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- Livros: Manual do Paulistano Moderno e Descolado – A estreia de Gustavo Piqueira na ficção
Um dos passeios que mais gosto de fazer em São Paulo é pelos sebos. Quanto mais antigo for o estabelecimento e quanto maior for a quantidade de títulos à disposição melhor. Se nas livrarias conhecemos as últimas novidades do mercado editorial, nos sebos podemos voltar no tempo e descobrir preciosidades históricas. A lógica temporal fica por ora congelada e, assim, podemos mergulhar em uma espécie de túnel do tempo. As estantes e as obras dessas lojas nos levam para dez, vinte, cinquenta, cem, quinhentos, mil anos atrás. É uma delícia a experiência de desvendar as raridades do mundo dos livros. Estou abordando essa questão, pois foi em uma passadinha despretensiosa, nas últimas semanas do ano passado, pelo Sebo do Messias, no centro da cidade, que um título chamou minha atenção. O responsável por isso foi “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” (Martins Fontes), obra de Gustavo Piqueira. Curiosamente, este livro não é tão antigo assim. Ele foi publicado há aproximadamente onze anos. Não é muita coisa, se pensarmos bem. Por outro lado, uma década é tempo demais do ponto de vista mercadológico de quase todas as livrarias. Eu jamais o encontraria à pronta entrega, nem mesmo nas maiores redes do país. “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é a segunda publicação de Piqueira, um dos escritores mais divertidos, versáteis e inovadores da atualidade. É dele, por exemplo, “Odisseia de Homero - Segundo João Victor” (Gaivota), romance espetacular de 2014 (ainda vou postar uma análise dessa obra aqui no Blog Bonas Histórias – aguardem!), “Clichês Brasileiros” (Ateliê Editorial), o criativo panorama histórico do país feito a partir de imagens, título de 2013, e “Coadjuvantes” (Martins Fontes), romance sobre a paixão de um palmeirense na época do maior jejum de títulos do seu clube, livro de 2006. Dois elementos me atraíram para comprar (e ler) “Manual do Paulistano Moderno e Descolado”. Em primeiro lugar, ele é uma obra do início da carreira de um dos principais escritores contemporâneos do Brasil. Admito que sinto atração por conhecer os passos iniciais dos grandes autores nacionais e internacionais. O Desafio Literário é, talvez, a prova recorrente dessa minha mania. Além disso (aí vem o segundo motivo), adoro crônicas. Pelo título em questão, esta coletânea tem uma proposta bem interessante. Afinal, como sobreviver na cidade de São Paulo de uma maneira leve, descompromissada e bacana? Baita desafio, hein? Um guia deste tipo deve ser útil para muita gente. Publicado em 2007, “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” foi precedido por “Morte aos Papagaios” (Ateliê Editorial), coletânea de crônicas de Gustavo Piqueira sobre as tendências do design gráfico brasileiro. Antes de se lançar na literatura, Piqueira construiu uma bem-sucedida carreira como designer gráfico. Ele é sócio da Casa Rex, escritório com unidades em São Paulo e Londres, e conquistou vários prêmios nacionais nesta área. A inserção de Gustavo Piqueira no universo editorial começou quando ele passou a produzir ilustrações de livros infantis. Foram vários trabalhos desse tipo que ele desenvolveu para outros escritores e suas editoras. A partir da segunda metade dos anos 2000, Piqueira começou a escrever suas próprias ficções, algo que seria acelerado na década seguinte. Considerando “Morte aos Papagaios” como um livro técnico (da área do design gráfico), “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é a primeira empreitada do autor na ficção. Narrado em primeira pessoa, este livro aborda o dia-a-dia do seu protagonista, um bem-sucedido proprietário de um estúdio de design gráfico. Como é típico das crônicas, a personalidade do autor e de seu personagem principal (o narrador da trama) se confundem. Assim, quem narra o texto é o próprio Gustavo Piqueira. Quando o livro foi produzido, ele tinha entre 30 e 40 anos, era solteiro e vivia sozinho em um apartamento em Higienópolis. Se a vida profissional do rapaz ia muito bem, sua vida pessoal estava com alguns probleminhas... Através dos relatos do autor/narrador, acompanhamos a rotina típica de um paulistano comum: muito trabalho, a vida solitária em um grande centro urbano, relacionamentos amorosos breves e um tanto superficiais, amizades feitas com estranhos (conhecidos por meio da rotina da cidade), a gastronomia paulistana, as opções de lazer cultural, etc. Cada experiência descrita pelo protagonista/autor é uma fotografia da realidade da capital paulista e uma crítica bem-humorada ao estilo de vida que é levado por aqui. “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é um livro enxuto. Ele tem apenas 116 páginas. São 14 crônicas, incluindo as notas introdutórias e as considerações finais. A temática despretensiosa, as marcas de oralidade do texto e o humor escrachado de Gustavo Piqueira deixam a obra fácil e gostosa de ler, o que acelera ainda mais sua leitura. Precisei de pouco mais de três horas para concluí-la. Ou seja, é possível ler este título de ponta a ponta em apenas uma tarde ou mesmo em uma única noite. Para ser franco com vocês, fiquei muito decepcionado com esta publicação. Foram basicamente dois os aspectos que me frustraram mais. Em primeiro lugar, somos enganados pelo título da obra. Sim, enganados! “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” não é um guia sobre como viver na capital paulista. Como assim não é um guia? Não é! O autor está mais preocupado em narrar uma pequena história pessoal do que descrever como é a rotina na maior cidade do país. Ele até avisa na quarta-capa: “Não se deixe enganar pelo título. ‘O Manual do Paulistano Moderno e Descolado’ não traz dicas de moda, endereços cool nem nada do gênero. Muito pelo contrário. Guia de estilos às avessas, lança um olhar cástico, arguto e bem-humorado sobre o comportamento contemporâneo e sua busca obsessiva por moldes e tendências, que o autor habilmente distancia o tempo pretensioso à medida que costura suas observações a uma prosaica narrativa cotidiana”. Porém, note, ele não fala nada de que a publicação não é um guia. E mesmo se fizesse o alerta textualmente, por que colocar essa palavra no título? Me pareceu um tanto enganador aos leitores... Em segundo lugar, à medida que o livro avança, deixamos cada vez mais as crônicas sobre os bairros da cidade, os hábitos de vestimenta dos moradores, as opções de lazer e de cultura de São Paulo (que pontuam em poucos momentos os primeiros capítulos – essas questões quando aparecem ficam sempre em segundo plano) e passamos a acompanhar uma pequena novela romântica. Como assim?! O livro não era uma coletânea de crônicas? Pelo visto também fomos levados ao equívoco nesse sentido. A obra, no final das contas, é muito mais uma novela em primeira pessoa bobinha e fútil do que uma análise crítica e profunda dos hábitos e do dia-a-dia dos paulistanos. O que me deixou mais triste é que Gustavo Piqueira já se mostrava um excelente escritor nesta sua primeira incursão pela ficção. Se ele tivesse tido um cuidado maior com a proposta do livro, na certa teria tido muito mais êxito. Para tal, bastava mudar o título ou focar mais no desenvolvimento das crônicas (e menos na produção de uma novela). Gostei do estilo de escrita de Piqueira. Seu texto é leve, engraçado, franco, dinâmico e muito inteligente. É possível notar o quanto ele escreve bem. É uma delícia acompanhar sua narrativa, seus dramas e o conflito da sua história, por mais sem sentidos que eles se tornem. Como primeira ficção de um escritor tão conceituado atualmente, “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é decepcionante. Por outro lado, é bom ver o quanto Gustavo Piqueira evoluiu de lá para cá. Se eu fosse você não perderia tempo com esta pseudocoletânea de crônicas. Vá direto ao que Piqueira tem de melhor: seus romances dos últimos anos. “Odisseia de Homero - Segundo João Victor” e “Coadjuvantes” são imperdíveis. Por que não os comentei aqui no Bonas Histórias ao invés de produzir um post tão negativo a respeito de “Manual do Paulistano Moderno e Descolado”? Essa é uma boa pergunta que eu não sei a resposta. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #GustavoPiqueira #ColetâneadeCrônicas #Novela #LiteraturaBrasileira #Comédia
- Livros: Primeiras Estórias – Os mais populares contos de Guimarães Rosa
Quando falamos sobre os grandes livros de João Guimarães Rosa, uma das mais icônicas figuras do Modernismo Brasileiro, logo pensamos em “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira), “Sagarana” (Nova Fronteira) e “Corpo de Baile” (Nova Fronteira). É inevitável. Para boa parte da crítica literária, esses títulos apresentam as obras-primas do autor mineiro nos três principais gêneros literários por ele trabalhado – o romance com “Grande Sertão: Veredas”, os contos com “Sagarana” e as novelas com “Corpo de Baile”. Contudo, quando o assunto é popularidade, um quarto trabalho de Guimarães Rosa ganha relevância e, muitas vezes, bate os anteriores em número de leitores e em exemplares disponíveis à venda nas livrarias e para empréstimo nas bibliotecas. Estou me referindo à “Primeiras Estórias” (Nova Fronteira), a coletânea de contos lançada em 1962. Apesar de ser apenas o sexto livro publicado pelo escritor, posterior, portanto, a “Sagarana”, “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”, “Primeiras Estórias” adquire o status de obra introdutória à literatura roseana. Afinal, é por este livro que a maioria dos leitores consegue entender o intrincado jogo estético criado por Guimarães. Não por acaso, trata-se do título do autor mineiro mais lido nas escolas do país. Isso acontece porque, convenhamos, a literatura de Guimarães Rosa não é nada fácil. Suas invenções linguísticas, uma mistura da fala popular com a erudita, os intermináveis neologismos e as tramas ancoradas no realismo fantástico exigem muito do leitor. Prova disso é “Grande Sertão: Veredas”, um trabalho primoroso, mas muito difícil para um leitor recreativo. Em “Primeiras Estórias”, encontramos os principais elementos que caracterizaram a escrita de Guimarães Rosa. Porém, nas narrativas deste livro, tudo é um pouco mais palatável. Não há obra que sirva melhor como pontapé inicial no universo do mais original escritor mineiro de todos os tempos. Curiosamente, foi o que aconteceu comigo. Li pela primeira vez “Primeiras Estórias” na escola. Na faculdade, acabei relendo vários de seus contos. Posso afirmar que nas duas oportunidades achei o livro difícil (difícil, não impossível), mas gostei muito. Também li uma ou outra novela de “Corpo de Baile”. Por outro lado, somente muitos anos após formado e quanto já tinha me tornado um adulto com alguns fios de cabelo branco é que tive coragem para me aventurar nos demais livros de Guimarães. Aí, mergulhei em “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”. “Primeiras Estórias” possui 21 contos distribuídos em 160 páginas. O livro, em si, é fininho, mas sua leitura é lenta. Acho que demorei mais de três noites para concluir essa última releitura do título. As narrativas são: “As Margens da Alegria”, “Famigerado”, “Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha”, “A Menina de Lá”, “Os Irmãos Dagobé”, “A Terceira Margem do Rio”, “Pirlimpsiquice”, “Nenhum, Nenhuma”, “Fatalidade”, “Sequência”, “O Espelho”, “Nada e a Nossa Condição”, “O Cavalo que Bebia Cerveja”, “Um Moço Muito Branco”, “Luas-de-Mel”, “Partida do Audaz Navegante”, “A Benfazeja”, “Darandina”, “Substância”, “Tarantão, Meu Patrão” e “Os Cimos”. Em “As Margens da Alegria”, um menino do interior viaja com os tios para a cidade grande. Em meio às novidades da metrópole, o garoto se encanta com um peru que gruguleja no quintal da casa onde a família está. “Famigerado”, o segundo conto, temos um homem mal-encarado aparecendo