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- Romances: Primeira Página - Devaneios
Mostrar um diálogo é a técnica utilizada nos parágrafos iniciais dessa nova narrativa da coluna Contos & Crônicas. – Oi. – Bom dia! Achei que você não viesse falar comigo hoje – O velho fingiu certo descontentamento para ver a reação do menino. – Por quê? – Porque eu estou sentado aqui desde que você chegou na praça e até agora você não tinha dado atenção para mim. Nem ao menos me cumprimentou. Onde está a sua educação? – Não sei... Estou brincando com o meu amiguinho ali e não reparei em mais nada. Me desculpe. Nós estamos jogando bolinha de gude. Eu sou tão bom e ele é tão ruim que dá até dó. Se no futebol ele ganha de mim, no gude eu me vingo bonito – Bateu a mão no bolso da bermuda e as bolinhas acumuladas na última meia hora tintilaram. – Sei bem disso. Você é o melhor. Sempre foi e sempre será o grande campeão! O garoto abriu um sorriso orgulhoso. Seu cabelo era tão claro que com o reflexo do sol da manhã parecia branco. Ele não sabia como, mas o velho já conhecia todas as suas façanhas antes mesmo de contá-las. Ainda assim, o menino adorava falar de suas vitórias. E o senhor com a cabeleira e a barba brancas também apreciava ouvi-las. O velho saboreava as longas narrativas daquele loirinho como se fossem a dele próprio. Gostava principalmente do entusiasmo e do tom épico com que o pequeno amigo temperava cada uma de suas histórias. – Estava com saudade de você, sabia? Há quanto tempo não nos víamos? Olha como você cresceu. Às vezes, tenho a impressão de que nos vimos pela última vez em outra vida. O garotinho não respondeu, se limitando a olhar para o idoso sentado no banco com ar de desprezo. O velho era um cara bacana, mas era um tanto exagerado, pensava o loirinho. Eles haviam se visto há pouco tempo e não em outra vida. O menino até sabia o significado da palavra saudade e já a sentira algumas vezes. Porém, ele não conseguia nutrir tal sentimento pela ausência do velho amigo. Como aquilo era possível? Ele gostava daquele senhor, mas não sentia saudade dele. – E aí, vou ganhar ou não o meu presente de hoje? – E algum dia eu já esqueci do seu chocolate, hein?! – Tira do bolso do casaco um punhado de bombons – Mas antes, preciso saber como foi a sua semana. Sente-se aqui do meu lado. Vamos conversar um pouco. ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “Devaneios”: Mostrar um diálogo. Iniciar a narrativa com um diálogo pode ser uma estratégia extremamente interessante. Afinal, esse recurso possibilita a apresentação de uma ação (algo que sempre confere dinamismo ao texto), a exposição das personagens (e de algumas de suas principais características) e a construção do cenário (contextualizando o ambiente em poucas palavras). Quando bem realizada, a técnica de mostrar um diálogo já nas linhas iniciais da trama pode ajudar o escritor a ganhar a confiança do leitor, a cativar sua curiosidade, a exibir rapidamente o conflito e a promover velocidade à cena de abertura. Por outro lado, se não for bem executado, esse expediente narrativo pode confundir o leitor (o que está acontecendo?) e tornar a ação amarrada ou lenta (sensação de que nada está ocorrendo). Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Romances: Primeira Página - Sequestro
Explorando o recurso da apresentação das personagens por meio de ações, esse início de narrativa faz parte da série de 2021 da coluna Contos & Crônicas. Ela levantou-se da cama sonolenta e foi até a cozinha para beber um pouco de água. No caminho, foi despertada pelos raios solares que entravam com fúria pelo janelão da sala. A imagem era tão impactante que ela precisou parar para contemplar a vista. O visual ali era mesmo de tirar o fôlego. No lado de fora, a praia de águas esverdeadas e a areia branquinha se exibiam imaculadas naquele início de manhã. Não havia ainda ninguém aproveitando a beleza proporcionada pela natureza quase virginal. Os únicos presentes no lado externo da casa eram um casal de guarás. Eles ciscavam tranquilamente sem saber que eram observados a distância. Após se hidratar, a estudante universitária retornou ao quarto. Antes de mergulhar entre os lençóis, observou seu companheiro. Ele usava apenas uma cueca e estava esparramado pelo leito como se não houvesse mais ninguém para dividir aquele espaço. Aproveitando-se que o rapaz ainda dormia, a jovem pôde analisar o corpo dele com mais atenção do que na véspera. Ele era ainda mais atraente. Seria aquela a melhor visão até aqui de suas férias recém-iniciadas? Ela acreditou que sim. Além disso, considerou-se uma privilegiada por ter acesso exclusivo às curvas daquele corpo quase selvagem. Controlando a vontade de agarrá-lo mais uma vez, a moça simplesmente se deitou sobre um dos braços do parceiro. Desejando acordá-lo, ela começou a massagear carinhosamente o ombro, o pescoço e, depois, o peitoral do jovem. Se ele reclamasse, a desculpa estava na ponta da língua: não tinha espaço na cama. Porém, o rapaz não chiou. Como sempre, parecia imune a qualquer tipo de protesto. Ele abriu os olhos com alguma dificuldade e não deixou de esboçar um sorriso ao vê-la. Até de cara amassada o desgraçado parecia bonito, pensou. Sem que ele pudesse reagir, ela agarrou os braços musculosos que jaziam na cama e os entrelaçou em seu corpo. Queria dormir mais um pouco, só que abraçada. Ele permitiu. Ela voltou a dormir em poucos segundos. Só depois de ter a certeza de que a companheira estava realmente desacordada, ele retirou com cuidado um dos braços que estava embaixo do corpo dela e pegou o celular que estava na cômoda. Com uma vivacidade impressionante para alguém que aparentava ter acordado há pouco, o rapaz viu a mensagem que tanto aguardava no aparelho. A partir daquele instante, ao menos aos olhos da polícia, da imprensa e da família da moça, ela era uma vítima de sequestro. ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “Sequestro”: Apresentação das personagens principais por meio de ações. Apresentar as personagens principais por meio de ações é a técnica de início de narrativa que traz agilidade, suspense e desenvoltura à trama. Ao invés de ficar relatando cenários, divagando sobre os pensamentos dos protagonistas ou descrevendo as angústias das figuras centrais da história, o(a) escritor(a) ficcional simplesmente coloca todo mundo em movimento. A cena de ação tem a capacidade natural de indicar vários aspectos das personagens, do cenário, da ambientação e do enredo. Se bem realizado, esse recurso produz um texto envolvente e instigante já nas páginas iniciais da narrativa. Por isso, faça sua personagem se movimentar. Nem que para isso ela precise ir até a cozinha para pegar um copo de água. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Romances: Primeira Página - Terra de Cegos
Aplicando a técnica do In Medias Res, Ricardo Bonacorci apresenta mais um início de narrativa da série de 2021 da coluna Contos & Crônicas. Abri a porta sanfonada, entrei no cubículo e me fechei lá dentro. Porém, não consegui trancar a porta. Apesar de estar acostumado às viagens aéreas, tem algumas particularidades pelas quais ainda me atrapalho um pouco. E uma delas é justamente a tranca do sanitário. Sempre me confundo com o mecanismo. Isso acontece, tá! Culpar esse outro pormenor pelo meu destino sombrio não é justo. No instante em que brigava com a trava, o que deve ter levado de quatro a cinco segundos, a porta se abriu sem meu consentimento. E uma moça loira adentrou o banheiro sem a menor cerimônia. No espaço em que mal cabia um, éramos agora dois. Senti-me uma sardinha em lata. Surpreso, fiquei sem reação. O que ela fazia ali? Não tinha notado a minha presença, poxa? Será que estava tão apertada a ponto de urinar na companhia de um homem?! Nem a Íris me concedia tamanha intimidade. Enquanto dezenas de pensamentos borbulhavam em minha mente, a jovem trancou a porta com a maior facilidade. É bonito ver a naturalidade como os outros fazem alguns gestos em que temos tanta dificuldade. Então, ela se virou para mim e, com extrema agilidade, tapou minha boca com uma das mãos. O gesto foi tão violento que acertou meu nariz de raspão, além de cobrir meu rosto com seus cabelos. “Meu Deus, estou sendo assaltado!", cogitei como qualquer paulistano faria em tal situação. Infelizmente, minha conjectura inicial estava equivocada. O que aquela mulher estava prestes a fazer era um crime muito pior do que um roubo. A partir daquele momento, nunca mais me recuperaria. É até difícil falar a respeito. Sinto um misto de ódio e culpa. Em um piscar de olhos, eu estaria, sem saber, no centro do furacão que varreria a política brasileira nos anos seguintes. Era o início do meu pesadelo. Jamais esquecerei esse episódio fatídico de 17 de fevereiro de 2012. Às 20h15, estava quase chegando ao Rio de Janeiro. Aí resolvi tirar água do joelho. Por que não esperei para quando desembarcasse no Galeão, né? Raiva! Um detalhezinho e boom – minha vida desmoronou. ----------- “Primeira Página” é a sétima série narrativa da coluna Contos & Crônicas. Nessa nova coletânea de textos do Bonas Histórias, Ricardo Bonacorci apresenta, ao longo de 2021, a primeira página de oito possíveis romances. A ideia é mostrar a força e a intensidade dos parágrafos iniciais das tramas ficcionais. Enquanto tenta cativar a curiosidade dos leitores, Ricardo utiliza (e explica suscintamente) algumas técnicas clássicas de abertura narrativa. ----------- Técnica utilizada em “Terra de Cegos”: In Medias Res. In Medias Res é a estratégia de começar a história ficcional por uma passagem ou cena no meio da trama, de preferência bem no cerne de uma ação delicada/decisiva. Assim, evita-se o início convencional: um trecho tranquilo na parte introdutória da narrativa. Ao usar In Medias Res, o(a) autor(a) já coloca suas personagens no centro do conflito. E como ele(a) faz, então, para explicar aos leitores o que está se passando ali? Através do uso de flashbacks. A utilização do In Medias Res exige que o(a) escritor(a) caminhe simultaneamente para dois lados opostos da história: para trás (explicando o que provocou a ação descrita logo de cara) e para frente (desfecho da ação relatada nas páginas iniciais). Quando bem-feito em um romance ou em uma novela, In Medias Res confere agilidade, suspense e adrenalina à trama já em sua abertura. Quando malfeito, ele pode gerar um texto confuso e pouco convidativo, o que atrapalha a experiência de leitura. Essa técnica narrativa era muito usada nos poemas épicos da Grécia Antiga. E, atualmente, ela serve de base para a construção dos romances policiais e dos thrillers modernos. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Músicas: Se Eu Quiser Falar Com Deus - 40 anos da mais polêmica criação de Gilberto Gil
Lançada em 1981, essa canção de Gilberto Gil foi recusada por Roberto Carlos por ser extremamente crítica à religião católica. Hoje, o Bonas Histórias está em ritmo musical. Nesse novo post da coluna Músicas, vamos comentar a história por trás da canção “Se Eu Quiser Falar com Deus”, obra-prima de Gilberto Gil e uma das composições mais polêmicas da Música Popular Brasileira. Para completar, ainda vamos analisar a letra dessa faixa e explicar o impacto que ela teve no cenário cultural nacional. Portanto, se você ficou positivamente impressionado(a) com as inovações estéticas e as maluquices sonoras promovidas por “Domingo no Parque”, a grande produção artística de Gilberto Gil, aqui temos uma faceta mais questionadora e bem mais sutil de seu trabalho musical. No início de 1980, Roberto Carlos pediu para Gilberto Gil criar uma música para ele lançar com exclusividade, mas não detalhou a temática que desejava para aquela faixa. O músico baiano pensou, pensou, pensou e supôs que o Rei iria querer falar de algo religioso. Afinal, Roberto era/é um católico fervoroso e já tinha composto canções nessa linha. Por exemplo, “Jesus Cristo”, a mais famosa delas (aquela de “Jesus Cristo/Jesus Cristo/Jesus Cristo/Eu estou aqui”), é de 1969. Com a ideia de falar de Deus em uma música própria, Gilberto Gil começou a escrever a letra. Logo em seguida, surgiu a proposta da melodia que iria acompanhar os versos musicais. Em sua cabeça, o amigo capixaba não iria se recusar a gravar uma bela canção que tratasse das relações com o Divino. O problema é que Gilberto Gil não era/é tão religioso quanto Roberto. Ou melhor, sua religiosidade e sua visão de Deus eram/são diferentes das concepções católicas. Algumas semanas de trabalho foram suficientes para Gilberto Gil, então com 38 anos, criar “Se Eu Quiser Falar com Deus”, uma preciosidade da MPB. Essa canção é tão brilhante que figura atualmente entre as principais criações da música nacional do século XX. Em outras palavras, é um clássico. Em 2008, a Revista Bravo elegeu essa faixa de Gilberto Gil como a 73ª canção essencial da Música Popular Brasileira. Nada mal para uma encomenda vaga e descompromissada e um trabalho feito para atender ao pedido de um amigo querido. Contudo, Gilberto Gil ficou inseguro em apresentar sua composição diretamente para Roberto. Será que o Rei iria gostar daquela interpretação alternativa para a religião? Ele gravaria uma música que, ao invés de enaltecer a figura de Deus e de descrever a beleza da fé, questionava abertamente a devoção dos fiéis? As dúvidas do compositor eram pertinentes porque o teor de “Se Eu Quiser Falar Com Deus” era/é extremamente amargo. Nessa letra, Gilberto Gil escancara as contradições, a mesquinharia, as falsas promessas e a despreocupação do Senhor e, principalmente, de seus representantes na Terra em relação aos homens e as mulheres do povo. Essa canção é quase um hino dos ateus (abraço, Paulinho!). Do ponto de vista de seu conteúdo, “Se Eu Quiser Falar Com Deus” lembra muito “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), obra-prima de José Saramago (e meu livro favorito do português vencedor do Nobel). Gosto tanto desse romance que para mim ele é a versão verídica da vida de Jesus Cristo, enquanto a interpretação que está na Bíblia é a parte ficcional da trama sacra. Antes de apresentar sua nova música para quem a encomendou, Gilberto Gil resolveu mostrá-la para outro amigo, Caetano Veloso. Caetano ficou encantado com o que ouviu e não se cansou de rasgar elogios ao trabalho de Gil. Sim, aquela música era brilhante e deveria ser gravada. Na certa seria um sucesso, garantiu o irmão mais velho de Maria Bethânia. “Então você acha que o Roberto irá gravá-la?”, quis saber o compositor de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, empolgado com o feedback que estava recebendo. Caetano Veloso foi categórico e atirou um balde de água fria no amigo: “Nunca!!! Ele jamais gravará isso!”