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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Crônicas: Tempos Portenhos – Episódio 8 – A Montanha-russa da Economia Argentina

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • 9 de mar.
  • 36 min de leitura

No novo capítulo da série não ficcional sobre como é morar em Buenos Aires, discutiremos os altos e baixos da economia da Argentina. Dependendo da taxa de câmbio e dos ventos políticos soprados da Casa Rosada, o país hermano pode se tornar o paraíso ou o inferno para turistas e migrantes brasileiros.


A Montanha-russa da Economia Argentina é o oitavo episódio de Tempos Portenhos, coletânea de crônicas de Ricardo Bonacorci sobre a rotina de um brasileiro que mora em Buenos Aires. Neste novo texto da série não ficcional do Bonas Histórias, conhecemos os altos e baixos da realidade econômica da Argentina

Muitas vezes, sou chamado de romântico por amigos, familiares e colegas. Nas primeiras oportunidades, juro que me indignava com tal comentário, que me soava como o absurdo do absurdo do absurdo. Como assim um “coração peludo”, como eu, ser romântico, hein?! Aí me explicaram que não se referiam à perspectiva sentimental do termo. Eu era romântico por ver beleza em tudo, acreditar nas pessoas, ser idealista, seguir minha rotina independentemente da opinião alheia, só trabalhar com o que verdadeiramente me encanta/motiva, não me preocupar em agradar aos outros e, principalmente, não ligar para dinheiro. Em outras palavras, sou um completo e gigantesco otário!


NÃO LIGAR PARA DINHEIRO, RICARDO?! Não acredito no que estou lendo. Então a sua burrice chega a esse ponto?! Sim, queridos leitores do Bonas Histórias. Vocês acabaram de descobrir meu maior defeito. Segundo o DataRicardinho (DR), 80% das brigas e reclamações direcionadas a minha pessoa têm como causas aspectos relacionados diretamente ao meu desapego financeiro. Numa sociedade capitalista onde me vejo cercado por gente materialista, sou daqueles que vivem felizes na pobreza constante e crônica. Quanto menos reais (dólares, pesos argentinos, guaranis, euros...) tenho na carteira, parece que mais satisfeito com a vida me sinto. Fazer o quê? Infelizmente, é algo da minha personalidade desde pequenucho e que não deverá mudar nunca – nem mesmo bruxinhas e bruxarias vão alterar minha essência torta.


Não é preciso dizer que esse jeitão pra lá de alternativo (use o adjetivo que quiser: transloucado, exótico, franciscano, espartano, estúpido, masoquista e/ou abnegado) já causou muitos problemas para mim, principalmente de relacionamento. Por algum motivo que não sei explicar qual, teve uma época que só apareciam mulheres, digamos, ambiciosas diante do meu impávido e humilde coraçãozinho. Para elas, eu sempre virava, quando a grana acabava de vez, o cara acomodado, inconsequente, leviano, egoísta e hedonista. A partir daí, não aceitavam estar ao lado de alguém que se recusava a viver obstinadamente atrás do dinheiro, desprezava roupas caras, não dirigia carro e não enxergava graça em certos luxos rotineiros das classes mais abastadas, como refeições fora de casa, viagens ao exterior e decorações extravagantes para o lar.


A trilha sonora que ilustra muitíssimo bem meu estilo de vida é a canção “No Me Importa El Dinero”, dos Los Autenticos Decadentes. No caso, a versão masculina do eu lírico deste clássico do Rock Nacional se encaixa perfeitamente na minha rotina dos últimos 20 anos. Se acrescentarmos “La Vida Es Un Carnaval”, da cubana Celia Cruz, aí sim o cenário musical que me caracteriza fica completo.


Vamos combinar que num mundo sem maniqueísmo, não há lado certo ou lado errado nesse embate delicadíssimo. Cada um vive como quer, contanto que não prejudique quem esteja à sua volta, né? É uma regrinha básica e até lógica de qualquer tipo de relacionamento humano. Uma vez entendida essa linha filosófica (e que água e óleo jamais se misturarão por mais que tentemos uni-los), segui em frente de forma mais genuína, sabendo exatamente com quem poderia ter ao meu lado e quem deveria descartar sem culpa. Se parece horrível conviver com um pobretão, saiba que, por outro lado, também é bastante incômodo partilhar o cotidiano com almas mesquinhas, interesseiras e mercenárias.    


Por que estou relatando essa particularidade nada edificante do meu ser nas primeiras linhas deste novo post de “Tempos Portenhos”, hein? Porque, enfim, chegamos ao capítulo da coletânea de narrativas não ficcionais de como é para um brasileiro viver em Buenos Aires que trata do dinheiro. É isso mesmo, senhoras e senhores, o que vocês leram. Nosso assunto de hoje é o dindim, a bufunfa, o arame, o cascalho, a grana, o money, a prata, o tostão, o tutu, a pila, o mango, o bago... Acho que já deu para entender, né? No caso, o olhar deste texto é para a sempre delicada e caótica situação financeira da Argentina, o país que mais amo e que escolhi para viver.


Tenho certeza de que tal tema é fundamental para quem pretende visitar em breve a terra de Maradona, Evita, Gardel, Mercedes Sosa, Bergoglio, Sabatina e Guevara. Ou mesmo para quem deseja morar em suas principais cidades por algum tempo. Sei que há muitos estudantes de Medicina que atravessam a fronteira para adquirir o sonhado diploma de doutor. Independentemente de sermos mais abnegados ou mais ambiciosos, sem o mínimo de recursos monetários, ninguém consegue viver com qualidade, não é mesmo?! Daí a relevância desse debate para turistas e imigrantes brasileiros que não desejam padecer de carências financeiras no exterior.


Já adianto que meu olhar para a realidade financeira local não será o de um economista, tampouco o de um profissional das finanças macroeconômicas. Sou um simples escritor ficcional que se aventurará a descrever de maneira informal e totalmente leiga o que vivenciei na prática nos últimos três anos. Ou seja, o enfoque aqui será de um cidadão comum – diria muuuuuuuuuito comum. A partir da experiência de residir em CABA (Ciudad Autónoma de Buenos Aires) desde 2023, sinto que tenho o que compartilhar com os leitores que pretendem fazer o mesmo. Afinal, parodiando Tom Jobim, a Economia Argentina não é para amadores. Se tem um país bagunçado – e põe bagunçado nisso! – em nosso continente no que se refere à administração do capital e da moeda, convenhamos, essa nação é aquela à margem austral do Rio da Prata. 


Para quem chegou agora a esta seção ou acabou de conhecer o blog, aviso (logo depois de dar as boas-vindas – Sejam bem-vindos!!!) que a coluna Contos e Crônicas apresenta entre janeiro de 2024 e novembro de 2026 as diferenças culturais, as surpresas e os prazeres de se morar em Mi Buenos Aires Querido. E como sou um romântico (já me convenci disso, tá?), coloquei o aspecto financeiro no fim da lista de preocupações do imigrante brasileiro que se aventura pela metrópole argentina, chamada carinhosamente de BsAs ou Baires por seus habitantes. Está bem, está bem... Usar a expressão “final da lista” é um tanto exagerado. Até porque ainda faltam mais quatro narrativas para concluirmos a série “Tempos Portenhos”. Talvez o correto seria dizer que estamos mais ou menos no meio da nossa viagem pelos encantos e desafios de se morar em Buenos Aires.


