteria. Até agora, o público total do filme em nosso país é estimado em 200 mil espectadores (uma marca invejável). O enredo do longa-metragem se passa em um futuro não tão distante. Na época em que a história é contada, o Brasil se fragmentou em dois países: o Brasil do Sul é rico e cosmopolita (São Paulo e Rio de Janeiro são suas capitais culturais) e o Norte é pobre e rural (a aridez do Sertão nordestino é a principal imagem desta nação). A trama é vista da perspectiva dos moradores de Bacurau, um pequeno povoado do interior de Pernambuco (ou seja, o município pertence ao Brasil do Norte). A localidade cujo nome faz referência a uma ave típica do Sertão sofre com a falta sistemática de água (ela foi desviada para abastecer as grandes fazendas da região, que estão nas mãos dos empresários do país vizinho) e de recursos (comida, remédio, livro e materiais básicos de higiene). Para minimizar um pouco a miséria do povo, os moradores de Bacurau formaram uma forte associação civil. Assim, eles podem agir de maneira integrada em prol da coletividade e de forma rápida contra os inimigos externos (fazendeiros e políticos da região são especialistas em explorar a pobreza). Perto dali, vive Lunga, uma espécie de Robin Hood local e performático (ele se veste como Ney Mato Grosso na época dos “Secos e Molhados”). Perseguido pelas autoridades do Brasil do Sul por seus crimes, ele precisou se esconder nesta remota região para não ser preso. Lunga conta com a simpatia dos habitantes de Bacurau, que para protegê-lo não comunicam seu esconderijo nem o procuram com frequência (não dando pistas do seu paradeiro). A tranquilidade e o bucolismo de Bacurau terminam quando o povoado desaparece dos mapas do Google. Esse fato até então inexplicável precipita uma série de outros acontecimentos tão surpreendentes como o primeiro: drones passam a sobrevoar o céu da região, estrangeiros começam a circular ao redor da cidade e a rede de telefonia móvel é interrompida. Na sequência, o povoado é alvo de uma sucessão interminável de ataques criminosos. No início, o caminhão-pipa que abastece os moradores é alvejado. Depois, chacinas sangrentas espalham-se por todos os lados. A sensação é que os habitantes de Bacurau estão sendo exterminados friamente por um inimigo invisível. Por fim, a rede elétrica é interrompida, elevando ainda mais o desespero de todos. Sem saber mais o que fazer, os líderes comunitários de Bacurau resolvem pedir a ajuda de Lunga. O criminoso (ou seria “criminoso”?) terá que decidir se vale a pena colocar sua liberdade e seu pescoço em risco em nome do bem-estar dos seus conterrâneos. Assim, inicia-se o contragolpe dos moradores do povoado. Nessa disputa sanguinária contra os adversários até então desconhecidos, é matar ou morrer. Não há alternativa para o povo pobre e carente do Sertão pernambucano que não passe pela luta armada. Durante a sessão de “Bacurau”, confesso ter me lembrado de “Corra!” (Get Out: 2017), filme norte-americano de terror ancorado em preconceitos sociais e na instituição de um poderoso grupo racista secreto. Ao menos quando analisamos a narrativa e a temática dos dois longas-metragens, eles são parecidos. Entretanto, não sei se os cineastas brasileiros se inspiraram em seu similar estrangeiro. O fato é que eles são muito parecidos... Há vários pontos positivos no filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O primeiro deles é a ousadia narrativa. O enredo destoa de quase tudo o que vem sendo feito em nosso país e, sendo um pouco mais ousado, na América Latina. Por exemplo, não temos um protagonista definido nesta trama (não me lembro de um longa-metragem recente que tenha usado esse recurso). As surpresas da história acumulam-se o tempo inteiro. Os quebra-cabeças do drama são apresentados sem pressa e na hora certa (o roteiro, ainda bem, acredita na inteligência da plateia). Outro aspecto elogiável é a contemporaneidade dos temas abordados. É verdade que temos sim uma visão exagerada e bastante estereotipada dos choques ideológico-culturais do Brasil atual. Entretanto, não seria esse mesmo o papel das produções artísticas (expor em tintas fortes as questões que incomodam a nação)? Acredito que sim. Gostei também do ritmo da segunda metade desta produção. Uma vez apresentado o conflito do filme ao espectador, a adrenalina corre solta até o final. Neste sentido, a pegada de “Bacurau” é muito mais parecida à velocidade do cinema norte-americano do que a do cinema sul-americano (e europeu). A proposta de se fazer um filme naturalista combina perfeitamente com a pegada determinista da trama (apesar de ser uma escolha pouco usual para os dias de hoje). Os preconceitos dos sulistas contra os nortistas/nordestinos e o racismo das nações desenvolvidas contra os povos dos países não desenvolvidos permitem essa ousadia politicamente incorreta. Nesse caso, o retrato animalesco das pessoas faz sentido do ponto de vista estético-narrativo. De pontos negativos, só encontrei três aspectos para citar. Em primeiro lugar, demora-se muito para a narrativa iniciar o conflito principal (um erro imperdoável para um thriller de terror com uma pegada mais comercial). Até o começo dos ataques aos moradores de Bacurau (foco do terço final do filme), assistimos a uma interminável crônica do pequeno povoado interiorano, com sua banalidade e sua rotina entediantes (foco do primeiro terço do longa-metragem). Se por um lado esse expediente narrativo aproxima a plateia das várias personagens retratadas, por outro lado cansa o público ávido por acontecimentos e emoção (vi algumas pessoas saindo da sessão em sua metade). O segundo ponto negativo está em alguns cortes de câmera mal feitos já nas primeiras cenas do filme. Encontrei erros elementares, por exemplo, nas duas cenas iniciais do longa-metragem. É verdade que não achei outros até o final (pelo menos em relação aos cortes). Mesmo assim, uma produção com a ambição de angariar prêmios importantes não pode cometer esses equívocos tão elementares, ainda mais no comecinho, quando construímos a imagem do filme. Lembremos o ditado: a primeira impressão é a que fica... E, por fim, o humor de “Bacurau” mescla um pouco de sutileza com uma dose generosa de escracho. A cenas de bangue-bangue com as personagens totalmente peladas (com direito a nu frontal masculino, uma raridade no cinema comercial) e o figurino de Lunga (quase uma drag queen tupiniquim) dão a tônica do humor do filme. O lado negativo desse recurso é dar a impressão de que se trata de uma produção trash (cinema B na veia!). Essa sensação é potencializada com algumas atuações exageradas, com a construção de personagens caricatas e com uma narração profundamente maniqueísta. Em suma, gostei muito de “Bacurau”. Como fã de filmes de terror, fazia muito tempo que não via uma produção nacional tão original e ousada como esta. Parte do desconforto que sentimos durante sua sessão é proposital (quem não se sentir desconfortável vendo um roteiro com tanta brutalidade e preconceito deve procurar um psiquiatra o mais rápido possível). Contudo, não acho que “Bacurau” seja um longa-metragem brilhante. O meu senão não está vinculado a ordem ideológica (para mim, a narrativa faz todo o sentido, apesar dos exageros e da pegada escrachada) conforme tenho ouvido por aí. O problema maior do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (dupla que já pode ser considerada como pertencente ao grupo dos melhores cineastas brasileiros da atualidade) está no tom pastelão da sua história (algo que não existe ou é minimizado em “Corra!”, por exemplo). Se não fosse a cara de filmão B, esta produção teria uma recepção ainda melhor. Veja, a seguir, o trailer de “Bacurau”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Filme #CinemaBrasileiro #Suspense #Thriller #Terror #FicçãoCientífica #Distopia #KleberMendonçaFilho #JulianoDornelles #SôniaBraga #UdoKier #WilsonRabelo #CinemaFrancês
- Exposições: Olá, Maurício! – 60 anos da carreira de Maurício de Sousa
Na semana retrasada, fui ao Centro Cultural Fiesp da Avenida Paulista para ver a exposição “Olá, Maurício!”. Inaugurada em julho, a mostra faz uma homenagem às seis décadas de carreira de Maurício de Sousa, o criador da Turma da Mônica e um dos cartunistas mais famosos e carismáticos do Brasil. Para se ter uma ideia da dimensão do trabalho deste artista, a Maurício de Sousa Produções (MSP), empresa fundada pelo ilustrador, representa mais de 80% do mercado brasileiro de quadrinhos. Com 400 funcionários em sua sede na Lapa de Baixo, bairro da zona oeste da cidade de São Paulo, a MSP é um dos maiores estúdios de Histórias em Quadrinhos (HQ) do mundo. A empresa produz mensalmente mais de 1.500 páginas inéditas. É um volume admirável. Das pranchetas de Maurício de Sousa (e, por consequência, da MSP), nasceram mais de 500 personagens que coloriram revistas ilustradas, desenhos animados, filmes, animações, aplicativos para celular, canais no Youtube, parques de diversões e incontáveis produtos e serviços que não sou capaz de lembrar agora. Só de artigos licenciados são mais de 3.500. Muitas dessas personagens se tornaram ícones culturais do Brasil. São o caso de Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento e Bidu, que permanecem no imaginário coletivo de gerações e gerações de brasileiros. Não à toa, Maurício de Sousa é membro da Academia Paulista de Letras desde 2011. A curadoria de “Olá, Maurício!” é de Jacqueline Mouradian, funcionária de longa data da Maurício de Sousa Produções. Logo na entrada da exposição, o visitante conhece a primeira tirinha publicada pelo ilustrador. Em julho de 1959, o jornal Folha de São Paulo veiculou uma historinha de Maurício de Sousa com o simpático cachorrinho Bidu. Era o início de uma carreira fértil e duradoura do mais famoso cartunista infantil do nosso país. Para conferir as demais personagens da Turma do Bidu, o participante da mostra entra em uma rua do bairro do Limoeiro, cenário das aventuras dos animais de estimação de Maurício. À medida que avança na exposição, o visitante conhece os cenários e os protagonistas das principais tramas do artista. Estão ali a Turma da Mônica (não poderia faltar, né?), a Turma do Chico Bento (meu personagem favorito!), Horácio (sempre tive um carinho especial por ele, pois meu pai tem o mesmo nome do dinossauro), a Turma do Penadinho, a Turma do Piteco, o Astronauta... É tanta gente que ficamos de queixo caído. Sinceramente, a maioria das criações de Maurício de Sousa eu já tinha esquecido (e foi ótimo relembrá-las). Em “Olá, Maurício!”, cada grupo de personagens possui um espaço exclusivo, onde são apresentadas as evoluções dos desenhos, os cenários das aventuras, as biografias fictícias dos protagonistas e algumas características peculiares dos principais integrantes de cada turminha. Essa setorização tem a capacidade de escancarar a amplitude e a profundidade do trabalho de Maurício de Sousa ao longo dos anos, além de evidenciar a genialidade do artista. Não é preciso dizer que o público fica encantado com a riqueza de materiais expostos na mostra. Na sequência, assistimos às produções mais contemporâneas do cartunista: a Turma da Mônica Jovem e Chico Bento Moço, dois grandes sucessos recentes da MSP. Terminada a fase de categorização do portfólio, “Olá, Maurício!” apresenta detalhes da vida e da carreira de Maurício de Sousa. São mostradas, por exemplo, cópias originais das ilustrações do artista e fotos de momentos marcantes de sua trajetória profissional. Há também uma réplica do escritório onde Maurício produziu suas histórias e os vários prêmios nacionais e internacionais por ele conquistados. Já na parte final da exposição, vemos telas com paródias de clássicos da pintura universal. Essa seção é chamada de “Histórias em Quadrões”. Ao invés das personagens originais, esses quadros estampam as criações de Maurício de Sousa. Assim, Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão ocupam o cenário até então destinado às figuras célebres da arte. Incrível este tipo de releitura! Para mim, essa parte é disparada a mais divertida de “Olá, Maurício!”. Por fim, podemos ver a mesma técnica de releitura em esculturas. As mais famosas peças da história da arte agora possuem uma versão com o protagonismo das figuras carismáticas de Maurício de Sousa. Hilário! A experiência de visitação não acaba quando o participante da mostra sai de “Olá, Maurício!”