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  • Filmes: Desligando Charleen - O drama de uma adolescente alemã

    "Desligando Charleen" (About a Girl: 2014) é uma comédia-dramática alemã ao estilo de "Juno" (Juno: 2007), longa-metragem norte-americano que ganhou o Oscar de melhor roteiro original em 2008. Assim como seu antecessor, o filme europeu aborda os dramas adolescentes. O foco novamente está em uma menina de quinze anos que tem uma vida e uma família um tanto desajustadas (e assustadoramente comuns). Ao invés da gravidez precoce (temática principal de "Juno"), o enredo gira em torno do suicídio juvenil. O tom da produção alemã é ora trágico, ora cômico. A beleza do filme está exatamente nesta combinação um tanto sarcástica. Escrito e dirigido por Mark Monheim, que até então havia realizado apenas séries de TV e curtas-metragens, "Desligando Charleen" foi apresentado, em 2014, no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Esta é a história de Charleen (interpretada pela talentosa Jasna Fritzi Bauer). A adolescente tem uma vida entediante. Seu pai saiu de casa quando ela ainda era pequena e a mãe (Heike Makatsch) se casou outra vez. O novo marido da mãe (Simon Schwarz) é um professor de biologia. Além de odiar o padrasto, a menina o tem como seu professor na escola, o que evidentemente só piora as coisas para ambos. No colégio, a melhor amiga de Charleen, Isa (Amelie Plaas-Link), é a aluna mais gata do lugar. Enquanto ninguém presta a atenção em Charleen, todos os meninos não desgrudam os olhos de Isa. Os únicos prazeres que Charleen tem são ouvir canções feitas por quem já morreu (Kurt Cobain, Amy Winehouse e Jimi Hendrix são seus ídolos) e tomar chuva no lado de fora da casa. Por isso, um dia, ao voltar do colégio, ela opta por se matar. O suicídio é a única forma de se colocar um ponto-final naquela vidinha sem graça e estranha. No momento de atirar o secador elétrico na banheira em que estava, um descuido da moça faz com que seus planos sejam bruscamente alterados. Levada às pressas ao hospital, Charleen se salva. É aí que começa a fase da menina de buscar um sentido para sua vida. Ela é enviada para se tratar com um psiquiatra. Doutor Frei (Nikolaus Frei) possui um método de trabalho um tanto peculiar e parece, muitas vezes, mais maluco do que seus pacientes. No consultório, a jovem estabelece amizade com um colega de sua escola, Linus (Sandro Lohmann), que também é atendido pelo Dr. Frei. "Desligando Charleen" é um ótimo filme. Ele consegue chocar o expectador ao mesmo tempo em que o emociona e o diverte. A construção das personagens é excelente. Parece que todos ao redor da protagonista possuem problemas e neuras maiores do que os da própria moça. Ou seja, ela é a menos maluca ali. Essa composição das personagens é mérito de Mark Monheim. Antes de ser um bom diretor, Monheim é um excelente escritor/roteirista. Isso fica evidente ao longo de todo o filme. Repare também na excelente trilha sonora do longa-metragem alemão. Em muitos momentos,o sentido mais aflorado é o da audição. Neste aspecto, acabamos nos comportando de maneira parecida à protagonista, que é uma pessoa muito sonora. Esta produção expõe de forma trágico-cômica os dilemas humanos no período da adolescência. Apesar de ter uma vida convencional e sem grandes dificuldades (pelo menos na visão das pessoas mais maduras), a protagonista da trama se considera uma injustiçada, não considerando valer a pena manter sua vida. Para explicar para ela o significado da sua existência, as demais personagens vão se esforçar para convencê-la da importância de não se matar. Porém, Charleen irá descobrir isso sozinha. Pelo aspecto irônico de abordar os dramas juvenis é que me lembrei de "Juno". Este é um excelente filme alemão. É claro que não dá para compará-lo a "Asas do Desejo" (Der Himmel über Berlin: 1987), "Corra, Lola, Corra" (Lola Rennt: 1998), "Adeus, Lenin!" (Good Bye, Lenin!: 2002) e "A Vida dos Outros" (Das Leben der Anderen: 2005), alguns dos clássicos recentes do cinema germânico. Porém, é possível admirar "Desligando Charleen" pela sua simplicidade narrativa e pela sua profundidade temática. Veja o trailer desta produção alemã: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarkMonheim #JasnaFritziBauer

  • Celebrações: Feliz Natal!

    Nesta data tão marcante do calendário, desejo a você, querido(a) leitor(a), um feliz Natal e boas festas. Espero que você e sua família possam compartilhar ótimos momentos. Afinal, independentemente da religião da pessoa, o Natal representa acima de tudo uma época de perpetuação de carinho, bondade, companheirismo e generosidade. O ideal seria que estes elementos estivessem em abundância no nosso cotidiano em todos os dias do ano. Como sabemos que isso não é possível em nossa sociedade, ao menos agora podemos esbanjá-los. Façamos isto com afinco. Feliz Natal! Que Papai Noel seja generoso para você e que você também seja um generoso Papai (ou Mamãe) Noel para muitas pessoas. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #celebração #Natal