Até aqui, já debatemos: o nível de segurança de se percorrer as ruas de CABA no Episódio 1 – Distopia Paulistana (ou Carioca); a paixão portenha pelos parques e pelas áreas externas no Episódio 2 – Vida ao Ar Livre; a alegria dos cachorrinhos em seus passeios pela cidade no Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes; as dificuldades e os tropeços idiomáticos mais comuns do portunhol no Episódio 4 – O Espanhol Argentino; as particularidades e as delícias da gastronomia local no Episódio 5 – Sentando-se à Mesa com os Argentinos; o colorido e a riqueza do futebol tricampeão mundial no Episódio 6 – La Verdadera Cancha del Fútbol; e a efervescência da capital artística de Baires no Episódio 7 – A Capital Cultural da América do Sul.


Na programação de “Tempos Portenhos”, ainda vamos debater: as diferenças entre as principais regiões de Buenos Aires no Episódio 9 – Passeio pelos Bairros de CABA (post previsto para maio de 2026); o panorama de como é se relacionar afetivamente na maior cidade da Argentina no Episódio 10 – Amores e Desamores na Capital Argentina (publicação de julho); retrospectiva melódica de meu período em terras portenhas no Episódio 11 – Álbum Musical da Vida em Buenos Aires (conteúdo que sairá em setembro); e resumo/fechamento desta temporada da coluna Contos & Crônicas em Conclusão – Meu Lugar no Mundo (post de novembro deste ano).


Feita essa introdução longa, mas sempre necessária (pelo menos para os algoritmos do SEO), quero que todos se preparem para o Episódio 8 – A Montanha-russa da Economia Argentina, o conteúdo mais recente do Bonas Histórias. Nesse novíssimo capítulo de “Tempos Portenhos”, vamos descobrir como é viver em CABA pela perspectiva financeira. Boa viagem a todos pelas belíssimas paisagens da metrópole argentina.


Na crônica A Montanha-russa da Economia Argentina, o oitavo texto da série não ficcional Tempos Portenhos, Ricardo Bonacorci detalha os desafios de viver em Buenos Aires em meio ao caos econômico de um país com elevada inflação e câmbio valorizado

1) ¡Es un quilombo! – A Argentina é um país imprevisível


A primeira lição financeira que apreendi ao morar em Buenos Aires foi que a economia local é imprevisível (assim como o amor e o céu em São Paulo, conforme descrito com brilhantismo pela canção “Lá Eu Vou”). Quem me contou essa particularidade do meu novo país foi Soledad, a proprietária do apartamento que aluguei em Saavedra em meados de 2023 – e que moraria nos dois anos e meio seguintes. No dia da assinatura do aluguel (alquiler, em espanhol), conversávamos animadamente sobre vários aspectos da vida na Argentina e no Brasil. Já no primeiro contato, adorei Soledad, que mais do que uma simples locadora se transformou em uma amiga querida. ¡Besos, Sole y familia!


Foi nessa prosa inicial que ela, uma portenha na faixa dos 30 anos, disse algo que traduzi mais ou menos assim com o meu espanhol até então cambaleante: “Ricardo, já que você quer morar na Argentina por muito tempo, se prepare! Porque nossa economia é imprevisível. Tudo muda rapidamente, na maioria das vezes para pior. O que vale hoje pode não valer amanhã”. Em seguida, lançou um termo que ouviria muuuito em tierras hermanas: “¡Acá es un quilombo!”. Diferentemente do português brasileiro, a palavra “quilombo” significa, no castellano rioplatense, “confusão”, “bagunça”, “caos”.


Confesso que por mais que imaginasse a situação anárquica do país que escolhera para viver (só estava há quatro semanas em Baires, pois, no primeiro mês, fiquei num Airbnb em Núñez), não tinha, naquele momento, a noção exata do nível de quilombo a que Soledad se referia. O que parecia bagunçado num primeiro instante, se tornaria mensalmente mais e mais bagunçado. ¿Quilombo? En la verdade: re quilombo. Mal sabia o quão proféticas eram aquelas palavras da proprietária do apê em Saavedra. Tudo muda rapidamente, na maioria das vezes para pior. ¡Bienvenidos a Argentina, damas y caballeros!


Porém, o que chamo de imprevisível e bagunçado, hein? Em cerca de 30 meses, vi surgirem três novas cédulas de dinheiro: de 2 mil, 10 mil e 50 mil pesos argentinos. Tive que comprar dólares de várias formas (o aluguel se paga em moeda norte-americana), pois o governo, no meio da eleição presidencial de 2023, proibiu os estrangeiros de adquirirem as verdinhas nas cuevas, as casas de câmbio. Como até então não tinha conseguido o DNI, o Documento Nacional de Identidad Argentino, era considerado um turista. Também assisti à proliferação de taxas de câmbio, uma mais bizarra do que a outra. Curiosamente, a que usava na prática era a do mercado paralelo (Cambio Blue). A oficial, ninguém utilizava. País sério é país sério, né?


Além do mais, vi surgirem (e morrerem) várias leis econômicas pitorescas: duas ou três regras específicas para aluguel; algumas mudanças na movimentação de dinheiro nas contas correntes de pessoas e empresas; alterações frequentes no fluxo de capitais internacionais (o que era proibido ontem, no dia seguinte já era estimulado pelo governo); as compras e vendas de dólares dependiam dos humores do Ministro da Economia; entre tantas outras excentricidades. Isso porque estou falando apenas do universo econômico, tá? Se fosse incluir em minha lista as idas e vindas da legislação argentina de maneira geral, acho que morreria teclando esse texto.


A maior transformação no país ocorreu quando completei seis meses em CABA. Em outubro de 2023, Javier Milei venceu as eleições presidenciais. Ele derrotou o peronista Sergio Massa, então ministro da Economia de Alberto Fernández. Para se ter uma ideia do nível de impopularidade de Fernández, o mandatário sequer cogitou concorrer à reeleição. Dizem as más línguas que nem em casa ele era bem-quisto, conforme provou mais tarde o boletim policial de violência doméstica da primeira-dama. Vocês acham a política brasileira surpreendente e fétida?! Pois precisam conhecer os detalhes nada tranquilos e pouquíssimos perfumosos da política argentina.


Com a vitória do anarcocapitalista, acompanhamos, aí sim, mudanças e mais mudanças estruturais. O que antes eram trepidações pontuais na sociedade argentina se configuraram, a partir de 2024, em bruscas movimentações das placas tectônicas da economia nacional. Não à toa, divido minha vida em Buenos Aires em dois períodos bem distintos: na época dos peronistas e na época de Milei. Se no primeiro momento aproveitei o câmbio extremamente favorável do real para viver como rico (tá bem, como classe média), no segundo sofri com a fortíssima valorização do peso argentino e passei a viver como um pobretão (aí não há eufemismo).


Para ficar mais clara tal divisão, preferi produzir dois subtópicos que enfocassem, cada um, uma das etapas econômicas recentes da Argentina. Em “Fase Peronista – Há três anos, morar na capital argentina era muuuuito barato”, mostrarei a realidade do início de minha vida por aqui, quando estávamos sob o comando do tradicional e maior partido da esquerda argentina. E em “Fase Anarcocapitalista – Morar hoje em CABA é extremamente caro”, descreverei os desafios atuais sob o governo de Javier Milei e os impactos na rotina dos moradores locais e dos imigrantes. No meio dessas subdivisões, trarei um novo tópico, “Viagem no Tempo – Viver em Buenos Aires é estar nas décadas de 1980 e 1990”.


Neste episódio de “Tempos Portenhos”, ainda produzirei mais três subtópicos para nosso debate: “Miragem – O Distrito Federal é uma ilha de progresso”, “Contexto Econômico – Leitura geral e amadora da situação da Argentina” e “Prognóstico Econômico – O país hermano a médio e longo prazos”. Sem mais enrolação, vamos para o restante da nossa discussão do Episódio 8 – A Montanha-russa da Economia Argentina.


