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- Livros: A Queda – A última novela de Albert Camus
Nessa semana, li “A Queda” (Record), o quinto livro de Albert Camus analisado no Desafio Literário de setembro. Última novela produzida pelo escritor e filósofo franco-argelino vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, “A Queda” foi concebido para ser um conto. A proposta é que sua história integrasse a coletânea de pequenas narrativas “O Exílio e o Reino” (Record). Contudo, o texto, inicialmente chamado de “Juízo Final”, foi crescendo, crescendo e crescendo. Esta trama foi escrita entre fevereiro e março de 1956. Ao atingir o tamanho de uma novela, já com um novo nome, “Ordem do Dia”, ficava claro para seu autor e para seu editor que esta história deveria ganhar uma publicação independente. E, assim, aconteceu. Em maio daquele ano, chegava às livrarias francesas “A Queda”, o título definitivo do livro. Curiosamente, a obra acabou sendo publicada um ano antes de “O Exílio e o Reino”, que estava sendo preparado há mais tempo. Considerado pelos críticos literários como um desabafo de Albert Camus, “A Queda” é um monólogo em que seu narrador-protagonista apresenta uma retrospectiva de sua vida. Seu interlocutor é um desconhecido sentado na mesa do bar. Em meio aos relatos e aos devaneios da personagem principal, temos um debate filosófico com caráter autobiográfico. Curiosamente, a produção deste livro é vista como uma resposta de Camus aos críticos que foram impiedosos com sua publicação anterior, “O Homem Revoltado” (Record). A coletânea de ensaios de 1951 foi duramente atacada pelos filósofos e intelectuais franceses. As discussões saíram do campo ideológicos e avançaram para o campo pessoal. Segundo Camus, muitas pessoas passaram a desprezá-lo e renegá-lo depois deste livro. A briga mais famosa foi com Jean-Paul Sartre. Os dois, então amigos, nunca mais se falaram por discordância a respeito de “O Homem Revoltado”. Por isso, a necessidade consciente ou inconsciente de resposta do autor. Jean-Baptiste Clamence, o protagonista de “A Queda”, lembra em muitos momentos o próprio Albert Camus. Há quem diga que essa é a personagem mais autobiográfica do escritor francês. Publicado em 1956, “A Queda” antecedeu em um ano a entrega do Nobel a Camus. Se o lançamento da novela o ajudou a amenizar as críticas, foi a honraria máxima da literatura a grande responsável por calar definitivamente as vozes opositoras. De repente, o trabalho do escritor deixou de ser contestado de maneira tão dura e injusta. Este livro também foi a última narrativa longa produzida por Albert Camus, que viria a falecer em 1960. Em uma viagem pelo interior da França, o automóvel em que estava saiu da pista e se chocou com uma árvore. O escritor tinha 46 anos. “A Queda” é narrada em primeira pessoa por Jean-Baptiste Clamence, um advogado francês que passou a morar em Amsterdã após sofrer um colapso nervoso. Sua crise mental é de origem existencialista. Em outras palavras, um evento corriqueiro do passado despertou no rapaz uma profunda reflexão sobre sua vida. A partir de então, ele se transformou em um assíduo frequentador do Mexico-City, um bar localizado na região portuária e um tanto degradada da capital holandesa. Os clientes habituais do estabelecimento são marinheiros e pessoas humildes. Por isso, Jean-Baptiste se surpreende com a presença de um sujeito bem-apessoado e sozinho em uma das mesas. Imediatamente, ele se aproxima do novo visitante e puxa conversa. É o início de uma amizade que durará alguns dias. O homem no bar é um advogado francês que está de passagem por Amsterdã. Nos demais dias em que o visitante permanece na principal cidade da Holanda, ele se encontrará diariamente com Jean-Baptiste. Nesses encontros, a dupla aproveita para conversar sobre suas vidas e para filosofar sobre a existência humana. Conversar, na verdade, é uma força de expressão, já que o único que parece falar é o Sr. Clamence. Pelo menos a novela de Camus registra apenas o que essa personagem diz, ocultando as poucas interrupções da outra personagem. Assim, o que temos de fato é um monólogo de Jean-Baptiste. O narrador-protagonista irá, ao longo dos dias, contar um pouco de sua vida para o novo amigo. Ele diz como se tornou um conceituado e altruísta advogado em Paris. Fala da sua vontade patológica de ser bondoso com os necessitados. Confessa a dificuldade de se apaixonar por uma única mulher. Jean-Baptiste mergulha em suas experiências sexuais, relatando o período de orgias e de bebedeiras em que participou na capital francesa. Seus comportamentos erráticos e impetuosos acabaram levando-o a uma decadência moral e social. Era o início da crise profissional que o até então bem-sucedido advogado jamais havia imaginado que pudesse ocorrer com ele. Entre vários acontecimentos posteriores, ele é preso na Argélia, passa a evitar o contato com os homens (vivendo apenas entre as mulheres) e começa a morar na Holanda. Agora, diz atuar simplesmente como um juiz-penitente. O que seria um juiz-penitente? Jean-Baptiste passa a novela inteira tentando explicar esse conceito para o conterrâneo que o ouve atentamente. Em meio aos relatos do protagonista, temos a apresentação dos conceitos filosóficos de Albert Camus. Essa é uma das marcas de sua literatura. O autor francês insere em meio à sua prosa vários princípios da sua teoria existencialista (que ele insistia em dizer que não eram existencialistas). “A Queda” possui cinco capítulos e 110 páginas. Apesar de ser uma leitura difícil, é possível ler esta obra em uma única tarde. Foi o que fiz na última quinta-feira. Concluí a novela em pouco mais de quatro horas. O correto, para ser franco, seria ler mais uma ou duas vezes esta publicação. Acredito que uma única leitura não seja suficiente (pelo menos para mim não foi) para compreender a totalidade da filosofia proposta pelo autor. E, por falar em filosofia, o texto de “A Queda” é, em parte, um resumo de tudo aquilo que Albert Camus abordou conceitualmente em seus ensaios anteriores, principalmente em “O Mito de Sísifo” (Record) e “O Homem Revoltado” (Record). Portanto, não espere encontrar grandes novidades teóricas aqui. O conceito do Absurdo e o da Revolta são os pontos culminantes dos debates existencialistas protagonizados por Jean-Baptiste Clamence, uma espécie de alter ego do escritor. A principal diferença, nesse sentido, é a maior dose de melancolia e de pessimismo de Albert Camus na sua exposição teórica. O autor demonstra um grande desprezo pela sociedade e pelas relações humanas. Em sua concepção, a felicidade só pode ser alcançada quando o homem vive sozinho, longe dos seus semelhantes. É quase impossível concordar com seus pontos de vista. Por isso, o protagonista de “A Queda” me fez lembrar bastante o narrador enfezado e profundamente deprimido de “Memórias de um Subsolo” (Editora 34), obra pioneira de Fiódor Dostoièvski sobre o debate existencialista. Para muitos biógrafos de Albert Camus, o texto de “A Queda” é o mais pessoal do autor. Nesta novela, ele apresentou de maneira mais direta seus dramas íntimos. Ou seja, o escritor não pensou duas vezes antes de canalizar toda a raiva e frustração para o seu texto. Vale a pena recordar que esta foi a época mais crítica da carreira de Camus. Contudo, sua ira não foi direcionada apenas para algumas pessoas (aquelas que o criticavam pesadamente), mas foi disparada contra toda a sociedade, em uma vingança coletiva. Assim, esta leitura ajuda a elucidar alguns dos mistérios da personalidade e do comportamento do filósofo francês. Olhar para Jean-Baptiste é, em certo ponto, ver o próprio Albert Camus. Se esse lado autobiográfico instiga mais o leitor a prosseguir na leitura da narrativa, por outro lado, o texto de “A Queda” é o mais difícil de Camus (ao menos entre as cinco obras que li dele até aqui). Em algumas passagens, ele chega a ser quase que incompreensível. As questões mais difíceis de serem entendidas não são de ordem narrativa (a história em si é simples), mas sim a respeito dos debates filosóficos propostos por Jean-Baptiste Clamence. Não sei se o teor extremamente polêmico e pessimista das crenças da personagem principal tenha me feito não querer acreditar em suas palavras. Pode ser isso. Três elementos desta novela de Camus me deixaram positivamente impressionado. O primeiro foi a dinâmica do monólogo. Diferentemente do que acontece nesse tipo de texto, “A Queda” não possui uma história parada nem monótona (muitas vezes, o sinônimo de monólogo pode ser entendido como monótono). Sua narrativa é até bastante dinâmica. Credito esse feito a maneira como o livro foi dividido. Em cada capítulo, o Sr. Clamence e seu amigo conversam em um ambiente diferente (no bar, na rua, na casa do protagonista, em passeios à beira-mar, etc.). Quem leu outros monólogos, por exemplo, “A Paixão Segundo G.H.” (Rocco), de Clarice Lispector, “Memórias de um Subsolo” (Editora 34), de Fiódor Dostoièvski, e “Os Cus de Judas” (Alfaguara), de António Lobo Antunes, em que esses textos permanecem fixos em um determinado ponto das narrativas, entenderá a minha felicidade pela agilidade produzida por Camus. A segunda questão foi a brincadeira entre o que é verdadeiro e o que é falso no discurso do protagonista. O leitor fica em dúvida o tempo inteiro se Jean-Baptiste é tão medonho quanto está pintando ou se ele quer apenas impressionar negativamente seu interlocutor. Minha avaliação pessoal pende mais à segunda hipótese, apesar do desenlace da novela indicar, reconheço, mais para a primeira opção. E, por fim, temos o humor inteligente. Camus é daquele tipo de escritor que mistura humor e drama, potencializando os dois. Adoro seu humor negro. Ele consegue fazer o leitor rir mesmo apontando o dedo para as feridas mais sensíveis da alma humana. De maneira geral, “A Queda” é uma obra espetacular. Se não é possível entender todas as divagações filosófico-existencialistas trazidas ao texto por Albert Camus, ao menos mergulhamos em uma narrativa criativa e ousada. O leitor fica curioso para saber o que originou o surto psicótico em Jean-Baptiste e o que é esse tal de juiz-penitente que ele afirma ser agora. Além disso, achei o desfecho da novela incrível. O escritor conseguiu nos surpreender no último parágrafo. Gosto quando um texto aposta na inteligência do seu leitor e usa isso em prol da estética narrativa. Em suma, a resposta para a pergunta se vale a pena ler este livro de Camus é um sonoro sim. Das narrativas ficcionais do autor francês, achei “O Estrangeiro” (Record) superior a “A Queda”. Porém, para mim, “A Queda” é um pouco superior (ou no pior dos casos está no mesmo patamar de) a “A Peste” (Record). O Desafio Literário de Albert Camus continuará na próxima semana. Na quarta-feira, dia 26, vou analisar, no Bonas Histórias, “A Morte Feliz” (Record), o romance póstumo do escritor francês. Essa obra é considerada como o texto preparatório de “O Estrangeiro”, a publicação mais famosa de Camus. Não perca as etapas finais do Desafio Literário de setembro. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AlbertCamus #Existencialismo #Novela #Absurdismo #LiteraturaFrancesa #LiteraturaArgelina
- Livros: O Homem Revoltado – O ensaio polêmico de Albert Camus
O quarto livro de Albert Camus que vamos analisar, hoje, no Desafio Literário de setembro é “O Homem Revoltado” (Record). Esta é a publicação mais polêmica do escritor e filósofo franco-argelino ganhador do Nobel de Literatura. Neste longo ensaio, o autor de “O Estrangeiro” (Record) apresenta a trajetória histórica e metafísica da Revolta, um dos conceitos mais importantes do Absurdismo. O Absurdismo, vale a pena citar, foi a corrente filosófica existencialista criada pelo dinamarquês Søren Kierkegaard na primeira metade do século XIX e, mais tarde, aprimorada pelo próprio Albert Camus. “O Homem Revoltado” e “O Mito de Sísifo” (Record), ambas coletâneas de ensaios de Camus, são os títulos que ajudaram a impulsionar o Absurdismo no século XX. Publicado em 1951, “O Homem Revoltado” integra a trilogia da Revolta, composta também pela “A Peste” (Record), romance de 1947, e “Os Justos”, peça teatral de 1949. Esta coleção de obras escancara o viés negativo da violência praticada pelo ser humano, principalmente durante as revoluções realizadas nas primeiras cinco décadas do século passado. Tanto as revoltas de esquerda (entenda-se a Revolução Comunista de 1917) quanto as revoltas de direita (leia-se os movimentos nazifascistas dos anos de 1930) usaram e abusaram do assassinato em massa e do terror de Estado como ferramentas de controle da população. O resultado foi a carnificina de milhões e milhões de pessoas e a instalação de sistemas de governo em que a liberdade e a justiça, valores centrais do humanismo, se tornaram escassos ou até mesmo inexistentes. Ou seja, em nome de ideologias ora mais desenvolvidas ora mais frágeis, o homem contemporâneo incorporou a conduta assassina em sua rotina diária, ficando indiferente aos reflexos cruéis dessa prática. Quando “O Homem Revoltado” foi lançado, Albert Camus era considerado um dos grandes pensadores do seu tempo. Seus livros anteriores suscitaram elogios rasgados de boa parte dos intelectuais franceses, o que representou a inserção do autor franco-argelino no panteão dos principais filósofos de sua geração. Jean-Paul Sartre, por exemplo, encantado com “O Estrangeiro”, romance mais famoso do autor, e com “O Mito de Sísifo”, obra máxima do Absurdismo, se tornou um grande fã de Camus e, por consequência, se transformou em um grande amigo. Contudo, a publicação de “O Homem Revoltado” colocou esse prestígio à prova. O novo livro provocou reações acaloradas e fez a vida e a carreira de Camus virarem de ponta-cabeça. Quase todos os intelectuais franceses da primeira metade da década de 1950 se colocaram contrários às opiniões e às argumentações deste ensaio. Do dia para a noite, Albert Camus virou figura malquista na França e alvo de intensas críticas por parte dos seus pares. Não é errado dizer que o escritor sofreu um linchamento moral e público com o repúdio dos seus colegas. As discussões foram tão intensas que muita gente passou a virar o rosto para Camus e encerrar a amizade de anos com ele (e há quem ache que essa prática é algo restrito aos dias de hoje e às polêmicas das redes sociais). Sartre foi um desses opositores mais ferozes ao “O Homem Revoltado”. Depois de uma crítica extremamente negativa publicada pelo autor de “O Ser e o Nada” (Vozes), os dois escritores franceses mais importantes da época terminaram para sempre a amizade. A dupla sequer voltou a se falar depois disso. O prestígio de Albert Camus só seria retomado, em parte, com a publicação de “A Queda” (Record), um romance desabafo de 1956, e, de maneira definitiva, com o recebimento do Nobel em 1957. Portanto, foram necessários entre cinco e seis anos para o autor se redimir da recepção negativa e das críticas pesadas dirigidas a “O Homem Revoltado”. Sabendo dessa história, a dúvida que tinha no início da leitura deste ensaio era: “Por que Camus foi tão avacalhado pelos seus pares se escreveu uma obra contrária à violência de sua época?”