. E Caetano estava certo. Ao ouvir “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, Roberto Carlos ficou ofendido. Por muitos anos, segundo dizem, a amizade com Gilberto Gil ficou estremecida por causa justamente dessa canção. O cantor oriundo da Jovem Guarda foi até diplomático nas declarações à imprensa. Em entrevistas aos jornalistas, Roberto disse que a canção era linda e que só não a gravaria porque ela refletia o pensamento religioso de Gil e não o dele. E quando ele cantava algo, precisava acreditar em sua letra, algo que infelizmente não acontecia com os versos de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”. Essa música incomodou tanto Roberto que, uma década e meia mais tarde, ele compôs “Quando Eu Quero Falar Com Deus”. Gravada no álbum de 1995, essa canção é uma resposta direta ao trabalho quase homônimo de Gil. Obviamente, Roberto expôs, em “Quando Eu Quero Falar Com Deus”, sua visão de Deus e da fé católica. O mais legal é que a letra da composição do capixaba dialoga intimamente com a do baiano. Há inclusive oposições diretas entre os versos. Enquanto uma música fala uma coisa, a outra fala o oposto. É incrível assistir a essa intertextualidade musical e criativa de dois gênios da música brasileira! Com a recusa de Roberto Carlos em cantar “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, Gilberto Gil resolveu lançar sua criação por conta própria. Assim, a música integrou “Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)”, disco gravado no finalzinho de 1980 e lançado no início de 1981. Esse foi o primeiro álbum do baiano produzido por Liminha, um dos principais produtores musicais do nosso país (talvez você o conheça de outra forma – ele foi baixista da banda de Rock Os Mutantes). Os principais sucessos de “Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)” foram, além de “Se Eu Quiser Falar Com Deus” e da faixa que emprestou o nome ao título do disco (aquela de “O luar/Do luar não há mais nada a dizer/A não ser/Que a gente precisa ver o luar”), “Cores Vivas” (de “Tomar pé/Na maré desse verão/Esperar/Pelo entardecer/Mergulhar/Na profunda sensação/De gozar/Desse bom viver”), “Palco” (“Subo nesse palco/minha alma cheira a talco/Como bumbum de bebê/ de bebê/Minha aura clara/só quem é clarividente pode ver/Pode ver”) e “Flora” (“Toda aquela luz acesa/Na doçura e na beleza/Terei sono, com certeza/ Debaixo da tua sombra/ Oh Flora/ Oh Flora/Oh Flora”). A turnê desse LP durou seis meses e se estendeu em shows no exterior – América Latina, Europa e Estados Unidos. Curiosamente, Gilberto Gil não foi o primeiro a gravar “Se Eu Quiser Falar Com Deus”. Logo depois da negativa de Roberto Carlos, ainda em 1980, Elis Regina conheceu essa canção e pediu para cantá-la. Sem pestanejar, Gil permitiu. Assim, a música polêmica estreou em um compacto simples de Elis ao lado de “O Trem Azul”. Em 1981, a cantora gaúcha colocou “Se Eu Quiser Falar Com Deus” em uma faixa de seu novo LP. Essa é justamente a gravação mais famosa da música, superando até mesmo a versão do compositor. A interpretação de Elis é, sem qualquer trocadilho, qualquer coisa de outro mundo. Veja, a seguir, a letra de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, e ouça/assista, logo depois, o áudio/vídeo da gravação original de Elis. “Se Eu Quiser Falar Com Deus” (1980/1981) – Gilberto Gil: Se eu quiser falar com Deus Tenho que ficar a sós Tenho que apagar a luz Tenho que calar a voz Tenho que encontrar a paz Tenho que folgar os nós Dos sapatos, da gravata Dos desejos, dos receios Tenho que esquecer a data Tenho que perder a conta Tenho que ter mãos vazias Ter a alma e o corpo nu Se eu quiser falar com Deus Tenho que aceitar a dor Tenho que comer o pão que o diabo amassou Tenho que virar um cão Tenho que lamber o chão Dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho Tenho que me ver tristonho Tenho que me achar medonho E apesar de um mau tamanho Alegrar meu coração Se eu quiser falar com Deus Tenho que me aventurar Tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar Tenho que dizer adeus Dar as costas, caminhar Decidido, pela estrada que ao findar, vai dar em nada Nada, nada, nada, nada Nada, nada, nada, nada Nada, nada, nada, nada Nada do que eu pensava encontrar O que faz “Se Eu Quiser Falar Com Deus” uma canção tão espetacular é a união de elementos raros. Em primeiro lugar, não é todo dia que podemos acompanhar, em uma música popular, uma veemente crítica à religião, à fé e ao Divino. Para ser sincero, não conheço muitas criações musicais nessa linha mais ateística e contestadora. De cabeça, lembro apenas de “Depois do Começo”, do Legião Urbana, “Pescador de Ilusões”, do Rappa, e “Igreja Universal”, dos Ratos do Porão. E olha que elas são bem sutis e não vão à fundo nas críticas como Gilberto Gil foi. Talvez quem questionou mais Deus na música brasileira tenha sido Raul Seixas. São antológicas as gravações de “Paranoia”, “Paranoia II”, “Rock do Diabo” e “Pastor João e a Igreja Invisível”. Contudo, nenhuma dessas canções chegou perto da força narrativa, da beleza poética e, acima de tudo, do tom crítico de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”. Toda vez que ouço a música de Gilberto Gil, eu encontro uma nova questão que ele faz referência que eu não tinha me atentado. Por exemplo, “calar a voz” é não criticar os dogmas cristãos; “folgar os nós dos sapatos e da gravata” é a necessidade de ir bem-vestido à Igreja (importância da aparência em contradição à pureza da alma); “tenho que perder a conta/tenho que ter mãos vazias/ter a alma e o corpo nus” é a concepção católica de valorização da pobreza; “tenho que lamber o chão /dos palácios, dos castelos/suntuosos” é a riqueza da Igreja em oposição à precariedade da vida dos fiéis; e aí vai. O final dessa canção é simplesmente fantástico. Os versos “Tenho que dizer adeus/Dar as costas, caminhar/Decidido, pela estrada/que ao findar, vai dar em nada/Nada, nada, nada, nada/Nada, nada, nada, nada/Nada, nada, nada, nada/Nada/do que eu pensava encontrar” demonstram o desalento daquele que sempre acreditou em tudo o que a Igreja pregou. A sensação é de estarrecimento e de decepção, o que confere certo tom de melancolia e desespero ao desfecho da letra. Repare que a forte crítica de Gilberto Gil, ponto alto de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, vem quase que escondida na música. Falo isso porque se alguém ouvir despretensiosamente essa faixa (sem notar as nuances de sua letra) não irá reparar na pegada crítica. Aposto que muita gente até hoje não tenha captado a ironia e a profundidade dos versos de Gilberto Gil. Esse efeito é conseguido porque a acidez semântica da música vem mascarada em palavras brandas (mas não menos potentes) e no tom quase que sacro da melodia. Essa contradição (conteúdo versus aparência) só enaltece ainda mais o valor da criação artística do compositor baiano. Por fim, “Se Eu Quiser Falar Com Deus” não é uma canção com apenas uma letra marcante. Sua melodia também merece elogios. A harmonia dos instrumentos musicais dá naturalmente destaque para as interpretações dos cantores (que soam quase como um desabafo), mas não fica meramente em segundo plano. Pouco a pouco, os acordes vão subindo e envolvendo a plateia. Em algumas versões, como a clássica de Elis Regina, a melodia vem acompanhada de um impactante coro vocal. Impossível não gostar de uma harmonia musical como essa. Mais surpreendente é notar que o lançamento dessa obra-prima de Gilberto Gil (e da Música Popular Brasileira como um todo) completa, em 2021, quatro décadas de vida. E, depois de tanto tempo, ela é ainda mais atual do que nunca. O Brasil de hoje parece cada vez mais parecido ao do início dos anos 1980. Nesse sentido, a polêmica suscitada por “Se Eu Quiser Falar Com Deus” lá atrás deve continuar incomodando as almas mais conservadoras e religiosas do século XXI. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Acinte 2020 - A coletânea de haicais de Paulo Sousa sobre o ano pandêmico
Publicada em maio de 2021, essa obra mistura poesia, jornalismo e relatos pessoais ao enfocar o emblemático ano de 2020. Vamos ser sinceros: 2020 não foi fácil para ninguém. A pandemia do novo coronavírus chegou de supetão e colocou o mundo civilizado em quarentena. Como desgraça pouca é bobagem, o Brasil ainda se viu aterrorizado por ameaças golpistas, destruição das florestas, escândalos de corrupção, desmandos conservadores, disseminação de fake news e polarização ideológica. Diante do caos, das incertezas e das preocupações com a saúde pública, com a política, com a economia e com o meio-ambiente, indivíduos, famílias, empresas e nações tiveram suas rotinas viradas do avesso do dia para a noite. O que fazer diante da nova realidade, hein?! Cada um parece ter encontrado um jeito para encarar as agruras provocadas pelo avanço implacável da Covid-19 e das instabilidades político-econômico e social. No caso de Paulo Sousa, escritor paulistano e colunista do Bonas Histórias, a ideia foi produzir, durante o confinamento obrigatório, um livro de poesia que retratasse justamente o clima e os acontecimentos da fatídica temporada pandêmica. A obra em questão é Acinte 2020 (Pomelo), coletânea de haicais que apresenta os principais episódios transcorridos no Brasil e no mundo em 2020. Misturando fatos jornalísticos, homenagens/citações culturais e relatos pessoais, Paulo Sousa tece em seus versos um caprichado panorama dos dias que abalaram o país e o planeta. Com um jeito ora dramático, ora divertido, o autor recria de maneira inteligente e sensível o ano que ficará marcado para sempre em nossas vidas. Lançado em maio de 2021, “Acinte 2020” está disponível por enquanto apenas em e-book na Loja Kindle. A Editora Pomelo ainda não definiu a data da publicação da versão impressa desse título ou mesmo se irá levá-lo às gráficas. Pelo que entendi, há grandes chances de o livro não ganhar uma edição física. Como não quis esperar uma definição da empresa, acabei adquirindo o e-book de “Acinte 2020” no site da Amazon no comecinho do mês passado. O valor do novo título de Paulo Sousa era de R$ 19,90 (acho que não mudou de lá para cá). E no último final de semana, consegui lê-lo com a atenção merecida. Empolgado com o que encontrei em suas páginas, resolvei fazer esse post na coluna Livros – Crítica Literária. Afinal, a literatura não vive apenas da prosa ficcional, né? Doses de poesia são sempre bem-vindas tanto em nossas vidas quanto no Bonas Histórias. Inegavelmente, “Acinte 2020” é uma das mais interessantes e criativas obras que abordam o tema da Covid-19 e o drama provocado pela pandemia e pela quarentena. Ao invés de ser uma coletânea de contos ou uma coleção de ensaios, como várias publicações desse tipo que inundaram as estantes das livrarias nos últimos meses, esse livro de Paulo retrata os perrengues que vivenciamos por meio de versos que emulam a estrutura e a dinâmica do haicai, tradicional gênero da poesia japonesa. Impossível não gostar de uma proposta sagaz como essa! Se o conteúdo de “Acinte 2020” não é tão original assim (quem aguenta ler sobre esse tema ainda hoje?!), a sua forma é o que traz beleza e encanto ao texto, tornando-o convidativo aos leitores. “Acinte 2020” é a segunda publicação de Paulo Sousa, a primeira na categoria da poesia. Em 2019, o escritor nascido em 1986, em São Paulo, estreou na literatura comercial com o romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), uma sátira