no quintal de um sujeito pacato e instruído. O visitante cavalgou horas até ali só para descobrir o significado de uma palavra. “Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha” trata do drama de um homem que se vê obrigado a levar as duas mulheres de sua família até a estação de trem da cidade. De lá, as duas seguirão para o hospício de Barbacena. Maria, a protagonista de “A Menina de Lá”, era uma criança calada, que gostava de ficar sentada sozinha no quintal de casa. Chamada pela família de Nhinhinha, a garota dizia coisas que ninguém entendia. Isto até o dia em que ela começou a fazer milagres. O quinto conto de “Primeiras Estórias” é “Os Irmãos Dagobê”. Nele, Damastor, o irmão mais velho e cruel dos Dagobê, foi brutalmente morto. Em seu enterro, aparece Liojorge, o assassino. A tensão entre os presentes é total. O que Doricão, Derval e Dismundo, os irmãos de Damastor, farão com Liojorge? “A Terceira Margem do Rio” apresenta o drama de um pai de família correto e trabalhador que decide viajar em uma canoa em meio ao rio. Sem nunca mais aparecer em uma das margens, o homem deixa sua família perplexa com seu comportamento. “Pirlimpsiquice” retrata uma turma de alunos que inicia os ensaios de uma peça teatral na escola. Com vergonha do conteúdo do espetáculo, os garotos inventam uma trama diferente para os demais coleguinhas. Em “Nenhum, Nenhuma”, o oitavo conto, um menino encontra uma casa velha no meio do mato. Ao adentrá-la, ele conhece uma Moça, um Moço, um Velho e uma Velhinha. O drama daquela gente mexerá muito com o pequeno visitante. “Fatalidade” fala de Zé Centeralfe. Sua esposa está sendo assediada por um valentão local. Sem saber mais o que fazer, Zé Centeralfe pede a ajuda de um homem erudito. Em “Sequência”, uma vaquinha vermelha foge da fazenda de Pedra. Seo Rigério, o proprietário, organiza uma busca do animal. Um de seus filhos é o responsável pela captura da vaquinha. “O Espelho” mostra a aflição de um homem ao ver seu reflexo. A imagem refletiva no espelho é um mistério para ele. “Nada e Nossa Condição” é a história de Man Antônio. Ele sempre fora um fazendeiro pacato e melancólico. A viuvez acabou intensificando essas características. O décimo terceiro conto do livro é “O Cavalo que Bebia Cerveja”. Nele, Reivalino Belarmino é um jovem que trabalha para Seo Giovânio, um italiano que adquiriu terras no Brasil. Reivalino odeia seu patrão. Obeso, Giovânio compra muitas garrafas de cerveja e diz que elas são para seu cavalo, pois não bebe uma gota de álcool. Em “Um Moço Muito Branco”, um misterioso rapaz aparece na comarca de Serro Frio após uma forte tempestade. Sem memória e sem falar a língua dos moradores, o rapaz provoca a curiosidade de todos, sendo adotado por Hilário Cordeiro, um homem altruísta. “Luas-de-Mel” retrata a conduta de Joaquim Norberto. Proprietário da fazenda Santa-Cruz-da-Onça, o narrador da trama recebe uma carta de um velho amigo. Na mensagem, Seo Seotaziano pede que o fazendeiro dê abrigo a um jovem casal que pretende se casar escondido. Em “Partida do Audaz Navegante”, quatro crianças - as irmãs Ciganinha, Pele e Brejeirinha, e o primo Zito – brincam no sítio enquanto discutem as aventuras do Audaz Navegante, personagem de uma história ficcional. Mesmo apaixonado por uma moça, o marinheiro embarcou em direção a terras longínquas e desconhecidas. “A Benfazeja”, o décimo sétimo conto, enfoca Mula-Marmela, uma mulher velha, feia e pobre. Ela matou o marido e agora cuida do filho dele, um rapaz cego. Mula-Marmela é desprezada pela população pelo crime que cometeu. Mereceria ela alguma piedade? “Darandina” fala de um homem bem vestido que é pego em flagrante roubando uma caneta. Na fuga, ele é perseguido por uma multidão ensandecida e sobe em uma árvore. Lá em cima, passa a se comportar como um louco. Sionésio, um importante fazendeiro, se apaixona por Maria Exita, uma de suas empregadas em “Substância”. Nessa história, o protagonista precisa decidir entre o amor que sente pela moça ou pelo preconceito social que os separa. “Tarantão, Meu Patrão” trata da surpreendente vitalidade de um fazendeiro idoso. Após recrutar uma turma de jovens desocupados, ele parte para a cidade com o objetivo de matar seu médico. E em “Os Cismos”, o último conto da coletânea, o menino da primeira história deste livro retorna mais cedo daquela viagem pela cidade grande. Em casa, descobre que a mãe está muito doente. As narrativas de “Primeiras Estórias” são muito boas. Várias delas podem ser consideradas obras-primas de nossa literatura. As minhas favoritas são “As Margens da Alegria”, “A Menina de Lá”, “Famigerado”, “A Terceira Margem do Rio”, “Luas-de-Mel” e “Tarantão, Meu Patrão”. O primeiro elemento que chama a atenção neste livro é a pluralidade de estilos narrativos e de pontos de vista. Guimarães Rosa navega pelo drama psicológico, pela sátira social, pelo realismo-fantástico, pela anedota e pela reflexão filosófica. Seus protagonistas são crianças, adultos, idosos, homens, mulheres, pessoas ricas e indivíduos pobres. Em comum entre os contos temos o cenário. Apesar de ele não ser especificado, é nítido que as narrativas se passam no interior de Minas Gerais. Esta é a região retratada tipicamente pela literatura roseana. O estilo tradicional de Guimarães Rosa está todo ali: suas invenções linguísticas, a criação de neologismos, a mistura do popular com o erudito e os narradores com fortes cargas dramáticas. Trata-se de uma leitura um tanto difícil, mas muito mais fácil do que encontramos nos outros livros do autor. Para entender plenamente as histórias e o jeito como as narrativas são construídas, o leitor precisa ler os contos com certa calma e muita atenção. O trabalho vale a pena. Guimarães Rosa prova ser um dos grandes escritores da nossa história ao emocionar o leitor de maneiras diferentes. Cada um dos contos de “Primeiras Estórias” tem uma abordagem distinta. Somos agraciados com narrativas jocosas, românticas, patéticas, sarcásticas, misteriosas, socialmente engajadas, psicológicas e de aventura. É um livro realmente saboroso. Uma vez concluído e compreendido, o leitor se sentirá encorajado a ler os demais materiais deste incrível escritor. Tomara que isso aconteça com você também. Pelo menos comigo foi assim. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JoãoGuimarãesRosa #ColetâneadeContos #Modernismo #LiteraturaBrasileira
- Livros: A Visita Cruel do Tempo – O romance inovador de Jennifer Egan
Ainda estamos no comecinho do ano e, mesmo assim, já posso afirmar com certeza absoluta que um livro estará, em dezembro, na lista das 10 melhores leituras de 2019 do Bonas Histórias. Para quem não sabe ou não reparou, fazemos um ranking anual com as melhores obras lidas e analisadas pelo blog. A seleção também inclui filmes, exposições e peças teatrais que foram destaques ao longo da temporada. Tais listagens estão disponíveis para consulta na seção Recomendações. A publicação favorita para integrar o ranking de 2019 é “A Visita Cruel do Tempo” (Intrínseca), romance da norte-americana Jennifer Egan. Li este livro no último final de semana e o achei simplesmente espetacular. Trata-se de uma das obras ficcionais mais inovadoras e surpreendentes dos últimos anos. Até agora estou encantado com esta experiência de leitura. Publicado em junho de 2010, “A Visita Cruel do Tempo” é o quinto livro de Jennifer Egan. Até a chegada deste romance às livrarias, a autora já havia lançado três romances – “O Circo Invisível” (Intrínseca), de 1995, “Olhe Para Mim” (Intrínseca), de 2001, e “O Torreão” (Intrínseca), de 2006 – e uma coletânea de contos – “Emerald City” (Sem publicação no Brasil), de 1993. Contudo, é inegável que “A Visita Cruel do Tempo” seja o ponto mais alto da carreira da norte-americana, ao menos até este momento. Com este romance, ela conquistou os principais prêmios do mercado editorial norte-americano, recebeu incontáveis avaliações positivas dos veículos de imprensa e vendeu os direitos autorais da obra para a produção de uma série televisiva. “A Visita Cruel do Tempo” recebeu, no final de 2010, o National Book Critics Circle Awards, e, no ano seguinte, o Pulitzer de Ficção como melhor romance. Vale lembrar que o National Book Critics Circle Awards e o Pulitzer são duas das mais importantes premiações literárias dos Estados Unidos. A partir daí, a obra de Egan não parou mais de colecionar prêmios. Entre as conquistas, podemos citar o Los Angeles Times Book Prize e o Tournament of Books. A crítica literária também se desmanchou em elogios. Jennifer Egan foi retratada como uma autora extremamente talentosa e muitíssimo inovadora ao misturar gêneros literários (“A Visita Cruel do Tempo” pode ser visto tanto como um romance quanto uma coletânea de contos) e por propor experimentações estéticas aparentemente absurdas (há, por exemplo, um capítulo inteiro deste livro que é apresentado por meio de slides de PowerPoint, recurso preferido de uma das personagens). Incrível! Entre os críticos literários mais conceituados dos Estados Unidos, muitos apontam Egan como um dos nomes mais talentosos de sua geração. Em relação à adaptação desta trama para a televisão, infelizmente, o acordo com HBO foi desfeito em 2013. Logo depois da premiação do Pulitzer, em 2011, o canal de TV por assinatura fez um acordo com Egan e sua editora para produzir uma série. Contudo, dois anos depois, a empresa viu o quão difícil seria esta empreitada. A graça de “A Visita Cruel do Tempo” não está, propriamente, em sua história, mas sim na forma como ela foi contada ao leitor. A autora inverteu algumas lógicas da narrativa (foco narrativo, espaço temporal, definição de protagonistas e personagens secundários, etc.), tornando seu romance uma experiência de leitura única. Como filmar isso? Impossível! Pelo visto, a HBO demorou dois anos para descobrir o quão inviável era essa empreitada. Afinal, qual é o enredo deste livro de Jennifer Egan? Acho que essa é a pergunta mais difícil de ser respondida. De modo geral, o romance gira em torno de Sasha e Bennie Salazer, mas não podemos dizer que eles sejam os únicos protagonistas desta trama (um dos primeiros elementos da narrativa que a autora subverte – não há um protagonista e sim vários; e não há, à princípio, qualquer antagonista). No primeiro capítulo, chamado de “Achados e Perdidos”, conhecemos Sasha, uma jovem cleptomaníaca que mora em Nova York e trabalha como assistente de Bennie Salazar, um famoso e bem-sucedido produtor musical. A história se passa no tempo presente e é narrada em terceira pessoa. Sasha está no consultório de seu psicanalista, o Dr. Coz. Nessa consulta, a moça narra o primeiro encontro que teve com um rapaz chamado Alex. O fato mais importante da noite foi a tentativa de roubo de uma carteira por Sasha. Ela tentou furtar uma mulher no banheiro do hotel onde jantava com Alex. “Ouro que Cura” é o segundo capítulo do romance. Nesse momento, a história foca em Bennie Salazar. A narração continua sendo feita em terceira pessoa. O produtor musical está separado da primeira esposa e tem um filho adolescente, Christopher. Seu drama está na impotência sexual que vem sofrendo nos últimos anos. Como tratamento, Bennie passou a consumir ouro em pó, um possível afrodisíaco. A angústia pela doença e a melancolia por viver sozinho fazem o executivo dar em cima de sua bela assistente. Bennie é apaixonado por Sasha, que recusa todas as investidas do patrão. No terceiro capítulo, “Não Estou Nem Aí”, a trama regride até a década de 1980. Em São Francisco, Bennie Salazar é um jovem adolescente que tem uma banda de punk, a The Flaming Dildos, com seu melhor amigo, Scotty Hausmann. O grupo se apresenta em um clube à noite e conhece Lou, um produtor musical muito rico e vários anos mais velho. Ele namora Jocelyn, a amiga adolescente de Bennie Salazar e Scotty Hausmann. O capítulo é narrado em primeira pessoa por Rhea, uma outra amiga dos garotos. Em “Safari”, a