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  • Filmes: O Apartamento - O iraniano vencedor do Oscar

    Nesta segunda-feira, fui ao Caixa Belas Artes. A pauta do dia (ou melhor, da noite) era ver a produção iraniana vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2017. "O Apartamento" (Forushande: 2016) foi dirigido e roteirizado por Asghar Farhadi, o mais importante cineasta do Irã da atualidade. "O Passado" (Le Passé: 2013), "Separação" (Jodaeiye Nader Az Simin: 2010) e "Procurando Elly" (Darbareye Elly: 2009), suas três obras anteriores, já tinham encantado a crítica. O trio conquistou vários prêmios internacionais e foi indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira. Contudo, o coroamento definitivo do trabalho de Asghar Farhadi chegou neste ano com "O Apartamento". Enfim, a estatueta mais importante do cinema foi para as mãos do diretor persa de 45 anos. Assim como ocorreu em seus últimos longas-metragens, Farhadi fez de "O Apartamento" uma história sensível e dramática, na qual seus protagonistas são forçados a tomar difíceis decisões em âmbito familiar. Se em "O Passado" e "Separação" os personagens se deparavam com a angústia de ter de escolher entre a família e a pátria, neste novo filme a dúvida recai entre o desejo de vingança e a vontade de manter o casamento. "O Apartamento" começa mostrando Emad (interpretado por Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) contracenando em "A Morte de um Caixeiro Viajante", peça de Arthur Miller. Além de dividirem o palco, o ator (que também é professor de literatura em um colégio de segundo grau) e a atriz de teatro compartilham a mesma casa e a mesma cama. Eles são casados. Apaixonados um pelo outro, ambos sonham em ter filhos. Entretanto, a vida do casal é abalada com a ameaça de desmoronamento do edifício onde moram. As obras em uma construção ao lado acabam danificando a estrutura do prédio onde eles residem e o local precisa ser evacuado às pressas. Sem saber para onde ir, Emad e Rana aceitam a ajuda de um colega de teatro e se mudam provisoriamente para um apartamento emprestado. É neste local que Rana irá sofrer um grave incidente. Certa noite, enquanto a moça tomava banho em sua nova moradia, um homem invadiu a casa e a surpreendeu nua no banheiro. O susto foi tão grande que Rana caiu e bateu a cabeça. O corte foi profundo e provocou um grande sangramento. Levada pelos vizinhos ao hospital, ela se recuperou fisicamente, mas permaneceu muito abalada com a violência sofrida. As sequelas psicológicas começaram a afetar o casamento de Emad e Rana. O marido ficou indignado com o sofrimento da esposa e com as suspeitas infundadas dos vizinhos que acharam aquela história muito estranha. Assim, ele começou a investigar o ocorrido por conta própria. À medida que avança no paradeiro do agressor, a trama vai ganhando em complexidade dramática e em suspense. Cada peça daquele intrincado quebra-cabeça torna-se importante para elucidar o mistério. O que mais gostei neste filme foi a combinação do clima de suspense com a tensão psicológica que teimava em rondar os protagonistas. Se o primeiro recurso não é tão comum no cinema iraniano, o segundo é explorado em excesso. Esta junção de mistério com drama psicológico tornou o longa-metragem mais interessante e movimentando (para os padrões iranianos, obviamente), diferenciando-o dos seus conterrâneos. Desta maneira, o drama do enredo foi potencializado ao máximo, levando o expectador a ter várias dúvidas ao longo do filme. Estas incertezas partiam essencialmente da esposa e do marido. Ambos carregavam desconfianças sobre tudo e todos. Ninguém escapava destas suspeitas, nem o próprio parceiro. Será que ela está escondendo algo dele? Será que as intenções dele são mesmo nobres para com ela? Ficamos com estas dúvidas em nossas cabeças por quase toda sessão. Outro ponto muito interessante é o desfecho do longa-metragem. A sucessão de revelações, reviravoltas e aflições (pessoais e coletivas) recheiam os vinte minutos finais do filme, tornando-o eletrizante. Somente quando as letrinhas dos créditos sobem, entendemos a verdadeira questão abordada na trama. O conflito é entre a satisfação pela vingança e a opção pelo perdão genuíno. Repare na overdose emocional dos personagens que seguiram por cada um destes caminhos tão distintos. Por falar em reparar nas personagens, é impossível não comentar a espetacular atuação dos protagonistas. Taraneh Alidoosti e, principalmente, Shahab Hosseini estão magníficos em seus papéis. Não é à toa que ambos são figurinhas carimbadas nas produções de Asghar Farhadi. "O apartamento" é o quarto filme de Alidoosti com o diretor e o terceiro de Hosseini (ganhador do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes do ano passado por este papel). Antes de a sessão da noite passada começar, minha grande dúvida era saber se a conquista do Oscar foi merecida ou não. Como já conhecida os trabalhos anteriores de Farhadi, sabia do seu talento e de sua capacidade produtiva. Porém, 2017 foi a cerimônia da Academia de Cinema de Los Angeles mais politizada das últimas décadas. Vários prêmios foram entregues claramente para aplacar antigas reivindicações e reclamações de profissionais desta indústria. Em resumo, "jogou-se para a plateia". O critério técnico, portanto, ficou em segundo plano. "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016) que o diga quando o envelope de melhor filme foi aberto… Neste contexto, minha desconfiança era natural. A premiação de um diretor iraniano seria uma alfinetada na política externa do atual presidente norte-americano, Donald Trump, ou se tratava do reconhecimento do melhor trabalho estrangeiro do ano? Vale lembrar que Asghar Farhadi não pode participar da cerimônia de entrega do Oscar porque ele (e todos os seus conterrâneos) estava proibido de entrar nos Estados Unidos. Seu crime? Ter nascido no Irã, um país de maioria muçulmana. Com o fim da sessão da noite passada, cheguei a uma resposta satisfatória. O prêmio foi justo. Muito justo. Justíssimo (como diria coronel Belarmino, personagem de José Wilker na telenovela "Renascer"). "O Apartamento" foi o filme mais visto no Irã no ano passado, batendo o recorde de bilheteria em um país apaixona pelo bom cinema. Trata-se de um longa-metragem digno do maior prêmio do cinema mundial. Parabéns, Asghar Farhadi! Como esta produção está em poucas salas de cinema do país, os interessados em vê-la na telona precisarão procurar bem, além de correrem enquanto há tempo. Em São Paulo, por exemplo, apenas o Caixa Belas Artes (Rua da Consolação, 2.423) a mantém em cartaz. Vale a pena dar uma passadinha lá para conferir este belo filme. Veja o trailer: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AsgharFarhadi #CinemaAsiático #CinemaIraniano

