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- Filmes: Um Homem Fiel – A segunda direção de Louis Garrel
Há quatro anos, Louis Garrel estreou na direção com o ótimo “Dois Amigos” (Les Deux Amis: 2015), comédia romântica ancorada em um inusitado triângulo amoroso. O próprio diretor, um dos principais atores franceses de sua geração, interpretou um dos protagonistas neste divertido longa-metragem. Agora, ele repete a dose (dirige e atua) em mais um excelente filme baseado em uma disputa afetiva. “Um Homem Fiel” (L'Homme Fidèle: 2018) entra no circuito comercial brasileiro na quinta-feira da semana que vem, dia 4. Contudo, ele já foi apresentado ao público nacional no início deste mês durante o Festival Varilux de Cinema Francês. Na França, esta produção chegou às salas de cinema em dezembro de 2017 e recebeu muitos elogios da crítica e do público. Com apenas duas direções em seu portfólio (como ator ele tem quase três décadas de experiência), Garrel se tornou o cineasta queridinho da França no momento. Com sensibilidade, bom humor e um olhar diferenciado para os dramas afetivos de jovens casais, seus longas-metragens unem narrativas originais e tragicômicas com uma estética cinematográfica bem particular. “Um Homem Fiel” recebeu os prêmios de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián no ano passado e de Melhor Filme do júri no Festival Internacional de Cinema da Transilvânia neste ano. O elenco de protagonistas de “Um Homem Fiel” é completado por Laetitia Casta e Lily-Rose Depp. As duas belas atrizes francesas passam quase o filme inteiro em cena ao lado de Louis Garrel. Com apenas uma hora e quinze minutos de duração (filme bom não precisa ser longo!), “Um Homem Fiel” se passa nos dias de hoje em Paris. Na cena de abertura, Marianne (interpretada por Laetitia Casta) dá uma notícia bombástica para seu namorado, Abel (Louis Garrel), com quem vive há três anos. Ela está grávida. Antes que o rapaz possa esboçar qualquer reação, ela completa friamente: “O filho não é seu. É de Paul. Vamos nos casar. Seria bom se você pudesse tirar as coisas da casa até o fim do mês”. É assim que o rapaz descobre a traição da namorada e o fim de seu relacionamento, além da perda do teto que habitava. Resignado, Abel abandona pacificamente o apartamento e segue sua vida sem nunca mais falar ou ver Marianne. O que ele sabe é que ela permaneceu casada com o tal Paul por muito tempo. Curiosamente, Paul e Abel foram grandes amigos nos tempos de faculdade. Nove anos mais tarde, Abel vai ao enterro de Paul. O marido de Marianne sofreu um infarto fulminante enquanto dormia e deixou esposa e filho. No enterro, Abel, um jornalista que não conseguiu ter grande destaque na carreira, reencontra Marianne, agora uma bem-sucedida porta-voz do governo federal. Vê-la novamente reacende a antiga paixão no coração do rapaz. Em poucos dias, os antigos namorados reatam o relacionamento e, desta forma, Abel volta a morar no apartamento que um dia foi seu. Sem o grande rival por perto (que está morto e enterrado), o jornalista acha que viverá agora sem problemas com a mulher que sempre amou... Contudo, a nova união dos protagonistas terá dois grandes obstáculos: a irmã mais nova de Paul e o filho pequeno de Marianne. Eve (Lily-Rose Depp), a irmã do falecido, sempre foi apaixonada por Abel. Ao revê-lo no enterro, ela decide declarar guerra contra Marianne e disputar o coração do seu antigo amor. Ao mesmo tempo, o estranho filho de Marianne e Paul, um garoto de nove anos, também declara guerra ao pobre Abel. O menino não quer que ninguém ocupe o lugar de seu pai na casa e, principalmente, na cama ao lado de sua mãe. Ele fará qualquer coisa para tirar o novo/velho namorado de Marianne de perto: inclusive acusará a mãe de ter assassinado o marido! Hilário. O amor do casal de protagonistas resistirá a este ambiente bélico e às intrigas dos inimigos? “Um Homem Fiel” é uma produção acima da média. Gostei muito deste filme. Ele é tão bom quanto “Dois Amigos”. Juro que não sei qual dos dois eu prefiro! Em seu novo longa-metragem, Louis Garrel apresenta de maneira bem-humorada e poética o drama de relacionamentos carcomidos pela rotina e pelo tempo. Mesmo sendo classificado como comédia romântica, “Um Homem Fiel” tem fortes doses de tragicomicidade. Ou seja, como diria uma amiga minha (beijo, Ângela!), o humor francês muitas vezes pode ser entendido como sarcasmo francês. Essa definição se aplica perfeitamente aqui. O humor do filme é do tipo negro e ácido, ideal para um público mais exigente e refinado. Se você estiver esperando uma comédia romântica tradicional, acho que você se frustrará... A construção das personagens de “Um Homem Fiel” é um capítulo à parte. Quase todas as figuras retratadas no longa-metragem são melancólicas, solitárias e complexadas. Além disso, o jeitão direto e seco de se comunicarem dá origem às cenas mais engraçadas do filme. O estopim de sinceridade de Marianne na cena inicial é apenas uma da coleção interminável que as personagens terão ao longo de “Um Homem Fiel”. Há de tudo: o menino dizendo que odeia o padrasto, a namorada pedindo para o namorado transar com outra, a mulher informando a conhecida que irá tentar roubar seu marido, o filho acusando a mãe de assassinato, o paciente perguntando para o médico se ele é gay... Em vários momentos da sessão (principalmente quando as personagens abandonam a cena e passam a conversar de forma confidente com o espectador), lembrei-me dos filmes de Woody Allen. Louis Garrel, na minha visão, é uma versão mais jovem e francesa do cineasta norte-americano. Não falo isso como crítica e sim como um grande elogio (adoro Allen e sua forma pitoresca de narrar os dramas humanos). Outro ponto elogiável deste filme é o seu roteiro. “Um Homem Fiel” foi muito bem escrito por Garrel (sim, além de ter atuado e dirigido, ele também foi o roteirista desta produção!). O triângulo amoroso de Abel, Marianne e Eve tem suspense, mistério, ação e algumas boas reviravoltas. Incrível como tudo isso ocorre em pouco mais de uma hora de duração. Parte do segredo da agilidade da trama está no número reduzido de personagens. Apenas oito personagens se revezam em cena o tempo inteiro. Por exemplo, Paul, apesar de importante para o enredo do filme, não aparece em nenhum momento na tela. Essa concentração dramática acelera o ritmo da narrativa e dá luz apenas aos elementos realmente importantes do triângulo amoroso. Por fim, é preciso elogiar o jeito como Louis Garrel deixou vários pontos da trama para serem completados pela interpretação do espectador. Temos aqui não apenas um final aberto (quem vai ficar com quem?) como uma introdução (quem seria o pai do filho de Marianne?) e um desenvolvimento (afinal, Marianne matou ou não matou o marido e ela se deitou ou não se deitou com o médico?) sem uma resposta pronta. Incrível isso, não?! Cabe ao público montar as peças do quebra-cabeça deixado incompleto pelo diretor. Longe de ser um descaso da parte dele, esse recurso mostra o nível de confiança no intelecto do espectador. “Um Homem Fiel” é uma produção de muito bom gosto: tanto narrativo quanto estético. Temos uma boa história que foi filmada de maneira a potencializar seu conteúdo ao máximo. A interpretação do elenco é de tirar o chapéu. Ninguém está mal em cena. Por isso, lembre-se: este filme estreará nos cinemas brasileiros na semana que vem. Quem gosta do melhor do cinema francês não poderá perder este novo trabalho do incrível Louis Garrel. Assista, a seguir, ao trailer de “Um Homem Fiel”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CinemaFrancês #ComédiaRomântica #Drama #LouisGarrel #LaetitiaCasta #LilyRoseDepp #Tragicomédia
- Livros: La Bodega - O último romance de Noah Gordon
O sexto e último livro do Desafio Literário de junho é "La Bodega" (Rocco), romance histórico ambientado na Espanha do século XIX. Li esta obra de Noah Gordon neste final de semana. “La Bodega” é a mais recente publicação do autor norte-americano que acumula ao longo da carreira nove títulos, sendo oito romances históricos e uma coletânea de contos infantis. Por Gordon já ter 92 anos e não estar mais trabalhando com tanto afinco, o que é natural pela idade avançada, é de se supor que este livro seja a sua despedida da literatura comercial. Ao menos é essa a impressão de boa parte do mercado editorial - ninguém espera um novo lançamento do escritor para os próximos anos. Publicado em 2007, “La Bodega” nasceu de uma ideia que Noah Gordon teve quando escrevia, no finalzinho da década de 1990, “O Último Judeu” (Rocco), seu sétimo romance. Após se apaixonar pela cultura espanhola e pela história do país ibérico, matérias-primas de “O Último Judeu”, o romancista se tornou também um aficionado por vinhos. Curiosamente, a paixão de Gordon pela bebida de Baco só ocorreu na meia-idade, quando ele precisou viajar rotineiramente para a Europa para realizar pesquisas in loco para suas obras ficcionais. Vale lembrar que a maioria de suas histórias se passam justamente no Velho Continente. Dessa maneira, pensou Noah Gordon de forma perspicaz, nada melhor do que construir uma trama histórica na Espanha tendo como contexto dramático o dia a dia de um vinhedo catalão. Para mostrar a formação das vinícolas espanholas, o escritor optou por ambientar sua história no século XIX, período em que as primeiras iniciativas de se produzir bons vinhos na região floresceram. Pronto: estava criado o enredo do romance. Como consequência, temos uma narrativa mais leve e com um charme todo especial, principalmente para quem adora os vinhos e o processo de produzi-los. Segundo as palavras de Gordon, “La Bodega” é “uma carta de amor a um país e a uma bebida”. Esta história começa em Languedoc, no Sul da França. É o ano de 1874. Josep Alvarez é um jovem catalão que trabalha há quatro anos no grande vinhedo de Leon Mendes, um produtor francês de vinhos de excelente qualidade. Por sua dedicação e por seu compromisso para com o trabalho, o espanhol se tornou muito próximo do proprietário do lugar. Por isso, Mendes recebe com tristeza a notícia que Josep precisará deixar a propriedade. O rapaz recebeu uma carta informando sobre a morte de seu pai, Marcel Alvarez, um pequeno proprietário de um vinhedo na Catalunha. Por isso, ele precisará retornar o mais rápido possível para a Espanha para ver como sua família está e como ficarão os negócios do clã. O problema inicial é que voltar é muito perigoso para o protagonista. Josep deixou a Península Ibérica justamente por problemas políticos, quando atuou em uma milícia na sangrenta Guerra Civil da segunda metade do século XIX (não confundir com a Guerra Civil espanhola do século XX!). Mesmo ciente que está colocando sua vida em risco, ele decide fazer o caminho de volta. Ao chegar à Santa Eulália, seu povoado natal, Josep descobre que o irmão mais velho, Donat, abandonou a pequena fazenda de uvas do pai e foi morar em Barcelona, onde trabalha como funcionário de uma fábrica têxtil. Por isso, a propriedade dos Alvarez está à venda. Não concordando com aquilo, Josep decide comprar o lugar do irmão. Depois de contrair uma alta dívida, ele passa a ser o único proprietário do vinhedo de Marcel. A ambição de Josep é transformar o vinhedo dos Alvarez em uma referência de qualidade na região. Se conseguir isso, ele deixará de produzir uvas para a confecção de vinagre e passará a produzir uvas para a transformação em vinhos de boa qualidade, uma raridade na Espanha daquela época. Todos riem de sua proposta. Porém, o rapaz tem dois trunfos para realizar seu sonho: ele aprendeu as técnicas no vinhedo francês de Leon Mendes de como produzir bons vinhos e possui uma obstinada vontade de trabalhar duro. Será suficiente essa receita para ele conseguir alcançar seus planos? Enquanto se dedica com afinco à sua terra, Josep Alvarez ainda terá que tomar cuidado para que seu passado como soldado da milícia carlista não atrapalhe suas pretensões empresariais. “La Bodega” é o livro mais curto de Noah Gordon que analisamos no Desafio Literário deste mês. A obra tem 328 páginas, que estão divididas em cinco partes e em 62 capítulos. Não se trata obviamente de um romance fininho, mas para quem se acostumou com os tijolões do autor, “O Físico” (Rocco) e “Xamã” (Rocco), por exemplo, tem quase 600 páginas cada um, trata-se de uma leitura mais rápida. Tanto é que li este livro em duas noites. Quando falo sobre a celeridade de leitura, não me refiro apenas a uma questão de número de páginas. “La Bodega” também é uma trama mais leve se comparada aos dramas das obras antecessoras, o que facilita muito a leitura e a experiência literária do leitor. Temos aqui uma história com menos violência, com menor quantidade de personagens, com menos viagens realizadas pelo protagonista (não podemos classificar o livro, por exemplo, como uma road story), um conflito mais simples (e, por que não, mais banal) e uma narrativa mais direta. Perto de “O Rabino” (Rocco), de “O Diamante de Jerusalém” (Rocco), dos títulos da “Trilogia da Família Cole” e de “O Último Judeu”, podemos dizer que “La Bodega” é um romance sucinto. Os fãs mais antigos de Noah Gordon podem até reclamar da menor intensidade dramática deste livro, mas é inegável que ele possua seus méritos. O que mais gostei em “La Bodega” é que, enfim, assistimos a uma narrativa de Gordon sem grandes problemas de foco narrativo. ALELUIA! ALELUIA!! ALELUIA!!! O narrador em terceira pessoa fica o tempo inteiro grudado ao protagonista, Josep Alvarez, não o abandonando em nenhum momento. Apesar de ser algo simples, que não requer grandes habilidades literárias por parte do autor ficcional, esse recurso tinha sido, até então, ignorado em todos os romances de Noah Gordon, acarretando graves problemas para suas narrativas. Ainda bem que o escritor norte-americano mostrou, em sua última publicação, que sabe escrever tramas seguindo a lógica do foco narrativo, algo que, sinceramente, estava duvidando. Outro aspecto extremamente positivo de “La Bodega”, que por sua vez não é uma grande novidade quando olhamos para o trabalho de Noah Gordon de maneira geral, é a mistura bem azeitada entre realidade e ficção. A inserção de passagens históricas reais e de figuras verídicas extraídas das páginas dos livros da História espanhola dão um colorido especial à narrativa. Em muitos momentos, o leitor se pergunta: será que essa personagem é verídica e será que esse fato aconteceu de verdade? As dúvidas entre onde começam a ficção e onde terminam os relatos reais conferem um sabor todo especial ao romance. Incrível!!! Para realizar algo tão portentoso assim, não é preciso dizer que Noah Gordon realizou extensas e intensas pesquisas documentais e biográficas. Sua reconstrução histórica da Espanha do século XIX está calcada em um profundo trabalho investigativo. Apesar de não ficar explicitado