político-social ambientada justamente em uma grave pandemia que assolou o Brasil. Sim, essa narrativa tem um quê de premonição. Antes disso, Paulo já tinha lançado digitalmente a novela “Histórias de Macambúzios”. Essa obra foi apresentada na coluna Contos & Crônicas aqui no blog, mas não chegou a ganhar as estantes das livrarias. Aos 35 anos, Paulo Sousa é empresário do setor da comunicação (é proprietário da Epifania Comunicação Integrada, agência de Marketing B2B) e escreve mensalmente a coluna Miliádios Literários, uma das melhores seções do Bonas Histórias. Confesso que para mim foi uma surpresa danada saber que ele também atuava (e bem!) como poeta. Admito envergonhado que demoro para assimilar como alguém que navega com êxito na prosa também consegue surfar de maneira satisfatória na poesia e vice-versa. Para um escritor como eu que não consegue produzir boas linhas em nenhum gênero, assistir aos artistas versáteis é sempre impactante. Portanto, essa minha surpresa não é restrita ao trabalho do Paulo Sousa, tá? Só no ano passado, por exemplo, fiquei encantado com a versatilidade de figuras como Carolina Zuppo Abed, escritora paulistana responsável pela coletânea de contos “Tecle 2 Para Esquecer” (Patuá) e pela coletânea poética “Passatempoemas – Desafios Verbo-lógico-matemáticos” (Quelônio); José Eduardo Agualusa, autor angolano de romances como “O Vendedor de Passados” (Tusquets) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets) e de obras poéticas como “O Coração dos Bosques” (União dos Escritores Angolanos); da portuguesa Teresa Vieira Lobo, cujo pseudônimo é José Vieira, autora de romances e novelas como “A Dor do Esquecimento” (Chiado Books) e “Dedicação, Palavra e Honra” (ebook independente) e da coletânea de poesias “(In)Constante” (ebook independente); e da curitibana Jéssica Iancoski, que vai tranquilamente da prosa, “Por Onde Vai a Ilha” (EU-i) e “Histórias Para Dormir” (EU-i), à poesia, “Poilhias” (EU-i). Feita essa rápida divagação (ou seria um desabafo?!), voltemos ao “Acinte 2020”. Esse livro possui 184 páginas e está dividido em dez partes: “Citação”, “Prefácio”, “Epígrafe”, “Verão”, “Outono”, “Inverno”, “Primavera”, “Verão de Novo”, “Notícias e Estultícias” e “Agradecimentos”. Apesar do elevado número de páginas para uma coleção poética, “Acinte 2020” tem uma leitura extremamente rápida. Devo ter levado pouco mais de uma hora para concluir esse livro no último sábado. Como minha leitura foi pelo Kindle, acabei não tendo a experiência de acompanhar cada haicai ou cada conjunto de haicais em uma página específica (algo que seria obtido na versão impressa). Na versão digital, os tercetos vêm em sequência. As duas primeiras seções de “Acinte 2020”, “Citação” e “Prefácio”, integram o que chamo de introdução. Como uma boa coletânea de haicais, temos na abertura a “Citação”. Paulo Sousa traz as palavras do poeta japonês Matsuo Bashô. Em seguida, surge o “Prefácio”. Aqui, o escritor paulistano explica a proposta de sua obra (usar os haicais para a exposição dos principais fatos jornalísticos ocorridos em 2020), apresenta os conceitos dos haicais (poemas estruturados em tercetos e com redondilhas menores nas pontas e maior no meio – trinca de versos com 5, 7 e 5 sílabas poéticas, respectivamente) e detalha as liberdades poéticas que assumiu (por exemplo, acrescentar rimas). Esses textos introdutórios ainda estão em prosa (calma, a poesia já vai começar!). Nesse momento, Paulo usa e abusa do bom humor e das sacadas inteligentes para convidar o(a) leitor(a) a mergulhar em seu livro. A relação do haicai com o sushi é ao mesmo tempo hilária e precisa. Impossível ler o Prefácio e não avançar para as páginas seguintes da publicação. Se houvesse um prêmio literário direcionado às diferentes partes dos títulos ficcionais e poéticos, diria que o “Prefácio” de “Acinte 2020” merecia a medalha de ouro – sem dúvida nenhuma, esse é o melhor início de obra que li nos últimos anos. As seis partes seguintes de “Acinte 2020” (“Epígrafe”, “Verão”, “Outono”, “Inverno”, “Primavera” e “Verão de Novo”) correspondem à essência dessa publicação. A partir de agora surgem os haicais de Paulo Sousa, devidamente ordenados por ordem cronológica e relacionados às estações do ano. Pronto, a poesia começou (não falei que ela não demoraria para dar as caras?!). Usando exclusivamente tercetos, ora individuais, ora integrados dependendo da temática explorada, e com as tradicionais métricas 5-7-5, o poeta versa sobre os principais acontecimentos jornalísticos que chamaram sua atenção no Brasil e no mundo. Temos em “Acinte 2020”, portanto, desde as patacoadas do presidente brasileiro e sua turminha barra-pesada (família miliciana, assessores suspeitos e ministros transloucados), tragédias climáticas, eventos geopolíticos, incidentes internacionais, cenas do cotidiano, informações econômicas, falecimentos de figuras importantes, datas comemorativas, feitos esportivos e referências artísticas. E, como não poderia faltar em se tratando de 2020, acompanhamos as evoluções das notícias sobre a pandemia. É muito interessante olharmos, com o devido distanciamento temporal, as repercussões das notícias daquela época. Juntamente com o noticiário jornalístico, e seguindo as tradições dos haicais, Paulo Sousa ainda acrescenta relatos pessoais e, principalmente, referências à paisagem, ao clima e à flora em seus versos. O resultado é uma coletânea poética que mescla o geral e o particular, o importante e o banal, o jornalismo e a vida real, o sofisticado e o popular e a razão e a emoção. Grande parte da graça do livro está nessas constantes dualidades. As duas partes finais de “Acinte 2020” são “Notícias e Estultícias” e “Agradecimentos”. Em “Notícias e Estultícias”, temos acesso às datas e às manchetes jornalísticas usadas pelo poeta para a construção dos haicais. Essa seção é primordial para a compreensão dos versos. Afinal, há muitas passagens que só fazem sentido para o(a) leitor(a) uma vez que ele(a) entenda o contexto pela qual a poesia foi desenvolvida (ou seja, saiba qual é a notícia usada como referência). E os “Agradecimentos” é a parte, obviamente, em que o poeta corteja quem foi importante para a concretização dessa obra. A primeira coisa que chama nossa atenção em “Acinte 2020” é que esse é um livro redondinho, redondinho. Não apenas a ideia da obra é excelente (quem aí pensou em fazer uma retrospectiva de 2020 em haicais, hein?!) como sua produção foi muito bem executada. Esse primor é perceptível nos mínimos detalhes. Por exemplo, o título da obra é quase um haicai (Acinte/Dois mil/e vinte) e há rima logo de cara (acinte/vinte). Mesmo se você ler o nome do livro de outra maneira (no caso, acinte/vinte/vinte) os elementos estruturais do terceto e da rima interna se mantêm intactos (ou são até mesmo potencializados). Incrível! E o que dizer da capa de “Acinte 2020”, hein? Acredito que não haja imagem mais precisa para definir o ano passado do que uma grande escuridão com uma luz no fim do túnel. Se você reparar bem, é mais ou menos isso o que o projeto gráfico da publicação e o design da capa fazem referências. Algo que é inerente à literatura de Paulo Sousa e que caiu muito bem nesse livro é o bom humor. De um jeito leve, divertido e astuto, o poeta recapitula os acontecimentos de 2020 deixando-os bonitos no texto. Até mesmo os fatos mais trágicos ganham contornos nobres nas páginas de “Acinte 2020”. Temos aqui quase que uma epopeia moderna com uma pegada de literatura japonesa. Em certo sentido, o novo livro de Paulo é uma versão brasileira, contemporânea, dramática (ou seria tragicômica?!) e em haicais de “O Canto Geral” (Bertrand Brasil), a coleção poética de Pablo Neruda que reconstruiu a história da América Latina. É uma pena que Paulo Sousa não tenha o interesse de fazer anualmente um livro como esse. Já pensou termos sempre uma retrospectiva anual dos principais acontecimentos do país e do mundo em formato poético, hein? Admito que eu compraria todas as edições dessa obra – sou louco por retrospectivas. Porém, infelizmente, parece que “Acinte 2020” ficará restrito ao ano pandêmico. O que precisamos torcer é para que esse período conturbado e atípico fique mesmo limitado aos doze meses de 2020 (e a um pedacinho de 2021). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Dança: Dançarinas Históricas - Anna Pavlova
Acompanhe a trajetória de vida, as realizações e o legado artístico de Anna Pavlova, a mais importante bailarina russa da história. Em março, comecei na coluna Dança a série Dançarinas Históricas. A ideia é comentar, nessa coletânea de posts, a trajetória de vida, os feitos, as inovações e as contribuições artísticas das mulheres mais marcantes da dança. Naquele momento, o mês do Dia Internacional da Mulher, apresentei detalhes da vida e da carreira de Isadora Duncan, uma dançarina revolucionária e pioneira da Dança Moderna. Hoje, retorno ao Bonas Histórias para dar sequência à série. Dessa vez, a dançarina célebre que será analisada é Anna Pavlova, a mais importante bailarina russa de todos os tempos. É impossível falar da dança no século XX e do Ballet sem dedicar alguns capítulos especiais a Pavlova. Anna Matveievna Pavlova nasceu em São Petersburgo, em 12 de fevereiro de 1881. Ela já teve o nome mencionado aqui na coluna Dança. No post sobre o Ballet Clássico – História, curiosidades e características, eu a citei algumas vezes. Anna era filha única e praticamente foi educada apenas pela mãe, pois aos dois anos de idade seu pai faleceu. Sua infância foi simples e humilde. Somente aos oito anos, ela teve a oportunidade de ir, pela primeira vez, a um teatro. Esse dia mudaria para sempre a vida de Anna Pavlova. Sua mãe quis fazer uma surpresa e, como presente de aniversário, a levou para assistir a “A Bela Adormecida” no Teatro Mariinsky. A menina ficou tão maravilhada com o espetáculo de Ballet que não pensava em mais nada além de se dedicar a dança. Seu sonho passou a ser o Ballet. Ela queria estar em cima do palco se apresentando para as plateias. Anna Pavlova foi imediatamente atrás de seu sonho. E alguns dias depois de sua ida ao teatro, ela buscou uma escola de Ballet. Tentou ingressar na Escola Imperial de Ballet de São Petersburgo, mas foi rejeitada. Aos oito anos de idade, ela era considerada muito nova e de baixa estatura para poder iniciar os estudos na dança. Porém, Anna não desistiu. E aos dez anos, voltou para tentar uma vaga na mesma instituição. Dessa vez, não apenas foi aceita, como também teve seu talento precoce reconhecido. Anna concluiu sua formação aos 18 anos, em 1899, e entrou para o Ballet Imperial Russo. Coincidentemente, a companhia tinha como seu palco principal o Teatro Mariinsky, onde o sonho da jovem dançarina nasceu. Em 1906, Anna Pavlova se tornou prima ballerina, a primeira bailarina de sua companhia. Esse título é muito difícil de ser conquistado – apenas as bailarinas mais brilhantes e diferenciadas conseguem alcançá-lo. Ser uma prima ballerina representa se tornar a bailarina mais importante e com os papéis centrais das peças daquela companhia. A partir desse momento, Anna Pavlova começou a escrever de fato seu nome na História do Ballet. Sua trajetória foi curta, mas intensa. Ao longo de 15 anos, a russa fez apresentações por diversos países e em mais de quatro mil cidades. Sua peça mais famosa é “A Morte do Cisne”. Para quem conhece um pouco de Ballet, com certeza já ouviu falar dessa obra-prima da dança. O que poucos sabem é que “A Morte do Cisne” foi escrito para a própria Anna Pavlova. Anna inclusive tinha como bicho de estimação um cisne. Esse espetáculo foi escrito, em 1905, pelo mestre de Anna, o russo Mikhail Fokine. A música era “O Cisne”, do francês Camille Saint-Saëns. Esse é simplesmente o solo de Ballet mais famoso do mundo. Anna Pavlova deixou sua marca nessa obra ao interpretá-la com dramaticidade, força e expressividade. Estava, assim, criado um estilo marcante e inconfundível de dançar, que influenciaria gerações e gerações de bailarinas. Sem dúvida nenhuma, Anna Pavlova foi responsável por inspirar muitas bailarinas na Rússia e em todas as partes do mundo. Ela viajou por muitos países e com isso pôde disseminar essa arte pela Europa, América e Ásia. Ela esteve aqui no Brasil por diversas vezes. Em 1918, se apresentou no Teatro da Paz, em Belém do Pará, e na década de 1920, subiu aos palcos dos teatros municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Graças à Anna Pavlova, o Ballet passou por sensíveis modificações. A russa foi a responsável por transformar direta ou indiretamente vários aspectos dessa dança: a forma de se expressar no palco, as exigências físicas dos corpos dos dançarinos e o figurino usado nos espetáculos. Anna tinha uma aparência delicada e graciosa. Com um corpo magro e com uma estatura pequena, ela se contrapunha ao estereótipo das bailarinas de então, que eram mulheres altas, fortes e musculosas. Anna valorizava e respeitava as técnicas da dança impostas na época. Sua performance era, inclusive, brilhante, executada sempre com maestria. Porém, ela ia muito além da mera execução