  • Livros: Lavoura Arcaica - A impressionante novela de Raduan Nassar

    Neste final de semana, li o livro mais famoso de Raduan Nassar. "Lavoura Arcaica" (Companhia das Letras) é uma novela sombria e impregnada com uma atmosfera tensa. Este drama psicológico é pesadíssimo, abordando temas polêmicos, utilizando-se de linguagem poética e possuindo um desfecho trágico. Trata-se daquele tipo de leitura que pode agradar ou não o leitor, mas que certamente irá marcá-lo para sempre. Impossível ficar indiferente a este exemplar único e contundente de nossa literatura contemporânea. Raduan Nassar nasceu no interior de São Paulo e foi ainda adolescente para a capital do estado, onde estudou Direito e Filosofia. Trabalhou em várias áreas, entre elas o jornalismo. "Lavoura Arcaica", publicado em 1975, foi sua obra de estreia na literatura. Três anos mais tarde, Nassar publicou outra novela, "Um Copo de Cólera" (Companhia das Letras). O sucesso da crítica foi quase imediato. Suas duas ficções foram traduzidas para outros idiomas e ganharam o mundo. No final da década de 1990 e no início dos anos de 2000, tanto "Lavoura Arcaica" quanto "Um Copo de Cólera" foram adaptados para o cinema. Apesar do grande sucesso, Raduan Nassar preferiu abandonar, na década de 1980, a literatura e voltar para as suas origens, se mudando para o campo. Lá passou a trabalhar no cultivo e na administração de sua propriedade rural. Com um comportamento recluso e pouco afeito a dar entrevistas, o culto e os mistérios em volta deste escritor, hoje com 80 anos, só aumentaram ao longo do tempo. No ano passado, a Companhia das Letras lançou "Obras Completas", com as duas novelas de Nassar e um livro de contos, além de textos mais recentes do autor. Para coroar, o escritor paulista ainda ganhou, em 2016, o Prêmio Camões, considerado a principal honraria da literatura em língua portuguesa. A entrega deste prêmio aconteceu no mês passado e foi marcada por uma baixaria sem precedentes. O escritor, muito amigo de personalidades do Partido dos Trabalhadores (PT), discutiu, em plenos discursos oficiais, com o ministro da Cultura sobre os rumos da política nacional, deixando a literatura em último plano. Em "Lavoura Arcaica", conhecemos o relato em primeira pessoa de André, jovem que havia fugido recentemente da casa de sua família. Cansado da tirania paterna, do trabalho pesado na propriedade rural e da opressão conservadora no campo, o protagonista decidiu ganhar o mundo, abandonando seus pais e seus numerosos irmãos. Quando o livro começa, André está atirado no chão de um hotel vagabundo de uma cidade interiorana se masturbando. Neste momento, seu irmão mais velho, Pedro, bate à porta. A missão do primogênito é convencer o morador daquele lugar a retornar para o seio familiar. Nas palavras do visitante, os pais e os irmãos ficaram muito abalados com o repentino desaparecimento de André. O sofrimento de todos é digno de pena. Por isso, na opinião de Pedro, o irmão deveria retornar imediatamente para a propriedade rural da família. André, por sua vez, não parece arrependido. Ele não quer retornar para casa. Sua decisão não foi intempestiva, como o irmão mais velho imagina, e parece ancorada em sólidos motivos. Para justificar sua saída do lar, André começa a explicar para Pedro todas as razões que o levaram a desaparecer da vista da família. Ao mesmo tempo em que conversa com Pedro, o personagem principal rememora sua vida até então, destacando seus dramas e seus traumas desde a infância. No cerne de sua fuga, está a paixão incestuosa pela irmã Ana. O que temos, a partir de então, é o retrato nu e cru de um jovem abalado por um amor impossível, por desejos sexuais heterodoxos e com muita raiva da figura paterna. André opõe-se à sociedade patriarcal, à cultura conversadora e religiosa do campo, às tradições da família, ao autoritarismo e ao trabalho agrário. Sua ira com a vida que levava na propriedade rural da família é tão grande que o narrador consegue contestar até mesmo as normas mais básicas das sociedades humanas. Por isso, não se assuste com as cenas em que você irá se deparar. Não é à toa que o livro começa com a masturbação do protagonista. "Lavoura Arcaica" é uma novela dramática de cunho psicológico com 196 páginas. O primeiro aspecto que chama a atenção do leitor neste livro é o estilo narrativo. As frases parecem ter sido extraídas diretamente dos pensamentos do narrador. Por isso, o constante fluxo de ideias e a ausência de pontuação. Às vezes, este recurso lembra um pouco o jeito de escrever de José Saramago. Contudo, as diferenças para a literatura do português estão no jeito despudorado e sem filtro de Raduan Nassar contar sua história e na temática delicada e bastante polêmica. Além disso, o texto desta novela tem forte carga poética. O narrador apresenta seus dramas de maneira lírica, como se estivesse sonhando acordado. Admito que tive dificuldades para saber o que era realidade e o que era imaginação na narrativo do personagem principal (o que deixa a novela mais interessante). Por exemplo, a cena de sexo com Ana (sim, o protagonista transa com a irmã!) pode ser interpretada como um devaneio de André ou como um fato real, fruto da paixão genuína entre os dois irmãos (falei ou não falei que você, leitor, iria se deparar com situações delicadas e inimagináveis!). Assim, o segundo elemento marcante desta obra é a quantidade extensa de temas polêmicos. A personagem principal deste livro não tem receio nem pudor para abordar quaisquer assuntos que queira debater. Em "Lavoura Arcaica", temos cenas de masturbação, sexo com animais, incesto, filicídio, contestação aos valores familiares da sociedade rural e profanação religiosa. Trata-se de um violento tapa na cara da cultura conservadora. A narrativa desta novela está totalmente ancorada nestas práticas condenadas pela maior parte das pessoas, mas que são corriqueiras e admiradas pelo narrador da trama. Curiosamente, este livro torna-se, ao mesmo tempo, uma obra poética e um enredo tenebroso. O ambiente inteiro do livro é pesado e carregado de sentimento de culpa e inadequação por parte do protagonista. A angústia do narrador cria uma atmosfera sombria. A novela é dividida em duas partes: "Partida" e "Retorno". Na parte inicial, temos André e Pedro discutindo os motivos da fuga do irmão mais novo, a tristeza familiar com esta ausência e a possibilidade de volta da "ovelha negra". E na parte final, temos efetivamente o retorno de André para sua casa. Porém, a alegria inicial deste regresso irá provocar novos dramas. Rapidamente todos na casa são afetados direta ou indiretamente pela manutenção do rancor e da raiva do rapaz. As discussões são mais intensas e o final é trágico. André é com certeza um das personagens mais ricas (e polêmicas, também) da literatura brasileira moderna. Compreendê-lo não é uma atividade fácil. Não se assuste se você precisar ler duas ou três vezes o livro para conseguir entender toda a sua complexidade. Também não admire se você ficar, a todo instante, mudando seu sentimento em relação a esta personagem. É comum termos sensações variadas em relação ao protagonista ao longo do drama. Portanto, "Lavoura Arcaica" não é uma leitura fácil. Você pode ou não gostar desta narrativa, porém uma coisa é certa: ela irá marcá-lo. Sem sombra de dúvidas, este é um dos exemplares mais intrigantes da nossa literatura. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RaduanNassar #Novela #DramaPsicológico #Drama #LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea

  • Exposições: O Corpo é a Casa - O divertido Erwin Wurm

    O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) trouxe pela primeira vez ao país uma exposição de Erwin Wurm. Um dos artistas europeus contemporâneos de maior sucesso, o austríaco é conhecido pelo lado irreverente e descontraído de apresentar suas criações ao público. "Erwin Wurm - O Corpo é a Casa" é a mostra que está em cartaz em São Paulo desde 25 de janeiro. Através de obras conceituais e interativas, é possível conferir a visão crítica do artista em relação a sociedade de consumo. O principal mérito de "Erwin Wurm - O Corpo é a Casa", distribuído pelas labirínticas salas dos quatro andares do CCBB, está em entreter o público e levá-lo ao riso fácil. Trata-se de uma excelente opção para quem não está muito familiarizado com as artes plásticas e, portanto, está em uma fase de introdução ao universo das artes visuais. Se não encontramos profundidade conceitual nem rigor formal nas criações desta exposição, ao menos nos deparamos com uma divertida mostra, fácil de ser digerida. Em uma comparação livre e meio absurda, podemos dizer que Erwin Wurm é o Romero Brito das artes plásticas da Europa. Seu jeito simples, marcante e leve consegue agradar a massa de expectadores, apesar de não despertar grandes emoções nos olhares mais críticos e exigentes. Os trabalhos de Wurm são compostos, na maior parte do tempo, de materiais usuais do dia a dia das pessoas, como alimentos, embalagens plásticas, veículos, casas, mobília residencial, roupas e figuras de pessoas. Há também o uso de matérias-primas mais formais, como o bronze e o ferro, quando Erwin Wurm se dedica às esculturas clássicas. Mesmo assim, o bom humor e a ironia fina estão presentes em todas as suas criações. Estas características ficam mais evidentes no andar em que o público pode interagir diretamente com as peças. O artista disponibiliza materiais corriqueiros do cotidiano como embalagens de produtos de limpeza, bolinhas de tênis, livros e puffs. Os visitantes devem seguir as diretrizes de Wurm e fazer suas próprias criações usando seus corpos. O objetivo é promover uma divertida sessão de fotografias. O resultado, apesar de banal e limitado artisticamente, empolga as pessoas que se aglomeram para interagir com os exercícios criativos. Sem sombra de dúvidas, este é o espaço mais concorrido da exposição. Nos demais ambientes, a mistura de diferentes linguagens, a irreverência do artista e a inversão da lógica natural da perspectiva estética deixam o público desconcertado. A concepção crítica baseada na superficialidade da vida moderna, a banalidade na escolha dos materiais, a troca dimensional e a temática inusitada também provocam forte impacto no olhar dos visitantes. Às vezes, ficamos em dúvida se nossa visão está querendo nos enganar ou se o artista conseguiu produzir um efeito ludibriador sobre nossos sentidos. A obra mais impactante da exposição está logo na entrada do prédio do centro cultural (porém, é a última a ser visitada se o participante seguir a ordem natural da mostra). Trata-se de uma casa muito peculiar, construída com material que lembra bexigas brancas infladas no lugar dos tijolos convencionais e que parece estar o tempo inteiro sorrindo. O seu aspecto de leveza contrasta com as quase duas toneladas de materiais usados. O seu interior está vazio. A mobília típica de uma residência está flutuando no espaço externo do prédio do CCBB, invertendo a lógica deste tipo de construção. Dentro da casa, é possível assistir a um curta-metragem divertido no qual se discute a concepção da arte moderna. Vale a pena vê-lo na íntegra. Outras criações muitos badaladas são o veículo vermelho em formato de beijo, o homem obeso que engoliu o planeta, o vaso sanitário em tamanho reduzido e o beijo dos pepinos amorosos. Eles atraem os olhares e a admiração de adultos e crianças, produzindo bastante frisson nas salas. Através destas obras, podemos ver que Erwin Wurm consegue ser ao mesmo tempo crítico e irônico sem deixar se ser acessível e popular. "Erwin Wurm - O Corpo é a Casa" ficará em cartaz na capital paulista até 3 de abril. Ou seja, há quase um mês para os interessados conferirem esta exposição. A entrada é gratuita, o acesso é livre para todos os públicos e a mostra é exibida de quarta a segunda-feira. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #ErwinWurm #Exposição #Mostra #ArtesPlásticas

