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- Miliádios Literários: março/2021
Bem-vindos, queridos leitores, aos Miliádios Literários! Antes de mais nada, gostaria de salientar que a coluna de março deve, preferencialmente, ser lida na voz de Pedro Bial. Em primeiro lugar, os membros da Cúpula Miliádica Mundial sempre ficam mesmerizados com tamanha eloquência e poiesis que o apresentador destina a parágrafos tão pedestres. Além disso, o autor de “Mensagem aos Brothers” (Harper Collins), “Crônicas de Repórter” (Objetiva) e “Conversa com Bial em Casa” (Cobogó) faz 23 miliversários no dia 18. Então, vamos lá! Começando pelos autores estrangeiros, verdadeiros clássicos da literatura moderna, há dois expoentes das distopias futuristas, que estão mais atuais do que nunca: Anthony Burgess, autor de “Laranja Mecânica” (Aleph) e George Orwell, de “A Revolução dos Bichos” e “1984” (ambos pela Companhia das Letras). Os gigantes visionários completariam, respectivamente, 38 e 43 miliádios em, respectivamente, dias 11 e 17. Em tempos de pandemia e incertezas, a fantasia traz um alívio doce frente à acidez da realidade. Quem nunca se encantou com a fábula “O Pequeno Príncipe” (Agir), do escritor e aviador Antoine de Saint-Exupéry? A morte do francês completa 28 miliádios no dia 29. Outro fabuloso autor é Lewis Carroll, cujo falecimento faz 45 mil dias no dia 30. O inglês, sempre muito elegante, criou um mundo fantástico na saga “Alice no País das Maravilhas” (Cosac Naify). Seguimos com um dos pioneiros do New Journalism, uma corrente que busca aproximar o jornalismo das pessoas. Ele é autor de “Hiroshima” (Companhia das Letras), relato jornalístico da tragédia que foi a bomba atômica na vida dos cidadãos da cidade japonesa. Estou falando do Prêmio Pulitzer John Hersey, que completaria 39 miliádios no dia 27! Ainda na área jornalística, mas de colarinho aberto e um copo de chopp na mão, lembro de João do Rio! O primeiro grande cronista do Rio de Janeiro, num tempo de muito charme e boa malandragem. Seu nome real foi Paulo Barreto, jornalista que encantava os cariocas com textos sagazes sobre as vidas na cidade recém-nomeada capital. O autor de “A Alma Encantadora das Ruas” (Crisálida) e “As Religiões no Rio” (Domínio Público) foi membro da Academia Brasileira de Letras e, na ocasião de sua morte, teve velório público dentro da redação do jornal A Pátria e cortejo de mais de cem mil pessoas. Celebremos, pois, a vida de João do Rio, que faria 51 miliádios no dia 24! Tem horas que um papo reto vale mais do que texto em redes sociais. Por isso, chamo o mineiro de nascença e carioca por amor à causa Rubem Fonseca! Autor da corrente brutalista de romances nacionais, escreveu verdadeiras pinturas da vida cotidiana, como “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), “Lúcia McCartney” (Agir), “Agosto” (Companhia das Letras), “O Caso Morel” (Biblioteca Folha) e “A Grande Arte” (Agir). Rubem faria 35 miliádios no dia 8. Outro mineiro de alma fluminense foi Fernando Sabino, cuja morte completa 6 mil dias no dia 16. O autor de “O Encontro Marcado” (Record), “Martini Seco” (Ática), “O Grande Mentecapto” (Record), “A Nudez da Verdade” (Ática) e “O Menino no Espelho” (Record), vencedor dos prêmios Jabuti e Machado de Assis, foi mais um que se apaixonou pelo Rio de Janeiro à primeira vista. Nesta coluna do Bonas Histórias, assim como num salão de baile, sobra grandeza, mas falta espaço... Por isso, sem perder o passo, cito em ritmo de samba o poeta paraibano Augusto dos Anjos, autor de “Eu e Outras Poesias” (Martin Claret), que faria 50 mil dias no dia 13; Mia Couto, o mais brasileiro dos moçambicanos, que escreveu “Terra Sonâmbula” e “O Fio das Missangas” (Companhia das Letras) e faz 24 miliversários no dia 20; e Reinaldo Moraes, meu amigo paulistano, autor de “Pornopopeia”, “Tanto Faz” e “Abacaxi” (Companhia das Letras), que faz 26 mil dias de uma agitada vida no dia 26. Mas voltemos ao Rio para finalizar esse monumento miliádico. Afinal, a cidade maravilhosa é célebre em ter grandes