. Para descobrir a resposta para essa questão intrigante, li ao longo dos últimos dias este livro. “O Homem Revoltado” é uma publicação grande, a maior de Albert Camus que foi e que será analisada no Desafio Literário desse mês. O ensaio possui quase que 400 páginas. Elas estão divididas em cinco partes: “O Homem Revoltado”, “Revolta Metafísica”, “A Revolta Histórica”, “Revolta e Arte” e “Pensamento Mediterrâneo”. Precisei do final de semana inteiro (noite de sexta, manhã e tarde de sábado e tarde e noite de domingo) para concluí-lo completamente. Admito que sua leitura não é das mais fáceis. É preciso atenção redobrada por parte do leitor e um mergulho profundo na história, na literatura e, principalmente, na filosofia para entender a proposta do autor. Se a parte conceitual do livro é pesada e complexa, ao menos a linguagem utilizada é acessível e permite uma boa compreensão dos pensamentos e das ideias do franco-argelino. Apesar de difícil, esta obra não é daquelas incompreensíveis e hermeticamente fechadas. Não! Ela chega a ser até palatável quando o leitor é do tipo esforçado (e acima de tudo corajoso). Na Introdução, Albert Camus apresenta a proposta do seu livro. Se em “O Mito de Sísifo” ele falava do suicídio a partir do Absurdo, em “O Homem Revoltado” ele falará do assassinato na perspectiva da Revolta. A Revolta é um dos elementos essenciais do Absurdismo, a corrente filosófica desenvolvida por Camus. Esse tema é relevante pois a primeira metade do século XX foi um período de grandes chacinas perpetradas pelas ideologias políticas. Tanto a esquerda quanto a direita mataram milhões de pessoas em nome de seus ideais. “A primeira e única evidência que assim me é dada, no âmbito da experiência absurda, é a revolta. Privado de qualquer conhecimento, impelido a matar ou a consentir que se mate, só disponho dessa evidência, que é reforçada pelo dilaceramento em que me encontro. A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível”. Na parte I, chamada de “O Homem Revoltado” (homônima, portanto, ao título do livro), Camus explica que o homem revoltado é aquele que, depois de muito tempo falando sim, passa a dizer não. Essa negação de algo sensível para ele e para os seus semelhantes (a revolta pode ser tanto individual quanto coletiva) caracteriza a Revolta e origina-se da tomada de consciência de uma situação, agora, insustentável. A consciência traz consigo a necessidade de liberdade e de justiça. Viver sem livre-arbítrio e sem direitos assegurados não faz mais sentido para este homem. É preferível morrer a não ter sua situação atendida. A Revolta é o ato do homem informado, que tem consciência de seus anseios básicos. Como consequência natural à Revolta, o homem passa a se opor ao sagrado (as leis ditas divinas). “Pode-se ainda precisar o aspecto positivo do valor que toda a revolta pressupõe, comparando-a com uma noção totalmente negativa como a do ressentimento (...). Na verdade, o movimento da revolta é mais do que um ato de reivindicação, no sentido mais forte da palavra (...). A revolta (...) fragmenta o ser e ajuda-o a transcender. Ela liberta ondas que, estagnadas, se tornam violentas (...). Na origem da revolta, há pelo contrário, um princípio de atividade superabundante e de energia”. Na segunda parte, “Revolta Metafísica”, Albert Camus explica que o homem revoltado possui um caráter metafísico. O homem se insere contra a sua condição e contra a criação. Ele busca, por meio da revolta, a justiça. Essa revolta metafísica não é feita por ateus e sim por religiosos. “Este se insurge contra um mundo fragmentado para dele reclamar a unidade. Contrapõe o princípio de justiça que nele existe ao princípio de injustiça que vê no mundo. Primitivamente, nada mais quer senão resolver essa contradição, instaurar o reino unitário da justiça, se puder, ou da injustiça, se a isso for compelido. Enquanto espera, denuncia a contradição. Ao protestar contra a condição naquilo que tem de inacabado, pela morte, e de disperso, pelo mal, a revolta metafísica é a reivindicação motivada de uma unidade feliz contra o sofrimento de viver e de morrer”. Na sequência, temos um apanhado histórico da revolta metafísica. São usados conceitos filosóficos, passagens religiosas e enredos literários para exemplificar essa evolução. Passamos, assim, pela mitologia grega (Prometeu), pelo velho testamento (Caim), pelo novo testamento (Jesus Cristo), pelos personagens de Sade e pelos heróis românticos (a luta de Satã e da morte no “Paraíso Perdido”). Todas essas figuras religiosas, históricas e/ou ficcionais realizaram revoltas que mudaram suas realidades. “As primeiras teogonias nos mostram Prometeu acorrentado a uma coluna, nos confins do mundo, mártir eterno, excluído para sempre de um perdão que ele se recusa a solicitar. Ésquilo torna ainda maior a estatura do herói, cria-o lúcido (‘nenhuma desgraça que eu não tenha previsto recairá sobre mim’), faz com que ele grite bem alto o seu ódio a todos os deuses e, mergulhando-o em ‘um tempestuoso mar de desespero fatal’, oferece-o finalmente aos raios e aos trovões: ‘Ah! Vejam a injustiça que suporto!’”. Depois, avançamos para a concepção da morte de Deus por Nietzsche, passamos pela negação completa de Stirner e chegamos à revolta sistemática de Marx. O apanhado histórico prossegue até o século XIX, com a literatura de Fiódor Dostoiévski (principalmente com a análise de Ivan, protagonista de “Os Irmãos Karamazov”). Neste mundo sem Deus e sem ideais morais, o homem se acha sozinho e desamparado. “A partir do momento em que o homem não acredita mais em Deus nem na vida imortal, ele se torna ´responsável por tudo aquilo que vive, por tudo que, nascido da dor, está fadado a sofrer na vida’. É a si próprio, e somente a si próprio, que cabe encontrar a ordem e a lei (...). Só há liberdade em um mundo onde o que é possível e o que não o é se acham simultaneamente definidos. Sem lei, não há liberdade. Se o destino não for orientado por um valor superior, se o acaso é o rei, eis a marcha para as trevas, a terrível liberdade dos cegos”. Por fim, temos um retrato da Revolta no século XX a partir da visão do Absurdismo e do niilismo. Como exemplos práticos, temos os conceitos de Lautréamont e de Rimbaud. O surrealismo é, na opinião de Albert Camus, o movimento artístico que melhor retratou o homem revoltado. “O conformismo é uma das tentações niilistas da revolta que domina uma grande parte de nossa história intelectual. Em todo caso, ela mostra como o revoltado que passa à ação, quando se esquece de suas origens, é tentado pelo maior dos conformismos. Ela explica, portanto, o século XX. Lautréamont, geralmente louvado como o bardo da revolta pura, anuncia, muito pelo contrário, o gosto pela subserviência intelectual que se dissemina pelo nosso mundo (...). A revolta absoluta, insubmissão total, sabotagem como princípio, humor e culto do absurdo, o surrealismo, em sua intenção primeira, define-se como o processo de tudo, a ser sempre recomeçado. A recusa de todas as determinações é nítida, decisiva e provocadora. ‘Somos especialistas da revolta’. Máquina de revirar o espírito, segundo Aragon (...)”. A terceira parte de “O Homem Revoltado” é “A Revolta Histórica”. Esta é a seção mais extensa do livro, com mais de 180 páginas (ocupando quase que a metade da obra). Ao longo dos seis capítulos de “A Revolta Histórica”, Camus explica as diferenças conceituais e as semelhanças entre a Revolução Russa de 1917 e as Revoluções Nazifascistas da década de 1930. Ele começa dizendo que a busca pela liberdade está na raiz de todas as revoluções. Sem liberdade, a justiça se torna inconcebível para os revoltosos. Entretanto, a partir de um momento da revolução, a justiça exige a suspensão da liberdade. Aí surge em cena o terror, a violência e as perseguições. Os revoltosos se pré-dispõem a assassinar os inimigos internos e externos em nome de seus ideais, que estão acima de qualquer coisa e de todos. A revolução é o estágio mais avançado da revolta. Nessa etapa, a busca é pela destruição do Estado e do sistema vigente. Assim, enquanto a revolta mata homens, a revolução mata ao mesmo tempo homens e princípios. A primeira grande revolta é do escravo contra seu senhor. O exemplo mais emblemático é o da Revolta de Espártaco na Roma Antiga. A segunda grande revolta é do povo contra o rei. O caso mais marcante é o da Revolução Francesa de 1789. Depois vem a revolta do proletário contra a burguesia. Nessa etapa, a Revolução Russa de 1917 ganha protagonismo. O século XX foi próspero em produzir revoltas niilistas de direita e de esquerda. De semelhança, ambas usaram a violência como a principal força motriz das ações dos revoltosos. “Começa o reino da história, e, identificando-se unicamente com a sua história, o homem, infiel à sua verdadeira revolta, de agora em diante estará fadado às revoluções niilistas do século XX, que, ao negarem toda moral, buscam desesperadamente a unidade do gênero humano através de um extenuante acúmulo de crimes e guerras (...). Os revolucionários do século XX tiraram o arsenal que destruiu definitivamente os princípios formais da virtude. Dela, preservaram a visão de uma história sem transcendência, resumida a uma contestação perpétua e à luta entre as vontades de poder. Sob seu aspecto crítico, o movimento revolucionário de nosso tempo é em primeiro lugar uma denúncia violenta da hipocrisia formal que preside a sociedade burguesa. A pretensão, parcialmente fundamentada, do comunismo moderno, como a do fascismo, mais frívola, é denunciar a mistificação que corrompe a democracia burguesa, os seus princípios e suas virtudes (...). O mundo de hoje só pode ser, aparentemente, um mundo de senhores e de escravos, porque as ideologias contemporâneas, aquelas que modificam a face do mundo, aprenderam com Hegel a pensar a história em função da dialética domínio/servidão”. A Revolução Russa utiliza-se dos princípios alemães de Marx e Engels para destruir o sistema político-social então vigente e construir um novo (elementos esses que caracterizam uma verdadeira revolução). Contudo, a consequência mais imediata desse processo foi a violenta tomada de poder e das instituições pelo novo regime, assim como um governo que desprezava os ideais de liberdade e de justiça. “Pisarev, teórico do niilismo russo, constata que os maiores fanáticos são as crianças e os jovens. Isso também é verdade em relação às nações. Nessa época, a Rússia era uma nação adolescente extraída a fórceps, havia apenas um século, por um czar ainda suficientemente ingênuo para cortar ele próprio as cabeças dos revoltosos. Não é de admirar que ela tenha levado a ideologia alemã aos extremos de sacrifício e de destruição de que os mestres alemães só tinham sido capazes em pensamento (...). Nasce nesse momento uma nova e um tanto horrenda raça de mártires. Seu martírio consiste em aceitar que o sofrimento seja infligido aos outros; eles se escravizam ao seu próprio domínio”. A Revolução Russa se difere das Revoluções Nazista e Fascista sobretudo por uma questão: o embasamento ideológico. Se as revoltas alemã e italiana da década de 1930 eram irracionais (no sentido de não estarem ancoradas em princípios que a legitimassem), o comunismo era racional (estava embasado na teoria de Marx e Engels da luta de classes). Porém, todas essas revoluções foram perpetradas pela violência e mantidas pelo terror estatal. Nesse ponto, elas são idênticas: produziram milhões de assassinatos. “Houve certamente razão em insistir na exigência ética que é a base do sonho marxista. Somos obrigados a reconhecer, antes de examinar o malogro do marxismo, que ela constituiu a verdadeira grandeza de Marx. Ele colocou o trabalho, sua degradação injusta e sua dignidade profunda no centro de sua reflexão (...). Marx acreditou que os fins históricos, pelo menos, se revelariam morais e racionais. Nisto reside sua utopia”. A tomada de poder feita por Lenin e, depois, mantida/intensificada por Stalin desprezou grande parte dos princípios de Marx em nome da praticidade cotidiana. Os governantes soviéticos deram mais atenção aos elementos policiais-militares do que aos econômicos-ideológicos (como previsto originalmente por Marx). A Revolução Russa ficava, ano a ano, mais violenta e aguçava seu instinto assassino. “Lenin utiliza nele seu método favorito, que é a autoridade. Com a ajuda de Marx e de Engels, começa por insurgir-se contra qualquer reformismo que pretenda utilizar o Estado burguês, organismo de dominação de uma classe sobre a outra (...). A contradição última da maior revolução que a história conheceu não reside inteiramente no fato de aspirar à justiça através de um séquito ininterrupto de injustiças e de violências. Servidão ou mistificação é a desgraça comum em todos os tempos (...). Não é justo identificar os fins do fascismo com os do comunismo russo. O primeiro representa a exaltação do carrasco pelo próprio carrasco. O segundo, mais dramático, a exaltação do carrasco pelas vítimas. O primeiro nunca sonhou em libertar todos os homens, mas apenas em libertar alguns e subjugar outros. O segundo, em seu princípio mais profundo, visa libertar todos os homens escravizando todos, provisoriamente. É preciso reconhecer-lhe a grandeza da intenção. Mas é legítimo, pelo contrário, identificar os seus meios com o cinismo político que ambos buscam na mesma fonte, o niilismo moral”. Em “Revolta e Arte”, a quarta parte do livro, temos uma perspectiva do conceito filosófico de Albert Camus aplicado às artes. A revolta do ponto de vista artístico é sempre contra o real. Os artistas de todas as épocas promovem revoluções que negam a realidade objetiva da vida em prol da busca incessante pela beleza idílica. “Para criar a beleza, ele (o artista) deve ao mesmo tempo recusar o real e exaltar alguns de seus aspectos. A arte contesta o real, mas não se esquiva dele. Nietzsche podia recusar qualquer transcendência, moral e divina, dizendo que essa transcendência constituía uma calúnia ao mundo e à vida. Mas talvez haja uma transcendência viva, prometida pela beleza, que pode fazer com que esse mundo moral e limitado seja amado e preferido a qualquer outro. A arte nos conduzirá dessa maneira às origens da revolta, na medida que tenta dar forma a um valor que se refugia no devir perpétuo, mas que o artista pressente e quer arrebatar à história”. Essa dinâmica artística fica mais explícita quando olhamos para os romances. A vantagem da literatura está em permitir ao homem (leitor) uma análise de sua realidade (transplantada para o papel) por um olhar de fora, de um terceiro. A revolta proposta pelo artista fica restrita ao universo ficcional criado e manipulado pelo romancista. “Uma análise detalhada dos romances mais célebres mostraria, em perspectivas diferentes a cada vez, que a essência do romance reside nessa perpétua correção, sempre voltada para o mesmo sentido, que o artista efetua sobre sua própria experiência. Longe de ser mortal ou puramente formal, essa correção visa primeiro à unidade e traduz por aí uma necessidade metafísica. Nesse nível o romance é antes de tudo um exercício da inteligência a serviço de uma sensibilidade nostálgica ou revoltada”. A última parte de “O Homem Revoltado” é “Pensamento Mediterrâneo”. No desfecho da obra, Camus diz que todos os crimes, sejam eles irracionais (das revoltas nazifascistas) ou racionais (das revoltas comunistas), traem igualmente os valores propostos por suas revoluções. O assassinato não deveria ser fruto nem a raiz da ação do homem revoltoso. O crime, quando praticado em massa e indistintamente, é o descompasso de uma revolução. Apesar de apoiado no século XX por muitos artistas (ou ignorado por tantos outros que preferiram fechar os olhos às ações criminosas), a matança em massa de pessoas é, independentemente das circunstâncias, um atentado aos princípios básicos da humanidade (como o valor da vida, a justiça e a liberdade). “No auge da tragédia contemporânea, entramos então na intimidade do crime. As fontes da vida e da criação parecem ter secado. O medo imobiliza a Europa povoada de fantasmas e máquinas. Entre duas hecatombes, instalam-se cadafalsos no fundo das masmorras. Torturadores humanistas aí celebram em silêncio seu novo culto. Que grito os perturbaria? Os próprios poetas, diante do assassinato de seu irmão, declaram orgulhosamente que estão com as mãos limpas. O mundo inteiro a partir de então, distraidamente, dá as costas a esse crime; as vítimas acabam de atingir o extremo de sua desgraça: elas entediam (...). É possível dizer, portanto, que a revolta, quando desemboca na destruição, é ilógica. Ao reclamar a unidade da condição humana, ela é força de vida, não de morte. Sua lógica profunda não é a da destruição; é da criação”. Curiosamente, Albert Camus não prega o aspecto pacifista das revoltas nem das revoluções. Parte do processo de imposição do homem revoltado está no confronto contra aquele que poda sua liberdade ou contra aquilo que estabelece uma situação injusta. Entretanto, a violência sistemática e indiscriminada não pode ser vista como um meio nem um fim de uma ação revoltosa. “A não violência absoluta funda negativamente a servidão e suas violências; a violência sistemática destrói positivamente a comunidade da vida e a existência que dela recebemos. Para serem profícuas, essas duas noções devem encontrar seus limites. Na história considerada como um absoluto, a violência se vê legitimada; como risco relativo, ela é uma ruptura de comunicação”. Achei “O Homem Revoltado” um livro excelente. Albert Camus consegue apresentar seus argumentos de maneira detalhada e imparcial, sem qualquer viés ideológico. É difícil hoje em dia discordar da sua abordagem. Então, o que teria suscitado tantas críticas na época do lançamento da obra?! Na minha opinião, ao se manter neutro, criticando a violência praticada tanto pela direita quanto pela esquerda, o franco-argelino se tornou alvo fácil dos dois lados dessa disputa. Vale lembrar que na virada da década de 1940 para a de 1950, o mundo encontrava-se em uma fortíssima polarização ideológica. Era quase impossível alguém não escolher um lado para defender. O próprio Camus era assumidamente um pensador de esquerda. Contudo, neste ensaio, ele permaneceu a maior parte do tempo neutro, criticando indiscriminadamente os dois lados. Como consequência, sofreu pancada dos intelectuais de esquerda e de direita por isso. Ou seja, foi alvo da ira de todo mundo. Para apresentar seus argumentos, Camus fez um apanhado histórico da violência e da revolta nas sociedades humanas, além de reconstruir passo a passo os conceitos filosóficos do existencialismo e do niilismo. Para completar, ele