  • Livros: O Morto ao Telefone - A primeira publicação de Le Carré

    John Le Carré é um escritor inglês especializado em produzir histórias de espionagem. Sua obra mais famosa é "O Espião que Saiu do Frio" (Record), publicada em 1963. Considerado pela revista Times como um dos melhores romances da história neste gênero, "O Espião que Saiu do Frio" foi adaptado para o cinema dois anos após chegar às livrarias britânicas. Outros dois livros de grande sucesso deste autor que também foram levados ao cinema são "O Jardineiro Fiel" (Best Bolso), de 2001, e "O Alfaiate do Panamá" (Record), de 1996. Desejando conhecer mais sobre o estilo literário de Le Carré, li na noite desta terça-feira sua primeira publicação: "O Morto ao Telefone" (Klick). Lançada em 1961, esta novela representou a estreia na literatura do personagem George Smiley, um agente secreto completamente diferente do estilo James Bond. Smiley foi protagonista de várias histórias importantes de John Le Carré, como "O Espião que Sabia de Mais" (Record) ,de 1974, e "A Vingança de Smiley" (Record), de 1979. Em "O Morto ao Telefone", conhecemos a figura singular de George Smiley. Ele é um sujeito baixinho, gordinho e feio que trabalha para o serviço secreto da Inglaterra. Parecido com um sapo, Smiley foi abandonado pela linda esposa, que fugiu para viver com um jovem e atraente piloto de corridas. Desiludido com a separação conjugal, o agente secreto vê sua vida se complicar ainda mais após o suicídio de Samuel Arthur Fennan, um funcionário do Ministério do Exterior. Fennan deixou uma carta afirmando que tirara sua vida por causa de uma entrevista concedida, na véspera, a George Smiley. Segundo Fennan, Smiley estava desconfiado de que ele era um espião inimigo, não podendo viver sob tal acusação. A morte do graduado funcionário do Ministério Exterior na certa provocaria uma grande confusão no governo inglês, o que colocava em risco o emprego de Smiley. Para provar que não fora o responsável pela morte de Samuel Arthur Fennan e que não suspeitava da lealdade do falecido, George Smiley inicia a investigação do caso. Para isso, contará com a ajuda do inspetor Mendel, veterano policial com quem o agente secreto faz amizade no início do livro. À medida que analisa a morte de Fennan, Smiley é atirado para dentro de uma intriga internacional de espionagem, o que coloca sua vida em risco. Com pouco mais de 140 páginas, "O Morto ao Telefone" é uma história compacta e rápida. Apesar de ser bem escrita e possuir uma trama envolvente, ela não empolga em nenhum momento. Por ser sua primeira publicação, percebe-se que John Le Carré ainda não tinha "pego a mão" do suspense. Tudo nesta novela parece meio inacabado. A sensação é que se fosse transformado em um romance e a história tivesse uma narrativa mais encorpada, o livro ficaria melhor. Minha impressão é que a rapidez dos acontecimentos e a velocidade do enredo impedem a empatia do leitor com os protagonistas e com o mistério da trama. Se o leitor não sai decepcionado, também fica longe de terminar a obra encantado com o clima de suspense e de perigo que o autor propõe. Quem já leu "O Espião que Saiu do Frio" na certa não achará a menor graça nesta novela. Acredito que "O Morto ao Telefone" seja mais uma apresentação do principal personagem de Le Carré. Por isso, quem quiser ler "O Espião que Sabia de Mais", pode começar lendo esta novela como uma boa introdução. O grande (e talvez único) mérito de John Le Carré com "O Morto ao Telefone" foi ter lançado um espião totalmente diferente dos clichês do cinema e da literatura. Não há ninguém mais anti-James Bond do que George Smiley. Ele é feio, desajeitado, gordo, vive humilhado pelo abandono da esposa e é apaixonado pela literatura alemã do século XVII. Ninguém em sã consciência poderia imaginar que um sujeito assim seria capaz de resolver os problemas mais complexos da agência secreta inglesa. Contudo, Smiley é, para muitos, o melhor agente secreto da história da literatura. Sua inteligência e perspicácia o colocam sempre a frente dos agentes sedutores e bombadões dos países inimigos. Assim, em "O Morto ao Telefone", temos um jovem John Le Carré ainda aprendendo a arte de escrever ficção e com muito potencial para se tornar um grande autor de espionagem. Nada mais do que isso. Felizmente, ele evoluiu muito ao longo das demais publicações. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JohnLeCarré #LiteraturaInglesa #Novela #RomancePolicial #Suspense

  • Filmes: Moonlight, Sob a Luz do Luar - Destaque ao Oscar de 2017

    Assisti neste sábado de Carnaval ao filme "Moonlight - Sob a Luz do Luar" (Moonlight: 2016). O novo longa-metragem do jovem diretor Barry Jenkins foi um dos destaques do último Globo de Ouro (vencendo na categoria Melhor Drama) e é uma das produções com mais indicações ao Oscar deste ano (concorrendo em oito categorias, entre elas a de Melhor Filme). Curiosamente, este filme foi um dos últimos postulantes ao prêmio máximo de Hollywood a estrear nos cinemas brasileiros. Ele entrou em cartaz no circuito comercial do país apenas nesta quinta-feira, dia 23. Por isso, corri para a Caixa Belas Artes neste final de semana para conferi-lo. Queria vê-lo antes da cerimônia desta noite da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Minha intenção era saber se "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016) teria realmente um forte concorrente às principais estatuetas da noite ou se as críticas extremamente favoráveis ao trabalho de Barry Jenkins, que havia lido nas últimas semanas, eram excessivas. "Moonlight" é o segundo filme da carreira de Jenkins. Ele estreou na direção, em 2008, com "Medicine for Melancholy", trabalho que lhe rendeu indicações aos prêmios Gotham Awards daquele ano e Independent Spirit Awards do ano seguinte, mas que acabou sendo pouco visto pelo público nos cinemas. Neste seu segundo longa-metragem, o diretor traz novamente como tema principal da sua obra os desafios dos negros nos Estados Unidos. Ao invés de abordar o relacionamento de um casal (como fez em "Medicine for Melancholy"), seu olhar agora paira sobre um homem duplamente afetado pelo preconceito: além de negro, ele é homossexual. Jenkins não apenas dirige como também foi o responsável por fazer o roteiro de "Moonlight". Ele se baseou em uma peça teatral para construir sua história cinematográfica. Este filme teve um orçamento baixíssimo para os padrões de um concorrente ao Oscar. Barry Jenkins teve ajuda de Brad Pitt para levantar os recursos necessários para viabilizar sua produção e para distribuí-lo depois às salas de cinema norte-americanas. As restrições orçamentárias, porém, não ficam evidentes para quem assisti ao longa-metragem. A equipe responsável por "Moonlight" fez um trabalho incrível para priorizar o que era necessário e para encontrar soluções criativas para as demais necessidades operacionais e técnicas. Durante as filmagens, por exemplo, todo o elenco teve a sua disposição apenas um único espaço para a troca de figurino, para a preparação da maquiagem e do cabelo e para o descanso da equipe. Algo, portanto, atípico para os padrões luxuosos de Hollywood. Esta trama gira em torno da vida de Chiron (interpretado em momentos distintos por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes), um rapaz negro nascido em um subúrbio pobre de Miami. O filme é dividido em três partes chamadas de "Pequeno", "Chiron" e "Preto". Cada uma destas seções retrata uma fase da vida do protagonista. Pequeno era o apelido dele na infância, Chiron era como a personagem principal era chamada na adolescência e Preto, por fim, tornou-se seu codinome na fase adulta. Na infância, Chiron sofria com o bullying dos colegas e com o desprezo de Paula, sua mãe viciada em drogas (Naomie Harris em excelente atuação). Por isso, ele encontrou algum amparo e certo carinho em um casal de vizinhos. Juan (Mahershala Ali) e Teresa (a bela Janelle Monáe, que atuou recentemente em "Estrelas Além do Tempo") adotam informalmente o garoto. Na adolescência, surge a questão da crise de identidade e das descobertas sexuais. A primeira experiência sexual do rapaz é com um amigo de escola, o que desperta seus desejos homossexuais até então adormecidos. Na fase adulta, temos um homem aparentemente mais seguro de si e mais forte, mas que continua sofrendo dos mesmos medos e traumas do passado. "Moonlight - Sob a Luz do Luar" possui um enredo dramático, uma temática polêmica, cenas pesadas e intensa análise psicológica do personagem principal. O que confere charme a esta produção é que tudo isso vem embalado com um olhar poético sobre a realidade de injustiças, dificuldades e superação de um rapaz negro. Acompanhar o crescimento e o amadurecimento do protagonista permite-nos compreender o sucessivo jogo de causa e efeito que sua vida sofre. Cada episódio ocorrido com Chiron traz reflexos mais à frente. O bullying na escola e a falta de carinho materno, por exemplo, transformam o rapaz em uma pessoa introspectiva, solitária, receosa e monossilábica. A traição do grande amigo na adolescência faz com que Chiron se feche ainda mais em uma bolha imune à dor e ao contato externo, além de distanciá-lo das amizades e do amor. Não é possível falar "Moonlight" sem tratar dos vários preconceitos sociais. Aqui, o peso da homofobia é maior do que o do racismo. Até mesmo dentro de uma comunidade formada por uma minoria excluída da sociedade norte-americana, como um bairro negro de Miami, ainda sim há focos de intolerância e de preconceito interno. Chiron sofre dentro da sua comunidade por ser afeminado/homossexual. Sua "família natural" é alvo da ira coletiva porque sua mãe é uma prostituta e dependente química. O "pai adotivo" é visto com alguma reticência por ser traficante. Em um mundo de excluídos, há sempre alguns mais excluídos do que outros. Para suportar a segregação dos segregados, a lei do mais forte impera o tempo todo. A trilha sonora do filme é muito boa e bastante eclética. Ela vai do clássico ao hip hop sem causar estranheza ou qualquer desconforto na plateia. Destaque para "One Step Ahead" de Aretha Franklin e para “Every Nigger is a Star” que abre o filme. Repare também na surpreendente participação de Caetano Veloso cantando em espanhol. Outros elementos interessantes desta produção são os jogos de câmeras e os enquadramentos diferenciados das cenas. Temos aqui uma câmera agitada e em constante movimento. Este recurso ajuda muito a mostrar a inquietude do protagonista e o turbilhão emocional que é sua vida, além de ajudar a potencializar seu vazio existencial, sua solidão e sua raiva. O enquadramento inusitado e a interrupção da cena em pontos estratégicos do cenário também reforçam a dramaticidade das situações. Trata-se sem dúvida nenhuma de um excelente trabalho que confere uma ótima fotografia ao filme. Depois dos protestos do ano passado contra a falta de profissionais negros na premiação do Oscar, é salutar o esforço da Academia de Los Angeles para a inclusão de vários representantes afro-americanos na cerimônia deste ano. Barry Jenkins é o quarto negro na história a ser indicado à Melhor Diretor. O espetacular "Estrelas Além do Tempo" (Hidden Figures: 2016) também carrega o apoio desta parcela da população norte-americana. Apesar de estes trabalhos serem muito acima da média, eles ainda sim são os azarões aos principais prêmios desta noite. Continuo achando "La La Land - Cantando Estações" um filme muito superior, mas gostei de ver o maior espaço dado às produções, aos diretores, às atrizes e aos atores negros. Eles mereciam este reconhecimento. Veja o trailer de "Moonlight - Sob a Luz do Luar": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #BarryJenkins