  • Livros: O Videogame do Rei - A novela filosófica de Ricardo Silvestrin

    Nesses dias que antecedem o Natal, estava em casa com vontade de ler algo diferente. Meu primeiro pensamento foi ir à livraria mais próxima e comprar uma novidade. Contudo, uma rápida olhadela pela janela envidraçada me fez mudar de planos. A forte chuva que caía lá fora me dizia para ficar em minha residência (confortavelmente e, principalmente, seco). A cidade de São Paulo no verão tem essa particularidade. Sem outra alternativa, rumei, como um alcoólatra atrás de um novo gole, para a estante do meu quarto em busca de algo que não tivesse lido. Não encontrei nenhuma publicação virgem aos meus olhos. Mesmo assim, um livro chamou minha atenção. De alguma forma, imaginei que ele gritasse pedindo um pouco de consideração da minha parte. Justo! Só quem é bibliófilo conseguirá me entender nesse momento esquisito (e, por que não, um tanto constrangedor). “O Videogame do Rei” (Record), novela de Ricardo Silvestrin, é o título em questão. Eu o havia lido há quatro ou cinco anos e, curiosamente, agora não me recordava em nada do seu enredo. Vou logo avisando que isso não é comum. Por quê? A obra seria fraquinha (pouquíssimo marcante) ou eu que a tinha lido sem muita atenção?! Essas dúvidas atiçaram minha curiosidade. E em frações de segundos, eu atendi aos apelos insistentes da escandalosa (e carente) brochura. Enquanto o mundo desabava lá fora, eu estava esticado no sofá da sala com o livro de Silvestrin em mãos. Diferentemente do meu antigo hábito, decidi relê-lo. Por que não lhe dar uma segunda chance, hein? Publicado em 2009, “O Videogame do Rei” é o décimo quarto livro da carreira de escritor de Ricardo Silvestrin. Seu portfólio literário é constituído essencialmente por antologias de poemas, coletâneas de contos e obras infantis. Jornalista gaúcho de 53 anos, Ricardo é colunista do jornal Zero Hora e apresentador do programa “Transmissão de Pensamento” na rádio Ipanema FM. Para completar, ele também é músico, integrando a banda os PoEts (espetacular este nome!). Como escritor, Silvestrin conquistou três vezes o Prêmio Açorianos, concedido anualmente pela Prefeitura de Porto Alegre aos destaques no cenário cultural gaúcho. Nessas oportunidades, ele ganhou a honraria duas vezes como poeta - “Palavra Mágica” (Massao Ohno), em 1995, e "O Menos Vendido" (Nankin), em 2007 -, e uma vez como escritor infantil - “Pequenas Observações Sobre a Vida em Outros Planetas” (Projeto), em 1998. Em outras duas edições, Ricardo levou o Prêmio Açorianos como editor literário (em 2005) e destaque da mídia (em 2008). Nada mau, né? As principais obras literárias de Silvestrin são, até agora, a coletânea de contos “Play” (Record) e o livro de poesia "O Menos Vendido". Ambos receberam muitos elogios da crítica e conquistaram importantes prêmios literários no cenário nacional. Por sua vez, “O Videogame do Rei” é a primeira (e, até este momento, única) investida do autor na narrativa mais longa. Alguns a classificam como romance. Eu a vejo mais como uma novela. O enredo de “O Videogame do Rei” se passa em um futuro próximo em um país não identificado. Nesse lugar, a República foi substituída pela Monarquia há alguns anos. Para escolher o novo mandatário (Rei), o povo foi chamado às urnas. O eleito foi um simples professor de filosofia. Casado com uma socióloga, ele tinha uma visão humanista e plural do mundo. Foi isso o que fez os eleitores escolherem seu nome para governar a nação. Contudo, uma vez no papel de monarca, o antigo professor passou a desenvolver tecnologias que priorizavam o extermínio dos inimigos nas guerras. Era o próprio Rei o encarregado de matar seus adversários por meio de um joystick aplicado ao trono e uma tela que mostrava o que acontecia fora do palácio. Além disso, o governante desenvolveu um sistema que concedia várias vidas para seus súditos. Ele fez isso para que pudesse, através do aperto de um botão, explodir aqueles que cometessem algum erro. Se a pessoa dinamitada tivesse mais vidas à sua disposição, ela regeneraria automaticamente. Caso contrário, morria definitivamente. Ou seja, a nação passou a ser governada como se fosse um grande videogame. Contrária à nova realidade imposta aos cidadãos, a Rainha, que no passado fora uma atuante socióloga, passou a escrever um blog criticando o Rei e, principalmente, os homens por suas posturas bélicas. Mesmo amando muito o marido, ela mostrava-se indignada com as decisões do cônjuge no âmbito político. Em sua visão, um mundo mais feminista era a solução para os principais problemas da humanidade. O blog da Rainha era acompanhado pela maioria das mulheres do reino. A vida no palácio real seguia normalmente até o dia em que a cabeça do Rei teve um curto-circuito. Ele ficou simplesmente paralisado (em um estado vegetativo). Sem saber o que fazer (se os médicos reiniciassem a mente do monarca, ele poderia voltar a viver normalmente, mas também havia a possibilidade de ele morrer), a Rainha convocou os principais cientistas do país. Ninguém era capaz de dar um parecer seguro sobre como resolver o problema da saúde do Rei. Diante dessa indefinição, a Rainha foi obrigada a assumir o poder. A expectativa da nação era o que esta mulher faria ao assumir o trono. Ela, enfim, aplicaria seu ideal feminista e revolucionaria a nação? Como é típico das novelas (elas são narrativas de tamanho mediano), “O Videogame do Rei” possui poucas páginas, 141, e apresenta uma leitura extremamente rápida. É possível concluir esta obra em pouco mais de três horas. Foi o tempo mais ou menos que gastei na última segunda-feira à tarde. Li o livro inteiro em uma batida só. Este livro de Ricardo Silvestrin tem uma proposta interessante: debater a questão da violência humana por meio de uma ficção científica. Não é errado vermos esta obra como uma distopia. O autor enriquece esse debate ao inserir a compulsão (ou seria o hábito) dos jovens pela brincadeira do videogame. Para completar o caldo multitemático, há ainda uma forte discussão sobre as diferenças dos gêneros sexuais e a questão sobre os sistemas políticos. Espetacular (e corajosa) essa mistura de conceitos. Outro ponto que merece elogio é o humor da trama. “O Videogame do Rei” possui um texto leve e bem-humorado. Sivestrin consegue criar uma realidade paralela que mexe com a curiosidade do leitor. Além disso, o cenário inusitado é o que move o conflito para um desfecho dramático. Gostei também da construção das personagens. A história não gira em torno apenas do Rei e da Rainha. Há algumas personagens secundárias no seio do povo, que comentam os acontecimentos no palácio e dão a dimensão humana para as ações dos governantes. Entretanto, uma coisa é a proposta literária do autor e outra, completamente diferente, é sua execução nas páginas do livro. Falo isso porque achei esta novela muito infantilizada. Sabe aquela obra com uma pretensão de soar inteligente e cult, mas que acaba parecendo literatura infanto-juvenil? Pois é mais ou menos assim que “O Videogame do Rei” me pareceu. A maioria dos seus debates soa preconceituosa e pobre intelectualmente. Por mais que seu autor tenha almejado produzir uma narrativa de cunho filosófico e existencialista, ele acabou entregando um texto recheado de clichês e de pouca serventia. A própria discussão entre machismo e feminismo soa tola e reduzida às aparências imediatas. Sinceramente, não gostei nem um pouco desta novela. Comparado aos ótimos trabalhos de Ricardo Silvestrin na poesia, nos contos e na literatura infantil, “O Videogame do Rei” é uma de suas produções mais fracas. É uma pena! Ao recolocar o livro na estante do meu quarto, um pensamento me atingiu como uma flecha. Será que daqui quatro ou cinco anos, eu me lembrarei desta novela? Duvido! Na certa, esquecerei desta trama em alguns meses. Isso prova o quanto ela deixa a desejar. Deve ter sido por causa disso que não recordava nada do que havia lido na primeira leitura. Se o livro fosse bom (e marcante), isso não teria acontecido. Enquanto reflito sobre isso, olho pela janela e descubro que a chuva passou. São Pedro parece que resolveu tirar uma folguinha. Acho que agora já posso ir à livraria. O que irei encontrar de novidade por lá? Em um próximo post comento minhas descobertas. A gente se vê aqui no Bonas Histórias! Até mais! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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  • Livros: A Moreninha - O primeiro romance brasileiro por Joaquim Manuel de Macedo

