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- Livros: Deixe-me em Paz - O polêmico best-seller de Murong Xuecun
Já dizia a letra da música de Roberto Carlos: "E como vou saber/O que eu devo fazer/Que culpa tenho eu?/Me diga amigo meu/Será que tudo/O que eu gosto/É imoral, é ilegal/Ou engorda...". Lembrei-me desses versos ao ler, no último domingo, "Deixe-me em Paz" (Geração), best-seller do chinês Murong Xuecun. Considerado um dos mais polêmicos romances asiáticos da última década, esse livro foi proibido em seu país natal (proibição ainda em voga). A implacável censura da República Popular da China achou que "Deixe-me em Paz" passou dos limites ao expor a crueldade de uma sociedade corrupta, violenta, gananciosa, imoral, individualista e extremamente consumista. Basicamente, todas essas características são valores modernos de um país cada vez mais capitalista e menos comunista, em oposição às tradições seculares da sociedade chinesa. E como ninguém resiste a algo imoral e ilegal (Roberto, você tem razão: a mistura de depravação com proibição é um afrodisíaco poderoso!), o livro foi um sucesso retumbante tanto em seu país natal (quem disse que a censura imposta pelas autoridades chinesas surtiu o efeito desejado, hein?) quanto no exterior, virando um best-seller internacional. Estava, assim, iniciada a construção de uma das mais incríveis e inusitadas carreiras literárias deste século. Impossibilitado de editar seu romance na China, Murong Xuecun (pseudônimo de Hao Qun, autor nascido em 1974) publicou inicialmente a obra apenas na Internet. Milhões de leitores foram atraídos para o blog do escritor. O boca a boca foi a melhor propaganda da trama seca e mordaz que encantou rapidamente os jovens chineses ávidos por uma literatura diferente e empolgante. Com o sucesso doméstico, editoras europeias e norte-americanas foram seduzidas a publicar o romance censurado, mas que atraía um grande contingente de leitores. Assim, "Deixe-me em Paz" foi lançado no exterior. Rapidamente a obra ganhou o status de best-seller mundial, atraindo a atenção de leitores dos quatro cantos do planeta. Por consequência, Murong tornou-se um premiado escritor. Em 2009, "Deixe-me em Paz" e seu escritor foram finalistas do Man Asian Literary Prize. Esta obra de Murong deu origem, anos mais tarde, a uma série literária. Chamada de "Trilogia de Chengdu", a saga do personagem principal continua pela moderna China capitalista do tempo atual. "Deixe-me em Paz" narra em primeira pessoa os dramas de Chen Zong. Morador da cidade de Chengdu (daí o nome da trilogia), a quinta mais populosa da China, o protagonista tem aproximadamente trinta anos e trabalha como gerente de vendas de uma empresa de autopeças. Ambicioso, mulherengo, desonesto e adepto a uma boa maracutaia, Chen Zong relata a séria crise pela qual está vivendo. Para ser preciso, o rapaz está passando por várias crises ao mesmo tempo, cada uma relativa a um campo de sua vida. No aspecto profissional, ele vê seu pior inimigo dentro da empresa, Gordo Dong, ser alçado ao posto de gerente geral da fábrica. Assim, inicia-se um intenso combate entre os dois para ver quem primeiro puxa o tapete do outro. Na esfera particular, a vida de Chen está um inferno. O casamento com Zhao Yue parece caminhar para o divórcio. Enquanto trai a esposa com todas as mulheres que vê pela frente, o narrador desconfia que também esteja sendo enganado. A suspeita é que Zhao Yue tenha um amante. Para piorar as coisas (sim, sempre é possível piorar!), Chen Zong ainda engravida Ye Mei, a noiva de seu melhor amigo, Li Liang. Em pouco tempo, as amizades de mais de uma década do rapaz com Li Liang e com Cabeção Wang (seu segundo melhor amigo) serão postas à prova. Para encerrar o drama, uma dívida milionária tira o sossego da personagem principal. Chen Zong deve uma fortuna. Se esses antigos compromissos financeiros não forem pagos no curto prazo, ele irá à bancarrota. Como esse herói chinês irá superar tantas adversidades em tão diferentes frentes? Essa é a dúvida que temos como leitores. A opção de Chen Zong é fazer algo que ele está bem acostumado desde a infância: aprontar mais e mais. O remédio para cada coisa que ele aprontou e não deu certo é uma nova maracutaia, ainda mais criativa e indecente do que a anterior. Assim, a bola de neve de problemas acaba só se avolumando interminavelmente. Aqui está a graça tragicômica desta história. Chen Zong é um homem antiético, egoísta e profundamente hedonista. Ele não pensa duas vezes antes de: propor um aborto para a jovem amante; solicitar uma propina para os fornecedores da companhia onde trabalha; fraudar notas fiscais de despesas de viagem; espionar descaradamente a intimidade da esposa; e criar um escândalo sexual que prejudique um rival. Como ninguém é de ferro, enquanto apronta tudo isso, Chen não resiste às boas bebedeiras e às noites de jogatina desenfreada. Também vai para a cama com todas as mulheres que pintam a sua frente. Para isso não há o menor critério. Suas parceiras sexuais podem ser meninas menores de idade, prostitutas, velhas gordas e esposas dos amigos. “Sendo mulher, que mal tem?”, pensa o anti-herói de “Deixe-me em Paz”. A literatura e o protagonista de Murong Xuecun são parecidos aos de Rubem Fonseca, Sérgio Sant'anna e Reinaldo Moraes, por exemplo (para limitarmos as comparações à ficçao brasileira). Nesse sentido, “Deixe-me em Paz” pode ser visto como a versão chinesa de “Pornopopéia” (Objetiva). As semelhanças de Chen Zong com José Carlos Ribeiro, o polêmico protagonista do romance de Reinaldo Moraes, são incontáveis. Com muita violência, sarcasmo, sexo, corrupção, sabotagem e referências à cultura pop, a trama de Murong narra com uma sinceridade incômoda o submundo de uma metrópole chinesa atual. Enquanto Chengdu é o retrato da Nova China, Chen Zong escancara um tipo de homem sórdido que não pensa em mais nada além de si próprio, em suas vontades e em como subir na vida. Com pouco mais de 300 páginas, "Deixe-me em Paz" é uma leitura saborosa (obviamente para quem gosta de se aventurar pelo mundo-cão) e rápida. Li o livro inteiro no domingo. A trama é muito bem escrita e prende o leitor desde o início. É impossível parar de lê-la. O humor do texto, as confusões do enredo e a personalidade contraditória do protagonista (um típico caso de anti-herói que é "adotado" pelos leitores, que passam a torcer por ele, independentemente de suas ações) dão um colorido especial ao romance. Portanto, não é à toa que "Deixe-me em Paz" tenha ganhado tantos prêmios internacionais e tenha virado um best-seller mundial. Sua história é muito boa e foi muito bem construída pelo autor. Fiquei com vontade de ler a sequência da saga de Chen Zong. Infelizmente, o restante da "Trilogia de Chengdu" ainda não foi publicado no Brasil. O único ponto negativo deste livro que identifiquei durante a leitura está nos confusos nomes chineses. Os leitores brasileiros, não acostumados com os nomes próprios tipicamente chineses, podem se confundir um pouco. Em vários momentos, confesso que acabei me perdendo. "Quem é quem?" e, principalmente, "Quem é essa personagem que está sendo citada agora?" foram as perguntas que me fiz em algumas páginas. Porém, nada muito sério que estrague a compreensão do todo e a experiência literária. Atualmente, Murong Xuecun vive nos Estados Unidos e escreve para o New York Times. Considerado um dos principais críticos da censura e da falta de democracia na China, o escritor transformou-se em um importante militante a favor da liberdade de expressão em seu país natal. “Deixe-me em Paz” também se tornou um dos principais títulos da literatura chinesa contemporânea. Vale a pena conhecê-lo. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Filmes: Marshall, Igualdade e Justiça - Combate ao racismo nos Estados Unidos
Durante a cerimônia do Oscar do último domingo, percebi que não tinha visto um dos filmes postulantes à estatueta de melhor canção original. O longa-metragem em questão era "Marshall - Igualdade e Justiça" (Marshall: 2017) – e sua música indicada era "Stand Up for Something". Confesso que fiquei, naquele momento, muito curioso para conhecer o filme depois de ouvir as opiniões elogiosas da crítica especializada. Segundo os comentaristas de cinema que cobriam o evento, não apenas sua música principal era/é magnífica, mas o longa-metragem como um todo era/é incrível. Por isso, ontem à noite, arranjei um tempinho e matei à vontade de conhecer "Marshall". Se o tivesse visto antes do Oscar, na certa a minha torcida no domingo teria sido totalmente para esta produção. Achei-o fantástico. Mesmo assim, entendi a escolha da academia por "Remember Me", de "Viva - A Vida é Uma Festa" (Coco: 2016), como a canção vencedora. "Remember Me" é tão boa quanto "Stand Up for Something", porém é mais carismática e emotiva do que a música de "Marshall" (atributos essenciais na hora do júri tomar sua decisão). Orçado em US$ 12 milhões, "Marshall - Igualdade e Justiça" foi dirigido por Reggie Hudlin, mais conhecido pelos seus trabalhos na televisão norte-americana. Ele é especialista em dirigir seriados. Seus últimos filmes no cinema tinham sido "A Serviço de Sara" (Serving Sara: 2002), "O Tigrão" (The Ladies Man: 2000) e "O Trambique do Século" (The Great White Hype: 1996), comédias que, convenhamos, não são motivos de orgulho para ninguém. Ou seja, "Marshall" foi sem dúvida nenhuma o grande feito da carreira de Hudlin como diretor (ele também é ator). Nos papéis principais foram escalados Chadwick Boseman, de "Pantera Negra" (Black Panther: 2018) e "42 - A História de uma Lenda" (42: 2013), e Josh Gad, de "A Bela e a Fera" (Beauty And The Beast: 2017) e "Amor & Outras Drogas" (Love and Other Drugs: 2010). Completaram o elenco Kate Hudson, Sterling K. Brown, Dan Stevens e James Cromwell. Lançado em setembro de 2017 nos cinemas dos Estados Unidos, "Marshall" ainda não entrou em cartaz no circuito comercial brasileiro. Daí o motivo por não tê-lo visto até então. Não sei o motivo da ausência desta produção das telonas por aqui. Talvez o destaque no Oscar, apesar de não ter levado nenhuma estatueta para casa, ajude a viabilizar sua inclusão em algumas salas do cinema nacional nos próximos meses. O longa-metragem, por enquanto, está disponível apenas no Google Play, no iTunes e no NOW. Eu o vi no NOW ao custo de R$ 14,90 (o aluguel digital vale por dois dias). "Marshall - Igualdade e Justiça" é baseado em fatos reais. O filme se passa na década de 1940, quando o racismo era uma prática disseminada em grande parte da sociedade norte-americana, principalmente nos estados mais conservadores do sul do país. Vale lembrar que em muitos lugares dos Estados Unidos, naquele momento da história, as crianças negras não podiam frequentar as mesmas escolas que os estudantes brancos. No ônibus ou nos bebedouros, por exemplo, a cor da pele do indivíduo influenciava o local onde ele podia se sentar ou beber água. Essas práticas irracionais são motivo de vergonha até hoje para qualquer um que tenha o mínimo de bom senso. Para