  • Celebrações: Por que não se deve comemorar o Dia Nacional do Surdo-Mudo?

    O dia 23 de fevereiro foi instituído como sendo a data nacional da pessoa surda-muda no Brasil. Contudo, duvido que alguém tenha visto a menção a esta data no dia de ontem. A falta de celebração é, curiosamente, encabeçada pela própria comunidade surda do país. Ela não reconhece este dia como sendo uma homenagem aos seus integrantes. Prefere-se comemorá-lo no dia 26 de setembro, o Dia Nacional dos Surdos. A culpa é da utilização de um termo que se tornou politicamente incorreto. Não se deve falar "surdo-mudo" para designar as pessoas com deficiência auditiva. Para compreender o motivo disso, é necessário fazermos uma rápida recapitulação sobre este tema. Surdez é um distúrbio físico caracterizado pela perda parcial ou total da capacidade auditiva. Há vários graus de surdez e há também várias causas possíveis para este problema. Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2010, há no Brasil cerca de 9,7 milhões de pessoas com deficiência auditiva. Deste contingente, que representa mais de 5% da população, aproximadamente 2 milhões de pessoas possuem surdez severa ou profunda. Assim, o termo correto para quem tem deficiência auditiva é surdo e não surdo-mudo. Antigamente, era comum o uso da expressão "surdo-mudo". Contudo, este termo caiu em desuso e tornou-se politicamente incorreto nos dias de hoje. Afinal, quem não ouve não é necessariamente mudo. A pessoa com deficiência auditiva simplesmente não fala porque não ouve. Ao não ouvir, ela nunca adquiriu a capacidade de se comunicar oralmente. Mesmo não falando, isso não quer dizer que ela seja muda. Mudo é quem tem incapacidade total ou parcial de produzir fala. Para permitir que as pessoas surdas possam se comunicar, foi criado a Língua de Sinais (LS), um código linguístico no qual a comunicação é feita com gestos e não com palavras. Cada país possui o seu idioma próprio. Este tipo de comunicação remonta os primórdios da humanidade, sendo encontrada, por exemplo, na Grécia antiga e na Idade Média. Libras (Língua Brasileira de Sinais) é uma das línguas oficiais do nosso país. Ela é usada pela comunidade surda brasileira. Libras é considera uma língua e não uma linguagem, pois possui regras e estruturas gramaticais próprias (a linguagem não tem esta propriedade). Conhecer e disseminar o uso da Língua Brasileira de Sinais é, portanto, uma forma de permitir a integração e a socialização de um contingente amplo da população de nosso país. Ao abraçar a diversidade, cuidado para não cometer gafes. Não há nada de errado de chamar alguém que não ouve de surdo. Porém, não use o termo surdo-mudo. Além de demonstrar desconhecimento, você está sendo indelicado. É por isso que não faz muito sentido comemorar o Dia Nacional do Surdo-Mudo. 23 de fevereiro é uma data para ser esquecida. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do blog no Facebook. #celebração #DataEspecial