quarta parte de “A Visita Cruel do Tempo”, voltamos a narração em terceira pessoa. Nessas páginas, o leitor é levado até o ano de 1973, quando Lou viaja de férias com seus filhos adolescentes (Rolph e Charlene), com sua nova namorada (Mindy – uma jovem que tem quase que a idade dos filhos dele) e alguns integrantes da banda mais famosa da sua produtora. O grupo passa algumas semanas na África, onde pode fazer um emocionante safari. No quinto capítulo, Jocelyn e Rhea, amigas de infância de Bennie Salazar, visitam Lou no hospital. Ele está muito velho e doente. Quem narra a trama agora é Jocelyn. Aparentemente, a história volta ao tempo presente. Entendeu o motivo de ser tão difícil explicar qual é o enredo deste romance? Cada capítulo de “A Visita Cruel do Tempo” aborda a perspectiva de uma personagem que foi citada anteriormente. A história pode avançar ou regredir no tempo. A sensação, em alguns momentos, é que estamos lendo uma coletânea de contos. Contudo, as intersecções entre os fatos e as personagens amarram o texto, dando o aspecto final de romance à obra. Esta é a primeira invenção narrativa de Jennifer Egan. Outra particularidade do livro é não ter um ou dois protagonistas previamente definidos, como habitualmente vemos na literatura ficcional. Aqui, a maioria das personagens ganha, em alguns momentos, um destaque, tornando-se por ora protagonistas. Entretanto, em outras partes da trama, essas mesmas figuras adquirem um papel secundário, dependendo da perspectiva e do narrador selecionados. Isso ocorre até mesmo com Sasha e Bennie Salazer, os possíveis protagonistas do romance. É muito legal esse vai e volta. Além disso, o que dizer das inusitadas opções de foco narrativo do livro, hein? Alguns capítulos de “A Visita Cruel do Tempo” são narrados em primeira pessoa (em cada momento, alguém diferente descreve sua história). Em outros, temos relatos em terceira pessoa (a mudança de perspectiva dá a tônica da trama do início ao fim). E encontramos até mesmo narração em segunda pessoa (como no capítulo 10, “Fora do Corpo”). Quem nunca teve a oportunidade de ver uma narrativa em segunda pessoa (algo raro de se encontrar na literatura), precisa ler o capítulo 10 (na verdade, você, leitor que gosta de propostas ousadas, precisa ler este livro inteiro!). Tudo é possível nesta obra! O leitor não imagina nunca o que virá pela frente. É uma surpresa atrás da outra que nos deixa quase sem fôlego. Outro aspecto inusitado, que deixa a experiência de leitura ainda mais surpreendente, é as diferentes formas de escrita (gêneros textuais) que as personagens/narradores se utilizam. No primeiro capítulo, por exemplo, temos uma conversa entre uma paciente e seu psicanalista. Mais tarde, na metade do livro (mais especificamente no capítulo 9, “Um Almoço em Quarenta Minutos – Kitty Jackson Revela Tudo sobre Amor, Fama e Nixon!”), lemos um artigo de jornal desenvolvido por uma das personagens do romance, Jules Jones, um jornalista. Este capítulo do livro é a própria matéria desenvolvida por Jules. Maravilhoso! Ainda mais incrível é o penúltimo capítulo de “A Visita Cruel do Tempo”. Já na parte final do romance (Capítulo 12 “Grandes Pausas do Rock and Roll”), vemos o relato de um menino, Alison Blake, filho de Sasha, por meio de um PowerPoint. Sim, é isso o que você leu. Ao invés de um texto normal, temos nessa parte os slides produzidos pelo garoto de 12 anos (ele tem a mania de produzir PowerPoint). Curiosamente, conseguimos entender seus dramas por meio dos famosos bullet points das apresentações. E quem foi que disse/pensou que não é possível contar uma boa história em PowerPoint, hein? Outro aspecto que Jennifer Egan brinca é com as variáveis de tempo e lugar. O livro regride no tempo e avança no tempo de um capítulo para o outro. A história começa no presente, depois volta para as décadas de 1970 e 1980 e, no final, avança um pouco no futuro (quinze anos à frente de hoje), dando um caráter de ficção científica para o romance. E todas essas mudanças se dão de uma página para outra. Incrível! As alterações temporais são acompanhadas pelos saltos geográficos. As histórias do livro se passam em Nova York, em San Francisco, na África e na Europa (Nápoles). Para completar a experiência estética do leitor, tudo isso é acompanhado por um sensível relato musical, que confere ainda mais graça e charme à narrativa. Quem gosta de música, poderá viajar pela história musical do Rock norte-americano. E por falar em experiência, repare também no maravilhoso acabamento gráfico que a editora Intrínseca deu à versão brasileira do livro de Jennifer Egan. Desde a capa e as orelhas até a diagramação e o projeto gráfico, tudo em “A Visita Cruel do Tempo” é diferenciado. Com 333 páginas, o romance é do tipo que convida o leitor a devorá-lo. Foi o que aconteceu comigo no último final de semana. Concluí sua leitura em apenas duas tardes. De alguma maneira, ao final da leitura, compreendemos o título da obra e vemos que o grande protagonista do romance é na verdade uma figura oculta e misteriosa, que permeou discretamente todos os relatos. Ele é o responsável por levar as personagens ao ápice e ao ocaso. É esse elemento intangível que está presente em cada segundo de nossas vidas, que, em alguns momentos, nos dá e, mais à frente, nos arranca sem qualquer justificativa. É ele quem faz o ciclo natural da vida girar, conferindo um final quase sempre trágico e/ou melancólico às histórias (tanto as ficcionais quanto as verídicas). Não falei que “A Visita Cruel do Tempo” era uma publicação memorável e que merecia, desde já, integrar a lista de melhores leituras de 2019 do Blog Bonas Histórias? Depois desta leitura, admito que fiquei com uma vontade danada de inserir Jennifer Egan como uma das escritoras a ser analisada pelo Desafio Literário. Quem sabe em 2020 eu não a coloque como um dos alvos de meu estudo. Isso só não será possível em 2019, porque neste ano quero investigar em profundidade outro autor norte-americano, Noah Gordon. Só por isso vou preterir Egan neste momento. Não perca as novidades do Bonas Histórias deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JenniferEgan #Romance #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaContemporânea
- Exposições: A Biblioteca à Noite – Passeio virtual pelas bibliotecas históricas
Em dezembro, fui a uma exposição interessantíssima no Sesc Av. Paulista. Muito provavelmente, este é um dos passeios mais divertidos à disposição de quem passa as férias de Verão na cidade de São Paulo. “A Biblioteca à Noite” é a mostra que promove a paixão pela literatura por meio da realidade virtual. A proposta é levar o participante para dentro das principais bibliotecas da história. Tal jornada só é possível com a união entre a tecnologia de ponta e a sensibilidade artística de quem ama os livros. Inspirada na obra homônima do escritor argentino naturalizado canadense Alberto Manguel, “A Biblioteca à Noite” propõe uma dupla viagem. Em primeiro lugar, entramos em uma réplica da biblioteca particular de Manguel. O artista mantinha em sua casa em Paris, cidade que Alberto Manguel escolheu para viver, um cômodo com mais de 35 mil títulos. Somente quando colocamos os pés no local é que conseguimos constatar o charme e a magia que somente uma boa biblioteca é capaz de transmitir para os fãs de literatura. Ao final da visita à biblioteca residencial do escritor argentino, uma estante se abre na parede como em uma boa história de suspense. Aí somos levados a outra sala, chamada de Floresta. No novo ambiente e já usando os equipamentos de realidade virtual, viajamos para dez das mais icônicas bibliotecas da humanidade. A maioria delas é real, mas temos também uma ficcional. São elas: Biblioteca da Abadia de Admont (Áustria), Biblioteca de Nautilus (do romance “20 mil Léguas Submarinas”), Templo de Hase-dera (Japão), Biblioteca do Parlamento de Ottawa (Canadá), Biblioteca de Vasconcelos (México), Biblioteca Nacional e Universitária (Bósnia e Herzegovina), Biblioteca Real (Dinamarca), Biblioteca Sainte-Geneviève (França), Biblioteca de Alexandria (Egito) e Biblioteca do Congresso (Estados Unidos). O passeio virtual pelas bibliotecas é incrível. De fato, nos sentimos caminhando por esses lugares. O clímax ocorre quando vemos a Biblioteca de Alexandria pegar fogo, quando sentimos os bombardeios à Biblioteca de Sarajevo ou quando contemplamos a vista panorâmica da Biblioteca do Congresso norte-americano. Ao menos para mim, esses foram os momentos mais emocionantes. Na certa, você poderá descobrir outros que vão fazê-lo(a) ficar sem fôlego. “A Biblioteca à Noite” é uma exposição que foi desenvolvida no Canadá, em 2016, para comemorar o décimo aniversário da Biblioteca e Arquivos Nacionais de Quebec. Já no ano seguinte, ela passou a ser apresentada em outras partes do mundo, chegando ao Brasil em 2018 com o apoio do Sesc. Sua concepção é uma parceria entre Alberto Manguel e o canadense Robert Lepage, artista multimídia e fundador da Ex Machina, empresa especializada em promover espetáculos culturais por meio da realidade virtual. De modo geral, Manguel entrou com o conteúdo textual (originado do seu livro) e Lepage com a tecnologia. O resultado é mesmo maravilhoso! Se na primeira parte você já fica emocionado por estar em uma biblioteca tão bonita (a ambientação é parecida aos escapes games), é na Floresta em que a experiência de visitação atinge níveis surpreendentes. Esqueça as velhas tecnologias de realidade virtual que vagamente emulavam os lugares e os ambientes. Aqui, você viajará mesmo para o roteiro selecionado. A experiência de percorrer as melhores bibliotecas do mundo é magnífica, real e fidedigna. Tão bom quanto o passeio em si é o atendimento da equipe do Sesc. Todos são muito educados e solícitos, o que torna a exposição ainda mais divertida e emocionante. Os elogios à organização, à limpeza, à manutenção dos equipamentos e à pontualidade dos horários não são exagerados. Sei que o correto era ver esses itens como questões obrigatórias de qualquer evento cultural, mas, infelizmente, a realidade não é assim em nosso país. A exposição “A Biblioteca à Noite” foi inaugurada no começo de outubro de 2018 e estará em cartaz, no quinto andar do Sesc Av. Paulista, até a segunda semana de fevereiro. Portanto, os interessados devem se apressar. Eles têm menos de um mês para conhecer a mostra. A entrada é gratuita e os agendamentos devem ser feitos pelo site do Sesc. É importante saber que as visitas à “A Biblioteca à Noite” exigem reserva prévia. O tempo total de visitação varia entre uma e uma hora e meia. Porém, não se surpreenda se você tiver vontade de passar algumas horas ali. O difícil é largar o equipamento no final da exposição e sair da sala Floresta. Quem gosta de literatura se sentirá como Jake Sully, protagonista do filme “Avatar” (2009), quando ele precisava abandonar Pandora. Para você entrar no clima, veja a entrevista concedida por Robert Lepage à equipe do Sesc e algumas imagens da exposição brasileira: No caso de alguém se interessar pela leitura do livro de Alberto Manguel, a má notícia é que a edição brasileira de “A Biblioteca à Noite” (Companhia das Letras) está esgotada na maioria dos lugares. Parece que há alguns exemplares disponíveis na Amazon. Do contrário, só mesmo procurando a obra em sebos ou importando a edição portuguesa (da Editora Tinta da China). Não perca este passeio! “A Biblioteca à Noite” propicia uma experiência inesquecível aos seus participantes. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #AlbertoManguel #RobertLepage #Exposição #Mostra #Biblioteca #Literatura
- Livros: Manual do Futuro Redator – As dicas de Sérgio Calderaro para os jovens escritores