romancistas, como Sérgio Sant'Anna, que nos deixou há pouco tempo pela Covid-19. Advogado, professor universitário e cuidador de dois Jabutis, Sérgio comemoraria 29 miliversários no dia 24. Ele escreveu “Anjo Noturno”, “O Vôo da Madrugada”, “Amazona”, “Um Crime Delicado” e “A Senhorita Simpson” (todos pela Companhia das Letras). Esta foi mais uma coluna miliádica, momento ímpar da internet brasileira e que escolheu por homenagear, indiretamente, minha querida cidade, terra do Cristo Redentor, sempre de braços abertos abençoando nossa literatura. Visite o Rio! Come to Rio! E não se esqueça: quando experimentar nossas praias, use filtro solar... Parabéns pelo miliversário... ... Marian Keyes, autora do best-seller “Melancia” (Bertrand Brasil), pelos 21 miliversários no dia 9. ... James C. Hunter, onipresente nas prateleiras de coaches com seu “O Monge e o Executivo” (Sextante), pelos 24 miliversários no dia 11. ... Roberto Taddei, autor de “Terminália” (Prumo), pelos 15 mil dias de vida completados no dia 31. Em memória de... ... Arthur Schnitzler, autor de “Breve Romance de Sonho” (Companhia das Letras), pelos 58 miliádios que faria no dia 2. ... Tom Wolfe, romancista de “A Fogueira das Vaidades” e “Emboscada no Forte Bragg” (Rocco), que faria 44 miliversários no dia 22. ... Herbert Helder, histórico poeta português, autor de “Os Passos em Volta” (Tinta da China), que completaria 33 miliádios no dia 30. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. 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- Livros: Nada Me Faltará - A novela inusitada de Lourenço Mutarelli
Nesta semana, li um livro muito interessante e original: “Nada Me Faltará” (Companhia das Letras). Esta novela de Lourenço Mutarelli é um suspense construído exclusivamente com diálogos. Considerando as inovações estéticas propostas pelo escritor paulistano, o resultado é impressionante! Usando apenas as vozes das personagens (e nada mais!), Mutarelli criou uma trama que engloba o mistério das narrativas policiais e a angústia dos dramas psicológicos. Confesso que fiquei encantado com o conteúdo desta obra. Sem dúvida nenhuma, estamos diante de um dos mais versáteis e criativos autores da literatura brasileira contemporânea. Além de romancista/novelista, Lourenço Mutarelli atua como cartunista (ganhou vários prêmios nacionais por suas histórias em quadrinhos), dramaturgo, ator (ficou conhecido do grande público ao interpretar, no filme “Que Horas Ela Volta?”, o dono da casa onde a personagem de Regina Casé trabalhava como empregada doméstica), pintor, artista plástico (em 2018, muitas de suas criações integraram uma exposição que ficou alguns meses em cartaz no Sesc Pompeia) e professor de oficinas literárias. Aos 56 anos de idade, Mutarelli faz tantas coisas diferentes que às vezes temos a impressão de que seu trabalho de ficcionista acaba ficando em segundo plano. Essa sensação é potencializada pelo fato de o escritor ter lançado apenas dois romances nos últimos dez anos. Um bloqueio criativo que perdurou por muitos anos não o ajudou em nada na confecção de novos textos. Publicado em 2010, “Nada Me Faltará” é a sexta narrativa literária de Lourenço Mutarelli. Seus livros mais famosos até aqui são “O Cheiro do Ralo” (Devir), lançado em 2002 (e reeditado em 2011 pela Companhia das Letras), “Natimorto” (DBA), lançado em 2004 (e reeditado em 2009 pela Companhia das Letras), e “O Filho Mais Velho de Deus e/ou Livro IV” (Companhia das Letras), de 2018. Os dois primeiros títulos foram adaptados para o cinema com êxito. Já a última obra é considerada por muita gente (eu me incluo nesta lista!) como seu melhor trabalho literário. Dentro do portfólio bibliográfico de Mutarelli que preza pela qualidade e pela experimentação narrativa, “Nada Me Faltará” se destaca pelo seu caráter inusitado. Afinal, não é todo dia em que podemos acompanhar uma trama ficcional tão enxuta e minimalista. Neste livro, Lourenço Mutarelli optou por simplesmente excluir boa parte dos tradicionais elementos da narrativa (como por