  • Livros: Agosto - O incrível romance histórico de Rubem Fonseca

    A mais famosa obra da carreira de Rubem Fonseca, um dos principais escritores brasileiros da atualidade, é o romance histórico "Agosto" (Companhia das Letras). Natural de Juiz de Fora, Minas Gerais, Fonseca conquistou, em 2003, o Prêmio Camões, o mais relevante da Língua Portuguesa, pelo seu trabalho como romancista, contista, ensaísta e roteirista. Além deste reconhecimento internacional, o escritor mineiro ganhou três prêmios Jabuti, o mais importante no cenário nacional. Apesar de "Agosto" ser sua criação mais conhecida pelo público, outros dois romances do autor merecem destaques: "O Caso Morel" (Companhia das Letras), de 1973, e "O Selvagem da Ópera" (Companhia das Letras), de 1994. A primeira edição de "Agosto" é datada de 1990. Nesta época, Rubem Fonseca já era um romancista de relevância nacional e um contista celebrado pela crítica, tendo conquistado inúmeros prêmios por seus trabalhos nestas duas searas. Contudo, o romance histórico potencializou sua fama e o tornou um best-seller no país. Esta história seria adaptada, em 1993, para a televisão, em uma minissérie produzida pela Rede Globo. Veiculada entre agosto e setembro, a produção televisiva teve 16 capítulos. O enredo deste livro se passa durante o mês de agosto (daí o seu nome) do ano de 1954. Este período foi um dos mais tensos e conturbados da história do Brasil. A pressão política que o presidente Getúlio Vargas estava sofrendo dos militares, da imprensa, da oposição e de parte da sociedade acabou resultando em uma tragédia: o suicídio do comandante da nação. Este é o cenário que compõe toda a narrativa de Rubem Fonseca. Ao mesmo tempo em que apresenta fatos históricos deste período, o romancista insere uma trama ficcional envolvente e recheada de intrigas e de mistérios. Paulo Machado Gomes Aguiar, um rico empresário, é assassinado em seu luxuoso apartamento no Rio de Janeiro. Para investigar o caso, é escalado um comissário de polícia chamado Alberto Mattos. Mattos é um tipo de policial excêntrico. Além de ser totalmente honesto, não aceitando propina dos bicheiros e do crime organizado, ele ainda se preocupa em respeitar a Constituição, não admitindo nenhum tipo de abuso de autoridade por parte dos colegas e exigindo que todos os cidadãos tenham suas garantias legais respeitadas. O investigador também se preocupa com as condições dos presos durante o cárcere. Agindo mais como um tira de país civilizado do que como um policial brasileiro, Alberto Mattos é odiado tanto pelos colegas de profissão quanto pelos criminosos e políticos. À medida que começa a investigar a morte do empresário, o comissário Mattos vai aos poucos relacionando este caso com os acontecimentos que rondam o Palácio do Catete, sede do governo federal. Qual a relação do crime no apartamento de luxo com o atentado perpetrado contra o jornalista Carlos Lacerda na Rua Tonelero? Qual o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, com os negócios do falecido Paulo Machado Gomes Aguiar? A motivação do assassinato foi passional ou político? O que torna este livro tão interessante é que enquanto acompanhamos a investigação ficcional de Alberto Mattos, conseguimos presenciar os momentos históricos daquele período como se estivéssemos ali presentes. Quem gosta de história, com certeza irá adorar este romance. A maioria dos personagens é real e muitas cenas aconteceram de verdade. Percebe-se que Rubem Fonseca fez uma minuciosa pesquisa histórica para escrever esta intrigante trama. Chega um momento em que o leitor não sabe onde começa a ficção e onde termina a realidade. Fantástico! O ambiente do romance é pontuado por altas doses de violência, corrupção, erotismo e ironia. O estilo é parecido ao noir, com cenários escuros, tensos e claustrofóbicos. A narrativa é ágil, parecendo com um roteiro cinematográfico. A construção dos personagens também explora o que há de pior e de mais sombrio de cada um deles. Na maior parte do tempo, tem-se a sensação que o único personagem confiável é o Mattos. Todos os demais possuem sérios problemas de caráter. Por causa da ambientação histórica, há dezenas de personagens reais. Há tanto nomes conhecidos pelo público (Carlos Lacerda, Luís Carlos Prestes, Eurico Gaspar Dutra, Tancredo Neves, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart) como nomes pouco lembrados, principalmente entre os ministros (Osvaldo Aranha, Gustavo Capanema e Érico Delamare) e entre os militares (João Pedro Salgado Filho e Henrique Aristides Guilhem). Quem não estiver muito ligado aos acontecimentos políticos da década de 1950 e não possuir algum conhecimento da história do país, provavelmente irá se perder no meio das longas descrições dos fatos históricos e do desfile interminável de um número extenso de pessoas. Aí a compreensão da trama e, principalmente, das relações entre as personagens ficará seriamente comprometida. Há também uma grande variedade de personagens ficcionais do tipo "marginais": prostitutas, assassinos de aluguel, doentes mentais, amantes de luxo, policiais corruptos, bicheiros, políticos inescrupulosos e capangas. Ao invés de ficar marginalizado (como é comum acontecer nos romances policiais), este grupo adquire aqui um papel de destaque, influenciando diretamente no desenrolar da narrativa. Outro aspecto que chama a atenção durante a leitura de "Agosto" é a série de denúncias feitas pelo autor. Corrupção epidêmica em todos os níveis do Estado, criminalidade avançando em todas as esferas sociais, falência do sistema prisional, alto índice de violência, autoritarismo policial e abuso de autoridade formam o cardápio de males que afetam o país na década de 1950 (qualquer semelhança com nossa situação atual não é mera coincidência). Trata-se de um retrato nu, cru e trágico do Brasil. Outra questão importante é a da caracterização do protagonista do romance. Alberto Mattos não é o típico policial ou agente da lei que estamos acostumados a ver na literatura e no cinema. Estes personagens são normalmente destemidos e implacáveis com os bandidos. São também fortes, vigorosos e sempre escapam da morte que os espreita. Gostam, muitas vezes, de bebidas alcoólicas e possuem um estilo de vida caro e luxuoso. E eles estão o tempo inteiro transando com mulheres lindas e sensuais. James Bond, da série "007", e Jack Bauer, de "24 horas", encaixam-se perfeitamente neste estereótipo. Mattos, por sua vez, é completamente diferente dos protagonistas destas aventuras. Ele quase nunca anda armado e provavelmente nunca disparou um tiro. Alberto é do tipo de policial que prefere soltar os presos da cadeia ao invés de prendê-los. Também vive se contorcendo de dor e está sempre a um passo de desmaiar ou de ser levado a um hospital por causa da úlcera estomacal. Sua vida não é nada glamourosa. Nem carro ele possui, vivendo em uma espelunca alugada. Sua bebida favorita é o leite. Neste sentido, o comissário Mattos é igual ao Chapolin Colorado, que chega a um bar e pede um copo de leite. O investigador já brochou na cama com uma mulher, desapontando a parceira. E para completar o quadro pavoroso, Alberto Mattos não consegue escapar das emboscadas preparadas pelos seus inimigos contra ele. É ou não é um policial incrível?! "Agosto" é uma trama eletrizante. Gostei tanto do livro que fiquei com vontade de ler outras obras de Rubem Fonseca. Sem sombra de dúvida, ele é um dos grandes escritores contemporâneos que nosso país possui. Muito legal conhecer mais afundo sua principal obra. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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  • Filmes: Tarde de Mais para Esquecer - Romantismo histórico

    "Tarde de Mais para Esquecer" (An Affair To Remember: 1957) é um dos mais cultuados filmes românticos do século XX. Em 2017, ele está completando sessenta anos de vida. Esta versão que emocionou gerações é uma refilmagem de uma produção mais antiga: "Duas Vidas" (Love Affair: 1939). O diretor dos dois longas-metragens foi o mesmo, Leo McCarey. McCarey também participou do roteiro do segundo filme. Na versão de 1957, a mais famosa delas, os protagonistas eram os britânicos Cary Grant, de "Interlúdio" (Notorious: 1946), e Deborah Kerr, de "As Minas do Rei Salomão" (King Solomon's Mines: 1950) e "A um Passo da Eternidade" (From Here to Eternity: 1953). "Tarde de Mais para Esquecer" foi indicado a quatro categorias do Oscar: Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original (com "An Affair to Remember"). O interesse por esta produção foi reavivado na década de 1990 com o lançamento de "Sintonia de Amor" (Sleepless in Seattle: 1993), que fazia referências diretas ao filme de Leo McCarey, e com uma nova refilmagem desta história clássica. A terceira versão gravada foi intitulada de "Love Affair - Segredos do Coração" (Love Affair: 1994). O enredo de "Tarde de Mais para Esquecer" começa em um navio. A embarcação sai da Europa e tem como destino os Estados Unidos. O passageiro mais famoso é o playboy Nickie Ferrante (interpretado por Cary Grant). Sua vida de rapaz mulherengo e bon vivant está com os dias contados. Quando chegar à Nova York, Nickie irá se casar com Lois Clark (Neva Patterson), uma das mulheres mais ricas da América. Outra passageira do navio é Terry McKay (Deborah Kerr), uma ex-cantora de casas noturnas. A moça também está com o casamento marcado. O noivo dela é Kenneth Bradley (Richard Denning), um rico empresário norte-americano. Nas primeiras cenas do filme, Nickie Ferrante e Terry McKay se conhecem por acaso durante a travessia transatlântica. Impressionado com a beleza da moça, Nickie começa a corteja-la. Terry inibe as investidas do playboy afirmando que é uma mulher comprometida e com casamento agendado. Os dois, então, tornam-se amigos e passam a ficar cada vez mais tempo juntos. Assim, a dupla acaba se apaixonando de verdade. A partir deste instante, o novo casal passa a fugir dos olhares maldosos dos demais passageiros do navio, curiosos para conferir a nova conquista romântica do Senhor Ferrante. Sabendo que Nickie é um homem impulsivo e um tanto mulherengo, Terry faz um acordo com ele quando ambos estão na iminência de desembarcar. Se em seis meses eles ainda estiveram apaixonados, os dois deverão ir até o último andar do Empire State (o prédio mais alto de Nova York naquele momento da História) em determinado dia e horário para se casarem. Enquanto esta data não chega, a dupla poderá desmanchar seus relacionamentos com seus parceiros. Além disso, Nickie poderá arranjar um emprego para se sustentar e para sustentar sua nova esposa. Afinal, ela é pobre e ele nunca trabalhou na vida. A primeira metade do filme é um tanto previsível e boba. O romantismo exacerbado e cheio de regras (típico da metade do século XX) torna o enredo um tanto infantil para quem não é um romântico inveterado. Mesmo assim, é curioso reparar em algumas cenas. Por exemplo, o casal de protagonistas dá o primeiro beijo escondido da câmera. Naquela época, não caía bem um rapaz e uma moça com casamentos marcados (com outras pessoas) se beijarem aos olhos do público. Também é divertido notar a curiosidade que os outros passageiros demonstram pela vida do novo casal. Precisamos lembrar que não havia Facebook nem mídias sociais naquele tempo. A bisbilhotice era feita pessoalmente e ao vivo. No momento em que Nickie e Terry fazem o acordo para se encontrarem no alto do Empire State em seis meses (esta parte marca exatamente a metade do filme), o longa-metragem ganha em dimensão e relevância. Acontecimentos surpreendentes começam a ocorrer em sequência, transformando aquela trama romântica e boba em uma epopeia trágica e com forte carga dramática. Aí o filme começa de fato. O expectador, até então maravilhado (ou entediado) com o amor idílico e platônico das personagens, é atirado violentamente para o pragmatismo da vida real. O roteiro é tão bem feito que os expectadores vão aos poucos compreendendo a complexidade da situação. Este recurso, além de intensificar a dramatização, também confere doses de suspense ao enredo. "Tarde de Mais para Esquecer" realmente é um filme marcante. Sua produção é muito bem feita. A fotografia é deslumbrante, conseguindo captar a beleza e a luminosidade da Grécia (onde ocorrem algumas cenas), a imensidão e o dinamismo de Nova York (metade do filme acontece ali) e o romantismo e o glamour de uma viagem por um cruzeiro intercontinental (a primeira metade do longa-metragem se passa dentro do navio). A trilha sonora também ajuda a compor os climas distintos das duas fases do filme. Repare que a mudança na trama não se faz apenas pelos diferentes cenários (Europa/Oceano e Estados Unidos), mas também pela música. A única coisa que não gostei foi do finalzinho. Na verdade, o desfecho é até muito interessante, com um diálogo memorável travado entre Nickie e Terry no apartamento dela. O que realmente me incomodou, foram os últimos segundos. Depois de quebrar a expectativa da plateia atirando para longe o romantismo meloso da primeira metade da produção, o roteiro retorna para este sentimentalismo nos momentos finais. Qual o problema de um final que não seja feliz?! Sinceramente, não vejo problema nisso. Até considero que a história se torne mais vibrante quando ela não se curva aos apelos da vontade da maioria do público. "... E o Vento Levou" (... Gone with the Wind: 1939) é uma ótima referência neste sentido. "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016), mais recentemente, também foi magnífica em desconstruir as expectativas dos telespectadores ao abusar do pragmatismo e da realidade nua e crua da vida real. Apesar deste pequeno deslize no finalzinho do filme, "Tarde de Mais para Esquecer" é um ótimo longa-metragem para se apreciar. Seus sessenta anos devem ser comemorados com merecimento. Veja o trailer de"Tarde de Mais para Esquecer": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LeoMcCarey