Na nova narrativa de Tempos Portenhos, coletânea textual da coluna Contos & Crônicas, Ricardo Bonacorci apresenta A Montanha-russa da Economia Argentina, relato pessoal do quão difícil é para um brasileiro morar em Buenos Aires em meio à bagunça e à imprevisibilidade financeira do país vizinho

2) Fase Peronista – Há três anos, morar na capital argentina era muuuuito barato


A ideia aqui não é entrar na velha discussão política de esquerda e direita, que provoca mais ruídos do que conclusões satisfatórias. O que posso adiantar é que vejo muitos brasileiros falando absurdos sobre a realidade argentina, o que evidencia o desconhecimento dos fatos.


Outro dia, um amigo esquerdista de São Paulo (abraço, Enzito) me enviou um vídeo mostrando como estavam as ruas de Buenos Aires com a gestão Milei. Na reportagem feita pelo ICL (Instituto Conhecimento Liberta), espécie de Jovem Pan da extrema esquerda, a maior cidade da Argentina estava um caos. O lixo se acumulava por todos os lados, a pobreza era gigantesca e a violência não permitia que andássemos durante o dia pelas vias. Não é preciso dizer que era uma mentira deslavada para angariar indignação dos esquerdistas mais raivosos.


Pouco tempo depois, outro amigo (abração, Dudu) me mandou um vídeo de um grupo de extrema direita. Deu para ver que tenho amigos de todos os espectros políticos, né? Admito que convivo muito bem com as visões de mundo distintas. Nesse novo vídeo, Buenos Aires era uma capital perfeita, tal qual uma cidade canadense, japonesa ou norueguesa. A pobreza tinha desaparecido, as ruas estavam bombando de gente comprando e consumindo e o argentino vivia melhor. Tudo graças a Milei. Não é preciso dizer que se tratava de outra mentira absurda, propagada para conquistar os aplausos dos direitistas mais estúpidos.


Na minha visão, os peronistas (principalmente a família Kirchner) foram ratos que destruíram o país e atiraram milhões de pessoas à pobreza. E Javier Milei chegou para agravar ainda mais a situação já desesperadora dos mais humildes, piorando o já trágico quadro social e mandando muita gente para a miséria. Ou seja, não gosto de nenhum dos lados (assim como odeio as duas pontas do polarizado embate político brasileiro). Estou explicando isso porque ao relatar a realidade que vivi nos dois cenários (sob peronistas e sob anarcocapitalistas), pode ser que aprove um e desaprove outro. Não! Eu desaprovo ambas as alternativas políticas. Porém, é inegável que minha vida no período peronista era muuuuito melhor. Contudo, isso não quer dizer que essa fase foi próspera para a maioria dos argentinos, né?


Cheguei a Buenos Aires em 2023. E o que encontrei foi uma cidade extremamente barata para quem ganhava em real. Vale dizer que trabalho em home office como escritor e editor na EV Publicações, uma editora de livros sediada em São Paulo, e como redator publicitário na Epifania Comunicação Integrada, uma agência de Marketing da capital paulista. Mas o que você chama de barato, Ricardo?! Boa pergunta, sempre curiosos e participativos leitores do Bonas Histórias. Vou descrever alguns gastos daquela época, que insistem em permanecer de forma saudosa em minha memória.


Eu pagava cerca de R$ 1.400 de aluguel no apartamento de Saavedra (US$ 300). Nos meses iniciais de 2023, o dólar estava na casa de R$ 4,70. Destaco que o apartamento monoambiente era/é mobiliado e estava/está num bairro de primeira da cidade (Zona Norte de CABA). Ainda gastava entre R$ 100 e R$ 150 em despesas residenciais como condomínio, luz, gás e internet. Em suma, minha conta para morar era de aproximadamente R$ 1.500. Sabe o que encontraria em um bom bairro de São Paulo ou Rio de Janeiro por esse valor? Nada.


A passagem de ônibus era entre R$ 0,30 e R$ 0,50 (dependendo da distância percorrida pela condução). O preço do metrô e do trem eram de R$ 0,45 a R$ 0,60. Vamos combinar que era quase de graça, né? O cinema aos finais de semana saía por R$ 8,00. Se quisesse pagar menos, tinha que ir às sessões de terça e quarta-feira, que custavam R$ 4,00. Os preços nos teatros na Av. Corrientes estavam em torno de R$ 30, R$ 40, um terço do valor das sessões parecidas nos teatros paulistanos e cariocas.


Um almoço completo numa boa parrilla (no menu ejecutivo) custava entre R$ 23,50 (no Los Amigos de Siempre, em Saavedra) e R$ 35 (no BesAres Parrilla Urbana, em Núñes). Esse pacote incluía: entrada (pãezinhos, queijos e chorizo), bebida (inclusive vinho), carne de primeira (e põe primeira nisso!), acompanhamento (geralmente salada ou batata frita) e sobremesa (sim, sobremesa!). Era/é impossível não sair rolando da mesa ao final da refeição numa bela churrascaria da capital argentina.


Nas visitas noturnas à melhor pizzaria portenha (dale Pizzería Güerrín, em San Nicolas), não pagava mais do que R$ 60 em uma redonda grande (extremamente recheada) e bebida para duas pessoas (incluindo uma garrafa de vinho Malbec mendocino). Gastar de R$ 25 a R$ 35 por pessoa para se comer muitíssimo bem fora de casa era um luxo que não tinha anteriormente nas maiores cidades brasileiras e que apreciava demais en la ciudad de la furia.


Nos supermercados, padarias, açougues e kioscos, havia ótimas opções de compras com preços de 30% a 70% mais baratos do que estava acostumado a pagar em São Paulo. Destaque para vinhos, doces de leite, empanadas, massas, carnes bovinas e pães, quase sempre muito mais em conta em Baires. Por outro lado, café torrado, carne de frango, chocolate, arroz, feijão e frutas básicas sempre tiveram preço parecido ao praticado no Brasil ou eram muito mais altos na metrópole portenha.


Já as contas nas cafeterias e nas lojas de roupas de BsAs me pareceram iguais aos custos em São Paulo ou Rio de Janeiro, mesmo na época de real valorizado frente ao peso argentino. Às vezes, dependendo da compra, os tickets podiam sair ligeiramente mais baratos ou um pouco mais caros. A questão é que, para certos gastos, não havia muitas vantagens financeiras de se viver na capital argentina naquele momento.  


Ainda assim, de modo geral, assisti a um upgrade de meu poder aquisitivo. Se no Brasil era pobre (falo isso sem problema nenhum porque nunca vi a conta bancária como sinal de sucesso, como algumas pessoas, famílias e religiões gostam de fazer), na Argentina adentrei a classe média baixa. Isso sem mudar de trabalho nem de salário, o que para mim foi um feito e tanto. Gosto do que faço e não pretendo mudar de profissão.


O mais incrível é que nem mesmo a inflação elevada da Argentina (de 30 a 40% ao ano) afetava aqueles que ganhavam em moeda estrangeira. Porque o peso derretia mensalmente. Quando cheguei, R$ 1 valia 170 pesos. Seis meses mais tarde, R$ 1 valia 260 pesos. Se a inflação semestral foi de 15 a 20%, a moeda argentina se desvalorizou em 50% nesse período. Portanto, não sentia a variação dos preços como a população local. Para falar a verdade, mesmo com a mudança frenética dos valores, para os gringos a metrópole portenha ficava mês a mês mais barata. Coisas do Deus Câmbio favorável. Saravá!