    Li, no último final de semana, o livro "A Moreninha" (Ática) de Joaquim Manuel de Macedo. Esta obra, lançada inicialmente em folhetins pelos jornais em 1844, representou o primeiro romance genuinamente brasileiro da história. Um ano antes, Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa havia publicado "O Filho do Pescador", apontado também como marco inicial da prosa romântica no país. Porém, os acadêmicos e os críticos literários preferem atribuir à obra de Macedo este pioneirismo. "O Filho do Pescador" é uma história pouco articulada e muito confusa, sem o necessário refinamento que um bom romance necessita. O enredo de "A Moreninha" gira em torno de um grupo de estudantes de medicina do Rio de Janeiro. Filipe, Augusto, Leopoldo e Fabrício são jovens burgueses do século XIX que passam seus dias entre as atividades da faculdade e os flertes com as mocinhas da corte carioca. Um dia, enquanto os amigos conversam animadamente sobre suas conquistas amorosas, Filipe lança um desafio a Augusto. Augusto era tido como um namorador incorrigível (na linguagem feminina dos dias de hoje, "um galinha") e não parecia ser capaz de amar uma mulher por mais de três dias. Assim, ele ficava trocando de namorada como quem troca de roupa. Ciente desta característica do amigo, Filipe faz uma aposta com ele. Se Augusto viajasse com o grupo para a ilha onde a avó de Filipe morava e conhecesse sua irmã e suas primas, ele voltaria perdidamente apaixonado por umas delas. Augusto bate o pé e afirma que jamais se apaixonaria de verdade por alguém. Quem perdesse a aposta precisaria contar aquela história em um romance. Desta maneira, o quarteto de amigos viaja, em um feriado prolongado, para a ilha onde a família de Filipe morava. Lá o grupo passa alguns dias com Dona Ana, a proprietária do lugar e avó de Filipe, sua família (netas) e amigos. Todos os eventos promovidos pelos jovens têm como motivo o flerte entre rapazes e moças. Nestes encontros, Augusto conhece Carolina, irmã caçula de Filipe. Apelidada de Moreninha, Carolina é uma mocinha de quinze anos totalmente endiabrada. Descrita como travessa, inteligente e persistente na obtenção do que deseja, ela não consegue, em um primeiro momento, despertar qualquer sentimento mais nobre no coração de Augusto. O contrário também parece verdadeiro. Contudo, à medida que o estudante de medicina e a menina moradora da ilha passam a conviver mais intensamente naquele feriado, um sentimento especial começa a despertar entre eles. Vendo que corria o risco de se apaixonar pela primeira vez na vida, Augusto revela um segredo de sua adolescência que pode frustrar qualquer tentativa sua de se casar. Aos treze anos de idade, ele prometera se tornar marido de uma menina mais jovem que conhecera em uma viagem com sua família. O problema é que ele não sabia o nome desta moça e jamais a tinha visto depois da promessa de casamento. A partir deste ponto, Augusto irá se dividir entre as lembranças do passado e o sentimento atual por Carolina. "A Moreninha" é um livro rápido e gostoso de ler. Ele tem 140 páginas e é possível lê-lo em duas noites (foi o que fiz). Trata-se daquele tipo de literatura chamada de "água com açúcar", como muitas obras românticas são. Quase toda a trama se passa na ilha e tem como protagonistas os hóspedes da família de Filipe e a própria família do rapaz. Apenas umas poucas cenas (no início e no final do romance) se passam no Rio de Janeiro, onde o grupo de estudantes mora. A linguagem usada por Joaquim Manuel de Macedo é simples, ágil e coloquial. O autor incorpora, em sua narrativa, ditos populares da sua época. Além disso, ele atira o leitor para o centro da ação, em uma construção quase metalinguística. O narrador é onisciente e os diálogos entre as personagens têm um tom quase teatral. Dois recursos interessantes são usados por Macedo em "A Moreninha" para dar mais requinte a história. O autor utiliza-se de flash-back para contar o passado de Augusto. Ele também incorpora ao longo da trama outros gêneros literários como a poesia lírica e a música. Os protagonistas, como são típicos do Romantismo, são personagens planas e há uma clara divisão maniqueísta entre eles. Suas constituições são simples para dar espaço à narrativa das ações. Até mesmo Augusto, que é descrito no início como namorador e pouco afeito às paixões verdadeiras, possui características de herói romântico e não de um anti-herói realista. As personagens secundárias, por sua vez, são representações do quadro social da época. Os estudantes de medicina são transcritos como alegres, boêmios e namoradores. As mocinhas são, por sua vez, fúteis, faladeiras e almejam unicamente um casamento feliz. Além disso, "A Moreninha" tem outros elementos explicitamente românticos: as personagens apaixonam-se loucamente, poucas cenas ou gestos são capazes de despertar os sentimentos mais passionais dos jovens, o sofrimento é a consequência natural do amar (quanto mais se ama, mais se sofre) e os impedimentos para a felicidade dos namorados são gigantescos. Para completar, o final é sempre feliz e perfeito para os protagonistas. Como eu já sabia o desfecho desta trama, obviamente não me surpreendi, mas é possível que muitos leitores possam ficar impressionados com as últimas páginas do livro. Há quem diga que este romance possui elementos autobiográficos. Joaquim Manuel de Macedo formou-se em medicina, mas nunca exerceu a profissão. Teria Augusto ou alguns dos seus colegas do romance traços do escritor? Jamais saberemos. O que é fato consumado é que Macedo preferiu trabalhar como jornalista e depois como romancista após sua graduação. O sucesso imediato de "A Moreninha" ajudou-o nisso. A partir da fama conquistada com seu primeiro romance, ele produziu dezenas de outras obras românticas, com destaque para "O Moço Loiro" de 1845 e "A Luneta Mágica" de 1869. "A Moreninha" é um bom livro romântico. Quem deseja se aventurar pelos costumes da burguesia do século XIX e tem interesse em conhecer os primórdios do romance nacional, na certa irá gostar desta leitura. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JoaquimManueldeMacedo #Romance #Drama #Romantismo #LiteraturaBrasileira #LiteraturaClássica

  • Exposições: Ícones que Marcam - As personagens históricas da propaganda

    O Instituto Cultural ESPM está com uma exposição muito interessante sobre publicidade no Centro Cultural FIESP - Ruth Cardoso. "Ícones que Marcam" apresenta uma faceta importante do trabalho de construção das marcas através da história da propaganda brasileira e internacional. Para mostrar o valor afetivo que as pessoas possuem com os principais anunciantes, dois renomados publicitários, Giacomo Favretto e Evandro Piccino, autores do livro "Ícones que Marcam" (Instituto Cultural ESPM), expõem suas coleções particulares compostas por mais de uma centena de produtos com os símbolos, os mascotes e as personagens das grandes marcas. A maioria destes produtos foi criada para ser usada em ações promocionais que encantaram os consumidores ao longo de várias gerações. Por isso, não se assuste ao se deparar com itens que você tem em casa ou que tinha até pouco tempo atrás. A mostra está dividida em três blocos: Ícones Atuais, Ícones Clássicos e Ícones Internacionais. No primeiro grupo, estão materiais brasileiros do presente como os bonequinhos do "Bahianinho" (assim mesmo, com H) das Casas Bahia, brindes com o "Assolino" da Assolan e peças com a imagem do "Vivinho" da Vivo. Ícones Clássicos é sobre as empresas e os produtos que marcaram as antigas gerações no Brasil. Esta, sem dúvida nenhuma, é a parte mais divertida e emocionante da exposição. Nela, podemos ver (ou melhor, rever) a "Galinha Azul" da Maggi (criação da década de 1970), o "Tigre" da Esso (do final da década de 1950) e o "Tucano" da Varig (também dos anos de 1950). Sinceramente, fiquei surpreso ao ver vários produtos que até pouco tempo eu tinha em casa: uma "Galinha Azul" de brinquedo da Maggi que botava ovo de plástico em miniatura (segundo minha irmã, ela ainda tem esta galinha em sua casa); um miniengradado da Coca-Coca com minigarrafinhas que todo mundo tinha em sua residência na década de 1980; e uma coleção de ursinhos de pelúcia da Parmalat, uma febre das famílias na década de 1990. Na seção Ícones Internacionais, estão os trabalhos realizados fora do Brasil. A maioria destes itens vem dos Estados Unidos, sendo possível encontrar também uma ou outra coisa da Europa. O "Speedy" da Alka-Seltzer (criação da década de 1950) e o "Spuds MacKenzie" da Bud Light (de 1982) são exemplos de produtos promocionais que podemos apreciar nesta parte. Além da presença física destes produtos promocionais, "Ícones que Marcam" também tem a exibição de dezenas de comerciais de televisão antigos. Pelos monitores espalhados pelo subsolo do prédio da FIESP, onde acontece a exposição, o público pode ver ou rever propagandas da "Chiquita Banana" da United Fruit (da década de 1940 nos Estados Unidos), da "Gang" da Bardhal (década de 1980 no Brasil) e do "Menino" dos Cobertores Parahyba (década de 1980). Na saída, é possível folhear o livro de autoria de Favretto e Piccino que conta os principais cases da publicidade nacional e internacional do século XX. No livro, há uma explicação mais detalhada sobre como os símbolos e os personagens publicitários foram criados. Quem tiver curiosidade para saber mais sobre estas criações, há também rápidos documentários sendo transmitidos pelas televisões do local contando esta rica história do Marketing. A proposta do trabalho do Instituto Cultural ESPM e da exposição "Ícones que Marcam" é contribuir para a preservação da história da publicidade e da cultura popular nacional. Afinal, o "Homenzinho Azul" da Cotonetes, o "Papai Noel Vermelho" da Coca-Cola e o "Frango" da Sadia deixam, há muito tempo, de representar apenas suas marcas para se transformarem em ícones culturais do país. "Ícones que Marcam" tem entrada gratuita. A exposição está aberta diariamente das 10h às 20h e está em cartaz desde o dia 17 de novembro no Centro Cultural FIESP da Avenida Paulista. A programação inicial dos organizadores diz que a mostra ficará somente esta semana em cartaz. Por isso, quem tiver interesse de conferi-la se apresse. Vamos torcer para que "Ícones que Marcam" fique mais tempo exposta, assim mais pessoas podem se deliciar com as lembranças do passado da publicidade nacional. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #ESPM #GiacomoFavretto #EvandroPiccino #Exposição #Mostra #Publicidade

  • Músicas: O que Será e Olhos nos Olhos - 40 anos de dois clássicos de Chico Buarque