  • Filmes: Estrelas Além do Tempo - Combate à segregação racial e ao sexismo

    "Estrelas Além do Tempo" (Hidden Figures: 2016) é um dos indicados ao Oscar deste ano na categoria melhor filme. Esta produção do diretor nova-iorquino Theodore Melfi, que havia estreado na direção com "Um Santo de Vizinho" (St. Vincent: 2014), conquistou o coração do público norte-americano, tornando-se um dos longas-metragens mais populares de 2017. "Estrelas Além do Tempo" ultrapassou a marca de US$ 100 milhões de bilheteria nos Estados Unidos logo nas primeiras semanas. Aqui no Brasil, o filme foi lançado no começo deste mês. Há quem veja possibilidades desta produção desbancar o favorito "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016) na cerimônia do Oscar, marcada para o último domingo de fevereiro. Realmente, trata-se de um ótimo exemplar de Hollywood, digno de tal honraria. A excelência deste filme é construída por um enredo envolvente, pela temática engajada, pela força de suas personagens principais, pela ótima escolha do elenco e pela trilha sonora sublime. Estrelas Além do Tempo" é baseado em fatos reais que ocorreram durante a década de 1960, auge da Guerra Fria e dos protestos contra a segregação racial nos Estados Unidos. Em 1961, norte-americanos e soviéticos disputavam a supremacia na Corrida Espacial. A União Soviética levava vantagem por ter largado na frente. Eles conseguiram enviar o primeiro foguete para o espaço, o primeiro satélite para a órbita terrestre e o primeiro homem para fora do planeta. Estes feitos mexeram com o brio do governo norte-americano. O presidente John F. Kennedy, então, lançou um plano ousado: chegar à Lua até o final daquela década. Com isso, o orçamento e os trabalhos da Agência Espacial Norte-Americana (NASA) foram incrementados, ao mesmo tempo em que a pressão por resultados se intensificou brutalmente. Chegar primeiro à Lua era questão de vida ou morte para o país. Neste cenário, os diretores e as equipes da NASA precisavam aproveitar os melhores talentos disponíveis para vencer o inimigo comunista nesta nova frente. Entre os funcionários da instituição, havia um grupo de mulheres negras. Elas tinham que ficar em um departamento isolado dos demais funcionários, trabalhando como se fossem integrantes de outra empresa. Os Estados Unidos viviam tempos de segregação racial e os negros precisavam utilizar banheiros próprios, se sentar atrás nos ônibus e não podiam acessar espaços destinados à população branca. Eles eram considerados pela sociedade e pelas leis do país como sendo pessoas de uma classe inferior. Para completar, havia o preconceito contras as mulheres no ambiente de trabalho. O machismo impregnado na cultura da época forçava as damas a ficar em casa ou a se limitar aos serviços secundários nas organizações. Ou seja, ser mulher e ser negra na década de 1960 nos Estados Unidos era lutar contra dois fortes preconceitos. Neste departamento de mulheres negras da NASA, três funcionárias se destacavam. Katherine Johnson (interpretada por Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) são, respectivamente, uma excelente matemática, uma especialista em computadores e uma brilhante engenheira sem diploma. O trio também possui uma longa e sincera amizade, com todas se ajudando mutuamente. Em "Estrelas Além do Tempo", as protagonistas precisam superar os preconceitos da época para brilharem profissionalmente. Em uma NASA desesperada por resultados imediatos e sem poder abrir mão de nenhum talento disponível, as três mulheres negras encontram o terreno necessário para prosperar profissionalmente, apesar de terem de sofrer muito até conquistarem o espaço desejado (e merecido). O primeiro aspecto que chama a atenção neste filme é o elenco de primeira que foi selecionado. Além da cantora Janelle Monáe, temos Kevin Costner, Kirsten Dunst e Jim Parsons, este mais conhecido pelo seu papel na série "The Big Bang Theory". Todos têm uma atuação incrível, principalmente Taraji P. Henson, que rouba a cena em várias oportunidades. O excelente desempenho coletivo dos integrantes de "Estrelas Além do Tempo" foi premiado, no começo deste ano, pelo Sindicato dos Atores da Indústria Audiovisual Norte-Americana (SAG). O filme ganhou o prêmio de melhor elenco concedido pelo sindicato de Hollywood. O filme também se destaca pela ótima reconstituição da época. O longa-metragem consegue mesclar cenas reais daquele período com gravações de hoje feitas com os atores. Com isso, a caracterização dos problemas políticos e sociais da década de 1960 chegam vivos para os expectadores, como se eles estivessem vivenciando aquele momento histórico dos Estados Unidos. Neste sentido, a trilha sonora também merece elogios. Ela consegue mostrar toda a efervescência da Black Music daquele tempo. A força contestadora das letras e o poder das melodias eletrizantes ajudaram a derrubar a segregação racial. A música, ao lado do esporte, foi umas das primeiras áreas em que os negros puderam quebrar o muro do preconceito. Assinada por Pharrell Williams, a coleção de canções amarra-se intrinsecamente à trama do filme (como podemos conferir na magistral cena em que Katherine Johnson fica correndo de uma ala à outra da NASA para ir ao banheiro). Destaque para as faixas "Runnin’" e "I See Victory". Quem não gostar da trilha sonora de "Estrelas Além do Tempo", bom sujeito não deve ser... Não há como não se emocionar com a história de Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson. Mesmo já sabendo como termina esta história (afinal, os Estados Unidos venceram a Corrida Espacial e, recentemente, o presidente Barack Obama prestou uma homenagem para o trio na Casa Branca), é muito legal vibrar com as conquistas de cada uma delas. "La La Land - Cantando Estações" continua sendo o meu favorito (e preferido) ao Oscar de melhor filme. Contudo, se uma surpresa chamada "Estrelas Além do Tempo" acontecer, ficarei feliz. Trata-se também de uma escolha merecida! Veja o trailer deste longa-metragem: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #TheodoreMelfi