dos passos e dos movimentos programados. A russa entregava-se literalmente de corpo e alma às suas atuações. Dessa forma, costumava deixar cravada sua personalidade e sua expressividade dramática em cada apresentação. Até então, o que se esperava de uma bailarina era uma atuação mais discreta, sóbria, em que apenas a técnica podia se destacar no palco. Com atuações evidentemente mais calorosas, Anna Pavlova revolucionou o Ballet Clássico. Com movimentos tecnicamente perfeitos e uma expressividade até ali nunca vista nos espetáculos, ela mostrou que as almas dos artistas não podiam ficar reprimidas dentro dos corpos. Por iniciativa de Pavlova, as sapatilhas de ponta também sofreram modificações. Ou seja, os bailarinos contemporâneos devem agradecer à russa pelo tipo de calçado que possuem hoje em dia. Ela inovou ao inserir um reforço de couro nas sapatilhas. Assim, conseguiu minimizar os estresses nos dedos e facilitou os movimentos que precisavam ser executados na ponta. Na época, essa inovação não foi bem-vista pelos dançarinos. Afinal, essas mudanças deixavam as sapatilhas com uma base mais larga, o que ia contra o aspecto romântico de se dançar nas pontas de pés finos e delicados. Porém, o tempo foi o responsável por mostrar que Anna Pavlova tinha razão. Atualmente, o tipo de sapatilha que ela concebeu é o padrão usado pelos bailarinos do mundo inteiro. Em 1931, aos 49 anos, no auge de sua notoriedade como bailarina clássica, Anna Pavlova morreu de pneumonia. Voltando para a Holanda, depois de uma turnê pela Europa, o trem em que a russa estava se descarrilou. Ela resolveu sair para ver o que tinha acontecido no lado de fora sem se preocupar com as roupas que estava usando. O frio era intenso e ela vestia apenas roupas leves. Como consequência, a dançarina pegou uma forte pneumonia. Dias mais tarde, os médicos queriam operá-la, mas ela sabendo que depois ficaria impossibilitada de dançar, rejeitou a intervenção cirúrgica. Só a morte poderia separá-la da dança. Então, Anna fez seu último pedido. Mesmo debilitada, ela queria vestir o traje de “A Morte do Cisne” e executar o último compasso do seu espetáculo mais famoso. Seu desejo foi atendido. E um dia depois de sua morte, a orquestra tocou “O Cisne” para um palco vazio. E vamos a mais uma curiosidade: você já degustou a sobremesa Pavlova? Esse é um bolo com base de merengue, crocante por fora e macio por dentro e coberto com frutas geralmente vermelhas. Esse doce foi criado especialmente para Anna Pavlova. Dizem que ele teria sido inventado depois de uma visita da dançarina russa à Nova Zelândia. O merengue representa o tutu do figurino de Ballet, com suas ondas e movimento, e as frutas fazem o papel da dança intensa e expressiva. Incrível, né? No mês que vem, retornarei à coluna Dança para apresentar a história, as características e os benefícios da Dança Solta, uma das modalidades que mais gosto. Um novo capítulo da série Dançarinas Históricas será disponibilizado no Bonas Histórias apenas em outubro. No novo post dessa série, trarei detalhes da vida e da carreira de Martha Graham, bailarina e coreógrafa norte-americana conhecida como a Mãe da Dança Moderna. Nos vemos em setembro! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Dançarinas Históricas - Isadora Duncan
Conheça a trajetória profissional e pessoal de Isadora Duncan, uma das pioneiras da Dança Moderna. A coluna Dança aproveita a celebração do mês das mulheres (8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher) para iniciar a homenagem a quatro das mais importantes dançarinas da história. Na seleta lista de personalidades femininas que revolucionaram a arte dançante, coloco Isadora Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée como figuras de destaque. Cada uma dessas mulheres teve papel decisivo para a consolidação da dança como uma prática moderna, expressiva/passional e libertária. E seus trabalhos serão analisados no Bonas Histórias em 2021. Impossível não nos emocionarmos com a dedicação, a paixão e o pioneirismo dessas dançarinas inesquecíveis. No post de hoje da coluna Dança, vamos conhecer o legado artístico e a trajetória pessoal de Isadora Duncan, uma das pioneiras da Dança Moderna. Os textos sobre Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée serão postados, respectivamente, em agosto, outubro e dezembro desse ano. Sou suspeita para falar, mas o conteúdo abordando as principais dançarinas de todos os tempos percorre uma das páginas mais emocionantes da história da dança no século XX. Isadora Duncan, nome artístico de Dora Angela Duncanon, nasceu em São Francisco, Califórnia, em 26 de maio de 1877. Você deve se lembrar dela. Eu já a citei na coluna Dança, mais especificamente no post Dança Moderna e Dança Contemporânea - Surgimento e características. Duncan foi muito importante para a dança na primeira metade do século XX. Entre outros feitos, ela é uma das pioneiras da Dança Moderna e é até hoje uma das principais dançarinas da história. Desde muito pequena, Isadora Duncan praticava assiduamente a arte dançante. Filha da pianista e professora de música Dora Gray Duncanon e do poeta Joseph Charles, a pequena Isadora dançava enquanto a mãe tocava piano. E assim, com apenas seis anos de idade, ela já ensinava as crianças de sua idade as práticas de vários passos dançantes. Com o passar dos anos, Isadora Duncan largou os estudos formais para se dedicar exclusivamente à carreira de dançarina. Ela foi coreógrafa, bailarina e professora. Com muita personalidade, a adolescente Duncan se apresentava nos palcos norte-americanos. Nesses espetáculos, ela quebrava grande parte dos rígidos padrões que vigoravam na dança da época. Precisando apenas de um palco e de uma cortina, Isadora Duncan bailava descalça e vestindo apenas uma túnica leve. Contudo, seu estilo revolucionário não agradou ao conservador público dos Estados Unidos. Seus conterrâneos nunca viram com bons olhos as inovações trazidas pela jovem dançarina. Assim, aos 17 anos, Isadora se mudou para a Europa com a família. Ela partiu em busca do reconhecimento artístico e da valorização do seu jeito peculiar de dançar. No velho continente, ela fez diversas apresentações. Contudo, o estrelato seria alcançado em Paris. Aos 21 anos, Duncan se tornou estrela de primeira grandeza da dança assim que estreou no Teatro Sarah Bemhardt. Enfim, o público reconhecia e aplaudia suas ousadias estéticas. Isadora Duncan fundou, tempos mais tarde, sua primeira escola de dança. Destinada às crianças carentes, a companhia ficava no subúrbio de Berlim. O objetivo da escola era educar através da arte. Ainda na Alemanha, a norte-americana foi convidada por Cosima Wagner, a segunda esposa do compositor Richard Wagner, a coreografar e a interpretar o “Bacanal de Tannhauser” no Festival de Bayreuth. O sucesso foi retumbante. Na Rússia, Duncan montou sua segunda escola. Em 1905, em Moscou, ela teve contato com os mais renomados artistas e pesquisadores do Império Russo, então a capital mundial da dança. A forma de dançar da californiana logo chamou a atenção das bailarinas russas do porte de Anna Pavlova (que falaremos mais a seguir) e Matilde Kschessinska. Alguns compositores de Ballet, como Igor Stravinsky, também ficaram encantados com sua proposta artística. Isadora Duncan foi responsável por criar um estilo de dança revolucionário. Ela quebrou os rígidos padrões da época. Por exemplo, em contraponto ao penteado das dançarinas clássicas, sempre com cabelos presos com um coque, ela dançava de cabelos soltos. Sem as vestimentas exigidas pelo Ballet, sapatilhas e vestidos formais, a norte-americana se apresentava descalça e com figurinos leves e inspirados na Grécia Antiga. Sua dança não exigia tanta técnica nem se prendia aos movimentos tradicionais. Com um jeito espontâneo, Duncan buscava incorporar em sua dança vários movimentos do cotidiano, como andar, correr e saltar. Curiosamente, a leveza e a alegria da dança de Isadora Duncan contrastavam com a dureza e a tristeza que marcaram sua trajetória pessoal. Ela teve o primeiro filho com o coreografo inglês Edward Henry Gordon Graig. O segundo filho veio do segundo casamento, com o milionário francês Eugéne Singer. Em 1913, as duas crianças morreram quando o carro em que estavam caiu no rio Sena. Abalada, Isadora ficou afastada da dança e dos palcos por um bom tempo. Em 1922, a norte-americana casou-se pela terceira vez, agora com o poeta soviético Serguei Iessienin. Três anos depois do matrimônio, ele se suicidou. Depois dessa nova catástrofe, Isadora se mudou para a França. E em setembro de 1927, foi a vez da própria dançarina morrer em uma tragédia. Ela estava viajando em um carro com a capota aberta e em alta velocidade pela Riviera Francesa quando sua echarpe, que trazia no pescoço, se enrolou em uma das rodas do carro. Isadora Duncan morreu estrangulada. Esse fim trágico não apagou o legado de Duncan para a dança e para a Dança Moderna. Prova disso é que seu nome se mantém na memória dos dançarinos e das dançarinas do mundo inteiro como uma das figuras mais revolucionárias dessa arte. Espero que essa singela homenagem à Isadora Duncan sirva de inspiração para todos que desejam se lançar na dança. Se não iremos fazer parte da história da dança como Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée, ao menos nós podemos deixar que a dança faça parte da nossa história pessoal. A vida dessas artistas já é por si só uma grande inspiração para que comecemos a dançar agora mesmo, não é? Para finalizar este post da coluna Dança, deixo aqui uma frase do nosso poeta e escritor Augusto Branco: “Não é o ritmo nem os passos que fazem a dança. Mas a paixão que vai na alma de quem dança”. Um maravilhoso mês das mulheres para todos e até a próxima! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. Para conferir os posts sobre as datas comemorativas, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Os Saqueadores - O romance de estreia de Tom Cooper
Publicado em 2015, o thriller ambientado no sul da Louisiana é a primeira narrativa longa de Tom Cooper, um dos principais contistas norte-americanos da atualidade. Nesse feriado de 7 de setembro, li “Os Saqueadores” (Rocco), o romance de estreia de Tom Cooper. Minha escolha se deu basicamente por dois motivos. Em primeiro lugar, estava há um tempão curioso para conhecer esse livro. Só no ano passado, para você ter uma ideia, retirei-o duas vezes da prateleira da minha biblioteca, mas não cheguei a abri-lo – ele acabou preterido. Depois de tanto adiar, entendi que havia chegado a hora de ler a principal obra de Cooper, um dos nomes mais talentosos da literatura norte-americana na atualidade. A segunda razão foi mais situacional. Em meio ao clima pesado que o Brasil tem vivenciado nas últimas semanas, principalmente em relação aos protestos nazifascistas da terça-feira, achei adequado ler algo que tivesse também uma ambientação soturna, um clima noir e protagonistas com uma pegada de anti-heróis transloucados. E nada mais pertinente do que um título como “Saqueadores” para integrar o post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária, né? Minha impressão é que não havia leitura mais condizente com essa para o 7 de setembro de 2021. Quando foi lançado há cerca de seis anos, esse romance de Tom Cooper foi muito bem-recebido pela crítica literária da América do Norte. O destaque obtido por lá foi decisivo para a Editora Rocco publicar no Brasil, em julho de 2017, a versão em português de “Os Saqueadores”. O responsável pela tradução dessa obra para nosso idioma foi Alexandre Martins, um dos mais experientes tradutores brasileiros da língua inglesa. Um de seus mais destacados trabalhos no gênero do suspense foi a tradução para o português de “A Outra Casa” (Rocco), romance da britânica Sophie Hannah que inaugurou a série “Waterhouse e Zailer”. Tom Cooper nasceu na Flórida e vive há muitos anos na Louisiana, onde trabalha como escritor e professor em Nova Orleans. Considerado um dos principais integrantes da narrativa curta norte-americana, o autor se tornou conhecido do grande público somente após ingressar no gênero romanesco. Não à toa, “Saqueadores” é até hoje seu principal trabalho aos olhos dos leitores, que tem normalmente pouco acesso aos contos. Vale a pena dizer que antes de publicar “Os Saqueadores” em 2015, Tom Cooper só havia lançado narrativas curtas. Seus contos foram apresentados nas principais revistas literárias dos Estados Unidos como Willow Springs, Gulf Coast, Mid-American Review e Oxford American e foram selecionados pelos mais importantes prêmios literários do país. Só no Prêmio Pushcart, tradicional honraria organizada pelo Pushcart Press e voltada para o melhor da ficção curta, da poesia e dos ensaios em língua inglesa, Cooper foi finalista por quatro vezes. Consolidado como um dos principais contistas norte-americanos da literatura contemporânea, o autor resolveu lançar-se em voos maiores (ou, no caso, em narrativas mais longas). No ano passado, Tom Cooper lançou nos Estados Unidos seu segundo romance, “Florida Man” (ainda sem publicação no Brasil). Dessa