ajudar as pessoas negras que eram vítimas de injustiças praticadas em todo o país, havia, nesta época, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, sua sigla em inglês). Repare que hoje em dia esse nome seria visto como politicamente incorreto. A organização sem fins lucrativos sediada em Nova York enviava bons advogados para defender gratuitamente homens e mulheres negros quando entendia que eles estavam sendo acusados injustamente pela polícia e pela comunidade local. Sem essa atuação mais firme da NAACP junto aos tribunais, muitos inocentes poderiam acabar sendo declarados culpados pelos juízes brancos e, como consequência, seriam vítimas do preconceito racial. Para defender uma causa que estava provocando muito burburinho na imprensa da nação, a NAACP enviou, em 1941, o advogado negro Thurgood Marshall (interpretado por Chadwick Boseman) para Connecticut. O objetivo dele era inocentar Joseph Spell (Sterling K. Brown), um trabalhador negro e pobre que estava sendo acusado de atacar e estuprar uma mulher branca e rica. Eleanor Strubing (Kate Hudson), uma figura ilustre da cidade, dizia ter sido vítima de Spell. Segundo a versão da moça, o rapaz entrou em seu quarto, na ausência do marido que estava viajando a trabalho, violentou-a e depois tentou matá-la. A Sra. Strubing, por sorte, conseguiu escapar e chamou a polícia. O episódio provocou a ira da população branca dos Estados Unidos, que passou a enxergar os negros de maneira ainda mais negativa. Thurgood Marshall deveria, assim, provar a inocência de Spell como também mostrar para o país inteiro o valor das pessoas com a sua cor de pele. Os negros eram mais vítimas de uma sociedade racista do que indivíduos violentos e imorais. Contudo, o trabalho de Marshall acabou dificultado pela intolerância racial do promotor do caso. Por ser negro, o advogado foi proibido de defender Spell. Assim, coube ao seu assistente branco, Sam Friedman (Josh Gad), a tarefa de conduzir a defesa no tribunal. O problema é que Friedman era totalmente inexperiente em direito criminal e, ainda por cima, também era vítima de preconceito. Judeu em pleno período da Segunda Guerra Mundial, o rapaz tímido e bonachão rapidamente ganhou o desprezo de todos pelo trabalho em uma causa considerada indigna pela maioria da população da cidade. Assim, Thurgood Marshall (esperto, malandro, corajoso, eloquente e muito ativo) e Sam Friedman (inexperiente, medroso, tímido, calado e passivo) passam a trabalhar juntos para salvar Joseph Spell da prisão perpétua. A cada dia, o caso parece mais difícil para a defesa. Tudo indica que o trabalhador negro estuprou realmente a mulher branca. A tarefa da dupla de advogados da NAACP é quase impossível. "Marshall" é um filme espetacular. O que o faz ser tão bom, para começo de conversa, é saber que os fatos narrados são reais. Thurgood Marshall é figura conhecida em seu país por ter sido o primeiro negro a se tornar juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Ele também foi uma das vozes mais atuantes no combate ao racismo entre as décadas de 1950 e 1980. Seu trabalho nos tribunais superiores foi decisivo para o banimento de várias práticas vistas hoje em dia como absurdas, mas que eram até poucas décadas atrás disseminadas na rotina da sociedade norte-americana. As enrascadas que Thurgood Marshall se mete (e consegue superar) no caso de Spell são empolgantes porque o espectador sabe que elas aconteceram de verdade. Do contrário, o trabalho do advogado em Connecticut poderia parecer inverosímel aos olhos das pessoas mais descrentes. Afinal, um homem sozinho conseguir mudar a visão de uma sociedade inteira parece uma tarefa um tanto utópica. Daí, a força desta trama! Outros pontos positivos do longa-metragem são a caracterização da época (cenário e figurino), a boa trilha sonora, a ótima fotografia e a impecável atuação dos atores. Tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes estão sublimes. O roteiro também foi muito bem escrito. Os diálogos são bons e são os responsáveis por conduzir a trama ao seu clímax. Há várias reviravoltas na história, o que a torna eletrizante. E, para completar, os principais personagens são hilários. Apesar do clima de tensão e do tom de drama sério (o tema do filme é delicadíssimo), o jeito engraçado da dupla de advogados da NAACP (eles são totalmente opostos um do outro) rende boas cenas de humor. Thurgood Marshall é retratado quase como uma versão jurídica do detetive Axel Foley, personagem interpretado com maestria por Eddie Murphy no clássico "Um Tira da Pesada" (Beverly Hills Cop: 1984). Já Sam Friedman é quase um Sasá Mutema, personagem de Lima Duarte na telenovela "O Salvador da Pátria". Irá gostar de "Marshall" quem aprecia filmes de tribunal. Neste tipo de produção, a ação se faz através dos diálogos e das discussões, algo que pode aborrecer os espectadores mais ansiosos e impacientes. Como gosto de longas-metragens deste gênero - "Doze Homens e Uma Sentença" (Welve Angry Men: 1957) é seu melhor representante até hoje -, adorei o que vi. "Marshall" é um drama forte com boas doses de humor. Contudo, seu principal mérito está em debater o racismo embrenhado nas instituições judiciais. Como as aplicações das leis (assim como as suas promulgações) são feitas por homens e mulheres falíveis e defeituosos, a Justiça acaba sempre enviesada pelos preconceitos sociais e pelos julgamentos pessoais. Portanto, uma sociedade preconceituosa jamais conseguirá ser justa e correta, por mais que tente emular esses ideais. Entendido isso, será mesmo que a Justiça do Brasil hoje em dia é muito diferente daquela praticada nos Estados Unidos durante a década de 1940?! Confesso que terminei o filme com essa ingrata dúvida... Veja o trailer de "Marshall - Igualdade e Justiça": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Livros: O Coronel e o Lobisomem - O realismo fantástico de José Cândido de Carvalho
No começo deste ano, li a principal obra literária de José Cândido de Carvalho. "O Coronel e o Lobisomem" (Companhia das Letras) foi escrito na década de 1960 e de lá para cá tem sido editado ininterruptamente. O livro se aproxima da marca de cinquenta e seis edições lançadas, o que demonstra evidentemente o seu grande apelo de público ao longo dos últimos cinquenta e quatro anos. Na média, é praticamente uma edição por ano. A história de "O Coronel e o Lobisomem" foi levada recentemente às telas dos cinemas brasileiros. O filme de 2005 foi produzido pela Globo Filmes e teve Guel Arrais como produtor e Maurício Farias como diretor. Além de escritor, José Cândido de Carvalho trabalhou como jornalista (por muitos anos na revista "O Cruzeiro") e advogado (por pouquíssimo tempo no início de carreira). Em 1974, foi eleito para uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras, sendo, assim, reconhecido como um dos principais autores de sua geração. "O Coronel e o Lobisomem" foi o segundo livro ficcional de Carvalho. Publicada em 1964, a obra pertencente ao gênero realismo fantástico se tornou um best-seller no mercado editorial de nosso país desde o seu lançamento. O sucesso foi tanto de público quanto de crítica. O romance conquistou importantes prêmios no cenário nacional, entre eles o Jabuti de 1965, o mais relevante da literatura brasileira. O livro também foi traduzido e lançado em alguns países europeus. Curiosamente, José Cândido de Carvalho só publicou dois romances, ambos no início de carreira. Antes de "O Coronel e o Lobisomem", o escritor fluminense já tinha lançado "Olha para o Céu, Frederico!", de 1939. Depois, Carvalho só escreveu obras de contos ("Porque Lulu Bergantim não Atravessou o Rubicon", "Um Ninho de Matagafos Cheio de Matagafinhos" e "Se Eu Morrer, Telefone para o Céu"), de crônicas ("Ninguém Mata o Arco-Íris") e infantojuvenis ("Manequinho e o Anjo de Procissão", "Notas de Viagem ao Rio Negro" e "Os Mágicos Municipais"). Assim, seu portfólio literário é composto por nove títulos. O enredo de "O Coronel e o Lobisomem" aborda a vida de Ponciano de Azeredo Furtado. O protagonista, que narra a trama em primeira pessoa, é neto de Simeão Furtado, um ex-oficial da Guarda Nacional de muito sucesso e que se tornou uma espécie de herói lendário na cidade de Campos dos Goytacazes. Sem sucessos concretos para exibir (o que o diferencia totalmente do avô famoso), Ponciano tenta desesperadamente se equiparar às façanhas do antepassado. Assim, passa a narrar suas aventuras e suas realizações, julgando-as extraordinárias, para o leitor. Quando jovem, ele derrotou Vaca-Braba, um valentão que trabalhava no circo e que tinha fama de invencível. Depois, expulsou um cobrador de impostos que visitava as propriedades rurais da região extorquindo os proprietários. Na ânsia crescente de mostrar sua coragem e sua beleza, o narrador pouco a pouco começa a exagerar na dose. Aí surgem histórias de confrontos contra lobisomens (obviamente vencidos por Ponciano) e paixões avassaladoras de sereias (que ficam gamadas no nosso protagonista). Por fim, o narrador adota a cunha de Coronel, apesar de nunca ter lutado nem servido as forças armadas. Posicionando-se como um defensor dos fracos e dos oprimidos de Sobradinho, sua cidade natal, Ponciano se apresenta como um herói popular, relatando do início ao final do romance seus êxitos financeiros, amorosos e armados. Porém, fica evidente para o leitor minimamente atento, logo nas primeiras páginas, que o Coronel é um narrador pouco confiável. Ao invés de corajoso, inteligente, bonito e preocupado com a população carente, ele é um tanto covarde, extremamente ingênuo e muito vaidoso. Aqui está o lado cômico da história de José Cândido de Carvalho. Por mais que o narrador se esforce para nos mostrar algo, fica evidente o oposto do que ele tenta nos provar. Por exemplo, para Ponciano, ele é um partidão local, sendo cobiçado por todas as mães ansiosas em casar bem suas filhas. A realidade é bem distinta dessa visão do Coronel de Sobradinho. Uma a uma, as famílias da região acabam preterindo aquela figura excêntrica. As belas filhas dos principais fazendeiros tornam-se muitas vezes esposas de sujeitos simples, pobres e pacatos, para incompreensão do protagonista. Até mesmo as famílias menos importantes e ricas desprezam a candidatura de Ponciano como marido. Como consequência, ele torna-se um solteirão rico, solitário e amargurado. Por mais que deseje amar uma única mulher e ter uma esposa em casa, o expediente que lhe resta para ter uma companhia feminina na cama em algumas noites é pagando para algum rabo de saia visitá-lo. Com o tempo, Ponciano de Azeredo Furtado cansa da vida passada no campo. Ele, então, muda-se para a cidade grande. No novo ambiente, o Coronel de Sobradinho deseja demonstrar sua importância social e sua riqueza. Também continua querendo conquistar uma esposa. Mesmo já velho, ele não desiste de ter uma mulher para si. Assim, passa a viver das aparências e a querer agradar aos "amigos" com presentes e favores caros. Com isso, torna-se um alvo fácil da malandragem urbana, que não perdoa um homem rico, ingênuo