  • Livros: Urupês - Jeca Tatu e o início do regionalismo brasileiro

    Monteiro Lobato, nascido em Taubaté-SP, em 1882, sempre foi muito conhecido pelas suas obras voltadas ao público infantil. Impossível não falar do escritor e não se lembrar de Narizinho, Emília, Pedrinho, Dona Benta e Visconde de Sabugosa. Entretanto, o legado do trabalho de Lobato vai além da literatura infantil. O paulista também foi um dos principais autores modernistas, produzindo inúmeros contos, crônicas, artigos e ensaios sobre tipos genuinamente brasileiros e sobre a defesa ideológica de riquezas nacionais como o petróleo e o minério de ferro. Sua obra-prima é o livro de contos "Urupês" (Globo), lançado originalmente em 1918. Esta publicação marcou o início do regionalismo brasileiro ao inserir elementos de caráter local na literatura nacional. Estes contos de Monteiro Lobato, publicados anos antes em jornais e revistas e aqui agrupados em um livro, abordam a vida em cidades do interior de São Paulo na perspectiva do caboclo humilde. O foco de todas as narrativas é o caipira, representado na figura de Jeca Tatu. Com aproximadamente 180 páginas, "Urupês" possui catorze contos. A primeira história, "Os Faroleiros", narra uma briga protagonizada por dois homens que trabalhavam em um farol. Na segunda trama, "O Engraçado Arrependido", um rapaz cômico deseja ser levado a sério pelas pessoas de sua cidade. Em "A Colcha de Retalhos", uma velhinha do interior produz uma colcha para a neta com pedaços de todos os vestidos que a menina utilizou em sua vida. Em "A Vingança da Peroba", conhecemos as brigas de dois vizinhos caboclos e a tragédia que ocorre na família de um deles. A quinta história, "Um Suplício Moderno", é sobre as agruras passadas pelo agente dos Correios durante o expediente pelo interior do país. Em "Meu Conto de Maupassant", um ex-policial comenta as suspeitas de um crime antigo. E em "Pollice Verso", conhecemos um jovem médico que após se formar na capital volta a morar, a contragosto, no interior. A segunda metade do livro começa com o conto "Bucólica". Nele, descobre-se o motivo pela morte de uma menina. "Mata-pau", na sequência, faz uma relação entre a história de um tipo de árvore que mata outra planta e um homem que é assassinado por um semelhante. Em "Bocatorta", uma família entra na mata para ver pessoalmente o sujeito mais feio daquelas bandas. Em "O Comprador de Fazendas", conhecemos uma propriedade rural que leva a falência todos os seus donos. O último proprietário, porém, recebeu a visita de um fino rapaz da cidade muito interessado em comprar aquela fazenda por uma boa quantia. "O Estigma" apresenta a história do matrimônio de Fausto, rapaz formado na cidade. Ele se casa com uma mulher feia e má e vai viver no campo com ela. Em "Velha Praga" e "Urupês", os dois últimos contos, temos o surgimento da figura icônica de Jeca Tatu. Na penúltima história, temos o relato de como os caboclos utilizam indiscriminadamente as queimadas para preparar a terra, provocando danos ambientais e agrícolas. Em "Urupês", o autor narra o estilo de vida preguiçoso e extrativista de Jeca Tatu, o típico caipira do interior do país. O primeiro aspecto que chama a atenção no livro "Urupês" é a linguagem utilizada. Tanto as personagens quanto o autor utilizam-se de palavras, expressões e gírias do interior do estado de São Paulo. Ler os contos é mergulhar na realidade e na oralidade caipira do início do século passado. Por causa disso, às vezes, a compreensão fica um pouco prejudicada para quem não está familiarizado a estes termos. Assim, é recomendável uma leitura atenta. Outro elemento marcante é a visão negativa de Jeca Tatu que Monteiro Lobato faz neste primeiro livro. Jeca Tatu é descrito aqui como um homem preguiçoso, grosseiro, intelectualmente limitado e danoso para a economia e para o meio ambiente do país. Ele vive de extrair da natureza tudo o que precisa, não se preocupando em plantar e criar nada. Praticamente, exaure a terra e o lugar onde vive. Acabado os recursos, o caboclo se muda com a família para uma nova região, onde possa voltar a explorar intensamente. Além disso, Jeca Tatu é explorado politicamente pelos grandes fazendeiros da região. Tendo uma educação precária e sendo um homem desprovido de intelectualidade, o caipira se torna alvo fácil dos donos do poder local. É verdade que ao longo dos anos e com a criação de novos contos sobre Jeca Tatu, Monteiro Lobato foi revertendo esta visão tão negativa do seu principal personagem. Ao final da carreira, o escritor já conseguia narrar elementos positivos do caráter de Jeca Tatu como sua honestidade e seu amor à família. As injustiças sociais e a exploração da mão de obra simples do campo também foram ressaltadas. Jeca Tatu ficaria imortalizado no imaginário popular em 1959, quando Mazzaropi interpretou a personagem em filme escritor e dirigido por Milton Amaral. O longa-metragem foi um sucesso de público e até hoje é lembrado quando alguém faz menção ao caipira típico do interior. "Urupês" é um livro gostoso de ler. É possível lê-lo em "uma batida só", em uma única tarde. Os contos possuem em média dez páginas. As tramas são centradas, principalmente, na complexidade das suas personagens e no cenário rural. Esta é uma ótima opção para quem deseja conhecer a realidade do interior do país durante os primeiros anos do século XX. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MonteiroLobato #Modernismo #Regionalismo #LiteraturaBrasileira #ColetâneadeContos #Drama #LiteraturaClássica

  • Filmes: A Bailarina - A fraca animação franco-canadense

    Fui ao cinema, neste final de semana, para assistir ao filme "A Bailarina" (Ballerina: 2016). Esta animação, fruto da parceria entre França e Canadá, estreou no circuito comercial brasileiro na semana retrasada. O roteiro, a criação da ideia e a direção ficaram a cargo de Eric Summer, francês especializado em séries para a televisão de seu país. Esta foi sua primeira empreitada no cinema e na animação. Summer contou com a ajuda do diretor Eric Warin, um pouco mais experiente no universo cinematográfico. O enredo de "A Bailarina" se passa em 1869. Félicie Milliner mora em um orfanato no interior da França mantido por freiras. A garota órfã sonha em ser uma importante bailarina, apesar de nunca ter frequentado uma escola de dança e não possuir dinheiro para investir nesta carreira. Félicie passa o dia dançando alegremente, imaginando ser possível viver como uma profissional da dança no futuro. A jovem teima em desafiar a realidade sofrida que possui. Certo dia, Félicie é incentivada pelo amigo Victor, um menino também pobre e morador do mesmo orfanato, a fugir para Paris com ele. Na capital francesa, a dupla poderá colocar em prática seus ambiciosos planos: ela entrará na escola mais renomada de ballet e ele se tornará um grande inventor. Depois de conseguirem escapar as duras penas das freiras e do responsável pelo orfanato, Félicie e Victor chegam, enfim, à Paris. Lá, os amigos são separados pelo destino e cada um terá que batalhar pelo seu sonho sozinho. Por um lance de sorte, Félicie consegue entrar na escola de ballet da qual sempre desejou. Ela se passa por uma filha de uma importante dama da sociedade parisiense. Contudo, mais difícil do que entrar, é permanecer naquela conceituada escola. Só há uma única vaga disponível na companhia e ela será ocupada pela bailarina mais competente do grupo de jovens estudantes. Assim, Félicie terá de competir com meninas da sua idade que já fazem ballet há anos. A desvantagem é evidente. A órfã é uma simples iniciante neste tipo de dança, não conhecendo nada do universo das bailarinas, enquanto suas concorrentes são especialistas nesta área. Se você for ao cinema imaginando ver uma produção com o charme de Ratatouille (2007), que também se passa na França, ou da magnitude de "Megamente" (Megamind: 2010), a melhor animação dos últimos anos, você com certeza sairá decepcionado da sessão. "A Bailarina" até possui uma boa fotografia e um ótimo acabamento visual. Em comparação com os estúdios norte-americanos, a animação franco-canadense não deixa nada a desejar no quesito técnico e tecnológico. O problema, curiosamente, está no roteiro bobo, na infantilidade da trama e da falta de carisma da história. Ou seja, esta produção derrapa exatamente nos pontos em que eu acreditava que ela iria tirar de letra. Uma coisa é importante ressaltar: este filme é voltado exclusivamente para o público infantil. Diferentemente da maioria das animações recentes que chegam às telelonas, que focam mais nos adultos, este longa-metragem considera apenas a criançada. Por isso, é óbvio que eu o tenha achado meio bobo e muito infantilizado. As crianças que estavam comigo na sessão gostaram da produção. Mesmo assim, esperava-se mais deste filme, principalmente em relação ao seu roteiro, que em nenhum momento chega a empolgar. O que mais me incomodou no roteiro de "A Bailarina" foi o excesso de clichês e a falta de contundência lógica da narrativa. A temática de superação e obstinação para quem deseja alcançar seus sonhos profissionais é, por si só, um tanto batida. Além disso, a trama exagera o tempo inteiro no êxito dos protagonistas, jogando contra o bom-senso da plateia. Por exemplo, em menos de uma semana treinando ballet, Félicie já consegue rivalizar com suas melhores concorrentes. Até mesmo para as crianças que assistem ao filme, isso parece totalmente impossível! E o que falar da sorte de Victor, o amigo da personagem principal. Em uma noite em Paris, ele já consegue um emprego na oficina do maior inventor da França. Só mesmo um expectador muito inocente e exageradamente otimista para acreditar nestes desenlaces do filme. "A Bailarina" é uma animação que, ao mesmo tempo, não empolga, mas também não frustra totalmente a plateia (principalmente quem estiver acompanhado durante a sessão pelos pequenos). Trata-se de um filme simplesmente regular. Seus maiores pecados são a falta de humor, o roteiro limitado e o desfecho previsível e pouco factível. Seus principais méritos são o excelente acabamento visual e o encanto da França do século XIX, muito bem retratado no longa-metragem. Se o roteiro tivesse sido melhor trabalhado, quem sabe não estaríamos diante de uma boa trama. Uma pena! Veja o trailer: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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  • Passeios: O futebol alternativo da cidade de São Paulo