. Assim que entramos no espaço, recebemos um gibi contendo a segunda historinha do mais novo integrante da Turma da Mônica: Edu. Sim, Maurício de Sousa não para de criar novas personagens! É muita vitalidade para um senhor que já passou dos 80 anos. Incrível! Voltemos, porém, a historinha do gibi que ganhamos no início da exposição... Edu é um garoto de nove anos de idade que possui uma doença rara, a Distrofia Muscular de Duchenne (mais conhecida pela sigla DMD). A enfermidade tem causas genéticas e se caracteriza pela perda progressiva de força muscular nos braços e nas pernas. Ou seja, a previsão é que Edu precise usar cadeira de rodas no futuro. A trama desta história em quadrinhos apresenta este drama e, ao mesmo tempo, a compreensão dos amigos de Edu durante um passeio ao zoológico. Aí surgem as principais criações de Maurício de Sousa: Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão. Curiosamente, neste enredo o quarteto exerce papel secundário. Fui lendo a HQ no caminho de volta para casa (fui de metrô). É legal notar que a exposição foi criada pensando na mania dos participantes em querer fotografar seu passeio. Por isso, há vários cenários desenvolvidos especificamente para os cliques dos visitantes. Se por um lado esse expediente torna a mostra mais interativa, por outro ela provoca alguns atrasos no fluxo interno das pessoas pelos ambientes. Nos dias mais calmos tudo bem, mas nos dias mais agitados temos um problema sério... Por falar nisso, quem se assustou com as filas intermináveis da mostra nos dois primeiros meses em cartaz (julho e agosto), a boa notícia é que agora está muito mais tranquilo para conferi-la. Durante a semana quase não há visitantes em “Olá, Maurício!” e aos finais de semana o volume de pessoas é aceitável (para quem está acostumado com a dinâmica da cidade de São Paulo). Esse é justamente o motivo para eu não ter ido antes à exposição. Admito que fiquei aterrorizado com o tamanho da multidão que rumou ao Centro Cultural Fiesp nas primeiras semanas de “Olá, Maurício!”. Naquele momento, posso dizer que era quase impossível caminhar pelos corredores da mostra. Agora, não: tudo está sossegado e a experiência de visitação voltou a ser extremamente agradável. A exposição “Olá, Maurício!” permanecerá em cartaz até o dia 15 de dezembro no Espaço de Exposições do Centro Cultural Fiesp. A entrada é franca, a classificação é livre e os textos descritivos das obras são bilíngues (versão em português e em inglês). Reserve ao menos uma hora para realizar o passeio com a atenção que ele merece. A visitação é possível das terças-feiras aos sábados das 10h às 22h e aos domingos das 10h às 20h. O Centro Cultural Fiesp fica localizado na Avenida Paulista, 1313. “Olá, Maurício!” é apresentado no subsolo do prédio, em frente ao Teatro Fiesp. Este é o tipo de programa imperdível para quem mora em São Paulo ou para quem está de visita à capital paulista. O mais legal é que este passeio é interessante para todas as idades. No dia em que fui a “Olá, Maurício!”, o público era bem eclético. Havia crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Todos pareciam encantados com a experiência de mergulhar nos bastidores da Turma da Mônica. A sensação que tive é de que as personagens de Maurício de Sousa fazem parte da vida de quase todos os brasileiros. Assim, a visitação à exposição torna-se um passeio familiar (as personagens da Turma da Mônica e as demais criações de Maurício são quase que integrantes informais das nossas famílias). Emocionante perceber isso. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. 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- Filmes: Rainha de Copas – O incrível thriller sueco-dinamarquês
As ficções literária, televisiva, teatral ou cinematográfica produzidas nos países nórdicos são marcadas na maioria das vezes por narrativas fortes, polêmicas e extremamente ácidas, além de muito originais. Quem gosta de histórias violentas, angustiantes e surpreendentes, na certa, é fã das produções artísticas do norte da Europa. De cabeça, recordo de alguns casos notáveis e recentes: a trilogia literária “Millennium”, de Stieg Larsson, o longa-metragem “Border” (Gräns: 2018), de Ali Abbasi, e a série televisiva “A Ponte” (The Bridge), de Hans Rosenfeldt e Camilla Ahlgren. Essas citações, contudo, são apenas uma gotinha em um oceano caudaloso. Se formos buscar um pouco mais para trás, muitas dessas características são encontradas nas peças de Henrik Ibsen. “Peer Gynt”, de 1867, talvez seja o exemplo mais conhecido. A vida calma no norte da Europa tem como contraste as suas narrativas sanguinolentas recheadas de crimes e de violência. Falo neste post do Bonas Histórias sobre a ficção nórdica porque assisti na sexta-feira retrasada, dia 6, à pré-estreia de “Rainha de Copas” (Dronningen: 2019). Este filme sueco-dinamarquês tem tudo para ser um dos destaques europeus desta temporada. Admito ter saído bastante impressionado (positivamente, é claro!) da sua sessão inaugural. Dirigido por May El-Toukhy, cineasta dinamarquesa de “No Final das Contas” (Lang Historie Kort: 2015), “Rainha de Copas” é um thriller audacioso e polêmico que entrou no circuito comercial brasileiro na última quinta-feira, dia 12. Além de mostrar cenas de sexo explícito entre uma mulher mais velha e um garoto menor de idade, o longa-metragem aborda temas sensíveis como traição conjugal, assédio sexual à menores de idade, delinquência juvenil e impacto da separação dos pais na vida dos filhos pequenos. Ou seja, temos aqui uma receita explosiva. Impossível acreditar que com esses ingredientes todos, o filme de El-Toukhy não desperte os mais variados sentimentos na plateia. Estrelado por Trine Dyrholm, Gustav Lindh e Magnus Krepper, “Rainha de Copas” foi exibido, em janeiro deste ano, no Sundance Film Festival e, no mês seguinte, no Festival Internacional de Cinema de Roterdã. A estreia nos cinemas dinamarqueses aconteceu no finalzinho de março. Nos três lugares de exibição, a crítica cinematográfica foi bastante elogiosa ao filme. “Rainha de Copas” rendeu o Prêmio Svend, o mais importante da sétima arte da Dinamarca, de Melhor Atriz para Trine Dyrholm. Realmente, sua interpretação é alguma coisa digna de uma estatueta do Oscar (que, convenhamos, dificilmente será concedido a uma atriz dinamarquesa em uma produção realizada fora dos Estados Unidos). Mesmo sabendo disso, repito em alto e bom tom: Dyrholm merecia a estatueta da Academia de Los Angeles por este trabalho! Ela está fenomenal. Há muito tempo não via uma atriz (ou mesmo um ator) dar um show de interpretação como este em um longa-metragem. Incrível! Em pouco mais de duas horas (são 127 minutos de duração), “Rainha de Copas” se passa integralmente na Suécia. Anne é uma advogada conceituada que trabalha defendendo crianças e adolescentes contra os abusos e a violência dos adultos. Workaholic, ela atua em vários casos simultaneamente. Os mais importantes no momento são de uma moça vítima de estupro e de uma menina que é espancada em casa pelo pai alcóolatra. Anne é tão dedicada à advocacia e aos seus clientes mirins que frequentemente leva jovens para sua casa para protegê-los ou simplesmente acolhê-los. No âmbito familiar, a vida da protagonista é aparentemente perfeita. Ela é casada há muitos anos com Peter, um empresário bem-sucedido e com um estilo de vida tranquilo. O casal tem duas filhas pequenas e gosta de reunir os amigos e os familiares em casa para divertidas reuniões. Com um ótimo padrão de vida e sem grandes problemas, Anne e Peter desfrutam do conforto e da calma na Suécia atual (ao melhor estilo família de comercial de margarina). A tranquilidade neste lar acaba quando Gustav, filho do primeiro casamento de Peter, vem morar com eles. Gustav é um adolescente arruaceiro que foi expulso de vários colégios na Dinamarca, onde morava com a mãe. Não querendo que o filho, com quem nunca teve muito contato, fosse enviado para um internato, Peter convenceu a ex-esposa a deixar o garoto vir morar com ele na Suécia. Anne também aceitou prontamente a proposta de ter o enteado morando sob o mesmo teto. A chegada de Gustav provoca alguns contratempos para a família, até aquele momento, feliz e estruturada. O jeito desbocado, egoísta e contestador do jovem leva seu pai e sua madrasta ao quase desespero. Contudo, o efeito colateral mais surpreendente da presença de Gustav na casa é outro. Anne, uma mulher que já passou dos quarenta anos e foi vítima de violência sexual na infância, parece sentir o peso da chegada da idade. Ela vê o adolescente no esplendor de sua vitalidade e parece invejá-lo por isso. Assim, durante uma viagem a trabalho de Peter, Anne aproveita para, de madrugada, entrar escondida no quarto do rapaz. Ela faz sexo oral em um incrédulo Gustav e, depois, se entrega para que o jovem a penetre. É o início do caso extraconjugal da conceituada advogada com seu enteado menor de idade. O relacionamento do rapaz com a madrasta se torna cada vez mais tórrido. Os dois aproveitam cada instante em que estão juntos e sem a presença dos demais familiares para transar. A única vez em que são pegos em flagrante é em uma festa em casa. A irmã de Anne viu os dois se beijando na boca. Mais tarde, a advogada tenta explicar o ocorrido para a irmã, mas esta não aceita as justificativas e se afasta enojada da rotina daquela família aparentemente desestruturada. Curiosamente, o início da relação sexual com a madrasta marca também uma mudança de postura de Gustav. O adolescente se torna mais calmo e integrado à família e à sociedade, algo que jamais acontecera. Ele se aproxima das irmãs menores e se torna um exemplo de filho e irmão. Satisfeito, Peter, que não suspeita da traição da esposa, credita a melhora do relacionamento com Gustav mais velho ao ambiente harmônico do seu lar. Entretanto, o caso extraconjugal entre Anne e Gustav não pode continuar. Ciente de que corre o risco de ser descoberta a qualquer momento, o que destruiria não apenas seu casamento como sua carreira, a advogada resolve colocar um ponto final naquela paixonite inconsequente. Se sentindo desprezado, Gustav não reage ao término da relação com a serenidade que sua madrasta imaginava. Assim, iniciam-se os mais turbulentos dias na casa de Anne e Peter. “Rainhas de Copas” pode ser visto como um “Madame Bovary” contemporâneo. Anne seria a Emma do século XXI (mais velha e respaldada com uma imagem pública irretocável). Ao invés de se relacionar com vários homens em busca de alguma emoção para a vida vazia (como a personagem francesa de Gustave Flaubert), a protagonista do filme de May El-Toukhy se envolve com o filho adolescente do marido por outros motivos. Ela busca um prazer diferente ao encontrado na rotina agitada da cidade grande. Além disso, Anne anseia por uma sensação de rejuvenescimento e de vitalidade, cada vez mais raros para alguém que vê a velhice bater à porta. É muito interessante notar como a traição foi construída nesta narrativa. Tentar entender (por mais chocante que seja o comportamento da protagonista do longa-metragem) suas atitudes é mergulhar em um caldeirão de múltiplas interpretações psicológicas sobre a personalidade de Anne. Se disse a pouco que “Rainhas de Copas” pode ser visto como um “Madame Bovary” contemporâneo, preciso acrescentar um detalhezinho: o filme também é um “Madame Bovary” pornográfico. Tão surpreendente quanto o comportamento da personagem principal é a câmera ousada desta produção. O olhar da cineasta dinamarquesa não tem qualquer pudor. Acompanhamos sem cerimônias o nudismo das personagens e o sexo entre elas (tanto de Anne com seu marido quanto dela com Gustav). As cenas são bem quentes (sexo oral, anal, vaginal) e podem incomodar um pouco quem é mais conservador. Notei, durante a sessão da semana retrasada, algum desconforto por parte do público em relação aos momentos mais tórridos mostrados na telona. A atuação dos atores principais é primorosa. Trine Dyrholm, Gustav Lindh e Magnus Krepper estão impecáveis em “Rainha de Copas”. Porém, Trine Dyrholm é quem rouba a cena em todos os momentos. Sua