e bastante vaidoso. Sem perceber, Ponciano, por mais que tente vender ao leitor suas grandes realizações na cidade grande, termina por arruinar pateticamente sua vida e sua fortuna. A principal característica de "O Coronel e o Lobisomem" é o seu humor. Com um texto leve, ágil e muito engraçado, Ponciano de Azeredo Furtado é um excelente narrador. Sendo sem dúvida nenhuma uma das mais contraditórias personagens da nossa literatura, o Coronel de Sobradinho gera diferentes reações no público leitor: ora ficamos com raiva dele, ora sentimos pena. Às vezes acreditamos em suas histórias para logo em seguida duvidarmos delas. Em alguns momentos ele parece um vilão, mas rapidamente ele perde a vilania e torna-se um pobre coitado. Ponciano não é, definitivamente, um fazendeiro cruel e sanguinário como Paulo Honório, de "São Bernardo", romance de Graciliano Ramos. Ele está mais para uma versão rica e pretensamente erudita de Vitorino Carneiro da Cunha, protagonista cômico e ingênuo de "Fogo Morto", obra de José Lins do Rego. Ou seria um Dom Quixote brasileiro, acreditando piamente em seus devaneios? Neste caso, o problema para Ponciano é que ele não tem um fiel companheiro para ajudá-lo a enfrentar a realidade dura do mundo como tinha o herói de Miguel de Cervantes. Sem um Sancho Pancha a tira colo, Ponciano fica a mercê das maldades e das ambições de homens e mulheres da cidade grande. Juntamente com um excelente narrador-protagonista, também temos uma coleção de boas personagens secundárias. Desde os funcionários do Coronel em sua fazenda em Sobradinho até seus sócios e "admiradores" na cidade grande, temos figuras complexas e bem construídas. Variando de personagens caricatas a personagens redondas, elas conferem um colorido especial à trama. Durante a leitura, repare também na linguagem utilizada por José Cândido de Carvalho. Parte da graça da obra está nessa construção do discurso do narrador. O humor advém da tentativa de erudição do Coronel Ponciano, que na verdade é um homem pouco letrado do interior (em outras palavras, ele é um caipirão bronco). Mais uma vez, o infeliz narrador é desmascarado facilmente pelo leitor mais astuto. Realmente, são muito engraçadas essas contradições de ordem discursiva-narrativa. Mais uma vez, nosso herói (ou seria anti-herói?) fracassa na tentativa de se provar a quem lê suas páginas. Gostei muito da leitura de "O Coronel e o Lobisomem". Li em apenas dois dias suas mais de 400 páginas. Esse livro é um dos clássicos da literatura brasileira e é também um dos melhores exemplares do realismo fantástico que temos em nosso país. Quem gosta de boa literatura precisa conhecer tanto José Cândido de Carvalho quanto "O Coronel e o Lobisomem". Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar - O humor por Ricardo Araújo Pereira
Como se produz o humor?! Essa pergunta tira o sono de muitos escritores, roteiristas e artistas. E foi justamente essa indagação o que motivou Ricardo Araújo Pereira, um dos mais famosos comediantes portugueses da atualidade, a estudar a fundo o tema. As análises e as pesquisas de Ricardo resultaram no livro "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" (Tinta da China). Esta obra pode ser classificada como um manual teórico da produção humorística. Esse, por um acaso, é o subtítulo da publicação. A hilaridade, portanto, discutida em "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar - Uma Espécie de Manual da Escrita Humorística" já começa em seu nome um tanto estrambólico. Com muito bom humor (presente tanto no texto quanto no projeto gráfico da obra), com análises profundas sobre a questão debatida, com uma linguagem acessível e com citações de situações engraçadas extraídas da TV, da literatura, do teatro, das artes plásticas e da vida comum, Ricardo Araújo Pereira apresenta um ensaio interessantíssimo sobre as engrenagens da dinâmica do riso. Impossível não concordar com sua visão e com suas explanações sobre as diferentes estratégias cômicas. Este livro é espetacular! Li "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" no último final de semana e fiquei encantado com seu conteúdo. Com apenas 120 páginas, é possível ler esta obra em uma batida só. Devo ter levado aproximadamente uma hora e meia, duas horas para concluí-la integralmente. O livro é voltado para escritores (contistas, cronistas, novelistas, romancistas, roteiristas, dramaturgos, poetas e ensaístas), cineastas, músicos, publicitários e jornalistas que desejam entender o funcionamento do humor. Vale a pena dizer que o texto cômico é uma das narrativas mais difíceis de ser produzida. Muita gente experiente e talentosa na literatura considera a trinca textual mais complexa de ser feita aquela composta por terror, humor e cenas de sexo. Apesar desse direcionamento aos profissionais da escrita, o livro de Ricardo Araújo Pereira é também acessível aos leitores de todos os tipos, que podem degustá-lo sem problema nenhum. Publicado em dezembro de 2016 em Portugal, "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" foi lançado no ano seguinte aqui no Brasil. Nascido em Lisboa, em 1974, Ricardo Araújo Pereira foi um dos destaques da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2016, quando divertiu a plateia com seu humor singular. Criador do "Gato Fedorento", grupo cômico nascido no stand-up comedy e que se tornou um clássico da televisão lusitana, Ricardo tem atuação destacada na TV, no rádio, na mídia impressa, na Internet e na literatura de seu país. "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" está estruturado em nove capítulos. No primeiro, chamado de "Preâmbulo Relativamente Inútil", o autor apresenta as três teorias clássicas do humor (Teoria da Superioridade, Teoria da Percepção das Incongruências e Teoria da Descarga de Energia Psíquica) e, logo depois, detalha cada uma delas. No segundo capítulo, "Considerações um Pouco Mais Proveitosas", Ricardo Araújo Pereira explica a função do humor em nossas vidas. São muito legais as conclusões que ele chega. Entre elas temos: comédia é uma forma especial de tragédia, com a diferença que se acrescenta certa distância à narração dos fatos ocorridos; fazer rir é fácil ou é impossível (não há meio termo para o escritor); e humor é um modo especial e raro das pessoas olharem para as fatalidades da vida e do cotidiano. Nos seis capítulos seguintes, "Opor Uma Coisa a Outra Coisa", "Imitar Uma Coisa", "Virar Uma Coisa de Pernas Para o Ar", "Aumentar Uma Coisa", "Mudar Uma Coisa para Outro Sítio" e "Repetir Uma Coisa", o comediante apresenta as seis estratégias possíveis para se provocar o riso no público. As estratégias são nomeadas como os títulos de seus capítulos. E na parte derradeira do livro, "Últimas Palavras", temos o fechamento dos argumentos do autor. Nesse capítulo final, Ricardo Araújo Pereira conclui que fazemos graça das coisas como uma forma de espantar o medo da morte. O riso, portanto, seria um mecanismo de alívio às angústias existenciais do ser humano. O bom humor serve, acima de tudo, para anestesiar a dor e o sofrimento da vida cotidiana. Sensacional essa abordagem! Apesar de estar escrito em português de Portugal, algo que poderia atrapalhar a leitura de alguns brasileiros, "A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar" é um livro totalmente compreensível para os leitores de nosso país. A editora brasileira publicou por aqui a versão sem adaptações do original lusitano. Quem gosta do uso tradicional do nosso idioma (como eu), esse é mais um tempero interessante para a leitura. Como o português do velho continente é bonito, hein? A única palavra da obra que não conhecia (e que está presente logo no comecinho do primeiro capítulo) é "caraça". O ponto forte desta publicação está na mistura impecável de bom humor (a especialidade de Ricardo Araújo Pereira - ele não fica apenas na teoria e contamina seu texto com esse expediente maravilhoso) com um estudo rico sobre o tema. Além disso, assistimos durante os capítulos a um vasto número de exemplificações, o que torna tudo mais didático e relacionado ao nosso dia a dia. Ou seja, o texto do livro consegue ser ao mesmo tempo engraçado, profundo (apresenta teorias oriundas dos gregos antigos e da psicanálise freudiana, por exemplo) e com várias citações da cultura popular (canção de Chico Buarque, episódios do seriado Seinfeld, cenas dos filmes de Monty Python, etc.). Impossível não gostar desta leitura. Repare também na beleza do projeto gráfico do livro. Seu visual é divertido e está compatível com o conteúdo/proposta da obra. A impressão é que a medida em que vamos virando as páginas, mais e mais novidades nos são apresentadas através dos elementos visuais. Esta é uma leitura obrigatória para quem escreve humor ou para quem deseja iniciar nesse difícil ofício. Ler Ricardo Pereira de Araújo é um exercício muito bom para ver como se faz isso com naturalidade e com profundidade conceitual. 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- Livros: O Menino Maluquinho - O clássico infantil de Ziraldo
Nesta semana, reli o livro "O Menino Maluquinho" (Melhoramentos). Este clássico da literatura infantil brasileira foi criado por Ziraldo em 1980. Curiosamente, esta foi a primeira obra literária que li em minha vida. Lembro que ganhei "O Menino Maluquinho" de presente de aniversário quando completei seis anos de idade. Por muitos anos, tive este livro na estante do meu quarto. Infelizmente, depois de algumas mudanças de residência pelo país o perdi. Por isso, somente agora pude relê-lo com a calma necessária. Afinal, consegui adquirir um novo exemplar em uma visita despretensiosa a um sebo da Avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, há algumas semanas. "O Menino Maluquinho" é um dos maiores sucessos editoriais da história do nosso país e o maior best-seller brasileiro destinado ao público infantil de todos os tempos. De seu lançamento, em 1980, até hoje já foram publicadas mais de 100 edições com vendagens que ultrapassam a marca de três milhões de unidades. É isso mesmo o que você leu: três milhões de livros vendidos no Brasil! Na esteira do êxito comercial do livro vieram adaptações para gibis, filmes, peças de teatro, óperas, programas de televisão, etc. Esta obra já foi publicada em vários países, ganhando traduções para o inglês, o espanhol, o francês, o italiano, entre outros idiomas. Não é à toa que a personagem principal deste título tenha se tornado um ícone da literatura infantil nacional. Ziraldo, o autor de "O Menino Maluquinho", tem atualmente 85 anos. Nascido em Caratinga, Minas Gerais, o escritor também trabalhou muito tempo como cartunista, jornalista e dramaturgo. É inegável que Ziraldo utilizou-se de fatos autobiográficos para criar o garoto levado que usava uma panela na cabeça como se fosse um chapéu (ilustração fantástica que estampa uma das capas mais simbólicas da literatura brasileira). É só assistir a uma entrevista do autor para entendermos que o Menino Maluquinho é (ou foi) o próprio Ziraldo. Quando "O Menino Maluquinho" chegou às livrarias