    A temporada do futebol brasileiro já está para começar. Milhares de torcedores dos quatro cantos do país se preparam para voltar aos estádios e acompanhar suas equipes nas principais competições de 2017. Aqui na cidade de São Paulo não é diferente. A capital paulista é privilegiada por abrigar grandes clubes e estádios. Além de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, os principais times locais, a metrópole ainda é a segunda casa dos Santos, uma das equipes mais tradicionais da história. No sábado mesmo, o clube da Baixada Santista jogou por aqui. Belos e grandes estádios não faltam. A Arena Corinthians é luxuosa e moderna, o Allianz Parque é confortável e glamouroso, o Morumbi é grande e imponente e o Pacaembu é aconchegante e tradicional. Quando falamos em futebol em Sampa, são estes os protagonistas e os principais palcos que as pessoas logo pensam. Contudo, as melhores experiências futebolísticas que podemos encontrar por aqui passam longe deste caminho óbvio. Há na cidade de São Paulo um divertido e prazeroso roteiro que chamo de "Futebol Alternativo". Nele, a paixão dos torcedores parece mais genuína. A amizade e a confraternização esportiva nas arquibancadas vencem as brigas e a violência. As famílias prevalecem frente às gangues organizadas. O interesse de jogadores e torcedores está mais ligado ao aspecto esportivo e menos aos elementos financeiro-comerciais. O clima nos estádios é mais parecido ao da década de 1950 do que ao dos anos 2000. O glamour e a tradição movem uma multidão guiada exclusivamente pela paixão. Os responsáveis por este feito são dois pequenos times de futebol da cidade: o Nacional Atlético Clube e o Clube Atlético Juventus. Acompanhar uma partida destas agremiações em seus estádios é infinitamente mais interessante do que ver os confrontos entre os grandes clubes da capital. Aqui não existe Série A do Campeonato Brasileiro muito menos Libertadores da América. Estamos falando de segunda e terceira divisões estaduais. Infelizmente, muitas pessoas desconhecem estas opções de lazer e entretenimento. Também duvidam de como pode ser divertido torcer por equipes nanicas e ver partidas de baixíssimo nível técnico. Para mim, esta é a essência do verdadeiro futebol. Estou falando sobre esta questão porque neste começo de ano fiz um tour pelo Futebol Alternativo da cidade de São Paulo. Visitei, em janeiro, o Estádio Nicolau Alayon (chamado simplesmente de Rua Comendador Souza), na Barra Funda, e o Estádio Conde Rodolfo Crespi (mais conhecido como Rua Javari), na Mooca. Aproveitei a realização da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017 para ver partidas do Nacional e do Juventus in loco. A seguir vão as minhas descobertas sobre esses clubes e seus incríveis estádios: Nacional Atlético Clube - Estádio Nicolau Alayon (Rua Comendador Souza): O Nacional é o menor time profissional da cidade de São Paulo. Ele está atualmente na terceira divisão do futebol paulista (campeonato conhecido como Série A-3). Sua fundação remonta o ano de 1919. Portanto, é um dos clubes mais tradicionais do estado. Seu estádio tem capacidade para aproximadamente 10 mil torcedores. Na maioria dos lugares, os torcedores ficam de pé e não têm a proteção de uma cobertura superior (ou seja, é tipicamente um estádio da velha guarda). O gramado é cercado pelo bom e velho alambrado. Não há combinação mais interessante para quem ama o futebol do passado. A Rua Comendador Souza não é tão acanhada assim e possui certo conforto (para quem está acostumado, obviamente, com os antigos estádios). Os jogos do Nacional não atraem mais do que quinhentas pessoas em média. Por isso, sobram lugares à disposição do público e tranquilidade para se acompanhar as partidas nas arquibancadas. O clima no estádio não é de fanatismo exacerbado. O time possui uma pequena e tímida torcida. Formada por associados do clube e por velhos admiradores, os torcedores são exigentes e gostam de cornetar tanto a equipe rival quanto os próprios profissionais do seu clube do coração. Não espere, portanto, ver bandeiras, cânticos e grande vibração nas arquibancadas. A partida que assisti foi entre Nacional e Goiás, em uma sexta-feira (6 de janeiro) à tarde (às 14 horas). O público era de aproximadamente 600 pessoas. Pelo horário e considerando que se tratava de um jogo da primeira fase da Copa São Paulo, a presença de torcedores foi muito acima da expectativa. Para os padrões do Nacional, foi um excelente público. O momento alto do jogo aconteceu no segundo tempo quando a arquibancada inteira passou a gritar: "Tira o dez! Tira o dez! Tira o dez!". Os torcedores estavam cansados das jogadas individuais e pouco produtivas do camisa 10 da equipe da casa. Como não sabiam o nome do jogador (lembremo-nos que era uma competição juvenil), o público passou a reclamar com o técnico exigindo a saída do jogador-vilão. A cada jogada errada deste atacante, surgiam mais gritos de "Tira o dez! Tira o dez! Tira o dez!". Aos trinta e cinco minutos, o treinador fez a vontade da massa. Quando o camisa 10 saiu, o estádio explodiu em alegria. Alguns torcedores chegaram a se abraçar ironicamente. Os gritos foram até mesmo superiores ao momento do gol do Nacional. A partida terminou 2 a 1 para o Goiás. Neste dia, percebi que o que move aqueles torcedores não é a glória nem a vitória. E sim o amor genuíno pelo seu pequeno time do coração. Clube Atlético Juventus - Estádio Conde Rodolfo Crespi (Rua Javari) Se assistir a um jogo do Nacional em seu estádio é interessante e calmo, acompanhar uma partida do Juventus na Rua Javari é uma experiência frenética e intensa. O Moleque Travesso, como é conhecido o clube da Mooca, possui uma torcida numerosa (para os padrões dos pequenos clubes) e fanática. Em dia de partida, a impressão que se tem é que o bairro inteiro se mobiliza para ver os jogadores da camisa grená. A fundação do Juventus remonta a década de 1920. Imigrantes italianos do bairro da Mooca foram os responsáveis pela criação deste clube. Como a maioria destes imigrantes torcia para o Juventus e para o Torino, ambas equipes de Turim e rivais históricas na Itália, o grupo estabeleceu: o time brasileiro se chamaria Juventus (para agradar à metade dos fundadores), mas iria ter as cores do Torino (agradando a outra parte). É como se fosse criado um time na Itália chamado Corinthians e ele tivesse as cores verde e branca ou se o novo clube italiano se chamasse Grêmio e fosse vermelho e branco. O clube da Mooca é um dos mais tradicionais do estado de São Paulo, sendo o sexto time com maior número de participações no Campeonato Paulista. Atualmente, o Juventus está na segunda divisão do campeonato estadual (Série A-2). Desde 2008, está distante da elite estadual. Este momento desfavorável, contudo, não diminui o fanatismo dos seus torcedores. A Rua Javari é um típico estádio da década de 1920. Seu charme está em manter as características da sua fundação. Para se ter uma ideia, o lema dos torcedores locais é "Ódio eterno ao futebol moderno". Por isso, nem refletores há (os jogos são exclusivamente diurnos). Ver as partidas em pé, espremido no alambrado e tomando chuva é a diversão da maioria ali. A capacidade total é de aproximadamente 4 mil lugares. O clima animado é puxado pelas torcidas organizadas, que seguem o estilo das barras-bravas argentinas. Elas cantam o jogo inteiro e apoiam sua equipe incondicionalmente. Formadas essencialmente por jovens do bairro, estas torcidas são divertidas e não pregam a violência. Afinal, elas gostam do futebol de antigamente, quando as brigas entre rivais não existiam nas arquibancadas. A mais numerosa delas é a "Setor 2" (antiga "Ju-Metal") que tem este nome por ficar no setor homônimo, atrás de um dos gols. Apesar da animação dos jovens torcedores organizados, a maioria do público é formada por famílias. A arquibanca parece um grande encontro de famílias italianas. O jogo que assisti foi entre Juventus e Figueirense em um domingo (8 de janeiro) à tarde (16 horas). O estádio estava completamente lotado. Entre 3 mil e 4 mil pessoas foram acompanhar a partida que valia o primeiro lugar do grupo (era primeira fase da Copa São Paulo). Fiquei pensando: "Se um jogo de juvenis lota, imagina quando o time profissional joga!". Realmente, a expectativa dos torcedores do Juventus para esta temporada é alta. Pelas conversas que tive com o público, eles esperam ansiosos o início da Série A-2. Afinal, haverá clássicos como Juventus e Portuguesa e Juventus e Guarani, ambos na Rua Javari. Para os juventinos fanáticos, estas partidas são imperdíveis. Muitos souberam dizer até mesmo as datas que elas vão acontecer nesta temporada. Não tenho dúvida que a Javari ficará pequena para estes aguardados confrontos. Ver o jogo espremido entre torcedores apaixonados é divertidíssimo. Quando uma chuva de verão despenca no estádio, a diversão só aumenta. Para escapar da molhadeira e do frio, só mesmo pulando e gritando sem parar. No intervalo, não há como não provar o canolli do Seu Antônio. O difícil é ficar em um só. Infelizmente, o Juventus perdeu por 2 a 0. A derrota não desanimou os torcedores. Eles saíram cantando do estádio, combinando o novo encontro do meio de semana. Este é o espírito do verdadeiro futebol. Ainda bem que ele não morreu na maior cidade do continente. Há ainda oásis de alegria e civilidade. Algo que todas as torcidas deveriam se inspirar. 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