exemplo, narrador, descrição de cenário/espaço narrativo, delimitação formal do tempo narrativo e transição de cenas) e se concentrar unicamente no discurso das personagens. Por incrível que pareça, essa estratégia pouco usual não atrapalhou em nada o entendimento da obra por parte do leitor e, ainda por cima, conferiu uma pegada distópica à narrativa. Incrível! O enredo de “Nada Me Faltará” se passa na cidade de São Paulo. A trama começa com Cris e Carlos, dois amigos de longa data, falando ao celular. Eles tratam do recente reaparecimento de Paulo Maturello, um grande amigo da dupla. Paulo, um analista de sistemas de 36 anos, acabou de chegar à casa da mãe, Dona Inês, depois de um ano sumido. Ele desapareceu em um final de semana. Ao viajar de carro com a esposa, Luci, e a filha de quatro anos, Ingrid, para um sítio de um amigo em Ibiúna, Paulo nunca mais foi visto. Na verdade, não apenas ele sumiu: a família toda (Luci e Ingrid) escafedeu-se misteriosamente. O caso deixou os parentes, os amigos e os colegas dos Maturello transtornados. Passado doze meses do sumiço do trio, a polícia não tinha noção nenhuma do que poderia ter acontecido na fatídica viagem (eles nem sequer chegaram a pôr os pés no sítio). Aí, quando todos já tinham voltado à vida normal, Paulo retorna surpreendentemente como se nada demais tivesse acontecido. É sobre tal tema que Cris e Carlos conversam ao telefone. O mais estranho da situação é que o amigo deles voltou sozinho (não há sinais de Luci e de Ingrid) e sem se lembrar do que ocorreu no último ano. Para Paulo, o tempo não passou. Ele parece ter acordado normalmente e não se lembra de nada da viagem realizada com a esposa e a filha para o interior de São Paulo. Não é preciso dizer que de tão absurda que é essa história, os amigos, a polícia, os médicos e a família de Paulo começam a duvidar da sanidade mental do rapaz. Por mais que Paulo Maturello insista em dizer que não há nada de errado com ele, investigações são realizadas. Primeiramente é a polícia que começa a interrogar o analista de sistemas. Para o investigador Braga, responsável pelo caso, Paulo estaria envolvido no assassinato de Luci e Ingrid e estaria posando de vítima da situação. Depois é o Dr. Leopoldo que passa a estudar a mente do paciente (Paulo inicia terapia com o psicólogo). Por fim, os familiares (Dona Inês, a mãe de Paulo, não acredita na versão contada pelo filho; e Seu Olímpio, o sogro, acredita que a filha e a neta irão voltar em breve já que o genro retornou) e os amigos (Cris e Carlos tentam dar apoio ao protagonista; e Johnny, colega de Paulo, não acredita na versão dada pelo recém-aparecido) também começam a tentar entender o que se passou. O suspense que roda a trama de “Nada Me Faltará” é: o que aconteceu efetivamente para Paulo ficar um ano sumido e voltar para casa sem memória e sem a esposa e a filha pequena? Aparentemente há duas hipóteses iniciais para este caso: ou ele aprontou algo cruel com Luci e Ingrid e está tentando despistar a polícia e os familiares; ou um evento extraordinário apagou as lembranças do rapaz a ponto de ele não se lembrar de nada. De qualquer forma, um grande mistério suscita uma série de questionamentos e de intepretações por parte das personagens ficcionais da narrativa e dos leitores da publicação. “Nada Me Faltará” é um livro curtinho (uma das características das novelas). Suas 144 páginas estão divididas em 19 capítulos. É possível ler esta obra em uma batida só. Foi o que fiz na última terça-feira à noite. Precisei de pouco mais de duas horas para percorrer todo o seu conteúdo. Essa é uma das vantagens das novelas – elas permitem uma imersão literária de média duração. O que chama mais a atenção do leitor nesta narrativa de Lourenço Mutarelli é, obviamente, a estrutura dialógica do texto. A história inteira de “Nada Me Faltará” é construída em diálogos. E quando digo que o livro é 100% o discurso das personagens, não estou exagerando. Não há nada mais do que as vozes das pessoas que protagonizam essa história nas páginas da obra. Não