do Brasil, Ziraldo, então com 48 anos, já era um jornalista experiente e consagrado no país. Na década de 1970, ele fundou e dirigiu o tabloide "O Pasquim", que fazia críticas bem-humoradas ao regime militar. Pela ousadia, Ziraldo foi preso pelos militares. Na década de 1960, o humorista já havia criado a série "Turma do Pererê", uma das revistas em quadrinhos de maior sucesso da época. Por este trabalho, ele conquistou vários prêmios na Europa e na América do Sul. Antes disso, na década de 1950, Ziraldo tinha trabalhado como cronista de importantes veículos da imprensa brasileira: no jornal Folha da Manhã (atualmente Folha de São Paulo), na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Sua matéria-prima sempre foi o humor e a criação de personagens hilários. A consagração definitiva, contudo, veio com o lançamento, no começo dos anos de 1980, do título infantil que marcaria gerações e gerações de brasileirinhos. "O Menino Maluquinho" conquistou o Prêmio Jabuti, em 1981, como a melhor obra infantojuvenil lançada no ano anterior. Com pouco mais de 100 páginas, o livro mistura textos e ilustrações com rara felicidade. É difícil saber o que é melhor. Se a parte textual é maravilhosa (inteligente e sensível), as imagens não são menos incríveis (são divertidas e lúdicas). Para um adulto, é possível ler esta obra em poucos minutos. Já para uma criança, será necessário dar-lhe ao menos uma tarde inteira para a conclusão da leitura. O enredo do livro é sobre a infância do protagonista, um menino muito arruaceiro. De tão brincalhão, o garoto recebeu o apelido de Maluquinho. Nas páginas da obra, conhecemos o dia a dia dessa personagem: na escola com a professora e com os coleguinhas, em casa com os pais, nas visitas à residência dos avós, nas brincadeiras de rua, nas peraltices típicas da idade, nos jogos de futebol com os amigos e no romantismo dos namoros infantis. Estão ali muitos dos elementos de uma infância idílica: empinar pipa, comer doces, ler gibis, brincar com os amiguinhos na rua, estudar para as provas, ter medo de fantasma, se preocupar com o boletim, passar a tarde desenhando e pintando... É a infância, período mágico e de uma beleza singular, que Ziraldo retrata com lirismo e graça nas páginas de "O Menino Maluquinho". O escritor descreve de maneira poética e com uma linguagem própria para as crianças essa fase inicial da vida das pessoas. Impossível não se emocionar com o conteúdo desta publicação. O mais interessante do livro é que Ziraldo confere dramaticidade a uma trama aparentemente simples. Estão ali, por exemplo, a separação dos pais (elemento sempre complicado para a criança e de difícil menção em uma obra destinado aos pequenos leitores) e a passagem do tempo (o menino deixa de ser criança e se torna adulto). As inserções desses componentes dramáticos são feitas com graça e leveza, dando ainda mais beleza à história narrada. Repare na força do seu desfecho (cuidado: aí vai o spoiler!). Com bastante sensibilidade, o autor desmente tudo aquilo que falou até então: aquele menino não é de fato maluquinho; é apenas um garoto normal, que soube aproveitar intensamente sua infância. Maravilhoso! O livro é recheado de belíssimas ilustrações. Curiosamente, Ziraldo, um grande desenhista e ilustrador, cedeu várias páginas deste título para algumas crianças apresentarem suas criações artísticas. Vários desenhos e detalhes da obra foram feitos por meninos e meninas, o que confere ainda mais legitimidade às ilustrações infantis. Além disso, os desenhos ocupam até mesmo mais espaço do que a parte verbal do livro (em uma época em que esse recurso não era assim tão corriqueiro como agora). Isso é proposital, pois a molecada, nessa fase da vida, é mais visual do que textual. A grande quantidade de imagens chama a atenção das crianças e as incentiva a descobrir o teor daquela história visualmente impactante. "O Menino Maluquinho" tem a capacidade de mostrar ao leitor infantil a beleza de uma história ficcional e a força estética da literatura. Ao se emocionar com essa narrativa, o jovem leitor provavelmente desejará ler mais e mais livros. Falo isso por experiência própria. Neste sentido, a obra de Ziraldo pode ser vista como um título introdutório ao prazer de se aventurar pela literatura. Afinal, o brasileiro de modo geral não é muito fã da leitura de livros. Infelizmente, isso é um fato concreto. Alguns não leem porque não sabem (e há muita gente assim, analfabeta funcional) e outros porque não gostam (ou não aprenderam a gostar). Há também aqueles que não têm esse saudável hábito. Como mudar isso? O primeiro passo é educando e letrando as crianças. E o segundo é mostrando como é saudável e prazeroso o hábito da leitura. Por que não apresentar a maravilha de "O Menino Maluquinho" para a garotada, hein? Admito que agora a estante da minha biblioteca voltou a estampar um dos livros mais queridos. Não vejo a hora de apresentar esta obra para a primeira criança que vier me visitar. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Primeiro Amor - O conto angustiante de Samuel Beckett
Nesta semana, li "Primeiro Amor" (Nova Fronteira), livro de Samuel Beckett. É preciso deixar claro que esta não é a obra mais famosa do irlandês vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1969. Essa honra cabe à trilogia formada pelas peças "Esperando Godot" (Cosac Naify), de 1952, "Fim de Partida" (Cosac Naify), de 1957, e "Dias Felizes" (Cosac Naify), de 1961. Só de citar essas histórias fiquei com vontade de comentá-las no Blog Bonas Histórias. Quem sabe não coloque Beckett no Desafio Literário do próximo ano para poder analisar suas criações de forma mais completa, hein? Vontade não me falta. O que atrapalha é o fato de a lista do Desafio ser limitada a apenas oito autores anualmente. Aí, sempre ficam grandes nomes de fora... A relevância de "Primeiro Amor" está em sintetizar o espírito atormentado e pessimista de Beckett em uma narrativa curta, gênero em que o irlandês produziu boas obras. O texto deste conto retrata com propriedade as características literárias que fizeram o escritor tão amado ao redor do mundo ao longo da segunda metade do século XX. A força dramática do livro deixa o leitor totalmente desconcertado. Trata-se de uma paulada que tomamos na cabeça e, ao mesmo tempo, no coração. É uma leitura existencialista para pessoas fortes e destemidas. Não seja enganado pelo título: a última coisa que temos aqui é amor. Prova maior do valor de "Primeiro Amor" está no fato de algumas editoras, tanto no Brasil quanto no exterior, terem aceitado publicá-lo de maneira independente apesar de ele ser um conto. Normalmente, as narrativas curtas não são impressas em uma publicação exclusiva. Geralmente, elas são lançadas dentro de antologias ou coletâneas de contos. Entretanto, "Primeiro Amor" acabou contradizendo a lógica do mercado editorial de que "um único conto não pode ocupar um livro inteiro" e foi publicado sozinho. Assim sendo, não se assuste com o tamanho reduzidíssimo de páginas desta obra. A versão da Nova Fronteira, por exemplo, tem meras 88 páginas. E isso foi um esforço da editora para alongar ao máximo o livro. Por ser uma edição bilíngue, o número de páginas foi duplicado. Se fosse editado apenas em nosso idioma, dificilmente o livro teria mais do que 48 páginas. Pelo seu tamanho reduzido, é possível ler essa obra inteira em pouco mais de meia hora. Foi o que fiz na noite desta terça-feira. Para quem não conhece Samuel Beckett, ele é um dos escritores mais influentes do século XX. A impressão que temos é que seu trabalho, seja no teatro, na prosa, nos ensaios ou na poesia, influenciou boa parte dos grandes autores contemporâneos de língua inglesa. Muita gente boa o cita diretamente como fonte de inspiração. Nascido em Dublin, em 1906, Beckett levou a literatura irlandesa para novas fronteiras, sendo considerado por muitos críticos e acadêmicos como um dos primeiros escritores pós-modernistas. Primeiro texto em francês de Samuel Beckett, "Primeiro Amor" foi escrito em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Nesta época, o autor já morava em Paris, cidade que adotou como residência fixa desde o final da década de 1930. A publicação deste conto, porém, demorou um quarto de século para acontecer. Apenas em 1970, quando Beckett já era um dos maiores escritores do planeta e da história, o monólogo pessimista ganhou as livrarias. A trama é narrada em primeira pessoa por um homem patético, que não tem seu nome revelado durante todo o conto. Ele vive isolado e se comporta como um bicho: não fala com ninguém, parece não nutrir nenhum sentimento nobre e procura não fazer nada de importante durante seus dias. Além disso, ele parece ter adoração por tudo o que é mórbido. Cemitérios, corpos em decomposição, sensação de prostração, lápides e epígrafes, por exemplo, são temas de suas reflexões mais profundas. Esse narrador incomum informa ao leitor logo no início que escreverá uma história de amor: a primeira paixão de sua vida. Seu casamento com esse grande amor está relacionado com a morte do pai. Afinal, quando o pai do protagonista morre, ele é expulso de casa pela família. O motivo dessa atitude radical não é explicitado. Sem ter onde ficar, o pobre homem passa a dormir em um banco da praça como um mendigo. Em uma noite gelada, uma mulher surge na praça e quer dividir o banco com ele. De má vontade, o rapaz aceita compartilhar o espaço do seu leito improvisado. Ambos acabam dormindo juntinhos, espantando um pouco o frio noturno. Quando a mulher retorna ao banco nas noites seguintes, o narrador se revolta. Como assim? Ela não pode ficar voltando sempre para aquele lugar! Aquele é seu banco e ela não tem o direito de incomodá-lo tantas vezes. A mulher entende a situação do homem e, surpreendentemente, o convida para ir morar com ela. A moça, que é estrábica, possui um apartamento de dois quartos perto da praça. Assim, as duas personagens vão morar juntas como um casal. Na nova residência, o narrador e "sua mulher" começam um relacionamento muito estranho. Nesse ponto, a história torna-se enigmática e muito ácida. A pobreza emocional da dupla é tão atormentadora que o leitor não consegue ficar indiferente a tanta frieza. Está criado o conflito que permeará toda a história do conto. Até a página final da obra, presenciamos uma enxurrada de situações angustiantes de personagens que parecem não ter corações. Achou estranho o enredo de "Primeiro Amor"? Saiba que mais esquisita do que sua história é a maneira como o narrador-protagonista conta os fatos da trama. O homem expulso de casa pela família parece não querer relatar os acontecimentos que se propôs inicialmente. Na verdade, ele parece não querer fazer nada. Assim, tudo caminha envolto em uma névoa indecifrável de mutismo. O narrador se torna pouco confiável ao se contradizer o tempo inteiro e dar grandes voltas na história para retornar sempre para o mesmo ponto. Outro elemento que causa grande incômodo é a característica psicológica da personagem principal. O protagonista do conto é um homem