Há alguns meses, procurando na estante de casa um livro que me auxiliasse no trabalho de consultoria editorial que realizo com jovens escritores, encontrei “Manual do Futuro Redator” (Novatec). Esta obra de Sérgio Calderaro é originalmente direcionada aos estudantes que desejam ingressar na carreira de redator publicitário. Isso explica sua presença em minha biblioteca. Minha primeira profissão foi a de publicitário. Sem esperanças que este título fosse me ajudar agora, comecei a relê-lo. E para minha grande surpresa, logo nas primeiras páginas de “Manual do Futuro Redator” percebi que o livro se encaixava perfeitamente na minha nova necessidade: ajudar os futuros escritores no dia a dia do ofício do fazer literário. Não tinha parado para pensar sobre isso ainda, mas os desafios que os redatores têm são muito parecidos aos que escritores, jornalistas e produtores de conteúdo possuem em seus cotidianos. Assim, toda vez que a palavra “redator” aparecia no livro, automaticamente a trocava, em minha mente, por “escritor”. O mesmo pode ser feito alterando o termo original por “jornalista” ou “produtor de conteúdo”. A essencia da obra e as dicas do autor para os novatos que desejam trabalhar com a escrita são mantidos intactos. Publicado em 2015, “Manual do Futuro Redator” é um livro fácil de ler e gostoso de ser acompanhado. Sérgio Calderaro apresenta as técnicas da profissão, dá dicas de comportamento e narra alguns casos saborosos de quem trabalha há três décadas em agências de publicidade, redações de jornal, editoras e departamentos de comunicação. Além disso, Calderaro foi professor de Redação Publicitária e de Literatura e Cultura Brasileira em universidades no exterior. Para completar, atuou na Embaixada do Brasil na Espanha como Assessor de Imprensa e Divulgação. Atualmente, ele mora em Florianópolis, onde é diretor de criação em uma agência de publicidade. O livro possui 115 páginas e está organizado em 19 capítulos. Ao final da obra, há ainda seis artigos escritos pelo autor que foram originalmente publicados em blogs. Essa última parte serve mais como complemento ao que já foi apresentado nos capítulos anteriores. O primeiro aspecto que chama a atenção do leitor em “Manual do Futuro Redator” é a linguagem utilizada por Sérgio Calderaro. O autor escreve usando e abusando da oralidade. O recurso é interessante porque parece que estamos ouvindo o escritor falar. Dessa maneira, o tom do livro adquire um aspecto de conversa de bar entre amigos. Gostei muito disso. O texto fica ágil, leve e muitíssimo engraçado, sem que se perca a profundidade do que é discutido. Apesar de algumas divagações desnecessárias que Calderaro faz e algumas fugidas de tema, o livro é bem amarrado. Em algumas partes, a sensação de conversa se desfaz e, aí, o que temos é quase que uma imersão no fluxo de consciência do autor - outro expediente muito bem utilizado. Gostei também da didática utilizada na composição do texto. Além de exemplos concretos e da apresentação de “causos” da profissão, o autor dá exercícios para o leitor praticar e revela erros e acertos que teve ao longo dos anos. Assim, Calderaro fala abertamente de pontos essenciais e polêmicos da sua profissão. Ele parece não ter medo de resvalar em nenhum tema aparentemente complicado. Também relaciona os elementos que dificultam o trabalho de quem atua escrevendo com muita facilidade e indo diretamente ao ponto, sem rodeios. Alguns assuntos debatidos por Sérgio Calderaro nesta obra são: importância de ler muito e de tudo; aprofundamento nas regras gramaticais (mesmo que depois você vá passar por cima delas); gostar de ler e de reler em voz alta tudo o que você escreve; preocupação estética e não apenas narrativa; sonoridade e o ritmo do texto são aspectos essenciais da boa escrita; necessidade de dar repouso ao texto; relação saudável entre quem escreve e quem faz a revisão do material; relação do texto com o título – circularidade; formas de se produzir texto com grande riqueza intertextual; o quanto é verídica ou falsa a relação do uso de bebidas e drogas com a promoção da criatividade e o incentivo à escrita; sacada genial versus processo braçal de construção do texto; onde encontrar elementos para enriquecer o texto e as narrativas; e desenvolvimento constante do ofício de escritor/redator/jornalista/editor/produtor de conteúdo. Incrível como o autor fala de tanta coisa importante em tão pouco espaço. A escolha dos temas abordados ao longo dos capítulos é, ao lado da linguagem informal, o ponto alto desta obra. Mesmo sendo um livro excelente, “Manual do Futuro Redator” possui sim alguns pontos negativos. Os artigos apresentados na parte final, por exemplo, pareceram a mim uma encheção de linguiça. Eles falam muitas vezes da realidade da Espanha, país onde o escritor vivia quando escreveu a obra, e dialoga pouco ou quase nada com o conteúdo anterior, discutidos nos capítulos. Em algumas passagens, Calderaro se preocupa mais com a construção de referências intertextuais do que com o assunto principal abordado. Ou seja, dá umas viajadas (ou seriam escorregadas?). Contudo, esses deslizes são pontuais e não atrapalham em nada a relevância de “Manual do Futuro Redator”. Se você está pensando em trabalhar com a escrita ou já iniciou nesse ofício, saiba que esta obra é uma leitura obrigatória. Eu faço os escritores que trabalham comigo lerem-na ao menos uma vez. Quase sempre eles adoram o texto de Sérgio Calderaro e me agradecem a indicação. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ProduçãoLiterária #FazerLiterário #SérgioCalderaro #NãoFicção #EscritaCriativa #LiteraturaBrasileira
- Recomendações: Retrospectiva - Melhores livros do Bonas Histórias em 2018
Em 2018, li 140 livros, uma média de 12 títulos por mês ou 3 por semana. Esse número é 50% superior ao do ano retrasado (em 2017, foram 90 publicações). Das obras lidas no ano passado, metade (exatamente 70) foi analisada no Bonas Histórias e esses comentários estão disponíveis aos nossos leitores aqui no blog. Podem-se encontrar esses posts na seção de Críticas Literárias e na coluna do Desafio Literário. Outra parte (12 livros) deu origem aos textos da segunda temporada do Talk Show Literário. Algumas obras lidas foram de materiais que estudei na Pós-Graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz e no Projeto de Iniciação Científica da área de Letras que fiz no Centro Universitário do Sul de Minas. Esses títulos estão presentes direta ou indiretamente na seção Teoria Literária. Também li publicações que, depois, achei que não valiam a pena serem comentadas no Bonas Histórias. De qualquer forma, minha lista de leituras do ano passado inclui uma variedade de obras da literatura brasileira e da internacional, livros de ficção e de não ficção, clássicos e contemporâneos e títulos comerciais e cults. Quem acompanha o blog já deve ter percebido que a palavra-chave aqui é variedade. Nosso lema é: literatura sem frescura e sem preconceito! Estou falando (escrevendo?) sobre isso porque, hoje, tomei coragem e formulei o ranking das leituras que mais gostei de ter feito em 2018. Sei o quanto desenvolver uma lista deste tipo é algo subjetivo, pessoal e propenso a injustiças. Mesmo ciente desse viés, segui em frente em minha empreitada. Afinal, a lista dos melhores do ano passado já é uma tradição de janeiro do Bonas Histórias e, inclusive, compõe o conteúdo da coluna Recomendações. A seguir, apresento o ranking dos 15 livros lidos em 2018 que mais gostei. Nela, temos obras de J. M. Coetzee, Rubem Fonseca, Patricia Highsmith, Anthony Burgess, Reinaldo Moraes, Xinran, Herta Müller, Fernando Sabino, Blaine Harden, Tiago Novaes, Juan Carlos Onetti e Albert Camus. Confira a lista completa logo abaixo: 15o lugar: "O Estrangeiro" (Record) – Albert Camus (França) - 1942. “O Estrangeiro” é o livro mais importante de Albert Camus, filósofo e escritor francês nascido na Argélia. Há muitos críticos literários que consideram esta obra como uma das principais do século XX. “O Estrangeiro” é uma novela filosófica ambientada em meio aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Camus mistura críticas sociais e análises negativistas sobre o caráter humano em uma trama psicológica densa e seca. 14o lugar: "A Vida Breve" (Planeta Literário) – Juan Carlos Onetti (Uruguai) - 1950. "A Vida Breve" é o romance de Juan Carlos Onetti que dá início à saga literária de Santa María. Este livro do uruguaio é inovador porque inverte vários dos pressupostos básicos da narrativa (focos narrativos distintos e derrubada das barreiras entre realidade e ficção) e ainda acrescenta algumas outras novidades (debate metalinguístico da criação literária feita pelas personagens e a intersecção de tramas). 13o lugar: “O Cio da Terra - Vida e Tempo de Michael K” (Best Seller) – J. M. Coetzee (África do Sul) - 1983. "O Cio da Terra - Vida e Época de Michael K" é um dos romances mais premiados de J. M. Coetzee. Este livro do sul-africano conquistou o Prêmio Booker, um dos mais importantes da língua inglesa. A obra retrata a viagem de um sul-africano negro e pobre de 31 anos pelo seu país durante o Apartheid. O drama do protagonista é intensificado pelo preconceito social e pelo injusto sistema político da África do Sul. 12o lugar: "Estado Vegetativo" (Callis) - Tiago Novaes (Brasil) - 2007. "Estado Vegetativo" é o romance de estreia de Tiago Novaes. Publicado em 2007, a obra é um romance noir com boas doses de filosofia, intertextualidade literária, ação e suspense. Nesta trama policial original e surpreendente, o autor paulista une teoria literária sobre os romances policiais com um caso fictício de investigação criminal envolvendo um serial killer na cidade de São Paulo. O resultado é primoroso. 11o lugar: "A Raposa já era o Caçador" (Biblioteca Azul) - Herta Müller (Alemanha) - 1992. "A Raposa já era o Caçador" é o romance angustiante de Herta Müller. Neste livro, a escritora romeno-alemã apresenta o drama de uma jovem professora de música perseguida pela polícia do ditador Nicolae Ceausescu na Romênia comunista da década de 1980. A história tem fortes elementos autobiográficos (uma característica da literatura de Müller) pois a própria autora padeceu desse problema em sua juventude. 10o lugar: "Lúcia McCartney" (Agir) – Rubem Fonseca (Brasil) - 1969. É difícil dizer qual foi a melhor coletânea de contos de Rubem Fonseca: "Lúcia McCartney", de 1969, ou “Feliz Ano Novo”, de 1975. Nesse embate, acabei optando pela primeira. "Lúcia McCartney" conquistou o Prêmio Jabuti de 1970 como a melhor obra de seu gênero e se transformou no primeiro best-seller do autor mineiro. O livro revolucionou a maneira de se produzir as narrativas curtas no Brasil. 9o lugar: "Fuga do Campo 14" (Intrínseca) – Blaine Harden (Estados Unidos) - 2012. "Fuga do Campo 14" é a biografia do norte-coreano Shin Dong-hyuk. Escrito pelo jornalista norte-americano Blaine Harden, o livro narra os dramas do primeiro e, até o momento, único prisioneiro de um campo de trabalhos forçados do regime ditatorial de Pyongyang a conseguir escapar da Coreia do Norte. A saga de Shin Dong-hyuk é emocionante e dá a dimensão exata do sofrimento do povo norte-coreano. 8o lugar: “A Nudez da Verdade” (Ática) – Fernando Sabino (Brasil) - 1994. “A Nudez da Verdade” é a novela mais famosa de Fernando Sabino. Lançada originalmente como conto em 1960 com o título de “O Homem Nu”, essa história foi, depois, revisada e expandida na década de 1990. A nova versão ganhou um título mais filosófico: “A Nudez da Verdade”. Nesta trama, um homem pacato é perseguido pela população carioca após ficar pelado fora do apartamento onde passou a noite. 7o lugar: “O Homem é um Grande Faisão no Mundo” (Companhia das Letras) - Herta Müller (Alemanha) - 1986. “O Homem é um Grande Faisão no Mundo” é a obra mais famosa de Herta Müller, escritora vencedora do Nobel de Literatura de 2009. Este livro foi o responsável por tornar sua autora conhecida internacionalmente. Nesta novela, uma família sofre para conseguir o passaporte que a tirará da opressão da ditadura de Ceausescu. O sonho dos protagonistas é sair da Romênia comunista e ir morar na Alemanha Ocidental. 