temos, por exemplo, as indicações de quem fala ou os detalhamentos das expressões e dos gestos dos falantes, algo que normalmente acompanha os diálogos na literatura. Também não temos narração (você já leu um livro sem narrador? Agora posso dizer que eu já li!). Esqueça a descrição dos cenários, os pensamentos dos protagonistas... Em “Nada Me Faltará”, temos apenas as conversas das várias personagens desta trama e nada mais! Além disso, não há a preocupação de sinalizar quando uma conversa termina e quando um novo diálogo começa. O autor simplesmente juntou todas as vozes em um mesmo plano e as colocou em um texto corrido. Assim, ao pular de linha, o leitor pode continuar acompanhando uma discussão já iniciada ou simplesmente avançar para outra cena totalmente distinta (com novas personagens, em um novo cenário e em um tempo narrativo diferente). É preciso atenção e disposição do leitor para interpretar o que está se passando na novela. Então deve ser difícil pra caramba para entender o que está acontecendo nesta narrativa, certo? Aí surge uma das questões mais curiosas de “Nada Me Faltará”. Apesar das conversas não terem indicação de quem está falando nem a sinalização de que houve mudança de cenário, de tempo e de personagens, conseguimos precisar exatamente essas mudanças. É incrível perceber como a história é fluída e instigante, mesmo sem qualquer sinalização prévia do que está acontecendo em cena. De uma linha para outra pode se alterar tudo (ambientes, situações, cenas, personagens e planos narrativos) e ainda assim o leitor consegue entender plenamente o que está se passando na história. Com um texto minimalista ao extremo, Lourenço Mutarelli constrói uma trama saborosa, capaz de prender o leitor em um suspense de tirar o fôlego. Não deixe de notar a técnica refinada do escritor paulistano. Os diálogos são tão bons, mas tão bons, que em muitos momentos não seria necessário nem apresentar as personagens aos leitores (mesmo assim, elas são apresentadas ora mais, ora menos sutilmente). Conseguimos pescar sozinhos quem é quem apenas pela contextualização (prova da excelência dos discursos). Dois bons exemplos disso são Seu Olímpio (pai de Luci) e Humberto (o cunhado de Paulo). Dá para sacar logo de cara que Seu Olímpio é o sogro de Paulo e que Humberto é o marido de Fernanda, a irmã do protagonista. Não precisaria o texto sinalizar explicitamente isso. Ainda assim, nota-se a preocupação de Mutarelli para escancarar quem é quem em sua história (dessa forma, nenhum leitor fica com dúvida). Em conjunto com o tom dialógico, “Nada Me Faltará” possui uma forte pegada de oralidade. Grande parte do charme desta narrativa está nas vozes das personagens. Por isso, nada mais natural do que explorar ao máximo a linguagem falada em detrimento à linguagem escrita. A veracidade e a verossimilhança desta trama de Lourenço Mutarelli passam diretamente pela reprodução da oratória das personagens. Quanto mais fiel à comunicação oral, melhor este livro fica. Por falar em personagens, fiquei positivamente impressionado com a quantidade de figuras que participam desta novela. São 16 personagens interagindo com o protagonista (Paulo Maturello) ou que são citadas nominalmente por ele (Carlos, Cris, Dona Inês, Luci, Ingrid, Johnny, Rodríguez, Seu Olímpio, Fernanda, Humberto, Braga, Dr. Leopoldo, Dr. Ademar, Alice, Bia e Ivan). E para espanto de quem possa achar esse número inviável ou que possa gerar certa confusão na cabeça do leitor (ainda mais por causa da característica do texto, feito inteiramente em diálogos), informo que isso não acontece. Apesar das várias personagens (número maior do que normalmente encontramos em uma novela), o leitor não fica perdido em nenhum momento. Repare como cada personagem é marcante e essencial para a trama. “Nada Me Faltará” é uma aula prática de como construir personagens e de como inseri-los em um enredo ficcional. Não é preciso dizer que este livro tem uma forte dinâmica teatral. O texto construído inteiramente em diálogos, a forte oralidade e as várias