    O ano de 2016 não foi fácil para Chico Buarque. O músico carioca sofreu por causa da extrema polarização política que o Brasil passou durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A mudança à direita do pensamento nacional levou muitos reacionários a condenarem todos àqueles que pensavam de maneira diferente. Ser de esquerda no país nos dias de hoje não é algo tão bem quisto como já foi. Assim, nos últimos meses, muita gente deixou de falar das obras de Chico Buarque para tratar apenas de sua ideologia. Se há algumas décadas o compositor de olhos azuis era ídolo nacional por combater a ditadura militar com sua voz e suas letras, atualmente ele é visto por uma direita mais radical como inimigo do povo. Nada mais idiota! Não se pode rotular ninguém por sua crença ideológica nem menosprezar seu trabalho artístico por conta de sua convicção política. O respeito pela pluralidade de opiniões e o direito a expressão devem vir antes de qualquer coisa em uma democracia plena. Ciente do seu papel e de sua imagem pública, Chico Buarque manteve uma postura corajosa e coerente à sua história. Diante das perseguições tão implacáveis da mídia, ele não mudou sua opinião, reafirmando sua convicção esquerdista. Este comportamento enfureceu ainda mais os reacionários, que elevaram o tom das críticas ao músico. Na Avenida Paulista, por exemplo, um banner gigante de Chico apareceu pichado nas vésperas da cassação de Dilma pelo Senado. Essa cena seria impensada há alguns anos. Por isso, gostaria de tratar aqui do aniversário de 40 anos de duas obras-primas do compositor carioca. Infelizmente, este assunto ficou esquecido ao longo do complicado e do tumultuado ano de 2016. Em 1976, Chico Buarque compôs "O que Será", ao lado de Milton Nascimento, e "Olhos nos Olhos". As duas canções são apontadas como clássicos da nossa música. A revista Bravo elegeu-as, em 2008, como sendo, respectivamente, a septuagésima quinta e octogésima sétima melhores canções da nossa história. "O que Será" é fruto da parceria musical entre Chico Buarque e Milton Nascimento. A letra polêmica deixou os profissionais dos órgãos de repressão e de censura da ditadura militar com os cabelos em pé. Eles não conseguiam identificar o teor da letra e o mistério por trás da pergunta que se repetia durante a canção. "O que Será" foi criada especialmente para o filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de Bruno Barreto. Para se adequar à narrativa do longa-metragem, ela foi desdobrada em três partes: "Abertura", "À Flor da Pele" e "À Flor da Terra". Cada uma destas partes pode ser executada de forma independente. Assim, elas não são apenas partes de uma grande música como também são versões distintas de uma mesma composição. No filme, a música é cantada por Simone, mas a versão mais celebrada é aquela interpretada pela dupla de compositores no álbum de Chico Buarque chamado "Meus Caros Amigos", de 1993. O que dá charme a esta música é sua letra misteriosa. "O que será" é uma pergunta que permanece não respondida durante toda a canção. "O que será que será/ Que andam suspirando pelas alcovas/ Que andam sussurrando em versos e trovas/ Que andam combinando no breu das tocas/ Que anda na cabeça, anda nas bocas...". A interpretação mais lógica é que se trata do sexo. Contudo, na época da ditadura, os militares procuravam outras significações mais subversivas para o mistério. Veja a letra de "À Flor da Terra", a parte da canção que ficou mais conhecida pelo público: "O que Será - À Flor da Terra" (1976) - Chico Buarque e Milton Nascimento O que será, que será? Que andam suspirando pelas alcovas Que andam sussurrando em versos e trovas Que andam combinando no breu das tocas Que anda nas cabeças, anda nas bocas Que andam acendendo velas nos becos Que estão falando alto pelos botecos E gritam nos mercados que com certeza Está na natureza Será, que será? O que não tem certeza nem nunca terá O que não tem conserto nem nunca terá O que não tem tamanho O que será, que será? Que vive nas ideias desses amantes Que cantam os poetas mais delirantes Que juram os profetas embriagados Que está na romaria dos mutilados Que está na fantasia dos infelizes Que está no dia a dia das meretrizes No plano dos bandidos, dos desvalidos Em todos os sentidos Será, que será? O que não tem decência nem nunca terá O que não tem censura nem nunca terá O que não faz sentido O que será, que será? Que todos os avisos não vão evitar Por que todos os risos vão desafiar Por que todos os sinos irão repicar Por que todos os hinos irão consagrar E todos os meninos vão desembestar E todos os destinos irão se encontrar E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá Olhando aquele inferno vai abençoar O que não tem governo nem nunca terá O que não tem vergonha nem nunca terá O que não tem juízo O que será, que será? Que todos os avisos não vão evitar Por que todos os risos vão desafiar Por que todos os sinos irão repicar Por que todos os hinos irão consagrar E todos os meninos vão desembestar E todos os destinos irão se encontrar E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá Olhando aquele inferno vai abençoar O que não tem governo nem nunca terá O que não tem vergonha nem nunca terá O que não tem juízo Ouça a interpretação de seus autores: No mesmo ano de 1976, Chico Buarque produziu "Olhos nos Olhos". Esta é um das típicas produções buarquianas feitas com o eu lírico feminino. Nesta canção, uma mulher abandonada diz para o antigo amado não voltar, pois agora ela já está "refeita". A vontade de se mostrar feliz é tanta que coloca uma dúvida no ouvinte: ela está sendo sincera ou ainda ama o homem que a abandonou no passado. Esse efeito é produzido pela letra irônica e dúbia. "Olhos nos Olhos" foi imortalizada na voz de Maria Bethânia. A baiana gravou a canção ainda em 1976 em seu álbum "Pássaro Proibido". O sucesso foi retumbante. Veja a letra desta música: "Olhos nos Olhos" (1976) - Chico Buarque Quando você me deixou, meu bem Me disse pra ser feliz e passar bem Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci Mas depois, como era de costume, obedeci Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer Olhos nos olhos, quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais E que venho até remoçando Me pego cantando Sem mais nem porquê E tantas águas rolaram Quantos homens me amaram Bem mais e melhor que você Quando talvez precisar de mim Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim Olhos nos olhos, quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz Ouça a interpretação de Maria Bethânia. O vídeo é da década de 1970: Chico Buarque é um mito. Seu trabalho musical é brilhante, sendo comparável, em minha opinião, apenas ao de Tom Jobim. Por isso, vamos deixá-lo ter suas crenças políticas e aproveitar suas composições. Se você não gostar de visão política de Buarque, apenas não ouça suas opiniões nesta área. Porém, não deixe de ouvir suas músicas. Simples assim! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ChicoBuarque #MiltonNascimento #Simone #MariaBethânia