transmutação durante o longa-metragem (de mulher correta e ilibada no início, de amante inconsequente do enteado no meio e de mentirosa ardilosa no fim) é chocante. É fantástico ver uma atriz no auge de sua forma artística. Ela trabalha tão bem mesmo em um papel tão difícil como o de Anne. Isso só prova o nível de excelência desta atriz. Não será surpresa para mim se Dyrholm conquistar mais alguns prêmios internacionais ao longo desta temporada de festivais cinematográficos. Outra questão que gostei em “Rainha de Copas” foi da sua construção narrativa. A história do filme consegue ser surpreendente, apesar de abordar temas corriqueiros – a traição conjugal e o assédio sexual. Sua inovação está justamente em colocar uma mulher no papel de assediadora (normalmente são os homens que adquirem essa posição nas tramas). Lembremos que recentemente comentei aqui no Bonas Histórias o filme israelense “Não Mexa com Ela” (Isha Ovedet: 2018), que trata exatamente de uma mulher assediada no trabalho pelo seu patrão. O espectador de “Rainha de Copas” até sabe que o caso de Anne com Gustav não terminará bem. E que uma hora o marido dela irá descobrir a pulada de cerca da esposa. Para completar, ficamos imaginando: como ficará a carreira da advogada que trabalha exatamente protegendo crianças e adolescente vítimas da violência de adultos e de familiares? Mesmo prevendo alguns desenlaces, o roteiro do longa-metragem segue para caminhos inesperados. A meia hora final da produção é incrível para quem gosta de um bom thriller. O clima de suspense e tensão adquire níveis estratosféricos. A plateia ficará com o coração na mão na disputa desleal entre Anne e Gustav. Para surpresa geral (aí vai um pequeno spoiler – cuidado!), a protagonista do filme se transforma em uma anti-heroína. No desfecho, ela se mostra uma mulher sem qualquer sentimento ou empatia pelo próximo. Paradoxalmente, Anne revela ter uma personalidade muito parecida ao dos criminosos que sempre combateu nos tribunais da vara da infância e adolescência. É magnífico visualizar essa transmutação da personagem ao longo de aproximadamente duas horas. Se “Rainha de Copas” não for o melhor filme que vi neste ano nos cinemas (posso ter me esquecido de alguma produção), na certa ele faz parte do grupo dos três melhores que assisti em 2019. O mais legal do longa-metragem de May El-Toukhy é o choque de sentimentos que a plateia tem pela história e pelas personagens. Se você gosta de fortes emoções, saiba que temos aqui um prato cheio. Veja o trailer de “Rainha de Copas”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Filmes: Yesterday – O roteiro criativo sobre os Beatles
Na semana passada, estreou no circuito nacional de cinemas “Yesterday” (2019), a comédia musical ancorada no repertório dos Beatles. Empolgado com a proposta do filme, fui ao Reserva Cultural na última segunda-feira à noite para conferi-lo. E saí da sessão encantado com o que assisti. Com uma trama divertida e extremamente original, com uma trilha sonora impecável (não era de se admirar, né?), com uma execução primorosa e com uma bela atuação de seus protagonistas, “Yesterday” tem a capacidade de maravilhar tanto os fãs da banda de Liverpool quanto aqueles que desejam apenas ver um bom longa-metragem (não acredito que possa haver neste mundo alguém que não goste das canções dos Beatles...). Dirigido por Danny Boyle, cineasta britânico de sucessos como “Quem Quer Ser Um Milionário” (Slumdog Millionaire: 2008), “Trainspotting – Sem Limites” (Trainspotting: 1996) e “127 Horas” (127 Hours: 2010), e roteirizado por Richard Curtis, neozelandês de “Questão de Tempo” (About Time: 2013) e “Simplesmente Amor” (Love Actually: 2003), “Yesterday” teve um orçamento de US$ 26 milhões. Sua bilheteria já na semana de estreia ficou em um valor próximo ao seu custo (na América do Norte e na Europa, o longa-metragem foi lançado na metade do mês passado). No elenco de “Yesterday”, há a mistura de nomes famosos e de atores desconhecidos do grande público: Himesh Patel, até então mais dedicado aos trabalhos na televisão inglesa, Lily James, de “Cinderela” (Cinderella: 2015) e “Em Ritmo de Fuga” (Baby Driver: 2017), Kate McKinnon, Joel Fry, Ed Sheeran (sim, o cantor!), Lamorne Morris e Sanjeev Bhaskar. Curiosamente, o principal mérito desta produção de Danny Boyle e Richard Curtis não está em sua trilha sonora (indubitavelmente excelente), mas sim em seu roteiro inusitado e irretocável (aí mora a grata surpresa para quem se atém ao enredo cinematográfico!). A narrativa reserva muitas reviravoltas interessantes ao longo das quase duas horas de filme (são 117 minutos de duração). Se a princípio a criação de um mundo paralelo pode parecer algo repetitivo e muitíssimo batido no cinema internacional – lembremos que falamos sobre isso recentemente aqui no Bonas Histórias quando comentamos “Amor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2019) –, essa sensação se desfaz logo nos primeiros minutos de “Yesterday”. O que poderia ser uma falha se transforma no principal ponto positivo do filme. A criatividade deste roteiro é digna de muitos elogios (e de prêmios). Fazia muito tempo que não via uma ideia simples tão bem executada (Richard Curtis é realmente um dos melhores roteiristas da atualidade!). Em “Yesterday”, conhecemos Jack Malik (interpretado por Himesh Patel), um jovem cantor-compositor inglês sem muito talento. Morando em uma pequena cidade do interior, ele trabalha em um supermercado como repositor e sonha em se tornar um grande músico. Contudo, o máximo que consegue é se apresentar em bares para meia dúzia de amigos fiéis (e muito compreensivos). Apesar da falta de perspectivas, Jack é incentivado a persistir na carreira artística por sua amiga de infância, Ellie Appleton (Lily James). Os dois são melhores amigos e vivem grudados. Ellie é apaixonada há muitos anos por Jack, mas nunca rolou nada entre eles. Para ficar próxima do rapaz que gosta, ela atua como sua empresária (além de motorista – ele não dirige -, de fã número 1 e de conselheira artística). Quando, enfim, está para desistir da música, Jack sofre um acidente: ele é atropelado por um ônibus quando voltava de bicicleta do que seria seu último show (mais um fracasso de público e de crítica). Justamente nesse momento, o planeta sofre um blackout (algo inexplicável acontece!). Após se recuperar no hospital, Jack retorna para casa. Para agradar o amigo, Ellie lhe dá de presente um novo violão (o anterior tinha sido destruído pelo choque com o ônibus). Assim que é presenteado, ele toca “Yesterday”, a famosa canção dos Beatles. Para surpresa do rapaz, Ellie e seus amigos ficam encantados com a música, achando se tratar de uma nova composição de Jack. À princípio, o cantor acha que estão todos brincando com ele. Só mais tarde, ele descobre que nenhum habitante da Terra conhece a banda inglesa nem suas composições. Durante o blackout, os Beatles simplesmente desapareceram da memória coletiva (seus álbuns não existem mais e suas músicas sumiram dos registros da Internet). Surpreendentemente, não há qualquer evidência de sua existência. Aquela situação inusitada é a oportunidade que Jack Malik almejava para chegar ao estrelato. Utilizando-se apenas de sua memória (lembremos que todos os registros dos Beatles sumiram), o rapaz reconstitui as letras e as melodias do grupo de Liverpool como se fossem suas criações. Da noite para o dia, o mundo ganha um novo gênio da música pop. Em questões de dias (e, em alguns casos, de horas ou simplesmente minutos), Jack consegue bolar canções maravilhosas, surpreendendo a todos. Admirada com o talento repentino do amigo, Ellie acredita que as músicas de amor que Jack apresenta são inspiradas nela. Assim, a jovem renova as esperanças que ele possa se declarar para ela. O caminho do sucesso de Jack Malik, o maior talento musical de todos os tempos, está pautado. Entretanto, alguns fatos podem atrapalhá-lo na realização de seu antigo sonho: as particularidades nada dignificantes da indústria fonográfica; a ambição desmedida de sua nova empresária (Ellie Appleton não pôde acompanhá-lo nas viagens ao exterior, pois precisava dar aulas na escola primária da cidadezinha do interior); e, principalmente, a longa distância estabelecida entre os até então inseparáveis amigos (enquanto Jack foi morar em Los Angeles, Ellie permaneceu vivendo no interior da Inglaterra). Escrevendo (ou lendo) a sinopse deste filme, “Yesterday” pode parecer uma história banal ou mesmo pueril. Porém, o charme está em seus detalhes. A trama desta comédia musical reserva incontáveis surpresas. Estou me segurando aqui para não as revelar (não quero estragar a experiência de quem irá assistir ao filme). O mais interessante do roteiro é quando o espectador acha que a narrativa irá para um lado e ela vai para o outro completamente diferente. Impossível não gostar de uma história que nos tira do lugar comum. E o que falar, então, da trilha sonora de “Yesterday”, hein?! A opção pela escolha dos clássicos dos Beatles se mostrou acertada e profundamente impactante. Apesar de serem canções já amplamente conhecidas, sua apresentação em meio à trama valoriza ainda mais a bela história e deixa a plateia hipnotizada com as letras e as melodias. É impossível sair da sessão sem cantarolar as principais criações de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Gostei também de como as cenas musicais foram produzidas. Na maioria das vezes, Himesh Patel parece cantar de improviso, quase de supetão. Esse recurso confere mais verossimilhança à trama e reforça o estilo amador da personagem. Incrível! Confesso que morri de rir em várias cenas de “Yesterday”. Não só a história em si reserva lances engraçadíssimos. Há também divertidas intertextualidades musicais e históricas e presenças hilárias (tanto reais quanto fictícias). O humor do filme é na maioria das vezes do tipo inteligente, o que exige algum repertório (principalmente musical) da plateia. Se você é daquele tipo mais ogro que prefere a comédia pastelona e rasteira, essa produção pode não agradar muito. Outros pontos deste longa-metragem que precisam ser elogiados: a fotografia, o figurino, o ritmo narrativo e a atuação do elenco. Quanto à fotografia e ao figurino do filme, eles estão impecáveis. “Yesterday” brinca o tempo inteiro com a importância da imagem para o show business e, de certa forma, coloca a fotografia e o figurino como elementos relevantes da construção da trama. Incrível esse recurso! Também aprovei o ritmo do longa-metragem. Quando você nota, o filme já acabou (nunca duas horas passaram tão rapidamente!). Não há, portanto, nenhuma parte oscilante ou que deixa o conflito esmorecer. E o que falar, então, da atuação dos atores?! Eles estão impecáveis. Não apenas os protagonistas (Himesh Patel e Lily James têm uma química legal), mas os coadjuvantes também estão ótimos. Em muitos momentos, Kate McKinnon, Joel Fry, Lamorne Morris, Ed Sheeran e Sanjeev Bhaskar roubam as cenas com tiradas hilárias. Impossível não rir deles. O único ponto negativo de “Yesterday” é a sensação, em alguns momentos, de déjà vu. Jack Malik e sua família lembram muito o protagonista e os familiares da personagem principal de “Bohemian Rhapsody” (2018), grande sucesso do ano passado. A história romântica ancorada em uma realidade paralela também sofre desse mal. Recentemente, comentei aqui no Bonas Histórias “Amor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2019), produção francesa que traz um enredo parecido (conflito entre ter uma carreira bem-sucedida no mercado cultural ou ficar com a mulher que se ama). O que mais posso falar sobre “Yesterday”? Se você é fã dos Beatles, corra para a sala de cinema mais próxima e não perca a oportunidade de ouvir os clássicos de sua banda favorita. Se por outro lado você ainda não for um fã incondicional dos eternos garotos de Liverpool, mas curte um ótimo filme, vá também ver esta produção. Do aspecto cinematográfico, “Yesterday” é um filmão (leve, engraçado e comovente). Este longa-metragem de Danny Boyle e Richard Curtis é uma das melhores opções em cartaz atualmente no circuito nacional e merece ser apreciada pelos amantes da boa música e do bom cinema. Juro que saí encantado de sua sessão. Veja, a seguir, o trailer de “Yesterday”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Filmes: Era Uma Vez Em...Hollywood – A nova produção de Quentin Tarantino