esse aspecto no texto (mais um fato positivo!), o leitor mais atento consegue notar os cuidados do autor com os detalhes geográficos e políticos da sua trama. Quando entramos nos relatos do dia a dia do vinhedo e da produção dos vinhos, a fidedignidade da narrativa se torna ainda mais forte. A verossimilhança desta história é total. A sensação do leitor é de estar acompanhando presencialmente a rotina em uma verdadeira plantação de uvas do século retrasado. Diferentemente de todas as obras anteriores de Gordon, “La Bodega” não apresenta um conflito de natureza religiosa nem étnica. A questão central aqui é de ordem econômica e emocional. Josep Alvarez só quer produzir vinhos de qualidade na fazenda de sua família. Para isso, ele precisará superar as dificuldades financeiras, as desconfianças de todos e os pesadelos do seu passado como soldado opositor ao governo de Madrid. Se por um lado a simplicidade do conflito em “La Bodega” joga um pouco contra (se comparado às sagas rebuscadas dos livros anteriores do autor), por outro lado ela é mais delicada, sensível e humana, além de ser profundamente convincente. Na minha concepção, Noah Gordon escreveu “La Bodega” mais para aplacar suas vontades pessoais (uma história que o atraía) do que para conquistar novos leitores ou para satisfazer os antigos fãs (uma história que atraía os outros). Isso me parece evidente. O único elemento negativo de “La Bodega” é a linguagem utilizada pelas personagens. As pessoas do século XIX falam exatamente igual a como falamos no século XXI. Esse problema é potencializado quando descobrimos que elas pensam e agem também como os indivíduos de hoje em dia. Aí alguém pode se perguntar: é possível um autor contemporâneo reproduzir o discurso de época de suas personagens ficcionais? Há exemplos bem positivos nesse sentido. Um caso elogioso que me vem à mente agora é "Outlander - A Viajante do Tempo" (Saída de Emergência), romance da norte-americana Diana Gabaldon que deu origem a uma bem-sucedida série literária. Parte da experiência do leitor em relação à viagem temporal proposta por Gabaldon está na diferença de linguagem das personagens ao longo dos séculos. Confesso que gostei de “La Bodega”. Como uma leitura leve e descompromissada, o último romance histórico de Noah Gordon cumpre muito bem seu papel, ainda mais se lembrarmos que a obra é uma homenagem à Espanha e aos vinhos. Seu principal mérito é mostrar algo um pouco diferente dos títulos anteriores do autor. Só por isso, sua leitura já vale a pena. O seu charme está exatamente em sua simplicidade narrativa. Depois da coleção extensa de violência, das viagens intermináveis dos protagonistas e dos preconceitos étnico-religiosos sem fim dos romances anteriores de Gordon, acompanhar uma trama do norte-americano mais pé no chão e com uma pegada mais corriqueira foi algo prazeroso e tranquilo. Note que fiz tudo para não chamar esse romance de água com açúcar. Afinal, por mais que tente, Noah Gordon dificilmente conseguirá ser água com açúcar. Porém, se alguém um dia insistir em usar esse rótulo para alguma de suas obras, na certa “La Bodega” é quem ganhará essa marca. Por mais que tenha gostado deste romance, é verdade também que ele está abaixo da excelência dos trabalhos literários anteriores do autor. “O Rabino”, “O Físico”, “Xamã” e “O Último Judeu”, por exemplo, são publicações muito (e põe muito nisso!) melhores do que “La Bodega”. Esta supera em qualidade apenas “O Diamante de Jerusalém”, disparado o título mais fraco de Gordon. Porém, essa questão deve-se muito mais à alta qualidade dos trabalhos precedentes de Gordon do que a falta de relevância de “La Bodega”. Com o término das críticas individuais dos seis livros do autor norte-americano selecionados para este mês, chegou o momento de partirmos para a análise geral da literatura de Noah Gordon. Nela, vamos discutir prioritariamente o estilo literário do escritor, além de pontuarmos um pouco mais os aspectos de sua biografia, de sua carreira e de seu legado artístico. O post final do Desafio Literário de junho estará disponível, no Bonas Histórias, a partir de domingo, dia 30. Não perca a conclusão do nosso estudo literário sobre Noah Gordon! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Músicas: Sinal Fechado – 50 anos do sucesso de Paulinho da Viola
Quem nunca reclamou da falta de tempo ou da correria insana da vida moderna, hein?! De tão populares, essas inquietações se tornaram clichês das conversas de elevador ou desculpas favoritas para os encontros fortuitos de amigos nas ruas. Curiosamente, as pessoas teimam em pensar que esses males sejam assuntos contemporâneos. Que nada! Há cinquenta anos, Paulinho da Viola, um dos mais célebres sambistas brasileiros, utilizou-se da rotina apressada das grandes cidades para compor sua obra-prima: “Sinal Fechado”. A canção foi o primeiro sucesso da carreira de Paulinho, cantor e compositor carioca formado nos shows do Zicartola. A música conquistou o primeiro lugar no 5º Festival de Música Popular Brasileira, evento organizado e transmitido pela TV Record em 1969, e catapultou o nome do artista para o cenário nacional. É verdade que em sua quinta edição, o Festival de Música Popular Brasileira já não possuía a dimensão de outrora. Com um prêmio reduzido a um quarto do valor do ano anterior e com a proibição do uso das guitarras elétricas, o concurso recebeu poucas inscrições. Os principais músicos do país boicotaram veladamente o evento, que se tornou, assim, uma vitrine para novos talentos. Quem melhor aproveitou este Festival foram os sambistas. Eles emplacaram metade (três) das músicas finalistas. Quando Paulinho da Viola apresentou “Sinal Fechado”, ele tinha lançado apenas um álbum, “Paulinho da Viola”, em 1968. Apesar de boas composições próprias ("Coisas do Mundo, Minha Nêga" e "Sem Ela Eu Não Vou"), de algumas belas parcerias ("Samba do Amor") e de interpretações de canções de Cartola ("Amor Proibido" e "Vai, Amigo"), o disco não empolgou tanto o público. A virada na carreira do sambista viria justamente no ano seguinte com o festejado “Sinal Fechado”. A canção foi a porta de entrada de uma jornada profissional que prossegue em alto nível até os dias de hoje. Com uma letra melancólica e acordes dissonantes, “Sinal Fechado” mistura a banalidade da conversa cotidiana das grandes cidades com a sofisticação vanguardista da música contemporânea. Nota-se a influência do tropicalismo em muitos momentos. O resultado é uma melodia tensa e uma letra crítica à vida atual. A voz límpida e suave de Paulinho transforma esta música quase que em uma crônica ou em um conto sobre o dia a dia agitado das pessoas. “Sinal Fechado” retrata a conversa de dois amigos que não se viam há algum tempo. A dupla se encontra por acaso em um semáforo. O fechamento do sinal é um raro instante para eles pararem e conversarem. Assim, conseguem botar as novidades em dia. A música apresenta cada uma das frases do diálogo dos dois homens. Nesse bate-papo coloquial, eles externam suas neuras e seus dramas, típicos da vida moderna. Quando o sinal abre, eles partem cada um para seu lado. É o final da canção (e a volta da correria cotidiana). Veja, a seguir, a letra completa de “Sinal Fechado” e, logo na sequência, uma interpretação atual de Paulinho da Viola: Sinal Fechado (1969) – Paulinho da Viola Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem? Tudo bem, eu vou indo correndo Pegar meu lugar no futuro, e você? Tudo bem, eu vou indo em busca De um sono tranquilo, quem sabe ... Quanto tempo, pois é, quanto tempo... Me perdoe a pressa É a alma dos nossos negócios Oh! Não tem de quê Eu também só ando a cem Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí Pra semana, prometo talvez nos vejamos Quem sabe? Quanto tempo, pois é, quanto tempo... Tanta coisa que eu tinha a dizer Mas eu sumi na poeira das ruas Eu também tenho algo a dizer Mas me foge a lembrança Por favor, telefone, eu preciso Beber alguma coisa rapidamente Pra semana O sinal... Eu procuro você Vai abrir... Vai abrir... Vai abrir.... Eu prometo, eu não esqueço, não esqueço, não esqueço Por favor, não esqueça, não esqueça... Adeus... O primeiro aspecto que chama a atenção em “Sinal Fechado” é o quão esta música é diferente dos demais sambas de Paulinho da Viola. Essa constatação vale tanto para sua letra quanto para sua melodia. Contudo, a maior surpresa está ligada à sonoridade musical. Ao invés do batuque rápido, do tom alegre (até mesmo para as letras tristes) e da simplicidade de acordes, elementos típicos do samba-canção, o que temos aqui é um ritmo bastante lento, um clima angustiante e uma grande sofisticação melódica. Se não me dissessem que “Sinal Fechado” é um samba, eu não ousaria classificá-lo dessa maneira. Outra questão interessante é a letra inusitada extraída de uma cena do cotidiano. O compositor carioca acertou ao misturar de forma desconectada os diálogos dos homens parados no semáforo. A impressão é que Paulinho da Viola recriou em sua música a conversa como ela ocorreu (há interpolação de vozes e o ritmo vai se acelerando quando a luz verde está próxima de aparecer). Por outro lado, a música vai ganhando, à medida que se desenrola, cada vez mais ingredientes filosóficos. Ao final, assistimos a epopeia do Adeus: costume brasileiro de tornar a despedida um evento dramático e, na maioria das vezes, mentiroso (sabemos que o outro não entrará em contato e que também não telefonaremos). Indiscutivelmente, trata-se de uma das grandes criações da música nacional. “Sinal Fechado” foi lançado comercialmente em um compacto simples por Paulinho da Viola logo após o Festival de Música Popular Brasileira de 1969. Por isso, a música ficou de fora do segundo LP do sambista, “Foi Um Rio que Passou em Minha Vida”, de 1970. A canção só foi incluída, décadas mais tardes, em coletâneas de sucessos do autor e em faixa bônus na reedição histórica de “Foi Um Rio que Passou em Minha Vida”. Passados 50 anos de sua criação, “Sinal Fechado” é uma canção extremamente atual e simbólica. Ao longo dos anos, ela foi interpretada pelos maiores gênios da nossa música: Elis Regina, Chico Buarque, Fagner, Oswaldo Montenegro, Marisa Monte, entre outros. A minha versão favorita é um dueto de Paulinho da Viola com Lobão. Essa gravação é do final da década de 1980. Para mim, esta música foi feita para ser cantada em dupla. Na interpretação conjunta de Paulinho e Lobão, cada um dos músicos dá voz a uma das personagens da canção. Incrível! Outra regravação espetacular que não pode deixar de ser citada é a de Elis Regina, de 1978. Independentemente do intérprete e da versão escolhidos, ouvir “Sinal Fechado” é mergulhar na magia do melhor da música de Paulinho da Viola, um dos grandes nomes da cultura brasileira da segunda metade do século XX. Só não vai me dizer que você não teve tempo para degustar esta obra-prima ou que sua vida é tão corrida à ponto de impedir-lhe de conhecer em detalhes essa preciosidade, hein? Juro que não acredito! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Música #Samba #PaulinhodaViola #FestivaldeMúsicaPopularBrasileira #MúsicaBrasileira #MúsicaPopularBrasileira
- Livros: O Último Judeu - O romance de Noah Gordon sobre a Inquisição
Estamos na reta final do Desafio Literário de junho. Até aqui, foram realizadas as leituras críticas de quatro livros de Noah Gordon de diferentes décadas: "O Rabino" (Rocco), lançado nos anos 1960, "O Diamante de Jerusalém" (Rocco), na década de 1970, "O Físico" (Rocco), nos anos 1980, e "Xamã" (Rocco), na década de 1990. Hoje, vamos analisar o quinto trabalho ficcional do escritor norte-americano, o primeiro publicado no século XXI. “O Último Judeu” (Rocco) é um romance histórico ambientado na Espanha durante a virada do século XV para o XVI. Neste drama, um jovem judeu precisa encarar os horrores da Inquisição espanhola para continuar professando sua fé. Para isso, ele precisará realizar uma jornada arriscada e solitária pela Península Ibérica, em uma aventura em que a sobrevivência é o objetivo principal. Penúltimo livro adulto publicado por Noah Gordon, “O Último Judeu” chegou às livrarias em 2000, quando seu autor tinha 74 anos. Trata-se do sétimo romance do norte-americano. Esta obra tornou-se um best-seller quase que imediatamente após seu lançamento. Não à toa, ela figurou entre as dez mais vendidas daquele ano na Europa. Este título de Gordon também conquistou alguns prêmios literários no cenário internacional, como o Que Leer Prize, na Espanha, na categoria Melhor Livro do Ano de Autor Estrangeiro, e o Boccaccio Literary Prize, na Itália, como Melhor Romance Histórico daquela temporada. Nos Estados Unidos, “O Último Judeu” foi vice-campeão no Book of Literary Merit Award do Boston Authors Club. Ou seja, mais uma vez, o escritor norte-americano conseguia agradar tanto o público quanto a crítica literária. Com 382 páginas e dividida em sete parte e em 46 capítulos, a trama de “O Último Judeu” começa em 23 de agosto de 1489. Na cidade de Toledo, em Castela, vive a família Toledano. O patriarca, Helkias, é um renomado ourives judeu. Viúvo, ele cuida de três filhos homens: Meir, Yonah e Eleazar. As tragédias que a família precisará enfrentar começam com o assassinato de Meir, o primogênito. O adolescente de 15 anos é assaltado e violentado quando fazia a entrega de um relicário produzido pelo pai. A joia era uma encomenda do Mosteiro da Assunção, que queria uma peça luxuosa para guardar uma relíquia de Santa Ana, avó materna de Jesus Cristo. O crime não é solucionado, apesar das suspeitas recaírem sobre alguns membros da Igreja Católica da região e envolverem integrantes da nobreza local. Três anos mais tarde, os Toledano e todos os judeus da Espanha precisam encarar a intensificação do antissemitismo. A religião judaica é definitivamente proibida pelos reis espanhóis e seus praticantes precisam escolher: ou aceitam se cristianizar ou devem deixar o mais rápido possível o reino. Helkias Toledano prefere a segunda opção. Contudo, antes de viajar com Yonah e Eleazar para a Europa Central, o ourives precisa receber o pagamento de antigos trabalhos feitos. Só assim, terá grana para efetuar a longa viagem pelo continente e, principalmente, conseguirá estabelecer uma nova vida quando chegar ao destino. Do valor devido, a maior parte é do conde Fernán Vasca, um dos mais cruéis habitantes de Toledo. Sabendo da situação delicada do judeu, o nobre posterga o pagamento ao máximo. Na verdade, Vasca espera que Helkias se mude sem receber o que lhe é devido. De tanto esperar, Helkias Toledano perde o prazo de fuga e torna-se alvo fácil do ódio dos cristãos da cidade. Em uma noite, sua casa é invadida e ele é brutalmente assassinado. Por sorte, Yonah e Eleazar, então com quinze e sete anos, respectivamente, conseguem fugir. Os irmãos órfãos acabam separados um do