  • Peças teatrais: Tróilo e Créssida - Shakespeare desconhecido

    A nova superprodução que o Teatro do SESI está exibindo é a peça "Tróilo e Créssida", de William Shakespeare. Curiosamente, este foi um dos poucos (e um dos maiores) fracassos da carreira do dramaturgo inglês. O público não viu com bons olhos esta comédia macabra em 1602, quando ela foi encenada pela primeira vez. Esta má recepção se repetiu ao longo dos anos. Por isso, ainda hoje, é raro alguém desejar produzi-la. Nos séculos XVIII e XIX, a peça permaneceu ignorada e distante dos palcos. Apenas no século XX, ela voltou a ser reapresentada, porém com bastante parcimônia. Não é à toa que "Tróilo e Créssida" seja uma das mais desconhecidas peças de Shakespeare. Para reparar este equívoco histórico, Jô Soares e Maurício Guilherme resolveram adaptá-la. Com direção de Jô Soares e produção de Rodrigo Velloni, "Tróilo e Créssida" está em cartaz no Centro Cultural FIESP - Ruth Cardoso desde outubro. O elenco de 23 atores inclui grandes nomes da dramaturgia nacional: Maria Fernanda Cândido, Adriane Galisteu, Guilherme Sant'anna, Ataíde Arcoverde, Marco Antônio Pâmio e Fernando Pavão. A trama de "Tróilo e Créssida" tem como cenário a Guerra de Tróia, mítica história de Homero que teria ocorrido entre os séculos XIII a.C e XII a.C. Este conflito foi protagonizado por gregos e troianos. Os gregos viajaram até Tróia para tentar recuperar sua rainha Helena (interpretada por Adriane Galisteu). A esposa do rei grego Menelau (Ando Camargo) tinha sido raptada por Páris (Kiko Bertholini), filho do rei troiano. Em uma viagem diplomática à Grécia, Páris se apaixonou pela beleza da rainha grega e não pensou duas vezes, sequestrando-a e levando-a para sua cidade-estado. A perda da esposa deixou Menelau enfurecido. Por isso, ele organizou um grande contingente de soldados e de armamentos das demais cidades gregas e partiu para Tróia para recuperar sua amada, que já estava vivendo nos braços do príncipe rival. A peça de Shakespeare começa quando a guerra já tem sete anos de duração. O conflito parece interminável, desgastando tantos os soldados gregos que estão distantes de casa quanto a corte do palácio de Tróia, que convive com o incômodo dos tiros e das mortes no portão de sua residência. Neste cenário sombrio, o príncipe Tróilo (Ricardo Gelli), irmão de Páris, se apaixona por Créssida (Maria Fernanda Cândido), uma moça dividida entre a razão e a paixão. A união dos jovens é intermediada por Pândaro (Guilherme Sant'anna), o ambicioso tio da moça que também é o narrador da história. Pândaro não possui escrúpulos e aceita entregar a sobrinha para os braços de Tróilo em troca de vantagens e regalias na corte. Contudo, a guerra irá colocar o amor idílico do jovem casal em xeque. Será que a paixão verdadeira entre eles irá sobreviver às maldades e às injustiças da vida bélica daquele momento histórico? "Tróilo e Créssida" é realmente uma comédia-dramática muito sinistra. O tom pesado das intrigas e dos conflitos humanos começa com o cenário. O jogo de luzes e a sombra da iluminação remetem ao cinema noir. Além disso, todas as personagens possuem defeitos que tornam suas personalidades mais próximas dos vilões do que dos mocinhos. A maldade impera o tempo inteiro. Este talvez seja o grande motivo do desconforto da plateia do século XVII para com esta peça shakespeariana. O público não aceitou, naquele momento, uma trama onde a ganância, a maldade, a vaidade e a violência imperassem o tempo inteiro. Até para a plateia dos dias de hoje é difícil digerir uma história tão sombria. Para quebrar este clima tão pesado, há personagens hilárias que fazem os expectadores chorarem de rir. As cenas dos bastidores da guerra são excelentes. Cada um dos lados possui um grande número de guerreiros incompetentes e com a cabeça na lua, fazendo com que o conflito se arraste por anos e anos. O clima de amizade e de companheirismo entre os adversários também rende ótimas risadas. Enquanto acompanhamos as intrigas palacianas em Tróia, podemos constatar as pitorescas preocupações dos soldados em seu dia a dia de trabalho. O texto de Jô Soares e Maurício Guilherme é preciso e contundente. Ele consegue transformar várias passagens simples e corriqueiras em cenas divertidíssimas. Os atores também estão ótimos. A enxurrada de personagens não atrapalha em nenhum momento a compreensão da plateia. Como cada personagem possui características muito marcantes, eles são facilmente reconhecidos no meio da multidão no palco. Destaque para a comicidade de Guilherme Sant'anna, Ataíde Arcoverde e Felipe Palhares e para a dramaticidade de Maria Fernanda Cândido e Ricardo Gelli. As mais de duas horas de peça passam sem que a plateia perceba. O único ponto mais crítico é o desfecho da história. Depois de entreter o público com uma enorme quantidade de cenas engraçadas e, muitas vezes, escrachadas, o conflito bélico chega ao seu clímax, assim como a história de amor entre Tróilo e Créssida. Neste instante, o humor desaparece e o que temos é uma avalanche de pessimismo. Todos os elementos sombrios da trama que estavam sendo represados encontram, enfim, uma desembocadura. Aí a plateia leva um "soco no estômago" (ou seria no coração?). O gosto que o expectador sai do teatro é amargo. Não que a peça seja ruim (pelo contrário, ela é excelente), mas a mensagem final é triste e ameaçadora. Por isso, acredito que "Tróilo e Créssida" tenha sido tão renegada nos palcos do mundo inteiro por tanto tempo. Esta peça está em cartaz de quarta a domingo às 20h30 no Teatro do SESI, no Centro Cultural FIESP - Ruth Cardoso, localizado na Avenida Paulista. Esta temporada irá até o dia 18 de dezembro. Apesar de não haver qualquer informação sobre a extensão de sua programação para 2017, é muito provável que tenhamos uma nova temporada ainda em janeiro. A entrada é gratuita e para retirar os ingressos é preciso chegar no dia do espetáculo com algumas horas de antecedência à bilheteria. Ela abre às 13h. Vale a pena pegar a longa fila. "Tróilo e Créssida" é uma peça inesquecível! Veja o vídeo de divulgação da peça: Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe, então, sua opinião sobre as matérias desta coluna. Para acessar as demais críticas teatrais, clique em Teatro. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #WilliamShakespeare #JôSoares #MaurícioGuilherme #RodrigoVelloni #peçadeteatro #teatro #MariaFernandaCândido #AdrianeGalisteu #GuilhermeSantanna #AtaídeArcoverde #MarcoAntônioPâmio #FernandoPavão