6o lugar: “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso) - Xinran (China) - 2002. “As Boas Mulheres da China” é o primeiro livro de Xinran. Para construir essa coletânea de crônicas sobre o drama das mulheres no país mais populoso do mundo, a jornalista e escritora chinesa entrevistou centenas de conterrâneas ao longo dos anos. O resultado é um panorama aterrador: casos de casamentos forçados, venda de mulheres, estupros, corrupção, feminicídio, infanticídio e incontáveis abusos físicos. 5o lugar: "Pornopopéia" (Objetiva) – Reinaldo Moraes (Brasil) - 2009. “Pornopopéia” é o principal romance de Reinaldo Moraes. Considerado por muitos críticos literários como um clássico contemporâneo da literatura brasileira, esta obra do escritor paulistano inovou ao apresentar uma narrativa ousada, uma estética singular, uma linguagem desbocada, um humor ácido e temas extremamente polêmicos. Trata-se de uma trágico-comédia da vida contemporânea. 4o lugar: "Laranja Mecânica" (Aleph) - Anthony Burgess (Inglaterra) - 1962. "Laranja Mecânica" é o romance espetacular de Anthony Burgess. Se o longa-metragem dirigido por Stanley Kubrick, em 1971, é incrível, o livro de Burgess consegue ser ainda melhor. Para emular o ambiente caótico da Inglaterra infestada por gangues, o escritor inglês chegou ao ponto de criar uma língua própria para dar vazão às gírias adolescentes. A experiência de leitura de "Laranja Mecânica" é inesquecível. 3o lugar: "O Talentoso Ripley" (Companhia de Bolso) - Patricia Highsmith (Estados Unidos) – 1955. “O Talentoso Ripley” é o livro mais famoso de Patricia Highsmith. O sucesso do romance deu origem a uma série literária. Nela, um anti-herói trambiqueiro, ambicioso e sanguinário tenta ocultar da polícia seus diversos crimes. Para isso, usa suas habilidades de disfarce e sua inteligência. “O Talentoso Ripley” é a criação mais original da norte-americana e é considerado um clássico das narrativas policiais. 2o lugar: "O Caso Morel" (Biblioteca Folha) – Rubem Fonseca (Brasil) - 1973. “O Caso Morel” foi a primeira incursão de Rubem Fonseca, até então um contista, nos romances. O escritor mineiro trouxe à narrativa longa o estilo literário que marcou seus contos: a violência urbana, a linguagem coloquial, as personagens marginalizadas da sociedade, o erotismo acentuado e a descrição de psicopatias. O resultado é um dos mais marcantes romances policiais da literatura nacional. 1o lugar: "Desonra" (Companhia das Letras) – J. M. Coetzee (África do Sul) - 1998. “Desonra” é uma obra-prima da literatura contemporânea. Este livro de J. M. Coetzee conquistou o Booker Prize, o prêmio literário mais importante da língua inglesa. Neste romance, temos o drama de um professor universitário branco acusado de estuprar uma aluna. Enquanto sua vida pessoal e profissional desmorona, o protagonista precisa encarar as transformações sociais causadas pelo fim do Apartheid. Espero que vocês tenham gostado da lista. Boa leitura em 2019 para todo mundo! Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos quatro anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. Siga também a página do Bonas Histórias no Facebook. #Retrospectiva #livros
- Livros: O Complexo de Portnoy – O romance consagrador de Philip Roth
Aproveitei a folga extra proporcionada pelo Réveillon para ler “O Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras). O romance polêmico da década de 1960 foi o responsável por tornar seu escritor, o norte-americano Philip Roth, uma figura mundialmente conhecida no cenário literário. A ousadia de Roth foi apresentar um relato sincero e desbocado do desejo sexual de seu narrador, o inconfundível Alexander Portnoy. O protagonista do livro fala tudo o que vem à mente no divã de seu psicanalista. Quem acompanhou, no mês passado, a análise crítica postada aqui no Blog Bonas Histórias sobre “Pornopopéia” (Objetiva), um clássico contemporâneo de Reinaldo Moraes, na certa se lembrará de “O Complexo de Portnoy”. O narrador do romance brasileiro, o inesquecível cineasta Zeca, referia-se ao livro do norte-americano como sua fonte de inspiração. Realmente, há várias semelhanças entre as duas narrativas. Publicado em 1969, “O Complexo de Portnoy” tornou-se rapidamente um best-seller. Junto com o sucesso comercial vieram as polêmicas, característica essa que seria uma marca da carreira de Roth. O público e a crítica entenderam o romance, o terceiro do escritor - o primeiro foi “Adeus, Columbus” (Companhia de Bolso), de 1959, e o segundo foi “Quando Ela Era Boa” (Companhia das Letras), de 1967 -, como tendo grande qualidade literária. Isso era e ainda é inegável. Ao mesmo tempo, achavam estranho o narrador do livro abordar vários temas tabus (masturbação, incesto, racismo, preconceito social e religioso, machismo, etc.). O mais curioso é que esses assuntos eram apresentados no texto com um humor escrachado, quase que em tom de piada. A narrativa é quase que um longo stand up comedy. Aí, a surpresa geral dos leitores e dos críticos. A dúvida que ficava era se o livro de Philip Roth era um romance revolucionário ou se era apenas uma brincadeira pueril de um escritor propenso a gracinhas. Passados exatos cinquenta anos do lançamento de “O Complexo de Portnoy”, essa dúvida não existe mais. A obra amadureceu bem com o transcorrer das décadas. Ela continua atual e engraçadíssima, apesar de ficar cada vez mais politicamente incorreta. Neste caso, é curioso notar que o livro pode incomodar muito os leitores atuais por aspectos diferentes daqueles que chocaram os leitores do passado. De qualquer forma, polêmicas à parte, ninguém mais questiona a qualidade da literatura de Roth, falecido no ano passado. Considerado um dos principais escritores norte-americanos da segunda metade do século XX, Philip Roth conquistou os mais importantes prêmios do mercado editorial do seu país nos últimos vinte anos de carreira. Em 1998, ganhou o Pulitzer de Ficção com “Pastoral Americana” (Companhia de Bolso), o primeiro romance da sua trilogia mais famosa, composta também por “Casei com um Comunista” (Companhia de Bolso), de 1998, e “A Marca Humana” (Companhia de Bolso), de 2000. Para muita gente, sua obra-prima é “Indignação” (Companhia das Letras), de 2008. O enredo de “O Complexo de Portnoy” é aparentemente muito simples. Alexander Portnoy, um bem-sucedido advogado nova-iorquino de origem judaica, está sentado no divã do seu psicanalista, o Dr. Spielvogel. No consultório, Alex, como o rapaz de trinta e poucos anos é chamado pelos familiares e amigos, tem a oportunidade de confidenciar seus dilemas, suas angustias e seus desejos mais íntimos. Nada escapa da língua veloz e peçonhenta do rapaz. Por isso, ele fala, fala e fala incansavelmente sobre os pontos mais importantes de sua vida. Sem qualquer pudor, Portnoy faz uma longa retrospectiva de sua vida. Se por um lado o relato é muito sincero, algo compreensível em sessões psicanalíticas, por outro lado o texto adquire tons imorais. Na infância, Alexander era muito apegado à mãe, uma mulher bastante carinhosa e extremamente zelosa. A relação dos dois adquiria um tom edipiano, algo constrangedor e polêmico em qualquer época. A mãe do garoto, uma típica matriarca judia, parecia sufocá-lo. Ao mesmo tempo, o filho parecia nutrir vergonha e ojeriza do pai, um vendedor de seguros dedicado, mas inoportuno (e muito patético). A adolescência de Alex foi passada essencialmente no banheiro. Fechado ali, o rapaz se masturbava sem parar. Ele adorava pegar as calcinhas da irmã mais velha para apimentar suas fantasias. Diante da preocupação da família pelo tempo passado no banheiro, ele dizia que estava com diarreia. Assim, era obrigado a ouvir diariamente os apelos da mãe por uma alimentação mais saudável e regrada. Os primeiros namoros de Alexander Portnoy foram pontuados pela intransigência religiosa. A família judia exigia que ele se relacionasse exclusivamente com jovens pertencentes à sua religião. Obviamente, o rapaz sentia atração por garotas das mais variadas crenças, menos as judias. Esse aspecto religioso provocaria outras angustias com o tempo. Sem ter casado e tido filhos, o protagonista do romance é muito cobrado pela família. O que adianta ter um ótimo emprego e estar bem de vida se ele não conseguiu arranjar uma mulher e não teve uma porção de filhos? Esse é o questionamento que ouve sempre. Já adulto, Alex pensa em se casar. Entretanto, nesse momento, ele começa a cogitar novas experiências sexuais. No início, tem curiosidade para saber como é ir para a cama com homens. Depois, se apaixona por uma modelo que conheceu por acaso na rua. Ele diz nunca ter sentido algo tão forte por alguém. Porém, a jovem é analfabeta e parece ter vivido como meretriz há muitos anos. Alexander, que chama sua namorada (ou seria amante?) de Macaca (sim, o termo é uma das piores ofensas racistas que alguém pode praticar), tem vergonha de apresentá-la para os amigos e para a família. Mais uma vez, ele está diante de uma dúvida existencial. Mergulha no relacionamento com a mulher que ama sem dar ouvido a opinião da família e da sociedade ou deverá acabar com aquele relacionamento fadado ao fracasso? É ou não é um livro recheado de temas polêmicos, hein?! Ainda hoje, seu texto consegue causar muito desconforto nos leitores mais conservadores. Se antes o homossexualismo, a masturbação e a pressão familiar em relação à religião eram os temas mais incômodos da obra, agora o racismo, o machismo, o egoísmo e o hedonismo do protagonista-narrador parecem assustar mais fortemente os leitores. “O Complexo de Portnoy” é um romance de pouco mais de 250 páginas. Sua característica estético-estrutural é ser um texto corrido, como se o narrador estivesse falando sem parar. Neste caso, a emulação de uma sessão psicanalítica é perfeita. O leitor se sente realmente acompanhando a conversa entre paciente e doutor no consultório. É verdade também que o livro possui algumas poucas divisões (não podemos chamá-las de capítulos), mas elas não conseguem quebrar o ritmo de monólogo. Por falar em monólogo, repare que o Dr. Spielvogel, como um ótimo psicanalista, não aparece dizendo nada na história inteira. Ele deixa seu paciente falar livremente. Apenas no final, o psicólogo se manifesta, o que torna sua aparição ainda mais cômica e espetacular. Ou seja, o desfecho do livro é magistral. Simples, porém maravilhoso. Como o texto é a narrativa individual de Alexander Portnoy, o que temos o tempo todo é a voz do protagonista. Neste sentido, Philip Roth construiu um romance extremamente fidedigno. Isso fica claro nos termos e na cultura judaica, religião que o próprio autor pertencia, que inundam as páginas da obra. O glossário no final do livro ajuda os shkotzim (viu como a consulta é importante?) a trafegar pelo idioma e pela cultura do narrador. Esse apêndice também auxilia na contextualização temporal da história. Muitos fatos e personagens citados pelo protagonista eram populares na primeira metade do século passado, mas agora podem ser desconhecidos pela maioria dos leitores (daí, a necessidade de recorrer mais uma vez ao Glossário). Outro ponto positivo do texto de “O Complexo de Portnoy” é a forma como o autor construiu o fluxo de pensamentos/discurso do narrador. O tom de oralidade é uma marca desta obra. Afinal de contas, trata-se de uma sessão psicanalítica. Ao mesmo tempo, as histórias de Alexander possuem uma mistura de linearidade temporal e de devaneios do protagonista. Passado e presente se misturam o tempo todo. Isso dá verossimilhança ao relato. Incrível constatar como Philip Roth desenvolveu esse recurso narrativo com maestria. E como não é possível deixar de falar, vamos discutir um pouco o humor do romance. “O Complexo de Portnoy” é realmente um livro muito engraçado. A graça está no jeito desbocado e inconsequente do protagonista em retratar sua vida e as pessoas ao seu redor. Há várias cenas e situações divertidas, principalmente para os leitores pouco preocupados com o politicamente correto. De pontos negativos, temos a construção estereotipada da maioria das personagens secundárias. Se o protagonista é uma figura profunda e de difícil caracterização (ou seja, é uma personagem redonda), as demais pessoas que aparecem na história são rasas e caricatas (personagens planas). Se o excesso de personagens estereotipadas diminui um pouco a qualidade literária da obra, por outro lado é um recurso excelente para provocar humor. Em muitos casos, as figuras mais engraçadas da literatura, do cinema, da televisão e do teatro são pessoas caricatas. Outro aspecto que pode incomodar alguns leitores é a pouca fluidez do texto. Com quase nenhuma separação (lembremos, não há capítulos), o romance torna-se um pouco pesado. Concluí sua leitura em três ou quatro dias, um tempo muito maior do que estou acostumado. Esse caminhar lento, ao menos no meu caso, pode estar vinculado à grande complexidade dos assuntos tratados e à alta dramaticidade do texto. Não dá para ler algo assim de maneira furtiva e rápida. Gostei bastante de “O Complexo de Portnoy”. Alexander, queiramos ou não, continua sendo uma personagem muito moderna, retrato do homem contemporâneo. Seus medos, seus traumas, seus desejos e suas dúvidas mostram o quanto o ser humano é um animal complicado, confuso, desnorteado, injusto e pouco racional. E imaginar que às vezes esquecemos o quanto nosso lado psíquico é o que torna nossas vidas tão difíceis na prática. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PhilipRoth #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaClássica #Literatura #Romance #DramaPsicológico #Drama