personagens que entram e saem o tempo todo de cena escancaram essa característica. Apesar de lembrar muito um roteiro teatral, não confunda – temos aqui uma narrativa literária. Outro aspecto elogiável de “Nada Me Faltará” é o humor. Em contradição ao suspense (ao melhor estilo romance policial noir), temos muitas cenas, pessoas e situações engraçadas. Na maioria das vezes o humor é sutil e inteligente – a parte em que Paulo faz terapia me pareceu uma versão mais comportada de “O Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras), um dos romances mais polêmicos de Philip Roth. Porém, há também momentos de humor mais pastelão – a cena em que o cunhado metido a brother cogita que Paulo foi abduzido por extraterrestres é hilária! De qualquer maneira, essa veia mais cômica ajuda a diminuir um pouco o tom sombrio e pesado da narrativa. Gostei bastante do tom crescente do suspense. O livro começa com um mistério: o que aconteceu com Paulo para ele ter desaparecido por um ano? Essa questão permeia a narrativa até o final e intriga a família, os amigos, a polícia, os psicólogos, os leitores e até mesmo o próprio protagonista. A resposta para essa complicada pergunta embala o drama psicológico do começo ao fim, sem que a tensão dramática esmoreça. Nos capítulos finais, o leitor já está com o coração na mão para saber o que se passou efetivamente com a personagem principal de “Nada Me Faltará”. Por falar em desfecho, o desenlace desta novela é aberto. Sim, caro leitor do Bonas Histórias, você ouviu/leu corretamente: não temos aqui um final fechado (a trama não é resolvida de maneira definitiva e clara). Você precisará chegar ao seu próprio veredito para o que aconteceu com Paulo e sua família. Talvez esse recurso narrativo frustre muitos leitores mais conservadores (ávidos por uma explicação mais mastigadinha). Na minha opinião, a escolha de Lourenço Muteralli para encerrar sua obra é perfeita! Afinal, quem foi que disse que temos uma resposta concreta e objetiva para tudo nessa vida, hein? Há muitos episódios que carecem de desfechos fechados, por mais que queiramos chegar ao fim dos mistérios. Sei que “Nada Me Faltará” não é o livro mais famoso de Lourenço Mutarelli. Mesmo assim, este título merece ser conhecido pelos aficionados da boa literatura brasileira. Se eu já era fã do escritor paulistano, agora sou ainda mais. E se você achou esta obra uma aula de como produzir ficção literária (e ela é mesmo!), saiba que Mutarelli também ministra oficinas literárias. Inclusive, seu próximo curso abriu há pouco inscrições na Balada Literária e será voltado para quem deseja se aperfeiçoar na escrita de romances e novelas. Para os jovens escritores, este é um programão imperdível! Assim como “Nada Me Faltará”, obviamente. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Passeios: Escape Games - Uma aventura real e divertida
Desde a metade do ano passado, a cidade de São Paulo entrou no circuito dos escape games ou dos escape rooms. Essa modalidade de jogo, desenvolvida no Japão e disseminada na Europa e nos Estados Unidos, coloca os participantes em uma aventura real. O grupo de amigos (os jogos normalmente variam de 4 a 16 pessoas) são presos dentro de uma sala e precisam escapar em 60 minutos. Para saírem antes do tempo esgotar, é preciso desvendar os enigmas da sala. Cada sala possui uma ambientação e um enredo próprios. Há desde prisões do início do século passado, bancos clandestinos, hotéis decadentes, viagens interplanetárias e lugares fantasmagóricos. A diversão é muito interessante. Até mesmo aqueles que entram descrentes e um tanto desconfiados acabam rapidamente entrando na brincadeira. A emoção de precisar descobrir as charadas torna o desafio eletrizante. A sensação é que estamos vivenciando um filme de suspense, onde qualquer coisa pode acontecer. O preço não é tão salgado assim, principalmente para quem vai de vez em quando nessa atividade. Uma hora de jogo sai por aproximadamente 60 reais (o dobro de uma sessão de cinema, por exemplo). Há lugares mais baratos e outros mais caros, mas todos ficam próximo dessa média. As melhores opções são o Escape 60, o Escape Room SP, Escape Time, Puzzle Room e Escape Now. Os agendamentos e as compras dos jogos são feitos normalmente no site das empresas. Quem está procurando algo diferente e divertido para fazer na cidade de São Paulo, saiba que pode haver uma sala de escape game ou de escape room pertinho de você. Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Passeios #SãoPaulo #EscapeGames #EscapeRooms #Escape60 #EscapeRoomSP #EscapeTime #PuzzleRoom #EscapeNow