vez, a nova narrativa se passa na Flórida (e não na Louisiana) e é ambientada na década de 1980 (e não nos dias atuais como “Os Saqueadores”). Novamente, temos um thriller protagonizado por homens marginalizados, um conflito ancorado na procura por um tesouro escondido em uma ilha tropical, uma trama com pegada de história de terror e um drama ambientado no litoral sul dos Estados Unidos. Em outras palavras, já é possível notar o início da construção de um estilo de Cooper quando o assunto é produção de romances. Até esse momento, “Florida Man” não repetiu o sucesso de crítica e de público de “Os Saqueadores”. Por isso, o romance de estreia de Tom Cooper continua sendo seu principal trabalho literário até aqui. Mesmo não tendo conquistado nenhum prêmio literário de destaque nos Estados Unidos (nem no exterior), “Os Saqueadores” deu muito mais visibilidade ao seu autor do que os badalados e premiados contos que ele desenvolveu ao longo da carreira. É realmente uma pena que o público acabe normalmente não dando tanta bola para as narrativas curtas, um gênero literário dos mais interessantes. Antes de analisarmos em profundidade o primeiro romance de Cooper, preciso alertar os leitores do Bonas Histórias que o título “Os Saqueadores” é um tanto comum na literatura. Por isso, na hora de comprá-lo não vá se confundir, por favor. Com esse mesmo nome há, por exemplo, obras de Harold Robbins e Junius Podrug, Ian Lawrence e Jason Lutes. Não duvidaria se aparecerem outros por aí que eu não conheça. O enredo de “Os Saqueadores” (estou falando novamente do livro de Tom Cooper, tá?!) se passa em Jeanette, um pequeno povoado no Sul da Louisiana às margens do Golfo do México. A cidadezinha ficcional criada pelo autor é uma referência direta à Jeanerette, localidade real e próxima à Nova Orleans. Jeanette/Jeanerette e o Sul da Louisiana como um todo foram vítimas das piores tragédias naturais e ambientais dos Estados Unidos no século XXI. Infelizmente, essa parte da trama não é uma invenção de Cooper, mas sim um relato do que se passou realmente ali nos últimos anos. Quem acompanha assiduamente as notícias jornalísticas deverá se lembrar dos episódios citados no romance. Em agosto de 2007, o Furacão Katrina provocou um estrago de grandes proporções na região. Para se ter uma ideia do alcance do Katrina, as partes de Nova Orleans que não foram varridas do mapa ficaram totalmente submersas por meses. A tempestade destruiu cidades e matou milhares de pessoas no Sul do país. Quase três anos mais tarde, em abril de 2010, foi a vez de uma plataforma de petróleo da British Petroleum (BP) explodir no Golfo do México e espalhar milhões de litros de óleo no mar da Louisiana. O vazamento não apenas matou a fauna e a flora local como também destruiu a já combalida economia do Estado, até então baseada na pesca de camarões e no turismo. É nesse cenário de decadência econômica, insalubridade ambiental, instabilidade climática e caos social que o livro de Tom Cooper é ambientado. Decorridos alguns anos das tragédias provocadas pelo Katrina e pela BP, Jeanette é ainda uma cidade arruinada, empobrecida e enlameada pelo petróleo. A trama de “Os Saqueadores” enfoca cinco grupos de personagens que acabam direta ou indiretamente interagindo uns com os outros. Ao todo são sete os protagonistas dessa narrativa: Reginald Toup, Victor Toup, Nate Cosgrove, John Henry Hanson, Gus Lindquist, Wes Trench e Brady Grimes. Nate Cosgrove e John Henry Hanson se tornam amigos durante o cumprimento de pena alternativa em Nova Orleans. A dupla foi condenada a prestar serviços comunitários por cometer pequenos crimes: Cosgrove promoveu uma arruaça em um bar e Hanson falsificava autógrafos de ex-presidentes norte-americanos. Assim que se tornam amigos, os dois rapazes passam a realizar pequenos roubos enquanto fumam baseados. Quando ficam sabendo que há uma ilha na Baía de Barataria com pés de maconha da melhor qualidade, Nate Cosgrove e John Henry Hanson deixam Nova Orleans em direção a Jeanette em busca do lugar que consideram um Paraíso na Terra. A tal ilha existe mesmo e é administrada pelos irmãos gêmeos Reginald e Victor Toup, perigosos traficantes de Jeanette. Aproveitando-se da geografia da Barataria cujo litoral recortado está embrenhado em um mangue inóspito, os Toup plantam maconha escondidos das autoridades. Para não serem descobertos, os irmãos vigiam atentamente a ilha, não deixando ninguém se aproximar seja de dia seja de noite. Reginald e Victor não têm problemas para manter seu negócio ilícito oculto até a aproximação cada vez mais frequente do pescador Gus Lindquist. Lindquist possui como hobby procurar tesouros escondidos. Fascinado pelas histórias dos piratas franceses, britânicos e espanhóis que visitavam o Sul da Louisiana nos séculos passados, ele acredita que tem uma fortuna enterrada nas ilhas da região. Por isso, sempre que não está pescando, Gus sai por aí com seu detector de metais à tira colo. Mesmo com a oposição da família (que o abandonou), com as limitações físicas (não possui um dos braços – perdeu-o em um acidente), com a dependência química (é viciado em remédios) e com a chacota dos moradores de Jeanette (que o veem como um louco), Lindquist não perde a esperança de um dia encontrar a fortuna dos antigos piratas. Obstinado, ele não se importa com as ameaças dos irmãos Toup, que não o querem andando perto da ilha forrada de pés de maconha. O único que parece se preocupar com Gus Lindquist é Wes Trench, um adolescente de 17 anos que sempre trabalhou no barco do pai. Contudo, nos últimos anos, o rapaz não aguenta mais o mau-humor paterno, além de se indignar por receber cada vez menos dinheiro pelo serviço realizado. O pai de Wes alega que a baixa remuneração não é culpa sua. Afinal, os camarões estão cada vez menores e menos frequentes na baía. Para completar, os restaurantes das principais cidades dos Estados Unidos estão boicotando os pescados advindos do Golfo do México, cuja água continua contaminada pelo vazamento da BP. Assim, após abandonar o barco de pesca da família, Wes Trench vai trabalhar com Lindquist, com quem estabelece uma amizade sincera. Em meio aos dramas profissionais e pessoais dos habitantes de Jeanette, aparece na cidade da Louisiana um funcionário da British Petroleum. Brady Grimes é o executivo da multinacional petrolífera encarregado de colher as assinaturas de todos os pescadores que foram lesados pela companhia. A ideia da BP é pagar uma indenização entre US$ 10 mil e US$ 15 mil para cada trabalhador prejudicado pelo vazamento do óleo no mar do Golfo do México. Dessa maneira, a empresa não corre o risco de precisar pagar no futuro multas e indenizações milionárias para essas pessoas. O trabalho de Grimes é convencer os pescadores de que o dinheiro ofertado agora pela British Petroleum é a melhor alternativa para eles. Não é preciso dizer que o executivo se torna rapidamente persona non grata por aquelas bandas, alvo da raiva e da insatisfação dos moradores locais. “Os Saqueadores” tem 352 páginas e está dividido em 52 capítulos. Precisei de aproximadamente 9 horas para percorrer integralmente seu conteúdo no último feriado. Praticamente realizei a leitura do romance em três sessões: manhã, tarde e noite. Em cada uma delas, devo ter gastado cerca de 3 horas. Quem não é fã de leituras de muitas horas, o mais adequado é degustar esse livro de Tom Cooper em dois ou três dias. Porém, dá para lê-lo em menos de 24 horas se o leitor tiver concentração e disponibilidade para tal. Afinal, o texto possui linguagem simples e a trama é convidativa para quem gosta de thriller com pegada de história de terror. Por falar em tom aterrorizante, o ponto alto de “Os Saqueadores” está justamente em sua ambientação noir. O clima do livro é de constante tensão. Tudo parece conspirar para tornar o enredo do romance perigoso, soturno e insalubre: tempestades tropicais, vazamento de petróleo, violência, injustiças, crimes, corrupção, pobreza, degradação social, desestruturação familiar, falência empresarial, inanição governamental e ambição desmedida de grandes grupos econômicos. Para completar, as cenas acontecem normalmente à noite ou na escuridão, em cenários selvagens (não faltam animais perigosos nesse livro), em paisagens deterioradas, isoladas ou abandonadas e em localidades distantes dos olhos da civilização. Essa é a típica narrativa em que o leitor precisa tomar cuidado a cada página virada. Não se sabe de onde virá o perigo. Essa ambientação incômoda, pesada e adversa também é fruto dos tipos retratados em “Os Saqueadores”. Temos aqui personagens masculinas marginalizadas socialmente que exercem o papel de anti-heróis. Em outras palavras, os homens dessa narrativa são solitários, desiludidos, amargurados, melancólicos, perdidos e pobres. Eles flertam o tempo inteiro com a criminalidade ou com práticas pouco éticas. Os protagonistas desse romance de Tom Cooper são traficantes de drogas, pequenos contraventores, pescadores falidos, adolescentes revoltados, caçadores de tesouros amalucados, executivos corruptos e velhos doentes. Paradoxalmente, cada uma dessas personagens acaba se tornando adversária de outra personagem da trama. Cria-se, assim, um ciclo de oposições dramáticas. As únicas mulheres retratadas nessa história são strippers e prostitutas, o que indica bem a aridez sentimental dos protagonistas do livro. Outro elemento marcante de “Os Saqueadores” é a descrição da natureza do Sul da Louisiana e dos problemas sociais, históricos e ambientais dessa região dos Estados Unidos. De forma sublime, Cooper consegue levar o leitor para dentro do cenário retratado. Assim, vivenciamos de perto a fauna, a flora, o caos e as mazelas pelos quais os habitantes de Jeanette passam rotineiramente. É verdade que esse recurso acaba tornando o texto do romance muito descritivo. Entretanto, ele é fundamental para construir a atmosfera de tensão e de perigo da narrativa. “Os Saqueadores” possui forte intertextualidade literária, cinematográfica e musical. Nesse sentido, o que predomina mesmo é a interação com o universo da literatura ficcional. Curiosamente, temos nessa obra citações diretas e indiretas a outros títulos da língua inglesa. Se por um lado há menção explícita a Herman Melville, autor de “Bartleby – O Escriturário” (Rocco), a Ernest Hemingway, escritor de “O Velho e o Mar” (Bertrand Brasil), e a Joseph Conrad, autor de “O Coração das Trevas” (Companhia de Bolso), por outro lado a própria estrutura narrativa desse livro de Tom Cooper faz referência a “A Ilha do Tesouro” (Principis), clássico de Robert Louis Stevenson. Se pensarmos bem, “Os Saqueadores” é na verdade uma versão contemporânea, adulta, noir e norte-americana de “A Ilha do Tesouro”. Acho que não há melhor definição do que essa para esse primeiro romance de Cooper. Não faltam ligações entre os dois livros ao longo dos capítulos de “Os Saqueadores”. Uma das graças dessa leitura está justamente em procurar as relações entre as obras e suas personagens. Falando em graça, o que torna a narrativa de “Os Saqueadores” tão interessante é a constante mudança de foco narrativo. O narrador em terceira pessoa é sempre o mesmo – ele é onipresente e onisciente em relação ao que acontece em volta e no interior da mente dos protagonistas. O que muda é o fato de cada capítulo ter o narrador próximo a apenas um grupo de personagens. Dessa maneira, acompanhamos individualmente os dramas dos (1) Irmãos Toup, (2) Lindquist, (3) Wes Trench, (4) Cosgrove e Hanson e (5) Grimes. A indicação de proximidade do narrador aparece sempre no título dos capítulos, o que facilita a vida do leitor. O principal problema de “Os Saqueadores” está na demora para o conflito aparecer. Como há vários protagonistas sendo retratados simultaneamente, assistimos nos capítulos iniciais a descrição individual de cada um deles e a apresentação de seus hábitos e de suas angústias pessoais. Por melhor que seja o texto de Cooper, ainda sim levamos mais da metade do romance para compreender o que liga cada uma dessas histórias entre si. Em se tratando de um thriller, precisamos admitir: a trama demora para pegar o leitor de jeito. Durante a primeira metade do livro, confesso que me perguntava: o que esse grupo de personagens fará de tão especial, hein?! No início da leitura, acreditei que eles iam, em algum momento, se reunir e virar um bando de criminosos que agiam juntos. Porém, para minha surpresa, em nenhum momento, as histórias desses sete personagens acabam se cruzando completamente. As intersecções são sutis e muitas vezes indiretas. Cabe ao leitor montar por conta própria o quebra-cabeça narrativo e estabelecer a teia de oposições/conflitos entre as várias personagens masculinas retratadas. O desfecho de “Os Saqueadores” me decepcionou um pouco. Diante de tantas mazelas sociais, caos climático, drama ambiental, decadência econômica e melancolia sentimental, a ponta de esperança deixada pelo desenlace do romance (sob o ponto de vista de Wes Trench) me pareceu totalmente incongruente. Além disso, admito que não entendi o título do capítulo final, “Coda”. Quem seria essa personagem na qual o narrador se aproxima, hein? Em contradição a esse questionamento, assistimos o narrador próximo a Wes Trench. Então o nome da última seção não deveria ser Wes Trench? Juro que não compreendi. As únicas coisas que gostei nos capítulos de encerramento foram o final aberto (no caso de Gus Lindquist) e a falta de uma punição para alguns vilões (no caso, o mais correto seria usar aqui a expressão anti-heróis). Afinal, a falta de certeza sobre os acontecimentos e a vitória do mal contra o bem são componentes extremamente verossímeis em se tratando de regiões assoladas pela criminalidade e pelo banditismo (vide nosso país). No geral, não achei “Os Saqueadores” um livro tão brilhante conforme apontado pela crítica literária dos Estados Unidos na época de seu lançamento. Esse romance possui uma narrativa legalzinha, mas nada mais do que isso. Acredito até que Tom Cooper seja um romancista de bom potencial, alguém para ficarmos de olhos abertos nos próximos anos. Porém, é inegável que ele ainda esteja longe (muito longe!) de ter atingido nas narrativas longas o mesmo patamar de excelência ficcional que alcançou como autor de contos. É nas narrativas curtas em que o escritor norte-americano é um mestre na arte de encantar os leitores. Já nas narrativas longas, ele ainda precisa comer muito feijão (ou fuzil, como preferir!) com arroz. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Miliádios Literários: setembro/2021