outro e cada um segue por um caminho diferente. Diante de cenário tão arriscado, Yonah Toledano entende que precisa deixar Toledo sozinho e o mais rápido possível. Além disso, deve ocultar sua fé custe o que custar. Montado em um burrinho chamado ironicamente de Moisés, o rapaz inicia uma longa jornada pela Espanha. Nessa saga, ele mudará de tempo em tempo seu nome: Tomás Martín e Ramón Callicó serão seus principais disfarces. E para ganhar dinheiro, Yonah precisará trabalhar como peão em Ciudad Real, como pedreiro em Salamanca, como pastor de ovelhas em Granada, como marinheiro em Málaga, como aprendiz de armeiro em Gibraltar e como auxiliar médico em Saragoça. Yonah Toledano não aceita se cristianizar. Dessa maneira, ele se sente como o último judeu da Espanha (daí o título da obra de Gordon). Mesmo fugindo da Inquisição e ocultando sua verdadeira fé e sua real identidade, o protagonista mantém o sonho de encontrar o irmão mais novo. Para completar, o protagonista não esquece de se vingar dos assassinos do irmão mais velho e do pai. A narrativa se estende até 1509, quando Yonah já deixou há muito tempo de ser um garotinho indefeso. Homem feito, ele irá testar sua capacidade de se camuflar e de se transmutar em várias profissões por onde passa. “O Último Judeu” é um livro muitíssimo bom, principalmente para quem ainda não leu os demais trabalhos ficcionais de Noah Gordon. Sua narrativa é eletrizante, seu drama é comovente e sua reconstrução histórica é impecável. Contudo, para quem já leu alguns livros de Gordon, há uma forte sensação de déjà vu. Não é errado ver “O Último Judeu” como uma mistura entre “O Rabino” (médico judeu com conflitos de ordem religiosa), “O Diamante de Jerusalém” (aventura sobre relíquias bíblicas e mistério policial) e “O Físico” e “Xamã” (saga de um protagonista que precisa peregrinar ao longo de muitos anos por terras perigosas). Este é o primeiro romance de Noah Gordon ambientado na Espanha – “La Bodega” (Rocco), publicado sete anos mais tarde, também tem como cenário o país ibérico. Como é característica do estilo literário deste autor, essa aventura é uma típica road story. Yonah Toledano/Tomás Martín/Ramón Callicó viaja por todo o território espanhol por aproximadamente 20 anos. O detalhamento da jornada é tão preciso que Noah Gordon, logo no início do livro, apresenta o mapa da Península Ibérica na virada do século XV para o XVI com a trajetória realizada pela personagem. Confesso que consultei o mapa algumas vezes durante a leitura para entender os caminhos feitos pelo herói da trama. Mais uma vez, temos um livro de Gordon ancorado no conflito religioso a partir da perspectiva dos judeus - algo deixado de lado na “Trilogia da Família Cole”. Nesse sentido, o escritor acertou no alvo ao colocar como contexto da sua trama o auge da Inquisição espanhola, um dos períodos mais tristes da história para os judeus (e olha que esse povo teve uma overdose de períodos conturbados!). Como consequência, temos nesta trama todo o tipo de violência possível e imaginável. Há cenas realmente fortes, que exigem estômago forte do leitor. A ambientação histórica deste romance é incrível. Noah Gordon é um dos autores contemporâneos mais competentes em produzir aventuras históricas. Ele percorre os tempos bíblicos, o período medieval, a época moderna e os dias contemporâneos com enorme tranquilidade, como se esse recurso literário fosse algo simples. Na verdade, além do talento natural para a escrita, nota-se uma profunda pesquisa documental e biográfica para a realização de narrativas deste tipo. Algo que gostei muito em “O Último Judeu” foi a velocidade da sua narrativa. Esse é o romance mais veloz de Gordon que li até agora. Se antes, ele reservava páginas e páginas e capítulos e capítulos para contar o drama de seus protagonistas e, o que é pior, para descrever as histórias de figuras secundárias, aqui ele é bem mais enxuto. Diria até mais direto, deixando a trama mais precisa e gostosa para o leitor. Na certa, Noah Gordon aprimorou seu poder de síntese e passou a dar mais atenção para a etapa de edição (em que corte geralmente são bem-vindos). “O Último Judeu” é o tradicional romance de formação do herói. Assistimos à construção da personalidade do protagonista desde a sua infância até a vida adulta. Para tornar a trama mais saborosa, há a inserção de ótimos elementos de mistério (quem é o assassino e quem é o culpado pelo roubo?), de drama (conseguirá a personagem principal se vingar dos algozes de sua família?) e de superação (busca obstinada pelo irmão menor que desapareceu). Como uma história fidedigna, nem todos os desfechos serão positivos. O principal problema de “O Último Judeu”, como acontece sempre nas obras de Gordon, é o foco narrativo. Este romance é até pior nesse sentido. As duas primeiras partes do livro são aulas de tudo o que não se deve fazer em relação ao foco do narrador em uma obra ficcional. A história, narrada em terceira pessoa, começa acompanhando o médico Bernardo Espina. Logo em seguida, em um capítulo mais à frente, o narrador abandona o doutor e cola no prior Sebastian Alvarez. Não demora muito e essa prática se repete mais uma vez. Passamos, então, a acompanhar os passos de Helkias Toledano - Espina e Alvarez são totalmente escanteados pelo narrador. Aí o leitor pensa: achamos, enfim, o protagonista. Porém, com a morte de Helkias, passamos a acompanhar seu filho, Yonah. Não é preciso conhecer muito de foco narrativo para notar que o início deste romance é no mínimo confuso, para não dizer que ele é extremamente equivocado. Como já disse, se você não conhece muito da literatura de Noah Gordon, a experiência de leitura de “O Último Judeu” será mais prazerosa do que se você já tiver lido alguma das obras do escritor. Querendo ou não, as situações, as cenas, os conflitos e as personagens acabam se repetindo muito. O melhor exemplo disso está na parte final, quando Ramón Callicó (Yonah Toledano) se torna médico. O leitor mais experiente dirá: outra vez um médico! Assim não dá. Excluindo a sensação de déjà vu e os problemas de foco narrativo, “O Último Judeu” é um romance brilhante que mostra os efeitos nefastos dos conflitos religiosos na história da Europa. Para encerrarmos a parte de análises individuais do Desafio Literário deste mês, trarei na próxima quarta-feira, dia 26, um post sobre a última publicação de Gordon. "La Bodega" (Rocco) é o romance histórico ambientado na Espanha do século XIX. A obra foi lançada em 2007. Somente a partir desta leitura, poderemos encerrar o estudo do estilo literário de Noah Gordon, o principal objetivo do Bonas Histórias em junho. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoahGordon #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaJudaica #Romance #RomanceHistórico #Drama #DramaHistórico #Livros
- Livros: Xamã - A segunda parte da trilogia de Noah Gordon
Neste final de semana, li "Xamã" (Rocco), o segundo romance de Noah Gordon sobre a saga dos médicos da família Cole que possuem um dom mediúnico. O primeiro livro desta trilogia foi “O Físico” (Rocco), obra lançada em 1986 e analisada na semana passada no Bonas Histórias. A terceira e última parte desta série literária é “A Escolha da Dra. Cole” (Rocco), título publicado em 1995 e que, infelizmente, não comentaremos neste Desafio Literário. Afinal, precisamos conhecer as demais tramas do autor, né? A “Trilogia da Família Cole” é o maior sucesso da carreira de Gordon. A iniciativa de Noah Gordon de escrever a continuação de “O Físico” é justificada do ponto de vista comercial. Depois do êxito retumbante na Europa da narrativa sobre o médico inglês na Idade Média, o escritor norte-americano resolveu contextualizar essa continuação em seu país natal. Na certa, Gordon queria conquistar o apreço também de seus conterrâneos, que de alguma forma, desprezaram um pouco o romance inicial da série. E ele fez isso ambientando sua ficção em um dos períodos mais conturbados da história dos Estados Unidos – o da Guerra Civil. Assim, os descendentes de Robert Jeremy Cole imigram da Escócia para a América no século XIX e se tornam os protagonistas do novo romance histórico do autor. Lançado em 1992, “Xamã” é, curiosamente, o trabalho literário mais premiado de Noah Gordon, superando até mesmo “O Físico”, seu livro mais popular. Esse segundo romance da série conquistou prêmios literários na Itália, na Espanha, na Alemanha e, sim, nos Estados Unidos. Só por isso, a produção de “Xamã” já teria valido a pena. Porém, foi a partir desta publicação que Gordon passou a ser um nome relevante na literatura de seu país natal. Isso também foi potencializado pelas novas edições de “O Físico”, que, enfim, se tornaram bem-sucedidas comercialmente entre os leitores norte-americanos. O enredo de “Xamã” começa em abril de 1864, durante a Guerra de Secessão. O jovem médico Robert Jefferson Cole, apelidado de Xamã (daí o título da obra) e com 22 anos, volta para a casa em Holden´s Crossing, no Illinois. Ele foi chamado para participar do enterro do pai, o também médico Robert Judson Cole. Xamã é surdo desde a infância e compreende o que as pessoas falam através da leitura labial. Ao regressar para o antigo lar, ele atende ao pedido da mãe, Sarah, para cuidar dos aspectos burocráticos da herança paterna. Assim, o rapaz vai ao escritório da casa para mexer nos documentos da família. Ali, ele encontra as anotações pessoais e os diários de Robert Judson. E com o material em mãos, ele começa a lê-lo. Dessa forma, o jovem médico conhece a história paterna. Os manuscritos do médico falecido iniciam em março de 1839, exatamente quando ele desembarcou nos Estados Unidos vindo da Escócia. Robert J., como Robert Judson Cole era chamado, é descendente de Robert Jeremy Cole, o protagonista de “O Físico”. Jovem e talentoso médico de Edimburgo, Robert J. precisou deixar as pressas seu país natal por problemas políticos. Ou ele imigrava para a América ou corria o risco de ser deportado para a Oceania. Diante desse impasse, preferiu a primeira opção. Depois de desembarcar em Boston, ele atravessou os estados de Massachusetts, Connecticut, Pensilvânia, Ohio e Indiana, chegando até Illinois. No centro-oeste norte-americano, o escocês fixou residência em Holden´s Crossing, um pequeno povoado do condado de Rock Island. Além de atuar como médico, Robert J. comprou terras para criar ovelhas, uma tradição de sua família na Europa. Desde o início, o médico escocês fez amizade com Nicholas Holden, um dos desbravadores daquela região, e com índios da tribo sauk, que habitavam aquelas terras. Entre os índios, a relação mais forte de Robert J. foi com Makna-ikwa, chamada de Mulher Urso. Makna-ikwa era a jovem curandeira de seu povo e, por afinidades médicas, se tornou a grande amiga do britânico. Precisando de mão de obra confiável para trabalhar em sua criação de ovelhas, Robert J. convidou alguns integrantes da tribo da Mulher Urso para viver com ele. A curandeira também foi morar na fazenda, mas passou a atuar ao lado do doutor na prática da medicina. Não demorou muito para Robert J. se casar. Ele escolheu como esposa Sarah Bledsoe, uma viúva local. Como a mulher já tinha um filho do antigo casamento, Alexander, o médico adotou o menino. Robert J. e Sarah Cole tiveram um filho: Robert Jefferson. Por ter sido criado mais por Makna-ikwa do que pela mãe biológica, o garoto ganhou o apelido de Xamã. Xamã se tornou surdo ainda na infância, depois de contrair uma doença. O fato provocou grande consternação na família, ainda mais porque o garoto sempre nutriu o sonho de se tornar médico, como o pai. Contudo, Robert J. sempre descartou essa possibilidade, dizendo ao filho que ele não poderia ingressar na medicina por não conseguir escutar. Os Cole tinham como principais vizinhos em Holden´s Crossing os Geiger, uma família judia. Jason Maxwell e Lilian Geiger eram os melhores amigos de Robert Judson e Sarah Cole. As diferenças religiosas (Robert J. era ateu e Sarah era protestante) não impediram que os clãs se tornassem muito unidos, quase como uma só família. Naturalmente, os filhos dos Cole e dos Geiger se tornaram muito próximos. No caso de Xamã, o garoto se tornou muitíssimo amigo de Rachel, a filha mais velha de Jason e Lilian e três anos mais velha do que Robert Jefferson. Foi a menina que ajudou o amigo surdo a desenvolver a fala, mesmo sem escutar sua voz. Ao ler os diários do pai, Xamã pôde compreender muitas das particularidades e dos segredos de sua família e dos moradores do seu povoado natal. Grande parte dos dramas de Robert J. que não foram solucionados até então passaram, com sua morte, para o filho. Assim, Xamã não apenas herdou a profissão paterna como algumas intrigas perigosas do passado. Se o cenário já era bem complicado, ele se tornou insustentável com a eclosão da Guerra Civil Norte-Americana, que jogou estados sulistas contra os nortistas. É nessa situação difícil que Robert Jefferson Cole encara o luto e tenta resolver antigas pendências suas e de seus familiares. “Xamã” é um livro volumoso, com 488 páginas. Ele está dividido em 6 partes e em 74 capítulos. Precisei do final de semana inteiro para concluir sua leitura. Foram dois dias de atividades: iniciei no sábado de manhã e concluí somente no domingo à noite. Se “O Físico” é uma obra mais grandiosa e impactante, essa segunda parte da “Trilogia da Família Cole” apresenta uma narrativa mais bem amarrada e verossímil. O interessante é que o leitor não precisa conhecer o primeiro volume da série para ler e entender o segundo título. As histórias são independentes. Mesmo assim, acredito que a experiência de leitura é mais rica se você tiver lido o primeiro livro da trilogia (porém, repito: não é necessário qualquer conhecimento prévio!). Apesar de ter muitas semelhanças com “O Físico” (aventuras ao estilo road story, romances históricos de formação do herói, desafios dos protagonistas em se estabelecer na medicina, panoramas históricos da prática médica, contextos políticos da trama, personagens com nomes parecidos e com os mesmos dons, narrativas extremamente violentas, narrações em terceira pessoa, paixões atrapalhadas por preconceitos religiosos, problemas de foco narrativo...) , “Xamã” se diferencia do seu antecessor principalmente pelo cenário (Estados Unidos versus Europa/Oriente Médio), pela época retratada (século XIX versus século XI), pelo tipo de conflito (intolerância étnica versus intolerância religiosa) e pela quantidade de protagonistas (dois versus um). Mesmo com essas sutis diferenças, o leitor não escapa de uma sensação de déjà vu. Por tratar essencialmente de conflitos étnicos (europeus versus indígenas, brancos versus negros e norte-americanos versus estrangeiros), os conflitos religiosos, uma das principais marcas da literatura de Noah Gordon, acaba ficando em segundo plano em “Xamã” (mas ele não