  • Filmes: Boa Noite, Mamãe - O que faltou para ser o melhor terror do ano

    "Boa Noite, Mamãe" (Ich Seh, Ich Seh: 2014) é a produção austríaca de 2014 que chegou aos cinemas do circuito internacional no início deste ano. O filme foi selecionado para ser o candidato do seu país ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016 e recebeu vários prêmios internacionais desde seu lançamento. Considerado por muita gente como o melhor longa-metragem de terror dos últimos anos, "Boa Noite, Mamãe" teve a direção e o roteiro da dupla Veronika Fraz e Severin Fiala. Vi seu trailer no finalzinho de 2015 e fiquei muito ansioso pela sua chegada às telonas. Como não pude vê-lo em sua curta passagem pelos cinemas nacionais no primeiro semestre, o conferi agora. O enredo de "Boa Noite, Mamãe" é sobre o drama familiar em uma isolada residência rural. Entre as bucólicas florestas e plantações de milho da Áustria, há uma mansão onde moram dois irmãos gêmeos de 9 anos de idade, Lukas e Elias (curiosamente, o mesmo nome dos seus atores: Lukas Schwarz e Elias Schwarz). A dupla se diverte brincando livremente pelo lago, pelo campo e dentro da casa. Sem a supervisão de nenhum adulto, as crianças esperam a volta da mãe (interpretada por Susanne Wuest) do hospital. Ela passou recentemente por uma cirurgia plástica no rosto e está para retornar ao lar a qualquer momento. A volta dela acontece. Porém, a alegria inicial dos irmãos se transforma em apreensão. A mãe parece muito mudada. Sua cabeça está sempre coberta por faixas e ela tem várias atitudes estranhas. Elias e Lukas passam a duvidar que aquela mulher sinistra é mesmo sua verdadeira mãe. Por isso, os filhos iniciam uma investigação para compreender o que está acontecendo em sua casa. Esta investigação será levada às últimas consequências pelas crianças, em uma mistura de desespero fanático com crueldade desumana. "Boa Noite, Mamãe" é um bom filme de terror, nada mais do que isso. Esqueça, portanto, aquelas resenhas críticas que o apontam como sendo a grande novidade deste gênero nas últimas décadas. O meu julgamento, talvez, tenha ficado um pouco prejudicado porque o assisti com elevadas expectativas. Isso, sem dúvida nenhuma, acaba influenciando na opinião final. Admito que fiquei muito decepcionado com o que presenciei ao longo dos 100 minutos desta produção. Conclui que se trata meramente de um longa-metragem acima da média. Algo bom, mas muito abaixo da pretensão da crítica mais otimista. Curiosamente, o grande problema deste filme está em seu começo. Geralmente, os filmes de terror têm sérias dificuldades para produzir um bom desfecho. Seus inícios são tradicionalmente bons, mas não conseguem sustentar aquele clima aterrorizante por muito tempo, descambando para uma solução banal ou ridícula - lembremo-nos do recente "Boneco do Mal" (The Boy: 2016). Falo isso porque "Boa Noite, Mamãe" foi desenvolvido para surpreender o expectador em dois momentos. Contudo, na primeira cena do filme, matei a charada que levaria a primeira tensão (não há nada mais frustrante que isso!). Acabei, assim, ficando impressionado apenas com a segunda reviravolta da trama, que acontece no final. Ou seja, o filme começou fraquinho, foi melhorando e chegou a um excelente clímax. O desfecho, além de surpreendente, exige da plateia muito sangue frio para suportar cenas terríveis de torturas física e psicológica. Como descobri o enigma inicial na primeira cena? Fiz isso por que sou um Sherlock Holmes cinematográfico ou possuo uma inteligência acima da média? Não! A experiência adquirida em produções como "O Sexto Sentido" (The Sixth Sense: 1999) e "Os Outros" (The Others: 2001) foi suficiente para elucidar o primeiro mistério da trama. Acredito que quem tenha o mínimo de experiência em filmes de terror, irá chegar rapidamente à mesma conclusão que eu. Ela é um tanto óbvia, preciso informar. Desta maneira, a primeira parte do filme poderia ser mais sutil. Se você não tiver a infelicidade de descobrir antecipadamente parte do segredo do enredo, acredito que possa gostar muito mais de "Boa Noite, Mamãe". Assisti ao filme com minha irmã no final de semana retrasado. Ela não acreditou quando disse em menos de um minuto de filme: "Matei a charada". Como ela insistiu muito para eu contar, desvendei o mistério para ela. Assim, minha irmã também não achou graça na primeira metade do longa-metragem, pois viu as cenas sem a surpresa e o impacto necessários. Desculpe-me, maninha! Da próxima vez, não abro a boca nem sob tortura. A segunda reviravolta do filme, por sua vez, é incrível! Ela ocorre no terço final da produção. A dúvida que as crianças têm sobre a veracidade da identidade da mãe é a mesma que temos, o que aumenta cada vez mais nossa angústia (e das crianças). Ora achamos que a mãe é verdadeira, ora deduzimos que há algo realmente errado com ela. Neste ponto, "Boa Noite Mamãe" ganha em qualidade. A reação dos gêmeos é assustadora. Eles levam suas suspeitas até as últimas consequências, jogando para longe o conceito de amor filial e de fragilidade infantil. A questão que o filme levanta é: o que é mais forte, a relação entre os gêmeos ou deles para com sua mãe? Só não falo mais para não estragar a surpresa. O final é indiscutivelmente incrível (para quem é fã do gênero terror, obviamente). Até agora não sei se o desfecho é alegre ou triste. Eu o considerei sinistramente alegre, enquanto minha irmã o achou tragicamente triste. Esta é a qualidade de uma boa produção cinematográfica: produzir sensações distintas no expectador, dependendo de sua interpretação. Nesta parte final, é bom você estar preparado para cenas fortes e de horror visceral. Não se surpreenda se você precisar virar o rosto da tela em várias oportunidades. Aqui temos um pouco de "Jogos Mortais" (Saw: 2004), "O Albergue" (Hostel: 2005) e "Doce Vingança" (I Spit on Your Grave: 2010). A vantagem de "Boa Noite, Mamãe" sobre seus similares é que aqui não sabemos precisar que sãos os vilões e as vítimas do embate amalucado entre mãe e filhos. A melhor definição que tenho para este filme é: "Boa Noite, Mamãe" é uma mistura de "Sexto Sentido" com "Jogos Mortais". Assim, chego à conclusão que se trata de um filme bom e perturbador. Porém, ele está muito longe de ser o melhor longa-metragem dos últimos anos em sua categoria. Nisso, ele decepciona quem esperava encontrar muitas novidades e uma história verdadeiramente inovadora. Veja o trailer de "Boa Noite, Mamãe": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #VeronikaFraz #SeverinFiala

  • Celebrações: Feliz Aniversário, Bonas Histórias!

    É com imenso orgulho que informo que o Bonas Histórias faz aniversário hoje. O blog completa dois anos de existência. No agora longínquo 1o de dezembro de 2014, comecei a escrever de maneira despretensiosa opiniões literárias e críticas culturais. Não imaginava, naquele instante, que aquela diversão pudesse ganhar uma dimensão maior. Atualmente, o Bonas Histórias possui alguns parceiros fixos e exige da minha parte uma rotina diária de produção de conteúdo. Não é simples publicar quase que diariamente as principais novidades do mundo literário e das artes. Este esforço todo é recompensado com o aumento constante de leitores. O que me deixa mais realizado é ver os inúmeros feedbacks positivos que recebo do público. Ao longo destes dois anos, foram mais de 350 posts publicados (um a cada dois dias) e muitas boas histórias contadas. Neste período, mergulhamos no mundo da literatura, do cinema, das artes cênicas, da música, das artes plásticas, da gastronomia e dos eventos culturais da cidade de São Paulo. Aproveitei também para publicar alguns contos e crônicas próprios. Somente no Desafio Literário, foram 14 escritores analisados e 67 obras detalhadas. São números que me enchem de alegria e de satisfação. Apesar da felicidade pela data marcante, admito que ao invés de olhar para trás, olho para frente. Desejo melhorar ainda mais o conteúdo do blog, além de aumentar seu alcance. Para isto, anuncio aqui a primeira novidade: o Bonas Histórias pode ser lido agora em smartphones e em aparelhos móveis. Desde o final de novembro, o blog está adaptado a este tipo de mídia. Assim, nossos leitores terão mais oportunidades para ler nossos posts durante seu dia a dia atribulado e em constante movimento. As novidades não param por aqui. Desde o mês passado, temos uma página no Facebook. Sua proposta é atualizar mais rapidamente nossos leitores das notícias do blog. Curta nossa página e fique bem informado sobre nosso conteúdo. Além disso, a partir deste mês de dezembro, teremos novas seções. A principal delas é o Talk Show Literário, um fictício programa de televisão em que as principais personagens da literatura brasileira serão entrevistadas por Darico Nobar, uma personagem que criei especialmente para essa série narrativa. O primeiro convidado é Brás Cubas, de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis. A segunda é Gabriela, de "Gabriela, Cravo e Canela" de Jorge Amado. O Talk Show com o protagonista machadiano será apresentado ainda neste mês, enquanto o de Gabriela será apresentado em janeiro. Preparam-se porque novas surpresas estão programadas para os próximos meses. O Blog Bonas Histórias continuará entretendo os amantes da literatura e da cultura por muito tempo ainda. Este é meu sonho e o meu compromisso com todos os que me leem aqui. Feliz Aniversário Blog Bonas Histórias! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do blog no Facebook. #celebração #Aniversário #BonasHistórias