utilizou-se de muitos exemplos extraídos da literatura para ilustrar os quadros expostos. O resultado concreto é um material de grande riqueza intelectual. Nas páginas de “O Homem Revoltado” temos uma análise profunda dos trabalhos filosóficos do Marquês de Sade, Friedrich Nietzsche, Platão, René Descartes, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, André Breton, Dmitry Pisarev, Jean-Jacques Rousseau, Louis Antoine Léon de Saint-Just, Max Stirner, Voltaire, Mikhail Bakunin, Sergey Nechayev, Karl Marx, Friedrich Engels, Joseph de Maistre e Auguste Comte. Nas páginas deste ensaio, também acompanhamos belos estudos sobre as literaturas de Arthur Rimbaud, Conde de Lautréamont, Fiódor Dostoiévski, Emily Brontë, Sófocles, Leon Tolstói, William Blake, Honoré de Balzac, Herman Melville, Marcel Proust, entre outros. Felizmente, a linguagem utilizada em “O Homem Revoltoso” não é difícil nem formal (uma diferença substancial do que encontramos em boa parte dos ensaios filosóficos por aí). Camus é um autor que emprega palavras e termos comuns para apresentar seus conceitos à maior parte dos leitores. Esse é um dos pontos mais legais de sua literatura. O difícil neste livro não é a linguagem empregada pelo escritor, mas sim a profundidade de suas ideias. É preciso, portanto, grande esforço do leitor para entender o que está sendo dito e para mergulhar em várias referências intertextuais, tanto da filosofia quanto da literatura e da história. É necessária uma boa bagagem nessas áreas para percorrer as páginas do livro de Camus com o mínimo de tranquilidade. Mesmo assim, não espere encontrar uma leitura tranquila e recreativa em “O Homem Revoltado”. O que mais chamou minha atenção nesta leitura foi a maneira magnífica como a questão da violência foi apresentada. Camus não é um pacifista. Ele, em nenhum momento, prega a paz entre os homens como a solução para os conflitos humanos. Em sua visão, a violência é uma das consequências da ação do homem revoltado. Até aí, beleza. O problema está na forma indiscriminada como as revoluções e, consequentemente, os sistemas políticos da primeira metade do século XX utilizaram-se da violência, dizimando milhões de opositores. O terror estatal estava no DNA dos regimes comunistas e nazifascistas. Nunca na história o ser humano deu vazão com tamanha intensidade ao seu extinto assassino como nas primeiras cinco décadas do século passado. É isso o que Camus apresenta de forma magnífica, apesar das intensas críticas recebidas na época. Sinceramente, não vejo como seja possível, hoje em dia, discordar de sua tese. Como a “A Peste” é o romance que apresenta ficcionalmente os conceitos deste ensaio, acredito que seja interessante ler primeiro “O Homem Revoltado” para depois mergulhar na trama do doutor Bernard Rieux em Oran. Desse jeito, o leitor poderá compreender melhor a proposta do romance, visualizando aonde Camus deseja chegar quando a cidade argelina fica isolada do mundo. No próximo sábado, dia 22, o Desafio Literário de setembro continuará com a análise do quinto livro de Albert Camus: “A Queda” (Record). Nesse romance de 1956, o escritor e filósofo franco-argelino dá uma resposta ácida aos críticos que contestaram veementemente suas teses em “O Homem Revoltado”. Não perca os próximos posts do Bonas Histórias. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AlbertCamus #Existencialismo #Ensaios #Absurdismo #LiteraturaFrancesa #LiteraturaArgelina
- Livros: A Peste – O romance alegórico de Albert Camus
O trabalho mais conhecido de Albert Camus, vencedor do Nobel de Literatura de 1957, é “O Estrangeiro” (Record). Nessa novela publicada quinze anos antes da entrega do prêmio da Academia Sueca de Letras, o escritor francês debatia de maneira reflexiva a condição do absurdo e da liberdade humana. Considerado uma das narrativas mais influentes da primeira metade do século XX, “O Estrangeiro” consagrou definitivamente seu autor, um empolgado adepto da escola francesa de construir ficção com muitos elementos filosóficos. Não por acaso, uma das frases mais famosas de Camus era: “Se você quiser filosofar, escreva romances”. Hoje, contudo, gostaria de comentar outra obra fundamental do francês nascido, em 1913, na Argélia, então uma colônia europeia. “A Peste” (Record) é o livro que concluí na última quarta-feira à noite. Neste romance, Albert Camus faz uma sutil alegoria da invasão nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial, período conhecido como a Resistência. A trama também pode ser encarada como uma crítica ao comportamento contraditório das pessoas nos momentos de crise coletiva. É, portanto, o choque de realidade imposto pelo ambiente aos indivíduos, normalmente mergulhados em seus pequenos universos internos, em suas rotinas egoístas e em seus problemas rasteiros. Publicada em 1947, “A Peste” integra a primeira parte da trilogia da “Revolta”, composta por “Os Justos”, peça teatral de 1949, e “O Homem Revoltado”, ensaio de 1951. O romance conquistou no ano de seu lançamento o Prêmio da Crítica, honraria concedida entre 1945 e 1984 aos principais escritores de língua francesa. Por mais que Albert Camus fosse contra os conceitos filosóficos do Existencialismo, é inegável que suas obras após a Segunda Guerra Mundial tenham muitas das características dessa corrente. Sua literatura é fundamentalmente existencialista. “A Peste” é um ótimo exemplo disso. “O Estrangeiro”, por sua vez, tem também essa pegada filosófica-reflexiva, porém, na minha visão, ele está mais para o Absurdismo (um tipo de Existencialismo niilista). “A Peste” se passa em Oran, uma cidade argelina colonizada pelos franceses e localizada às margens do Mediterrâneo. O lugar é descrito como muito feio e extremamente pacato. A história ficcional acontece nos anos de 1940. A rotina da localidade é quebrada quando ratos, inexplicavelmente, aparecem mortos por todos os cantos do município. Bernard Rieux, um médico engajado e humanista, é quem primeiro questiona as autoridades para o risco daquelas mortes em massa representar o início de uma moléstia perigosa. Suas preocupações ganham rapidamente vida. Uma peste instala-se em Oran. Os habitantes da cidade começam a morrer. Preocupados com a possibilidade da misteriosa doença se espalhar pelo território francês na colônia e, quem sabe, até no continente europeu, o governo central decreta medidas drásticas. Oran é isolada do mundo. Ninguém mais pode entrar e ninguém mais pode sair dela. A circulação de pessoas, objetos e mercadorias ficam interrompidas dos dois lados da fronteira do município. É instalado o caos em Oran. Enquanto precisam encarar o medo das mortes pela peste, algo que aumenta a cada dia, os habitantes daquela localidade também têm que se acostumar com a nova dinâmica social-econômica a eles imposta. São tempos de angústia e de inconformismo. Oran é agora uma cidade que se divide entre a espera da morte e a esperança de que aquela misteriosa praga acabe algum dia. Enquanto o caos impera, cada uma das personagens retratadas no romance precisa levar sua vida de alguma forma. O Dr. Rieux trabalha noite e dia para ajudar os enfermos, esquecendo-se da fadiga e dos seus problemas pessoais. Jean Tarrou, vizinho de Rieux, escreve em cadernos suas crônicas sobre a epidemia e como ela está afetando os homens e as mulheres do município. Cottard, um homem que tentou se suicidar pouco antes da peste chegar, é agora quem mais se beneficia com o isolamento de Oran. Mercador, ele viu os preços dos produtos que comercializava inflarem. Dr. Castel, amigo de Rieux, tenta desenvolver uma vacina. Joseph Grand é um aspirante a escritor que fica sempre reescrevendo a primeira frase do seu romance de estreia, sem nunca avançar para a segunda frase. O padre Paneloux afirma que a peste é fruto de uma ação divina. Em suas acaloradas pregações, diz que Deus teria agido desta maneira como punição aos pecadores. Raymond Rambert é um jornalista parisiense que tenta de todas as maneiras deixar a cidade sitiada. Ele tinha viajado a trabalho para Oran e ficaria poucos dias na colônia. O bloqueio nas fronteiras o impede de voltar para os braços da mulher amada que ficou em Paris. “A Peste tem quase 300 páginas e é dividido em cinco partes, cada uma descrevendo um estágio da peste. Sua leitura não é das mais fáceis. Achei Camus um autor que requer muita atenção e bastante cuidado por parte do leitor. Obviamente, não estamos tratando aqui de uma literatura recreativa. Albert Camus é colega de Jean-Paul Sartre e Voltaire na arte de falar de temas profundos em seus textos ficcionais. Admito que também fiquei um pouco perdido com a grande quantidade de personagens do livro. Várias vezes, precisei voltar as páginas para relembrar quem era essa e quem era aquela pessoa. Por isso, levei cerca de cinco noites para concluir esta obra. O primeiro elemento que destaco deste romance é o perfil alegórico das personagens. É possível notar claramente os tipos descritos pelo autor. A sociedade francesa durante a Resistência está toda ela representada nas páginas de “A Peste”. Por exemplo, Dr. Rieux é o homem altruísta e preocupado essencialmente com o bem-estar coletivo. Por outro lado, Cottard é o capitalista egoísta e materialista. Já Paneloux é o representante da passionalidade religiosa. E Joseph Grand é o artista fútil e impertinente. É muito interessante ver o comportamento dessas figuras na trama. Indiretamente, Albert Camus critica esses tipos em sua literatura. Neste caso, ele age quase como um Gil Vicente (na versão moderna e francesa). Juro que me lembrei muito da “Trilogia das Barcas” produzida pelo dramaturgo português no século XVI Por falar em personagens, não há nenhuma figura feminina importante neste romance. Curiosamente, todos os protagonistas e personagens secundárias de “A Peste” são homens. Não entendi isso. Talvez esse detalhe tenha passado despercebido do autor. Ou ele tentou mostrar o quão a sociedade da época era machista. Afinal, se estava relacionando seus personagens aos tipos mais comuns da sociedade francesa da metade do século XX, não fazia sentido Camus colocar as mulheres como protagonistas. Outro recurso interessante (e pouquíssimo comum de ser visto em obras ficcionais) é o maior ênfase aos eventos macroambientais. Ou seja, a maior parte do relato é voltada para os acontecimentos gerais que afetam a coletividade. Em muitos instantes do livro, o microambiente (a vida de cada uma das pessoas da cidade) fica em segundo plano. Como uma narrativa alegórica e com uma pegada existencialista, essa estratégia é perfeita. Entretanto, ela atrapalha um pouco a fluidez do texto e compromete a velocidade da narrativa. Temos aqui, portanto, uma história que caminha com pouco dinamismo. Adianto, desde já, que os leitores mais ansiosos e pouco meticulosos irão sofrer um pouco. E o que falar do humor de Albert Camus, hein? “A Peste” apresenta trechos muito divertidos. O humor deste livro é do tipo sutil e bastante inteligente. Repare nas várias contradições apresentadas ao longo desta história. O indivíduo que queria se matar é quem mais gosta da chegada da peste. O religioso que via a praga como um sinal de intervenção divina contra a moral e os bons costumes é um dos mortos pela doença. E algumas personagens ficam discutindo calorosamente uma frase de um romance no instante em que a peste está devastando milhares de habitantes de Oran. Hilário! Do início ao final do livro, há inserções de trechos em que o debate filosófico é mais direto. O romance torna-se, nestes pontos, um pouco mais difícil. Por outro lado, ele adquire muito mais riqueza conceitual. Ler Camus nunca foi fácil, mas pode ser muito divertido e enriquecedor. Para tal, você precisa se preparar para o desafio e deve mergulhar de cabeça em suas obras. “A Peste” é com certeza um dos seus trabalhos mais impressionantes. Gostei deste romance. Ele faz parte do tipo de obra que, assim que você termina, você quer relê-la. A sensação que tive é que não peguei tudo o que o autor tentou transmitir. O Desafio Literário de setembro prossegue na próxima terça-feira, dia 18, com a análise do livro “O Homem Revoltado” (Record), o quarto livro que o Bonas Histórias analisará neste mês de Albert Camus. Não perca a continuação do Desafio Literário. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AlbertCamus #Existencialismo #Absurdismo #Romance #Drama #LiteraturaFrancesa #LiteraturaArgelina
- Livros: O Mito de Sísifo – Os ensaios de Albert Camus sobre o Absurdo
Na semana passada, começamos o Desafio Literário de setembro, cujo estudo aborda a literatura de Albert Camus, pela análise de “O Estrangeiro” (Record). Essa obra é a novela mais famosa do autor e filósofo francês. Hoje, vamos apresentar, no Bonas Histórias, o livro de ensaios que embasa conceitualmente os princípios filosóficos por trás do protagonista e da narrativa de “O Estrangeiro”. A publicação em questão é “O Mito de Sísifo” (Record). Nesta coletânea de ensaios, Camus expõe os princípios do Absurdo. O Absurdismo é, de maneira geral, uma corrente do existencialismo que se aproveita de alguns elementos do niilismo. Criada no século XIX pelo dinamarquês Søren Kierkegaard, a filosofia do Absurdo teve em Albert Camus seu principal adepto. “O Mito de Sísifo” é, por sua vez, a obra central dessa corrente do pensamento existencialista. “O Estrangeiro” e “O Mito de Sísifo”, ambos livros publicados em 1942, integram a trilogia do Absurdo, criação de Camus desenvolvida em meio à Segunda Guerra Mundial. “Calígula” (Alianza), peça teatral de 1941, complementa essa tríade. Como é característico da produção camusiana, um determinado assunto é explorado de múltiplas formas: ensaio, narrativa literária e apresentação cênica. Dessa maneira, o leitor tem a oportunidade de compreender a profundida conceitual do trabalho desse autor quando completa a leitura do trio de obras do mesmo tema. Isso fica evidente com a teoria do Absurdo e “O Mito de Sísifo”. É através desta coleção de ensaios que Albert Camus apresenta diretamente os princípios filosóficos do Absurdo. Vale lembrar que o conceito da Revolta, outro objeto central do trabalho filosófico de Camus, também foi representado por três publicações seriadas. “O Mito de Sísifo” está dividido em quatro partes: “Um Raciocínio Absurdo”, “O Homem Absurdo”, “A Criação Absurda” e “O Mito de Sísifo”. Cada seção do livro ainda é subdividida em capítulos. Basicamente, “Um Raciocínio Absurdo”, “O Homem Absurdo” e “A Criação Absurda” expõem conceitualmente a teoria de Camus e “O Mito de Sísifo” exemplifica essa questão filosófica através de uma história clássica da mitologia grega. Ao final da obra, ainda há um apêndice, no qual o autor analisa a literatura de Franz Kafka a partir dos princípios do Absurdo. A primeira parte desta obra, chamada de “Um Raciocínio Absurdo”, tem quatro capítulos. No primeiro, “O Absurdo e o Suicídio”, Albert Camus começa discutindo a questão do suicídio. Para ele, esta é a principal questão a ser tratada pela filosofia existencialista. Afinal de contas, em um raciocínio simplista, se o suicídio deve ser praticado é porque a vida não faz qualquer sentido. Por outro lado, se a existência humana tem uma lógica e uma razão de ser, o suicídio não deve ser praticado pelos homens. O problema é que essa relação direta entre os dois conceitos não é tão imediata assim. Muitas vezes, as pessoas não cometem o suicídio porque têm crenças difusas, se habituaram a viver ou ainda aguardam uma resposta para a questão que norteia suas sobrevivências. Ou seja, mesmo não encontrando um sentido claro para sua existência, permanecem vivendo. Aí surge a questão do Absurdo: Por mais ilógica e sem sentido que seja a vida humana, a maioria dos homens permanece apegada a ela. Nas palavras do próprio Camus, o conceito do Absurdo se dá da seguinte maneira: “Qual é então o sentido incalculável que priva o espírito do sono necessário para a vida? Um mundo que se pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas num universo repentinamente privado de ilusões e de luzes, pelo contrário, o homem se sente um estrangeiro. É um exílio sem solução, porque está privado das lembranças de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. Esse divórcio entre o homem e a vida, o ator e o cenário é propriamente o sentimento do absurdo”. Em “Os Muros do Absurdo”, o segundo capítulo, o autor francês faz um panorama histórico da filosofia do Absurdo, relacionando-a aos conceitos da racionalidade e da irracionalidade. Assim, o Absurdo se faz presente na vida mecânica e nos dias banais das pessoas, mergulhadas geralmente em rotinas sem qualquer lógica. Ele também está na estranheza do mundo externo e interno dos indivíduos, na segregação imposta pelos homens aos seus semelhantes, no esquecimento frequente da própria morte e na imprecisão do olhar humano, até mesmo quando amparado pela ciência. “Eu dizia que o mundo é absurdo, mas ia muito depressa. Esse mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer. Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois. Ele os adere um ao outro como só o ódio pode juntar os seres”. Como consequência mais direta ao Absurdo, temos o sentimento de angústia pelos homens. No terceiro capítulo, “O Suicídio Filosófico”, Camus volta a comentar a relação do Absurdo com a prática do suicídio. Para tal, retoma a conceituação do seu pensamento existencialista. Para ele, o Absurdo vai além da semântica da palavra: sinônimo de impossível e de contraditório. O Absurdo, para o filósofo francês, é um divórcio entre as expectativas humanas. Ele nasce de uma confrontação entre o que o indivíduo espera e o que se tem efetivamente. Dessa forma, o Absurdo está tanto no homem quanto no mundo. Esses três elementos (homem, mundo e Absurdo) estão intimamente unidos. O Absurdo caminha em sentido oposto ao racionalismo. Como viver sabendo que o estado permanente do ser humano é a escuridão e a ignorância? A resposta é simples: admitindo essa limitação (resignação) e esquivando-se da certeza absoluta (algo intangível). “Buscar o que é verdadeiro não é buscar o que é desejável. Se, para fugir da pergunta angustiante: ‘O que seria então a vida?’, é preciso alimentar-se, como o asno, das rosas da ilusão antes que se resignar à mentira, o espírito absurdo prefere adotar sem temor a resposta (...): o desespero. Afinal, uma alma determinada sempre acaba se saindo bem”. Assim, o suicídio filosófico não é nada mais do que a atitude existencialista. É a maneira de designar o momento pelo qual um pensamento nega a si mesmo, eternizando a negativa e, porque não, a dúvida. O Absurdo é a negação da razão humana. Camus utiliza-se dos princípios de Søren Kierkegaard e Edmund Husserl para construir sua linha de raciocínio. Em “A Liberdade Absurda”, o quarto e último capítulo desta parte, lemos que o homem percebeu que seu mundo, muito provavelmente, não tem/faz sentido. E ciente que nunca conseguirá descobrir a verdade, ele padece de uma revolta interna (contra essa escuridão) ou de conformismo (indiferença para com essa questão). Dessa forma, o princípio do suicídio se inverte. Se antes, tratava-se de saber se a vida deveria ter um sentido para ser vivida, agora ela será melhor vivida quanto menos sentido tiver. “Viver é fazer que o absurdo viva. Fazê-lo viver é, antes de mais nada, contemplá-lo. Ao contrário de Eurídice, o absurdo só morre quando viramos as costas para ele. Por isso, uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta, o confronto perpétuo do homem com sua própria escuridão. Ela é a exigência de uma transparência impossível e questiona o mundo a cada segundo. Assim como o perigo proporciona ao homem uma oportunidade insubstituível de captá-la, também a revolta metafísica estende a consciência ao longo de toda a experiência. Ela é a presença constante do homem diante de si mesmo. Não é aspiração, porque não tem esperança. Essa revolta é apenas a certeza de um destino esmagador, sem a resignação que deveria acompanha-la”. Sendo o mundo regido pelo Absurdo e tendo uma única verdade (a chegada da morte), o homem cotidiano vive a ilusão da liberdade, projetando ingenuamente sua existência de maneira ordenada e lógica. O homem é refém do Absurdo. “Tudo o que me interessa é saber se se pode viver sem apelo. Não quero sair desse terreno. Sendo-me dada a face da vida, posso acomodar-me a ela? Ora, diante desta preocupação particular, a crença do absurdo equivale a substituir a qualidade das experiências pela quantidade. Se eu me convencer de que esta vida tem como única face a do absurdo, se eu sentir que todo o consciente e a obscuridade em que a vida se debate, se eu admitir que minha liberdade só tem sentido em relação ao seu destino limitado, devo então reconhecer que o que importa não é viver melhor, e sim viver mais. Não tendo que me perguntar se isto é vulgar ou enjoativo, elegante ou lamentável. Os juízos de valor ficam descartados aqui, de uma vez por todas, em benefício dos juízos de fato. Só posso extrair conclusões do que posso ver e não arriscar nada que seja uma hipótese. Supondo que viver assim não fosse honesto, então a verdadeira honestidade me exigiria ser desonesto”. A segunda parte de “O Mito de Sísifo” se chama “O Homem Absurdo” e, como a anterior, tem quatro capítulos. No primeiro capítulo, é explorado o conceito do homem absurdo. Ele é aquele indivíduo que nada faz pelo eterno. Vive sua existência consciente de sua finitude e sem grandes exigências. Tem como recursos vitais sua coragem e seu raciocínio. A primeira ensina esse homem a viver sem apelos e a satisfazer-se com o que tem. O segundo, por sua vez, oferece os limites da sua existência neste mundo, uma jornada perecível e incompleta. A vida é o campo de atuação do homem absurdo, que subtrai a todo juízo menos o próprio. m “O Dom-Juanismo”, o segundo capítulo, temos a relação entre a figura literária de Dom Juan com o homem absurdo. Ambos são muito parecidos. A personagem clássica não pode amar uma só mulher. Ele vive o presente intensamente e deseja a experiência mais do que um conceito teórico e abstrato (nesse caso, o amor romântico). O homem absurdo é semelhante. Ele multiplica o que não pode unificar. Descobre, assim, uma nova maneira de ser que o libera tanto quanto libera o próximo. Não há amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular. O terceiro capítulo, “A Comédia”, compara a vida do homem absurdo ao desempenho de um ator em uma apresentação cênica (a tal comédia). “O que há de surpreendente em ver uma glória perecível construída sobre as mais efêmeras criações? O ator dispõe de três horas para ser Iago ou Alceste, Fedra ou Gloucester. Nesse breve período, ele os faz nascer e morrer em cinquenta metros quadrados de tábuas. Nunca o absurdo foi tão bem ilustrado, nem por tanto tempo. Que síntese mais reveladora poderíamos desejar senão essas vidas maravilhosas, esses destinos únicos e completos que se cruzam e terminam entre paredes e durante algumas horas?”. A vida, para Albert Camus, é um mero sonho, como o papel desempenhado em cima de um palco por algumas horas. O homem é o que ele quer parecer ser naquele período de tempo finito da apresentação cênica. O homem absurdo é o ator que desempenha múltiplos papéis ficcionais sem se preocupar com a coerência dos personagens retratados. “A Conquista”, o quarto e último capítulo dessa parte, prossegue na comparação de figuras que lembram o homem absurdo. Agora a associação é com os conquistadores. Entre a ação e a contemplação, o homem absurdo opta sempre pela ação. Ele faz isso por refutar a nostalgia, a amargura e as crendices típicas da contemplação. Ele age dessa maneira porque precisa viver com o tempo que lhe resta e, assim, morrer definitivamente quando o término temporal chegar. Seu comportamento é parecido, portanto, aos conquistadores que olham para frente com coragem e sem receios nem temores. Os conquistadores partem para suas aventuras pensando mais no propósito e menos no processo. A terceira parte desta coletânea de ensaios é chamada de “A Criação Absurda”. Diferentemente das seções anteriores, essa só tem três capítulos. No primeiro, intitulado de “Filosofia e Romance”, as comparações feitas com o homem absurdo avançam. O amante (Dom Juan), o comediante (ator cênico) e o aventureiro (conquistador) representam com propriedade as características do homem absurdo. Contudo, a mais absurda das personagens que podem ser relacionadas a ele é a do criador. O criador não deve ser entendido aqui meramente como o Deus, mas como o artista. Este é quem gera/cria a obra de arte. E a arte é uma ótima exemplificação do pensamento absurdo. A literatura, por exemplo, é mais do que uma narrativa ficcional. Ela é a apresentação concreta de conceitos filosóficos. “Não se contam mais ‘histórias’, cria-se seu universo. Os grandes romancistas são romancistas filósofos, ou seja, o contrário de escritores de teses. Vejam Balzac, Sade, Melville, Stendhal, Dostoièvski, Proust, Malraux, Kafka, para citar só alguns”. É através da criação literária que entramos em contato mais diretamente com a dinâmica do Absurdo. Se na realidade (na vida concreta) o Absurdo fica, por vezes, oculto atrás da rotina das pessoas e da preguiça reflexiva dos indivíduos, é na narrativa ficcional (principalmente nos romances, superior neste caso aos ensaios e às obras cênicas) que ele se descortina aos olhos dos homens. No capítulo “Kirilov”, Albert Camus explora mais o conceito do uso da literatura como apresentação do pensamento e do homem absurdo. Para isso, ele recorre a Kirilov, personagem central de “Os Demônios” (Editora 34), romance de Fiódor Dostoiévski. Kirilov decide se suicidar quando percebe a inexistência de Deus. “O raciocínio é de uma clareza clássica. Se Deus não existe, Kirilov é deus. Se Deus não existe, Kirilov deve se matar. Kirilov deve se matar, então, para ser deus. Esta lógica é absurda, mas é o que se necessita. O interessante, contudo, é dar um sentido a essa divindade trazida para a Terra. Isto leva a esclarecer a premissa: ‘Se Deus não existe, eu sou deus’, ainda bastante obscura”. Interessante reparar que todos os heróis de Dostoièvski questionam o sentido da vida e refletem sobre seus papéis no mundo. As construções das narrativas do autor russo possuem um intrincado debate filosófico-existencialista. Suas personagens não temem o ridículo nem o absurdo. No terceiro capítulo desta parte, “A Criação Sem Amanhã”, temos uma conclusão do que foi apresentado até aqui. A literatura romanesca de qualidade é um excelente caminho para a demonstração do Absurdo. E o homem absurdo acaba emergindo do pensamento negativo, que entre outras coisas desconstrói a figura divina. “Surge um mundo cujo único dono é o homem. O que o atava era a ilusão de outro mundo. A sorte do seu pensamento já não é renunciar a si, mas renovar-se em imagens. Ele se representa – em mitos, sem dúvida – mas mitos sem outra profundidade senão a dor humana e, como esta, inesgotável. Não mais a fábula divina que diverte e cega, mas o rosto, o gesto e o drama terrenos em que se resumem uma difícil sabedoria e uma paixão sem amanhã”. A última parte de “O Mito de Sísifo” é o seu ensaio homônimo, que empresta seu nome para o título da obra. Nele, Camus recorre a personagem mitológica condenada pelos Deus a realizar um trabalho inútil pela eternidade. Sísifo é obrigado a passar seus dias empurrando uma rocha até o alto de uma montanha. Sempre ao chegar ao cume, a pedra desliza de volta para a planície. Assim, Sísifo desce e retoma seu trabalho. Para o escritor e filósofo francês, Sísifo é o retrato do homem absurdo. “Este mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria a sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo”. E aí, temos o desfecho surpreendente das reflexões de Camus: “Mas Sísifo ensina a felicidade superior que nega os deuses e ergue as rochas (...). Cada grão de pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”. Por fim, o livro ainda tem um apêndice, “A Esperança e o Absurdo na Obra de Franz Kafka”, em que é apresentada a literatura de Franz Kafka a partir do pensamento absurdo. Esse texto integrava um capítulo da obra original de Albert Camus, porém, com o tempo, foi substituída pela seção que trata da análise de uma personagem de Dostoièvski, “Kirilov”. Nesse apêndice, utilizam-se os livros “O Processo” (Companhia das Letras), “A Metamorfose” (Companhia das Letras) e “O Castelo” (Companhia das Letras), clássicos existencialistas de Kafka, para ilustrar o pensamento do Absurdo. “O Mito de Sísifo” é uma publicação curta, com 160 páginas. Apesar do tamanho diminuto, não espere uma leitura fácil e rápida. A exposição conceitual da teoria de Albert Camus, com muitas citações, exemplificações, analogias e construções racionais, exige um olhar atento e esforçado por parte do leitor. O livro não chega a ter uma leitura muito difícil, porém está bastante longe de ser classificado como uma leitura fácil ou recreativa. O mais interessante de ler “O Mito de Sísifo” é que o leitor passa a compreender em profundidade o narrador-protagonista de “O Estrangeiro”. Meursault é, nada mais, nada menos, do que o símbolo literário do homem absurdo. Suas reações e suas crenças tornam-se claras quando conhecemos a lógica filosófica que o originou. De certa maneira, chegamos à conclusão que os “loucos” eram as demais personagens da novela e não ele. É admirável também como Camus expôs sua argumentação neste livro. Além de usar uma infinidade de filósofos e de teorias existencialistas (por exemplo, Friedrich Nietzsche, Jean-Jacques Rousseau, Søren Kierkegaard, Roland Barthes, Sócrates, Immanuel Kant, Edmund Husserl, etc.) para embasar suas explanações, o escritor francês também usou enredos e personagens literários para enriquecer suas exemplificações. Dessa forma, temos citações aos trabalhos de William Shakespeare, Marcel Proust, Molière, Fiódor Dostoiévski, Miguel de Cervantes, Herman Melville, Franz Kafka, etc. Quem tem paixão por literatura, é muito legal poder ver as análises filosóficas desses grandes autores. Se é na produção ficcional que Albert Camus mostra seu talento criativo, é no ensaio em que constatamos a profundidade conceitual do seu trabalho filosófico. Ao percebermos o verdadeiro alcance teórico do seu pensamento, acabamos valorizando ainda mais suas novelas e romances. Isso fica claro com “O Mito de Sísifo” e “O Estrangeiro”. Antes de ler esta obra de ensaio, eu tinha achado “O Estrangeiro” um bom romance (com uma certa dose de exagero, talvez, o classificasse como muito bom). Só agora, com a leitura de “O Mito de Sísifo”, pude compreender o quão complexo e rico é o universo ficcional por trás da criação de Meursault e de sua narrativa. Assim, “O Estrangeiro” adquire o ar de uma obra-prima, com um conteúdo muito superior à sua trama visível. O Desafio Literário prossegue, nesta semana, com a análise de outro livro famoso de Albert Camus, “A Peste” (Record). Nesse romance, sai a conceitualização do Absurdo e entra uma narrativa ficcional sobre a Revolta, outro tema central da filosofia camusiana. O post sobre “A Peste” estará disponível no Bonas Histórias na sexta-feira, dia 14. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Livros: O Estrangeiro – A novela mais famosa de Albert Camus
O Desafio Literário de setembro começa justamente com a análise da obra ficcional mais famosa de Albert Camus, o autor que será estudado pelo Bonas Histórias nas próximas quatro semanas. “O Estrangeiro” (Record) não é apenas o livro mais importante da carreira do escritor francês nascido, em 1913, na Argélia. Ele também é considerado pela maioria dos críticos literários como um dos principais títulos da literatura universal. O jornal francês Le Monde, por exemplo, o colocou na posição número 1 de obra mais influente do século XX, à frente de clássicos como “Em Busca do Tempo Perdido” (Globo), de Marcel Proust, “O Processo” (Companhia das Letras), de Franz Kafka, “O Pequeno Príncipe” (Agir), de Antoine de Saint-Exupéry, “As Vinhas da Ira” (BestBolso), de John Steinbeck, “O Nome da Rosa” (Record), de Umberto Eco, etc. A revista brasileira Bravo, em 2007, foi mais sensata e listou “O Estrangeiro” como a vigésima sexta trama ficcional mais relevante da história. Independentemente de sua posição nessas listas, fica nítida a importância desta publicação para a literatura ocidental. “O Estrangeiro” é a novela filosófica de Camus produzida em meio ao horror da Segunda Guerra Mundial. Neste livro, o escritor franco-argelino mistura críticas sociais e análises negativistas sobre o caráter humano a uma trama psicológica densa. Assim, temos a exposição do lado sombrio da alma dos homens e do mundo construído por eles. O protagonista desta narrativa é um rapaz inerte e insensível. Nada parece capaz de emocioná-lo, seja positiva ou negativamente. A morte da mãe, o casamento com uma linda namorada, o espancamento de uma mulher pelo amante, a liberdade de um cachorro, o assassinato banal de um jovem, a promoção no emprego e a condenação à morte são encarados como eventos banais por sua mente anestesiada. Publicado em 1942, “O Estrangeiro” integra a trilogia de Albert Camus sobre o absurdo. Composta também por “O Mito de Sísifo” (Record), ensaio de 1942, e “Calígula” (Alianza), peça teatral de 1941, essa coletânea discute questões existencialistas através da exposição do absurdo. Ficam nítidos nesses trabalhos camusianos a crítica ao totalitarismo, o pessimismo exagerado, o vazio da condição humana, a brutalidade do mundo, a desilusão com a religião e a precariedade da alma humana. Esses elementos são, obviamente, influências diretas de um dos períodos mais sombrios da história humana, o do Entre Guerras. Em 1967, esta história ganhou uma adaptação cinematográfica. O longa-metragem foi dirigido pelo italiano Luchino Visconti (não confundir