desaparece totalmente). Apesar de surgir levemente ao longo de todo o texto, as diferenças de crenças só serão um problema realmente a ser superado na parte final do romance, quando o relacionamento entre Robert Jefferson Cole e Rachel Geiger se intensificar (ele é cristão e ela judia). Essa mudança é bem-vinda na narrativa pois os Estados Unidos sempre foram uma nação, principalmente no século XIX, período em que a trama se desenrola, com muito mais problemas de ordem racial, étnica e xenofóbica do que religiosa (na verdade, a última é apenas uma consequência das anteriores). Outra solução magistral de Noah Gordon foi ter colocado dois personagens principais em “Xamã”: algo que deu muita agilidade e contundência ao romance. Robert Jefferson e Robert Judson Cole dividem o protagonismo desta trama. Eles se revezam no primeiro plano dramático, sem que isso configure qualquer problema de natureza narrativa. A principal razão para isso foi o recurso utilizado pelo autor: o filho lê os diários deixados pelo pai. Trata-se de um expediente aparentemente simples, mas que teve ótimo resultado. Mais uma vez, Noah Gordon impressiona seus leitores com a reconstituição histórica de sua narrativa. O panorama do século XIX foi minunciosamente refeito e seu quadro é simplesmente genial. Na certa, o autor teve um extenso trabalho de pesquisa documental e biográfica. A sensação é que os fatos retratados no livro realmente aconteceram de verdade (essa sensação é maior aqui do que em “O Físico”). A mistura de personagens reais e fictícias ajuda a criar essa impressão. Da perspectiva de recriação histórica, “Xamã” é uma obra-prima e merece nossos rasgados elogios! Destaque para as particularidades da cultura indígena (inclusive, os nativos do continente americano possuem um esporte que lembra muito o futebol americano), para as práticas médicas do século retrasado, os detalhes da Guerra Civil Norte-americana e os nuances da política da América do Norte nos anos de 1800. Incrível! Por falar em política, acredite se quiser, o século XIX foi um período de extrema polarização ideológica nos Estados Unidos, com crescimento do espírito conservador. O radicalismo de direita era até mais forte do que agora - Donald Trump seria uma figurinha light perto de alguns indivíduos daquela época. Essa questão pode ser vislumbrada na relação pouco saudável com os indígenas, com os negros, com os imigrantes europeus e até mesmo com as mulheres. Os conservadores queriam dizimar todos os adversários. A ascensão de um terceiro partido, o Partido Americano, no cenário nacional, sempre polarizado entre Democratas e Republicanos, mostrava que a extrema direita já atuava fortemente naquele país há 150 anos. É interessante notar isso, além de ser extremamente assustador. Gostei também que as passagens inverossímeis diminuíram sensivelmente em relação ao título inicial desta série literária. Note que quando digo diminuíram, isso não quer dizer que elas acabaram... Não à toa, esse foi o grande defeito de “O Físico”. Neste sentido, a única grande escorregada de Noah Gordon em “Xamã” (excetuando-se a questão do foco narrativo, um problema geral da literatura deste autor e não apenas deste título específico), foi a descrição dos diários de Robert Judson Cole em terceira pessoa. Onde já se viu os relatos pessoais de alguém não estarem na primeira pessoa, hein?! Gordon se mostra um autor, até aqui, preso às narrativas em terceira pessoa, mesmo quando suas histórias pedem relatos na primeira pessoa. Sobre os vários erros de foco narrativo, nem quero comentá-los mais. Quem estiver acompanhando minhas análises sobre os romances de Gordon notará que este problema se repetiu nos quatro livros analisados até agora no Desafio Literário deste mês: “O Rabino” (Rocco), “O Diamante de Jerusalém” (Rocco), “O Físico” e “Xamã”. Em “Xamã”, essa questão se torna mais grave pelo fato de termos dois protagonistas. Mesmo assim, o narrador insiste em se deslocar deles e grudar em figuras secundárias da trama, algo que não tem sentido lógico nenhum. Isso se torna mais grave quando analisamos os diários do pai de Xamã. Há coisas ali que Robert Judson Cole jamais poderia saber (simplesmente porque ele não estava em cena!). Juro que até agora não entendi o sentido do olhar dos narradores dos livros do norte-americano. De maneira geral, “Xamã” é um ótimo romance. Não seria surpresa encontrar leitores que preferem este livro ao primeiro da “Trilogia da Família Cole”. Entretanto, ainda fico com o primeiro título da série. Essa minha escolha é, confesso, mais sentimental do que racional. Afinal, por uma visão exclusivamente técnica, “Xamã” é uma narrativa superior a “O Físico”. Ainda nesta semana, retornarei ao Bonas Histórias para analisar mais um livro do Desafio Literário de junho. A próxima obra de Noah Gordon que estudaremos será "O Último Judeu" (Rocco), título publicado em 2000. Este é o penúltimo romance adulto lançado pelo autor norte-americano. O post sobre “O Último Judeu” estará disponível no blog no próximo sábado, dia 22. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Filmes: Casal Improvável - Uma boa comédia romântica
Na próxima quinta-feira, dia 20, estreia nos cinemas brasileiros “Casal Improvável” (Long Shot: 2019), a melhor comédia romântica produzida por Hollywood neste ano (ao menos até agora). Fui, na última quinta-feira, à sua pré-estreia com certa relutância. E, confesso, ter saído da sessão muito feliz com o que assisti. O principal mérito deste filme é falar de vários temas atuais e delicados das relações amorosas de uma maneira divertida, comovente e direta. Sua graça está em inverter alguns aspectos do seu gênero cinematográfico e da realidade, o que o torna uma grata surpresa. Ao mesmo tempo, “Casal Improvável” mantém outros elementos considerados imprescindíveis das comédias românticas. Dirigido por Jonathan Levine, do bom “Meu Namorado é um Zumbi” (Warm Bodies: 2013) e do ótimo “50%” (50/50: 2010), “Casal Improvável” é estrelado por Charlize Theron e Seth Rogen, figurinhas carimbadas neste tipo de produção. Ela fez, por exemplo, “Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola” (A Million Ways to Die in the West: 2014) e “Doce Novembro” (Sweet November: 2001) e ele participou de “Vizinhos” (Neighbors: 2014) e “Ligeiramente Grávidos” (Knocked Up: 2007). Rogen já havia trabalhado com Levine em “50%”. O roteiro do longa-metragem ficou à cargo dos competentes Dan Sterling, mais conhecido pelos seus trabalhos na televisão, e Liz Hannah, do ótimo “The Post - A Vida Secreta” (The Post: 2017). Orçado em US$ 40 milhões, “Casal Improvável” foi apresentado ao público pela primeira vez em fevereiro deste ano no Festival South by Southwest 2019, quando recebeu uma série de críticas positivas. Porém, sua estreia no circuito comercial foi adiada para este mês, o início da temporada de Verão no hemisfério norte - época de maior visitação nos cinemas. Nesta trama, Fred Flarsky (interpretado por Seth Rogen) é um jornalista investigativo de 41 anos extremamente crítico ao panorama político de seu país. Ele também é pouquíssimo alinhado ao pensamento capitalista tão em voga nos Estados Unidos. Gordinho, judeu, pobretão, solteiro, muito atrapalhado e com um estilo de vida em que bebidas e drogas são artigos de primeira necessidade, Fred fica indignado quando descobre que o jornal em que trabalha em Nova York foi vendido para um grande conglomerado de mídia. Por isso, pede demissão sem se importar com as contas que tem para pagar e com o futuro de sua carreira. Tão logo deixa o trabalho, o jornalista se arrepende de sua decisão intempestiva. Para alegrar um pouco o rapaz, Lance, amigo de Fred de longa data e um empresário de sucesso, o leva para uma festa badalada na cidade. Lá, Fred irá reencontrar Charlotte Field (Charlize Theron), sua antiga babá. Atualmente, Charlotte, com 44 anos, é uma das figuras políticas de maior destaque do país. Poderosa Secretária de Estado, ela foi escolhida para ser a próxima candidata do seu partido à Presidência da República. Assim, ela vive cercada de assessores e cada passo seu é calculado para agradar a opinião pública. Até seu affair com o primeiro-ministro canadense parece ser mais uma peça de Marketing. Como consequência, a rotina da moça é estressante e profundamente solitária. Ao reencontrar Fred na festa, Charlotte descobre que ele está sem emprego e que o jornalista possui um texto engraçado, crítico e bastante popular. Esses são justamente os pontos que os marqueteiros da Secretária de Estado pediram para ela explorar mais em seus discursos e em suas aparições públicas. Para os norte-americanos, Charlotte é muito séria e sisuda. Pensando nas futuras eleições, a candidata contrata o antigo amigo para que ele escreva seus discursos. Fred é realmente bom nisso. Porém, a postura pouco convencional do jornalista poderá ser um grande problema para Charlotte. Ele é o oposto dela. As coisas só pioram quando os dois começam a flertar. Apesar das inúmeras diferenças, começa a surgir um sentimento sincero e forte entre patroa e funcionário. Para escrever discursos alinhados à personalidade de Charlotte, Fred precisa conhecê-la cada vez mais. E essa proximidade intensa poderá levá-los a situações inimagináveis e, de certa maneira, embaraçosas. Poderá uma candidata à Presidência dos Estados Unidos bonita, inteligente, elegante, bem-sucedida e politizada namorar um zé-ruela gordinho, deselegante, inconveniente, fracassado e destemperado? Esse é o principal conflito do filme. Com ele, virão outros: o que é mais importante, o amor ou sonhos profissionais?; vale a pena jogar fora a possibilidade de ser Presidente do país por uma paixão arrebatadora?; até onde vai a ambição e o engajamento político de Charlotte?; e devemos abrir mão de causas particulares/pessoais em nome do bem-estar do coletivo? Com pouco mais de duas horas de duração, “Casal Improvável” é diversão certa. O longa-metragem de Jonathan Levine é extremamente engraçado e inteligente, além de trazer algumas cenas extraídas das mais eletrizantes produções policiais e de agentes secretos internacionais. Trata-se, obviamente, de uma ótima opção para quem gosta de comédias românticas e para quem procura títulos voltados para o entretenimento de massa. Afinal, há momentos que o que queremos mesmo é jogar as preocupações para longe e apreciar um longa-metragem divertido, simples e inspirador. O maior mérito de “Casal Improvável” é abordar um tema atual e, por que não, delicado: o relacionamento de uma mulher mais velha, rica e poderosa do que seu parceiro. Infelizmente, este é um assunto ainda longe de ser tranquilo e corriqueiro até mesmo nas sociedades mais cosmopolitas e modernas. Se fosse só por isso, o filme já seria um acerto. Contudo, o roteiro vai além e acrescenta mais elementos contemporâneos: conservadorismo da população, agravamento da crise ambiental planetária, politicagem entre governantes e empresários, choque entre ideologias políticas, preconceitos sociais de todas as formas, espionagem clandestina, produção de vídeos íntimos, escândalos/bullying no ambiente virtual, cultura workaholic, concentração das empresas de mídia nas mãos de poucos e poderosos empresários, as contradições da sociedade da aparência, as últimas posições profissionais que as mulheres estão quebrando barreiras e o amor e as relações amorosas nos dias de hoje. É ou não é uma produção com a cara deste início do século XXI, hein? Junto com essa overdose de debates mais sérios, “Casal Improvável” traz várias intertextualidades cinematográficas, televisivas e musicais, principalmente em relação à cultura dos anos 1990. Quem tiver na casa dos 40 anos (um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá...), na certa vai se lembrar de muitas passagens de sua infância e adolescência. Esses instantes de saudosismo mexem com as personagens do longa, mas também podem cativar a plateia (o que é bem legal!). Outro ponto elogiável deste filme é a ótima química do casal de protagonistas. Charlize Theron e Seth Rogen estão perfeitos como par romântico às avessas. Eles dão um colorido maior à bela história narrada na telona (não à toa, são atores especializados em comédias românticas e em aventuras cômicas). Note o quanto cada personagem consegue transformar o parceiro (ela se torna mais jovial, descolada e alegre e ele fica mais adulto, responsável e charmoso). O elenco de coadjuvantes não compromete a trama em nenhum momento, chegando até a roubar a cena positivamente em um ou outro momento. Os lances mais divertidos para mim são os do presidente que sonha em ser astro de cinema (uma curiosa contradição já que o mais comum é o ator famoso aspirar a Casa Branca). Os pontos negativos de “Casal Improvável” são o interminável desfile de personagens planas, alguns tropeços históricos e o final totalmente previsível. Quanto à construção das personagens, é importante dizer que existe sim humor que não precise recorrer sempre a caricatura (porém, aí é preciso ter roteiristas muito inteligentes, criativos e sagazes). Para ser sincero, isso foi o que mais me incomodou. Todas as figuras retratadas no longa-metragem são extremamente caricatas (algo inverossímil). Assim, fica fácil fazer humor, né? É o tipo de graça rápida e rasteira, que pode agradar a muitos, mas que desagrada quem exige qualidade. Há também um ou outro tropeço histórico e de contexto nesta produção. Por exemplo, teria Charlotte conhecido mesmo Saddam Hussein, como ela diz em uma cena, se o ditador iraquiano morreu há 13 anos?! Vale lembrar que ela não está esse tempo todo na política, né? E não é o Presidente da República dos Estados Unidos que escolhe o seu postulante a sucessor: os candidatos vem de eleições primárias dentro dos seus partidos (inclusive no partido governista). Entretanto, esses detalhezinhos não atrapalham muito a narrativa (só incomodam um ou outro espectador mais crítico). O que é um deslize inaceitável é o final absurdamente previsível deste filme. Jogue todos os clichês possíveis em um desfecho romântico e pronto: temos os 30 minutos finais de “Casal Improvável”. É possível até mesmo brincar de adivinhar: o que vai acontecer na próxima cena? A maioria do público irá acertar quadro a quadro o que surgirá na tela. Confesso que esse gostinho amargo do final conseguiu atrapalhar um pouco a minha impressão tão positiva do longa-metragem de Jonathan Levine. Só não sei se todo mundo terá essa avaliação negativa do desenlace. Afinal, ele foi totalmente construído para agradar ao grande público. Coisas de Hollywood. Uma pena! Mesmo assim, “Casal Improvável” é uma produção interessante que merece ser assistida por quem gosta de cinema e por quem aprecia ótimas histórias. Seus acertos são muito superiores (quantitativa e qualitativamente) do que seus equívocos. E olha que quem está falando isso é um cinéfilo que não é muito chegado às comédias românticas. Contudo, sei reconhecer quando estou diante de um ótimo título deste gênero. E o novo filme de Jonathan Levine é realmente muito acima da média. Assista, a seguir, ao trailer de “Casal Improvável”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Livros: O Físico - O maior sucesso de Noah Gordon