  • Filmes: Melhor é Impossível – 20 anos da comédia-romântica de Nicholson e Hunt

    Assisti, no último sábado, ao filme “Melhor é Impossível” (As Good As It Gets: 1997). Esta comédia-romântica, que no ano que vem completará 20 anos, foi um grande sucesso de público e de crítica na época do seu lançamento. Além da atuação soberba do seu elenco, o que chama a atenção do público é uma coleção interminável de fatores: o roteiro envolvente que valoriza as principais partes da narrativa; as personagens diferentes e complexas que são retratadas ao longo da história; o humor politicamente incorreto que mistura inteligência e sarcasmo; um conflito para lá de original; e um par romântico que se não for o mais estranho do cinema, muito possivelmente é um dos mais esquisitos. Para completar, ainda há um cachorrinho extremamente fofo que amolece qualquer coração mais duro. Pelo trabalho em “Melhor é Impossível”, Jack Nicholson e Helen Hunt, os protagonistas do longa-metragem, ganharam, em 1998, o Oscar e o Globo de Ouro como melhor ator e melhor atriz, respectivamente. Greg Kinnear, como ator coadjuvante, também foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro daquele ano por sua atuação neste filme. A produção também ganhou o Globo de Ouro daquele ano como melhor comédia e foi indicada ao Oscar nas categorias de Roteiro Original, Montagem e Trilha Sonora. Orçado em US$ 50 milhões, “Melhor é Impossível” faturou aproximadamente US$ 150 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 165 milhões no restante do planeta, sendo uma das melhores bilheterias da temporada de 1997/1998. Dirigido, roteirizado e produzido por James L. Brooks, de “Laços de Ternura” (Terms of Endearment: 1983), “Nos Bastidores da Notícia” (Broadcast News: 1987) e “Espanglês” (Spanglish: 2004), “Melhor é Impossível” é até hoje o melhor trabalho do cineasta norte-americano de 76 anos de idade. Curiosamente, foi com James L. Brooks que Jack Nicholson, um dos melhores atores de sua geração, conquistou duas de suas três estatuetas do Oscar (Nicholson trabalhou também em “Laços de Ternura”, o que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante). No caso de Helen Hunt, foi a partir de seu desempenho nesta comédia-romântica de Brooks que as portas do cinema se abriram com mais intensidade para ela. Destaque da televisão ao longo da década de 1990 - a atriz ficou marcada como Jamie Stemple Buchman, a protagonista da série “Louco Por Você” (Mad About You) - Hunt precisou fazer a migração da TV para o cinema, algo nem sempre fácil e lógico para uma estrela dos seriados televisivos. “Melhor é Impossível” se passa em Nova York e acompanha o dia a dia de Melvin Idall (interpretado por Jack Nicholson). Melvin é um escritor best-seller e milionário que vive recluso em seu apartamento. Ele sofre de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e é um homem com muitos preconceitos: racista, homofóbico, machista e antissemita. Para completar, é misantropo, detesta animais e não faz questão nenhuma de esconder seu mau humor e suas grosserias das pessoas com quem interage. Odiando todos ao seu redor (e sendo odiado, por consequência, por todo mundo), Melvin nutre uma especial ojeriza por seu vizinho, Simon Bishop (Greg Kinnear), um pintor homossexual. Simon e Verdell, o cachorrinho de estimação do vizinho gay, são alvos prioritários das maldades e da ira do escritor problemático. A única pessoa que parece aturá-lo é Carol Connelly (Helen Hunt), a competente e paciente garçonete do restaurante que Melvin frequenta diariamente. A rotina de Melvin Idall sofre uma transformação acentuada quando Simon é internado em um hospital após ser espancado em um assalto à sua residência. Sem ninguém para cuidar de Verdell, Melvin é escalado para a missão. E, surpreendentemente, o escritor e o cachorrinho se tornam os melhores amigos. O bichinho acaba amolecendo o coração duro do até então homem ranzinza e intransigente. O problema maior ocorre quando Simon se recupera dos graves ferimentos e volta para casa. Melvin e Verdell, agora inseparáveis, precisarão viver outra vez longe um do outro. Para se aproximar do animalzinho que passou a amar, o escritor terá de fazer amizade com o vizinho até então odiado por ele. Além disso, Carol precisa pedir demissão do restaurante para cuidar do filho doente. Sem ninguém para atendê-lo na hora da refeição (lembremo-nos que Melvin tem TOC e só quer ser atendido pela mesma garçonete), o milionário se prontifica a ajudar no tratamento do filho da moça. Ele faz isso com um único interesse: ter Carol de volta às mesas do restaurante. Sem comer há dias, ele anseia pelo atendimento da garçonete. Contudo, ela vê essa ajuda do escritor como uma investida sexual, o que a deixa furiosa. Sem perceber, os relacionamentos com Simon, Verdell e Carol vão pouco a pouco transformando Melvin Idall. Em algumas semanas, o trio de amigos consegue resultados mais significativos no tratamento das esquizofrenias do escritor do que o antigo psiquiatra de Melvin tinha conseguido em anos. “Melhor é Impossível” é um longa-metragem realmente muito bom. Na primeira metade, o que predomina é a comédia. As esquisitices e os preconceitos do protagonista são apresentados de maneira bem divertida, levando a plateia ao riso fácil. Na segunda metade do filme, o tom predominante é o dramático. Aí, o filme se torna um pouco mais lento e pesado, com os conflitos pessoais das personagens principais ganhando acentuado destaque. Por melhor que seja a narrativa e a construção das personagens (leia-se: o roteiro do filme é espetacular!), não é possível elogiar esta produção sem citar a atuação primoroso do trio Jack Nicholson, Helen Hunt e Greg Kinnear. Se você acha que o melhor trabalho de Nicholson foi como Jack Torrance, em “O Iluminado” (The Shining: 1980), ou como Randle Patrick McMurphy, em “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo's Nest: 1975), você precisa assistir a “Melhor é Impossível”. Parece que este ator nasceu para interpretar personagens transloucados. Além do ótimo roteiro, que consegue mostrar ao espectador o drama e a complexidade das pessoas retratadas de maneira objetiva e ao mesmo tempo sutil, e da premiada atuação dos atores principais, a direção de James L. Brooks é excelente. Tudo neste filme (trilha sonora, figurino, cenário, fotografia) parece se encaixar como uma luva na proposta da história. Algo que talvez possa incomodar os adeptos atuais do politicamente correto (algo inexistente ou pouco praticado na década de 1990) é a avalanche de preconceitos que o protagonista nutre. No contexto do filme, não achei nada ofensivo ou que fuja do retrato de uma triste realidade (pessoas preconceituosas, infelizmente, sempre existiram, existem e existirão). O cinema apenas mostra isso. Mesmo assim, acho difícil que um roteiro como este fosse aprovado nos dias de hoje. Para mim, o principal problema de “Melhor é Impossível” (entre os vários pontos elogiáveis da trama) é a quebra de ritmo entre a primeira e a segunda parte. Quem assiste ao longa-metragem esperando ver uma comédia-romântica pode se sentir frustrado na metade final, quando o que vemos é um drama psicológico tenso e profundo. A comédia, nesse momento, acaba ficando em último plano. Quem gostou de Verdell também sentirá a ausência do cachorrinho na maioria das cenas da segunda parte do filme. Outro ponto controverso é a aproximação romântica de Melvin e Carol. O que o velho escritor viu na moça é compreensível, mas ainda não entendi como ela pôde se apaixonar por um homem tão repugnante como ele. A carência afetiva que ela sofria era tão grande assim? Ou ela viu algo nele que estava escondido na personalidade bruta dele? Teria sido a ajuda ao filho dela um fator decisivo para a criação de uma maior afeição por parte dela? Sei que essa discussão é longa e poderá não ter fim nunca. Independentemente das razões de Carol (isto é, se a paixão tem lá alguma lógica), o fato é que este é um dos casais mais estranhos do cinema. “Melhor é Impossível” é um ótimo filme. Passados quase que vinte anos de seu lançamento, ele continua atual e emocionante. Quem é cinéfilo e gosta de conhecer os grandes sucessos do passado, esta é uma boa pedida. Veja o trailer de “Melhor é Impossível”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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  • Livros: Por que Ler os Clássicos - A literatura por Italo Calvino