Se você estiver buscando miliádios, então encontrou! Nesse mês, Paulo Sousa aproveita para tentar mais um patrocínio para sua indispensável coluna. Pois é, setembro começa numa grave crise financeira. Por isso, a coluna Miliádios Literários vem, humildemente, sugerir que novas marcas nos patrocinem. Será um patrocínio na cultura do país! Para demonstrar todo nosso potencial de engajamento na internet, repercussão na mídia e incremento de valor à imagem das empresas que, porventura, queiram nos patrocinar, faremos uma experiência com o Itaú Unibanco, ilibada instituição financeira que, tenho certeza, tem muito a ganhar agregando sua imagem ao Bonas Histórias. Começamos, pois, com um grande escritor e jornalista, que imprimiu nos romances históricos muita sabedoria: Paulo Setúbal, cujo miliversário acontece no dia 7. O pai de Olavo Setúbal, responsável pela expansão do Banco Itaú, fundado pelo seu sogro (e cunhado daquele), escreveu os maravilhosos “As Maluquices do Imperador” e “A Marquesa de Santos” (Geração Editorial). Um dos braços do Itaú Unibanco é o Instituto Itaú Cultural, que fomenta a arte a partir de um belo prédio na Avenida Paulista. Falando em arte, o falecimento de Clarice Lispector aconteceu há 16 miliádios completados no dia 29. Clarice é duas vezes ganhadora do Prêmio Jabuti, e vários outros, e publicou clássicos como “A Hora da Estrela”, “Felicidade Clandestina” e “A Paixão Segundo GH” (Rocco). Fica clara a importância que o Banco Itaú dá à literatura nacional, renovando-a do Oiapoque no Amapá ao Chuí no Rio Grande do Sul, terra de Leticia Wierzchowski, que completa 18 miliádios no dia 15. Leticia é autora de “A Casa das Sete Mulheres”, “Um Farol no Pampa” e “Neptuno” (Record). Um dos autores brasileiros contemporâneos é Bruno Zeni, cujo nascimento aconteceu há 17 miliádios no dia 25. Bruno é intelectual e professor do Instituto Vera Cruz, grande polo de ensino de literatura (alô patrocínio!). Ele escreveu “O Fluxo Silencioso das Máquinas” (Ateliê Editorial) e “Corpo a Corpo com o Concreto” (Azougue). Outra escritora dessa geração é Paloma Vidal que, uma semana antes de Bruno Zeni, também completa 17 miliversários. Paloma é autora de “Wyoming – Lugares Onde Não Estou”, “Pré-história” e “Algum Lugar” (7Letras), e chegou ao Brasil antes de completar seu primeiro miliadiozinho de vida. Ela é natural da Argentina, país que também tem Banco Itaú, assim como outros 19 espalhados pelo globo, mostrando sua consistência de multinacional. Há, por exemplo, agências do Itaú nos Estados Unidos, terra natal de Ernest Hemingway. O Prêmio Nobel de Literatura e Pulitzer de Ficção, autor de “Por Quem os Sinos Dobram”, “Paris é uma Festa” e “O Velho e o Mar” (Bertrand Brasil), faleceu há 22 miliádios completados no dia 25. Mas voltemos ao Brasil, lugar de pessoas maravilhosas, ávidas para investir seu dinheiro com segurança. No Banco Itaú, são 95 mil funcionários que trabalham pesado (mas sempre de acordo com o sindicato) para render a suada grana dos brasileiros. Esses colaboradores são altamente treinados e motivados através de ações do RH, como palestras motivacionais guiadas por estrelas da autoajuda, como Augusto Cury, que nasceu há 23 miliádios completados no dia 21. Augusto é autor de “Nunca Desista dos Seus Sonhos” e “O Maior Líder da História” (Sextante), e inspira a família brasileira de forma fácil e direta. Tão fácil quanto usar o app Itaú. E assim finalizamos mais uma histórica coluna Miliádios Literários, que enche de orgulho as vacas sagradas da literatura brasileira e contribui massivamente para popularizar a leitura no Brasil. E com tantos adjetivos, ainda tem preços promocionais para os 5 primeiros patrocinadores que se interessarem! Imperdível! Mês que vem, estaremos novamente no Bonas Histórias, sempre feitos para você! Parabéns pelo Miliversário... ... Max Brooks, autor de “Guerra Mundial Z” e “O Guia de Sobrevivência aos Zumbis” (Rocco), pelos 18 mil dias de vida completados no dia 2. ... Andy Weir, autor de “Perdido em Marte” e “Artemis” (Arqueiro), que completa 18 miliádios no dia 27. Em memória de... ... Virginia Woolf, autora de “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), “Orlando” (Penguin) e “Passeio ao Farol” (RioGráfica), que faria 51 miliversários no dia 13. ... Fiódor Dostoiévski, autor de “Crime e Castigo”, “Os Irmãos Karamázov” e “Memórias do Subsolo” (Editora 34), que faria 73 miliádios no dia 23. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), da novela “Histórias de Macambúzios” e da coletânea poética “Acinte 2020”. Em seus textos, Paulo apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Morangos Mofados - A obra-prima de Caio Fernando Abreu
Clássico da literatura brasileira, a coletânea de contos mais famosa de Caio Fernando Abreu foi publicada em 1982. No último final de semana, reli “Morangos Mofados” (Companhia das Letras), o livro mais célebre de Caio Fernando Abreu. Integrante da Literatura Marginal, exímio contista e adepto da Contracultura, Abreu destacou-se entre o final da década de 1970 e a metade dos anos 1990 como um dos grandes escritores brasileiros de sua geração. Não à toa, ele venceu por três vezes o Prêmio Jabuti na categoria das coleções de narrativas curtas. Curiosamente, “Morangos Mofados” não angariou nenhuma premiação relevante do nível do Jabuti. Contudo, essa coletânea de contos foi saudada pela crítica literária como uma das obras mais marcantes da literatura brasileira do final do século XX. Com textos profundamente melancólicos, estilo confessional, prosa existencialista, narrativas que emulam o fluxo de consciência, tramas com alto teor homoafetivo e pegada fortemente visceral, esse título representou uma lufada de novidade criativa na ficção contemporânea nacional. Quarto livro de contos de Caio Fernando Abreu, “Morangos Mofados” foi publicado em 1982, quando seu autor tinha apenas 34 anos. Essa obra foi escrita ao longo dos três anos anteriores. O conto que empresta o nome à coletânea, por exemplo, foi produzido no segundo semestre de 1979. Eleito por muitos críticos literários como o melhor título ficcional de 1982, “Morangos Mofados” foi revisado pelo autor em 1994, dois anos antes de falecer. Assim, depois de 1995, toda nova edição desse livro já vem com alterações em sua forma. Segundo Abreu, “Nada em seu conteúdo ou estrutura foi modificado, mas a pontuação foi retrabalhada, novos parágrafos foram abertos ou eliminados etc.”. Nascido no interior do Rio Grande do Sul em 1948, Caio Fernando Abreu viveu a maior parte da vida em Porto Alegre. Na capital gaúcha desde os 15 anos, estudou Letras e Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas largou ambos os cursos para trabalhar como jornalista. Nas redações da imprensa, atuou por vários anos nos principais jornais (Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo) e revistas do país (Veja e Manchete). Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, o jornalista-escritor (ou seria escritor-jornalista?!) morou também em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. A literatura entrou cedo na rotina do jovem Caio Fernando. Para ser mais preciso, suas primeiras produções literárias remontam aos tempos da adolescência. Ele era ainda menor de idade em Porto Alegre quando publicava contos nas principais revistas do país. Seu romance de estreia, “Limite Branco” (Agir), foi lançado em 1970, mas foi escrito entre 1966 e 1967, quando o escritor tinha apenas 18 anos. Ainda em 1970, foi publicado a primeira coletânea de contos de Abreu, “Inventário do Irremediável” (Sulinas). Essa obra marcou o início da trajetória de um dos mais brilhantes e originais contistas brasileiros. Ao lado de “Morangos Mofados”, os livros mais famosos de Caio Fernando Abreu são: "O Triângulo das Águas" (Agir), de 1983, “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso" (Nova Fronteira), de 1988, e "Ovelhas Negras" (L&PM Pocket), de 1995. Todos esses títulos, vale aqui a menção, são coleções de narrativas curtas. Mais recentemente, a Companhia das Letras lançou “Contos Completos”, coletânea que reúne de forma integrada todos os contos do autor. Homossexual assumido em uma época em que o normal era permanecer dentro do armário e adepto da contracultura (apologia às drogas, às bebidas e ao sexo livre), Caio Fernando Abreu foi, obviamente, perseguido pela Ditadura Militar. Os milicos de ontem e de hoje têm ojeriza a tudo aquilo que foge da cartilha convencional da família tradicional cristã (seja lá o que isso signifique realmente!). Em 1994, o escritor gaúcho anunciou que tinha contraído o vírus HIV. Dois anos depois, ele faleceu vítima da AIDS. Ou seja, há 27 anos, o Brasil perdia uma de suas vozes mais reacionárias. Além de contos, sua grande especialidade, Caio Fernando Abreu deixou como legado romances, poemas, peças, crônicas e cartas, muitas cartas (ele era fanático pela comunicação epistolar). “Morangos Mofados” é uma coletânea com 18 narrativas curtas. O livro está dividido em três partes: (I) “O Mofo”, (II) “Os Morangos” e (III) “Morangos Mofados”. Na seção inicial, “O Mofo”, temos nove contos: (1) “Diálogo”, (2) “Os Sobreviventes”, (3) “O Dia em que Urano Entrou em Escorpião”, (4) “Pela Passagem de Uma Grande Dor”, (5) “Além do Ponto”, (6) “Os Companheiros”, (7) “Terça-feira Gorda”, (8) “Eu, Tu, Ele” e (9) “Luz e Sombra. Na segunda parte, “Os Morangos”, são mais oito tramas: (10) “Transformações”, (11) “Sargento Garcia”, (12) “Fotografias”, (13) “Pera, Uva ou Maçã”, (14) “Natureza Viva”, (15) “Caixinha de Música”, (16) “O Dia em que Júpiter Encontrou Saturno” e (17) “Aqueles Dois”. E a seção final, “Morangos Mofados”, possui apenas um conto, que é homônimo tanto ao título dessa parte final da coletânea quanto ao título do livro como um todo. A edição da obra que li dessa vez é da Companhia das Letras. Ela foi publicada no final do ano retrasado e tem o prefácio de José Castello, escritor e crítico literário carioca. Em suas páginas, Castello comenta a importância de Caio Fernando Abreu para a literatura brasileira contemporânea, o estilo da escrita do autor gaúcho, a força das narrativas de “Morangos Mofados” e a relevância desse título. Há cerca de oito ou nove anos, eu li outra versão do livro, mais antiga e lançada pela Agir em 2005. Naquela oportunidade, o prefácio é um texto de Heloísa Buarque de Holanda publicado originalmente no Jornal do Brasil em 1982. Há ainda uma introdução de Caio Fernando Abreu desenvolvida em 1995 em que ele narra rapidamente as diferenças da edição da década de 1990 para a edição original dos anos 1980. No fim dessa publicação, ainda temos uma carta que Abreu enviou para o amigo e jornalista José Márcio Penido. Nela, o escritor gaúcho escancara os autores que o influenciaram e comenta rapidamente o processo de criação do conto “Morangos Mofados”. Essa coletânea de contos tem 192 páginas. Levei pouco mais de três horas para concluir integralmente a leitura de “Morangos Mofados”. Até dá para ler essa publicação em uma única tarde ou em apenas uma noite. Quem têm mais fôlego literário, saiba que dá também para percorrer as 18 narrativas em um fôlego só. Eu preferi, contudo, usar um dia inteiro para isso (o último sábado). Praticamente li cada parte do livro em um período do dia – primeira seção de manhã, segunda parte à tarde e última seção à noite. Em “Diálogo”, o primeiro conto da obra, assistimos à conversa de A com B. Nesse inusitado debate, A quer saber se B é ou não é seu companheiro. “Os Sobreviventes” apresenta uma grave crise conjugal. Enquanto ele se descobre gay, ela é lésbica. O que fazer agora para manter esse casamento intacto? “O