Em cartaz nos cinemas brasileiros desde a semana retrasada, “Era Uma Vez Em...Hollywood” (Once Upon A Time In...Hollywood: 2019) é o mais novo filme de Quentin Tarantino. Trata-se, no caso, do nono longa-metragem do diretor norte-americano. Suas últimas criações foram “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight: 2015), “Django Livre” (Django Unchained: 2012) e “Bastardos Inglórios” (Inglourious Basterds: 2009). Ao lado de Woody Allen, Pedro Almodóvar, Guilherme Del Toro, Steven Spielberg e Tim Burton, Tarantino é um dos cineastas contemporâneos com um estilo bem definido. Suas produções são inconfundíveis por serem recheadas com referências pop (principalmente em relação à cultura japonesa, ao cinema de faroeste e às histórias em quadrinhos), terem narrativas pouco lineares, possuírem ótimas trilhas sonoras e apresentarem cenas de grande brutalidade (geralmente em um final catártico). De maneira geral, os títulos do diretor flertam com o cinema B e misturam ação, suspense e terror em enredos policiais com muitos tiros, explosões e sangue. Em suma, ou você gosta da pegada dos filmes de Tarantino ou não (não há meio termo aqui). Como sou fã deste cineasta há muitos anos, desde “Pulp Fiction: Tempo de Violência” (Pulp Fiction: 1994), na semana passada fui até o Espaço Itaú de Cinema da Augusta para conferir “Era Uma Vez Em...Hollywood”. Admito que gostei do que vi. Porém, para ser sincero (e um pouco crítico), achei “Os Oito Odiados”, “Django Livre” e “Bastardos Inglórios” (para ficarmos em uma comparação recente) melhores. Se estes três longas-metragens me pareceram excelentes, o novo é “apenas” muito bom. Por melhor que seja o filme recém-lançado, ainda sim temos uma queda (quedinha, no caso) de qualidade em relação aos trabalhos anteriores de Quentin Tarantino. Orçado em quase US$ 100 milhões, “Era Uma Vez Em...Hollywood” tem em seu elenco principal Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch e Margaret Qualley. A proposta do filme é servir de grande homenagem ao cinema antigo e ao Western, gênero favorito de Tarantino. As referências cinematográficas já começam pelo título. “Era Uma Vez Em...Hollywood” mistura o nome de dois clássicos de Sergio Leone: “Era uma Vez no Oeste” (Once Upon a Time in the West: 1968) e “Era Uma Vez na América” (Once Upon a Time in America: 1984). A intertextualidade avança com cenas de incontáveis produções do cinema norte-americano das décadas de 1950 e 1960. Quem é cinéfilo encontrará várias e várias referências no meio do filme (umas mais diretas e outras mais sutis). Em alguns casos, os atores atuais contracenam com atores antigos. Apesar de visualmente pobre a união de imagens antigas e novas, a ideia é genial (e hilária). A apresentação do cinema hollywoodiano no final da década de 1960 extrapola os acontecimentos por trás das câmeras. Tarantino constrói sua narrativa a partir de acontecimentos reais da indústria cinematográfica. Ele mistura, portanto, ficção com episódios verídicos (com a liberdade de recriar a realidade ao seu bel prazer). O mais relevante desses episódios reais é o casamento do jovem e já famoso cineasta Roman Polanski (ainda longe das polêmicas que mais tarde o fizeram fugir dos Estados Unidos) com a atriz Sharon Tate (uma beldade que estava começando a crescer na carreira de atriz). Grávida de oito meses, Sharon foi assassinada brutamente em sua casa por integrantes da seita hippie liderada por Charles Manson, em um dos casos criminais mais importantes da história norte-americana. É esse episódio trágico e marcante que Quentin Tarantino recria em seu novo filme. Contudo, os protagonistas de “Era Uma Vez Em...Hollywood” não são o casal famoso (e real) em franca ascensão na indústria cinematográfica. Os papéis principais cabem a dois profissionais (ambas personagens fictícias) que estão em um triste ocaso na carreira. Rick Dalton (interpretado por Leonardo DiCaprio) foi um conhecido astro de seriados de faroeste da década de 1950. Agora, em 1969, ele vive a amargura de ser chamado para trabalhos pontuais e pouco dignos para uma estrela de seu calibre. O ator decadente desconta suas frustrações e melancolias no consumo acentuado das bebidas. O alcoolismo acelera ainda mais sua queda. A fase pouco favorável de Rick Dalton na profissão afeta diretamente a carreira de seu amigo Cliff Booth (Brad Pitt). Booth é (era?) o dublê de Dalton nas séries de TV e nas produções cinematográficas. Com a diminuição de trabalhos do ator, o dublê ficou desempregado (subutilizado seria a palavra mais correta). Sem atuações na frente das câmeras há muito tempo, Cliff Booth passou a ser o assistente pessoal do amigo famoso. É ele quem age como motorista, mordomo, secretário particular e confidente de Rick Dalton. A esperança de Dalton em voltar ao estrelato reacende quando ele descobre que seu novo vizinho é o jovem e festejado cineasta Roman Polanski (Rafael Zawierucha). Na mansão ao lado, o polonês mora com sua linda esposa, Sharon Tate (Margot Robbie). Assim, Rick Dalton e Cliff Booth aguardam com ansiedade o dia em que poderão ser chamados para visitar o ilustre vizinho e, quem sabe, se tornarão amigos da família influente de Hollywood. Na certa, pensa a dupla, Polanski irá aproveitá-los em seus novos filmes. Como já dizia o velho ditado, a esperança é a última que morre... Como já havia acontecido em “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”, Quentin Tarantino opta, neste novo filme, por recriar a realidade conforme seu interesse e sua imaginação. Sua tentativa pode ser classificada como nobre: corrigir os acontecimentos verídicos e tristes do passado. Nem que para isso, ele precise canalizar toda a violência e a brutalidade dos seus protagonistas ficcionais contra os antigos criminosos de verdade. As cenas de caça aos nazistas em “Bastardos Inglórios” são célebres e podem ser usadas como exemplificação desse tipo de reconstituição. Em “Era Uma Vez Em...Hollywood”, os vilões são os membros da seita hippie de Charles Manson. Com duas horas e quarenta minutos de duração, o longa-metragem apresenta ótimas cenas e um ritmo narrativo interessante, além de uma trilha sonora impecável. A atuação excelente do elenco também ajuda o público a não perceber que ficou quase três horas diante da tela. Como é típico de Tarantino, o desfecho é do tipo catártico, com uma longa cena de brutalidade (o sangue das personagens parece jorrar para todos os lados). O que mais gostei deste filme foi a intertextualidade cinematográfica. “Era Uma Vez Em..Hollywood” transpira cinema o tempo inteiro. É muito legal ver os atores fictícios (lembremos que o protagonista é um ator de faroeste) interpretando diferentes papéis no meio do longa-metragem. Assim, esta produção adquire ares metalinguísticos. Acompanhamos os atores 100% do tempo (antes da gravação, durante as filmagens e no pós-gravação; e nos bastidores, na cidade cenográfica, nos camarins, no set de gravação e em casa). O drama de Rick Dalton e Cliff Booth é genuíno e extremamente comovente. Em conjunto com uma trama dramática, temos uma abordagem divertida e leve. Quentin Tarantino é mestre em cativar sua plateia com diálogos inteligentes, com clima de mistério e com sacadas inusitadas. Este não é dos filmes mais hilários do diretor, mas é possível achar graça em várias cenas (Rick Dalton e Cliff Booth são tão melancólicos que se tornam, no final das contas, personagens trágico-cômicas). O trabalho de todo o elenco merece rasgados elogios. Não apenas os atores principais (Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie) estão perfeitos em seus papéis como são acompanhados por um grupo fantástico de atores e atrizes coadjuvantes. Até a pequena Julia Butters, com seus oito anos de idade, dá um show de atuação. Admito que não consigo apontar um que tenha se saído melhor. O único ponto negativo de “Era Uma Vez Em...Hollywood” está em seu conflito narrativo pouco convincente. É perfeitamente salutar retratar um ator que já fora famoso vivendo o ocaso na sua carreira artística. Clássicos do cinema já usaram muito bem esse tema em seus enredos. De cabeça, recordo de “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Blvd: 1950), uma das obras-primas de Billy Wilder. Contudo, neste novo filme de Tarantino, Rick Dalton não é tão decadente assim... Ele é chamado para interpretar vilões na TV e no cinema e é convidado para estrelar alguns filmes de Spaghetti Western (versão italiana dos faroestes norte-americanos). Onde está o drama então?! Vale lembrar que Dalton mora em uma mansão em uma região exclusiva para os milionários de Hollywood. Às vezes, fica um pouco difícil embarcar no conflito desta personagem... Talvez essa falta de identificação da plateia com o desespero genuíno do protagonista prejudique um pouco a força da narrativa do longa-metragem. Os críticos do cinema de Quentin Tarantino poderão até falar: “Este filme é mais do mesmo!”. Talvez eles até estejam certos em suas reclamações. Assim, como os fãs do norte-americano não estão errados em elogiar: “Mais um longa-metragem com as marcas inconfundíveis do nosso diretor!”. O fato é que quem aprecia o estilo Tarantino e é cinéfilo de carteirinha irá adorar o mergulho do cineasta pelo universo da indústria cinematográfica da década de 1960. Já quem não gosta, terá mais motivos para manifestar sua discordância. Como já disse, gostei muito de “Era Uma Vez Em...Hollywood”. Se esta é a produção mais fraca do diretor nos últimos dez anos, por outro lado ela é muito melhor do que a maioria das opções em cartaz nas salas de cinema. Ver um Tarantino longe do seu esplendor ainda sim é uma ótima experiência para quem aprecia uma boa trama cinematográfica. Veja o trailer de “Era Uma Vez Em...Hollywood”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Filme #Cinemanorteamericano #Western #Faroeste #QuentinTarantino #Drama #Suspense #Thriller #Ação #LeonardoDiCaprio #BradPitt #MargotRobbie #EmileHirsch #MargaretQualley
- Filmes: Não Mexa Com Ela – Suspense israelense sobre o assédio no trabalho
Nesta quinta-feira, estreou nos cinemas brasileiros o filme israelense “Não Mexa Com Ela” (Isha Ovedet: 2018). Dirigido por Michal Aviad, cineasta especializada em documentários (este é o seu segundo trabalho ficcional), e estrelado por Liron Ben Shlush, Menashe Noy e Oshri Cohen, o longa-metragem aborda um assunto delicado, polêmico e, infelizmente, atualíssimo: o assédio sexual no ambiente de trabalho. Interessado em conferir esta produção, fui ao Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompeia neste final de semana para vê-la. Confesso que saí da sessão impressionado positivamente com este filme, apesar de ligeiramente decepcionado com o seu desfecho. Com grande tensão dramática e cenas que se aproximam muito dos títulos de terror, “Não Mexa Com Ela” é um thriller chocante (juro que não encontrei palavra melhor para defini-lo – desculpe-me pelo uso de uma expressão tão brega). Por mais que a violência e a brutalidade sejam esperadas, o público fica com o coração na boca o tempo inteiro temendo sempre o pior (sim, ele vem!). Este talvez seja o principal mérito deste filme. A plateia compra a angústia da protagonista e vivencia os horrores do assédio cena a cena como se fosse a própria vítima. Incrível esse recurso. Assim, temos a exposição deste problema social de maneira direta e contundente (sem a necessidade da cineasta ser panfletária ou mesmo didática na exposição das consequências deste tipo de crime). Apresentado pela primeira vez ao público internacional no Festival Internacional de Cinema de Toronto do ano passado, “Não Mexa Com Ela” foi indicado a prêmios de melhor filme em Israel (Festival de Cinema de Jerusalém), nos Estados Unidos (Festival Internacional de Cinema de Chicago e Festival de Cinema Judeu da Filadélfia) e na Europa (Festival de Cinema Judeu do Reino Unido e Festival Internacional de Cinema de Varsóvia). O longa-metragem de Aviad acabou preterido por “O Confeiteiro” (The Cakemaker: 2017), de Ofir Raul Graizer, como o representante de Israel no Oscar de 2019 – vencido por “Roma” (2018), produção mexicana do diretor Alfonso Cuarón. Com pouco mais de uma hora e meia de duração, “Não Mexa Com Ela” narra o drama de Orna (interpretada por Liron Ben Shlush), uma jovem mãe de três filhos que passa por dificuldades financeiras. O marido dela, Ofer (Oshri Cohen), montou um restaurante próprio há poucos meses e ainda não consegue ter lucro. Ela, por sua vez, está desempregada. Nesse cenário de grandes incertezas, o emprego que Orna consegue parece ter caído dos céus. Mesmo não tendo qualquer experiência no mercado imobiliário, ela se torna assistente de Benny (Menashe Noy), um bem-sucedido empresário do ramo da construção civil de Tel Aviv. No novo emprego, Orna rapidamente começa a se destacar. Trabalhadora, inteligente e extremamente criativa, ela encanta a todos com sua eficiência, seu profissionalismo e sua dedicação (a moça fica sempre até muito tarde no escritório). Clientes não param de chegar e ela consegue resolver os mais difíceis problemas burocráticos como se eles fossem simples. Esse desempenho dela não passa despercebido por Benny. Ele reconhece a excelência do trabalho da sua funcionária. Porém, ao mesmo tempo, ele parece cada vez mais atraído sexualmente pela jovem e atraente assistente. Assim, começam os assédios. Na primeira vez, é a tentativa de um beijo na boca. Na sequência, é o apagar das luzes quando só estão os dois no escritório à noite. Orna se desespera. Ela refuta todas as investidas indecorosas de Benny. Sempre que ele exagera nos seus avanços, no dia seguinte ela sempre ameaça pedir demissão. Aí, o chefe se faz de arrependido e dá um bom aumento de salário para ela ou a promove de cargo. Além disso, o empresário destaca o belo trabalho feito pela moça e as oportunidades que ela tem de crescimento em sua empresa. Com o restaurante do marido enfrentando sérias dificuldades financeiras, Orna não pode abrir mão de seu salário e vai ficando. À medida que permanece na empresa de Benny, mais e mais ele se comporta de forma irresponsável. A tensão só aumenta entre os dois. Cada atitude do empresário parece convergir para a tentativa dele em se apoderar do corpo da sua funcionária. O assédio sexual transforma a vida de Orna em um inferno. Ela se sente aprisionada naquela situação: não pode fugir do chefe libidinoso. Gostei de muitos elementos de “Não Mexa Com Ela”. Em primeiro lugar, a apresentação da história é rápida e direta. Em poucas cenas (são necessários poucos minutos), o roteiro desta produção contextualiza a trama para o público e já avança para o conflito principal. Em um piscar de olhos, o espectador se vê diante de Orna trabalhando como uma louca e, por outro lado, Benny se aproveitando disso para tentar algo mais íntimo com a funcionária. Esse ritmo acelerado é uma marca de todo o filme. Outra questão interessante é o tom aterrorizante que o filme adquire à medida que o assédio evolui. Uma simples subida de escada no prédio em construção, um almoço despretensioso de negócios ou uma jornada de trabalho esticada até tarde no escritório se transformam em uma agonia para a protagonista (e para a plateia) quando o vilão está por perto. “É agora que ele a atacará?”, pensamos todos na sessão. Aí ficamos com o coração em frangalhos. O suspense e a tensão dramática aumentam cada vez mais! O roteiro de “Não Mexa Com Ela” não caí nas armadilhas típicas deste tipo de história. As personagens principais, por exemplo, são do tipo esféricas, o que aumenta ainda mais a complexidade desta trama. Orna oscila muitas vezes entre ter uma personalidade forte e decidida e possuir uma conduta frágil e confusa. Benny pode ser um monstro em uma cena e um amor em outra (sendo, portanto, crível acreditar em suas mentiras). Até mesmo Ofer se comporta de maneira distinta ao longo do longa-metragem: pai e marido carinhoso e, de repente, um homem amargurado e desconfiado da traição da parceira. Essa composição de personagens torna a narrativa de “Não Mexa Com Ela” totalmente verossímil aos olhos da plateia, que embarca incondicionalmente em sua proposta. Até mesmo as consequências mais imediatas do assédio são expostas para a plateia do filme. Diante da pressão psicológica e do pânico vivido diariamente no ambiente de trabalho, a protagonista manifesta algumas doenças físico-emocionais relacionadas ao assédio (que são incompreendidas pelos amigos, pelos colegas e pelos familiares). Impossível esta história ter tons mais realistas do que esses. Também não é fácil criticar a postura de Orna. Será que teríamos abandonado o emprego que gostamos e que estamos nos dando bem ao primeiro sinal de assédio? Teria algo que ela pudesse fazer para impedir de uma vez por todas os avanços do chefe? Será que não acreditaríamos também nas palavras de arrependimento de Benny? É muito difícil precisar. No lugar dela, talvez nos comportássemos igualzinho à personagem principal de “Não Mexa Com Ela” ou de forma muito parecida. Não podemos nos esquecer que ela acabou presa a uma armadilha intrincada e de difícil escapatória. O filme de Michal Aviad é um tapa na cara daqueles que teimam em culpar a mulher por este tipo de crime (sim, há ainda quem as culpe pela violência sofrida). A plateia sabe e compartilha incondicionalmente o ponto de vista da protagonista. O mesmo não se pode dizer das personagens masculinas envolvidas nessa história. Benny acredita piamente na versão distorcida da realidade. Ele diz para sua funcionária mais de uma vez após assediá-la: “Olha o que você me fez fazer!”. E o que podemos falar, então, do marido dela quando ele descobre o que se passou com a esposa no escritório, hein? A atitude covarde dele é mais uma prova da concepção machista de culpar a vítima. Com isso em mente, repare no sorriso cínico e debochado de outro empresário do setor imobiliário, que conheceu a relação de Orna e Benny, quando a protagonista foi pedir emprego para ele. É assustador! O bom roteiro de “Não Mexa Com Ela” se encaixou como uma luva na atuação primorosa do trio de protagonistas: Liron Ben Shlush, Menashe Noy e Oshri Cohen. Eles conseguiram extrair todas as contradições, os medos, as frustrações e os dramas de suas personagens. Os atores são sutis quando precisam ser, mas também são intensos quando a situação exige. Ou seja, suas atuações são impecáveis e intensificam as características esféricas de suas personagens. O único ponto negativo deste filme é o seu final. Se por um lado ele foge do desfecho violento e vingativo de produções semelhantes, como “Doce Vingança” (I Spit on Your Grave: 2010), o que é claramente positivo (surpreende o público por se desprender desse clichê), por outro lado parece pouco o que a protagonista consegue. Vou tentar não dar o spoiler do longa-metragem, mas já adianto que será um pouco difícil... Juro que me questionei no encerramento da sessão se o término de “Não Mexa Com Ela” (o título em português transparece um destino mais cruel ao criminoso – em inglês e em hebraico o nome do longa-metragem é, em uma tradução direta, “A Mulher Trabalhadora”) não seria do tipo aberto. Nesse caso, eu que não teria entendido a dimensão da vingança da protagonista na cena derradeira. Porém, não é esse o caminho interpretativo. O final é fechado mesmo e o que entendemos em um primeiro momento é realmente aquilo que foi desejado pela cineasta e por seu roteiro. Aí, surge a frustração. Não merecia o assediador pagar pelas consequências da violência cometida?! Eu (assim como a maioria do público) responderia positivamente a tal questionamento. Entretanto, a escolha pelo caminho inverso é compreensível (mas não esperado) quando pensamos na verossimilhança da trama (na realidade, quantos e quantos culpados não saem livres deste tipo de crime, hein?). Apesar do final polêmico, “Não Mexa com Ela” é um filme excelente. Ele joga luz a um problema corriqueiro em todos os cantos do mundo. É com produções ficcionais como esta que podemos entender e discutir a violência sexual contra a mulher de maneira mais direta e intensa. Acredito que este longa-metragem tenha falado mais e melhor do assédio sexual no ambiente de trabalho do que se Michal Aviad tivesse resolvido filmar um documentário sobre esse tema. Muitas vezes, a ficção tem o poder de jogar a plateia contra a realidade assustadora do seu cotidiano (até mais do que o dos documentários). Veja, a seguir, o trailer de “Não Mexa Com Ela”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Filme #CinemaIsraelense #Drama #Suspense #Terror #MichalAviad #LironBenShlush #MenasheNoy #OshriCohen
- Filmes: Um Ladrão com Estilo - A despedida do cinema de Robert Redford
No finalzinho de julho, estreou nos cinemas brasileiros “Um Ladrão Com Estilo” (The Old Man & The Gun: 2018). Este filme não recebeu muita atenção das redes nacionais de exibição e, por isso, ficou restrito a algumas poucas salas nas principais capitais do nosso país (São Paulo e Rio de Janeiro, essencialmente). Por sorte consegui assisti-lo no final de semana passado. E o grande charme de “Um Ladrão Com Estilo” é a presença de Robert Redford. O veterano ator norte-americano, dos inesquecíveis “Butch Cassidy” (Butch Cassidy and the Sundance Kid: 1969), “Golpe de Mestre” (The Sting: 1973) e “Proposta Indecente” (Indecent Proposal: 1993), anunciou no ano passado (nos Estados Unidos, o longa-metragem foi lançado em setembro de 2018) que este seria seu último trabalho no cinema. Próximo de completar 83 anos, o ator encerra, assim, uma carreira riquíssima. Paradoxalmente, o maior prêmio cinematográfico de Redford foi o Oscar de 1981 como Melhor Diretor por “Gente como a Gente” (Ordinary People: 1980). Ele também é lembrado como o criador do Festival Sundance de Cinema, um dos principais prêmios do cenário independente. Dirigido por David Lowery, de “Sombras da Vida” (A Ghost Story: 2017), “Meu Amigo, o Dragão” (Pete's Dragon: 2016) e “Amor Fora da Lei” (Ain't Them Bodies Saints: 2013), “Um Ladrão Com Estilo” é baseado na história real de Forrest Tucker, um ladrão de banco carismático que permaneceu na ativa até o final de sua vida, quando já era idoso. O roteiro do longa-metragem é do próprio Lowery e foi escrito a partir de um artigo do The New Yorker de 2003. No texto da revista, David Grann, jornalista e escritor, narra as peripécias de Tucker para enganar a polícia ao longo das várias décadas. Encantado com o material, David Lowery adaptou esta história para o cinema. Para Robert Redford, que leu o roteiro anos depois, não havia filme melhor para colocar um ponto final em sua trajetória como ator. Para ele, uma comédia policial que retratava um protagonista idoso era misturar um pouco da sua cinebiografia com sua atual fase de vida. “Um Ladrão Com Estilo” possui um elenco estrelar. Além de Redford, o longa-metragem tem as presenças de Casey Affleck (presença corriqueira nas produções de Lowery), Danny Glover, Tika Sumpter, Tom Waits e Sissy Spacek. Um time tão talentoso e experiente como este (são vários vencedores do Oscar) acabou facilitando muito as coisas para o diretor. Em vários momentos, os atores e as atrizes têm um desempenho muitíssimo superior ao roteiro. Por este papel, Robert Redford foi indicado ao Globo de Ouro deste ano na categoria Melhor Ator em Comédia/Musical – vencido por Christian Bale pelo seu trabalho em “Vice” (2018). Orçado em US$ 12,5 milhões, “Um Ladrão Com Estilo” se passa no início dos anos de 1980. Forrest Tucker (interpretado por Robert Redford) é um ladrão de banco. Ele age ao lado de dois comparsas, Teddy Green (Danny Glover) e Waller (Tom Waits). Aproveitando-se do inexpressivo sistema de segurança bancário da época, o bando é responsável pelo desfalque em dezenas e dezenas de agências no interior dos Estados Unidos. O que torna os assaltantes tão populares entre os policiais e a mídia é a união de duas características inusitadas: os assaltantes são idosos (o trio tem entre 60 e 70 anos) e eles são muito elegantes (tanto na maneira de se vestir quanto no trato pessoal com os assaltados). Dessa maneira, os roubos acontecem geralmente na maior tranquilidade, sem que um tiro seja disparado e sem qualquer pânico nas agências. Intrigado com a postura peculiar dos criminosos, o detetive John Hunt (Casey Affleck) passa a investigar o caso. Enquanto precisa fugir da polícia, Forrest