que ama a morbidez e a sordidez. Ele não consegue conviver minimamente em sociedade, se transformando em um pária antissocial. Sua frieza emocional é tamanha que sua concepção de amor choca até mesmo os leitores menos românticos. Se aquilo que ele diz sentir pela mulher dona do apartamento pode ser chamado de amor, a humanidade está perdida. Esse sentimento de desilusão com tudo e todos de "Primeiro Amor" combina de certa maneira com a época em que o texto foi produzido. O final da Segunda Guerra Mundial foi um período de grande pessimismo. As lembranças recentes do holocausto, dos milhões de mortos em combate e das bombas atômicas atormentavam os homens. O mundo físico e o universo sentimental da maioria dos indivíduos pareciam totalmente devastados naquele momento histórico. Assim, a morbidez, o desespero e a frieza dos textos de Beckett combinam perfeitamente com o período em que não se podia acreditar no belo e nas emoções mais afetuosas dos seres humanos. Além da desconstrução da narrativa e das relações humanas, "Primeiro Amor" possui (acredite se quiser!) doses de bom humor, o que só torna seu texto ainda mais angustiante para o leitor (pobre leitor!). O narrador faz graça com aspectos mórbidos, tornando tudo mais ácido. Juro que é impossível simpatizar com um protagonista assim. Desde a primeira linha nota-se algo de muito errado com sua figura. Por tudo isso, este é um conto angustiante, um dos mais aterrorizantes que já li. Enojado. Foi assim que me senti ao final dessa leitura. Sentimos tanta antipatia pelo narrador, uma personagem desprovida de sentimentos nobres e destruída emocionalmente, que acabamos embarcando na tristeza da história. Como diria um professor meu, Beckett não é para ser lido todos os dias. Do contrário, você corre o risco de cair em depressão ou de cometer suicídio. Lê-lo de vez em quando, por sua vez, é realmente uma experiência devastadora e intensa. Perto do escritor irlandês, a literatura de terror de Stephen King ou de Edgar Allan Poe, por exemplo, parecem coisas de criancinhas sem graça. Nada é mais cruel do que a realidade fria do mundo bruto que conhecemos no dia a dia. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Diário da Queda - O premiado romance de Michel Laub
Li, neste final de semana, o livro "Diário da Queda" (Companhia das Letras), o quinto romance do escritor gaúcho Michel Laub. Pela primeira vez na carreira, o autor abordava mais diretamente em uma trama ficcional alguns aspectos da sua vida pessoal, como o judaísmo e certas passagens delicadas de sua infância. O resultado é simplesmente espetacular! Em um enredo entrecortado pelas histórias de homens de três gerações diferentes de uma mesma família judia (avô, pai e filho), o leitor adentra nos dramas cíclicos dessas personagens melancólicas e atormentadas por episódios de seus passados. Publicado em 2011, "Diário da Queda" conquistou vários prêmios nacionais. Os primeiros foram o Prêmio Brasília de Literatura de 2012 como melhor romance do ano e o Prêmio Bradesco/Prime de 2012 de melhor romance daquela temporada. Além disso, a obra foi finalista dos importantíssimos Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Portugal-Telecom, ambos de 2012. Ou seja, não há dúvida nenhuma da qualidade deste texto, né? Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973, e atua como escritor e jornalista em São Paulo, onde mora há muitos anos. O gaúcho tem outros sete livros publicados além de "Diário da Queda": "Não Depois do que Aconteceu", coletânea de contos de 1998, "Música Anterior" (Companhia das Letras), romance de 2001, "Longe da Água" (Companhia das Letras), romance de 2004, "O Segundo Tempo" (Companhia das Letras), romance de 2006, "O Gato Diz Adeus" (Companhia das Letras), romance de 2009, "A Maça Envenenada" (Companhia das Letras), romance de 2013 e "O Tribunal da Quinta-feira" (Companhia das Letras), romance de 2016. Dessas obras, as mais importantes são "Diário da Queda" e "O Segundo Tempo". "Segundo Tempo" foi finalista do Prêmio Jabuti de 2007 (ficou no segundo lugar) ao narrar o drama de dois irmãos durante uma partida de futebol. Com esse portfólio literário, Laub se tornou um dos principais escritores brasileiros da atualidade. Seus livros foram traduzidos para dez idiomas e foram publicados em treze países. Ele, inclusive, coleciona alguns prêmios internacionais. "Diário da Queda" é narrado em primeira pessoa por um judeu nascido em Porto Alegre. Ele não tem seu nome revelado durante toda a trama. As lembranças do protagonista voltam-se para quando ele tinha treze anos. Naquela época, ele deixou propositadamente um colega de classe cair em uma festa de aniversário (daí o título do livro). Aquele ato provocou graves sequelas não apenas na vítima da brincadeira infeliz, mas também ao agressor. O narrador brigou com o pai e se desentendeu com os demais colegas da escola. Inicia-se, assim, a fase de alcoolismo e de tristeza profunda do protagonista-narrador. Enquanto relata o fato marcante de sua infância e descreve como esse triste episódio gerou um adulto solitário e deprimido, o narrador também faz uma retrospectiva da vida do seu pai e do seu avô, duas pessoas também amarguradas pelos passados tumultuados que carregavam. De maneira inconsciente, as três gerações de homens dessa família judia estão presas pelos mesmos traumas: relação complicada com a sociedade e com o judaísmo, necessidade de escrever suas memórias, relação fria com os filhos, indiferença com as esposas, episódios tristes do passado e melancolia intensa. Com 152 páginas, "Diário da Queda" é um romance curto. Dá para lê-lo em uma única tarde ou mesmo em uma única noite. Foi o que fiz no sábado passado. Além de pequeno, a linguagem simples do livro e o carisma do narrador atraem a atenção do leitor para a história contada, acelerando ainda mais a leitura. Michel Laub possui um texto elegante e uma técnica apurada de construir suas ficções, o que ajudam ainda mais a tarefa de quem navega por suas páginas. São vários os elementos que gostei neste romance. O primeiro é a mistura de presente, passado e (mais no final do livro) futuro. Acompanhamos lado a lado os dramas da família do protagonista como se estivéssemos juntos dessas personagens. Em muitos momentos, confundimos as histórias de avô, pai e filho. Isso é muito legal (e provavelmente proposital), pois elas são tramas relacionadas e cíclicas. Impossível entender um homem sem compreender a vida do seu pai e, depois, projetar as consequências para a existência de seu filho. Sublime! Outro aspecto interessante é a verossimilhança da trama. O leitor chega a acreditar que o que está lendo é uma autoficção (ou mesmo uma autobiografia) e não uma simples criação ficcional. Michel Laub consegue impor com tanta força em sua escrita a voz e a consciência do narrador do romance que é natural acharmos que ele (o escritor) está descrevendo as suas próprias lembranças e os fatos de sua família. Tem prova maior da excelência literária de um autor do que quando o leitor confunde o narrador com o escritor e a trama do romance com a biografia do autor, hein?! Outro ponto que merece elogios é o final do livro. O desfecho de "Diário da Queda" é ao mesmo tempo surpreendente, reflexivo e melancólico. Incrível notar como o escritor conseguiu manter a força narrativa do seu drama até a última página. Ele faz isso sem abrir mão de sua proposta e sem fazer concessões aos leitores mais românticos, preocupados com finais totalmente felizes. Confesso que sou fã de desenlaces amargos, que deixam um sabor azedo na boca do leitor. Gostei tanto de "Diário da Queda" que pretendo ler, ainda neste ano, o romance "O Segundo Tempo", a outra grande obra de Michel Laub. Realmente, o cara é excelente. Fiquei fã de sua literatura. Inegavelmente, estamos diante de um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias - O mundo sombrio de Edgar Allan Poe
Nesta semana, li "Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias" (L&PM Pocket), coletânea de contos de Edgar Allan Poe. Vale a pena dizer que esta não é a obra mais famosa do escritor norte-americano. "Histórias Extraordinárias" (Companhia das Letras) é o livro mais importante da carreira de Poe e um dos clássicos da literatura romântica. Contudo, "Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias" reúne alguns dos contos de terror e suspense mais conhecidos do autor, o que torna sua leitura extremamente interessante. Edgar Allan Poe nasceu em Boston, em 1808, e trabalhou como poeta, ficcionista, editor e ensaísta literário. Considerado o inventor do gênero policial e um dos grandes nomes da literatura de terror de todos os tempos, Poe morreu cedo, com apenas 40 anos de idade. Suas histórias eram muito bem construídas e originais. Elas possuíam geralmente um tom gótico e giravam em torno de temas mórbidos e macabros: pessoas mortas que voltam à vida, crimes cruéis, experiências sobrenaturais, bizarrices inexplicáveis, indivíduos abalados por angústias na consciência e eventos em que os homens expõem a pior faceta de suas almas. "Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias" reúne cinco contos e uma novela. Eles foram escritos por Edgar Allan Poe entre 1841 e 1849. As histórias contempladas nesta coletânea são: "Demônio da Perversidade", de 1845, "Hog-Frog ou os Oito Orangotangos Acorrentados", de 1849, "Os Fatos que Envolveram o Caso de Mr. Valdemar", de 1845, "O Gato Preto", de 1843, "Nunca Aposte sua Cabeça com o Diabo - Uma História de Moral", de 1841, e "Assassinatos na Rua Morgue", de 1841. Em "Demônio da Perversidade", um homem sofre por ter matado uma pessoa. Muitos anos depois do crime, o protagonista vive ressentido, apesar de ninguém suspeitar de nada (o assassinato foi do tipo perfeito). O sentimento de culpa é aqui o pior inimigo e poderá levar esse homem à loucura. "Hog-Frog ou os Oito Orangotangos Acorrentados" narra a vingança arquitetada por um bobo da corte anão contra o rei e os ministros cruéis. Para isso, ele propõe uma brincadeira macabra: O rei e seus principais assessores devem se vestir de orangotangos para assustar a corte em uma festa no salão real. O conto "Os Fatos que Envolveram o Caso de Mr. Valdemar", por sua vez, apresenta a experiência de hipnose de um homem em seu leito de morte. O experimento foge do controle da equipe médica e dá origem a um episódio insólito. Em "O Gato Preto", conhecemos um narrador que passa a odiar os animais de estimação. A grande vítima de suas maldades é seu gato preto. Contudo, o bichinho irá se vingar do seu dono. E "Nunca Aposte sua Cabeça com o Diabo - Uma História de Moral" é a trama de um homem que gostava de apostar dizendo a expressão: Aposto minha cabeça com o diabo. E em "Assassinatos na Rua Morgue", a única novela deste livro, temos a primeira narrativa policial da história da literatura. Nela, o narrador era um homem comum que vivia em Paris. Ele dividia a casa com Monsieur C. Auguste Dupin, um amigo excêntrico. Dupin era uma pessoa culta e extremamente inteligente. Entediados com a rotina na capital