Caso alguém tenha curiosidade, é claro que o país enfrentava mais uma de suas crises econômicas. Alguns diziam de forma exagerada que era sua pior fase da história. Em oposição à festança estrangeira, os argentinos se empobreciam. Prova disso era a elevação dos gastos sociais do governo para abraçar a multidão de necessitados, cada dia mais numerosos pelas ruas. E dale novos subsídios, mais programas assistencialistas, contratação de mais funcionários públicos e novas obras para gerar empregos. Como consequência, o Estado argentino imprimia mais e mais dinheiro para cobrir o rombo exorbitante das contas públicas, o que aumentava, obviamente, a galopante inflação. Com mais inflação, os pobres se multiplicavam. E aí os governantes intensificavam as políticas públicas de assistência social, subsídios e engorda da máquina estatal.


Por décadas, a política argentina foi um círculo vicioso de empobrecimento e inflação crescente. Quanto mais miséria os peronistas geraram, mais tinham que se esforçar para abraçar os necessitados, o que potencializava a inflação e a pobreza futura. Com o Estado obeso e ineficiente, choviam casos de corrupção. Agora deu para entender o porquê, depois de quase três décadas de governos peronistas quase ininterruptos, os argentinos de todas as classes sociais votaram massivamente (desculpe-me o trocadilho involuntário, Sergio) num outsider nas eleições de 2023?! Aí não se importaram nem mesmo com a bizarrice do sujeito. E, assim, Javier Milei, também conhecido por aqui como Peluca de León, sentou-se na sillón de Rivadavia. Começava, a partir de então, uma nova gestão na Casa Rosada.


O caos político, social e econômico da Argentina nos últimos anos é o tema de A Montanha-russa da Economia Argentina, a nova crônica de Tempos Portenhos, a atual série narrativa da coluna Contos & Crônicas

3) Viagem no Tempo – Viver em Buenos Aires é estar nas décadas de 1980 e 1990


Antes de seguir com o que aconteceu com o país (comigo, com os demais imigrantes em Baires e com os argentinos) após Milei assumir o Executivo Federal, acho que vale a pena apresentar para os brasileiros como era Buenos Aires quando cheguei. Além dos preços mais baratos, conforme descrevi no tópico anterior, o que mais chamou minha atenção nos primeiros meses como morador local foi a sensação de ter voltado no tempo. A impressão é que, de repente, tinha retornado para as décadas de 1980 e 1990. Por que isso? Acho que foi uma confluência de fatores.


Em primeiro lugar, a arquitetura antiga de CABA automaticamente nos remete ao passado. E não são só as fachadas de prédios e edifícios centenários ou quase centenários que nos levam a outras eras. O interior das construções também transmite tal sensação. Entre num elevador que trabalha há 40, 50 ou 60 anos e você entenderá o que estou dizendo.


Aí você adiciona à paisagem local os ônibus, os trens e os metrôs antigos, alguns com péssima aparência externa. Lembre-se que as passagens eram baratíssimas, não gerando capital para se (re)investir na modernização do transporte público. Além disso, o ritmo mais tranquilo dos portenhos, seja durante a semana, seja aos finais de semana, confere um ar saudoso de quando a vida nas principais metrópoles brasileiras era menos acelerada. Impossível não me recordar de “Sinal Fechado”, a canção de Paulinho da Viola analisada há muito tempo na coluna Músicas.  


Não é só isso o que faz Baires ter ares nostálgicos. Nas praças e parques espalhados pela cidade, as feirinhas dão colorido e charmes à atmosfera de outras épocas. Ao percorrer o comércio popular de rua, notamos vários produtos antigos sendo vendidos com naturalidade. É possível encontrar máquinas de escrever, gramofones, vitrolas, filmadoras de VHS, micro systems de fita K7, discos, CDs, DVDs, Blu-rays (alguém aí se lembrava dos aparelhos e discos de Blu-rays, hein?) etc. O mais curioso não é saber que vendem esses produtos, e sim notar que ainda há quem os compre. Juro que fico boquiaberto com esse hábito portenho. Fico imaginando a pessoa chegando em casa na Recoleta, no Barrio Norte ou em San Telmo e teclando na máquina de escrever uma carta para os familiares do interior enquanto a vitrola toca um disco de Carlos Gardel.  


Por falar em música, parte do clima antigo de CABA vem da trilha sonora padrão da metrópole. Nas lojas, nos corredores do shopping, nas principais rádios, no Uber e na caixa de som nos parques, a melodia que monopoliza os ambientes é o Rock Nacional dos anos 1980 e 1990. Evidentemente, ocorre de pintar Cumbia e Reggaeton também, dependendo do lugar. De qualquer maneira, o Rock antigo é campeão absoluto de popularidade. Os portenhos amam Soda Stereo, Sumo, Los Redondos, Enanitos Verdes, Los Fabulosos Cadillacs e Los Piojos, além de Charly García, Fito Páez e Andrés Calamaro. Os gringos que têm vez por aqui são de bandas de POP Rock norte-americanas e inglesas de quarenta ou trinta anos atrás, além dos roqueiros gringos de língua espanhola como Maná, No Te Va Gustar e La Oreja de Van Gogh. Vamos combinar que a maioria dos moradores de Buenos Aires possui excelente gosto musical, né?


Nesse contexto saudosista, até o caos econômico adquire certo charme para os brasileiros da minha geração, os Millennials. A inflação descontrolada, as medidas do governo para combater el quilombo (mas que só aumentam a bagunça), as pessoas aflitas na frente da televisão vendo os pronunciamentos do Ministro da Economia e os bancos mudando as regras toda hora dão a sensação de estarmos sob os governos de José Sarney e de Fernando Collor. Admito adorar essa experiência, porque foi a maneira de viver algo que era, até então, exclusivo das antigas gerações de compatriotas. Na faixa dos quarenta anos, me recordo vagamente da infância no Brasil com hiperinflação e caos econômico, diferentemente de meus pais e tios que se lembram com enorme facilidade daqueles tempos de, parodiando Luciano Huck, loucura, loucura, loucura. Como autor ficcional, preciso entender na pele determinadas ambientações. Só assim conseguirei descrever com propriedade tal realidade.


Nesse sentido, falo com segurança: meus últimos três anos morando em Buenos Aires foram uma legítima viagem no tempo. De repente, me vi fazendo um MBA prático do que eram as décadas de 1980 e 1990 no Brasil. E posso dizer, com certa vergonha zombeteira, que esse período transloucado na capital argentina foi maravilhoso. Mesmo com todas as dificuldades financeiras e a indescritível bagunça do dia a dia, garanto que passei uma das melhores fases da minha vida (senão a melhor!). Santo Deus, como viver na Argentina é incrível, senhoras e senhores. Mesmo em meio a tantas confusões!


Ricardo Bonacorci relata em A Montanha-russa da Economia Argentina, novo texto da coluna Contos & Crônicas, como os brasileiros enxergam os altos e baixos do câmbio do país vizinho e a inflação descontrolada em Buenos Aires

4) Fase Anarcocapitalista – Morar hoje em CABA é extremamente caro


Em meio à vida idílica no Distrito Federal, fomos surpreendidos com a eleição para presidente de Javier Milei, um economista bizarro que frequentava programas de televisão sensacionalistas e tinha ideias estapafúrdias para todos os âmbitos sociais. Um cara que pede conselhos para o espírito do cachorro falecido e é a favor da venda de órgãos humanos não é alguém a ser levado a sério, né? Contudo, os argentinos estavam tão saturados pelas péssimas gestões peronistas que votariam em qualquer um, inclusive num louco amarrado numa camisa de força. Seria por isso que seus cabelos vivem despenteados?! Pode ser...   