- Livros: O Gênio do Crime – O clássico infantojuvenil de João Carlos Marinho Silva
Para postar a primeira análise crítica do Blog Bonas Histórias deste ano, escolhi como leitura (na verdade, ela é uma releitura) um clássico da literatura infantojuvenil brasileira: “O Gênio do Crime” (Global). Várias gerações de brasileiros leram e ainda leem a obra de João Carlos Marinho Silva na infância e na juventude. Em muitos casos, o título serviu e serve de iniciação dos jovens leitores nacionais nos romances policiais. Comigo não foi diferente. Li “O Gênio do Crime” pela primeira vez quando tinha entre onze e doze anos. E, vinte e cinco anos depois, ainda me recordo de várias passagens marcantes do livro. A cena dos meninos perseguindo, pelas ruas paulistanas, o falsário de figurinhas de futebol é memorável. Com esse sentimento de nostalgia, reli esta obra-prima no último final de semana. “O Gênio do Crime” é a criação mais famosa de João Carlos Marinho Silva, escritor carioca que viveu a maior parte da vida na cidade de São Paulo. Além de ser seu maior sucesso, este livro marcou a estreia do autor na ficção. Vale a pena dizer que “O Gênio do Crime” alcançou mais de um milhão de exemplares vendidos em mais de sessenta edições publicadas ao longo das últimas quatro décadas. Com a ótima aceitação da crítica (que considera até hoje a obra icônica) e do público (que colocou o escritor no patamar dos best-sellers), Marinho Silva deu sequência à carreira de romancista voltando-se principalmente para o púbico mirim. Aproveitando o sucesso de “O Gênio do Crime”, o autor produziu mais onze livros com as personagens da sua obra de estreia. Nascia assim, a série “Aventuras da Turma do Gordo”. “Sangue Fresco” (Global), o terceiro livro da coleção, ganhou, em 1983, o Prêmio Jabuti de melhor livro infantil lançado no ano anterior. Resolvi falar sobre “O Gênio do Crime” neste comecinho de janeiro porque o livro de Marinho Silva completa, em 2019, 40 anos de vida. Publicada pela primeira vez em 1969, a obra revolucionou a maneira de se escrever para as crianças. Para muitos críticos literários de renome, Marinho Silva é o grande nome desse gênero no Brasil depois de Monteiro Lobato. Este romance policial possui muito humor, seu texto apresenta gírias adolescentes e altas doses de oralidade, o conflito é bem elaborado e extremamente inteligente, a ação é contagiante, há intertextualidade e o mistério permeia a narrativa do início ao fim. Ou seja, enfim alguém tratava as crianças e os adolescentes como seres inteligentes e com a capacidade de acompanhar uma trama elaborada e cheia de nuances. Impossível alguém não gostar de um romance policial assim! Reli “O Gênio do Crime” agora (minha carteira de identidade insiste em apontar que tenho trinta e poucos anos de vida) e confesso ainda adorar sua história. Isso não acontece, por exemplo, com as tramas da Coleção Vaga-Lume. Elas parecem muito bobas e extremamente infantis aos olhos dos adultos. As primeiras edições do livro, lançadas pelas editoras Brasiliense, Obelisco e Círculo do Livro nos anos de 1960, 1970 e 1980, saíram com o subtítulo: “Uma História em São Paulo”. Após a obra entrar no portfólio da Editora Global na década de 1990, um novo subtítulo foi incorporado: “Uma Aventura da Turma do Gordo”. É assim que a publicação é apresentada até hoje. O enredo de “O Gênio do Crime” começa mostrando o desespero de Edmundo. O menino fanático por futebol não consegue encontrar a última figurinha que completaria seu álbum. A figura em questão é do Rivelino, jogador do Corinthians. O garoto roda a cidade inteira, mas não consegue achar a tão desejada figurinha. Sensibilizado com a agonia do colega, Pituca sugere que Edmundo vá ao centro de São Paulo e compre o item desejado de um cambista. Segundo Pituca, muita gente completa seu álbum adquirindo as figurinhas mais difíceis das mãos de vendedores ilegais. O preço é muito mais alto, mas vale a pena. A entrega é feita no dia seguinte ao pedido. Edmundo aceita a sugestão do amigo de escola e faz a encomenda ao cambista. No dia seguinte, como combinado, ele tem o rosto de Rivelino. Uma vez completado o álbum, Edmundo vai até a Fábrica de Figurinhas Escanteio para ganhar o prêmio. Toda criança que completa a coleção ganha ótimos brindes. Contudo, o proprietário da fábrica, Seu Tomé, diz que não tem mais condições de dar o prêmio a ninguém. Uma fábrica de figurinhas clandestina está colocando os itens mais difíceis no mercado e, assim, todo mundo está conseguindo completar o álbum. Com medo de ir à falência, Seu Tomé pede a ajuda de Edmundo e de Pituca para eles descobrirem a identidade do criminoso. O empresário já havia levado o caso à polícia e tinha contratado investigadores particulares, mas ninguém conseguiu desvendar o mistério. A sabotagem era tão bem arquitetada que seu responsável era chamado por todos de Gênio do Crime. Assim, Edmundo e Pituca chamam o amigo Bolachão, um garoto gordo e muito esperto, para investigar o caso com eles. Mais tarde, Berenice, uma menina tão inteligente quanto Bolachão, incorpora-se à turma. A criançada passa a seguir o cambista que vendeu a figurinha do Riva para Edmundo. A ideia é descobrir onde fica a fábrica do Gênio do Crime. Contudo, a tarefa não será nada fácil. Os meninos correrão muitos perigos. Além disso, eles precisarão superar a concorrência de um investigador profissional. Mister John Smith Peter Tony, um dos detetives particulares mais famosos do mundo, também foi contratado pela Fábrica de Figurinhas Escanteio para desvendar o enigma. Ele veio da Escócia, onde tem a fama de nunca ter falhado, especialmente para descobrir o paradeiro do grande falsificador de figurinhas. “O Gênio do Crime” é realmente um livro excelente. Ele é bem curto, não chega a ter 150 páginas (normalmente os romances infantojuvenis possuem o tamanho de novelas adultas). Concluí sua leitura em cerca de três horas. Muito provavelmente a criançada levará muito mais tempo. Afinal, o que torna esta obra tão revolucionária? Na minha visão, o grande feito de João Carlos Marinho Silva foi ter escrito não apenas para a meninada, mas para toda a família. Foi mais ou menos algo que a Pixar fez décadas mais tardes com os filmes infantis (que de infantis não tem nada nos dias de hoje). Ou seja, a mãe e o pai pegam o livro de Marinho Silva para ler com os filhos e, de repente, estão curtindo a leitura tanto quanto os meninos (ou mesmo até mais do que as crianças). Tudo em “O Gênio do Crime” é bem construído. As personagens são ótimas. Em poucas páginas, o leitor já se sente íntimo dos dramas da Turma do Gordo. As figuras adultas do livro também são marcantes. Impossível um leitor passar indiferente ao detetive Mister John Smith Peter Tony. E por falar nele, o humor do texto é contagiante. O investigador escocês dá um tom meio que de absurdo e de pastelão a várias cenas. Ele é, de certa forma, uma sátira aos clássicos detetives dos romances policiais britânicos (não falei que havia uma forte intertextualidade nesse livro, hein?). Outros pontos elogiáveis são o clima de mistério e o tom de aventura da história. Eles são tão refinados quanto os existentes nos bons romances policiais adultos. Uma vez iniciada a leitura deste livro, o leitor não consegue mais parar de lê-lo. O conflito encanta pela mistura de simplicidade (meninos atrás de um falsificador de figurinhas de futebol) e invencionice narrativa (estratégias da Turma do Gordo para perseguir o cambista e, por sua vez, dos criminosos em fugir). É adorável também a maneira como o autor retrata a infância em todos os seus aspectos, sejam eles positivos ou negativos. Estão ali as brincadeiras, a construção das amizades, os sonhos inocentes e os primeiros namoros. Por sua vez, esse também um período da vida sujeita ao bullying e aos perigos típicos das grandes cidades brasileiras. A construção de São Paulo como cenário da trama está impecável. Nesse sentido, é interessante ver como era a capital paulista na década de 1960. Até mesmo as cenas datadas (carros antigos e o hábito de verificar endereços e telefones nas páginas amarelas) conferem um charme especial à história. “O Gênio do Crime” é uma obra memorável. Se você não a leu na infância, vale a pena ler agora (mesmo adulto). Se você já leu, por que não uma releitura? Tenho certeza que a trama do livro de João Carlos Marinho Silva continuará surpreendente e encantadora. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RomancePolicial #LiteraturaInfantojuvenil #JoãoCarlosMarinhoSilva #LiteraturaBrasileira
- Celebrações: Feliz 2019! – Os votos e as simpatias do Bonas Histórias
O Bonas Histórias deseja um Feliz Ano Novo para todos os seus leitores. Nossos votos são que 2019 seja um ano espetacular, quem sabe o melhor de nossas vidas. Torcemos para que as tristezas, os erros e as dificuldades fiquem no ciclo que se acabou ontem e que as alegrias, os acertos e as conquistas inundem os próximos 365 dias. Para isso acontecer, propomos agora duas simpatias infalíveis para a Virada. Quem as fez diz que elas são a porta de entrada para uma nova fase, cheia de prosperidade material, emocional, espiritual e intelectual. Eu que não creio muito nessas coisas devo admitir: nessas duas eu acredito sim! Meu espírito de São Tomé já constatou o quanto elas são eficientes. Quem acompanha minhas colunas aqui no blog já deve ter notado o quanto sigo religiosamente essas duas simpatias. O único porém, vou logo avisando, é que elas precisam ser feitas simultaneamente. Em muitos casos, fazer só uma não dá nenhum resultado prático. A seguir vão as descrições da dupla de simpatias imbatíveis para um 2019 incrível. Não deixe de fazê-las. Se funcionar com você, me avise depois. Quero todo mundo me escrevendo em dezembro deste ano ou em janeiro do próximo ano para relatar o quão eficiente são essas mandingas. Aí vão elas: 1) No dia 31 de dezembro, no finalzinho da tarde, quando o Sol já estiver se pondo, vá até um local tranquilo de sua casa. Se você não estiver em sua residência, procure um canto calmo à céu aberto. É importante você estar descalço(a). Ali, faça com giz ou carvão um círculo no chão. Ele deve ter entre um metro e meio e dois metros de diâmetro. Entre no círculo munido(a) de uma vassoura novinha. Se ela não tiver sido usada melhor ainda. Comece a varrer o chão de dentro do círculo para fora. Enquanto varre, diga em voz alta tudo o que você deseja jogar fora. Quando o círculo estiver limpinho, respire fundo e saia dele. Aí, lave bem a vassoura, de preferência longe do local onde você desenhou o círculo. Lave também seus pés. Depois, volte ao círculo com uma vela branca. Acenda-a bem no meio do círculo. Nesse momento, pense em tudo o que deseja realizar no ano que está se iniciando. 2) A partir do dia 1º de janeiro, leia ao menos um livro por semana. Não importe o quão corrida e atribulada seja sua rotina. Durante o novo ano tenha a disciplina de ler pelo menos uma obra literária a cada sete dias. Mescle publicações clássicas com contemporâneas. Leia autores da chamada alta literatura com os da baixa. Leia seus autores favoritos e descubra novos. Embarque na produção estrangeira e na nacional. Viaje pelos romances policiais, pelas histórias românticas, pelas ficções científicas, pelos thrillers, pelas biografias, pelas tramas de terror, pelas autoficções, pelas poesias, pela literatura de cordel, pelas histórias em quadrinhos, pelas epopeias, pelas tramas históricas, pelos contos, pelas crônicas, pelas novelas... Leia livros grossos e finos. Leia! Leia de tudo ao longo das 52 semanas de 2019. Dizem que ao final do ano, quem realizou as duas simpatias em conjunto tem um ano muito mais próspero. Confira! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do Blog Bonas Histórias no Facebook. #celebração #AnoNovo