A terceira obra de Noah Gordon que analisamos neste Desafio Literário é "O Físico" (Rocco). Neste romance histórico, o escritor norte-americano mostrou a força de seu trabalho ficcional ao construir uma trama emocionante sobre Robert Jeremy Cole. O rapaz inglês do século XI, órfão e pobre, era obcecado pela vontade de se tornar médico, algo quase impossível na Europa Medieval. “O Físico” é até hoje o maior sucesso de Gordon. Best-seller internacional, a publicação caiu rapidamente no gosto dos leitores europeus, principalmente na Espanha, Alemanha e Itália, onde vendeu milhões de cópias. Curiosamente, o livro demorou para deslanchar nos Estados Unidos, terra natal do autor (suas vendas não ultrapassaram os 10 mil exemplares nos primeiros anos). Lançado em 1986, “O Físico” é o quarto livro do norte-americano e o primeiro título da “Trilogia da Família Cole”. Empolgado com o êxito comercial e de crítica desta obra na Europa, Noah Gordon resolveu dar continuidade a saga da família de seu mais famoso protagonista. “Xamã” (Rocco), publicado em 1992, e “A Escolha da Dra. Cole”, de 1995, são, respectivamente, a segunda e terceira parte da trilogia dos Cole. Não à toa, esses três são os títulos mais populares do autor. Há dez anos, os direitos comerciais de “O Físico” foram vendidos para uma produtora cinematográfica alemã. Assim, em 2013, chegava às telonas o longa-metragem homônimo com a história de Robert J. Cole. Com cinco milhões de espectadores, o filme do diretor Philipp Stölzl teve boa bilheteria principalmente na Europa. Mais uma vez, essa história foi ignorada nos Estados Unidos: a produção alemã não chegou a entrar nos cinemas norte-americanos, sendo lançada no país apenas recentemente em DVD. Em 2016, um musical inspirado nessa trama foi lançado na Espanha. “El Médico El Musical” foi uma das peças mais premiadas no país ibérico nas últimas décadas. Para se ter uma ideia do seu êxito, o musical recebeu 11 prêmios da Broadway World, uma espécie de Oscar do setor, entre eles o de Melhor Musical da temporada. “El Médico El Musical” também foi um grande sucesso de público: com filas gigantescas para comprar seus ingressos e casa sempre cheia por alguns anos. No Brasil, a publicação da versão nacional deste livro de Noah Gordon no final da década de 1980 foi marcada por erros crassos em sua tradução. O maior deles está justamente em seu título. A versão original da obra se chama “The Physician”, que em inglês significa “o médico”. Por isso, em Portugal, o romance foi nomeado corretamente como “O Médico de Ispahan”. Aí, o tradutor brasileiro, Aulyde Soares Rodrigues, inventou de colocar o título de “O Físico” (teria ele caído em um falso cognato?!). A polêmica estava criada! Afinal, não há nenhum físico (nem citação a essa palavra) em quase seis centenas de páginas do romance. Depois da enxurrada de críticas, a editora brasileira responsável pela tradução até tentou justificar o injustificável: o físico seria a forma como os médicos medievais eram chamados em sua época. A explicação não colou. Não há registros históricos sobre essa versão alternativa. Ou seja, a emenda saiu pior do que o soneto. Para piorar mais o caso, o subtítulo do livro ainda estampa: “A epopeia de um médico medieval”. Não é preciso ser especialista em literatura para saber que epopeia é um gênero literário bem distinto do romance. O correto aqui seria o uso do termo “saga” ao invés de “epopeia”. Por essas, a tradução do “O Físico” para o português brasileiro se tornou uma das maiores derrapadas da literatura nacional. Na certa, o leitor pensa: “Se logo na capa temos tantos erros de tradução, o que não devo encontrar dentro do livro...?!”. A preocupação é totalmente válida! O enredo de “O Físico” começa em Londres, em 1021. Robert Jeremy Cole, chamado simplesmente de Rob, é um menino de 9 anos com um dom especial. Na Inglaterra medieval, ele se torna órfão de mãe e pai. Momentos antes dos pais morrerem, o garoto descobre que eles não vão sobreviver. Ao tocar as mãos nas pessoas, Rob sente se eles vão viver ou não. O dom inexplicável assusta o menino. Porém, o protagonista não tem tempo para compreender o que está acontecendo com ele. Assim que os pais morrem, sua família é dividida. Cada irmão é entregue para uma pessoa diferente. No caso de Robert J., ele é dado para Henry Croft, um barbeiro-cirurgião solteiro que viaja pelo país vendendo tônicos fajutas, realizando pequenos shows de mágica e malabares e tratando os doentes pobres. Barber, como o barbeiro-cirurgião é mais conhecido, precisa de um ajudante e Rob é escalado para tal. Assim, começam as viagens do menino pela Inglaterra. Em nove anos ao lado de Barber, Rob aprende tudo sobre o ofício do amigo. Quando o Sr. Croft morre, em 1030, Robert J. herda automaticamente a carroça, o cavalo e os instrumentos de trabalho do cirurgião-barbeiro. Aos 18 anos, ele passa a trabalhar sozinho. O que poderia representar algo empolgante para o jovem acaba se transformando em uma profunda angústia. Sem conhecer à fundo a medicina, Rob se inquieta por não resolver os casos da maioria dos seus pacientes. A função de um cirurgião-barbeiro é, muitas vezes, ludibriar seus clientes ou, no máximo, aplacar um pouco a sua dor. Por isso, ele acalenta o sonho de se tornar médico de verdade, o profissional que realmente cura as doenças. Com essa ambição, o rapaz faz uma longa jornada até Ispahan, na Pérsia. Lá há uma das melhores escolas de medicina do mundo, a Academia de Medicina de Ispahan. Na viagem que dura quase dois anos, Robert J. conhece Mary Margaret Cullen, filha de um criador de ovelhas escocês. Os dois se apaixonam na caravana que os leva da Germânia até Constantinopla. Mesmo sabendo que Mary é a mulher de sua vida, o rapaz não muda seus planos e segue sozinho, depois de Constantinopla, até seu destino. A vontade de se tornar médico é maior do que o anseio de se casar. Uma vez em Ispahan, Rob descobre que não será fácil ser aceito na Academia. Para ingressar como estudante na tradicional instituição árabe, Rob precisa se passar por hebreu (a escola não aceita cristãos, apenas muçulmanos e judeus). Dessa forma, o jovem aprende tudo o que precisa da língua, da religião, da vestimenta, da alimentação e dos hábitos dos hebreus. Além disso, ele passa a se apresentar como Jesse ben Benjamin. Seu disfarce parece infalível. Entretanto, mesmo com tudo isso, Jesse não é aceito na escola. É preciso ter a indicação de um ex-aluno para entrar no curso de medicina. Obviamente, o protagonista não conhece ninguém com essas características. Ao invés de desanimar, o inglês arruma coragem para desafiar as tradicionais regras da instituição que almeja adentrar. Será preciso muita ousadia e correr muitos riscos para ser aceito como estudante de medicina em Ispahan. Esta é a saga de Robert Jeremy Cole/Jesse ben Benjamin atrás do sonho de se tornar médico e de compreender o dom de prever se seus pacientes viverão ou morrerão através de um toque com as mãos. Com 592 páginas, “O Físico” é dividido em sete partes (são 81 capítulos ao todo). Trata-se, obviamente, de um romance parrudo, que exige fôlego do leitor. Esta é a obra mais volumosa de Noah Gordon que vamos analisar neste mês no Desafio Literário. Precisei de três dias para concluir esta leitura. E saiba que esta história é realmente excelente, o que nos atrai a continuar grudados nas páginas do livro. Sem dúvida nenhuma, esta é uma das melhores publicações que li neste ano. Se eu já havia gostado muito de “O Rabino” (Rocco) na semana passada, confesso ter adorado, agora, “O Físico”. Se o primeiro é um ótimo romance, esta obra que estamos comentando hoje é ainda melhor: uma narrativa inesquecível, um típico drama sobre a formação do herói. O que chama a atenção logo de cara em “O Físico” é a construção do ambiente/contexto medieval, época em que a trama se passa. A composição histórica feita por Noah Gordon é na maior parte das vezes muito bem-feita. As riquezas de detalhes sobre a vida nas cortes, o cotidiano das populações simples da Europa e do Oriente, a medicina medieval, os choques religiosos e as particularidades de cada crença são realmente impressionantes. A recriação do século XI é digna de intermináveis elogios. Na certa, o escritor norte-americano precisou realizar uma longa pesquisa histórica para chegar a este resultado. A sensação deixada pelo romance é que várias de suas personagens são figuras verídicas (outra prova de excelência do trabalho ficcional de Gordon). Entretanto, apenas duas personagens do romance são efetivamente verídicas: Ibn Sina e Al Juzjani. Todas as demais são criações ficcionais. Há também detalhes pitorescos da rotina medieval, como o Jogo do Xá (uma espécie de xadrez persa), das modalidades esportivas típicas da realeza árabe (o principal deles é um que se parece com o polo, mas é muito mais violento) e das diferenças absurdas de desenvolvimento tecnológico, médico, humano e social do Ocidente (muito atrasado) e do Oriente (bem avançado). Como já havia acontecido em “O Rabino” e “O Diamante de Jerusalém” (Rocco), “O Físico” é um romance ao estilo road story. O protagonista está sempre viajando. No começo, sua peregrinação é pela Grã-Bretanha como auxiliar de um barbeiro-cirurgião. Depois, ele parte para uma jornada intercontinental. Uma vez estabelecido em Ispahan, Rob continua viajando pelo Oriente Médio. O médico visita boa parte da Pérsia. No fim do livro (cuidado: aí vai um spoiler!), ele e sua família realizam uma nova excursão intercontinental. Esses constantes deslocamentos dão dinamismo e graça à trama. A base do conflito deste livro é o choque religioso. Cristãos, judeus e muçulmanos até conseguem conviver minimamente, mas suas diferenças de crenças, de cultura e de hábitos impossibilitam a união saudável e harmônica entre eles. A impressão é que cada nuance religioso é motivo para muito preconceito e constante desavença. Não apenas as três religiões parecem se odiar, mas dentro delas há intrigas e ressentimentos. Por exemplo, os católicos ligados à Igreja Romana não se bicam com os integrantes da Igreja Ortodoxa. Os judeus e os muçulmanos também possuem, respectivamente, diferentes níveis de crença, que muitas vezes se traduzem em problemas internos e até mesmo em conflitos armados no âmago da própria religião. Uma coisa parece ser consenso: todos eles odeiam os ateus. Uma grande diferença desta obra de Noah Gordon para as demais do autor norte-americano é que o judaísmo aqui é abordado por uma perspectiva diferente. O protagonista é um católico e não um hebreu. Ou seja, a visão sobre o judaísmo é mais externa do que interna (uma novidade na literatura de Gordon). Rob J. só conhecerá a crença e as tradições judaicas quando se tornar um adulto. E ele irá mergulhar nessa religião quando precisar se passar por um judeu. Além disso, há um aprofundamento nas particularidades do catolicismo e do islamismo. Não à toa, o protagonista acaba estudando não apenas o Torá como também o Novo Testamento e o Alcorão. Como não poderia ser diferente, a Idade Média é retratada como um período extremamente violento e recheado de intolerâncias (políticas, sociais, religiosas e ideológicas). Isso é visualizado em aspectos banais do dia a dia das pessoas, como no lazer e no sexo. O esporte preferido do Ala Xá é, não por acaso, uma mistura de polo com futebol americano. Os jogadores muitas vezes saem seriamente feridos das partidas. E o sexo é normalmente uma prática brutal e de dominação, pouco relacionada ao amor entre duas pessoas. Apesar de ser um romance excelente, “O Físico” possui alguns problemas de ordem narrativa. O principal deles, algo já detectado nos livros anteriores de Noah Gordon, é a respeito dos equívocos do foco narrativo. O narrador em terceira pessoa fica a maior parte do tempo grudado ao protagonista, Rob J. Cole. Até aí tudo bem. Porém, esse narrador gosta de abandonar a personagem principal e passa a acompanhar, em muitas oportunidades, outras personagens. Isso é um típico erro de foco narrativo. Essa mania de Gordon incomoda quem tem o mínimo de conhecimento sobre a teoria da narração ficcional. Para piorar o quadro, o autor tem a mania de contar a vida quase inteira de várias personagens que vão surgindo no meio da trama. Essas longas digressões chegam a durar capítulos inteiros. Isso, por exemplo, acontece com Henry Croft. Achei desnecessárias essas imersões em figuras que não atuam como protagonistas do livro. Qual a utilidade de construir em detalhes a retrospectiva histórica de personagens secundárias? Juro que não sei. Há também algumas passagens e cenas inverossímeis em “O Físico”. É difícil acreditar quem em pleno século XI, os cidadãos humildes sabiam o número de habitantes de cada cidade. Para isso acontecer, eram necessários a realização constante de censos populacionais e o estabelecimento de uma imprensa atuante (dois elementos inexistentes na Idade Média), além de um povo educado e intelectualizado. Por esses mesmos motivos, me parece quase inviável os súditos da época saberem os detalhes do que ocorria dentro das paredes dos palácios reais e os pormenores da geopolítica da época. E o que dizer da menção ao câncer, uma doença debatida corriqueiramente entre os médicos persas? Difícil de acreditar. Apesar de um ou outro tropeço narrativo, “O Físico” ainda sim é uma obra excelente. Para quem gosta de sagas históricas, esse livro é imperdível. Noah Gordon pode não ser um escritor impecável (e qual autor é?), mas seus méritos superam infinitamente suas falhas (e dos seus tradutores). Terminei essa leitura realmente encantado com seu conteúdo. Não por acaso, este romance conquistou tantos admiradores pelo mundo e ganhou adaptações para o cinema e para o teatro. Na próxima terça-feira, dia 18, retorno ao Blog Bonas Histórias para analisar o quarto livro do Desafio Literário de junho. A próxima obra de Gordon que vamos discutir é "Xamã" (Rocco), justamente o romance publicado em 1992 que dá continuidade a saga da família Cole. Não perca os demais posts da análise da literatura de Noah Gordon, um dos mais bem-sucedidos escritores norte-americanos da atualidade. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoahGordon #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaJudaica #Romance #RomanceHistórico #Drama #DramaHistórico #Livros #TrilogiadaFamíliaCole
- Livros: O Diamante de Jerusalém - O romance de espionagem de Noah Gordon