O mais curioso dessa história é que o malucão chegou fazendo tudo aquilo que os governantes anteriores, que não tinham qualquer traço de loucura aparente, deveriam ter feito há muito tempo, mas nunca fizeram. Milei cortou os subsídios, enxugou a máquina estatal, cortou gastos públicos, demitiu vários funcionários-fantasmas do serviço público e deu alguma ordem ao câmbio. Por isso, foi aplaudido desde os primeiros dias de mandato pela população, carente de boas iniciativas. De repente, o cara mais louco do país agia como o político mais lúcido de todos os tempos. Não é mesmo fácil entender a Argentina.


Com a aplicação do remédio amargo para os problemas econômicos do país, vieram os efeitos colaterais. A inflação que era de 40% ao ano foi para 40% ao mês. Eu disse/escrevi AO MÊS!!! Alguém consegue imaginar um ambiente econômico em que os preços aumentem quase pela metade em apenas trinta dias?!!!! Parodiando Juca Pirama, famoso personagem de Luiz Gustavo na telenovela “O Salvador da Pátria” (1989), posso dizer que “meninos, eu vi” isso ocorrer! Aí não há orçamento doméstico que segure a paulada.


Os preços do transporte público, energia, água e gás que estavam represados há muito tempo sofreram elevações inacreditáveis. Uma viagem de ônibus que custava 55 pesos argentinos em dezembro de 2023 foi para 270 pesos argentinos em março de 2024. O metrô e os trens aumentaram ainda mais nesse período: de 70 para 400 pesos argentinos. Minha conta de condomínio, luz, gás e internet que jamais passara de R$ 150 nunca mais ficou abaixo de R$ 1 mil. Uma refeição num bom restaurante da Zona Norte de CABA que eu pagava R$ 25 ou R$ 30 em dezembro de 2023 foi, num piscar de olhos, para R$ 50 ou R$ 60. Adeus comer fora de casa, senhoras e senhores!


Foi nessa época que os imigrantes de Buenos Aires (que ganhavam em moeda estrangeira, como era o meu caso) passaram a sentir o peso da inflação de maneira até mais acentuada do que a população argentina. O motivo foi a súbita valorização do peso, uma estratégia do governo para minimizar o processo inflacionário. De repente, o valor do real diminuía mês a mês. Depois do pico de 280 pesos argentinos em dezembro de 2023, a moeda brasileira caiu para R$ 220, R$ 200, R$ 180 e foi caindo até chegar a R$ 170, mesmo patamar da minha chegada.


Em outras palavras, enquanto os preços das coisas em Baires aumentavam velozmente em pesos argentinos, quando fazíamos a conversão para o real, eles aumentavam ainda mais. Nesse momento, ouvia os versos de “Meu Mundo Caiu”, fossa inesquecível de Maysa, ecoando na minha cabeça mesmo com o Spotify desligado. Lembro-me dos sustos que tomei no segundo semestre de 2024. Se antes sair para comer fora era uma das melhores diversões da cidade e algo que não afetava tanto o bolso, com a valorização do peso argentino, esse tipo de passeio se tornou inviável para mim.


Recordo que estava saindo com uma linda venezuelana de Almagro/Caballito. Beijo, Ana Maria. Aí resolvemos comer em Las Violetas, uma confetería perto da casa dela. O lugar é lindo e tem bastante fama. Pedimos um combo para merendar. La merienda é o café da tarde argentino, hábito portenho que se mantém intacto em pleno século XXI. Beleza. Comemos doces e salgados e tomamos nosso cafezinho. Na hora de pagar a conta, lá veio a facada: 42 mil pesos. Convertendo em reais (R$ 1 estava 180 pesos), a brincadeira deu quase R$ 250. Juro que levei um enorme susto: um café da tarde para duas pessoas por R$ 250!!! A partir daquele dia, não entrei mais em nenhuma cafeteria, bar, confeitaria e padaria de CABA (e entendi o real sentido da frase “o sonho acabou”, de John Lennon).


Se meu padrão de vida tinha migrado para o da classe média baixa portenha em 2023, ele retornou rapidamente ao patamar da pobreza após o governo Milei. Minha situação financeira no fim de 2024 só não se tornou pior porque meu aluguel era em dólar. Ou seja, ele permaneceu mais ou menos no mesmo valor ao longo de todo o contrato, não sendo impactado pela absurda elevação dos preços em pesos argentinos. Infelizmente, nem todos os brasileiros tiveram tal sorte. Conheço muita gente cujos contratos de aluguel estavam em moeda local e, na hora da renovação, os preços foram à estratosfera.


Em janeiro de 2025, a inflação média na Argentina para os brasileiros tinha sido de 200% ao ano (considerando a inflação local e a variação do câmbio). O que eu pagava, por exemplo, R$ 10,00 em janeiro de 2024, já estava pagando R$ 40,00 um ano depois. Não por acaso, os turistas desapareceram de Buenos Aires, até então abarrotada de gringos de todos os cantos do planeta. Foi aí que comecei a pensar se deveria voltar para o Brasil. Só não retornei porque sou apaixonado por Buenos Aires. Mesmo com a elevação monstruosa dos valores, ainda o custo de vida era parecido com o de São Paulo, minha cidade natal. E se as despesas estavam elas por elas, senti que deveria permanecer na capital da Argentina. Afinal, a qualidade de vida por aqui é muuuuuito superior à maioria das metrópoles brasileiras.


Assim, apertei os cintos (literalmente, já que emagreci quase seis quilos em um ano) e tentei formular um novo orçamento doméstico – que, no final das contas, só dava para pagar o básico do básico. O mais triste dessa história não foi ver a minha penúria financeira, situação pela qual já estou beeem acostumado. O pior foi ver que os argentinos se tornaram ainda mais pobres. A explosão dos níveis de pobreza e miséria (ainda assim, em patamares inferiores à realidade brasileira) foi um dos episódios mais tristes que testemunhei. A política econômica de Milei desajustou salários e pensões, que deixaram de ser corrigidos pela inflação, como ocorria no período dos presidentes peronistas. Se a inflação do país em 2024 foi de 118%, as aposentadorias aumentaram de 5 a 10%. As verbas da educação e da saúde foram mantidas intactas de 2024 para 2025, mesmo com a multiplicação dos preços.


Como consequência, as ruas foram tomadas por protestos e mais protestos. O programa de muita gente às quartas-feiras à tarde era se reunir na frente do Congresso, na Plaza del Congreso, para reivindicar a elevação urgente das pensões. Paradoxalmente, a massa dos protestantes não era constituída de aposentados. Muitos jovens iam para exigir os direitos do pessoal que trabalhou a vida inteira e merecia uma velhice digna. Em maio de 2024, um mega protesto em prol do aumento das verbas da educação parou a cidade. Toda semana ocorriam atos contrários às ações do governo.


De forma geral, as medidas econômicas de Milei para sanar as contas do governo geraram superávits para o Estado. Por outro lado, a inflação seguia galopante (até mais do que a do governo de Alberto “Bate em Mulher” Fernández) e o poder de compra dos argentinos despencava. Várias empresas fecharam e milhares de pessoas ficaram desempregadas. Pela primeira vez em mais de dois séculos, mais da metade dos argentinos figurava abaixo da linha da pobreza. Foi um escândalo para uma nação que sempre se viu como de classe média!


Foi muito triste assistir à rápida deterioração econômico-social da Argentina, que já vivia um cenário aterrorizante antes mesmo da chegada de Milei à Casa Rosada. Enquanto isso, lia notícias estapafúrdias que saíam na mídia brasileira sobre a realidade local. Acredite se quiser, mas havia quem elogiasse as políticas econômicas do Peruca de Leon, como exemplo do que deveria ser feito no Brasil e no mundo. Segundo vários jornalistas e economistas de direita, que desconheciam completamente o triste panorama argentino, o presidente anarcocapitalista colhia progresso, expansão econômica e controle árduo da inflação ao invés de recessão e hiperinflação. Seria hilário se não fosse trágico, né? Ainda que Milei não fosse o culpado pelo quadro histórico de decadência do país e estivesse, sim, tentando consertar a bagunça de meio século de peronismo, falar que o novo presidente já tinha resolvido o problema em poucos meses ou que a realidade do povo melhorara era um atentado à lógica e ao bom senso.