- Livros: Laranja Mecânica - O romance espetacular de Anthony Burgess
Há filmes que ficaram tão famosos que muita gente não sabe (ou não se lembra) que seus roteiros foram criados a partir de obras literárias. Esse grupo de adaptações da literatura para o cinema é interminável. "O Iluminado" (The Shining: 1980), "O Poderoso Chefão" (The Godfather: 1972), "Entrevista com o Vampiro" (Interview with the Vampire: 1994), "O Silêncio dos Inocentes" (The Silence of the Lambs: 1991), "A Menina que Roubava Livros" (The Book Thief: 2013), "Clube da Luta" (Fight Club: 1999), "Blade Runner - O Caçador de Androides" (Blade Runner: 1982) e "As Pontes de Madison" (The Bridges of Madison County: 1995) são alguns exemplos. Desse grupo, um romance que merece destaque é "Laranja Mecânica" (Aleph), criação magistral do escritor inglês Anthony Burgess. Se o longa-metragem dirigido por Stanley Kubrick, em 1971, é espetacular (um clássico indiscutível do cinema), o livro de Burgess consegue ser ainda melhor (apesar de não ser tão conhecido aqui no Brasil quanto o filme). "Laranja Mecânica" é um dos mais brilhantes e originais romances do século XX. Ao lado de "1984" (Companhia das Letras), de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo" (Globo), de Aldous Huxley, o livro de Burgess faz parte da trilogia das distopias inglesas mais influentes de todos os tempos. Símbolo da alienação da juventude contemporânea e do totalitarismo do aparato governamental, "Laranja Mecânica" é uma narrativa extremamente violenta, filosófica e crítica, além de ser uma experiência linguística única. Publicado em 1962, "Laranja Mecânica" foi o décimo oitavo (e mais famoso) livro de Anthony Burgess. A carreira de Burgess na literatura teve uma trajetória curiosíssima, digna das mais criativas narrativas ficcionais. Sua estreia aconteceu tarde, apenas aos 39 anos. Sua primeira obra, "Time for a Tiger" (sem tradução para o português), de 1956, faz parte de uma trilogia escrita pelo escritor quando ele ainda integrava o Serviço Colonial da Inglaterra na Malásia. Ao retornar para seu país natal, em 1960, Anthony recebeu uma notícia trágica: ele tinha um tumor cerebral. Sem possibilidade de realizar uma operação nessa parte do corpo, os médicos decretaram que ele tinha apenas um ano de vida. Sem se desesperar, Burgess se mudou com a família para uma pequena cidade litorânea da Inglaterra. Lá, decidiu escrever dez romances. Com os direitos autorais dessas obras, ele poderia conferir uma vida futura mais confortável para sua esposa, mesmo não estando mais presente. Anthony Burgess conseguiu escrever cinco livros e meio nesse período. Ou seja, em 1961, tinha concluído a produção de cinco romances e havia deixado um inacabado. Por curiosidade do destino, o material incompleto era justamente sua obra-prima: "Laranja Mecânica". Porém, o escritor não morreu após os doze meses decretados pelos médicos. A previsão estava errada. O romancista viveu até 1993, falecendo aos 76 anos. Com o "tempo extra", Burgess aproveitou para finalizar seu livro mais desafiador, lançando-o um ano depois do previsto. Melhor do que essa história real sobre o autor, só mesmo o enredo de "Laranja Mecânica"... O livro de Burgess é ambientado na Inglaterra em um futuro não tão distante. As ruas das principais cidades do país estão infestadas de adolescentes arruaceiros. A baderna e a violência são generalizadas. Grupos de gangues juvenis assaltam, estupram, matam e vandalizam os cidadãos. Qualquer semelhança com Nova York e Los Angeles das décadas de 1980 e com as grandes metrópoles brasileiras de hoje não é mera coincidência! Como a polícia não consegue reprimir os atos criminosos, a alta cúpula do governo inglês decide tomar medidas radicais para reestabelecer a ordem. Um experimento médico-psicológico é desenvolvido para suprimir o “instinto violento” dos jovens baderneiros. Através de procedimentos de condicionamento pavloviano, uma lavagem cerebral é feita nos indivíduos, forçando-os a abdicarem dos seus comportamentos violentos. O escolhido para ser a cobaia do experimento estatal é Alexander DeLarge, um jovem de quinze anos que liderava uma gangue juvenil em seu bairro. Faziam parte do seu grupo de criminosos Tosko, Pete e Georgie, rapazes um pouco mais velhos, próximos dos dezoito anos. A vida marginalizada de Alex, como o rapaz era chamado por amigos e familiares, foi interrompida quando ele foi mais uma vez preso pela polícia. O problema era o teor da nova acusação: assassinato. Até então, Alex vivia entrando e saindo de reformatórios adolescentes (algo parecido à Fundação Casa ou à antiga FEBEM). Uma vez na rua, ele voltava a praticar sua diversão noturna favorita: roubar, espancar e estuprar. Ele não tinha qualquer sentimento de remorso ou compaixão pelas suas vítimas. Contudo, ao ser acusado e condenado por homicídio, Alex é enviado para uma penitenciária adulta. Lá deverá cumprir uma longa pena. Mesmo atrás das grades e vivendo com criminosos mais perigosos e mais velhos do que ele, o rapaz continua aprontando das suas. Aos olhos das autoridades, trata-se de um indivíduo incorrigível. Assim, Alexander DeLarge se torna uma escolha um tanto óbvia para ser o primeiro criminoso a testar o novo tratamento psiquiátrico do governo federal. Se o adolescente for “curado” do “instinto violento”, qualquer criminoso será. “Laranja Mecânica” é um romance espetacular. Li a obra de Anthony Burgess neste período de Natal e admito ter ficado encantado. Com aproximadamente 200 páginas, o livro surpreende o leitor por três motivos principais: apresentação de inovações linguísticas; o debate crítico-filosófico sobre a essência humana; e a construção de uma narrativa antimaniqueísta. Alex é quem narra sua história (a trama está em primeira pessoa). Dessa forma, vem à tona no texto a linguagem nadsat, uma coletânea de gírias utilizadas pelos adolescentes da época retratada. Aí, surge o primeiro elemento desconcertante do romance de Burgess: sua linguagem. A narrativa é feita com várias palavras do idioma/linguajar nadsat. No início, o leitor fica completamente perdido, não entendendo muita coisa do que é dito/escrito por Alex. Porém, à medida que as páginas do livro vão sendo lidas, o leitor passa a entrar no universo da personagem principal. Aos poucos, passa a entender seu dialeto e a mergulhar em sua realidade. Essa experiência é incrível! No final de “Laranja Mecânica”, já estamos fluentes em nadsat. A criação do novo idioma por Burgess foi calcada em profundos estudos linguísticos. O autor inglês era fluente em vários idiomas e um estudioso dessa área. Nada em seu livro é por acaso. O nadsat é basicamente uma mistura de termos russos com palavras do inglês popular e expressões ciganas. Exatamente por isso, a tradução para o português realizada por Fábio Fernandes deve ser tão elogiada nesta edição da editora Aleph (a que tenho em mãos). Por quase um ano, o tradutor mergulhou no universo idiomático de Burgess e recriou o idioma do escritor inglês para o português brasileiro. Vale a pena ler o prefácio de Fábio Fernandes e sua nota explicativa sobre a tradução feita. Para ajudar o leitor brasileiro, um glossário com os termos nadsat foi inserido no final do livro. No começo da leitura da obra, é legal utilizá-lo para se orientar. Depois de se habituar ao novo idioma, você não precisará dele com tanta frequência. Na versão inglesa, vale a pena dizer, os leitores não tiveram essa ajudinha. O glossário não é um recurso originalmente concebido por Anthony Burgess. Como eu já havia assistido mais de uma vez ao filme de Kubrick, admito não ter ficado surpreso com a história encontrada em “Laranja Mecânica”. A trama do romance é muita parecida ao do longa-metragem. O que temos em suas páginas é uma sequência extremamente violenta capaz de impressionar até mesmo os leitores mais acostumados às cenas de barbaridade. O relato de Alex é uma sucessão de roubos, estupros, espancamentos e brigas gratuitas. Trata-se de uma leitura muito impactante e extremamente assustadora. As semelhanças entre as produções literária e cinematográfica vão até o finalzinho. As únicas diferenças narrativas acentuadas entre elas estão em seus desfechos. O longa-metragem acabou suprimindo inexplicavelmente o capítulo final do livro. Curiosamente, essa é a melhor parte da obra de Burgess. As últimas páginas do romance são surpreendentemente filosóficas e, de certa maneira, líricas. Impossível não se emocionar com o que acontece com o narrador. À medida que o livro avança, vão sendo inseridos mais e mais elementos filosóficos ao texto. A narrativa de Anthony Burgess ganha, assim, mais e mais em riqueza e em crítica social, culminando em um desfecho apoteótico. O que o autor discute com brilhantismo é a essência humana e as fases do nosso desenvolvimento como indivíduos. Além de um ótimo escritor, o inglês se mostrou um excelente observador social. Outro aspecto que não posso deixar de citar é o tom antimaniqueísta da história. Apesar de todos os defeitos de caráter de Alexander DeLarge, acabamos torcendo por ele. Acho incrível quando o escritor constrói uma trama em que os valores sociais são invertidos (os bandidos são os mocinhos e os policiais os vilões). Em “Laranja Mecânica”, isso fica evidente principalmente na metade do romance para frente. O nosso herói (na verdade, o termo correto é anti-herói) é alguém que protagoniza as maiores atrocidades que se pode imaginar. Mesmo assim, Alex consegue cativar o leitor (não me pergunte como isso é possível – também não sei!). Ao final do livro, já estamos torcendo muito pelo violento protagonista, vibrando com seus sucessos e suas transformações. “Laranja Mecânica” é um clássico da literatura inglesa e universal do século XX. Se você só conhece o filme de Stanley Kubrick (como era o meu caso até alguns dias atrás) ou viu apenas as adaptações da obra de Anthony Burgess para o teatro (há musicais e peças com as aventuras de Alex DeLarge), aconselho a ler também o romance. O livro de Burgess é magnífico! Esta é uma das melhores obras que li neste ano. A experiência de leitura é incrível, mais impactante do que assistir à produção cinematográfica. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnthonyBurgess #FicçãoCientífica #Distopia #RomanceDistópico #LiteraturaInglesa #literaturaclássica
- Celebrações: Natal Todo Dia – Os desejos do Bonas Histórias!