- Livros: A Outra Casa - Sophie Hannah e a série Waterhouse e Zailer
Sophie Hannah é um dos principais nomes da literatura britânica na atualidade. Na iminência de completar 50 anos de idade, a escritora nascida em Manchester e moradora de Cambridge se destaca tanto pela produção de romances policiais quanto pela produção poética. Enquanto suas coletâneas de poemas são aclamadas pela crítica e recebem vários prêmios, as narrativas criminais da autora caem no gosto dos leitores e são adaptadas para a televisão. Em outras palavras, Hannah é o tipo de artista versátil (trafega tranquilamente entre a prosa e os versos) e bem-sucedida nas duas pontas do mercado editorial (agrada ao mesmo tempo a crítica literária e o público final). A maior prova da excelência do trabalho literário de Sophie Hannah pode ser sintetizada em um fato ocorrido há quase uma década: a autora inglesa foi escolhida pela família de Agatha Christie para dar continuidade à série de romances de Hercule Poirot, uma personagem clássica da literatura universal (ele é, depois de Sherlock Holmes, o mais famoso detetive dos livros policiais). Curiosamente, Hannah é fã da ficção de Christie desde pequena, quando começou a ler as obras protagonizadas por Poirot e por Miss Marple, outra figura marcante da Rainha do Crime. Escrevendo novas tramas do detetive belga desde 2014, Sophie Hannah já lançou quatro livros com essa linha editorial: “Os Crimes do Monograma” (HarperCollins), “Caixão Fechado” (HarperCollins), “O Mistério dos Três Quartos” (Edições Asa) e “The Killings at Kingfisher Hill” (ainda sem tradução para o português). Com essas credenciais colocadas à mesa, nada melhor do que conhecermos, no Bonas Histórias, um pouco mais do trabalho desta destacada autora da literatura contemporânea em língua inglesa. No post de hoje da coluna Livros – Crítica Literária, vamos tratar especificamente de “A Outra Casa” (Rocco), um dos títulos criminais de Sophie Hannah. Assim, deixamos de lado, por enquanto, sua poesia e suas histórias de Hercule Poirot e nos atentamos exclusivamente às tramas com personagens originais. “A Outra Casa” é um romance policial que integra a série “Waterhouse e Zailer”, o maior sucesso literário de Hannah até aqui. Inaugurado em 2006, com o livro “Little Face” (sem publicação no Brasil), “Waterhouse e Zailer” apresenta a rotina de um departamento de polícia no interior do Reino Unido. Os protagonistas desta coletânea são Simon Waterhouse, um detetive brilhante e muito esquisitão, e Charlie Zailer, uma policial bonita, carismática e com mais traquejo social. Em cada título da série, que já contabiliza onze volumes (a maioria ainda não foi traduzida para o português), a dupla precisa solucionar um crime diferente. Para tal, Simon Waterhouse e Charlie Zailer têm a colaboração de um grupo de colegas com características bem peculiares. Sam Kombothekra, Colin Sellers, Chris Gibbs e Proust complementam o time de detetives. Ao mesmo tempo em que acompanhamos as investigações, assistimos aos dramas dos integrantes deste peculiar departamento de polícia. Best-sellers na Inglaterra e nos Estados Unidos, “Point of Rescue” (sem publicação no Brasil), de 2008, e “The Other Half Lives” (também sem tradução para o português), de 2009, terceiro e quarto livros da série “Waterhouse e Zailer”, respectivamente, foram adaptados para a televisão britânica em um bem-sucedido thriller policial. O primeiro episódio da temporada inicial de “Case Sensitive”, como o programa de TV foi