Tucker engata um romance com Jewel (Sissy Spacek), uma viúva honesta que administra sozinha uma fazenda. Os dois se conheceram por acaso quando Tucker fugia de mais uma perseguição policial. Curiosamente, Jewel não acredita quando Tucker afirma ser um assaltante de banco. A fazendeira acha que se trata de mais uma galhofa daquele senhor elegante e calmo. Porém, à medida que ficam mais próximos um do outro, cada um deles conhecerá mais afundo o comportamento do parceiro e tentará influenciar o outro. Será que Tucker se tornará um sujeito honesto ou será que Jewel será levada a agir como uma criminosa? Com aproximadamente uma hora e meia de duração, “Um Ladrão Com Estilo” é muito decepcionante. Juro que saí de sua sessão indignado com o quão limitado é essa produção. Sabe aquele filme que tem uma história incrível e possui ótimos atores, mas, mesmo assim, o resultado é fraquíssimo? Pois este é o melhor resumo deste novo longa-metragem de David Lowery. Agora entendi o motivo deste título ter ficado escondido em poucas salas de cinema em nosso país. Na certa, as redes de exibição quiseram poupar seus clientes. Para mim, o maior equívoco de “Um Ladrão Com Estilo” está em seu roteiro. A narrativa tem até ótimos ingredientes: romance sensível e bonito, trama policial deliciosa, cenas de ação com potencial de tirar o fôlego da plateia, personagens inusitados, dramas originais, cenas de humor leve e inteligente e algumas reviravoltas. Entretanto, a receita final da narrativa é pobre. E isso é o mais frustrante. Com tantos elementos interessantes, só mesmo um trabalho desastroso do roteirista e do diretor para estragar tudo. E Lowery conseguiu essa façanha. É difícil listar todos os problemas do roteiro. Para começo de conversa, “Um Ladrão Com Estilo” demora muito para engrenar. Só da metade para o final é que entendemos o conflito principal desta narrativa. Até lá, vemos cenas de pouca relevância e dissonantes com o espírito do filme. Para piorar, temos algumas personagens mal construídas. A pior delas é o detetive John Hunt. Figura inexpressiva, melancólica e contraditória, ele mais atrapalha o enredo do que ajuda (e isso não é culpa do pobre do Casey Affleck, em um dos piores papéis de sua carreira). Outra questão grave do enredo que precisa ser citada foi a escolha infeliz do que retratar no filme. A história de vida de Forrest Tucker foi pródiga de momentos inusitados e de grande aventura. Contudo, o que foi escolhido para aparecer na tela não foram os instantes mais emocionantes dela. Pelo contrário: vemos a etapa mais melancólica de sua trajetória como criminoso. Para tentar corrigir este erro, tentou-se listar de maneira sumarizada os momentos mais divertidos e emocionantes do protagonista. Ao invés desse recurso contribuir para o longa-metragem, ele só piorou. O espectador nota que era a história não contada que ele queria ver. O que foi sumarizado poderia ter se transformado em cenas e o que foi colocado como cenas poderia muito bem ter ficado sumarizado. Os erros não param por aí. Há sequências de grande inverossimilhança que jogam por terra qualquer respeito que o espectador poderia ter pela história assistida. Há desde tropeções simples (a personagem que nunca andou de cavalo se torna, de repente, um cavaleiro exímio) até graves (jamais um criminoso que foge avidamente da polícia iria se autoincriminar). São tantos os erros narrativos (vínculo de amizade improvável entre policial e ladrão e postura totalmente incoerente do investigador) que chega a dar raiva. Na certa, o roteirista/diretor acha que sua plateia é muito burra para não perceber essas inconsistências. Minha impressão é que David Lowery tentou construir um novo “Prenda-me Se For Capaz” (Catch Me if You Can: 2002). Para não escancarar a cópia, ele ambientou seu drama em personagens idosos. Até aí, a ideia parece genial. O problema é que Lowery não é Steven Spielberg. E suas boas intenções não passaram disso: boas intenções. Sinceramente, há muito tempo não assistia a uma história tão mal escrita como a de “Um Ladrão Com Estilo”. É verdade que este filme também tem alguns aspectos que precisam ser elogiados. As atuações de Redford, Glover, Waits e Spacek são excelentes (o que torna ainda mais revoltante o péssimo roteiro). A trilha sonora é muito boa. Há momentos em que a fotografia se destaca positivamente (mas, há instantes em que ela atrapalha). Há também ótimas sequências de ação. As filmagens dos assaltos nos bancos são impecáveis. Se você gosta de cinema antigo, repare na homenagem sutil feita pelo diretor à carreira de Redford. No meio da história, assistimos a cenas de antigas produções do ator. Incrível ver este tipo de intertextualidade cinematográfica sendo feita em um filme comercial. Mesmo com um ou outro ponto positivo, é inegável que a conta final de “Um Ladrão Com Estilo” fique no negativo. Se há algum consolo em ver este filme é saber que assistimos à despedida de um dos grandes atores norte-americanos da segunda metade do século XX. Se Redford nunca foi tecnicamente um exemplo de intérprete (principalmente no início da carreira), ele sempre mascarou suas limitações com muito carisma e uma forte presença na tela. É preciso respeitar alguém que ficou por quase 60 anos em atividade e estrelou clássicos do cinema hollywoodiano. Veja, a seguir, o trailer de “Um Ladrão com Estilo”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Gastronomia: Guarita Burger – O meu favorito da Consolação
“Rick, isso aqui está muito, mas muito bom!”. Essas foram as palavras da Ângela (beijo, Angelita!) no sábado à tarde. Estávamos em uma das mesas do Guarita Burger e minha amiga tinha acabado de dar a segunda mordida em seu Big Smash quando proferiu a frase que me surpreendeu. Com as mãos e a boca sujas, ela olhava encantada para o hambúrguer a sua frente. Aquelas palavras me pegaram de surpresa não porque eu não soubesse da qualidade dos pratos do Guarita, um dos meus locais favoritos da Consolação. O inusitado ali estava no fato de a Ângela ser uma das pessoas mais exigentes que conheço. Ela não solta elogios à toa simplesmente para ser agradável ou para agradar os outros (algo corriqueiro na maioria das pessoas). Não! Ela faz questão de raramente externar seu contentamento. Ou seja, o bichano que ela comia estava realmente muitíssimo delicioso para despertar seu entusiasmo daquela maneira. Frequento o Guarita Burger há aproximadamente um ano e nunca saí decepcionado de lá. Localizado em uma travessa da Rua Augusta, pertinho do Itaú Cinemas, e inaugurado em abril de 2018, ele é uma extensão enxuta, com uma pegada informal e com uma proposta mais popular do Guarita Bar de Pinheiros. Com um salão cumprido e bem apertado, mesas altas e compartilhadas, um ambiente rústico e um estilão descontraído, o Guarita Burger é especializado em smash burger (uma novidade que parece ter vindo para ficar). Para quem ainda não provou (ou não está ligando o nome ao sujeito), o smash burger é um sanduíche feito com discos de carnes normalmente de 100 gramas prensado na chapa quente. Além de carne e de pão, a composição do lanche fica à cargo da criatividade do chapeiro. Aí a criatividade não tem limites. Sinceramente, não conheço smash burgers mais gostosos na região da Consolação do que os do Guarita Burger. Os preços dos lanches por lá variam entre R$ 20,00 e R$ 36,00. O combo (com batata frita e bebida – refrigerante ou chá) custa de R$ 35,00 a R$ 50,00. Pela qualidade dos pratos (muito acima da média), trata-se de um bom custo benefício (casas similares na cidade de São Paulo cobram, acredite, de 50% a 100% mais). Curiosamente, essa era a proposta do estabelecimento quando foi inaugurado: vender hambúrgueres de grande qualidade por preços medianos. O resultado foi a aquisição, em pouco tempo, de grande número de clientes fiéis e de alguns prêmios gastronômicos. O meu pedido favorito no Guarita é o Big Smash (R$ 28,00 o lanche e R$ 46,00 o combo). Ele vem com dois hambúrgueres, cheddar, tomate, picles, alface romano, cebola e guarita maio (a maionese da casa). Outras opções muito boas são: Smashed Bacon BBQ (burguer com cheddar, bacon, cebola caramelizada, BBQ e maionese) e o Bacon Couve Smash (burguer, Guarita Cheese, bacon, beterraba, abacaxi, cebola caramelizada e Guarita Maio). Quem não gosta de carne de vaca, há no cardápio lanches com carnes de frango, de peixe e de porco (há inclusive hot dog, mas eu nunca os pedi). Para os vegetarianos, há pratos sem carne. Como acompanhamento, geralmente peço batatas fritas (que vem automaticamente com uma porção de maionese caseira) e o chá gelado de gengibre, limão e mel (os chás do Guarita Burger também são caseiros/naturais). Quem não gosta de chá pode trocar sua bebida por refrigerante. Sinceramente, acho mais gostosos os chás (os outros sabores são Capim Santo e Hibisco). A bebida é forte para quem está acostumado apenas aos chás artificiais/industriais, mas é muito boa. Apesar da fartura do combo, muitas vezes também peço um bolovo (R$ 9,00), quitute de ovo e carne que ganhou o prêmio de melhor petisco do Comer & Beber de 2016 da Revista Veja São Paulo. Realmente, ele é muito saboroso (apesar do nome um tanto esquisito). Não podemos fugir do óbvio: os grandes atrativos do Guarita são seus hambúrgueres. Eles são espetaculares! Sinceramente, acho um contrassenso ir a este estabelecimento e não prová-los. O legal é que lá tudo é de qualidade. Nota-se o cuidado com os pratos e com os ingredientes. A proposta desta casa é de ser uma hamburgueria gourmet, mas sem o pedantismo e a frescura típicos desse tipo de estabelecimento. Outro ponto a ser elogiado do Guarita Burger é o seu atendimento. Os garçons são muito simpáticos e não se cansam de explicar os pratos aos novos clientes. O gerente também está sempre por perto e é bastante solícito. Para quem gosta de acompanhar o trabalho da cozinha, não há nada melhor do que o vidro que separa a preparação dos pratos e as mesas. De qualquer lugar do salão se tem uma vista privilegiada para a cozinha. O principal problema do Guarita Burger é que é impossível comer seus hambúrgueres sem se sujar todo. Segundo um amigo meu, sanduba bom é aquele que faz sujeita na gente. Se ele não fizer, então não é tão bom assim... Concordo com esse ditado (ou seria um mantra?). Porém, as vezes é meio embaraçoso ficar com as mãos e a boca sujas. Se você não tiver vergonha (as delícias dali valem a pena), aconselho a mergulhar fundo nos hambúrgueres e ser feliz (sem pensar no que os outros vão falar de sua aparência). Outra questão que pode desagradar alguns é o acanhamento do salão. No horário do rush, torna-se quase impossível comer com conforto. Além do mais, como as mesas são coletivas, geralmente você acaba se sentando ao lado de desconhecidos (isso não acontece nos horários de menor movimento). Se por um lado tal questão é legal para quem deseja conhecer gente nova e cair na azaração (típico da região), por outro é um inconveniente para quem já está acompanhado ou quer fazer uma refeição sem conversar com desconhecidos. Gosto muito de casar a ida ao Guarita Burger com uma sessão de cinema no Itaú Cultural da Augusta. Às vezes, essa união é quase automática (como pedir um combo do lanche favorito). De qualquer forma, Guarita Burger é sempre uma boa opção. No geral, acabamos ouvindo: “Isso aqui está muito, mas muito bom!”. Quando não somos nós que pensamos nessas palavras, alguém perto da gente as diz. Aí, é só limpar a boca, as mãos e prosseguir nas mordidas. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #restaurante #hamburgueria #lanchonete #SmashBurger #Hambúrguer #SãoPaulo #Gastronomia
- Filmes: O Mistério do Gato Chinês – As surpresas do cinema oriental