Desejo um ótimo Natal para todos os leitores e parceiros do Bonas Histórias. Impossível não lembrar de vocês nesta data tão especial. O blog não seria o que é se não fosse a leitura diária de tanta gente e o apoio incondicional da nossa equipe de produtores de conteúdo e das empresas patrocinadoras. Um Feliz Natal para todos vocês que estão ao nosso lado diariamente. Além das felicitações, não posso deixar de registrar também meus agradecimentos por essa grande corrente em prol da literatura. De coração, aqui vai um muito obrigado aos verdadeiros amantes dos livros! Parodiando um pouquinho a história “Pedido Natalino”, da série narrativa Paranoias Modernas, exclusividade da coluna Contos & Crônicas, espero que o Papai Noel seja generoso com todos vocês e não apenas com alguns privilegiados. Além disso, meus votos são que todos os leitores e parceiros do blog tenham não apenas uma ótima ceia natalina, mas um excelente ano de 2019. Afinal de contas, esta é a essência do Natal: criar um ambiente de união, solidariedade e fraternidade que perdure o máximo possível. Que esse ideal comece na antevéspera do dia 25 de dezembro e siga inabalável até o próximo período natalino, em um ciclo que se aproxime ao máximo de 365 dias de total comunhão. Sempre que digo algo assim, me recordo de “Natal Todo Dia”, uma música do Roupa Nova. Sei que esta é uma canção antiga, mas sua mensagem se mantém atual. Concordo plenamente com seu refrão: “Se a gente é capaz/ De espalhar alegria/ Se a gente é capaz/ De toda essa magia/ Eu tenho certeza/ Que a gente podia/ Fazer com que fosse/ Natal todo dia”. Não é uma bela mensagem? Se você gostou, veja na íntegra a canção do Roupa Nova. A letra da música está a seguir: Natal Todo Dia - Maurício Gaetani Um clima de sonho Se espalha no ar Pessoas se olham Com brilho no olhar A gente já sente Chegando o Natal É tempo de amor, Todo mundo é igual Os velhos amigos Irão se abraçar Os desconhecidos Irão se falar E quem for criança Vai olhar pro céu Fazendo pedido Pro velho Noel Se a gente é capaz De espalhar alegria Se a gente é capaz De toda essa magia Eu tenho certeza Que a gente podia Fazer com que fosse Um jeito mais manso De ser e falar Mais calma, mais tempo Pra gente se dar Me diz porque Só no Natal é assim Que bom se ele Nunca tivesse mais fim Que o Natal comece No seu coração Que seja pra todos, Sem ter distinção Um gesto, um sorriso, Um abraço, o que for O melhor presente É sempre o amor Sei que, à princípio, o Bonas Histórias não é capaz de fazer sozinho com que o Natal dure o ano inteiro. Porém, não custa nada tentar, não é mesmo? Muitas vezes, as grandes realizações coletivas acontecem a partir de ações isoladas e aparentemente banais do dia a dia. É mais ou menos o que estamos tentando fazer com a literatura. Esse é um assunto que consideramos de extrema importância e que estamos promovendo cotidianamente. E isso já dura quatro anos. Quatro anos! Dia sim, dia não, um post do blog fala de um aspecto diferente da literatura. Continuamos incansáveis na busca das melhores histórias. Espero que vocês estejam gostando da iniciativa e do nosso conteúdo. Um Feliz Natal com muita paz e muita literatura para todos nós! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do blog no Facebook. #Natal #RoupaNova #celebração
- Livros: Pornopopéia – O clássico contemporâneo de Reinaldo Moraes
Italo Calvino escreveu no primeiro capítulo/ensaio de seu livro “Por que Ler os Clássicos?” (Companhia das Letras) várias definições sobre o que torna uma obra canônica. Vistos individualmente, esses conceitos são sensacionais. Em conjunto, eles tornam-se espetaculares! Tendo a teoria do mestre italiano em mente, os leitores mais engajados e os críticos literários mais audaciosos podem sentenciar sem medo de errar: “Pornopopéia” (Objetiva), principal criação do escritor paulistano Reinaldo Moraes, é sim um clássico contemporâneo da literatura brasileira. Apesar de o livro não ter passado ainda pela maturação do tempo, aspecto essencial para a transformação efetiva de uma obra de destaque em um clássico (algo, por si só, atemporal), é inegável o quanto esta publicação impactou a atual geração de escritores e apresentou algo extremamente novo aos leitores nacionais. A ousadia narrativa, a criatividade estética, a linguagem desbocada, o humor negro e a coragem temática de Moraes colocaram “Pornopopéia”, desde já, entre os principais livros brasileiros do século XXI. Apesar de o período natalino não combinar em nada com a literatura de Reinaldo Moraes, resolvi reler “Pornopopéia” neste final de semana. Se a época do ano não é a mais propícia para esta leitura, por outro lado, esta obra completará em 2019 dez anos de vida. Trata-se de uma data que merece ser comemorada. Por isso, a iniciativa de comentar este livro hoje no Blog Bonas Histórias. Publicado em 2009, “Pornopopéia” é o sétimo e penúltimo livro da carreira de Reinaldo Moraes. Já se falou tanto deste título que minha impressão é que ele foi lançado há mais de três décadas e não há meros nove anos. Antes de “Pornopopéia”, Reinaldo Moraes escreveu, na década de 1980, “Tanto Faz” (Brasiliense) e “Abacaxi” (L&PM), ambos sequência de uma mesma trama. Nessas duas obras é possível notar o lado polêmico, revolucionário e irreverente do autor. Não é à toa que esses livros, principalmente “Tanto Faz”, se tornaram tão cultuados por uma geração de leitores. De certa forma, Moraes abraçava os ideais da Geração Beat, adaptando seus valores para o presente e para a realidade brasileira. Depois do sucesso inicial, Moraes ficou quase duas décadas sem publicar nada novo. Nesse período, o escritor paulistano optou por trabalhar como roteirista, cronista e tradutor. A volta à literatura no papel de ficcionista só aconteceu em 2003 com a publicação de “A Órbita dos Caracóis” (Companhia das Letras), um discreto romance infanto-juvenil. Depois vieram outros lançamentos que não despertaram grandes abalos sísmicos no mercado editorial: “Estrangeiros em Casa” (National Geographic), parceria de 2004 com o fotógrafo Roberto Linske, “Umidade” (Companhia das Letras), coletânea de contos de 2005, e “Barata” (Companhia das Letrinhas), infantil de 2006. O retorno morno pode ter frustrado a maioria dos fãs de Moraes, que esperava sempre obras surpreendentes, polêmicas e inovadoras do escritor nascido em 1950. Contudo, Reinaldo mostrou seu lado genial com “Pornopopéia”. O sucesso do novo título em 2009 foi tão estrondoso que muita gente acabou se esquecendo de “Tanto Faz” e de “Abacaxi”, até então os pontos altos da carreira do autor. Mais recentemente, Moraes publicou, em 2014, “O Cheirinho do Amor – Crônicas Safadas” (Alfaguara), coletânea de contos eróticos. “Pornopopéia” é narrado em primeira pessoa pelo seu protagonista: José Carlos Ribeiro. Zeca, como o rapaz de quarenta e poucos anos é chamado pelos amigos e conhecidos, é um cineasta paulistano decadente. Até então, ele só produziu um filme para o cinema, o estrambólico “Holisticofrenia”. Isso foi há mais de uma década e o longa-metragem passou despercebido pela crítica e pelo público em geral, ganhando apenas um pequeno prêmio na Colômbia. Mesmo assim, Zeca continua sonhando em filmar novos títulos. Ele não desanima e ainda quer se transformar em um cineasta famoso no cenário nacional. Porém, a vida prática (e caótica) de José Carlos o joga para longe da sua ambição profissional. O cineasta passa o dia (e as noites) em sua pequena produtora localizada no centro de São Paulo. Ao invés de fazer cinema, a paixão do proprietário, a produtora se dedica a gravar filmes publicitários, algo que seu dono abomina. Há alguns anos, a empresa também produziu filmes pornográficos de baixa qualidade. Enquanto escreve as crônicas de sua vida, Zeca passa por uma grave crise financeira, o que agrava ainda mais sua rotina anárquica. Se não fosse a ajuda recorrente do cunhado rico, que mantém as contas da produtora em dia, o cineasta já teria falido há muito tempo. A esperança do rapaz é um novo trabalho que ele conseguiu: produzir um roteiro de filme institucional sobre embutidos de frango. Para receber a grana do novo job, basta o cineasta sentar na frente do computador e escrever o roteiro. Simples, né? Não para Zeca, o rei da procrastinação. Nada é fácil para alguém viciado em sexo, cocaína e álcool. Ao invés de trabalhar, o protagonista-narrador de “Pornopopéia” opta por escrever suas mais recentes aventuras sexuais. Em uma jornada pelo mundo da prostituição, das drogas e da violência banal de São Paulo, o leitor é levado por Zeca a uma espiral de confusões intermináveis. É espetacular a coragem do autor em falar de tantos assuntos polêmicos de uma vez só. “Pornopopéia” tem quase 500 páginas e é dividido em duas partes. A primeira parte se passa em São Paulo, onde as confusões precipitam, e a segunda acontece quando o protagonista foge para Porangatuba, pequena cidade no litoral paulista. Este livro faz parte, portanto, daquele grupo de romances parrudos. A inspiração de Reinaldo Moraes, como o autor deixa claro mais de uma vez na própria narrativa, é a obra “O Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras), principal romance do norte-americano Philip Roth, produzido no final da década de 1960. A abordagem direta (e polêmica) da vida sexual dos protagonistas é muito semelhante. Entretanto, Moraes insere outros elementos à “Pornopopéia”. O primeiro aspecto que chama a atenção no livro de Moraes é a oralidade do seu texto. Sinceramente, nunca tinha visto um livro em que a sensação de estar ouvindo o narrador fosse mais forte do que estar lendo-o. Isso acontece do início ao fim do romance. Para realizar essa proeza, o escritor revolucionou a linguagem da narrativa. Veja, por exemplo, o primeiro parágrafo de “Pornopopéia”: “Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopeia, não é arte. É – repita comigo - vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cinema-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tudo roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor". Incrível como logo de cara já entramos na cabeça do narrador. A impressão é que estamos lá mesmo, acompanhando seus pensamentos, divagações e dramas. A linguagem é a mesma utilizada por alguém sentado ao seu lado em qualquer mesa de bar de São Paulo. Tenho muitos amigos que falam exatamente assim. Há também excessos de palavrões e a criação interminável de neologismos, aspectos típicos da linguagem oral e recursos até então poucos explorados na linguagem escrita considerada séria. Não é apenas a linguagem inovadora de Reinaldo que faz “Pornopopéia” uma obra de grande envergadura da nossa literatura. A construção de um protagonista com tantos problemas de natureza social, econômica, profissional, ética e de saúde tornam Zeca uma personagem memorável. O cineasta passa boa parte do romance sob os efeitos das bebidas alcoólicas e de cocaína. Ele também é viciado em sexo. Ele vai para cama com inúmeras mulheres. Há de tudo: menores de idade, idosas, prostitutas, esposas dos melhores amigos, amantes regulares, parceiras ocasionais... Isso porque Zeca é casado e tem um filho (Pedrinho). Apesar de alegar que ama o menino, o cineasta não se encontra com o garoto em nenhum momento da trama. Em relação ao casamento, o narrador não se interessa em retornar para casa nem em avisar a esposa (Lia) por onde anda. Zeca só vai pensar na mulher quando descobre que ela tem um amante. Aí, age como o machão traído. Boa parte das cenas do romance (afinal, o título “Pornopopéia” não é por acaso) é dedicado à descrição das práticas sexuais de José Carlos (e na busca por cocaína). As confusões que o protagonista acaba metido são tantas que ele acaba indo para cama até com homens, algo que ele abomina. Em um instante de carência no meio da noite, Zeca acaba trocando carícias com um travesti e, no meio de uma suruba, em outro momento da narrativa, é enrabado por um colega quando sua retaguarda estava desguarnecida. Em um ato de desespero ainda mais extremo, Zeca chega a fazer sexo com um molusco já morto. Sim, estamos falando de necrofilia e zoofilia. Quando falta mulher (e homem), o único jeito é aliviar a lascividade com o que há por perto, nem que seja uma lula que está sendo preparada para uma refeição. Durante esta leitura, recordei de “A Grande Arte” (Agir), romance de Rubem Fonseca que apresenta cenas de sexo de todos os tipos: consensual, não consensual (estupro), pago (prostituição), com interesses sociais, sádico, sadomasoquista, homossexual, orgia, extraconjugal, pedofilia, incesto, casual, etc. Se para os personagens de Rubem Fonseca a prática sexual era instrumento de dominação e de violência, para o narrador de Reinaldo Moraes o sexo é exclusivamente uma forma de prazer hedonista. O humor, como já deve ter ficado claro nos parágrafos até aqui dessa análise crítica da obra, é do tipo ácido. O autor escancara a vida do seu protagonista sem qualquer pudor, apresentando aspectos escatológicos de sua rotina e os elementos de seu caráter pouquíssimo nobre. Temas polêmicos ainda hoje (aborto, doenças sexualmente transmissíveis, religião, infidelidade, vício em drogas pesadas, roubo, tráfico de entorpecentes, por exemplo) são abordados com a naturalidade de uma confidência entre amigos. Adorei o humor politicamente incorreto do romance. “Pornopopéia” mergulha em assuntos contemporâneos com coragem e enfoca diretamente um tipo de homem que está mergulhado no vazio existencial da vida pós-moderna. Apesar de ser um anti-herói na concepção clássica, Zeca é um sujeito aparentemente corriqueiro nas grandes cidades brasileiras nos dias de hoje: arrogante, egoísta, hedonista, sonhador, antiético e duro (sem dinheiro). Ou seja, é o típico malandro nacional, figura folclórica que há anos permanece no imaginário coletivo dos brasileiros. Para se ter uma ideia de seu caráter, Zeca chega a roubar o dinheiro do salário de sua empregada, a trabalhadora e simpática Terezinha, para pagar prostitutas e comprar cocaína. O leitor passa a sentir compaixão pelos dramas do cineasta, mesmo sabendo o quanto é errado torcer por uma personagem assim. Dessa maneira, José Carlos Ribeiro se assemelha a muitos anti-heróis clássicos da nossa literatura: Macunaíma, de Mário de Andrade, Brás Cubas, de Machado de Assis, e Leonardo, de Manuel Antônio de Almeida. Adorei ter relido este romance de Reinaldo Moraes, sem dúvida nenhuma um dos escritores mais ousados e originais da cultura brasileira contemporânea. Ao concluir o livro neste final de semana, lembrei-me das palavras de Italo Calvino: “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”. “Pornopopéia” é ou não é, desde já, um cânone precoce da nossa literatura, hein? Ao menos para mim, a resposta é positiva. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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