A Montanha-russa da Economia Argentina, nova crônica do Bonas Histórias, apresenta as diferenças financeiras para um brasileiro morar em Buenos Aires

5) Miragem – O Distrito Federal é uma ilha de progresso


É bom dizer que Buenos Aires surpreende os brasileiros desde o primeiro contato. Ao colocar os pés na capital da Argentina e dar as primeiras voltas para conhecê-la, meus conterrâneos ficam encantados com sua organização, beleza e riqueza. Mesmo nas mais graves crises econômicas, os restaurantes badalados, os principais cinemas, as grandes casas de teatro, os belos cafés e os boliches da moda vivem lotados. Por isso, a pergunta que vários visitantes se fazem é: “Cadê os tempos de dificuldade e carência que o país enfrenta, hein?”.


Juro que me cansei de ouvir essa frase de amigos e familiares que vem me visitar em Saavedra. Não sei se contei neste post de “Tempos Portenhos”, mas minha casa sempre foi uma espécie de consulado brasileiro informal. Na primeira viagem da minha irmã no auge da crise do governo de Fernández, no finalzinho de 2023, ela ficou besta ao ver a noite de Palermo bombando. E estávamos no meio de semana. “Tem certeza de que a Argentina está tão mal quanto falam, Ricardinho?”, hermanita vivia repetindo.


Dois anos depois, o país estava no ápice da crise econômica de Milei e recebi a visita da Carlinha, minha amiga mais aleatória. E outra vez ouvi a mesmíssima frase sendo proferida quando percorríamos numa sexta-feira à noite a Av. Corrientes: “A Argentina está mesmo mal como dizem?!”. Nas duas ocasiões, comecei respondendo que CABA é uma ilha de prosperidade, que não reflete a realidade nacional. Pelo menos é essa a minha explicação para tal paradoxo que insiste em nos desafiar.


O que precisamos compreender é que Buenos Aires, o Distrito Federal, não espelha o que acontece de fato em Buenos Aires, a província, nem o que ocorre no restante do país, o interiorzão argentino. Como toda capital nacional, a metrópole portenha é um oásis que distorce as impressões sobre a nação inteira. A comparação de BsAs que devemos fazer não é com São Paulo ou Rio de Janeiro, por exemplo. E, sim, com Brasília, que também é uma miragem brasileira. A organização, a limpeza, a arquitetura, a riqueza e a segurança da cidade planejada por Oscar Niemeyer e Lucio Costa não devem servir de referência para o que se passa no restante do Brasil. A mesma lógica se aplica à CABA em relação à Argentina. Uma coisa é o dia a dia do Distrito Federal. Outra coisa totalmente distinta é o cotidiano do restante do país.


Com cerca de três milhões de habitantes, Buenos Aires é uma cidade rica se comparada aos demais municípios argentinos. Ela concentra a nata do funcionalismo público dos três poderes e reúne uma classe média pujante. Como consequência, o dinheiro fica circulando internamente com enorme velocidade. Até existe bastante pobreza no perímetro urbano de CABA, mas é uma pobreza escondida em bairros periféricos da Zona Sul e Oeste. Ou seja, não está perto dos olhos dos turistas e dos moradores mais abastados, como ocorre, por exemplo, na capital fluminense.


Ao caminhar pelos bairros mais turísticos (San Telmo, Retiro, Recoleta, Puerto Madero, Microcentro e Palermo), pelos bairros de classe média (Villa Crespo, Almagro, Boedo, Chacarita, Monte Castro, Versalles, Villa Real, Montserrat, Villa Pueyrredón, Villa del Parque, Parque Chas, Agronomía, La Paternal e Santa Rita) e pelos bairros de classe alta (Barrio Norte, Belgrano, Núñez, Saavedra, Colegiales, Vila Urquiza, Villa Ortuzar, Villa Devoto, Caballito e Coghlan), nos sentimos muito mais seguros do que nas metrópoles do Brasil. Isso fica evidente à noite, quando notamos mulheres e crianças andando normalmente pelas ruas, inclusive de madrugada. O choque de realidade, nesse momento, é enorme. Só assim notamos que nosso país é um dos mais violentos e perigosos do mundo, vivendo eternamente sob uma epidemia de violência urbana sem precedentes.


Isso não quer dizer que a Argentina, como um todo, é um país rico, próspero e seguro. Ao sair da parte mais nobre de sua capital (bairros que listei no parágrafo acima), o bicho pega. Ao percorrermos certos bairros portenhos, a província (a exceção é a Zona Norte, onde ficam as melhores cidades da região metropolitana) ou o interior do país, notamos que a pobreza e a miséria são assustadoras. Como morei há vinte anos na Argentina, posso comparar o que vi lá atrás com o que vejo agora. É indiscutível a elevação absurda do número de pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade socioeconômica, eufemismo para uma vida pouquíssimo digna. Infelizmente, estamos diante de outra nação com incontáveis recursos naturais que não sabe aproveitar as oportunidades.


Por isso, sempre que ouço alguém tecendo elogios inverossímeis, não me acanho e os corrijo prontamente. “A Argentina é riquíssima”. “Esse país é muito seguro”. “A maioria da população argentina é de classe média e classe alta”. “Não há favela aqui”. E “Não percebo os problemas econômicos desta nação”. Há três anos, ouço essas frases rotineiramente dos meus hóspedes brasileiros. Por mais que seja apaixonado por essa terra que escolhi para viver, não posso romantizar a realidade. Aí complemento com rapidez: “Você está se referindo a este pedaço da cidade de Buenos Aires que percorremos, né? Porque aí, sim, você tem razão. A parte nobre do Distrito Federal argentino é mesmo muito rica e segura”.


Neste relato de suas experiências como morador de Buenos Aires, Ricardo Bonacorci comenta as curiosidades da caótica economia da Argentina

6) Contexto Econômico – Leitura geral e amadora da situação da Argentina


Quando vejo as pessoas de fora comentarem a situação econômica e social da Argentina, percebo os enormes equívocos que cometem. Dependendo de suas concepções ideológico-políticas, fazem uma determinada interpretação da realidade pouquíssimo crível. O problema é que tanto esquerdistas quanto direitistas cometem erros básicos de avaliação, o que me deixa indignado com tamanha ignorância. 


A galera de esquerda costuma dizer que Cristina Kirchner foi injustamente presa. Ela é uma Santa, que não fez nada de errado, assim como seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner. Segundo essa visão um tanto alternativa da história recente da Argentina, os peronistas são os grandes protetores das classes baixas. Eles ofereceram uma política econômica justa e criaram programas assistencialistas aos pobres. Assim, a engorda da máquina estatal serviu para amparar a sociedade do capitalismo selvagem e da ambição desmedida do empresariado. Se não fossem os governos peronistas, a Argentina estaria em situação muito, muito pior.


Eu concordo com essa visão? Claro que não! O casal Kirchner é/foi extremamente corrupto. Eles não apenas roubaram (desde a época em que governaram a cidade de Rio Gallegos e, depois, a Província de Santa Cruz) como deixaram o roubo rolar solto entre seus correligionários. Essa é uma avaliação pessoal minha? Nananinanão! A Justiça argentina decretou tal sentença a partir das investigações do Ministério Público. Acho graça das pessoas que apontam o dedo para juízes, promotores e delegados quando seus candidatos favoritos vão parar na cadeia. Em suma, os políticos são santinhos e os demônios da história são a galera que os investigou e os condenou. Ai, ai, ai. Quanta ignorância, senhoras e senhores!