    "Por que Ler os Clássicos" (Companhia de Bolso) é uma obra diferente das que li até aqui de Italo Calvino neste Desafio Literário - "Cidades Invisíveis" (Companhia das Letras), "Se um Viajante numa Noite de Inverno" (Planeta DiAgostini), "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia de Bolso) e "Palomar" (Companhia das Letras). Ao invés de ser um livro ficcional, esta é uma publicação que analisa minuciosamente alguns dos clássicos da literatura mundial e italiana. Ao longo dos capítulos, Calvino conversa com o leitor sobre aspectos da vida de importantes escritores, características das suas principais obras e elementos de suas literaturas. "Por que Ler os Clássicos" é uma coleção de artigos e ensaios publicada pelo autor entre 1954 e 1985 nos mais diversos meios. A maioria é composta por crônicas veiculadas pelo "La Repubblica", jornal onde Calvino trabalhou como colunista na década de 1980. Muitos textos foram extraídos diretamente de prefácios produzidos pelo jornalista-escritor para edições italianas destas obras. "Por que Ler os Clássicos" foi publicado pela primeira vez na Itália, em 1991. Ou seja, trata-se de uma obra póstuma. Italo Calvino faleceu em 1985. O livro demorou alguns anos até ser traduzido para o português e ser editado no Brasil. O primeiro capítulo deste livro é espetacular. Chamado de "Por que Ler os Clássicos" (o nome do livro foi extraído deste ensaio publicado originalmente no jornal "L'Espresso"), Calvino debate dois assuntos: o que é uma obra clássica e por que lê-la? Li este texto pela primeira vez na Faculdade de Letras e agora reli com muito prazer. O autor explica seu ponto de vista como se conversasse com o escritor. Para definir o que é um livro clássico, ele vai expondo pouco a pouco seus conceitos. Assim, ele chega a incrível marca de 14 definições possíveis para o termo. Qual é a correta? Todas! Para encerrar, ele convence o leitor da importância de se ler os clássicos. Como faz isso? Sendo bem-humorado e objetivo. Sua justificativa é engraçadíssima e matadora (só não revelo para não perder a graça do texto). Em cada um dos demais 36 capítulos da publicação, Calvino trata de um escritor diferente e de uma grande obra deste autor. Raramente, um mesmo autor ganha mais do que um capítulo. Assim, percorremos boa parte da literatura mundial e europeia. Vamos de Odisseia de Homero a Ficções de Jorge Luis Borges, passando por Cervantes, Proust, Balzac, Dickens, Flaubert, Tolstoi, Conrad, Twain e Hemingway. Obviamente, irá apreciar mais este livro que já leu os principais clássicos. Afinal, é um tanto difícil ler uma análise sobre algo completamente desconhecido. Quem ainda não leu as principais obras literárias, aconselho a primeiro lê-las para depois se aventurar neste livro de Calvino. Para quem já leu a maioria dos clássicos, o autor de "Por que Ler os Clássicos" consegue ser cativante. Calvino fala dos autores e dos livros mais famosos como se conversasse com alguém no bar sobre este assunto. Este é o aspecto mais legal do livro. O tema é fácil e natural para Calvino. O italiano é capaz de variar suas análises ora abordando a vida pessoal do autor, ora falando sobre as características da obra e ora tratando de pontos do enredo e das personagens das tramas. Trata-se de uma aula de excelente qualidade sobre Literatura. Um aspecto que ajuda muito o leitor é que os autores analisados e suas obras estão descritas em ordem cronológica. Assim, começamos com o grego Homero (Ilíada e Odisseia) e com o poeta latino Ovídio (Metamorfoses) até chegarmos aos escritores mais contemporâneos. O principal ponto negativo de "Por que Ler os Clássicos" está na grande quantidade de poetas e escritores italianos escolhidos por Calvino. Este grupo, infelizmente, é desconhecido da maioria dos leitores brasileiros. Neste momento, a leitura fica um pouco enfadonha porque simplesmente desconhecemos estes escritores e suas obras. Por outro lado, temos poucos escritores de outras partes do mundo. Há o persa Nezami (do medieval "As Sete Princesas"), os norte-americanos Hemingway e Twain e o argentino Borges, porém faltam outros grandes nomes da literatura mundial. Contudo, não podemos culpar Italo Calvino por estes deslizes. Lembremo-nos que "Por que Ler os Clássicos" não foi um livro produzido pelo seu autor e sim editado a partir de uma compilação de ensaios e artigos produzidos depois que o italiano estava morto. Ou seja, Calvino não produziu estes textos de maneira planejada para virar um livro. No geral, "Por que Ler os Clássicos" é um livro excelente. Esta é sem dúvida nenhuma uma das melhores obras sobre Literatura que li em minha vida (isto é, se não for a melhor). De maneira coloquial e despretensiosa, Italo Calvino consegue entreter e ensinar o leitor como poucos. Isto prova que além de um grande escritor, ele possuía domínio completo sobre sua profissão. Mais do que um grande autor ficcional, Calvino amava e conhecia profundamente as engrenagens da Literatura. Para finalizar o Desafio Literário de novembro, irei postar a análise literária completa da literatura de Italo Calvino na próxima terça-feira, dia 29. Não perca o último capítulo deste estudo feito pelo Blog Bonas Histórias. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ItaloCalvino #Ensaios #LiteraturaItaliana #LiteraturaClássica

  • Músicas: Como Nossos Pais - 40 anos do grande sucesso de Belchior

    No mês passado, a edição brasileira da revista Rolling Stone produziu uma matéria interessante sobre Belchior, um dos mais polêmicos e misteriosos compositores nacionais. O jornalista Paulo Cavalcanti conseguiu montar um belo retrato deste músico cearense que ficou em evidência durante as décadas de 1970 e 1980 e está sumido há mais de uma década. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, nascido no Ceará em 1946, ficou nacionalmente conhecido quando Elis Regina gravou "Como Nossos Pais". A canção de autoria de Belchior entraria para a história como uma das grandes músicas brasileiras de todos os tempos. A versão na voz de Elis é a melhor, mas há uma conhecida versão feita na própria voz do compositor que também é muito boa. "Como Nossos Pais" abre o disco "Falso Brilhante" de Elis, de 1976. O sucesso do LP e da canção colocou em evidência o até então desconhecido músico cearense. Nesta época, Belchior, que vivia há dez anos no Rio de Janeiro, passava por sérios problemas financeiros. Ele tinha trinta anos de idade e seu primeiro álbum, lançado em 1971, havia sido um fiasco. A carreira de compositor e músico estava em perigo antes mesmo de ter engrenado. Belchior foi até a casa de Elis, sem um tostão no bolso, para apresentar pessoalmente "Como Nossos Pais" à cantora. Ao ouvir a canção pela primeira vez, Elis percebeu o potencial bombástico daquela produção. A letra que falava em tom de deboche da letargia da geração que não fazia nada para mudar o panorama da vida encantou a geniosa cantora. O célebre trecho "Minha dor é perceber/Que apesar de termos/Feito tudo o que fizemos/ Ainda somos os mesmos/E vivemos/ Como nossos pais" ganhou ainda mais força dramática na incrível interpretação de Elis. Não foi à toa que a canção foi colocada logo na abertura de "Falso Brilhante". Veja a letra inteira da canção que completa neste ano 40 anos de vida. "Como Nossos Pais" (1976 ) - Belchior: Não quero lhe falar, meu grande amor De coisas que aprendi nos discos Quero lhe contar como eu vivi E tudo o que aconteceu comigo Viver é melhor que sonhar E eu sei que o amor é uma coisa boa Mas também sei Que qualquer canto é menor do que a vida De qualquer pessoa Por isso cuidado, meu bem Há perigo na esquina Eles venceram e o sinal Está fechado pra nós Que somos jovens... Para abraçar seu irmão E beijar sua menina, na rua É que se fez o seu braço, O seu lábio e a sua voz... Você me pergunta pela minha paixão Digo que estou encantada como uma nova invenção Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração... Já faz tempo eu vi você na rua Cabelo ao vento, gente jovem reunida Na parede da memória esta lembrança É o quadro que dói mais... Minha dor é perceber Que apesar de termos feito tudo o que fizemos Ainda somos os mesmos e vivemos Ainda somos os mesmos e vivemos Como os nossos pais... Nossos ídolos ainda são os mesmos E as aparências não enganam não Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém Você pode até dizer que eu tô por fora Ou então que eu tô inventando... Mas é você que ama o passado e que não vê É você que ama o passado e que não vê Que o novo sempre vem... Hoje eu sei que quem me deu a ideia De uma nova consciência e juventude Tá em casa, guardado por Deus Contando vil metal... Minha dor é perceber que apesar de termos Feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos Nós ainda somos os mesmos e vivemos Ainda somos os mesmos e vivemos Ainda somos os mesmos e vivemos Como os nossos pais... O sucesso de "Como Nossos Pais" foi instantâneo. Rapidamente, Belchior passou a ser cortejado por outros intérpretes e por gravadoras interessadas em seu repertório. Ainda no ano de 1976, Belchior lançou seu segundo disco, chamado de "Alucinação". Com "Apenas um Rapaz Latino-americano", "A Palo Seco", "Velha Roupa Colorida" e "Como Nossos Pais", o álbum foi um sucesso. Em apenas um mês, foram vendidos mais de 30 mil cópias. Estava iniciada a fase dourado do cantor, que se estenderia pela década seguinte. Porém, o jeito introspectivo e antissocial do músico, o afastou da mídia. Nos últimos dez anos, Belchior está desaparecido tanto da mídia quanto da própria família. Seu paradeiro é totalmente desconhecido. Neste cenário de mistério, Belchior completou, em 2016, 70 anos de vida e sua obra-prima chegou à marca de 40 anos de idade. Confira este clássico da nossa música na voz inesquecível de Elis Regina. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Belchior #ElisRegina

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