Depois do excelente “O Rabino” (Rocco), fiquei empolgado em iniciar a leitura de “O Diamante de Jerusalém” (Rocco), o terceiro romance de Noah Gordon. Além de ter curtido bastante o livro de estreia do escritor norte-americano, post da semana passada, outro aspecto me entusiasmou para a nova leitura: esta publicação é uma trama de espionagem internacional. Ou seja, Gordon abriu mão, aparentemente, dos seus dramas pessoais e familiares, temas tanto de “O Rabino” quanto de “O Comitê da Morte” (Rocco), para lançar-se em um thriller sobre o paradeiro de uma joia sagrada e histórica do povo judeu. Como fã deste gênero, não foi nada complicado me atirar nas páginas desta obra. “O Diamante de Jerusalém” é o segundo livro que analisamos no Desafio Literário de junho. Quem está acompanhando regularmente o Bonas Histórias já sabe que neste mês o autor em foco é o romancista Noah Gordon, best-seller mundial. Publicado em 1979, “O Diamante de Jerusalém” representou um importante marco na carreira de Noah Gordon. Para produzir este romance, o autor precisou deixar de lado a atuação como editor de revistas científicas (a Psychiatric Opinion e a The Journal of Human Stress), seu principal ofício até então. As repercussões positivas dos seus trabalhos ficcionais anteriores, “O Rabino” e “O Comitê da Morte”, lançados em 1965 e 1969, respectivamente, mostraram o potencial que a carreira de romancista tinha para Gordon. Contudo, a atuação como jornalista e editor demandava cada vez mais tempo e energia do norte-americano. Assim, no início da década de 1970, Noah deixou os cuidados das suas revistas para a esposa, Lorraine Seay Gordon. A partir daí, ele passou a atuar apenas como escritor. “O Diamante de Jerusalém” foi o primeiro título dessa nova fase. Depois de anos de pesquisas históricas, minerais, religiosas, arqueológicas, idiomáticas e geográficas, estava pronto o mais ambicioso livro de Gordon até aquele momento. Se “O Diamante de Jerusalém” tem como novidade o fato de ser um suspense investigativo ao estilo Indiana Jones (com pitadas de Dan Brown), este título mantém algumas características imprescindíveis da literatura de Gordon: a trama tem como contexto a cultura judaica, o conflito é baseado nas diferenças religiosas e geopolíticas, a narrativa é ancorada em uma saga histórica e o protagonista se apaixona por uma “mulher proibida” (pelo menos do ponto de vista das crenças tradicionais da sua religião). O enredo deste livro começa na época do Velho Testamento. Um grupo de quatorze sábios e religiosos hebreus liderados por Baruch segue as ordens divinas e rouba as principais joias do Templo de Jerusalém. Era ali que os judeus guardavam suas relíquias sacras como as Tábuas da Lei que Deus deu para Moisés no Monte Sinai, a arca e o manto que as cobriam, o querubim de ouro, o Tabernáculo, o peitoral do Sumo Sacerdote e outras joias de valor inestimável. Entre as preciosidades havia um diamante dourado e de tamanho gigantesco chamado de Pedra de Kaaba. O roubo é uma ação preventiva. Uma vez na posse desses itens, o grupo deve escondê-los em diferentes lugares do seu território, evitando, assim, a incursão futura de ladrões estrangeiros. Segundo as premonições divinas, o território dos hebreus será invadido nos séculos seguintes e o templo de Jerusalém será saqueado e destruído. Para sinalizar onde estarão os artefatos para as futuras gerações, Baruch escreve em folhas feitas de cobre o paradeiro de cada peça. Obviamente, ele utiliza-se de mensagens cifradas para indicar a localização exata dos itens. Dessa maneira, apenas os judeus mais religiosos do futuro conseguiriam achar o tesouro do seu povo. Terminada a cena do roubo, o romance avança para o tempo presente. Na Nova York dos dias de hoje, vive Harry Hopeman, um judeu norte-americano bem-sucedido. Um dos maiores especialistas em diamantes do mundo, ele é o dono da Alfred Hopeman & Son, Inc, uma respeitada loja de pedras preciosas localizada na Quinta Avenida. A empresa é voltada para o comércio de joias de valor histórico e religioso e foi fundada por Alfred, pai de Harry e um dos maiores entendidos de joias do planeta. Os Hopeman são uma família que vive há séculos manuseando e comercializando pedras preciosas. Não à toa, eles são referências internacionais nesse mercado. Por causa da sua fama e de sua família, Harry Hopeman é convidado pelo governo de Israel para intermediar uma delicada negociação com Hamid Bardissi, um egípcio com um passado sombrio. Também chamado de Yosef Mehdi, o mulçumano diz estar com a posse do Diamante da Inquisição, o nome da joia dourada que foi retirada há séculos do Tempo de Jerusalém por Baruch e seus colegas. O Diamante da Inquisição é a denominação cristã para a Pedra de Kaaba. Afinal, ela foi roubada do esconderijo por invasores árabes (ou seja, não adiantou escondê-la) e, mais tarde, foi saqueada pelos cristãos nos tempos das Cruzadas. Depois de muito peregrinar, ela foi parar no Vaticano. Já no século XX, ela foi roubada mais uma vez do museu do Vaticano e desapareceu novamente. Agora, Hamid Bardissi/Yosef Mehdi diz estar com o diamante. O governo israelense quer comprar a Pedra de Kaaba do egípcio. Entretanto, as autoridades de Israel querem, antes, atestar a autenticidade da joia. Daí a importância de Harry Hopeman. Ele é uma das poucas figuras no mundo capaz de verificar se a peça que Hamid Bardissi/Yosef Mehdi tem em mãos é um material legítimo ou uma falsificação. Com a missão de negociar com o egípcio, Harry viaja para Jerusalém para iniciar seus trabalhos. Sem saber quando vai conseguir regressar para casa, ele teme perder o bar mitzvah do filho, Jeffrey. O garoto é fruto do relacionamento de Harry com Della, sua ex-esposa. Mesmo separados, o antigo casal se dá tão bem que continuam fazendo sexo ocasionalmente e às escondidas, como se fossem amantes. Ao chegar em Jerusalém, Harry Hopeman é recebido por Tamar Strauss, diretora de um importante museu local. A jovem e bela morena foi contratada pelo governo israelense para atuar em dupla com o norte-americano. Tamar nasceu no Iémen e é viúva de um médico israelense. Apesar de ser de uma família judia ortodoxa e já viver há anos em Israel, ela sofre na capital israelense o preconceito por ter vindo de uma região dominada historicamente pelos árabes. Enquanto aguardam o contato de Hamid Bardissi/Yosef Mehdi, Harry e Tamar terão muito tempo (e põe muito tempo mesmo nesta conta!) para se conhecer melhor e, principalmente, para aparar suas arestas (ambos possuem personalidades bem distintas). Apesar de volumoso, “O Diamante de Jerusalém” é o menor livro de Noah Gordon que será analisado neste mês no Desafio Literário. Esta obra possui “apenas” 272 páginas (quando a média do autor é de mais de 420 páginas por título). Seu conteúdo está dividido em 28 capítulos e em quatro partes. Precisei dos dois dias deste final de semana para concluir esta leitura. Comecei no sábado de manhã e a terminei no domingo à noite. Devo ter levado aproximadamente 12 horas para percorrer todas as suas páginas. Para ser sincero, não gostei de “O Diamante de Jerusalém”. Como suspense investigativo, este livro deixa muitíssimo a desejar. Seu principal problema é justamente oferecer uma aventura extremamente parada (quase não acontece nada em relação ao enredo principal). Ao invés de mergulhar no mistério do diamante perdido e em ações eletrizantes de captura da joia, Noah Gordon prefere mostrar a vida sentimental de Harry Hopeman e o seu passeio turístico pela Terra Santa. É isso mesmo que você leu: o maior especialista de joias religiosas e históricas do mundo passa semanas sem nada para fazer em Israel (o egípcio que deveria negociar com ele dá um chá de cadeira no norte-americano que dura quase o livro inteiro). Aí não há suspense que resista. Esse é o maior problema do terceiro romance de Noah Gordon, mas há outros. A mania do autor em relatar a vida inteira de várias personagens também incomoda a leitura. Se ele fizesse isso com uma, duas ou três figuras, beleza. Entretanto, Gordon faz isso com quase uma dezena de pessoas. E muitas dessas personagens não estão relacionadas diretamente ao conflito principal (como Julius Vidal e Isaac Vitalo, por exemplo). Aí nos perguntamos: para que esse excesso de páginas relatando a vida de figuras secundárias, hein?! Ao invés de avançar, o livro está sempre regredindo. Regredindo não, patinando sem andar para frente. Depois de alguns capítulos assistindo a este padrão de narrativa, o leitor fica se perguntando: cadê a história que me foi prometida? Além disso, há muitos trechos sumarizados. A impressão é que essa obra tem mais passagens sumarizadas do que cenas propriamente. Isso incomoda bastante o leitor mais exigente, principalmente na primeira metade do livro. Não há nada pior do que um romance longo e sumarizado. A impressão é que a obra não foi editada corretamente (muitas vezes, a exclusão de capítulos, páginas e trechos daria mais dinamismo à trama e resolveria boa parte dos seus problemas narrativos). Para completar os elementos negativos de “O Diamante de Jurusalém”, temos um protagonista difícil de engolir. Se Michael Kind de “O Rabino” era uma figura carismática, Harry Hopeman é um ricaço do tipo almofadinha (o que ele faz com sua roupa suja é um bom indicativo disso). Ele não contribui para deixar a história mais legal. A união do protagonista com Tamar Strauss, uma pessoa muito mais interessante e complexa, também é morninha e sem muito sal. Ou seja, nem a parte romântica do livro empolga. É verdade que o final desta publicação reserva as partes mais surpreendentes e eletrizantes da narrativa. Nesse ponto, eu gostei do desenlace. Além disso, o desfecho é melancólico, bem factível e real. Noah Gordon não faz concessões ao leitor mais romântico na hora de colocar um ponto final na sua trama. Achei esse expediente excelente! “O Diamante de Jerusalém” tem alguns aspectos muito parecidos a “O Rabino”. Assim como ocorreu no romance de estreia de Noah Gordon, este tem um protagonista em que a família mudou o sobrenome. Esta obra possui uma intriga histórica (Guerra do Yom Kippur, Guerra dos Seis Dias, Inquisição, Holocausto) e geopolítica (disputa por Jerusalém e conflito na Palestina), além de uma narrativa ambientada na cultura judaica. “O Diamante de Jerusalém” também está sempre voltando para trás. Se sua história avança quase nada para frente, ela mergulha com tudo no passado (tanto na vida das personagens quanto na trajetória do povo hebreu e da Pedra de Kaaba/Diamante da Inquisição). Quem gosta de uma road story, “O Diamante de Jerusalém” é um prato cheio. A história percorre Nova York, Jerusalém, Massada, Monte Sinai, Jordânia, Tel Aviv, Beit Jimal, Veneza, Roma/Vaticano, Iémen, etc. É uma pena que esses cenários não sejam usados para reforçar o suspense. Por isso minha decepção. Se adorei “O Rabino”, detestei “O Diamante de Jerusalém”. Para desvendar os próximos passos da carreira de Gordon, o livro seguinte que será analisado no Desafio Literário é "O Físico" (Rocco). Esse romance foi publicado em 1986 e se tornou o maior sucesso do escritor. Esta história deu origem a uma trilogia e foi inclusive adaptada para o cinema. O post sobre "O Físico" será publicado no Blog Bonas Histórias no dia 14 de junho, próxima sexta-feira. Não perca a terceira parte do estudo sobre a literatura de Noah Gordon. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoahGordon #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaJudaica #Romance #RomanceHistórico #Livros #RomancePolicial #Thriller
- Passeios: Passagem Literária da Consolação – A ótima surpresa paulistana
No finalzinho da década de 1990, eu era adolescente e fazia cursinho pré-vestibular na região da Avenida Paulista (bons tempos!). Naquela época, eu cruzava quase que diariamente um túnel para pedestres embaixo da Rua da Consolação (era meu itinerário de ida-e-volta ao cursinho, além de ser caminho para o apartamento do Eduardo e da Dona Sueli na Avenida Angélica – abraço, Eduardo!). O beco, como chamávamos o lugar (seu nome formal era Parada Paulista), ligava os dois lados da calçada da avenida na altura do cinema Belas Artes (quase na Avenida Paulista). Apesar de ser mais rápido usar o túnel do que esperar o fechamento dos semáforos dos carros na Consolação (o que poderia levar alguns minutos preciosos – a prioridade nesta metrópole sempre foi para os automóveis), acabávamos nos deparando com um dos pedaços mais feios da região da Paulista. A Parada Paulista, que fora inaugurada na década de 1970, era normalmente suja, mal iluminada e bastante fedida nos meus tempos de cursinho. Suas paredes apresentavam goteiras e tinham muitas pichações. Para completar o quadro desolador, quase sempre moradores de rua usavam o espaço como abrigo e camelôs disputavam cada centímetro quadrado do local como vitrine para seus produtos. Ou seja, um horror completo! O mais curioso era quando algum pedestre desavisado confundia a passagem subterrânea com as estações de metrô da região (realmente a entrada era meio parecida). Imagine o pânico do sujeito ao se deparar com um cenário totalmente oposto ao encontrado nas estações de metrô (oásis de limpeza, segurança e conforto – ao menos era assim na década de 1990). Já vi mulheres saindo do túnel gritando de medo (isso em plena luz do dia – imagine só como não era à noite!). Qual foi minha surpresa ao passar, por acaso, neste mesmo túnel na semana passada e encontrá-lo revitalizado. Sim! O túnel estava limpo, bem iluminado e sem o antigo fedo. As goteiras, os moradores de rua e os camelôs simplesmente desapareceram. Do antigo ambiente só restaram as centenas de cartazes de filmes colados nas paredes de maneira caótica e os grafites que permanecem espalhados nas paredes e no teto (que agora até adquirem um aspecto cult). Rebatizado de Passagem Literária da Consolação, o túnel abriga um sebo e um disputado espaço para exposições. E, acredite, até música ambiente ele possui agora. É inacreditável a transformação deste lugar. Admito que fiquei chocado (precisei de alguns minutos para crer no que meus olhos me mostravam). Interessado em saber o que aconteceu por lá, iniciei uma pequena investigação com os profissionais da Passagem Literária da Consolação. Soube que esta mudança começou em 2005 (meu Deus, fazia mesmo muito tempo que não passava por lá!). Para resolver o problema da degradação do túnel, a Prefeitura de São Paulo convidou a Associação Via Libris, um grupo de livreiros da Rua Augusta, para administrar a passagem subterrânea. Eles aceitaram o desafio e, desde então, são os responsáveis pela manutenção, pela conservação, pela limpeza e pela segurança do ambiente, além do gerenciamento do sebo e da administração do pequeno espaço cultural. Quem não conheceu a precariedade do cenário anterior, talvez não se encante tanto com a nova realidade. Como eu vivenciei de perto o antigo quadro, fiquei