Além disso, quanto mais inchado for o Estado, mais fácil e lucrativo é para os governantes pouco corretos do ponto de vista ético. Qualquer semelhança com o que vem acontecendo no Brasil (e nos demais países sul-americanos) nas últimas décadas não é mera coincidência. Obviamente, a política de proteção aos mais pobres, desde os tempos de Juan Domingo Perón, sempre foi a maneira mais fácil para mascarar o aumento acentuado da pobreza. Há certos políticos que gostam tanto de pobres que trabalham para que eles se multipliquem. Parece-me que é o caso dos peronistas.    


Então quer dizer que você é de direita, Ricardo? Deus me livre! Acho que o governo de Javier Milei tem mais pontos negativos do que aspectos positivos. Refiro-me, por supuesto, à perspectiva dos argentinos e não do ponto de vista dos imigrantes. Como já expliquei neste texto alguns dos maiores absurdos que a mídia brasileira conservadora está falando de bom dos dois primeiros anos do mandato do Peluca de León, não vou repetir tais inverdades. Apenas ressalto a deterioração do quadro social atual: a inflação não diminuiu tanto assim (pelos dados anuais, o governo Milei superou a inflação de seus antecessores), o índice de desemprego cresceu, a taxa de informalidade é altíssima, milhares de empresas faliram/fecharam e a pobreza não regrediu a níveis satisfatórios. Onde está o êxito, hein? Nunca vi uma política restritiva e de achatamento da economia ser vista como caminho de curto prazo para a felicidade da nação, como alguns brasileiros apontam equivocadamente.


Aí alguém pode alegar: a Argentina conseguiu por dois anos consecutivos superávit primário. Sim, é verdade. Foi um feito e tanto que muita gente comemorou no país e no exterior como sendo um milagre da política liberal. A questão é: como o governo Milei realizou tal proeza, hein?


Lembremos que nos dois primeiros anos de sua gestão (2024 e 2025), a inflação argentina ficou em aproximadamente 200% no período – pior desempenho neste século. Em outras palavras, os preços quadriplicaram em 24 meses. O que o presidente fez para colocar as contas federais no azul foi manter o orçamento de 2025 muito próximo do orçamento de 2023. Em alguns casos, fez pequenos reajustes depois que a população se cansou de protestar nas ruas da capital.


Com os gastos (aposentadoria, saúde, educação etc.) iguais ou mais ou menos similares aos do governo anterior e com as receitas quadriplicadas (se os preços ficaram quatro vezes maiores, os impostos cresceram nessa proporção, né?), era óbvio que o déficit seria transformado em superávit. A pergunta que faço é: vale a pena fazer isso em troca da pobreza de aposentados, da piora sensível da educação, da deterioração da saúde pública e do congelamento de salários, hein? Admito que não teria coragem de fazer algo tão cruel com o meu povo.


Então, quer dizer que a Argentina está nadando em dinheiro, certo? Não! Aí está a grande falácia dos direitistas. Anualmente, o governo federal recorre a empréstimos estrangeiros vultuosos para se sustentar. Nunca vi um país dizer que está a mil maravilhas e se ancorar em empréstimos e mais empréstimos de fora!!! A dívida externa que já era absurda atingiu patamares pornográficos nos últimos dois anos e meio. Como assim se agora está sobrando grana? Na prática, não está, senhoras e senhores.


O que Javier Milei faz com o pequeno excedente das contas (não ache que o superávit é enorme porque não é!) e com a dinheirama dos empréstimos de fora é segurar o câmbio de todas as formas. O peso argentino está artificialmente valorizado. No caso, muuuuuuuuuuuuuito valorizado. Se fosse câmbio flutuante (como é no Brasil e em boa parte dos países da OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a moeda local já estaria valendo metade, um terço ou até um quarto do valor atual.


Por que Milei segura o câmbio artificialmente, torrando o dinheiro que tem e que não tem?! Porque ele teme que a inflação volte a ficar nas alturas. Ela diminuiu bastante nos últimos meses, é preciso reconhecer. Assim, reacendeu o otimismo de parte da população de que o pior do remédio amargo tenha ficado para trás. Tal qual Carlos Menem no início da década de 1990 na Argentina e Fernando Henrique Cardoso no final de seu primeiro mandato presidencial no Brasil, segurar o câmbio (artificialmente) é a estratégia (caríssima) para segurar (um pouco) a inflação. O efeito colateral é tornar o país (ainda mais) endividado e fragilizar (cada vez mais) a competitividade da indústria e da agropecuária local. Afinal, fica mais barato importar do que produzir internamente. Daí o fechamento massivo de empresas, a queda acentuada das exportações e a enxurrada de turistas argentinos nos países vizinhos.


Diante desse quadro, vale a pena seguir torrando dinheiro para manter o peso argentino supervalorizado? Claro que não. Peluca de León só faz isso porque pensa única e exclusivamente em sua popularidade (e na próxima eleição presidencial). Ou seja, prejudica a nação inteira em proveito próprio, algo típico das almas egoístas e das mentes psicopatas. Se a moeda argentina for para o valor justo, os preços internos explodirão outra vez. E adeus carreira política de alguém que diz combater a corrupção e a inflação. Já sabemos que a família Milei não é menos corrupta do que a família Kirchner. Basta ler as colunas policiais dos jornais portenhos para conhecer as maracutaias de Javier e, principalmente, Karina, a irmã do chefe do Executivo que atua como Secretária-Geral da Presidência da Argentina.


Desculpe-me pela sinceridade, caríssimos leitores da coluna Contos & Crônicas, mas, na minha humilde opinião, os governos peronistas foram um câncer para a Argentina. E para tratar uma doença tão séria, os argentinos elegeram Javier Milei, que é uma espécie de esclerose múltipla da política latino-americana. Pobre país que tinha tudo para ser de primeiro mundo, mas contraiu uma série de doenças graves. Parodiando Madonna: I will cry for you, Argentina.


A Montanha-russa da Economia Argentina, oitava crônica de Tempos Portenhos, apresenta como é para um migrante brasileiro viver em Buenos Aires, capital de um país com câmbio supervalorizado e inflação fora do controle

7) Prognóstico Econômico – O país hermano a curto e médio prazos


Como disse no início deste post de “Tempos Portenhos”, não sou economista. Porém, acho que tenho ao meu lado a mínima coerência intelectual, a leitura diária de vários jornais e revistas e a sensibilidade para compreender a realidade prática do dia a dia de Buenos Aires. Dessa maneira, sinto-me preparado para dar um prognóstico a curto e médio prazos da situação econômica do meu novo e querido país.


É curioso falar sobre isso, mas me considero muitíssimo bom em fazer leituras de cenários e tecer previsões. Muitas vezes, familiares, amigos e colegas ficam boquiabertos com meus prognósticos certeiros. Um dos últimos acertos impressionantes que tive aconteceu com Paulinho, meu amigo paulistano que é empresário e investidor. Em dezembro de 2024, ele brincou comigo: “Você ainda está comprando dólares, né?”. Depois de várias visitas à Buenos Aires, Paulinho sabia que esse é um hábito corriqueiro em minha cidade. Disse que sim. Aí emendou: “Muito bem! Continue assim. Porque estou acompanhando alguns economistas aqui do Brasil que falaram que o dólar vai disparar. Há quem faça previsões de que chegará a R$ 7,00 ou a R$ 8,00 até o fim do próximo ano”. Naquele momento, a moeda norte-americana tinha batido R$ 6,20, recorde que gerou pânico no mercado nacional.