com um filme homônimo lançado em 2017, este baseado em um romance do britânico Stephen Leather). De certa maneira, naquele momento, Albert Camus se alinhava aos conceitos existencialistas de Jean-Paul Sartre, por mais que negasse isso depois. Os dois autores franceses se tornaram amigos por causa da publicação de “O Estrangeiro”. Sartre escreveu uma crítica muito elogiosa sobre a novela de Camus em um jornal parisiense, dizendo desejar conhecer o autor desta incrível narrativa. Assim, quando os dois se encontraram em uma festa, Camus fez questão de se apresentar ao autor de “O Ser e o Nada” (Vozes). Era o início de uma grande amizade que seria rompida na década seguinte por desavenças conceituais e ideológicas. O motivo da briga entre eles foi o lançamento de “O Homem Revoltado” (Record), livro de Camus de 1951. Nesse ensaio, Albert afirmava que a única saída ao absurdo da condição humana era a revolta individual e não a coletiva, como proposto anteriormente por Sartre, partidário das crenças socialistas. Depois disso, os dois escritores nunca mais quiseram se falar. E há quem ache que as discussões políticas e ideológicas protagonizadas atualmente pelos brasileiros nas redes sociais, capazes de abalar amizades antigas, sejam eventos exclusivos do nosso tempo. Infelizmente, a intransigência à opinião discordante é um fenômeno muito antigo e presente em diferentes sociedades. “O Estrangeiro” foi traduzido para meia centena de idiomas e continua sendo, ainda hoje, vendido em boa parte das livrarias dos países ocidentais. Quando Albert Camus recebeu o Nobel de Literatura, em 1957, ele foi apresentado pela Academia Sueca como o autor que produziu “O Estrangeiro”, desde aquele momento uma obra pertencente aos cânones. Ou seja, esta obra foi um divisor de águas na carreira do escritor franco-argelino. Fica difícil dizer se Camus seria condecorado com o prêmio máximo da literatura se não tivesse escrito esta novela. Porém, é inegável a sua elevação ao patamar dos grandes nomes da literatura a partir desta produção. O enredo de “O Estrangeiro” se passa na Argélia, nesta época uma das principais colônias francesas da África. Meursault é o protagonista e narrador desta trama. O rapaz é um escriturário pacato e bastante calado. Ele leva uma vidinha sem qualquer emoção em Argel, a capital do seu país. Seu relato começa com o recebimento de um telegrama informando que sua mãe morreu. A senhora morava em um asilo em Marengo, cidade a oitenta quilômetros de Argel. Ela fora colocada neste lugar afastado pelo filho, que achava um fardo muito grande ter que cuidar de uma mulher idosa. A mensagem do falecimento da mãe não tira Meursault do seu marasmo típico. Mesmo assim, o jovem decide participar do velório e do enterro em Marengo. Para isso, viaja de ônibus para o interior do país. Lá, ele surpreende a todos, do porteiro ao diretor do asilo, por não chorar e, principalmente, por não ficar triste com o ocorrido. Sua desculpa é o cansaço pela viagem, que o deixou paralisado emocionalmente. De maneira fria, ele age como se nada de especial tivesse ocorrido. De volta a Argel, Meursault retoma rapidamente sua vida regular. Em questão de horas, o rapaz esquece completamente da mãe. Ele inicia um relacionamento amoroso com Maria Cardona, uma antiga colega de trabalho. O casal vai ao cinema assistir a uma comédia já no dia seguinte ao enterro da mãe de Meursault. O protagonista da novela também faz amizades com dois vizinhos, Raimundo Sintès, um cafetão violento e desequilibrado emocionalmente, e Salamano, um senhor idoso que maltrata seu cão. Algumas semanas mais tarde, a rotina de Meursault é quebrada por uma viagem de final de semana à praia. O rapaz viaja de ônibus com Maria e com Raimundo. A ideia do trio é passar uma tarde tranquila à beira-mar. Entretanto, Raimundo acaba envolvendo-se em uma briga feia com antigos inimigos de Argel, que o seguiram. Depois da confusão, Meursault decide caminhar sozinho pela praia. Durante o passeio, o jovem entra em delírio causado por uma insolação e acaba assassinando a tiros o desafeto de Raimundo. Preso em flagrante, Meursault é enviado para uma penitenciária até o julgamento do seu caso. Na prisão, ele se comporta naturalmente, como se nada de especial tivesse sucedido. Sua frieza chama novamente a atenção de todos. O narrador da novela não entende o desespero do seu advogado nem a preocupação do promotor. Rapidamente ambientado à rotina do cárcere, ele passa os dias alegremente, sem temer seu futuro e sem se arrepender dos seus atos passados. “O Estrangeiro” é um livro curtinho. Ele tem pouco mais de 120 páginas. É possível lê-lo de uma vez só. Não gastei mais do que três horas para concluí-lo de ponta a ponta nesta antevéspera de feriado. A obra mais famosa de Albert Camus tem duas partes. Na primeira, acompanhamos a rotina de Meursault até o assassinato perpetrado na praia. Na segunda parte, o narrador-protagonista relata os dias passados na prisão e a espera pelo julgamento. Se a banalidade do cotidiano de Meursault deixa a primeira metade do livro um pouco lenta e com um tom enfadonho, os capítulos da metade final mergulham na complexidade psicológica da personagem principal. Aí temos, enfim, toda a profundidade dos conceitos de Albert Camus, o que deixa a novela mais interessante para o leitor. Em “O Estrangeiro”, temos a teoria do Absurdo apresentada por meio de uma prosa ficcional. Nela, a existência humana é desprovida de sentido, de lógica e de propósito. A vida do homem é, na verdade, um grande vazio existencial, por mais curiosas que sejam as interpretações que se possam dar a ela. Daí surge a angústia, um sentimento inevitável do ser humano crente da sua inutilidade e da busca em vão por um motivo para viver. Segundo Albert Camus, o absurdo nasce do paradoxo de procurar uma razão em algo que não possui qualquer sentido. Outra questão que chama a atenção nesta novela é o caráter inconsciente do crime praticado por Meursault. Ele matou um homem sem um motivo lógico. Agindo por impulso, como se a vida humana não valesse muita coisa, ele assassina friamente o inimigo de Raimundo. Tão impressionante quanto a frieza do ato em si é a maneira como o protagonista sempre encarou sua vida. A existência de Meursault é pautada pela apatia e pelo imobilismo. Nada é capaz de emocioná-lo, nem positiva nem negativamente. Sua vida é um fardo que ele carrega independentemente dos acontecimentos e do ambiente externo. Isso fica evidente em vários momentos da narrativa. Tanto a morte da mãe como a possibilidade de ser condenado à morte não o entristecem. Por outro lado, quando patrão o convida para se mudar para Paris ou quando Maria cogita se casar com ele, Meursault não esboça qualquer alegria. A construção da personagem principal de “O Estrangeiro” é espetacular. Meursault (não sabemos seu nome, apenas seu sobrenome) é uma figura contraditória e bastante polêmica. A narrativa em primeira pessoa lhe é nitidamente favorável. O leitor acaba sentindo uma empatia natural pelo rapaz, por mais absurdos que sejam seus comportamentos e reflexões. Muito provavelmente isso não seria capaz de acontecer em um texto em terceira pessoa. Meursault nos faz recordar duas personagens de Fiódor Dostoiévski: Rodion Raskólnikov de “Crime e Castigo” (Editora 34) e o narrador anônimo de “Memórias do Subsolo” (Editora 34). A diferença é que o protagonista de “O Estrangeiro” não sofre de dor de consciência como Raskólnikov nem é retratado com tintas tão negativas como a personagem principal de “Memórias do Subsolo” (curiosamente, uma narrativa também em primeira pessoa). De forma geral, Meursault simboliza a crise do homem da metade do século XX, uma pessoa apática, sem um propósito claro de vida, descrente em relação às instituições políticas, religiosas e sociais, sem sentimentos claros aos humanos (como compaixão e empatia, por exemplo) e desiludido quanto ao futuro. Mesmo assim, no final das contas, o protagonista da novela desponta como uma figura positiva aos olhos do incrédulo leitor, capaz de se purificar frente a cólera da vida e de ver alguma beleza em sua existência rudimentar. Essa questão fica mais nítida no desfecho da trama. Apreciei também o humor que tangencia todo o livro de Albert Camus. São vários os momentos hilários em “O Estrangeiro”: o julgamento não se atém aos fatos do crime e sim ao comportamento social do acusado; a indignação do promotor ao saber que o preso não acreditava em Deus é maior do que a falta de um motivo para o assassinato; e a ausência de sexo na cadeia incomoda mais Meursault do que a falta de liberdade. Camus consegue construir um texto profundo e inteligente com sagacidade, quebrando com bom humor parte do drama da sua história (algo que faltou, por exemplo, nos livros de Dostoiévski citados no parágrafo acima). A reflexão entre a liberdade e a condição humana marcou o pensamento existencialista europeu na primeira metade do século passado. Por isso, a importância de “O Estrangeiro”, ainda hoje um título clássico da literatura francesa e universal. O texto desta novela, assim como o conteúdo de quase todas as obras de Camus (principalmente seus romances e novelas), mistura trechos de uma narrativa ficcional com as observações filosóficas sobre a essência e o caráter dos homens. Dessa forma, é aconselhável realizar esta leitura com a atenção redobrada. Apesar de não ter um texto difícil à primeira vista, este livro possui muitas nuances que, muitas vezes, só são perceptíveis ao leitor em uma segunda ou terceira leitura. O Desafio Literário deste mês começou com tudo, hein? Acredito que não poderíamos ter uma obra melhor do que “O Estrangeiro” para iniciar a análise da literatura de Albert Camus. O segundo livro do autor francês que será comentado em setembro no Bonas Histórias é “O Mito de Sísifo” (Record), ensaio lançado no mesmo ano que “O Estrangeiro”. As duas publicações integram a trilogia do Absurdo. O post sobre “O Mito de Sísifo” estará disponível na próxima segunda-feira, dia 10. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AlbertCamus #Existencialismo #Novela #Absurdismo #LiteraturaFrancesa #LiteraturaArgelina
- Desafio Literário de setembro/2018: Albert Camus
O Bonas Histórias já analisou, em 2018, cinco autores marcantes do século XX. Os artistas investigados até este momento no blog foram J. M. Coetzee (África do Sul), em abril, Juan Carlos Onetti (Uruguai), em maio, Herta Müller (Romênia/Alemanha), em junho, Rubem Fonseca (Brasil), em julho, e Xinran (China), em agosto. Agora, em setembro, o Desafio Literário vai estudar o estilo, as ideias e as obras de Albert Camus, outro nome de peso da literatura mundial. Trata-se do terceiro vencedor do Prêmio Nobel (Coetzee recebeu em 2003 e Müller conquistou em 2009) e o segundo europeu (Müller é a primeira) que estudamos neste ano no Desafio Literário. Nascido, em 1913, na Argélia, então colônia francesa, Albert Camus se notabilizou como escritor e filósofo, além de ter trabalhado como jornalista. Casado duas vezes, Camus viveu a partir dos 25 anos na França. Foi em Paris onde fixou residência até a sua morte em 1960. Graduado, mestre e doutor em Filosofia, Albert deixou dois filhos e um portfólio notável. A principal marca da literatura de Camus foi inserir elevadas doses de filosofia ao seu texto. Antes de ser um escritor, o franco-argelino se enxergava e agia, acima de tudo, como um filósofo. Em seu ponto de vista, a ficção servia como um excelente meio de apresentação/representação dos conceitos filosóficos. Uma de suas frases mais famosas é: “Se você quiser filosofar, escreva romances”. Em outra passagem célebre, ele insiste nesse ponto: “Não se contam mais ‘histórias’, cria-se seu universo. Os grandes romancistas são romancistas filósofos, ou seja, o contrário de escritores de teses. Vejam Balzac, Sade, Melville, Stendhal, Dostoièvski, Proust, Malraux, Kafka, para citar só alguns”. Camus, portanto, integrou essa linhagem de escritores filósofos. Adepto do existencialismo europeu (apesar de negar esse vínculo por causa de discussões com alguns colegas), Albert Camus é até hoje o principal adepto do Absurdismo, corrente criada no século XIX pelo dinamarquês Søren Kierkegaard e que, a grosso modo, apresenta conceitos do existencialismo com uma pegada mais niilista. A grande obra do Absurdismo é “O Mito de Sísifo” (Record), coletânea de ensaios de Camus publicada em 1942. O “Estrangeiro” (Record), o livro mais famoso do autor, é uma novela desenvolvida também em 1942 e que está totalmente ancorada nos conceitos do Absurdo. Nesse drama psicológico, debate-se de maneira reflexiva a condição da liberdade humana. A publicação é considerada uma das narrativas mais influentes da primeira metade do século XX. Vamos iniciar o Desafio Literário de setembro exatamente por essas duas obras. O post sobre “O Estrangeiro” estará disponível, no Bonas Histórias, na próxima quinta-feira, dia 6. Já a análise de “O Mito de Sísifo” será postada na próxima semana, mais precisamente na segunda-feira, dia 10. “A Peste” (Record) é outro livro cultuado de Camus. Nesse romance de 1947, temos uma alegoria à invasão da França pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O escritor utiliza-se do conceito da Revolta para escancarar os comportamentos contraditórios das pessoas em meio às graves crises. Esses princípios filosóficos seriam expostos de forma mais detalhada quatro anos mais tarde, na obra de ensaios “O Homem Revoltado” (Record). Essa é, muito provavelmente, a publicação mais polêmica de Albert Camus. Os conceitos da Revolta foram duramente criticados por intelectuais e filósofos franceses, o que deixou o franco-argelino extremamente entristecido. Os posts sobre “A Peste” e “O Homem Revoltado” serão apresentados, respectivamente, nos dias 14 e 18 de setembro. Em 1956, Camus lançou a novela “A Queda” (Record). Nessa publicação com altas doses autobiográficas, ele faz um desabafo aos críticos e explora com mais profundidade os conceitos do Absurdo e da Revolta. O livro precedeu a entrega do Prêmio Nobel, feito no ano seguinte. Com o recebimento do Nobel, Camus viu as críticas pelo seu trabalho diminuírem sensivelmente. Contudo, em 1960, no auge de sua carreira, o escritor acabou vitimado por um acidente automobilístico fatal. Onze anos após a tragédia, a viúva de Albert, Francine Camus, autorizou a publicação de “A Morte Feliz” (Record). Escrito entre 1936 e 1938, esse romance serviu de preparação para a produção de “O Estrangeiro”. Por isso, seu autor jamais quis publicá-lo. As duas últimas obras deste Desafio Literário, “A Queda” e “A Morte Feliz”, terão seus posts divulgados, respectivamente, nos dias 22 e 26. Somente a partir daí, poderemos montar a análise estilística de Albert Camus. Esse estudo final da literatura camusiana só será apresentado no último dia do mês. O portfólio artístico de Camus é longo e de qualidade indiscutível. O escritor e filósofo franco-argelino produziu novelas, romances, ensaios, peças teatrais, coletâneas de contos e obras de crônicas. É esse trabalho genial que vamos estudar agora no Bonas Histórias. E aí, preparado(a) para começar a leitura de Albert Camus, um dos escritores mais importantes da primeira metade do século XX? Reconheço que estou ansioso para iniciar logo os trabalhos. Inclusive já estou com “O Estrangeiro” (Record) em mãos. Essa será a primeira obra que vamos discutir aqui no blog. O Desafio Literário de setembro começará efetivamente na quinta-feira, dia 6. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AlbertCamus #Existencialismo #Absurdismo
- Livros: Compre-me o Céu – As crônicas de Xinran sobre a Política de Filho Único da China