Dia em que Urano Entrou em Escorpião” se passa em um sábado de quase Verão. Três amigos ficam em casa à noite por falta de grana. A tranquilidade doméstica do grupo é interrompida com a chegada de um rapaz de blusa vermelha. Ele anuncia que há uma movimentação estranha no céu. “Pela Passagem de uma Grande Dor” narra uma conversa ao telefone. São dez horas da noite e Levi está em casa ouvindo um disco de Erik Satie quando o telefone toca. Do outro lado da linha é uma amiga convidando-o para sair. O quinto conto de “Morangos Mofados” é “Além do Ponto”. Nessa trama, um homem caminha até a casa de um amigo no meio da noite. Contudo, durante o trajeto, ele é surpreendido por uma forte chuva, além de ver eclodir uma intensa insegurança psicológica. Em “Os Companheiros”, um grupo de amigos (O De Camisa Xadrez, a Moreninha Brejeira, o Ator, o Bufão, a Médica Curandeira e o Jornalista Cartomante) ouve blues dentro de casa, enquanto morcegos esvoaçam no lado de fora. “Terça-feira Gorda” se passa no Carnaval. No meio de uma roda de samba, dois homens se sentem atraídos sexualmente um pelo outro. “Eu, Tu, Ele” é um desabafo existencialista. Nessa narrativa, um homem entra em um trem e, assim, deixa para atrás uma contraditória relação homossexual. E em “Luz e Sombra”, o último conto da primeira parte, um homem começa a ter lembranças e divagações ao tentar, na frente de uma janela, explicar suas angústias mais íntimas. “Transformações” é a décima narrativa do livro e a primeira trama da segunda seção. Nessa história, acompanhamos um sujeito que é tomado por um estado emocional depressivo que ele nomeou como a Grande Falta. Em “Sargento Garcia”, acompanhamos o relato de Hermes, um adolescente de 17 anos que vai ao Exército para se alistar. No exame médico, Sargento Garcia, o oficial responsável pela seleção dos recrutas, é inicialmente muito ríspido com o rapaz. Porém, mais tarde, o sargento se torna surpreendentemente carinhoso. “Fotografias” é narrado por duas mulheres muito distintas: uma loira gostosona ao melhor estilo femme fatale e uma morena magrinha. Enquanto a primeira detalha suas experiências sexuais, a segunda ostenta certa retidão moral-sexual. Em “Pera, Uva ou Maçã”, um psicanalista (ou seria terapeuta?) atende uma paciente em seu consultório. Naquele dia, confessa a moça, aconteceu algo importante quando ela caminhava pela rua até a consulta. Décimo quarto conto dessa coletânea de Caio Fernando Abreu, “Natureza Viva” é narrado na segunda pessoa do singular (algo raro na literatura) e apresenta os dramas sentimentais do protagonista de uma maneira profunda e poética. “Caixinha de Música” se passa no meio da madrugada. Um homem acorda a mulher para descrever um sonho emblemático que acabou de ter com uma árvore encantada. Em “O Dia em que Júpiter Encontrou Saturno”, um moço queimado de sol conhece uma moça magra de cabelos lisos em uma festa no Sábado à noite em São Paulo. Seria aquilo paixão à primeira vista? E “Aqueles Dois”, a última narrativa da segunda parte, mostra a forte relação de amizade de Raul (31 anos e vindo de um casamento fracassado) e Saul (29 anos e recém-separado da noiva). Eles são colegas de trabalho. A aproximação da dupla é alvo de inveja e de intrigas no escritório onde atuam. O último conto do livro, “Morangos Mofados”, integra sozinho a última seção da coletânea. Nessa trama, um publicitário de 35 anos vai ao médico porque sente um gosto podre na boca, algo que ele compara a morangos mofados. Entretanto, nos exames clínicos, não aparece nenhum problema. Diante dessa situação, o doutor receita tranquilizantes para o paciente. Na manhã seguinte, o publicitário começa a tomar o medicamento com a esperança de viver novos e melhores dias. Conseguirá? Basicamente, “Morangos Mofados” pode ser descrito como um livro de questionamentos filosóficos com doses elevadas de crítica político-social e de acentuado erotismo homossexual. Só por essa combinação pouco trivial na literatura nacional (principalmente se pensarmos que esse título foi escrito no final da década de 1970 e lançado originalmente no início dos anos 1980), já temos um exemplar surpreendente e inovador. E nesse receituário ficcional inusitado temos ainda o acréscimo de narrativas com forte pegada visual/fotográfica, dramas viscerais e intensa intertextualidade literária e musical. O resultado é um clássico da literatura brasileira que se mantém atual quase 40 anos após sua publicação. O Existencialismo contido nos contos de Caio Fernando Abreu é do estilo de Albert Camus, Jean Paul Sartre e Virginia Woolf. As divagações filosóficas do escritor brasileiro desencadeiam um subtexto extremamente rico e instigante. Ouso dizer que a graça e a força das histórias dessa coletânea estão justamente em sua camada interna. Para acessar o conteúdo subterrâneo das narrativas, o leitor precisa fazer a contextualização de alguns termos, algo que o pessoal da Teoria Literária chama de decodificação dos símbolos. Por exemplo, o pó que acabou na residência do protagonista pode ser tanto o café quanto a cocaína. Sair de casa representa deixar o lar ou, em uma leitura mais contundente, o Brasil. A cor da blusa pode indicar as orientações políticas das personagens. Por consequência, a janela não é apenas uma divisão formal do lar com o mundo externo, mas indica também a separação do universo interno com a realidade externa. Pombos e morcegos são ameaças medonhas e sujas à paz doméstica. Esses bichos também representam a sociedade tradicional e careta da metade do século XX e os militares que tanto perturbaram a vida civil brasileira nessa época. No caso da Grande Falta, esse termo pode ser substituído tranquilamente por expressões como depressão ou melancolia. Ainda sim você está duvidando da força dessa camada oculta nos contos de “Morangos Mofados”?! Então leia “Sargento Garcia”. O caso do oficial do Exército que (cuidado, aí vai o spoiler dessa trama) transa com o jovem recruta é emblemático. Garcia não é apenas o símbolo de um soldado pederasta se divertindo com um garoto virgem e ingênuo. Os atos dele significam o quanto as Forças Armadas de nosso país usaram e abusaram dos jovens conterrâneos a ponto de destruir suas esperanças de futuro. Sim, temos aqui uma forte crítica política, algo que permeia o livro inteiro. A crítica aos militares é apenas uma das feridas sociais expostas por Caio Fernando Abreu. Ele também questiona a estrutura da família convencional burguesa, as portas sem saída dos matrimônios tradicionais (geralmente infelizes), o destino perdido do Brasil como nação e a desilusão da juventude brasileira de sua geração (ter vivido por aqui nas décadas de 1970 e 1980 não deve ter sido nada fácil). O erotismo homossexual é explícito na maioria das vezes, mas há histórias em que ele é velado. Junto com o sexo, as personagens de Caio Fernando Abreu usam drogas, bebidas alcóolicas e cigarros indiscriminadamente. Esqueça a geração saúde da década de 1990. Aqui estamos nos anos 1970 e 1980 e o que vale é viver alucinadamente, sem pensar nas consequências e no amanhã. As figuras retratadas em “Morangos Mofados” têm inclusões espirituais, cósmicas e transcendentais. Ou seja, essa obra tem muita a cara da Contracultura: sexo livre (livre mesmo!) com drogas e astrologia à vontade. Nesse caso, não seria surpresa nenhuma comparar Abreu aos escritores beats norte-americanos. Seria Caio Fernando a versão brasileira e gay de Jack Kerouac? Acho que sim. Os contos de “Morangos Mofados” têm forte componente visual. Pelo tom fotográfico das tramas (leia-se riqueza descritiva), o ritmo narrativo aqui é normalmente muito lento. Poucas coisas acontecem em cena, o que pode incomodar os leitores mais ansiosos. As histórias de Abreu são calcadas tradicionalmente em cenas banais do cotidiano, o que indica a agonia e a miséria humana. Se o leitor não mergulhar em direção aos subtextos das narrativas (é aí que está sua riqueza textual), os contos desse livro poderão parecer rasos e fúteis à primeira vista. Por falar em texto incômodo e que exige uma leitura atenta-inteligente, temos geralmente nesse livro diálogos existencialistas de personagens angustiadas, solitárias, deslocadas socialmente e que vivem matrimônios em ruínas. Para ressaltar ainda mais o caráter indefinido dos protagonistas, eles quase sempre não têm nomes próprios. São chamados simplesmente de A, B, homem de blusa vermelha, O De Camisa Xadrez, o Jornalista Cartomante, Ele, Ela etc. Em relação às características psicológicas das personagens, a literatura de Caio Fernando Abreu me lembrou muito a ficção de Milan Kundera. Além disso, as narrativas de “Morangos Mofados” são extremamente emboladas. Elas misturam diálogos, pensamentos e descrições de cenários muitas vezes na mesma frase e sem qualquer separação formal ou textual (vírgulas e pontos finais, por exemplo). Esse recurso simula o fluxo de consciência. A fusão de diferentes elementos narrativos potencializa os dramas das personagens e aumenta consideravelmente o clima de mal-estar e de angústia. Não à toa, temos quase sempre vômitos, pensamentos suicidas, depressão, medo, violência, rancor, escuridão, preconceitos, sensação de deslocamento e de confusão nas histórias dessa coletânea. A intertextualidade literária e musical ocorre tanto dentro dos contos quanto fora deles. Por exemplo, cada narrativa é dedicada a um amigo ou colega de Caio Fernando Abreu. E os homenageados são quase sempre músicos, escritores, jornalistas e artistas no geral. Dentro dos contos, também assistimos a inúmeras referências ao universo cultural brasileiro e às artes internacionais. Aí, o predomínio nas citações é para autores ficcionais e músicos. Se eu fiquei encantado com a releitura de “Morangos Mofados” (a literatura de Caio Fernando Abreu é realmente forte, original e visceral!), por outro lado foi triste constatar que o Brasil retratado pelo escritor gaúcho entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980 parece ser idêntico ou muito parecido ao atual. As semelhanças são incontáveis: forte crise econômica, sociedade civil polarizada, militares no comando político, violência e perseguição às minorias, intensificação dos preconceitos, intolerância à diversidade, aumento do grupo de pessoas que não vê mais esperança no país como nação, jovens que preferem emigrar, elevação da pobreza e da injustiça social e, principalmente, sensação de incômodo e negatividade. No fim das contas, acabei lendo um livro de quase 40 anos atrás para entender melhor nossa realidade atual. Durmamos com esse dissabor. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Desafio Literário de julho/2020: Virginia Woolf
O Desafio Literário parte agora para a análise de seu quarto escritor desta temporada. Quem está acompanhando com assiduidade o Bonas Histórias sabe que já estudamos, em 2020, as literaturas de Jack Kerouac (Estados Unidos), em abril, de Maria José Dupré (Brasil), em maio, e de Kenzaburo Oe (Japão), em junho. E o autor de julho é, na verdade, uma autora: Virginia Woolf. Nesse caso, o correto seria chamá-la pelo artigo definido e expresso com letras maiúsculas - A escritora! Woolf é uma das principais artistas europeias da primeira metade do século XX. Figura central do Modernismo em língua inglesa, intelectual de renome no período entre guerras, editora de grande sucesso e precursora do Feminismo, a britânica de jeito frágil e muitas vezes deprimida deixou um legado incontestável para a literatura universal. Seu portfólio de textos é bem variado. Ela produziu romances, coletâneas de contos, ensaios e uma peça teatral, além de ter deixado traduções, cartas e diários de enorme relevância histórica. Sua obra mais famosa é “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), romance que figura entre os cânones da literatura inglesa. Adeline Virginia Stephen (Woolf é o sobrenome do marido) nasceu em janeiro de 1882, em Londres. Sua estreia na literatura aconteceu aos 33 anos com a publicação de “A Viagem” (Novo Século), romance que demorou oito anos para ficar pronto. Muitos consideram essa obra a que melhor retrata a vida tumultuada, os dramas psicológicos e o destino trágico da escritora inglesa. Não à toa, Virginia se suicidou, em 1941, aos 59 anos, depois de deixar uma carta-confidência ao marido. O grande sucesso da autora veio com o lançamento, em 1925, de “Mrs. Dalloway”. Em uma narrativa para lá de inovadora, Woolf descreve em um único dia os dramas de Clarissa Dalloway, uma socialite inglesa que está se preparando para dar um festão em sua residência. Com esta obra, a escritora inglesa entrava de vez para o grupo dos grandes escritores modernistas. Ainda na segunda metade da década de 1920, Virginia publicou outros dois romances de enorme repercussão: “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica) e “Orlando” (Penguin). O primeiro, também encontrado em língua portuguesa com outros títulos (“Ao Farol” e “Rumo ao Farol”, por exemplo), foi publicado em 1927 e é considerado um dos marcos do modernismo inglês. A descrição das visitas dos Ramsay à Ilha de Skye, na Escócia, fica em segundo plano