estupefato. O sebo do túnel não possui muitos livros, mas os preços são interessantes (é preciso procurar bem e pechinchar). O atendimento é informal e simpático. A maioria dos frequentadores da Passagem Literária da Consolação continua sendo de pedestres apressados que fogem do semáforo da rua acima. Porém, é legal notar a presença cada vez maior de turistas e de apaixonados pela literatura (algo definitivamente impossível no passado). Esses dois grupos são fáceis de serem identificados. Enquanto o primeiro fica apreciando os cartazes e os grafites (por vezes, atrapalhando um pouco o trânsito dos demais pedestres), o segundo prefere mergulhar os olhos nos livros em exposição no sebo. Ainda não fui a nenhum evento artístico na Passagem Literária da Consolação, mas me falaram que este espaço é muito disputado por jovens artistas interessados em se apresentar para grandes plateias e em um local privilegiado da cidade (a pouquinhos metros da Avenida Paulista). O lugar recebe até doze exposições por ano e sua agenda está quase cheia até o final de 2020. Nada mal, hein? Uma vez aprovada a exposição na Passagem Literária, os artistas precisam bancar os demais custos de suas mostras (não há cobrança pelo aluguel do espaço). Juntamente com uma programação cultural eclética e constante, é comum a apresentação de trabalhos acadêmicos no túnel. Os alunos da Belas Artes e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP já expuseram trabalhos de conclusão de curso e teses de mestrado e doutorado ali. No mês que vem, está programada uma sessão de cinema que terá curtas-metragens produzidos por alunos de escolas públicas. Incrível, né? Estive na Passagem Literária da Consolação na última sexta-feira na hora do almoço. Curiosamente, só acessei o túnel porque estava com medo de me atrasar para um encontro na Reserva Cultural – voltei depois para apreciar melhor o local. E o que achei mais interessante é a grande quantidade de pessoas que param para conversar com você (algo, infelizmente, pouco comum em uma metrópole como São Paulo). Em um intervalo de aproximadamente trinta minutos, pelo menos meia dúzia de pedestres vieram puxar papo comigo enquanto eu namorava os títulos em exposição no sebo (que fica estrategicamente no meio do fluxo das pessoas). A maioria dos papos era sobre literatura. Esta é a Passagem Literária da Consolação! Em uma única visita, esse pequeno espaço se transformou em um dos meus favoritos na região da Avenida Paulista. Se você estiver circulando nas proximidades a procura de um lugar diferenciado para visitar, saiba que agora tem mais uma opção de lazer e cultura para ir. Ou se estiver com pressa para atravessar a rua no lado de cima, fique tranquilo pois se descer as escadas do túnel você terá uma grata surpresa (e não uma experiência apavorante como nos tempos da Parada Paulista). Parabéns, Via Libris, pelo excelente trabalho feito ali. Tomara que essa iniciativa da Prefeitura de revitalização dos túneis usados por pedestres se expanda para outras localidades da cidade. O acesso à Lapa de Baixo (entre a Rua Doze de Outubro e a Rua William Speers) e o túnel do Km 23 da Via Anchieta em São Bernardo do Campo (entre o Demarchi na Volkswagen e Ferrazópolis) mereciam passar por um processo de melhoria como este. Quem saiba não veremos novas Passagens Literárias e Culturais na Grande São Paulo nos próximos meses, hein? Torçamos! Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #SãoPaulo #Literatura #Passeios
- Livros: O Rabino - O romance de estreia de Noah Gordon
O Desafio Literário de junho começa com o romance de estreia de Noah Gordon. Publicado em 1965, “O Rabino” (Rocco) foi a primeira incursão deste jornalista norte-americano na literatura. Então com 38 anos, Gordon trabalhava como editor de revistas científicas quando lançou a saga de um judeu religioso que enfrenta os preconceitos da sua comunidade para se casar com uma mulher goy (não judia). O sucesso do livro foi imediato. “O Rabino” ficou 26 semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e alçou o nome de seu autor para a categoria dos best-sellers da ficção norte-americana. Em pouco tempo, o livro já era vendido nos quatro cantos do planeta. Atualmente, esta obra é considerada um clássico contemporâneo da literatura judaica. Li “O Rabino” no último final de semana e admito ter ficado positivamente impressionado com seu conteúdo. O que mais me chamou a atenção foi a maturidade narrativa e a qualidade do seu texto. É incrível pensar que Noah Gordon era um romancista iniciante (e, portanto, inexperiente) quando publicou este livro. A sensação que temos durante a leitura de “O Rabino” é de estar diante de um escritor muito experiente, conhecedor profundo da maioria dos detalhes da estética literária. Não é surpresa nenhuma notar, com os olhos de hoje, que aquele lançamento na metade da década de 1960 marcava o início da trajetória profissional de um dos mais bem-sucedidos e premiados escritores dos Estados Unidos. Presença quase obrigatória nas principais livrarias e bibliotecas do mundo, Gordon é figurinha carimbada entre os best-sellers contemporâneos. O “Rabino” é um romance histórico. Seu enredo começa em novembro de 1964, em Woodborouht, Massachusetts. Nesse momento, Michael Kind tem 45 anos e é casado há duas décadas com Leslie, uma ex-jornalista nova-iorquina. O casal tem dois filhos: Max, de 16 anos, e Rachel, de 8 anos. Rabino da ala mais progressista do judaísmo, Michael enfrentou muitos preconceitos para se casar com sua atual esposa, filha de um pastor protestante. Logo de cara, o relacionamento inter-religioso não foi bem-visto por nenhuma das famílias nem pelas comunidades em que elas pertenciam. Mesmo assim, o casal apaixonado seguiu em frente na união matrimonial. Com a família já estabelecida, o problema agora dos Kind é outro: a depressão de Leslie. A mulher do protagonista está internada em um hospital psiquiátrico após meses sem falar nenhuma palavra. Seu mutismo é inexplicável tanto pelos médicos quanto pelos familiares. O médico responsável por seus cuidados sugere que um tratamento a base de eletrochoques seja iniciado. Enquanto cuida sozinho dos filhos, Michael aguarda ansiosamente a recuperação da companheira. Ao mesmo tempo em que apresenta o drama atual de Michael Kind e de sua família, o romance também volta ao passado para explicar como as personagens principais chegaram àquela situação. Os flashbacks começam em setembro de 1925, quando Isaac Riukind, avô paterno de Michael, precisou deixar a Europa por causa do crescente antissemitismo. Depois de uma longa viagem, ele foi morar em Nova York, onde abriu um armazém no Brooklin. A ligação entre a vida contemporânea de Michael e as crenças do velho Isaac é estreitíssima. Foi a imposição do avô, um judeu ortodoxo, que obrigou Abe e Dorothy, os pais de Michael que não ligavam nem um pouco para a religião, a darem uma educação religiosa para o garoto. Assim, o protagonista começa a estudar hebraico e a frequentar uma escola judaica. A narrativa de “O Rabino” é dividida praticamente em duas partes, que caminham simultaneamente. A primeira acompanha a vida presente de Michael e de sua família entre novembro e dezembro de 1964. É quando Leslie está doente e internada no hospital psiquiátrico. A segunda parte remonta o passado dos Kind: assistimos à saga de Isaac pela Europa e por Nova York, vemos os caminhos trilhados por Abe (o pai de Michael tinha uma empresa de cintos femininos e era bastante promíscuo sexualmente) e acompanhamos a trajetória de Michael desde seu nascimento. Portanto, assistimos ao crescimento do protagonista, à passagem pela adolescência, à entrada na fase adulta, à opção pelo rabinato (e suas intermináveis viagens pelo país: Flórida, Missouri/Arkansas, Geórgia, Califórnia, Pensilvânia e Massachusetts) e ao início de seu relacionamento com Leslie. Com o casamento de Michael e Leslie, a família está sempre se mudando (a vida de rabino não é nada tranquila), algo que se complica com a chegada do casal de filhos. De certa maneira, essa retrospectiva irá explicar os problemas clínicos da esposa de Michael Kind. É esse o mistério que guia o leitor pelas páginas do livro. Por que uma mulher com um casamento aparentemente perfeito entrou em depressão? Como uma boa saga de formação do herói, “O Rabino” é uma obra parruda. Este romance possui 368 páginas, que estão divididas em 47 capítulos e 4 partes. Levei três dias para concluir integralmente sua leitura. Comecei na sexta-feira à noite e só terminei no domingo à tardezinha. Devo ter levado entre 12 e 14 horas ao todo para ir da primeira à última página do livro. O mais legal é que a narrativa de Noah Gordon é tão gostosa que você vai lendo o romance sem reparar na passagem do tempo. Em um piscar de olhos, a quarta capa está diante de você. Incrível! O primeiro elemento que chama a atenção do leitor em “O Rabino” é o mergulho na cultura judaica. O leitor acompanha não apenas as particularidades desta religião como também as várias nuances culturais dos judeus (dos mais ortodoxos aos mais progressistas). Estão ali os hábitos alimentares, as roupas usadas, o corte de cabelo, as crenças, a língua, as datas comemorativas, as tradições, a história e os rituais. Se para um judeu é interessante ver sua cultura representada em uma trama ficcional, para quem é de fora desta religião trata-se de uma excelente oportunidade para compreender e entender os principais aspectos deste povo. Para esse último grupo, é bom saber que há, no final do livro, um glossário com palavras e expressões predominantemente em ídiches ditas pelas personagens. Na maioria das vezes, os termos são autoexplicativos (quando analisado no contexto narrativo), mas sempre é bom ter onde realizar a consulta. Gostei disso! E como não poderia ser diferente, assistimos neste livro a vários choques sacro-culturais. Paradoxalmente, não é apenas o antissemitismo europeu da metade do século XX que impõe desafios aos judeus. Os preconceitos dos protestantes norte-americanos contra os hebreus ainda são fortes, principalmente nas regiões mais remotas do país. Há até mesmo uma grande rixa entre judeus ortodoxos e progressistas (por mais paradoxal que isso possa parecer aos olhos de alguém de fora desta religião), o que torna tudo ainda mais complicado. O que não falta em “O Rabino”, portanto, é uma coleção interminável de personagens e de situações preconceituosas. O diferente é sempre alvo de ataques e de olhares enviesados (não importa o lado pelo qual se veja a realidade). Se os protestantes não gostam dos judeus, os judeus também parecem não gostar nem um pouco dos goyim (não judeus). Se os judeus ortodoxos odeiam os progressistas, o contrário também se mostra verdadeiro em muitos momentos. Para completar o cenário caótico, há ainda forte racismo (lembremos que essa história se passa nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX), preconceitos socioeconômicos (dentro das próprias comunidades religiosas, infelizmente, os pobres são normalmente malvistos!) e indisposições ideológicas (auge da Guerra Fria e ápice dos conflitos armados na Palestina entre árabes e judeus). É ou não é um ambiente extremamente tóxico e explosivo, hein?! O clímax dessas diferenças é o casamento de Michael e Leslie. Imagine o que representou a união de um rabino com a filha de um pastor protestante em plena década de 1940?! Curiosamente, até mesmo as duas personagens principais parecem questionar-se no início sobre esse relacionamento, como se tentassem boicotá-lo (prova maior do preconceito inter-religioso). Eles só são impedidos de seguirem por caminhos opostos por algo mais forte e incontrolável (o amor mútuo). Por uma perspectiva antropológica e sociológica, “O Rabino” é um drama ancorado essencialmente nas diferenças religiosas e culturais (uma praga que acompanha a humanidade em qualquer lugar e em qualquer época). “O Rabino” é uma história que vai e volta no tempo. Esse é um dos elementos mais legais de sua narrativa. Sabemos, desde as primeiras páginas, como tudo mais ou menos termina: Michael e Leslie Kind estão casados e com filhos. Ou seja, o final é aparentemente feliz (ou a depressão da esposa do rabino indicaria algo diferente?). O mergulho ao passado serve para mostrar ao leitor como o presente se construiu. Mesmo sabendo o desfecho, a curiosidade do leitor é para entender como o casal ficou junto. Para mim, uma boa história se faz quando queremos lê-la, mesmo já sabendo do seu desenlace. Este livro de Noah Gordon é narrado em terceira pessoa. O narrador é do tipo observador onipresente e onisciente. Ele está na maioria das vezes grudado ao protagonista. Porém, muitas vezes, há um desprendimento entre narrador e Michael Kind (o que confere grande liberdade ao relato). Esse fato ocorre tanto em cenas pontuais quanto em grandes partes do romance (como na saga de Isaac Riukind pela Europa e nos primeiros anos de casado de Abe e Dorothy em Nova York). Sinceramente, esse foi o aspecto que mais me incomodou nesta leitura. Para um leitor que não se preocupa com a Teoria do Foco Narrativo, isso, obviamente, não será um problema. Porém, para quem observa a lógica da narrativa a partir da posição do narrador, essa característica de “O Rabino” é um ponto questionável. O excesso de personagens pode também ser, em alguns momentos, um problema. Repare que eu escrevi “pode ser”. Afinal, mais de uma centena de personagens de diferentes épocas desfilam pelas páginas do livro. Muitas delas têm atuação pontual (em poucas páginas ou mesmo em um único capítulo). Sinceramente, não achei o número elevado de personagens uma falha de “O Rabino”. Noah Gordon consegue dar vida a suas criações ficcionais a ponto da maioria delas ter carisma e importância na trama. Adorei como o escritor norte-americano construiu seu romance, encaixando uma multidão de figuras em sua história com muita naturalidade. A entrada dessas várias personagens sempre tem um motivo e suas presenças dão um colorido ao romance. Por fim, outra questão que gostei muito foi de notar a transformação dos lugares através do tempo (algo que podemos extrair dos romances históricos). O melhor exemplo ocorre com Manhattan. No começo do século passado, essa era uma das regiões mais pobres, degradadas e perigosas de Nova York. Ou seja, nada mais diferente do que a Manhattan atual (rica, moderna e segura). “O Rabino” é um livro excelente. Sua narrativa é sensível, seu drama é tocante e seu texto é sublime. Através da saga de um homem comum e de sua família aparentemente normal, assistimos, por consequência, aos conflitos dos judeus que imigraram para os Estados Unidos. Enquanto acompanha o desafio da manutenção da cultura deste povo e o combate aos preconceitos, o romance de Gordon permeia questões delicadas da geopolítica mundial, da religião judaica, da formação dos Estados Unidos como nação e de temas corriqueiros da vida mundana (amor, traição, esperança, vocação profissional, violência). Não à toa, “O Rabino” se tornou um best-seller internacional. Se uma obra desta envergadura foi a ficção de estreia de Noah Gordon, fico imaginando o que este autor poderia nos apresentar quando chegou à maturidade literária. O próximo livro de Gordon que será analisado no Desafio Literário é "O Diamante de Jerusalém" (Rocco). Publicado em 1979, este romance é o terceiro da carreira do escritor norte-americano. Em um suspense de espionagem, ele misturou passagens do Velho Testamento com intrigas geopolíticas na busca por uma pedra preciosa de valor histórico. O post sobre "O Diamante de Jerusalém" estará disponível no Bonas Histórias no dia 10 de junho, próxima segunda-feira. Continue acompanhando o Desafio Literário de Noah Gordon no blog. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NoahGordon #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaJudaica #Romance #RomanceHistórico #Drama #DramaHistórico #Livros