Amanhã, estreiam nos cinemas brasileiros vários filmes de terror e de suspense. Os fãs destes gêneros podem comemorar a semana farta. Na certa, não faltarão motivos para eles correrem às salas mais próximas para o banquete. Do cardápio disponível, o melhor deles é o francês “O Professor Substituto” (L'Heure de la Sortie: 2018). O longa-metragem de Sébastien Marnier é imperdível! Prometo que vou tentar comentá-lo nas próximas semanas aqui no Bonas Histórias. Por outro lado, os mais fraquinhos da nova leva são o também francês “O Mistério de Henri Pick: (Le Mystère Henri Pick: 2019) e o norte-americano “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal” (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile: 2019). Infelizmente, Rémi Bezançon tem perdido a mão nos últimos trabalhos, enquanto Joe Berlinger derrapou desta vez em seus experimentalismos narrativos. Entretanto, hoje gostaria de comentar a estreia mais peculiar de todas: “O Mistério do Gato Chinês” (Kûkai: 2017). Esta produção sino-japonesa leva o espectador para uma nova dimensão estética e narrativa. O tom oriental de seu enredo e de sua filmagem o torna a opção mais irresistível para quem tem vontade de ver algo bem diferente. Você até pode sair decepcionado da sala de cinema (acredito que boa parcela do público não irá gostar deste filme), mas na certa não irá se esquecer desta experiência cinematográfica por um bom tempo. Roteirizado e dirigido por Chen Kaige, experiente cineasta chinês dos bons “Mate-me de Prazer” (Killing Me Softly: 2001), “A Promessa” (Wu Ji: 2004) e “O Sacrifício” (Zhao Shi Gu Er: 2010), “O Mistério do Gato Chinês” é uma trama de mistério e suspense com muitas doses de fantasia. Se Kaige mantém a pegada onírica de seus trabalhos anteriores, agora ele acrescenta um grande cuidado com os efeitos visuais. O resultado é controverso. Se por um lado somos bombardeados por uma overdose de imagens incríveis (a fotografia do longa-metragem é sensacional!), por outro lado recebemos centenas de peças de um quebra-cabeça desmontado (sua narrativa é confusa e de difícil construção na cabeça do espectador). Acredite em mim: chega um momento na sessão que você estará perdido perdidinho. É uma pena esse tropeço narrativo, pois esta produção de Chen Kaige tinha tudo para ser um dos grandes destaques da temporada de meio de ano. As filmagens de “O Mistério do Gato Chinês” ocorreram integralmente na China. Para tal, foi construído um gigantesco set de filmagens orçado em aproximadamente US$ 200 milhões. A construção da cidade cenográfica demorou cinco anos para ser finalizada. Hoje, esse espaço se transformou em um parque temático. O lançamento do filme aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Tóquio, em 2017. Na China, esta história chegou às salas do circuito comercial de cinema em dezembro daquele ano. A partir de 2018, o longa-metragem passou a ser exibido em festivais cinematográficos internacionais. “O Mistério do Gato Chinês” foi baseado em um romance de Baku Yumemakura, escritor japonês especializado em ficção científica e em tramas de aventura. Yumemakura é extremamente popular em seu país natal e se tornou um ícone da cultura nipônica. Com quase duas horas e meia de duração, “O Mistério do Gato Chinês” trata da investigação realizada pelo monge japonês Kûkai (interpretado por Shôta Sometani) e pelo escriba chinês Bai Letian (Huang Xuan) sobre a misteriosa morte do imperador da China. A trama ocorre durante a Dinastia Tang, período histórico entre 618 e 907 d.C. Kûkai havia sido convocado para realizar o exorcismo do imperador, que estava há mais de uma semana sofrendo sem conseguir fechar os olhos. Com essa missão, ele viajou do Japão para a China. Entretanto, ao entrar no palácio real, o monge japonês vê a autoridade chinesa morrer de maneira extraordinária. Este é o início de uma série de acontecimentos mágicos que envolvem a família imperial. Os trabalhos investigativos de Kûkai e Bai Letian, que acalenta o sonho de se tornar um poeta, irão levá-los a descobertas sobrenaturais. Um gato preto é o responsável pela maldição que culminou com a morte da mais alta autoridade chinesa e que pretende perpetuar a praga para seus descendentes. Na investigação da dupla, descobre-se que o gato amaldiçoado está ligado a fatos trágicos ocorridos há três gerações. A morte da mais bela concubina (Zhang Yuqi) de um antigo imperador é a responsável pelo comportamento sanguinário e vingativo do gato. Assim, o presente trágico está intimamente relacionado ao passado obscuro da China Imperial. Para descobrir as causas do mal atual, Kûkai e Bai Letian mergulharão no passado chinês. Esta viagem da dupla mistura literatura com regressão a vidas passadas. Além dos efeitos especiais incríveis deste filme (conquistou os prêmios desta categoria no Asian Film Awards e no Beijing College Student Film Festival – repare principalmente nas cenas de ação do gato e em suas expressões faciais), um dos pontos mais elogiáveis de “O Mistério do Gato Chinês” é o seu começo eletrizante. Em poucos minutos, o espectador conhece o enredo que descrevi no parágrafo acima e embarca curioso na aventura dos protagonistas da trama. O ritmo acelerado da ação marca a tônica do longa-metragem do início ao fim. A sensação é que sempre está acontecendo alguma coisa de importante. As personagens principais mergulharão na investigação que segue por caminhos inusitados e pouco ortodoxos. E por falar nos protagonistas, a dupla de investigadores é carismática e bem-humorada. É muito divertido acompanhar suas peripécias. Se Kûkai é o especialista em paranormalidade e em ilusionismo (peças importantes do quebra-cabeça narrativo), Bai Letian é o entendido em literatura e em história chinesa (a outra parte do quebra-cabeça reside justamente aí). O entrosamento entre o ator japonês e o ator chinês ajuda a levar o filme para um patamar superior. Outra questão bem legal é a mistura de realidade e ficção. Boa parte da narrativa é feita em cima de suposições e da projeção mental das personagens principais. Isso é totalmente pertinente, pois não é possível termos certeza dos acontecimentos históricos passados há décadas (lembremos que Kûkai e Bai Letian estão fazendo uma investigação histórica). Se por um lado isso torna a história mais plural e inesperada, por outro pode confundir os espectadores. Afinal, são tantas as reviravoltas e as sobreposições de hipóteses, que qualquer um poderá ficar maluquinho da Silva no meio da sessão. Não posso deixar de comentar o cenário e o figurino impecáveis desta produção. A construção da cidade cenográfica ambientada na China da Dinastia Tang está maravilhosa e contribuiu muito para o clima histórico de “O Mistério do Gato Chinês”. Os jogos de luzes, as tomadas de câmeras e os efeitos especiais também potencializaram a criação da fotografia do filme, um esplendor para os olhos do público. No meio da sessão, lembrei de quatro filmes clássicos: “Em Nome da Rosa” (Le Nom de la Rose: 1986), “Indiana Jones e a Última Cruzada” (Indiana Jones and the Last Crusade: 1989), “Ghost - Do Outro Lado da Vida” (Ghost: 1990) e “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Harry Potter and the Philosopher's Stone: 2001). Em uma analogia descompromissada, diria que “O Mistério do Gato Chinês” é uma mistura desses quatro filmes (com uma pegada oriental, obviamente!). Muito provavelmente, Chen Kaige não se inspirou neles diretamente na hora de produzir o roteiro e de fazer as filmagens. Porém, aos meus olhos, essa comparação não é tão amalucada assim. Com tantos aspectos positivos, o que deu, afinal, de errado nessa receita cinematográfica? O principal problema de “O Mistério do Gato Chinês” está na sua narrativa extremamente confusa. Se o ritmo acelerado, as surpresas da trama, a apresentação de várias hipóteses históricas e a mistura de realidade e ficção são interessantes por um momento, a overdose desses componentes torna o enredo do filme uma peça de difícil compreensão. Para completar a confusão, ainda temos várias personagens entrando e saindo da história e um vai-e-volta constante entre presente e passado. Juro que em determinada altura do longa-metragem, eu já não estava entendendo absolutamente nada. Nesse sentido, o final de “O Mistério do Gato Chinês” é positivo, pois é bem didático e leva o espectador a um desfecho lógico e palpável. Se não fosse isso, na certa teria deixado a sala de cinema frustrado (diria mais, revoltado). Talvez “O Mistério do Gato Chinês” seja um filme para assistirmos mais de uma vez. Essa foi minha vontade ao término da sessão. Juro que pensei: deveria voltar a vê-lo para poder entender toda a sua complexidade. Porém, não sei se isso acontecerá. Mas que deu vontade, isso deu. Esta produção de Chen Kaige será lançada amanhã, quinta-feira, no circuito comercial brasileiro. Desejo, desde já, coragem para quem for se aventurar neste longa-metragem. Assista, a seguir, ao trailer de “O Mistério do Gato Chinês”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CinemaChinês #CinemaJaponês #Cinema #Fantasia #Suspense #Terror #ChenKaige #BakuYumemakura #ShôtaSometani #HuangXuan #ZhangYuqi #CinemaAsiático
- Filmes: Amor à Segunda Vista – Novidade em cima de velhas fórmulas
Desde o inovador (e agora clássico) “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day: 1993), filme de Harold Ramis vencedor do BAFTA de Melhor Roteiro Original de 1994, falar em mundos paralelos e em prisão no espaço temporal virou um tema recorrente no cinema. São incontáveis as produções cinematográficas que descreveram episódios parecidos ou que se utilizaram desses conceitos para a criação de seus enredos. Ora esses longas-metragens foram bem-sucedidos, como em “Quero Ser John Malkovich” (Being John Malkovich: 1999) e “Do Que as Mulheres Gostam” (What Women Want: 2000), ora acabaram caindo na repetição, com em “Eu Queria Ter a Sua Vida” (The Change-Up: 2011) e “Linda de Morrer” (2015). A mais recente produção a seguir a velha fórmula deixada por “Feitiço do Tempo” foi “Amor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2018). Esta comédia romântica francesa estreou no circuito comercial brasileiro de cinema na última quinta-feira, dia 11. Como eu não tinha conseguido ver este filme no mês passado, quando foi exibido previamente no Festival Varilux de Cinema Francês, corri para o Espaço Itaú de Cinemas neste final de semana para conferir “Amor à Segunda Vista”. E não é que saí surpreendido de sua sessão! Roteirizado e dirigido por Hugo Gélin, jovem cineasta francês em sua terceira produção – são dele os bons “Uma Família de Dois” (Demain Tout Commence: 2016) e “Como Irmãos” (Comme des Frères: 2012) -, “Amor à Segunda Vista” traz em seu elenco François Civil, de “Assim na Terra como no Inferno” (As Above, So Below: 2014), e Joséphine Japy, de “Irrepreensível” (Irréprochable: 2015). Os ótimos Benjamin Lavernhe e Camille Lellouche e a experiente Edith Scob completam o time principal de atores desta produção. Sucesso de crítica e de público em seu país natal no último Verão europeu, o novo longa-metragem de Gélin conseguiu angariar boa bilheteria ao extrair novos elementos narrativos de uma fórmula cinematográfica já bastante desgastada. Ou seja, apesar de se utilizar de muitos clichês em seu roteiro, “Amor à Segunda Vista” entrega, no final, algo diferente ao espectador. Esse talvez seja o principal mérito de sua trama: um ponto de vista inusitado para um tema recorrente do cinema (labirinto temporal formado por planos paralelos) e para um problema corriqueiro da rotina moderna (vida pessoal versus vida profissional). Ambientado em Paris, “Amor à Segunda Vista” possui quase duas horas de duração e apresenta a paixão arrebatadora de Raphael Ramisse (interpretado por François Civil) e Olivia Marigny (Joséphine Japy). Os dois se conheceram na adolescência, quando estudavam juntos, e começaram a namorar. Ele tinha o sonho de ser romancista. Ela o de ser pianista profissional. O amor do casal foi evoluindo: eles noivaram e se casaram. A união deles se mostrou também muito produtiva. Raphael, com a ajuda de Olivia, se tornou um autor best-seller. Rico e admirado pelos leitores, o rapaz pouco a pouco foi se tornando egoísta, frio e vaidoso. Olivia, em virtude da ascensão meteórica do marido, teve que abrir mão da carreira de pianista. Assim, ela passou a dar aulas de piano para amadores e novatos. Viver ao lado do grande amor de sua vida compensava todas as escolhas frustradas da moça. Depois de dez anos de relacionamento, o casamento de Raphael e Olivia entrou em uma fase decadente. O abismo pelos caminhos opostos na carreira e, principalmente, a rotina matrimonial árdua levaram o casal a naturalmente se distanciar. Aquela paixão adolescente desapareceu, apesar de ambos ainda nutrirem