frente aos debates filosóficos e existencialistas propostos pela narradora. O segundo romance, também chamado em nosso país de “Orlando – Uma Biografia”, foi lançado em 1928 e apresenta uma sátira literário-feminista. Nele, um poeta se veste como mulher para encontrar as principais figuras da literatura britânica. Com essa obra, Virginia Woolf integrava de uma vez por todas o feminismo à sua pauta narrativa. Por falar em debates literários e feministas, “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), ensaio publicado um ano depois de “Orlando”, resume muito bem os pensamentos da escritora sobre essas questões. Baseado em duas palestras que Virginia realizou em universidades inglesas, o texto aponta a necessidade das mulheres em adentrar definitivamente no universo literário, um reduto historicamente masculino. Em um dos seus últimos romances, Woolf publica, em 1933, “Flush: Uma Biografia” (L&PM Pocket), narrativa que mistura realidade e ficção. Nesse livro, a autora descreve a vida de um cãozinho, o cocker spaniel de Elizabeth Barrett Browning. A proposta deste Desafio Literário é analisar individualmente, nas próximas quatro semanas, esses seis livros de destaque de Virginia Woolf. Após essa etapa, terminaremos o mês apresentando um panorama completo do trabalho e da carreira da escritora inglesa. A ideia, assim, é abordar não apenas seu estilo narrativo e as inovações trazidas em seus textos ficcionais, mas também discutir um pouco as polêmicas de sua vida pessoal. Woolf é uma figura riquíssima, com múltiplas facetas. Conhecer os diferentes aspectos de sua trajetória particular e profissional é nossa meta aqui. Para tal, preparamos o seguinte cardápio para o Bonas Histórias em julho. Confira, a seguir, nosso calendário de posts: - 5 de julho - “A Viagem” (1915) – o primeiro romance da autora. - 9 de julho - “Mrs. Dalloway” (1925) – a obra mais famosa de Virginia Woolf. - 13 de julho - “O Passeio ao Farol” (1927) – um dos marcos do modernismo inglês. - 17 de julho - “Orlando” (1928) – outro grande sucesso da escritora. - 21 de julho - “Um Teto Todo Seu” (1929) – ensaio sobre literatura e feminismo. - 25 de julho - “Flush - Memórias de um Cão” (1933) – romance que mistura ficção e não ficção. - 29 de julho - Análise Literária de Virginia Woolf. E aí, preparado(a) para começarmos um novo Desafio Literário? Eu estou. No próximo domingo, dia 5, venho ao Bonas Histórias para divulgar a análise do primeiro livro deste estudo: “A Viagem” (Novo Século). Nada melhor do que iniciarmos nossa aventura pela literatura de Virginia Woolf pelo seu romance de estreia, né? Boa leitura a todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Ballet Clássico - História, curiosidades e características
Hoje, vamos falar mais sobre o Ballet na coluna Dança. Já abordei alguns pontos desse tema quando fiz uma breve retrospectiva histórica da arte dançante, no post de setembro do Bonas Histórias. Agora é a vez de mergulharmos para valer nos detalhes, na história, nas curiosidades e nas características do Ballet Clássico, uma das modalidades mais importantes e influentes da dança. As provas dessa relevância surgem quando notamos o quanto o Ballet Clássico possui um universo próprio: é um estilo altamente técnico; seus praticantes utilizam-se de um vocabulário específico; é praticado em todos os continentes seguindo a mesma linha conceitual; e suas músicas são as clássicas (normalmente de compositores como Beethoven, Mozart e Schubert). Essas características só reforçam a mística de ser uma dança tradicional e com ares de nobreza. O Ballet Clássico surgiu, no século XV, na corte italiana, onde era chamado simplesmente de balleto, que significa bailar. A primeira apresentação do balleto que se tem registro ocorreu em 1489, na comemoração do casamento do Duque de Milão com Isabel de Árgon. Nessa época, os nobres italianos divertiam-se e entretinham seus convidados com apresentações de balleto e com sessões de poesia, música e mímica. E até mesmo nos eventos mais simples, a dança era praticada necessariamente com figurinos elegantes, com cenários pomposos e com vestimentas pesadas e volumosas. Um dos grandes artistas responsáveis pela criação dos trajes e dos cenários do balleto foi Leonardo da Vinci (outra das façanhas do mestre renascentista!). Vale a pena destacar que para a nobreza italiana do século XVI era essencial saber dançar. Essa atividade fazia parte de sua educação e era vista como parte integrante da socialização na corte. Dessa forma, surgiram os primeiros professores de dança, que viajavam por diversas regiões ensinando essa arte para os nobres que queriam fazer bonito em eventos públicos e privados. Das terras italianas, a dança partiu para a França no início do século XVII. Foi na corte de Henrique IV que a modalidade ganharia maior destaque e seu nome definitivo – ballet. Quem levou o balleto/ballet para a França foi a princesa florentina Maria de Médice. Ao se casar com o rei Henrique IV, em 1600, ela disseminou a prática dançante de sua região para a corte francesa. Rapidamente, os nobres franceses incorporaram aquela arte à sua rotina e aos seus eventos sociais. Ao longo do século XVI, a corte francesa valorizou cada vez mais esta dança e a aprimorou. No território francês, o auge do ballet se deu no reinado de Luís XIV. O monarca era um amante inveterado do ballet. Ele começou a praticar a modalidade muito cedo, ainda criança. Aos doze anos, já rei da França (posto ocupado desde os cinco anos), Luís XIV fez sua primeira apresentação dançante nos salões da nobreza. Em seus espetáculos, o rei fazia questão de representar papéis de deuses ou de personagens míticos poderosos. Depois de uma apresentação que durou doze horas e de suas belas atuações no Baile de la Nuit, ele ganhou a alcunha de “Rei do Sol”. Em 1661, Luís XIV fundou a Academia Real de Ballet e, em 1669, a Escola Nacional do Ballet. Na França, o ballet cresceu muito mais do que na Itália. Exatamente por isso, muitos dos termos que usamos até hoje são franceses (e não italianos) e são originários daquela época. O professor Charles-Louis-Pierre de Beauchamp, diretor da Academia Real de Ballet, foi o responsável pela criação das cinco posições básicas do Ballet Clássico e pela elaboração de uma codificação da dança clássica, elementos praticados pelos dançarinos atuais. Não à toa, Pierre Beauchamp é considerado o primeiro grande mestre do Ballet Clássico. Foi só no fim do século XVII que a Escola de Dança passou a formar as primeiras bailarinas mulheres. Até então, o ballet era restrito ao universo masculino. Por mais difícil que seja imaginar algo assim aos olhos das pessoas do século XXI, não se aceitavam, nos primórdios, dançarinas do sexo feminino nas aulas e nos espetáculos desta modalidade. Nas apresentações de ballet, os homens faziam tanto os papéis masculinos quanto os femininos. Os figurinos dessa época eram pesados, com estruturas que não ajudavam na execução dos movimentos. As sapatilhas eram pesadas, com pontas de metal para possibilitar que os bailarinos ficassem na ponta dos pés. Marie Camargo foi uma bailarina famosa e inovadora em seu tempo. Em uma ousadia ímpar, ela fez uma apresentação de ballet encurtando as saias e usando sapatilhas bem mais leves. Assim, deixou que seus movimentos, piruetas e saltos pudessem aparecer com muito mais clareza e desenvoltura para o grande público. As novidades trazidas por Marie Camargo foram incorporadas ao ballet e com o tempo se tornaram o novo padrão dessa dança. Os tempos de glória do ballet na França duraram até 1830. Após a Revolução de Julho de 1830, esse estilo entrou em acentuado declínio. Contudo, na Itália, na Dinamarca e, principalmente, na Rússia, ele continuou sendo aprimorado. Como se desenvolveu, a partir de então, em vários países, mesmo tendo como base conceitual a escola francesa, o ballet ganhou algumas características peculiares em cada região praticada. Assim, originaram-se os estilos diferentes que conhecemos hoje. A dança típica da nobreza europeia chegou à Rússia, um dos grandes palcos históricos do ballet, apenas no século XVIII. A iniciativa foi do Czar Pedro, o Grande. Interessado em modernizar o país, até então muito isolado e atrasado, ele promoveu uma “ocidentalização” da corte russa e incorporou práticas culturais da França, Itália, Alemanha e Inglaterra. O ballet veio a reboque de outras práticas típicas da nobreza europeia. Contudo, coube a Czarina Anna Ivanova, sucessora de Pedro, o Grande, o mérito de fundar a primeira escola de ballet na Rússia, em 1738. Inicia-se, a partir daí, uma nova fase dessa modalidade. O francês Marius Petipa, que se instalara, em 1847, em São Petersburgo, então capital do Império russo, foi o responsável por promover importantes inovações para o ballet russo. Ele criou coreografias mais complexas e desenvolveu espetáculos mais longos. Foi, a partir de sua parceria com o compositor Piotr Ilitch Tchaikovsky, que nasceram três dos mais famosos espetáculos de ballet de todos os tempos: o “Quebra-nozes”, o “Lago dos Cisnes” e a “Bela Adormecida”. Mesmo tendo feito muito sucesso e sendo um nome histórico do Ballet Clássico, no final da sua carreira, Petipa era considerado ultrapassado e um tanto antiquado. No século XX, o responsável por trazer novos ares ao ballet foi o russo Serge Diaghilev. Ele inaugurou um novo período do Ballet Clássico ao criar sua própria companhia de dança e por desenvolver a Escola Russa de Ballet. Foi Diaghilev quem abriu espaço para grandes nomes do ballet como Anna Pavlova, Tamara Karsaviana e Vaslav Nijinsky. Com uma técnica apurada e a busca incessante pela perfeição, essa escola iria se espalhar, mais tarde, pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. Nascida no século XVIII, em Moscou, a Academia de Ballet Bolshoi, considerada a principal companhia de ballet da Rússia, se tornou referência mundial no início do século XX. Com espetáculos encenados no Teatro Bolshoi, o templo internacional dessa modalidade, a escola moscovita passou a representar o que há de melhor no ballet. Não é errado afirmar que Serge Diaghilev e Academia de Ballet Bolshoi foram os responsáveis por elevar a qualidade do ballet russo e de espalhá-lo para as demais regiões do planeta, entre elas a América Latina. No Brasil, a primeira apresentação de Ballet Clássico ocorreu, em 1813, no Rio de Janeiro. O espetáculo foi encenado para a família real portuguesa e para os nobres luso-brasileiros. Lembremos que, em 1808, a corte do príncipe regente D. João VI precisou fugir da Europa (invasões napoleônicas) e veio se abrigar em terras cariocas. Familiarizados com o ballet em sua terra natal, os nobres lusitanos já conheciam esse tipo de dança, uma novidade apenas para os brasileiros. No século XX, o ballet brasileiro foi influenciado mais pelo ballet russo do que pelo francês. As companhias de Serge Diaghilev e Anna Pavlova, por exemplo, ajudaram no desenvolvimento da dança em nosso país. O estilo russo moldou a técnica de nossas escolas e das nossas principais dançarinas, como Dalal Achcar, Márcia Haydée e Ana Botafogo. O Ballet Clássico é a modalidade mais tradicional do Ballet. Sua técnica é altamente acadêmica e muito metódica. Dentro desse estilo, temos a escola francesa, a italiana e a russa, por exemplo. Essa distinção regional faz com que o ballet possua algumas variações de país para país. É verdade que, na maioria das vezes, essas diferenças sejam bem sutis, tanto nas técnicas quanto na execução dos movimentos, mas elas existem e não podem ser ignoradas. Como características principais do Ballet Clássico, temos: a técnica e a busca pela perfeição como base conceitual; postura ereta do dançarino (trabalho do corpo na posição vertical-alongada); o uso da música clássica; e movimentos executados com o pé na posição em dehors (o giro dos pés e pernas para fora). Na segunda metade do século XX, o Ballet sofreu forte influência da Dança Moderna, uma modalidade menos acadêmica e menos formal. Como consequência dessa influência, surgiu o Ballet Moderno. Nele, há uma amplitude maior dos movimentos e do repertório musical. Não quero, por ora, me estender muito nas definições e variações do Ballet Moderno porque ainda vou fazer um post específico sobre esse tema na coluna Dança. Aguardem, por favor! O importante é saber que o Ballet tem uma longa e rica trajetória. Seu desenvolvimento histórico foi muito importante para a evolução da dança como um todo. Ele influenciou direta e indiretamente outros estilos. Na certa, o Ballet deverá continuar existindo por muitos e muitos séculos e se adaptando aos novos tempos. Antes de terminar, gostaria de inspirá-los a dançar com uma frase de uma das nossas grandes bailarinas, Ana Botafogo. Certa vez, ela disse: “A bailarina tem que melhorar tudo sempre”. No nosso próximo encontro no Bonas Histórias, em dezembro, a proposta é falarmos de uma das minhas grandes paixões dentro da dança: a Dança de Salão. Não percam os novos posts da coluna Dança. Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. 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