francesa, os amigos passam a investigar por conta própria um assassinato que rendia diariamente várias páginas nos jornais parisienses. Assim, misturando a rigorosa análise das evidências deixadas na cena do crime e a imaginação fértil, Dupin consegue elucidar o mistério antes da polícia. Este livro possui 160 páginas e sua leitura é extremamente rápida. Acho que não gastei mais de duas horas para concluí-la. Por isso, quem quiser ler algo sem grande complicação e, ao mesmo tempo, de qualidade indiscutível, essa é uma boa opção. Poe sempre oferece entretenimento de ótima qualidade aos seus leitores. Das histórias desse livro, as mais famosas são "Demônio da Perversidade", "O Gato Preto" e "Assassinatos na Rua Morgue". As duas primeiras são contos clássicos de terror, enquanto a terceira é a trama que deu origem às narrativas policiais. Mais tarde, os Estados Unidos, seguindo o caminho inicialmente trilhado por Poe, transformariam o gênero policial em uma categoria literária mais abrangente e tipicamente sua. O mais interessante em ler Edgar Allan Poe é que acabamos conhecendo a fonte que muitos grandes escritores contemporâneos "beberam" direta ou indiretamente. Monsieur C. Auguste Dupin, por exemplo, é a versão antiga de Sherlock Holmes, Hercule Poirot e tantos outros detetives que elucidam crimes quase indecifráveis. Praticamente todos os grandes detetives da ficção que vieram depois de Dupin seguiram seus métodos de trabalho: união da investigação cuidadosa e científica com a imaginação criativa para entender as motivações dos suspeitos. Assim, todos os romancistas policiais dos séculos XIX, XX e XXI são frutos da literatura de Poe. E o que dizer dos contos de terror do escritor norte-americano, hein? Com certeza, não existiria Stephen King, Mary Shelley, Bram Stoker e tantos outros grandes autores desse gênero narrativo sem Edgar Allan Poe. O principal mérito das obras de Poe está em mergulhar despudoradamente no lado obscuro da alma humana. Ele se aprofunda no universo sombrio do homem sem quaisquer constrangimentos ou preocupações de natureza moral. Com isso, imprimiu a sua marca na literatura gótica e fantasmagórica. Grande contista, Edgar Allan Poe também revolucionou as narrativas curtas. Até hoje, ele é considerado um dos principais autores de contos dos Estados Unidos. Conhecer o trabalho de uma lenda da literatura é uma experiência indescritível. Por isso, "Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias" é uma leitura tão agradável e emblemática. Os fãs do gênero de terror e das narrativas policiais não podem ficar sem conferir essa obra. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: As Melhores do Analista de Bagé - A divertida criação de Veríssimo
Há algumas personagens literárias que se tornam mais populares quando migram dos romances, das novelas, das crônicas e dos contos para outros meios culturais. Gabriela e Dona Flor, as clássicas criações de Jorge Amado, se tornaram extremamente conhecidas no Brasil inteiro quando chegaram, respectivamente, à televisão e ao cinema. Ambas entraram no imaginário coletivo do país pela interpretação da atriz Sônia Braga. Impossível não se lembrar de Mazzaropi quando pensamos em Jeca Tatu ou em Grande Otelo quando imaginamos o nascimento de Macunaíma. Essa consolidação dos protagonistas literários acontece não apenas na televisão e no cinema, mas também no teatro, no rádio e nas histórias em quadrinhos. Um caso interessante é do Analista de Bagé, criação de Luis Fernando Veríssimo. O psicanalista gaúcho foi desenvolvido, em 1981, para compor uma série de crônicas que o autor escrevia em vários jornais do país. O sucesso foi tão grande que a Playboy, em 1983, convidou Luis Fernando Veríssimo para publicar sua trama com exclusividade na revista no formato de histórias em quadrinhos. As tirinhas tiveram a ilustração de Edgar Vasques, enquanto o texto continuou com a autoria de Veríssimo. O sucesso foi retumbante. Estava criada uma das personagens contemporâneas mais interessantes e peculiares do humor nacional. A Playboy publicou as histórias em quadrinhos da dupla Veríssimo-Vasques até 1992. Em 2007, a editora Objetiva resolveu reunir as melhores tirinhas e lançá-las em um livro ilustrado. Assim, nasceu "As Melhores do Analista de Bagé". Com 79 histórias (uma para cada página), o leitor se diverte com os enredos mais absurdos desse psicanalista freudiano "muy macho, sim senhor". A leitura desse livro é rápida e muito descontraída. Em menos de duas horas é possível concluí-la. Para você ter uma ideia, peguei a obra emprestada na Biblioteca Mário de Andrade na quarta-feira à tardezinha (A BMA está novamente aberta ao público desde segunda-feira, dia 8). Quando cheguei em casa (voltei usando ônibus e trem), já tinha devorado 70% da publicação. Ou seja, piscou o olho, acabou o livro. O Analista de Bagé é um psicanalista que se diz freudiano, mas que segue na verdade uma linha totalmente independente (muito heterodoxa por sinal). Aos cinquenta anos de idade, o analista faz o tipo charmoso viril. Ele não pensa duas vezes em levar suas pacientes para a cama. Segundo sua técnica de tratamento, não há neurose feminina que não se cure com uma boa transa (seja no consultório ou em qualquer outro lugar). Quanto aos pacientes do sexo masculino, ele prefere enfiar a mão na cara (ou melhor, o joelho nas partes certas, técnica chamada de "joelhaço"). De acordo com sua concepção psiquiátrica, nada como uma boa surra (joelhada) para fazer um homem melhorar como pessoa e evoluir na vida. Assessorado pela linda e amalucada recepcionista Lindaura, com quem tem um tórrido romance, o Analista de Bagé trata em seu consultório pacientes com frigidez feminina, ninfomania, ejaculação precoce, ciúme compulsivo, impotência sexual, inveja crônica e uma infinidade de outros complexos mentais, sociais e sexuais. Assim, as narrativas do Analista de Bagé giram sempre em torno das consultas e dos conselhos/tratamentos que o psiquiatra oferece ao público. O humor do livro (e dessa personagem) é bem típico da década de 1980: recheado de caricaturas e com narrativas que passam longe do politicamente correto. O próprio protagonista reúne essas duas características. Ele é o protótipo do gaúcho machista e machão que age segundo as convicções pouco convencionais da sua cultura bageense (cultura essa criada por Veríssimo). O contraste entre o ambiente sério da consulta psicanalítica e a grossura do analista geram situações hilárias. Se "As Melhores do Analista de Bagé" rapidamente envolve o leitor (em poucas tirinhas já é possível ter um retrato aprofundado das principais personagens e compreender o enredo das tramas), o livro também rapidamente pode entediar o leitor mais exigente. Depois de vinte ou trinta histórias, as demais vão se parecendo muito umas com as outras. A impressão é que da metade para o final do livro, não há qualquer novidade. Esse aspecto não ficava tão evidente quando as tirinhas eram publicadas mensalmente na revista masculina. Contudo, quando se lê todas na sequência, a sensação de mesmice inevitavelmente surge. Apesar desse ponto negativo, é impossível desaprovar as tramas. Elas são realmente engraçadas (pelo menos para quem ainda valoriza, em pleno século XXI, piadas sexistas e homofóbicas). Sei o quanto esses temas e esse tipo de humor são polêmicos atualmente, mas é preciso dar uma colher de chá para o autor e sua mais famosa criação. Lembremo-nos que Veríssimo criou o Analista de Bagé no início da década de 1980, época em que era possível fazer graça sem a opressão do politicamente correto. Luis Fernando Veríssimo é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade. Excelente contista e cronista, o gaúcho consegue criar narrativas divertidas que retratam com astúcia a realidade contemporânea. Até hoje, suas colunas no jornal O Estado de São Paulo são as minhas favoritas. E, sem dúvida nenhuma, o Analista de Bagé é sua criação máxima, que vale a pena ser conhecida (gostando ou não do tipo de humor que ela oferece). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Livros: Bartleby, o Escriturário - A novela existencialista de Herman Melville
O livro mais famoso de Herman Melville é "Moby Dick" (Landmark). Publicado em 1851, o romance sobre a batalha pessoal do capitão Acab contra a grande baleia branca é um clássico da literatura norte-americana. Contudo, a obra que muitos críticos consideram como a que melhor sintetiza o trabalho ficcional de Melville é "Bartleby, O Escriturário - Uma História de Wall Street" (Rocco). Nesta novela instigante, o leitor se pergunta quais as razões da imobilidade do protagonista, que se recusa a fazer quaisquer tarefas que lhe são designadas com a lendária frase: "Prefiro não fazer...". Jorge Luis Borges, fã confesso de "Bartleby, O Escriturário" e dos textos de Herman Melville, disse certa vez que este livro era um dos mais importantes da literatura universal. Muitos acadêmicos apontam a novela do escritor norte-americano como a precursora do existencialismo, que surgiria na cena literária apenas no século XX. Para outros, esta é a obra que antecipa muitas das características kafkanianas. Isto é, antes mesmos de Franz Kafka ter nascido, Melville já escrevia como o tcheco. Incrível! Apesar da fama e do prestígio internacional de "Bartleby, O Escriturário", infelizmente essa novela é ainda uma das narrativas de Herman Melville mais desconhecidas do público brasileiro. Conhecê-la é desvendar o que há de melhor no romantismo norte-americano e se aventurar pelas nuances de uma das criações mais emblemáticas da literatura na metade do século XIX. "Bartleby, O Escriturário - Uma História de Wall Street" tem pouco menos de 100 páginas. É um livro que pode ser lido de uma vez só. Foi o que fiz na quinta-feira passada. Em apenas uma hora e meia concluí sua leitura. E vale a pena dizer que a edição da editora Rocco está maravilhosa. Além de esteticamente impecável (projeto gráfico lindíssimo), a obra conta ainda com comentários de Fernando Sabino, que enriquecem consideravelmente a análise do leitor. Originalmente publicado em 1853, dois anos após "Moby Dick", "Bartleby, O Escriturário" foi lançado, nos Estados Unidos, de maneira anônima em duas partes na revista Putnam's Magazine. Somente em 1856, sua história foi publicada em livro e teve o nome do seu autor estampado na capa. Essa primeira edição em brochura foi chamada de "The Piazza Tales". Nela, a novela agora famosa foi editada juntamente com outros cinco contos do autor norte-americano. Como todas as criações de Herman Melville, esta não teve qualquer sucesso em sua época, permanecendo esquecida até a morte do escritor. Somente com a valorização póstuma da literatura de Melville no século XX, os leitores puderam conhecer esta obra-prima. O enredo de "Bartleby, O Escriturário" se passa na Wall Street da metade do século XIX. Naquele momento histórico, a rua de Manhattan iniciava sua vocação de centro comercial de Nova York. Portanto, estava longe de ser um centro financeiro como é hoje em dia. Em um dos prédios da Wall