um carinho especial pelo parceiro. Os desencontros diários foram se acumulando até desembocarem, certa noite, no inevitável: a primeira e grande briga do casal. Raphael e Olivia sabiam, em meio à discussão, que era o fim do casamento deles. A partir daquele ponto, cada um deveria seguir para um lado. Enquanto ela fica chorando em casa, ele sai para se embebedar em um bar. O drama deste filme começa no dia seguinte à briga do casal. Raphael, ainda sofrendo dos efeitos da ressaca da véspera, recebe a visita de seu antigo amigo de infância, Félix (Benjamin Lavernhe). Aí, o protagonista do filme nota que sua rotina está totalmente mudada. Algum lapso temporal o atirou para um mundo paralelo ao seu e o aprisionou em uma vida que não é originalmente a sua. Ele não é mais o escritor famoso de outrora nem vive ao lado de Olivia. Agora, Raphael é um simples professor de literatura em uma escola de ensino fundamental. Solteiro e com pouco dinheiro no bolso, suas diversões são disputar torneios de pingue-pongue ao lado de Félix e colecionar novas namoradas. Por outro lado, Olivia é, neste novo plano temporal, uma famosa pianista. Ela é riquíssima e bem-sucedida em sua profissão, sendo capa de revista e possuindo fãs clubes pelo país. Portanto, em um truque do destino, Raphael e Olivia são agora outras pessoas. Enquanto o rapaz se lembra de sua “antiga vida”, ela o vê como um total desconhecido. De certa forma, eles trocaram de papéis. Desesperado com a nova condição, Raphael fará tudo para conseguir sua “antiga vida” de volta. Para isso, acredita precisar conquistar pela segunda vez o amor de Olivia. O problema é que a moça, em sua “nova existência”, é noiva de outro e não olhará facilmente para um pé-rapado como Raphael. Um espectador minimamente experiente notará o quanto o enredo de “Amor à Segunda Vista” é pouquíssimo original. Não dá para fugir dessa evidência. Nem mesmo Hugo Gélin esconde a semelhança do seu novo filme com “Feitiço do Tempo”. O sobrenome do protagonista da produção francesa é justamente Ramisse, uma homenagem ao diretor do famoso longa-metragem norte-americano. Porém, o que salva o filme de Gélin é a maneira como sua história é narrada. Já no início, assistimos a uma trama muitíssimo acelerada. Em cerca de quinze minutos, os principais elementos estruturais do drama de Raphael são expostos. Ninguém pode reclamar, assim, de falta de objetividade deste roteiro nem da forma como a história é apresentada. Justamente aí começa a redenção desta produção. Pouco a pouco, “Amor à Segunda Vista” começa a se redimir com o público mais exigente. Se ficamos decepcionados com os clichês narrativos iniciais (é inevitável que isso aconteça!), também somos levados a crer que o final do filme repetirá as antigas fórmulas. Mas não! Isso não ocorre em seu desfecho. O longa-metragem apresenta aspectos originais e surpreendentes no seu desenlace, enriquecendo substancialmente a experiência do espectador. Essa transmutação de percepção é interessante e vale a pena ser analisada com atenção. Em uma analogia típica do boxe (esporte cada vez mais fora de moda), somos vencidos por pontos e não por knockout. Por falar no desfecho deste filme, ele é espetacular. Há muitas surpresas reservadas na metade final do longa-metragem. Quando você imagina que a trama cairá no óbvio, seus roteiristas jogam a história para outro lado, subvertendo totalmente a lógica das produções comerciais. Parte do encanto de “Amor à Segunda Vista” reside justamente desses elementos inusitados. Se ele recorre as velhas fórmulas, ao mesmo tempo deixa algo inovador e de sabor marcante para o seu público. O humor de “Amor à Segunda Vista” é leve e descontraído (alguns diriam que é tipicamente francês). Admito que não ri muito durante a sessão, mas teve gente na minha sala de cinema que morreu de rir do início ao final. Talvez eu não estivesse de espírito muito bom neste dia. As melhores cenas do ponto de vista cômico foram protagonizadas por Benjamin Lavernhe, intérprete de Félix, o melhor amigo do protagonista. Sua personagem é hilária. Nesses momentos, eu não aguentei e ri bastante. Félix faz o tipo do rapaz amalucado e carente que torna a “nova vida” de Raphael ainda mais complicada. Repare na atuação magistral de François Civil. Por este papel, o ator de 29 anos conquistou merecidamente o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de L'Alpe d'Huez deste ano. Quem gosta do trabalho de Civil poderá se esbaldar nos próximos meses. Os cinemas brasileiros estão recebendo uma overdose de produções protagonizadas por François Civil. Além de “Amor à Segunda Vista”, o francês está atualmente em cartaz com “Quem Você Pensa que Sou” (Celle que Vous Croyez: 2018), longa-metragem em que contracena com a maravilhosa Juliette Binoche. Até o final do ano devem estrear por aqui “(Des)encontros” (Deux Moi: 2018) e “Alerta Lobo” (Le Chant du Loup: 2018). Vá, portanto, se acostumando com o rosto deste rapaz. Achei que o trabalho de todo elenco de “Amor à Segunda Vista” esteve perfeito, dos atores principais aos coadjuvantes (até as crianças na escola onde Raphael leciona estão incríveis!). Joséphine Japy é uma ótima atriz (você sabe quando alguém é realmente bonita quando ela ri de maneira magistral!) e soube puxar para si a atenção nas cenas em que ela era a grande protagonista. O casal Raphael-Olivia também tem muita química (isso fica evidente desde o começo do filme). Não dá para não gostar deles nem é possível torcer contra sua união. Outro ponto positivo de “Amor à Segunda Vista” é a construção de suas cenas. Nota-se o cuidado estético em cada take por mais simples que possam parecer em um momento inicial. Nesse sentido, Hugo Gélin mostra-se um cineasta muito acima da média. Uma simples partida de pingue-pongue (Ok, tênis de mesa), um passeio de bicicleta pela praia ou um ensaio de piano, por exemplo, se transformam em cenas de grande riqueza visual e narrativa, recheadas de detalhes que encantam a plateia. Outra coisa que gostei, que apenas citei rapidamente, é o ritmo narrativo deste filme. Tudo acontece em uma velocidade adequada. Quando precisa ser rápido, “Amor à Segunda Vista” é bem ligeiro (chegando a ser vertiginoso). Quando a trama chega aos momentos decisivos (clímax), aí ele desacelera, prendendo a atenção do público (que não consegue piscar os olhos). Esses efeitos só são possíveis quando o roteiro é bem produzido e o cineasta à frente da produção tem total domínio do que está fazendo. Confesso que saí da sessão de cinema positivamente satisfeito com o que presenciei. O desfecho do filme gera reflexões na gente que são pertinentes. O que vale mais a pena: a felicidade profissional ou conjugal? Nem sempre a resposta para tal dúvida é simples e imediata. “Amor à Segunda Vista” deverá ficar em cartaz até o final de julho nos cinemas brasileiros. Acredito que vale a pena dar uma conferida em sua história. Assista, a seguir, ao trailer de “Amor à Segunda Vista”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CinemaFrancês #ComédiaRomântica #Drama #Cinema #Filme #HugoGélin #FrançoisCivil #JoséphineJapy #BenjaminLavernhe #CamilleLellouche #EdithScob
- Danças: Epifania - O novo espetáculo da Intuição Companhia de Ballet
Na quarta-feira da semana passada, fui ao Teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista, para assistir ao espetáculo de dança contemporânea “Epifania”. Esta é a mais recente produção da Intuição Companhia de Ballet, grupo de dança sediado no bairro do Tatuapé, em São Paulo. “Epifania” é uma criação de Vinícius Anselmo, diretor e coreógrafo da Intuição. A obra recebeu o apoio do programa municipal de fomento à dança da cidade de São Paulo em 2018. Por isso, estão programadas quatro apresentações gratuitas para o público paulistano na primeira quinzena deste mês (os espetáculos no Sérgio Cardoso foram pagos). As primeiras sessões gratuitas ocorrerão já neste final de semana no Teatro Flávio Império, na zona leste da cidade. As últimas serão realizadas na Galeria Olido, no centro de São Paulo, no próximo final de semana. Pelo que vi na apresentação da semana passada na Bela Vista, quem gosta de dança e, mais especificamente, de dança contemporânea não pode perder a nova obra de Vinícius Anselmo e da Intuição Companhia de Ballet. “Epifania” tem como proposta despertar/aguçar os sentidos da plateia a partir da reflexão sobre o conceito filosófico da epifania (termo classificado pela companhia como a súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo). O espetáculo traz, portanto, os estudos teóricos de Anselmo sobre esse tema. Entretanto, o que vemos na prática é a transmutação da epifania a partir da concepção da dança contemporânea. O resultado é impressionante! Com duração aproximada de 50 minutos, “Epifania” faz um mergulho angustiante e, ao mesmo tempo, sensível sobre temas extremamente atuais: o rompimento da noção de tempo e espaço; a dicotomia entre realidade e sonho; e a revelação das neuroses e dos traumas da sociedade contemporânea. Assim, assistimos a uma crítica sagaz à mecanicidade do mundo moderno, à falta de afeto das relações humanas nos grandes centros urbanos, ao extermínio da natureza, à artificialidade da rotina cosmopolita e à dificuldade de se encontrar o particular em um planeta superpovoado. Se por um lado esses assuntos não são muito originais no mundo artístico, por outro lado a forma de apresentá-los por Vinícius Anselmo em um espetáculo de dança é extremamente interessante e merece nossos elogios. Em cena, temos a pianista Roseli Chamma (em uma atuação simplesmente fenomenal!) e onze bailarinos - Bruno Lobo, Diana Rosa, Felipe Guedes (abraço, Felipinho!), Guilherme Maciel, Heloisa Magalhães, Jeison Lopes, Juliano Weber, Mariana Massoneto, Márcio Vitorino, Nathalia Massa e Thalita Falk. Ao som do piano de Chamma, os dançarinos se revezam no palco (na maioria das cenas, eles estão juntos). Em minha interpretação (tenho o hábito de procurar fios narrativos em todos os espetáculos de dança que assisto), cada um dos bailarinos representa uma personagem. Todas são vítimas de diferentes males da sociedade contemporânea. Temos a workaholic, a solitária, a agressiva, a ambiciosa, a carente, a sonhadora, a deprimida, a acumuladora/consumista, etc. Em comum, o vazio existencial e a aridez da vida nos grandes centros urbanos pontuam as rotinas dessas personagens. O espetáculo é dividido em quatro fases: terra, fogo, ar e água (exatamente os quatro elementos da natureza). Essa segmentação da apresentação é sutil (só é notada por um espectador atento e bastante analítico). Em cada seção, assistimos a uma coletânea de cenas em que as características da epifania encenada (ou seja, os dramas existenciais modernos) são vinculados ao elemento da natureza enfocado. Incrível! É difícil apontar o que há de melhor em “Epifania”. A trilha musical é ótima, as atuações dos bailarinos e da pianista estão maravilhosas, o cenário minimalista foi muito bem-feito e ajuda na composição da estética e do clima do espetáculo, as coreografias são de primeira (e foram muito bem executadas o tempo inteiro), a iluminação direciona o olhar da plateia para o local exato do palco onde a ação transcorre em maior intensidade (sempre está acontecendo muita coisa ao mesmo tempo) e o figurino está impecável. Juro que não achei nenhum ponto negativo para criticar. Para mim, esta obra de Vinicius Anselmo está perfeita. Quem estiver procurando um espetáculo de dança contemporânea de qualidade em São Paulo nos próximos finais de semana pode ir à “Epifania” que este é um programão excelente. As apresentações gratuitas da Intuição Companhia de Ballet acontecerão nos dias 6 (sexta-feira) às 20h e 7 de julho (sábado) às 19h no Teatro Flávio Império (Rua Professor Alves Pedroso, 600 – Cangaiba) e nos dias 13 (sexta-feira) às 20h e 14 de julho (sábado) às 19h na Galeria Olido – Sala Paissandu (Avenida São João, 473, Centro). Os ingressos serão distribuídos nos próprios locais uma hora antes de cada sessão. Além dessas, não há por enquanto novas apresentações programadas. Veja, a seguir, o vídeo com o teaser do espetáculo “Epifania”: Dança é a coluna do Bonas Histórias que apresenta as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