O sexto e último livro que li para o Desafio Literário de agosto foi “Compre-me o Céu” (Companhia das Letras), a mais recente obra de Xinran. Nesta coletânea de crônicas, a escritora chinesa aborda as consequências da implantação da Política de Filho Único em seu país natal. A partir do ponto de vista de famílias e de indivíduos verídicos, Xinran mostra relatos do que é viver em lares sem irmãos, com pais superprotetores, em uma sociedade hipercompetitiva e com grande disparidade econômica entre a vida na cidade e no campo. Assim, temos um belo e sensível panorama do que acontece hoje em dia na nação mais populosa do mundo. Publicado em 2015, “Compre-me o Céu” nasceu das dúvidas de Xinran sobre como era o cotidiano da nova geração de chineses adultos. Próxima de atingir 60 anos de idade, a escritora queria entender como homens e mulheres nascidos entre 1979 e 1984, a primeira leva de crianças afetadas pela Política de Filho Único imposta pelo governo federal, e os jovens nascidos de 1985 a 1990, a segunda geração, pensavam e agiam. Para se conectar com essa galerinha que tinha a idade do seu filho, Xinran usou tanto entrevistas coletadas em suas viagens à China quanto de suas experiências pessoais na Inglaterra, país onde vive desde 1997. O resultado é um livro de quase 350 páginas, o segundo mais volumoso da carreira da escritora - o primeiro é “Testemunhas da China” (Companhia das Letras), com quase 500 páginas. Vale a pena lembrar que as publicações da chinesa têm um tamanho médio de 280 páginas. Por isso, esta foi a única obra de Xinran que não consegui ler em um único dia. Precisei do final de semana inteiro para concluí-la. Comecei a leitura no sábado e só a terminei no domingo à noite. “Compre-me o Céu” possui dez crônicas. Cada uma delas enfoca uma personagem verídica. São homens e mulheres chineses que tinham, na época do lançamento do livro, entre 25 e 36 anos. Para não expor a privacidade de ninguém, a autora aplicou um recurso usado em todos os seus livros anteriores: alterou os nomes dos citados. Assim, não haveria constrangimentos nem reclamações posteriores. Na introdução, Xinran explica o motivo do título da obra. Em uma viagem ao seu país natal em 2010, ela se deparou, enquanto passeava pelas ruas de Harbin, uma das cidades mais internacionais da China, com uma cena insólita. Uma menininha de cinco ou seis anos de idade era cortejada por uma comitiva de pessoas de três gerações da sua família. A garotinha era o centro das atenções dos seus familiares e, evidentemente, estava sendo muito mimada por todos. A surpresa maior ocorreu quando ao se aproximar do grupo, Xinran ouviu a menina pedir: “Mamãe, quero o rio, me compre o rio!”. Sua voz era de imposição de quem nunca ouvira um não na vida. Os adultos presentes ficaram em dúvida. Como dizer àquela preciosa menina que não era possível adquirir um rio só para ela? No meio do debate acalorado dos familiares sobre o que fazer, a menina voltou a falar. Todos se abaixaram para ouvi-la. “Então, quero comprar uma estrela no céu!”. Ela já se cansara do rio e agora almejava possui algo no céu. De maneira sucinta, essa historinha resume como se comporta boa parte da geração chinesa de filho único. No primeiro capítulo, conhecemos Du Zhuang. O rapaz é filho de um dos maiores industriais do país, um grande amigo de Xinran. Quando o pai de Du Zhuang passou a enfrentar problemas políticos na China (algo corriqueiro em se tratando de uma nação pouco democrática), ele pediu que a escritora abrigasse em sua casa em Londres o filho, então com vinte e poucos anos. Assim, Du Zhuang deixa às pressas a casa dos pais, onde sempre viveu, e foi morar com a amiga da família na Europa. Quando o rapaz chegou, Xinran se assustou. Mesmo formado em economia e sendo um adulto, Du Zhuang se comportava como uma criança muitíssimo mimada. Ele não sabia fazer absolutamente nada. Ele não imaginava como se abria a mala de viagem, não sabia arrumar suas roupas nos cabides, não entendia como ir à geladeira para pegar os alimentos que desejasse, etc. De tão paparicado pela mãe, o rapaz jamais havia feito qualquer coisa que não fosse estudar. Este é o relato mais impressionante do livro. Nos capítulos seguintes, conhecemos outros jovens adultos dessa geração: Andorinha Dourada, Asa, Lírio, Lua, Brilhante, Lenha, Cintilante, Peixe Voador e Guihua. Andorinha Dourada foi uma moça que Xinran conheceu, em 2002, em um hotel na Nova Zelândia. De tão oprimida pela família na China, a moça aproveitou um intercâmbio no exterior para cortar relações com seus pais. Estagiando no hotel, Andorinha Dourada estava sofrendo por não conseguir fazer nada o que lhe era pedido. Ela era uma negação como funcionária, pois não sabia fazer as tarefas mais simples do cotidiano. Assim, ela vivia um drama pessoal: não queria voltar para a casa dos pais onde seria excessivamente paparicada e também não estava contente por ser tão maltratada no exterior. O sofrimento dessa geração de chineses não se restringe à inabilidade das tarefas corriqueiras. Eles têm dificuldade para se relacionar com pessoas fora de casa, de namorar, de administrar seu dinheiro e de compreender os elementos mais simples das emoções humanas. Talvez o caso mais emblemático seja o de Yao Jiaxin. Na noite de 20 de outubro de 2010, Yao Jiaxin, um estudante de 21 anos de Xian, saiu de casa com o carro para visitar sua namorada. No caminho, acabou atropelando uma trabalhadora de 26 anos. Na hora, o rapaz fugiu apavorado. Depois de refletir um pouco, ele retornou ao local do atropelamento. Sua preocupação era que a mulher identificasse o número da placa do seu carro, o que iria gerar uma multa elevada para a família do estudante. Com esse temor em mente, Yao Jiaxin pegou a faca que usava para descascar frutas e deu oito punhaladas no peito da trabalhadora que ainda estava caída no chão. Pronto, o problema dele estava aparentemente resolvido. A mulher morta jamais poderia acusá-lo de atropelamento. “Compre-me o Céu” é um bom livro. Suas histórias são comoventes, dramáticas e surpreendentes. Contudo, se comparado a “Boas Mulheres da China” (Companhia das Letras) e a “Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras), por exemplo, ele é inferior. Seu principal defeito é tornar-se um pouco repetitivo. Depois de lida três ou quatro crônicas (capítulos), já é possível prever o tipo de vida e de complicações dos jovens adultos chineses. Nesse sentido, o livro só tem uma guinada radical. Ela acontece no último capítulo, quando a autora aborda a realidade dos chineses vindos do interior do país. Talvez o que tenha faltado aqui foi uma síntese maior. O livro é aparentemente mais extenso do que o necessário. Outro ponto que não gostei foi a insistência de Xinran de debater o crime e o julgamento de Yao Jiaxin com todos os protagonistas das crônicas. Se no final de 2010 e no início de 2011, a China inteira debatia o caso do estudante que matara friamente uma trabalhadora na rua de Xian, hoje em dia essa questão não é relevante para os leitores internacionais (muito provavelmente, nem para os chineses). Porém, todos os capítulos do livro terminam com as opiniões das personagens principais das crônicas sobre Yao Jiaxin. Além de não fazer mais sentido, esse debate é cansativo e um tanto vazio (Yao Jiaxin é mais um psicopata do que um exemplar típico da juventude chinesa). Se por um lado temos esses pequenos probleminhas de ordem narrativa, por outro, temos vários pontos positivos. A maneira de Xinran escrever é magnífica. Ela conta cada história com muita sensibilidade, lirismo e força dramática. A contextualização de cada crônica é maravilhosa. A impressão é que estamos ouvindo a autora contar um pouco de sua vida e sobre as pessoas que conheceu ao longo desses anos todos. O trabalho de escolha das histórias narradas foi muito bem-feito. A escolha temática também foi acertada. Se nos livros anteriores, a autora passou rapidamente pela questão dos filhos únicos na China, aqui ela mergulha com tudo nesse assunto. Ao final da coletânea de crônicas, o leitor estrangeiro tem uma nítida noção da realidade vivenciada por esses jovens adultos desde a infância. O problema que aparentemente era de ordem individual e familiar ganhou maiores proporções nos últimos anos, se transformando em um drama coletivo da sociedade chinesa. Ler Xinran é sempre uma tarefa agradável e enriquecedora. Até mesmo quando ela não apresenta o seu melhor trabalho, ainda sim saímos boquiabertos com a beleza e a força de suas narrativas. Agora é esperar para ver qual será o novo livro da escritora. Admito que estou aguardando ansioso o seu próximo lançamento. O encerramento do Desafio Literário de agosto será feito na próxima sexta-feira. Retorno ao Bonas Histórias no último dia do mês para apresentar a conclusão sobre a literatura de Xinran, a principal escritora chinesa da atualidade. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Xinran #ColetâneadeCrônicas #Drama #LiteraturaChinesa
- Livros: Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida – Os dramas maternos por Xinran
“No final de 2007, o número de crianças órfãs chinesas adotadas no mundo todo chegou a 120 mil. Essas crianças foram levadas para 27 países – e quase todas eram meninas. A maior parte dos chineses acha inacreditáveis os números da adoção, assim como acham difícil crer que crianças chinesas tenham encontrado mães e lares em tantos países. Por que a China tem tantas meninas órfãs?”. Assim começa “Mensagem De Uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras), o sexto livro da carreira de Xinran. Esta obra é também a quinta publicação da autora que o Bonas Histórias analisa em agosto. Como é de conhecimento dos leitores frequentes do blog, a literatura de Xinran está sendo alvo de nossa investigação durante este mês no Desafio Literário. Nesta coletânea de crônicas, a escritora chinesa mais importante da atualidade procura entender o que leva muitas de suas conterrâneas a abandonar seus bebês recém-nascidos, quase sempre meninas. Seriam elas pessoas desalmadas? Seriam estas mulheres vítimas da Política do Filho Único que vigorou por algumas décadas no país mais populoso do mundo? Haveria uma indústria da adoção tendo como público-alvo famílias estrangeiras dispostas a pagar pequenas fortunas para ter um bebê chinês? A busca por essas respostas atiça a curiosidade dos leitores ao longo da leitura do livro. Publicado em 2010, “Mensagem De Uma Mãe Chinesa Desconhecida” é, de certa forma, a continuação natural do livro anterior de Xinran, “As Filhas Sem Nome” (Companhia das Letras). Se em “As Filhas Sem Nome”, obra lançada em 2008, a escritora relatava, do ponto de vista das filhas abandonadas, o sofrimento de famílias chinesas separadas, agora é a vez de encarar esse problema na perspectiva das mães biológicas. Afinal de contas, por que tantas meninas eram/são abandonadas na China?! Disposta a encontrar uma resposta definitiva para essa questão, Xinran se dedicou a ouvir diretamente as mulheres envolvidas nessa tragédia social. Aproveitando-se do seu trabalho de jornalista, Xinran pôde conversar com muitas mulheres no período em que viveu na China. Como apresentadora de um popular programa de rádio, “Palavras na Brisa Noturna”, ela recebeu, por quase uma década, milhares de cartas de ouvintes que contavam seus dramas. Além disso, entrevistou muita gente. Nas viagens que fez pelo interior da China, pôde interagir com agricultores simples e com autoridades comunistas. Depois que imigrou para a Europa, em 1997, Xinran continuou empenhada em ajudar as órfãs chinesas. Além de ter publicado vários livros sobre esse tema, ela também fundou, em 2004, uma ONG que auxilia órfãos chineses a encontrar famílias adotivas no exterior e a localizar seus pais biológicos na China. Ou seja, a jornalista coletou, ao longo dos anos, muito material sobre esse assunto. “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida” é a coletânea de crônicas de Xinran sobre o drama de várias mulheres envolvidas com o abandono de crianças, a maioria meninas e quase todas recém-nascidas. Assim, conhecemos as histórias tristes de muitas mães que tiveram o prazer da maternidade amputado de suas vidas. Para poupar a identidade das pessoas citadas, a escritora chinesa trocou todos os nomes das personagens presentes em seus relatos. Pelas páginas do livro, conhecemos a adolescente pobre que foi expulsa da escola e de casa quando apareceu grávida. Sem ninguém para auxiliá-la (o namorado foi o primeiro a fugir), a garota partiu para a cidade grande para trabalhar. Como não havia quem ficasse com sua filhinha enquanto ela estivesse na fábrica, a única alternativa encontrada foi largar seu bebê na porta de um orfanato. Outro caso emblemático é o da universitária oriunda de uma família rica. A moça ficou grávida de um professor da faculdade. Diante do desespero dos pais que achavam aquela criança uma desonra para o nome da família, a jovem aceitou abandonar seu recém-nascido. Uma mulher casada entra em desespero quando descobre que não consegue gerar um menino. Depois de quatro gravidez consecutivas, ela só tem meninas. Por ser moradora de uma região rural, pobre e tradicional da China, não é aceitável que a primeira criança da família seja uma mulher. Por isso, ela vê seus familiares praticando o infanticídio. Há também o relato de uma mulher bem-sucedida moradora de uma cidade grande. A alegria da maternidade vai pouco a pouco consumindo sua energia. Com empregos importantes e desgastantes, ela e o marido não têm tempo para se dedicar à filhinha pequena. Quando essa mulher descobre que as crianças que vão para o exterior vivem muito bem nos lares de famílias estrangeiras, ela decide levar sua filha para adoção. Cada capítulo do livro é dedicado a uma história real. Além dessas mães, há relatos de uma ex-parteira encarregada, por muitos anos, de “resolver” as meninas que “insistiam” em nascer do ventre de suas clientes. Há a gestora de orfanatos que cuidava das crianças abandonadas enquanto ela mesma tinha suas próprias confidencias a relatar a Xinran. Temos o depoimento de uma funcionária do governo federal que viajava o mundo para conferir a integridade dos pais estrangeiros que queriam adotar as crianças chinesas. São várias narrativas. Há desde a mãe que teve seu bebê roubado até a mulher que tentava suicídio toda vez que se lembrava da filhinha morta. Um dos casos mais fortes é do casal que abandonou a filha de aproximadamente três anos na estação de trem. Eles queriam ter um filho homem e, assim, largavam todas as meninas que nasciam. Com muita sensibilidade, Xinran também aproveita para relatar alguns episódios de sua vida pessoal. Dessa maneira, a escritora se junta às várias mulheres retratadas nas páginas para explicar a tragédia da maternidade interrompida na China contemporânea. Os acontecimentos mais marcantes vivenciados pela jornalista são a carência afetiva que ela diz sentir por jamais ter sido amada pela mãe e a malsucedida tentativa de adotar uma menina que ela encontrou abandonada em um hospital. “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida” é um livro forte e esclarecedor. Com a delicadeza necessária para tratar de temas tão difíceis, Xinran consegue relatar o que acontece em seu país natal com muita propriedade. De certa maneira, essa obra me fez lembrar “O Livreiro de Cabul” (Record), de Åsne Seierstad, “Cidade do Sol” (Nova Fronteira), de Khaled Hosseini, e “Fuga do Campo 14” (Intrínseca), de Blaine Harden. Todas essas publicações mostram ao leitor estrangeiro a realidade dura de nações com culturas e crenças muito distintas às dos países ocidentais. Outro ponto positivo desta coletânea de crônicas de Xinran é a sensibilidade da autora ao descrever o sofrimento de suas compatriotas. A resposta para a questão inicial levantada pelo livro não é tão simples de ser encontrada, como os leitores mais apressados poderiam imaginar. As chinesas que abandonam suas filhas não são mulheres monstruosas como alguns poderiam sentenciar apressadamente. Elas são as que mais sofrem no processo de separação de suas filhas. Prova maior disso é o alto índice de suicídios femininos na China. Outra questão que cai por terra é jogar a culpa inteiramente na Política de Filho Único. Muitos casos de infanticídio foram provocados mais pela cultura tradicional sexista chinesa do que por decorrência das regras governamentais de limitação do número de filhos. “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida” é, ao mesmo tempo, triste e extremamente revelador. Acabamos ficando divididos entre gostar muito do livro e do jeito de Xinran narrar e ficar perplexos com o que acontece no dia a dia da milenar sociedade chinesa. Ainda um pouco chocado com o que li, parto agora para a próxima obra do Desafio Literário de agosto. A sexta e última leitura de Xinran deste mês é “Compre-me o Céu” (Companhia das Letras), publicação de 2015. O post desse livro estará disponível no Bonas Histórias no dia 27. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Xinran #ColetâneadeCrônicas #LiteraturaChinesa #Drama
- Livros: As Filhas Sem Nome – O segundo romance de Xinran