Street de Herman Melville havia um pequeno escritório de advocacia. Além de seu proprietário, um senhor sério de aproximadamente sessenta anos, mais três funcionários trabalhavam ali: Turkey, um senhor já idoso e muito temperamental, Nippers, um jovem que sofria de crises digestivas, e Ginger Nut, um adolescente que era aprendiz e fazia normalmente o serviço de office-boy. A trama é narrada em primeira pessoa pelo dono do escritório de advocacia. Ele diz que não consegue "até hoje" decifrar a figura enigmática de Bartleby, o rapaz que ele contratou como escriturário (um tipo de escrivão) quando os serviços da empresa se avolumaram. Em suas palavras, aquele funcionário é a figura mais estranha que ele conheceu em toda a vida. Para mostrar ao leitor o quão esquisito era o rapaz, o advogado inicia seu relato no instante em que Bartleby começou a trabalhar no escritório. À princípio, o escriturário era o funcionário que todo patrão sonhava em ter. Ele fazia as cópias dos documentos do advogado com rapidez e precisão. O novato era sempre o primeiro a chegar ao escritório e o último a sair. Nunca almoçava e jamais parava para descansar. Era quase uma máquina. Essa postura do incansável empregado fez com que o proprietário adquirisse uma grande empatia pelo subordinado. Contudo, em um dia qualquer, ao solicitar o trabalho de revisão de um documento a Bartleby, o advogado ouve incrédulo a resposta do rapaz: "Prefiro não fazer". Aquela reação do jovem foi tão inesperada que o narrador não soube o que fazer no momento, além de transferir o trabalho para os outros funcionários do escritório. Com o passar do tempo, Bartleby começou a proferir sua enigmática frase com cada vez mais frequência. "Prefiro não fazer" passou a ser ouvida quase que diariamente. O patrão, assim, passou a cogitar a hipótese de demitir Bartleby. Porém, as lembranças dos ótimos serviços anteriores prestados pelo rapaz e o coração mole do advogado, que gostava realmente daquele jovem tímido e solitário, evitavam a medida drástica. Assim, cada vez mais Bartleby ficava estático (e, portanto, improdutivo) em um canto do escritório, para desespero do patrão e dos demais funcionários. É inegável que se trate de uma trama muito criativa e engraçada. Não é à toa a lembrança automática dos enredos fantasiosos do genial Franz Kafka. O que deixa o leitor incrédulo é a falta de uma explicação objetiva para o que está acontecendo na trama. Por que Bartleby se comporta de maneira tão esquisita?! Nem o autor, muito menos o narrador, tem a preocupação de justificar o comportamento estranho do protagonista da novela. Dessa forma, a questão que fica é: Bartleby seria um louco ou é alguém com intenções escusas? O mais interessante de "Bartleby, O Escriturário - Uma História de Wall Street" é que seu conflito vai aumentando em tensão à medida que o protagonista vai se tornando cada vez mais apático. O desfecho foi muito bem escrito por Melville, deixando o leitor curioso até o último parágrafo. No prólogo de uma das edições do livro, Jorge Luis Borges diz: “O niilismo cândido de Bartleby contagia seus companheiros (os colegas escreventes) e também o homem estólido que relata sua história e que abona suas tarefas imaginárias. É como se Melville houvesse escrito: ‘Basta que um único homem seja irracional para que os outros também o sejam e o mesmo aconteça com o universo’.” Para quem sofreu com a leitura interminável e chatíssima de "Moby Dick" (com suas descrições detalhadas dos vários tipos de baleia e dos hábitos marinhos desse mamífero), ler "Bartleby, O Escriturário" é muito prazeroso. Sem dúvida, esta é uma das melhores obras de Herman Melville. Ao fechar o livro me tornei fã incondicional do escritor norte-americano (algo que não tinha ocorrido com o término da leitura de "Moby Dick"). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Estado Vegetativo - O criativo romance policial de Tiago Novaes
"Estado Vegetativo" (Callis) é o romance de estreia do escritor paulista Tiago Novaes. Nesta trama extremamente original e inteligente, o autor une teoria literária (estudo da história dos romances policiais) com um caso prático e fictício de investigação criminal ambientado na cidade de São Paulo (procura por um serial killer). O resultado desta mistura peculiar é um enredo incrível. Quem se interessa pelo panorama histórico da literatura policial e gosta de um bom mistério irá adorar a proposta do livro. "Estado Vegetativo" é um romance noir com boas doses de filosofia, intertextualidade literária, ação e suspense. Com isso, até mesmo as falhas narrativas da trama, que não são poucas, acabam ficando em segundo plano. No fim das contas, o leitor fica tão empolgado com a estética construída pelo autor que nem liga para as pontas soltas da história. Tiago Novaes faz escolhas muito criativas do início ao final da obra. Quando você acha que o desfecho não pode ser tão bom quanto o começo do livro, aí vem uma reviravolta incrível que coloca tudo de pernas para o ar. Prepara-se para fortes emoções! Antes desta trama policial, Tiago Novaes só tinha publicado uma coletânea de contos em 2004. Chamada de "Subitamente: Agora" (7 Letras), a obra narra situações corriqueiras acontecidas na cidade de São Paulo. Depois de "Estado Vegetativo", mais quatro livros do escritor foram lançados: o romance "Documentário" (KWL), de 2012, o ensaio literário "Tertúlia: O Autor como Leitor" (Sesc Edições), de 2013, o romance "Os Amantes da Fronteira" (Dobra), de 2014, e novela "Algoritmo" (Quelônio), de 2017. De todas as publicações, aquela que teve mais sucesso de público e de crítica até agora foi, sem dúvida, "Estado Vegetativo". Escrito com o apoio da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo e publicado em 2007, "Estado Vegetativo" foi finalista, em 2008, do Prêmio São Paulo de Literatura, um dos principais concursos literários do país. O livro concorreu na categoria romance de autor estreante. Naquela edição, o vencedor nessa categoria foi "A Chave de Casa" (Record), obra de Tatiana Salem Levy. O romance de estreia de Tiago Novaes foi muito elogiado pela crítica. De certa forma, o livro foi responsável por catapultar a carreira do seu autor na ficção. Nascido em Avaré, interior do estado de São Paulo, o escritor trabalha também como tradutor e professor de escrita criativa. Recentemente, Novaes lançou um curso online de formação de escritores. "Estado Vegetativo" é narrado pelo detetive particular Guedes. Glutão, solitário e afeito a pequenas malandragens, Guedes possui um escritório perto da Praça da Sé, no centro da capital paulista. É ali que ele e Gregório, seu jovem assistente apaixonado por literatura policial, comandam as pequenas investigações que ocasionalmente chegam às suas mãos. Curiosamente, o detetive conta a história de sua vida em um momento difícil. Ele está em coma na cama de um hospital após sofrer um grave acidente. Sem conseguir ter contato com o mundo fora do seu corpo, Guedes aproveita o tempo ocioso para recapitular os eventos que o levaram àquela situação delicadíssima. Assim, entramos na mente da personagem e acompanhamos seu fluxo de pensamento. A maré de azar do narrador-protagonista começou quando Janaína Monteiro, cujo nome artístico era Verônica Drake, entrou no escritório de Guedes e o contratou para descobrir a identidade de um serial killer que estava matando escritores de romances policiais na cidade de São Paulo. Dois já tinham sido mortos e a cliente, também uma romancista desse gênero, temia pela sua vida. Na conta da cliente, ao menos mais três escritores estariam na lista de próximas vítimas do criminoso. Gregório ficou empolgado com o primeiro caso de homicídio que, enfim, a dupla iria trabalhar. Acostumado com casos banais e bem menos perigosos, como as simples comprovações de traições conjugais e pequenos trambiques empresariais, Guedes não calculou corretamente as dimensões da investigação em curso. Assim, o detetive acabou mergulhado dento de uma trama complexa e muito arriscada. Quanto mais perto estiver das revelações do caso, mais risco de morte Guedes estará correndo. Pela sua situação atual (inerte em uma cama de hospital), o leitor supõe que a personagem principal do romance conseguiu descobrir o mistério da série de assassinatos (pagando um preço alto pelo sucesso em seu trabalho). "Estado Vegetativo" possui 260 páginas e permite uma leitura rápida. Concluí a obra em duas noites, tamanha foi minha empolgação com sua história. O livro está dividido em quatro partes: "O Homem Gordo", "O Homem Oco", "Tu és o Homem" e "Epílogo". Em "O Homem Gordo", o narrador no leito do hospital apresenta sua condição atual e descreve os últimos casos que seu escritório investigava antes do acidente que mudou sua vida acontecer. Em "O Homem Oco", Guedes avança na investigação sobre a identidade do assassino dos escritores e expõe a relação desse crime com a história da literatura policial. "Tu és o Homem" apresenta o desfecho da trama. Nessa parte, há a reprodução do surpreendente diálogo do narrador com o vilão. E, por fim, no "Epílogo" o protagonista faz uma reflexão sobre tudo o que aconteceu com ele. Quatro pontos chamaram mais minha atenção em "Estado Vegetativo": a escolha do narrador, a situação clínica do protagonista, as referências literárias ao longo da trama e a incrível reviravolta no desfecho da obra. Esses são os elementos que fazem do romance de Tiago Novaes uma narrativa tão boa e impactante. Comecemos falando do narrador e da sua condição médica. Se a escolha de um detetive para descrever um romance policial parece uma decisão um tanto óbvia, o que você me diz se esse homem for obeso (ele pesa cerca de 200 quilos), hein? Não me recordo de ter lido uma história do ponto de vista de alguém que sofre de obesidade mórbida. Achei excelente essa alternativa. O autor explora muito bem os preconceitos sociais e os dramas mais íntimos de alguém que há muito tempo perdeu a batalha com a balança. E o que você me diz se esse narrador estiver em coma no hospital?! Incrível! Tiago Novaes consegue surpreender o leitor logo de cara com um protagonista singular e diferente do padrão apresentado pelos demais romances policiais. A surpresa do início só não é maior do que a do desfecho. A reviravolta de "Estado Vegetativo", apesar de um tanto estrambólica e pouco verossímil, está à altura dos melhores romances policiais da literatura. Se você achou, por exemplo, "O Assassinato de Roger Ackroyd" (Globo) e "E Não Sobrou Nenhum" (Globo) de Agatha Christie, "O Caso Morel" (Biblioteca da Folha) e "A Grande Arte" (Círculo do Livro) de Rubem Fonseca e/ou "Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias" (L&PM) de Edgar Allan Poe surpreendes, prepare-se, então, para o que Tiago Novaes reserva para você nas últimas páginas deste romance. É de tirar o fôlego. Também gostei muito de como a historiografia dos romances policiais foi inserida na trama. "Estado Vegetativo" é uma narrativa metalinguística que dialoga diretamente com os clássicos do seu gênero literário. Ler este livro é entrar de