Ao ouvir aquilo, me desesperei: “Pelo amor de Deus, Paulinho. Isso não tem cabimento. Esse prognóstico não está ancorado na realidade. O dólar vai baixar nos próximos meses. O que você está vendo é o pico de demanda, que faz o preço da moeda inflar-se. Não compre dólares agora. Essas são previsões de gente míope de direita, que acha que o governo Lula vai quebrar o Brasil”. É claro que ele ouviu os economistas renomados e não o amigo escritor. Confesso que, no lugar dele, também seguiria os especialistas. Para encerrar a conversa, Paulinho quis saber: “Quanto você acha que estará o dólar daqui um ano?”. Pensei por alguns segundos e sentenciei: “R$ 5,20”.


Na semana passada, recebi uma mensagem do meu amigo investidor: “Outro acerto seu. O dólar está em R$ 5,20”. Juro que não recordava daquele prognóstico, apenas de outros que tinha feito envolvendo futebol, cinema, música, a vida sentimental dele e o preço de algumas ações. Qual o segredo da previsão certeira? Ler o ambiente sem viés ideológico. Como odeio tanto a direita quanto a esquerda, acredito que consigo fazer leituras minimamente serenas e sensatas da realidade. Esse foi só um exemplo dos meus chutes no ângulo. Não quero me gabar, mas, utilizando a lógica, somente a lógica, descortino o caminho futuro de muitas searas sociais.


Mas por que confidenciei essa outra particularidade da minha vidinha? Porque quero que vocês anotem minhas previsões para a Argentina. Ouviu/leu isso, Paulinho? Coloque, por favor, em seu Google Calendar e pode me cobrar depois. O que vou relatar é uma previsão para o país nas margens mais caóticas do Rio da Prata nos próximos dois ou três anos.


O governo Milei vai terminar sem ter mexido no câmbio. Ou vai mexer o mínimo possível para não complicar sua reeleição. Vamos combinar que Peluca de León não é tão burro ao ponto de dar um tiro no próprio pé às vésperas do novo pleito nacional. O melhor a fazer é deixar os maiores ajustes macroeconômicos para o início do segundo mandato, né? Aí, sem possibilidades de concorrer ao terceiro mandato presidencial, não fica tão suscetível aos índices de popularidade, que certamente vão desabar. 


Em outras palavras, a inflação será controlada a duras penas, com o agravamento da pobreza, do desemprego e do endividamento, que exigirá volumes cada vez maiores de remessas para o exterior. Sempre é bom alertar: toda dívida tem juros, que precisarão ser pagos um dia. Portanto, a economia argentina andará de lado daqui para frente. A lógica diz que não haverá crescimento nem recessão acentuados, como no passado recente. Os próximos dois ou três anos serão de aumento ou decréscimo ínfimos do PIB, algo que já está acontecendo neste momento. É o famoso jogo do zero a zero. A dúvida é se os argentinos terão paciência para esperar tanto tempo para a resolução de seus principais problemas socioeconômicos.


Para os brasileiros que têm interesse em visitar Buenos Aires ou desejam morar na Argentina para estudar (abraço, galerinha de Medicina!), infelizmente, o país hermano seguirá caro, diria muito caro no curto prazo. Principalmente para quem ganha em real e gasta em pesos argentinos, como é o meu caso. Falo isso com enorme dor no coração, tá? A realidade de 2023 e do primeiro semestre de 2024 que descrevi há pouco não se repetirá em 2026 e 2027. Contudo, vale a pena reafirmar que a Argentina, diferentemente do Uruguai, está/estará cara por uma particularidade momentânea – eufemismo para excrecência política.


A queda do turismo internacional impactou sensivelmente a saúde financeira de CABA. Se antes a capital da Argentina era um passeio imperdível para brasileiros, uruguaios e chilenos, que enchiam as ruas da metrópole portenha em todos os meses do ano, agora assistimos à baixíssima presença de gringos. Em uma avaliação meramente subjetiva da minha parte (lembram-se do DataRicardinho, né?), digo que o turismo em Buenos Aires caiu em mais de 50% nos últimos dois anos. Com isso, uma parcela relevante do PIB municipal contraiu. Essa é a explicação para os vários estabelecimentos fechados pela cidade, principalmente restaurantes, e o fim das filas nos caixas do Western Union.  


Nesse cenário, não sei se Javier Milei conseguirá a reeleição ou se os peronistas voltarão ao poder em 2028. A votação será em outubro de 2027. O que me parece evidente é a necessidade futura do governo direitista ou esquerdista de abrir as comportas até então represadas do câmbio. Chega um momento em que a situação cambial se torna insustentável. Aí a tendência é que o peso caia vertiginosamente (como aconteceu em 2001, na Argentina, e como ocorreu com o real em janeiro de 1999, no Brasil).


O passo seguinte é, sinto informá-los, a volta descontrolada da inflação ou mesmo da hiperinflação. E, obviamente, o caos social será retomado, com dezenas ou centenas de milhares de pessoas tomando as ruas de Baires em protestos cinematográficos. Nesse momento, os jornais nacionais e internacionais vão anunciar mais uma crise dramática do país de Maradona, Evita e Gardel. Tal qual um Tango clássico, o país sofrerá um pouco mais e verá o governo perder força, o que elevará a polarização e os desentendimentos políticos. E, aí sim, veremos uma invasão de turistas estrangeiros empolgados com o baixo custo local.


Como sempre, a solução cosmética para a grave crise da Argentina será a escolha de mais um político populista. O pseudosalvador pode trazer as cores da direita ou da esquerda. E pode ser novato ou antigo. Não me surpreenderia, por exemplo, se a Sra. Kirchner sair da prisão domiciliar diretamente para el sillón de Rivadavia. Convenhamos que já vimos essa história ocorrendo em outras partes da América do Sul...


Portanto, meu prognóstico é que a Argentina continuará un quilombo nos próximos anos. É o ciclo perverso que insiste em se perpetuar por mais de um século no extremo sul do continente. Qualquer alteração dessa dinâmica a curto e médio prazos será uma surpresa enorme para mim. De qualquer maneira, garanto para vocês que Buenos Aires continuará linda, encantadora e maravilhosa para se morar e/ou passear. Ainda que tenha problemas indissolúveis e assista à piora gradativa da qualidade de vida de sua população, a capital argentina é o lugar que mais amo no mundo e onde quero viver pra sempre.


A Montanha-russa da Economia Argentina, crônica de Ricardo Bonacorci que integra a série não ficcional Tempos Portenhos, revela o quão difícil é para um brasileiro viver no país vizinho, onde o câmbio é imprevisível e a inflação angustiante

Se vocês compartilham dessa minha opinião, talvez seja interessante acompanharem o capítulo seguinte desta temporada da coluna Contos & Crônicas. No novo episódio de “Tempos Portenhos”, que vou publicar em maio de 2026, o tema será as diferentes regiões de Buenos Aires. Quais as particularidades de cada parte da metrópole argentina, hein? É sobre isso o que vamos discutir em nosso próximo encontro dessa seção, que será intitulado “Episódio 9 – Passeio pelos Bairros de CABA”.


Enquanto não voltamos ao debate de “Tempos Portenhos”, siga curtindo as demais colunas do Bonas Histórias, blog que reúne conteúdo artístico-cultural variado e profundo. Até a próxima, senhoras e senhores!


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Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques, o amor incondicional aos cachorros, a paixão pela carne, a devoção pelo futebol, as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata, a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às cidades brasileiras, a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante, o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha.


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