- Filmes: Dor e Glória – Um Almodóvar autobiográfico
Há alguns cineastas contemporâneos que são imperdíveis. Quando eles lançam um novo trabalho, eu corro aos cinemas para conferi-los. Invariavelmente, não me arrependo do que vejo nessas sessões. É verdade que muitas vezes temos “mais dos mesmos”. Porém, “esses mesmos” ainda sim são filmes de excelente qualidade. Fazem parte da minha lista de diretores admiráveis Woody Allen, Quentin Tarantino, Jafar Panahi, Damien Chazelle, Lars Von Trier, Martin Scorsese, David Fincher, Anna Muylaert, Alejandro González Iñárritu, James Cameron, Jaco Van Dormael, Darren Aronofsky e Fernando Meirelles. E, claro, Pedro Almodóvar! O cinema do espanhol é espetacular. Sou fã de Almodóvar desde “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos” (Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios: 1988). Ansioso para conferir o último lançamento do diretor, fui nesta semana à pré-estreia nacional de “Dor e Glória” (Dolor y Gloria: 2019), drama intimista que ganhará as salas dos cinemas brasileiros na semana que vem. A pré-estreia mundial de “Dor e Glória” ocorreu no mês passado no Festival de Cannes, onde foi muito aplaudido. Na Espanha, o longa-metragem está em cartaz desde março. O mais interessante desta nova produção de Pedro Almodóvar está nos fortes traços autobiográficos de sua história. Até então, nenhum trabalho do diretor havia misturado com tamanha intensidade elementos reais e componentes ficcionais. De certa maneira, o cineasta apresenta as angústias, as fobias e os traumas de uma personagem que faz o espectador imediatamente remeter à imagem de Almodóvar. Com isso, temos o filme mais pessoal da carreira deste artista espanhol. O elenco de “Dor e Glória” é composto em sua maioria por atores que já trabalharam várias vezes com Almodóvar. Antonio Banderas e Penélope Cruz, por exemplo, são figurinhas carimbadas dos filmes deste diretor. Ele já participou de oito longas e ela de seis. Até a veterana Julieta Serrano, que não atuava com Almodóvar há três décadas, também é uma assídua intérprete dos trabalhos do espanhol. Quem é bom de memória se lembrará que ela foi uma das protagonistas de “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”. Curiosamente, assim como havia acontecido no primeiro grande sucesso internacional do diretor, Serrano volta a interpretar em “Dor e Glória” a mãe de Banderas. Completam o elenco principal do novo filme Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Cecilia Roth e o jovem Asier Flores. Com aproximadamente duas horas de duração, “Dor e Glória” narra o drama de Salvador Mallo (interpretado por Antonio Banderas), um famoso cineasta espanhol que se vê sucumbido pela idade avançada, pelas doenças crônicas e pelo consumo de drogas. Apesar da fama, da fortuna e dos prêmios conquistados, Salvador vive recluso em sua mansão em Madri. Sem amigos, fugindo da imprensa e sem contato com vários colegas antigos de profissão, o cineasta não produz nada novo há muito, muito tempo. Sua rotina é marcada por várias horas de total passividade. As fortes dores de cabeça e nas costas não o deixam, muitas vezes, ficar com os olhos abertos. Para piorar ainda mais as coisas para o protagonista, sua mãe (Julieta Serrano) morreu há dois anos e ele ainda não superou essa perda. O quadro de melancolia e de depressão de Salvador Mallo sofre um ligeiro recuo quando ele é convidado para discursar na Cinemateca espanhola. Seu antigo filme, “Sabor”, foi restaurado e será reexibido depois de 32 anos de seu lançamento. Considerado um clássico do cinema espanhol, “Sabor” é alvo da admiração do público e da crítica especializada. Em razão do evento na Cinemateca, Salvador é obrigado a se relacionar novamente com Alberto Crespo (Asier Etxeandia), o protagonista polêmico de “Sabor”. Ator e diretor estavam brigados há anos. A dupla não se falava desde os eventos de promoção do antigo longa-metragem. A necessidade de sair de casa e de interagir com as pessoas ao seu redor levará o cineasta espanhol a repensar sua vida. Ao realizar esse processo reflexivo, Salvador Mallo mergulhará em seu passado e analisará sua relação com a mãe, sua infância passada em uma aldeia pobre do interior do país e sua homossexualidade. De repente, figuras do passado voltam com força e inundam, ao mesmo tempo, a rotina e as memórias do velho cineasta. É o início de uma fase saudosista e meditativa. Não por acaso, as recordações levarão Salvador de volta à realidade concreta e à rotina do seu dia a dia. Curiosamente, a chave para o retorno ao trabalho e à reconstituição da alegria de viver está na retrospectiva histórico-afetiva feita pelo artista. O futuro está ligado intimamente ao passado e, nesse caso, o presente é uma ponte entre esses dois pontos da linha do tempo. Incrível! “Dor e Glória” é um filme espetacular. Se ele não está no nível de “A Pele que Habito” (La Piel que Habito: 2011), “Volver” (2005), “Fale com Ela” (Hable con Ella: 2002) ou “Tudo Sobre Minha Mãe” (Todo Sobre Mi Madre: 1999), para ficarmos em comparações restritas aos últimos vinte anos, ele também não está muito distante destes clássicos recentes de Almodóvar. Admito que saí da sessão de pré-estreia impressionado positivamente. Mais uma vez, o cineasta espanhol mais famoso da atualidade consegue encantar e surpreender a plateia. A novidade de “Dor e Glória” está justamente na inserção de elementos autobiográficos à trama ficcional. Como consequência, assistimos a uma história extremamente sensível e comovente. Em muitos momentos, esquecemos que estamos vendo Antonio Banderas na tela e pensamos estar diante do próprio Pedro Almodóvar. Além de Salvador Mallo ser um evidente alter-ego do diretor, as semelhanças da personagem com o cineasta verídico são incríveis. O corte de cabelo e as roupas usadas por Banderas em cena são parecidíssimos aos utilizados por Almodóvar na vida real. E o que dizer então dos gestos, da postura e da maneira de falar do ator, hein? Eles não poderiam ser mais parecidos aos de Pedro Almodóvar. Não à toa, a interpretação impecável do ator espanhol rendeu rasgados elogios da crítica e alguns prêmios. O mais importante deles foi o de Melhor Ator do Festival de Cannes deste ano. Por falar em Cannes, o filme também ganhou o prêmio francês de Melhor Trilha Sonora e concorreu à Palma de Ouro. Não falei que o longa-metragem era ótimo?! Ao final da sessão, o espectador se pergunta o quanto este filme é mesmo autobiográfico. Acho tal questão pertinente. Porém, sinceramente não sei respondê-la. Avessos às entrevistas, Almodóvar disse poucas coisas na pré-estreia espanhola do seu longa-metragem. Uma delas foi: “Este é o meu trabalho mais pessoal”. Para um bom entendedor, meia palavra (ou seria uma frase?) basta. O que posso afirmar precisamente é que os dramas de Salvador Mallo são parecidíssimos à trajetória artística e pessoal de Pedro Almodóvar. Ambos os cineastas (tanto o da ficção quanto o da realidade) vieram de famílias pobres e foram educados em colégios religiosos. Eram apaixonados por cinema e por literatura desde a infância. Se mudaram na juventude para Madri, onde passaram a trabalhar na indústria cinematográfica até se tornarem reconhecidos internacionalmente. São homossexuais e tiveram problemas, em algum momento da vida, com o vício em drogas (heroína). E perderam recentemente suas mães. É quase impossível não relacionarmos todos esses pontos convergentes! Contudo, também temos importantes diferenças entre Mallo e Almodóvar para apontar. O cineasta verídico, por exemplo, nunca sofreu de um grande período de bloqueio criativo (ao menos não ficamos sabendo disso!). O intervalo entre seus filmes tem se mantido entre dois e três anos desde o começo da sua carreira. E, até onde eu saiba, Almodóvar não sofre de dores crônicas nem é hipocondríaco como Mallo. Ou seja, se há uma forte relação (inspiração/associação) entre os dois cineastas, também existem diferenças que impedem que possamos classificar “Dor e Glória” como uma cinebiografia. Talvez a separação entre realidade e ficção seja uma tarefa muito mais difícil de ser feita do que supomos de imediato. Citei à pouco a atuação fenomenal de Antonio Banderas, mas é preciso elogiar o desempenho de todo o elenco. Julieta Serrano, Asier Etxendia e Asier Flores, principalmente, estão maravilhosos como a mãe, o antigo amigo e o pequeno Salvador, respectivamente. Na parte inicial do filme, admito que não considerei Penélope Cruz tão verossímil como a mãe do protagonista na época da infância dele. Cheguei até a pensar que isso se devia mais a imagem de musa que eu tinha da atriz e menos de sua atuação. Contudo, na última cena do longa-metragem há a explicação para esse pequeno ruído (que não tem, na verdade, nada de ruído!). O aspecto mais interessante de “Dor e Glória” está na mistura de realidade e de ficção. E não falo isso apenas pelos elementos autobiográficos do enredo. Dentro da própria trama ficcional, sonhos, lembranças, projeções e desejos do protagonista se embaralham com sua realidade objetiva. Assim, temos a interpolação de vários planos distintos. Parte das surpresas que esperam os espectadores está justamente na delimitação dessas várias camadas. De certa forma, podemos pensar que este filme é uma versão moderna, espanhola e mais comercial de “Oito e Meio” (Federico Fellini's 8 1/2: 1963), clássico de Federico Fellini. Ao mesmo tempo em que traz elementos novos ao seu cinema, Almodóvar continua sendo o bom e velho Almodóvar de sempre. Isso é o mais legal de ser constatado! Ao mesmo tempo em que se reinventa, ele não se descaracteriza totalmente. O espanhol não abre mão do apuro estético da fotografia do longa-metragem (desta vez sem exageros), do uso de efeitos visuais inusitados (outra vez muito bem utilizados), da trilha sonora impecável (responsabilidade novamente nas mãos do genial Alberto Iglesias) e do humor tragicômico (na medida certa). Acredito que “Dor e Glória” irá agradar tanto os velhos fãs do cinema de Pedro Almodóvar quanto aqueles que ainda não o conhecem ou que viraram o nariz para os trabalhos anteriores do espanhol. É muito bom ver um artista sexagenário que está longe da aposentadoria e que apresenta trabalhos tão bons quanto os do passado. Este longa-metragem estreará nos cinemas brasileiros no dia 13, quinta-feira da próxima semana. Vale a pena conferi-lo. Veja, a seguir, o trailer de “Dor e Glória”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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- Desafio Literário de junho/2019: Noah Gordon
Depois de estudarmos a literatura do português José Saramago, em abril, e da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em maio, o terceiro autor que será analisado no Desafio Literário deste ano é o norte-americano Noah Gordon. Assim, ao longo de junho, vamos mergulhar nas obras, na carreira e no estilo literário deste conceituado romancista. Gordon ficou mundialmente conhecido com a publicação de “O Físico” (Rocco), seu maior best-seller até hoje. Quem me indicou este escritor para as análises do Bonas Histórias foi minha amiga Débora, grande fã de sua literatura (beijo, Debinha!). Noah Gordon nasceu em Massachusetts, nos Estados Unidos, em 1926. Após estudar medicina por um semestre, acabou trocando-a pelo jornalismo. Formado neste curso em 1950, atuou como editor de revistas científicas até lançar sua primeira obra ficcional, “O Rabino” (Rocco), em 1965. Neste romance, Gordon narrava o drama de um judeu religioso que se apaixonou por uma mulher que não tinha a sua religião. O sucesso do livro que tratava de preconceitos religiosos foi imediato. “O Rabino” foi alçado à lista dos best-sellers norte-americanos e ganhou traduções para vários idiomas. Ainda trabalhando prioritariamente como jornalista, Noah Gordon lançou, em 1969, “O Comitê da Morte” (Rocco). A aceitação da obra pela crítica e pelo público foi tão positiva que, no início da década de 1970, Gordon abandonou o jornalismo e passou a se dedicar exclusivamente aos romances. “O Diamante de Jerusalém” (Rocoo), lançado em 1979, foi o primeiro título dessa nova fase. Contudo, a fama como escritor bem-sucedido chegaria para valer com “O Físico”, publicado em 1986. Essa narrativa apresenta a saga de um médico britânico da Idade Média com poderes mediúnicos. O livro se tornou febre na Europa e colocou o nome do seu autor definitivamente entre os principais da literatura contemporânea. Empolgado com a repercussão fenomenal de “O Físico”, Noah Gordon publicou mais dois livros com a continuação desta história: “Xamã” (Rocco), de 1992, e “A Escolha da Dra. Cole” (Rocco), de 1995. A série literária ganhou o nome de “Trilogia da Família Cole”. Já no século XXI, Noah Gordon publicou mais duas obras: “O Último Judeu” (Rocco), em 2000, e “La Bodega” (Rocco), em 2007. Hoje, aos 92 anos, o escritor está aposentado. Há muitos anos ele não escreve nada novo. Ao longo de sua carreira, Gordon conquistou importantes prêmios literários e alcançou o topo da lista dos mais vendidos em vários países, como Espanha, Itália e Alemanha. Curiosamente, o norte-americano é mais conhecido e lido na Europa do que em seu país natal. É esse o autor que vamos analisar no Bonas Histórias neste mês. Para acompanhar conosco os estudos sobre Noah Gordon, confira a programação de posts deste Desafio Literário: - 6 de junho - Análise de “O Rabino” - 10 de junho - Análise de “O Diamante de Jerusalém” - 14 de junho - Análise de “O Físico” - 18 de junho - Análise de “Xamã” - 22 de junho - Análise de “O Último Judeu” - 26 de junho - Análise de “La Bodega” - 30 de junho - Análise da Literatura de Noah Gordon Boas leituras e boas análises para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea #LiteraturaJudaica #DramaHistórico #NoahGordon
