cabeça na dinâmica dos contos de Edgar Allan Poe (mestre e introdutor desse tipo de narrativa) e em boa parte da teoria literária das tramas criminais. Assim, foi impossível não me recordar de algumas das melhoras obras de Rubem Fonseca (introdutor e principal adepto nacional do romance negro - brutalismo). Outros elementos interessantes deste romance são: o retrato realista e ácido da cidade de São Paulo (é possível visualizar a metrópole nas páginas do livro), o humor do texto de Tiago Novaes (geralmente humor negro e politicamente incorreto, o que é ótimo!), o debate indireto do papel do escritor na literatura contemporânea (com excelentes sacadas e com a apresentação de pontos e contrapontos) e a eficiente construção dos seus personagens (uma coleção de pessoas com sérios problemas de caráter, conforme o bom e velho receituário dos romances noir). O único aspecto negativo de "Estado Vegetativo", se é que podemos dizer assim, está relacionado a algumas passagens de pouca verossimilhança. Sinceramente, há cenas e situações que são difíceis do leitor minimamente crítico engolir. Pacientes em coma que acordam depois de meses no momento exato em que a trama vai atingir seu clímax, indivíduos que conseguem enganar os conhecidos com alguns poucos recursos estéticos (enquanto desconhecidos não caem no mesmo truque) e as várias coincidências que vão se sobrepondo são alguns pontos que o leitor precisa passar por cima para curtir o romance com mais intensidade. De maneira geral, "Estado Vegetativo" é uma ótima narrativa policial. Como é bom ler um romance noir de grande qualidade e extremamente inteligente feito pela nova geração de escritores nacionais. Tiago Novaes é um autor que merece uma atenção especial dos leitores e da crítica literária. Admito ter ficado com vontade de conhecer mais obras desse escritor. Por isso, não estranhe se nos próximos meses novas análises dos livros de Tiago Novaes pintarem aqui no Blog Bonas Histórias. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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- Livros: A Metamorfose - A mais popular novela de Franz Kafka
Reli, neste comecinho de ano, o livro "Metamorfose" (Companhia das Letras). Esta é a mais famosa novela de Franz Kafka, um dos autores mais influentes do século XX. Escritor cultuado por gigantes como Jorge Luis Borges, Gabriel García Marquéz, Jean-Paul Sartre e José Saramago, Kafka conseguiu imprimir um estilo próprio à sua literatura. Suas obras são reconhecidas até hoje como uma das mais originais e marcantes da história ficcional. O sucesso de "Metamorfose", uma das poucas narrativas publicas pelo tcheco em vida, marcou o auge de sua carreira literária enquanto ele esteve vivo. A fama maior de Kafka viria após sua morte, quando algumas das suas principais obras foram publicadas na Europa e, depois, no mundo inteiro. Franz Kafka escreveu "Metamorfose" em menos de um mês. Entre 17 de novembro e 7 de dezembro de 1912, o escritor, então com 29 anos de idade e trabalhando como advogado em uma companhia de seguros em Praga, produziu sua novela mais longa e célebre. Este livro é importante, pois consolidou o estilo literário do autor, iniciado com o conto "O Veredicto", escrito dois meses antes. Curiosamente, hoje em dia, muita gente pode não ter lido nada do escritor tcheco, mas conhece o termo kafkaniano referente às peculiaridades do seu texto. A escrita de Kafka é marcada pela apresentação de cenas banais do cotidiano de maneira surreal, por tramas com fortes elementos de alienação, pela brutalidade, pela tensão psicológica, por intrigas familiares, pelo misticismo e pela burocracia interminável dos órgãos públicos. Produzido em 1912, "Metamorfose" demorou quase três anos para ser publicado. Apenas em 1915, a obra seria disponibilizada aos leitores. Noivo de Felice Bauer, uma jovem alemã que o escritor conheceu pouco antes iniciar a escrita desta novela, Franz Kafka queria se mudar para a Alemanha e trabalhar como jornalista. Seu objetivo era viver ao lado da amada. Por isso, esforçou-se para lançar esta obra no país natal da noiva. As dificuldades encontradas foram várias, principalmente por causa do tamanho da sua história (muito grande para uma revista literária inserir em suas páginas) e do conservadorismo da época (uma trama tão polêmica não entusiasmava os editores). Por isso, o grande período de espera. Quem apostou na publicação de "Metamorfose" foi o escritor René Schickele, que comandava naquele momento a revista "Die Weissen Bläter". Assim, a novela de Kafka foi impressa na revista de Schickele em outubro de 1915. A recepção dos leitores alemães e a avaliação da crítica literária foram as melhores possíveis. A obra conquistou o Prêmio Fontane de Literatura, uma importante honraria da época, o que fez abrir as portas das editoras para o trabalho de Kafka. "Metamorfose" foi, então, publicada em livro e já em 1918 recebia a sua segunda edição, um feito notável para um escritor não tão famoso no cenário alemão. Não é errado afirmar que o período logo após a publicação de "Metamorfose" foi o momento de maior sucesso da carreira literária de Kafka em vida. Falecido em 1924, Franz Kafka teve a maioria das suas obras publicadas postumamente. Apesar de o tcheco ter deixado claro para a família e para os amigos o desejo de ter todos os seus manuscritos destruídos quando morresse boa parte deles chegou intacto até nós (apesar de alguns estarem, infelizmente, inacabados). Nesta lista de sucessos póstumos que deveriam ter sido destruídos temos, por exemplo, os romances "O Processo" (Companhia das Letras) e "O Castelo" (Companhia das Letras). Essas duas publicações, que estão ao lado de "Metamorfose" como as principais obras de Kafka, foram lançadas em 1925 e 1926, respectivamente. "Metamorfose" narra em terceira pessoa o drama de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que acorda em certa manhã inexplicavelmente transformado em um inseto gigante e asqueroso. Apesar do autor não citar abertamente o nome do inseto, é inegável a referência à barata, um dos bichos considerados mais nojentos pela maioria das pessoas. O desespero do rapaz inicia-se com a dificuldade de sair da cama. Deitado com a barriga para cima em seu quarto, ele, agora com patas muito fininhas e com o casco duro, tem sérios problemas para se erguer. Depois de muito esforço, ele, enfim, consegue levantar-se da cama e ficar em pé no aposento. Aí, começa o verdadeiro drama do protagonista. Atrasado para ir ao trabalho, Gregor deixa toda a família desesperada. Ele mora com os pais e uma irmã adolescente, chama Grete. Sendo a única fonte de renda da casa, Gregor precisa ir ao emprego de qualquer jeito, pois teme ser demitido. Se isso acontecer, a família que já vive próxima da pobreza poderá ficar diante de problemas financeiros mais graves. Por isso, todos se postam na porta do quarto do rapaz, que está trancada, e batem para ele sair. Gregor é um trabalhador exemplar e nunca foi de se atrasar. Ao menos é o que sempre alegou. O que estaria acontecendo com ele? O pensamento dos familiares é que o rapaz talvez estivesse doente. Agora transformado em um inseto dentro do quarto, o caixeiro viajante não pode abrir a porta e explicar o que aconteceu naquela manhã. Ele também está assustado e não sabe explicar os motivos daquela tragédia. Não querendo aterrorizar os pais e a irmã, ele fica dentro do cômodo pensando no que fazer. Em meio a esse angustiante despertar, os Samsa ouvem a campainha de sua casa tocar. É o gerente da companhia onde Gregor trabalha vindo saber os motivos do atraso do seu funcionário. Para o chefe, Gregor precisa aparecer independentemente da sua aparência física. Nesse instante, a barata gigante, usando a boca e toda a força do corpo, gira a chave da fechadura e abre a porta do quarto. Quando veem o estado do protagonista, todos na casa se assustam. O gerente, o mais aterrorizado, foge correndo para rua sem dizer uma única palavra. A família entra em pânico. O que eles vão fazer com Gregor que se metamorfoseou em um inseto repulsivo?! Os pais não têm coragem sequer de encarar o filho monstruoso. Grete, a irmã, passa a visitar o quarto de Gregor para alimentá-lo com sobras de comida. Está criado o conflito surreal na residência dos Samsa. É ou não é uma história interessantíssima, hein? "Metamorfose" é um livro curtinho. Ele tem pouco mais de 100 páginas. Apesar de ser uma novela maior do que Kafka estava habituado a produzir, ela ainda é pequena (as novelas são um gênero narrativo menor do que os romances). Assim, é possível ler essa obra de uma vez só. Foi o que eu fiz no último sábado à tarde. Em menos de duas horas já tinha concluído essa leitura. Além de ter uma linguagem simples e muito acessível, o suspense da trama prende o leitor nas páginas até o final. Quando você reparar, "Metamorfose" já terminou. Com um enredo surreal, é inegável o bom humor do texto de Kafka. Em uma história com um apelo aparentemente esdrúxulo e com cenas bem engraçadas, o autor tcheco aborda de forma profunda os dramas familiares, as questões existencialistas e as inquietações de ordem econômica da sociedade moderna. E ele faz isso de maneira impactante e genial. A força desta narrativa está tanto em seu texto principal (o que efetivamente lemos) quanto em seu subtexto (aquilo que está oculto, em baixo da leitura aparente). Falar através de metáforas ou fábulas é uma das grandes virtudes da literatura de Franz Kafka. "Metamorfose" é um excelente exemplar do realismo fantástico. Após um episódio bizarro, a transformação de um homem em barata, já no primeiro parágrafo do livro (elemento fantástico), a história segue realista até o final. A mistura do que é verossímil e inverossímil torna este drama ao mesmo tempo engraçado e trágico. O humor e o grotesco caminham lado a lado em um conflito que questiona vários aspectos das relações humanas. Nesse sentido, é curioso notar que a maior aflição de Gregor Samsa quando se vê metamorfoseado em inseto é saber como fará para ir ao trabalho daquele jeito. Do ponto de vista do protagonista, a questão econômica parece sobrepor-se às demais. Já para a família, a maior preocupação é a aparência social. Os pais e a irmã pensam principalmente na imagem que vão passar para aqueles que estão a sua volta. Afinal, o que os conhecidos, os amigos, os vizinhos e os demais familiares vão pensar deles quando descobrirem a nova condição de Gregor? Esse é o grande temor da família Samsa, além de como obter uma nova fonte de renda agora que Gregor está improdutivo. A grandeza de "Metamorfose" está justamente em tratar de forma indireta a aridez de conflitos humanos extremamente delicados. Com a leveza da combinação de humor e fantasia, Franz Kafka criou uma história inteligente e saborosa. Sem sombra de dúvida, esse é um clássico da nossa literatura que merece ser lido e discutido. Não havia melhor leitura para eu começar esse ano com o pé direito. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FranzKafka #Novela #Drama #Existencialismo #LiteraturaTcheca
