nomeado, foi visto por seis milhões de telespectadores no Reino Unido em 2011. A segunda temporada foi lançada no ano seguinte e teve público médio de quatro milhões de espectadores por episódio. Couberam a Olivia Williams e Darren Boyd interpretar a dupla Charlie Zailer e Simon Waterhouse nas telas. Roteirizado por Kate Brooke e Sheelagh Stevenson, “Case Sensitive” foi dirigido por Charles Martin. Publicado em 2011, “A Outra Casa” é o sexto livro da série “Waterhouse e Zailer”. Ou seja, o leitor deste livro já pega a história dos policiais no meio (mas a trama criminal é nova). Curiosamente, este título marca exatamente a metade da coletânea – sexta obra das onze lançadas até agora. Neste ponto da narrativa, Simon Waterhouse e Charlie Zailer já se casaram e foram viajar de lua de mel para a Espanha. Enquanto a dupla de protagonistas está de férias, o inspetor Sam Kombothekra fica responsável por iniciar as investigações de um crime bastante peculiar. Não é preciso ter lido os volumes anteriores de “Waterhouse e Zailer” para compreender esta narrativa. Sophie Hannah tem a preocupação de contextualizar aos leitores novatos as características das personagens principais (dos policiais e de seus familiares) e os fatos anteriores mais importantes. O enredo de “A Outra Casa” se passa basicamente entre 17 de julho de 2010 e 17 de setembro de 2010. Em uma madrugada de sexta-feira para sábado, Catriona Louise Bowskill, uma empresária de 34 anos que mora com o marido em Silsford (cidade fictícia no interior da Inglaterra), acessa um famoso site de venda de imóveis. Connie, como ela é chamada pelos amigos e familiares, está interessada em uma residência na Rua Bentley Grove, 11, em Cambridge. A casa foi colocada à venda recentemente pelo valor de 1,2 milhão de libras. Depois de conferir a planta e as fotos do imóvel, Connie clica no botão para fazer um passeio virtual pelo interior da construção. Ao assistir ao vídeo da parte interna da casa, ela leva um susto: no meio da sala tinha um corpo de uma mulher morta. Desesperada, Connie acorda o marido, Christian Bowskill, que dormia naquele momento no quarto do casal. Ao ser levado para o computador da esposa, Kit (este é o seu apelido) não vê nada estranho. A cena da mulher morta não aparece mais no passeio virtual. Mesmo assim, Connie resolve telefonar para a polícia e uma investigação é iniciada. Como Simon Waterhouse está de férias (em lua de mel com Charlie Zailer pela ensolarada Península Ibérica), o caso é conduzido por Sam Kombothekra. Apesar de achar o episódio bizarro (quem mata uma pessoa e coloca as imagens do crime em um site de venda de imóveis?), o inspetor decide levar à sério os relatos de Connie. Mal começa a investigação, Sam percebe que a história contada pelo casal Bowskill é muito mais esquisita do que aparentava de início. Connie consultava a casa em Cambridge escondida do marido. Eles não tinham a intenção de se mudar para outra cidade. Para completar, aquele imóvel da Rua Bentley Grove, 11 já tinha aparecido alguns meses antes no GPS do carro de Kit. Quando sua esposa pegou o veículo emprestado e solicitou o caminho até a sua casa, o GPS direcionou para Bentley Grove, 11. A partir daí, Connie começou a suspeitar que o marido a estivesse traindo. Esse caso suscita alguns questionamentos interessantes. Existe crime sem que um corpo seja encontrado no local apontado pela testemunha? A cena vista ou o vídeo assistido em uma página de internet serve como prova de algo? Podemos falar em assassinato se ninguém sumiu efetivamente ou foi dado como desaparecido? Sem saber o que fazer, o inspetor Sam só tem uma alternativa: telefonar para Simon Waterhouse e pedir ajuda para o melhor policial do distrito. Para frustração de Charlie Zailer, que esperava passar quinze dias de tranquilidade e romantismo ao lado do maridinho, Simon passa a contribuir com o caso a distância. Quanto mais a polícia investiga o casal Bowskill, mais intrigante fica aquele caso. Para piorar ainda mais as coisas, Connie e Kit passam a se ver como