Xinran, a autora analisada no Desafio Literário de agosto, ficou conhecida internacionalmente por retratar os dramas das mulheres chinesas em suas coletâneas de crônicas. “As Boas Mulheres da China” (Companhia das Letras) e “Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras) são os melhores exemplos desse trabalho. A escritora aproveitou-se das entrevistas e das conversas tidas com suas conterrâneas ao longo dos anos para reunir uma infinidade de histórias reais do que é viver na China. A realidade para quem é do sexo feminino é, muitas vezes, dura, trágica e, até mesmo, aterrorizante no país mais populoso do mundo. Admito que virei fã das crônicas desta autora. Contudo, o portfólio literário de Xinran não se resume às narrativas não ficcionais. A escritora já lançou dois romances. O mais famoso deles é “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), comentado na semana passada no Bonas Histórias. No post de hoje, vou falar sobre o segundo romance da autora, “As Filhas Sem Nome” (Companhia das Letras). Esta obra é tão boa quanto a primeira narrativa ficcional de Xinran, apesar de ser menos famosa. Para ser sincero, achei este livro até mesmo melhor do que “Enterro Celestial”. “As Filhas Sem Nome” é uma publicação de 2008. Ele é o quarto livro da carreira da chinesa. Como todos os títulos de Xinran, este foi escrito em mandarim e depois foi traduzido para o inglês (e a partir daí para as demais línguas). Esta obra é classificada como romance, porém, ela possui um pezinho no universo das crônicas. A proposta de Xinran foi unir ficção e não ficção em um mesmo livro. Para tal, a autora escolheu três episódios verídicos ocorridos com mulheres pobres do interior da China. Em busca de dinheiro e de melhor qualidade de vida, o trio precisou migrar para a cidade grande na primeira década do século XXI. Com base nos relatos dessas moças, a escritora romanceou suas narrativas, além de ter integrado as histórias (as mulheres eram desconhecidas uma das outras) em uma única trama. O resultado é maravilhoso! No romance, somos apresentados ao drama de Li Zhongguo e sua mulher. O casal pobre mora em uma pequena aldeia rural de Anhui. A vida difícil e o pouco dinheiro não são os principais problemas da família. O que manchou a honra de Li Zhongguo e de sua esposa foi o fato de eles nunca terem tido um filho homem, algo imperdoável para a cultura tradicional (e machista) chinesa. O casal Li teve seis filhas. Vale lembrar, para quem se assustou com a quantidade de filhos desta família, que a Política de Filho Único implementada pelo governo comunista nunca “pegou” nas regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos. Assim como acontece com frequência no Brasil, na China algumas leis são cumpridas em algumas regiões (normalmente nos grandes centros urbanos) e não em outras (povoados rurais e localidades afastadas das metrópoles). Por lá, também há regras que “pegam” e outras que não “pegam”. O desprezo pelas garotas do casal Li pode ser resumido em uma evidência: nenhuma delas ganhou nome próprio. Elas foram numeradas por ordem de nascimento. Temos, assim, Um, Dois, Três, Quatro, Cinco e Seis. Apesar do menosprezo geral recebido desde o nascimento por serem mulheres, as seis irmãs contaram com a sorte de não terem sido mortas logo após o parto. Esse é o triste destino de muitas meninas que nascem no interior da China. A decepção dos pais por não verem um garotinho acabou tornando o infanticídio uma prática muito comum. Ao crescerem sem educação, sem respeito e sem afeto, Um, Dois, Três, Quatro, Cinco e Seis são vistas meramente como “moedas de troca”. Se Zhongguo tiver sorte, ele poderá vendê-las para candidatos a maridos por uma boa quantia de dinheiro ou para famílias de prestígio na região. Esses “encaminhamentos” das filhas não minimizam a desonra de não ter tido um filho homem, mas poderão aplacar um pouco a dura realidade da família. Esse acaba sendo o caminho de Um, a mais velha. Ela se torna esposa de um importante dirigente local. Quando Dois é informada que será esposa de um homem velho e paralítico, a moça não suporta a decisão do pai e se mata. Sem graça com a atitude destemperada da segunda filha, Zhongguo volta seu olhar para Três. Ela será vendida no lugar da irmã morta. Três também não quer ser mulher de um homem velho e paralítico, apesar da riqueza e da importância da família do candidato. Com a ajuda de um tio, Três acaba fugindo de Anhui. Três vai morar sozinha em Nanjing, uma das maiores cidades chinesas. Nanjing vivia naquele momento uma acelerada industrialização. Rapidamente, a moça consegue um emprego em um restaurante e passa a ser valorizada pelos patrões. Pela primeira vez na vida, Três entendia que uma mulher poderia ser uma pessoa importante e produtiva socialmente. As diferenças entre a cultura tradicional do interior da China e a cultura moderna da cidade grande chinesa não pararam por aí. A migrante precisou entender várias diferenças culturais, idiomáticas e comportamentais do novo lugar. Só assim conseguiu se adaptar à Nanjing. Ao voltar para Anhui no Festival da Primavera, o feriado mais importante do país quando os chineses comemoram seu Ano-Novo, Três é recebida com respeito pelos familiares e pelos vizinhos. O dinheiro que ela trouxe para os pais, fruto do seu trabalho e de suas economias na cidade grande, é uma pequena fortuna do ponto de vista dos interioranos. Por consequência, Três adquire o status de uma pequena celebridade local. Inspiradas pela irmã bem-sucedida, Cinco, a irmã feia e considerada a mais burra de todas, e Seis, a única que frequentou a escola e que é tida como a mais inteligente, decidem morar também em Nanjing. Quatro, por ser surda, não pode seguir o caminho das irmãs. Ela fica encarregada de cuidar dos pais no interior. Com o final do Festival da Primavera, Três, Cinco e Seis partem para a cidade grande de ônibus. A partir daí o livro narra as dificuldades de Cinco e Seis para se adaptarem ao novo lugar. Além disso, a obra mostra os sofrimentos de Três para continuar vivendo em Nanjing. “As Filhas Sem Nome” é um romance de tamanho mediano. O livro possui 290 páginas. Por ter uma linguagem simples e ser uma trama de baixa complexidade narrativa, sua leitura é rápida. Concluí a publicação em duas noites. O romance trata da adaptação das moças pobres do interior na cidade grande. Esse é o fio narrativo que une as histórias das três irmãs Li. Com isso, o leitor consegue compreender o choque cultural da passagem de muitas pessoas da Antiga China (agrária, conservadora, machista e desumana) para a Nova China (cosmopolita, moderna, globalizada e industrial). É possível também conhecer várias particularidades da sociedade chinesa. A literatura de Xinran propicia uma viagem rica culturalmente e de uma beleza estética impressionante. Quanto à temática do livro, é legal notar que o Ocidente costuma olhar quase que exclusivamente para as dificuldades de adaptação de africanos e asiáticos na Europa ou de latino-americanos nos Estados Unidos. Esses são os choques culturais em voga nas últimas décadas para a mídia, para o cinema e para a literatura. Entretanto, em quantidade de fluxo migratório, a saída de milhões de pessoas do interior da China para as grandes cidades chinesas foi muito maior. Mesmo sendo uma migração interna, as mudanças de estilo de vida, crenças, valores e hábitos são também absurdas nesse caso. É como se o chinês interiorano saísse de um lugar medieval e entrasse em uma localidade alguns séculos à frente no tempo. É isso o que Xinran mostra. Do ponto de vista feminino, essas mudanças são ainda mais significativas. Conseguirão as três irmãs se habituarem nessa Nova China? A resposta pode frustrar um pouco os leitores que esperam um desfecho mais romântico e objetivo. Mais importante do que o final da história é o caminho narrativo proposto por Xinran. O que vale aqui é a apresentação do conflito e não o seu desenlace. Quem estiver acostumado apenas com as crônicas de Xinran, há em “As Filhas Sem Nome” muito mais detalhes narrativos. Isso é algo natural. As histórias narradas no romance são mais completas quando comparadas às obras não ficcionais. O interessante é que Xinran pontua para seus leitores antes (no prefácio) e depois (no posfácio) do romance onde a realidade começa e onde ela termina. Com essa revelação, conhecemos um pouquinho das verdadeiras personagens desta trama, que inspiraram o livro. “As Filhas Sem Nome” é uma obra bonita, sensível, forte e extremamente reveladora. Suas histórias são excelentes e o estilo de literatura de Xinran valoriza ainda mais os dramas das protagonistas. É preciso também elogiar o belo trabalho de tradução feito no romance. O leitor consegue capturar a realidade chinesa sem grandes complicações. O Desafio Literário de Xinran prossegue na próxima quinta-feira, dia 23, com a análise crítica de “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras), coletânea de crônicas de 2010. Vejo vocês nos próximos posts do Bonas Histórias. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Filmes: Mentes Sombrias - Ficção científica dos adolescentes com superpoderes
Não tenho preconceitos com filmes direcionados ao público adolescente. Nos últimos anos, várias produções desse gênero apresentaram bons enredos e conseguiram levar multidões às salas de cinema. Alguns longas-metragens foram além e fizeram um casamento interessante entre aventura juvenil e ficção científica. "Jogos Vorazes" (The Hunger Games: 2012) e "Divergente" (Divergent: 2014) são, provavelmente, os melhores exemplos recentes de sucesso nessa linha. Suas histórias são tão boas que viraram séries cinematográficas (além de terem vendido milhões de livros nos quatro cantos do planeta). Há outros casos de sucesso em menor escala: "Maze Runner: Correr ou Morrer" (The Maze Runner: 2014), "Guardiões da Galáxia" (Guardians Of The Galaxy: 2014) e "A Hospedeira" (The Host: 2013). No ano passado, recordo que gostei muito de "O Círculo" (The Circle: 2017) e, em 2016, curti bastante "Never - Um Jogo sem Regras" (Nerve: 2016), ambos comentados aqui no Blog Bonas Histórias. Com essa retrospectiva em minha memória, entrei na sala de cinema ontem à noite para ver "Mentes Sombrias" (The Darkest Minds: 2018). E que decepção! Sem erro de avaliação, este foi o pior filme que vi em 2018. Sua história não tem pé nem cabeça. Apesar de ser uma trama com uma boa dose de ação e conter algum romantismo, o longa-metragem peca em sua lógica interna. Ele não explica suas divagações narrativas nem qualquer acontecimento disruptivo do enredo (um grave problema para uma ficção científica). Para completar o quadro desolador, "Mentes Sombrias" parece uma cópia (de baixa qualidade) de "X Men" (2000). Assim, o espectador fica a mercê dos acontecimentos, sem compreendê-los totalmente. E, ainda por cima, acaba se lembrando de ter visto várias cenas e passagens deste filme em outras produções passadas. Impossível não se recordar de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" (Eternal Sunshine of the Spotless Mind: 2004) na parte final de "Mentes Sombrias". Aí é duro de engolir. Se você, como eu, espera ou esperava uma produção com o mesmo grau de excelência e inovação de "Jogos Vorazes" ou "Divergente", tire seu cavalinho da chuva. O que temos aqui é um filme muito, muito fraco. Orçado em pouco mais de US$ 30 milhões, "Mentes Sombrias" é uma adaptação do romance homônimo escrito por Alexandra Bracken. O livro foi lançado nos Estados Unidos no final de 2012 e virou best-seller. Nos anos seguintes, ele ganhou continuações. Mais quatro livros integram a série criada por Bracken. Por aqui, a primeira obra da coleção foi publicada pela Intrínseca e chegou às livrarias brasileiras só no mês passado. Dirigido pela sul-coreana Jennifer Yuh Nelson, de "Kung Fu Panda 2" (2011) e "Kung Fu Panda 3" (2016), o longa-metragem foi produzido por Dan Cohen e Shawn Levy, da série "Stranger Things" (2016), e por Dan Levine, do excelente "A Chegada" (Arrival: 2016). A adaptação da história do livro para o cinema ficou a cargo do roteirista Chad Hodge, de "O Jogo do Amor" (I Want to Marry Ryan Banks: 2004). No elenco de "Mentes Sombrias", Amandla Stenberg, Harris Dickinson, Miya Cech e Skylan Brooks formam o quarteto de protagonistas. Completam o quadro de atores principais Mark O'Brien, Mandy Moore, Brandley Whitford e Patrick Gibson. O filme começa com os Estados Unidos sofrendo de uma grave epidemia viral. A doença misteriosa ataca exclusivamente as crianças e os adolescentes do país. Infelizmente, 90% dos jovens acabam morrendo. Os meninos e as meninas que sobrevivem adquirem poderes especiais. Com medo desses superpoderes, o Presidente da República (interpretado por Brandley Whitford) decreta uma lei em que as Forças Armadas devem retirar a criançada da guarda dos pais. Para a sociedade, ele diz que os jovens serão levados para tratamento médico. Contudo, os meninos e as meninas são enviados para campos de trabalho forçado. Nesses campos, quem possui poderes telepáticos é exterminado friamente (afinal, representam um grande perigo aos demais indivíduos). Os que têm outras habilidades (superinteligente, habilidade telecinética e poder de conduzir eletricidade) são escravizados, transformando-se em trabalhadores de alto desempenho. Nesse cenário apocalíptico, Ruby Daly (Amandla Stenberg), uma menina que acabou de completar dez anos de idade, se vê obrigada a deixar a casa dos seus pais e é transferida para uma das bases das Forças Armadas. Ali, ela é avaliada como tendo poderes telepáticos. Ao perceber que tal diagnóstico a levará à morte, a garota consegue entrar na mente do médico e reverter o julgamento dele. Assim, Ruby é liberada para fazer trabalhos forçados no acampamento de jovens com habilidades aceitáveis. Seis anos mais tarde, uma nova avaliação é feita e Ruby é novamente diagnosticada como tendo habilidades telepáticas. Antes que a menina fosse assassinada pelos soldados, uma médica (Mandy Moore) consegue fugir do campo com Ruby. A médica diz ser integrante de um grupo chamado de A Liga. A Liga trabalha em prol das crianças com superpoderes. Com medo da doutora, Ruby acaba fugindo com um trio de adolescentes que ela conhece por acaso: Liam (Harris Dickinson), Zu (Miya Cech) e Bolota (Skylan Brooks). A trupe juvenil passa a viajar de carro pelas estradas do país, fugindo de todos os adultos que encontra pelo caminho. As Forças Armadas, a Liga e mercenários à procura de crianças irão fazer de tudo para capturá-las ou matá-las. Qual o principal problema de "Mentes Sombrias"? Em minha opinião, o filme peca pela falta de sentido. Sua história é absurda, falha e sem qualquer lógica interna. Por exemplo: Que doença provocou os superpoderes nas crianças? Como o governo ficou sabendo tão rapidamente que os meninos e as meninas tinham novas habilidades se nem mesmo os pais deles nem as próprias crianças tinham notado isso? Para que um país como os Estados Unidos, onde a lei do livre mercado e do liberalismo econômico vigora tão fortemente, ia estabelecer campos de trabalhos forçados para jovens? E por que as cidades interioranas foram abandonadas pelos adultos depois que as crianças foram levadas pelo Exército? São tantas perguntas não esclarecidas que eu poderia passar um dia inteiro listando-as. Ou o enredo do livro de Alexandra Bracken tem graves problemas e/ou o roteiro de Chad Hodge foi muitíssimo malfeito. Além disso, os superpoderes das crianças se parecem muito com os dos personagens de "X Men". Onde está a criatividade desta trama?! Sinceramente, achei o enredo de "Mentes Sombrias" sem qualquer originalidade (um erro capital para um filme nos dias de hoje). Por que não inventaram, ao menos, poderes diferentes de outras histórias de super-heróis, hein? Juro que não sei. Os dramas do quarteto de protagonista também não empolgam. O romance entre Ruby e Liam é bobo e não cativa o público. Zu é uma personagem apagada e Bolota não tem vida própria fora do seu grupo de amigos. Diria até que a escolha dos atores foi equivocada. Onde já se viu escalar para papéis de adolescentes atores com aparência de adultos ou de crianças?! A mistura de adultos e crianças juntos interpretando adolescentes fica muito esquisita. Amandla Stenberg parece, em muitos momentos, uma garotinha de 12 ou 13 anos. Já Harris Dickinson, par romântico de Stenberg no filme, aparenta ter ao menos 20 anos. E Patrick Gibson, outro pretendente da personagem de Stenberg, em algumas cenas parece ter 30 anos. Difícil acreditar nisso! Se o início e o desenvolvimento de "Mentes Sombrias" são sofríveis, o final do longa-metragem consegue ser ainda pior. As reviravoltas da trama são previsíveis e muito forçadas. E quando o espectador acha que já viu de tudo, copia-se descaradamente uma passagem de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", um ótimo filme de ficção científica da década passada. Por melhor que tenham sido trabalhados os recursos visuais nas cenas finais, a beleza estética ficou prejudicada pela falta de originalidade da narrativa. Sinceramente, fiquei decepcionado com "Mentes Sombrias". E imaginar que já cogitam a produção das sequências dessa história. Eu não perderei meu tempo conferindo-as. Veja, a seguir, o trailer deste longa-metragem: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JenniferYuhNelson
- Livros: O que os Chineses Não Comem – A coletânea de crônicas de Xinran
Dos seis livros de Xinran que li para o Desafio Literário de agosto, o único que não gostei foi “O que os Chineses Não Comem” (Companhia das Letras). Para ser mais exato em meu julgamento, considerei esta obra péssima! Se você ainda não conhece a literatura de Xinran, pelo amor de Deus, não comesse por esta publicação. Deixe-a, na melhor das hipóteses, para o final de sua lista de prioridades. Na certa, eu teria julgado mal a autora se não conhecesse os demais títulos de seu portfólio e, inadvertidamente, tivesse lido isoladamente este livro. E olha que quem está falando isso é um fã assumido da escritora e jornalista chinesa. Contudo, mesmo sendo um admirador do trabalho de Xinran, não posso deixar de apontar quando ela escorrega. E aqui ela derrapou feio! “O que os Chineses Não Comem” é uma coletânea de 51 crônicas. Esses textos foram publicados originalmente no The Guardian entre junho de 2003 e setembro de 2005. Vale lembrar que Xinran teve uma coluna quinzenal no tradicional periódico inglês por muitos anos. Nas páginas do The Guardian, ela pôde apresentar aos ocidentais um pouco da cultura e da realidade de seu país natal. Ao menos era essa a proposta de sua coluna. Nestas crônicas, Xinran abordou assuntos variados envolvendo seus conterrâneos: como os chineses se cumprimentam (jamais se beijam no rosto, por exemplo), como encaram e debatem a sexualidade, o que comem e bebem nas refeições, qual o peso da família em suas vidas, como encaram a profissão, etc. Foi no final de 2005 que surgiu a ideia de transformar as crônicas do jornal em um livro. E, assim, em 2006, foi lançado no mercado editorial “O que os Chineses Não Comem”. Este é o terceiro título da carreira literária de Xinran. A obra veio em seguida de “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso), de 2003, e “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), de 2004. Como já falei algumas vezes no Bonas Histórias, a crônica é um gênero narrativo muito perigoso quando tirado das páginas dos periódicos e levado às páginas dos livros. Apesar de ser um apaixonado por este tipo de texto quando veiculado nos jornais e nas revistas (sim, ainda os leio diariamente!), sei o quanto as coletâneas de crônicas podem se tornar defasadas, enfadonhas e desconectadas da realidade. Isso ocorre principalmente quando elas são lidas fora de contexto ou depois de muitos anos de publicadas. Esse é o tipo de conteúdo que, infelizmente, acaba se deteriorando muito rapidamente na maioria das vezes. Para quem se recorda do Desafio Literário do ano passado, acabei tecendo duras críticas às obras de crônicas de Lya Luft. “Pensar é Transgredir” (Record) e “Em Outras Palavras” (Record), por exemplo, são títulos chatíssimos e de conteúdo muito pobre. Nem mesmo o grande Machado de Assis se salva quando analisamos suas crônicas pela perspectiva contemporânea. Elas são, muitas vezes, incompreensíveis e nada atrativas para os leitores atuais. No caso de “O que os Chineses Não Comem”, são cinco os seus maiores problemas. Em primeiro lugar, o conteúdo das colunas de Xinran é extremamente besta. Sim, besta! A escritora fala da sua surpresa de voltar à China e olhar os cardápios dos restaurantes de lá. E o Kiko?, o leitor se pergunta. Ela esclarece se nas casas chinesas têm ou não têm piscina. E quem tem uma curiosidade tão boba como essa, hein? A coleção de banalidades beira a infantilidade. Pensei que jamais fosse falar isso um dia, mas o teor deste livro de Xinran é insignificante para a maioria dos leitores. Se a proposta era apresentar as diferenças culturais entre ocidentais e chineses de forma atrativa, a autora passou longe, muito longe de seu objetivo. Outra questão delicadíssima é o preconceito explícito de Xinran, algo, até então, não evidenciado nos outros livros da autora, mas que causam um certo mal-estar nesta coletânea de crônicas. Um exemplo emblemático disso aparece quando ela diz categoricamente que só conheceu dois homens chineses em toda sua vida que fossem bons indivíduos. E o restante dos seus conterrâneos, algo em torno de 800 milhões de habitantes? Eles são classificados pela escritora como maus elementos. E o que os dois seres excepcionais, as raras exceções, fizeram para ganhar esse posto de bons chineses? Um desconhecido se preocupou com Xinran, no saguão do aeroporto, quando ela derrubou café na calça. E o segundo, marido de uma amiga, cozinhava em casa para a família. Generalizar o comportamento de um povo inteiro ou de parte dele é um preconceito digno de pena. Para piorar, justificar as exceções com tamanha futilidade é duvidar do bom senso de quem lê as páginas do material. Os comentários preconceituosos não são direcionados apenas aos homens. Com as novas gerações, Xinran comete deslizes ainda mais grosseiros. Por não entender os comportamentos e a mentalidade dos jovens, principalmente em relação à sexualidade, a escritora muitas vezes acaba sendo ofensiva ou simplesmente desrespeitosa com eles. Do seu ponto de vista, os moços e as moças atuais são fúteis e desmiolados por pensar exclusivamente em sexo, isso antes do casamento. É muito puritanismo para o meu gosto. Outro ponto que incomoda o leitor minimamente exigente é quando Xinran passa a ver tudo apenas do ponto de vista chinês, como se algumas coisas acontecessem só em seu país natal. As mulheres antigamente não conversavam com ninguém sobre sexo. Há algumas leis que pegam em uns lugares e não em outros. A sociedade é profundamente machista. Esses fatos, infelizmente, não se aplicam apenas à China, mas também a muitos outros lugares do mundo. A falta de uma visão mais abrangente prejudica em muito as abordagens e as argumentações da autora. Não gostei também da estética visual do livro. Nenhuma das crônicas tem título. Seus nomes são simplesmente as datas de suas publicações no The Guardian. E, paradoxalmente, cada crônica tem um subtítulo. Como assim, os textos não têm título, mas têm subtítulos?! Sim, essa é uma das bizarrices desta obra. A escritora não se preocupou em nomear seus textos. Se fosse uma redação do ENEM, com certeza os avaliadores iriam tirar pontos (muitos pontos) por isso. Para finalizar, muitas crônicas de “O que os Chineses Não Comem” são textos repetitivos. Ou seja, já o lemos em outros livros da escritora. Isso fica evidente logo de cara. A primeira crônica da coletânea, por exemplo, é uma parte integral do livro “As Boas Mulheres da China”. Sim, a escritora copiou o que já havia publicado em outra obra e passou para esta. E esse não é um fato isolado. A sensação é que já lemos em algum lugar boa parte do conteúdo apresentado neste livro. Não há nada pior do que o leitor se sentir enganado pelo autor, que tenta reciclar seus textos antigos dando uma pequena maquiada. Depois de um bombardeio de críticas negativas tão pesadas, alguém pode me perguntar se há algo de positivo em “O que os Chineses Não Comem”? Sim, com certeza tem. A última página do livro é o seu ponto alto. Ao chegar ali, o leitor solta um suspiro de alívio e abre um sorriso por ter, enfim, concluído uma das leituras mais chatas de sua vida (no meu caso, uma das leituras mais enfadonhas do ano). Nunca Xinran foi tão superficial, fútil, pueril, preconceituosa e repetitiva como aqui. Ainda bem que esta obra é uma exceção dentro do portfólio literário da escritora chinesa. Para provar isso, nas próximas semanas trarei as demais publicações de Xinran. Neste domingo, analisarei “As Filhas Sem Nome” (Companhia das Letras), um romance baseado em fatos reais. Não perca a sequência do Desafio Literário deste mês! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Xinran #ColetâneadeCrônicas #Drama #LiteraturaChinesa
- Livros: Enterro Celestial – O romance hiperdramático de Xinran
Li, nesta semana, “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), o segundo livro da carreira de Xinran. Não por acaso, esta foi também a segunda obra selecionada para o Desafio Literário de agosto. Neste mês, o Bonas Histórias está estudando a literatura da principal escritora chinesa da atualidade. Diferentemente da publicação de estreia de Xinran, “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso), que reúne uma série de histórias reais de conterrâneas da autora, “Enterro Celestial” apresenta uma única trama. Por isso, o livro é classificado como romance ao invés de uma coletânea de crônicas. Sei que parece estranha essa classificação em um primeiro momento. Afinal, há uma linha tênue entre ficção e não ficção em “Enterro Celestial”. Xinran diz que esta é uma história verídica, transmitida pela própria protagonista em uma entrevista concedida à escritora em 1994. Sob esse ponto de vista, não poderíamos chamar o livro de romance. Ele se enquadraria mais na categoria de não ficção (por exemplo, biografia). Por outro lado, uma vez que a autora chinesa transformou os relatos ouvidos em uma narrativa, tendo total liberdade criativa para sua construção, esse processo pode ser definido como ficção. Além de “Enterro Celestial”, Xinran tem mais uma obra classificada como romance. Trata-se de “As Filhas Sem Nome” (Companhia das Letras), publicação de 2008. Todos os demais títulos da autora são coletâneas de crônicas. Lançado em 2004, dois anos depois do best-seller “As Boas Mulheres da China”, “Enterro Celestial” foi bem recebido pela crítica literária. O Los Angeles Times, por exemplo, apontou-o como um dos melhores livros do ano de 2005. A construção deste romance foi similar ao desenvolvimento do livro anterior. Por apresentar "Palavras na Brisa Noturna", um programa de rádio popular na China entre 1989 e 1997, Xinran pôde conhecer o drama de milhares de chinesas. As ouvintes enviavam cartas, telefonavam e conversavam pessoalmente com a apresentadora sobre suas rotinas, os desafios que precisavam enfrentar diariamente, seus sonhos, as violências que sofriam e suas preocupações mais íntimas. Assim, Xinran conheceu como ninguém os dramas vividos por suas conterrâneas. Parte dos relatos coletados na época de "Palavras na Brisa Noturna" foi usada para a construção de “As Boas Mulheres da China”. Para “Enterro Celestial”, a impressão que tive é que a escritora deixou para abordar a história mais dramática que conheceu de suas ouvintes. Por isso, se você ficou chocado com o que leu nas páginas de “As Boas Mulheres da China”, prepare-se para mergulhar em uma trama de sofrimento sem precedente. O romance de Xinran tem em seu prefácio a explicação de como a escritora conheceu Shu Wen, a personagem principal do livro. Segundo as palavras da autora, que tomo a liberdade de repassar aqui, ela entrevistou Wen e ficou perplexa com o que ouviu. “Em 1994, eu trabalhava como jornalista em Nanquim. Durante a semana apresentava um programa noturno de rádio que discutia vários aspectos da vida da mulher chinesa. Um dos ouvintes telefonou de Suzhou para me dizer que conhecera uma mulher estranha na rua. Ambos compravam sopa de arroz de um vendedor ambulante e começaram a conversar. Ela acabara de chegar do Tibet. O ouvinte supôs que eu poderia achar interessante entrevistá-la e me deu o nome do pequeno hotel onde ela estava hospedada. Ela se chamava Shu Wen”. Xinran prossegue: “Com a curiosidade despertada, fiz a viagem de quatro horas de ônibus de Nanquim até a movimentada cidade de Suzhou, que, a despeito das reformas, mantém sua beleza (...). Lá, na casa de chá ao lado do hotel, encontrei uma mulher idosa vestida com roupas tibetanas e cheirando fortemente a couro velho, leite rançoso e esterco de animal. Os cabelos grisalhos estavam presos em duas tranças malfeitas, e a pele era enrugada e curtida pelo tempo. Mas, embora parecesse tão tibetana, seu rosto tinha as características do rosto de uma chinesa (...). Quando ela começou a falar, seu sotaque logo confirmou que era, de fato, chinesa (...). Por dois dias, ouvi sua história. Quando voltei para Nanquim, minha cabeça girava. (...) Percebi (...) que acabara de conhecer uma das mulheres mais excepcionais que jamais conheceria”. Esse é o trecho inicial de “Enterro Celestial”. Com a curiosidade aguçada, o leitor mergulha nesta leitura. A vida de Shu Wen é descortinada ao longo das páginas do romance. Na década de 1950, Shu Wen era uma recém-formada médica da cidade de Suzhou. A moça chinesa de 26 anos casara com Kejun, um colega mais velho de faculdade. Kenjun era médico do Exército comunista da China e foi enviado para o Tibet três semanas depois de casar, deixando Wen sozinha em Suzhou. O marido partia para a guerra que a China travava com o Tibet. Alguns dias depois da viagem de Kenjun, Wen recebe a notícia que seu esposo morreu no campo de batalha. Desesperada com a notícia, a jovem não acredita no comunicado do Exército. “Como um médico poderia ter morrido tão rapidamente?”, pensa incrédula. Acreditando que Kenjun ainda estivesse vivo, Shu Wen alista-se no Exército como médica e parte para o Tibet. Assim, começa a saga da protagonista de “Enterro Celestial” em busca do homem que ela amava. Uma vez no Tibet, Wen conhece Zhuoma, uma jovem tibetana corajosa e idealista. Como Wen, Zhuoma acabara de perder contato com o amor da sua vida, Tiananmen. Amigas na dor de buscar os homens que amam, Wen e Zhuoma partem juntas para localizar Kenjun e Tiananmen. A localização dos homens não será fácil. As duas mulheres precisarão atravessar as intermináveis cadeias montanhosas do Tibet e enfrentar a Guerra Chino-tibetana para descobrir o que aconteceu com Kenjun e Tiananmen. A viagem delas poderá levar dias, semanas, meses, anos, décadas... E, até mesmo, uma vida inteira. “Enterro Celestial” é um romance do tipo super-romântico. Essa característica é o que dá força à sua narrativa. Shu Wen fará o que for necessário para achar o grande amor da sua vida. Assim, ela não se importa de viver de maneira precária e passar pelos maiores perrengues imagináveis e inimagináveis ao longo de toda a sua vida. Seu ideal é nobre e sua força de vontade é admirável. Se ela fosse uma personagem ficcional, diria que seu principal defeito era parecer inverossímil. Contudo, essa mulher existiu e realizou tudo o que Xinran descreve. É realmente uma história incrível! Ao mesmo tempo que o aspecto do hiper-romantismo serve de mola propulsora à trama, ele também torna o romance exageradamente piegas. Se em “As Boas Mulheres da China” as protagonistas das narrativas são vítimas da sociedade e das circunstâncias, Shu Wen é vítima de sua própria teimosia e de sua loucura. Como consequência, não consegui me solidarizar com ela como fiz com as personagens anteriores de Xinran. Para mim, Shu Wen não é uma mulher apaixonada e valente, e sim uma pessoa traumatizada com a viuvez precoce. Ela vive imersa em uma obsessão desmedida. Suas atitudes não são elogiáveis, mas dignas de pena. Do meu ponto de vista, Zhuoma é uma personagem mais interessante e admirável do que a própria Wen. Curiosamente, apesar de todos os dramas e sofrimentos vivenciados por Shu Wen, “Enterro Celestial” não é um livro que leve seus leitores às lágrimas. Esse talvez seja seu pior defeito. Se a autora queria sensibilizar os leitores com uma história triste e trágica, ela não consegue partir os corações de quem lê seu romance. Como Xinran poderia ter feito isso? Sinceramente, não sei. Só sei que ela não consegue transmitir com a força necessária as desilusões e o desespero da protagonista. A escritora acabou focando muito mais na narrativa em si do que no que a história poderia passar aos leitores. O que mais gostei deste livro foi a descrição da cultura, das crenças, da história e dos hábitos tibetanos. A sensação é que o leitor de “Enterro Celestial” é jogado no Tibet junto com a protagonista da obra. Tudo o que ela vivencia nos afeta diretamente. Querendo ou não, nós aprendemos, durante a leitura desta obra, sobre a história e os valores desta região tão particular do mundo. O choque cultural é realmente muito forte. Se o Tibet já é um local cercado de mistério e charme, neste romance de Xinran ele era adquire um tom ainda mais encantador. Outro ponto que adorei foi a maneira como Xinran construiu o romance. A escritora chinesa intercala de forma admirável os encontros no hotel com Shu Wen e os relatos da mulher idosa. Dessa maneira, o leitor fica o tempo inteiro dividido entre ficção e não ficção. “Enterro Celestial” é interessante para ver como Xinran se sai como romancista. Neste aspecto, a autora chinesa merece muitos elogios. Sua trama é objetiva, sensível e muito forte. A autora não gosta de enrolação e vai direto ao ponto, descrevendo com precisão os pontos mais importantes da narrativa. Apesar de não gostar nenhum pouco de romances com tanto sentimentalismo (eles parecem um tanto infantis e bobos para mim), admito que fui surpreendido positivamente com esse livro. Mesmo não me identificando nem me solidarizando com Shu Wen, é inegável que ela seja uma mulher com uma história fenomenal. Se Xinran diz que ela é “uma das mulheres mais excepcionais que jamais conheceria”, quem sou eu para contestar, hein? O Desafio Literário de agosto continuará na próxima quarta-feira, dia 15. O terceiro livro que será investigado neste mês no Bonas Histórias é “O que os Chineses Não Comem” (Companhia das Letras”), uma coletânea de crônicas de 2006 da escritora chinesa mais bem-sucedida do momento. Não perca os próximos passos da análise literária de Xinran. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Xinran #Romance #LiteraturaChinesa #Drama
