inimigos. Cada um deles suspeita que o cônjuge esteja envolvido no possível assassinato. “A Outra Casa” é um livro volumoso. Ele possui 464 páginas, que estão divididas em 29 capítulos (27 capítulos numerados mais um prefácio e um posfácio). Levei três tardes/noites para concluir esta leitura. Inicie a obra na segunda-feira no finalzinho da tarde e a terminei na quarta-feira à noite. Devo ter levado ao todo entre dez e onze horas para percorrer suas páginas. De modo geral, “A Outra Casa” é um bom romance policial. Com uma trama original, boa construção de personagens (tanto dos suspeitos quanto dos policiais), um clima constante de suspense e mistério, boas doses de humor e várias reviravoltas no enredo, esta obra de Sophie Hannah não decepciona os fãs deste gênero narrativo. O principal mérito de “A Outra Casa” está em manter o leitor preso às suas páginas o tempo inteiro. Diante de um caso tão intrigante, simplesmente não conseguimos nos desgrudar desta história. À medida que evolui, a narrativa reserva mais mistérios e mais surpresas. Impossível não gostar de um título assim! O clima de suspense de “A Outra Casa” é potencializado pelo uso de alguns expedientes narrativos interessantes. Sophie Hannah inicia mostrando a planta da casa da Rua Bentley Grove para os leitores, antes mesmo de apresentar a parte textual do livro. Confesso que fiquei analisando os traços da construção, como se pudesse encontrar algo de suspeito logo de cara. Depois, a escritora começa o prefácio (que também pode ser chamado de capítulo zero) com um texto aparentemente desconexo envolvendo o(s) criminoso(s)/suspeito(s) e as vítimas. Impossível não querer descobrir o que está se passando naquela cena. Por fim, temos ao longo dos capítulos do romance as evidências policiais coletadas pelos investigadores. Mesmo não compreendendo onde aquelas peças se encaixam no quebra-cabeça narrativo, ficamos ainda mais curiosos para acompanhar os próximos passos da história. Simultaneamente à trama policial de bom nível, assistimos a um retrato factual e ácido da realidade no interior da Inglaterra. Possivelmente, esse seja o elemento mais surpreendente desta obra de Sophie Hannah. Em uma crônica de costumes com tintas pesadas, a escritora apresenta o drama de se morar em uma pequena cidade inglesa. Famílias superprotetoras, relacionamentos tóxicos, mães castradoras e carreiras limitadas são os inimigos de muitas personagens, fadadas a passar o restante da vida presos em uma realidade monótona. Não à toa, os problemas psicológicos e as frustrações inundam o dia a dia e os relacionamentos dessas pessoas. Para quebrar o tom pesado da narrativa (afinal, estamos falando de assassinato, de cotidianos melancólicos e de indivíduos perturbados psicologicamente), Sophie Hannah acrescenta muito humor ao seu livro. “A Outra Casa” tem várias passagens engraçadas. Os melhores momentos são os que Connie Bowskill está na casa dos pais com a irmã, o cunhado e o sobrinho. A tragicomédia de sua rotina familiar consegue cativar o leitor. Além de nos divertirmos com as bizarrices da família de Connie, acabamos nos solidarizando com a moça. Ninguém merece viver desse jeito! O humor do romance é tipicamente inglês (que divide tanto as opiniões – há quem adore e há quem o abomine). Outro ponto que gostei em “A Outra Casa” foi da construção das personagens. Invariavelmente, Sophie Hannah cria figuras redondas. Inclusive os principais policiais da série são pessoas contraditórias, com pontos positivos e pontos negativos. Isso fica mais claro em Simon Waterhouse. O que podemos dizer de um brilhante detetive que deixa sua esposa frustrada em plena lua de mel, hein? Ele simplesmente não quer fazer sexo com ela. Incrível! Waterhouse é o oposto do estereótipo dos policiais e dos agentes secretos presentes na literatura do século XX, que exalam testosterona e que não titubeiam antes de pular na cama da primeira mulher bonita que passou a sua frente. Se por um lado Simon deixa qualquer machão constrangido pela possível falta de libido, por outro lado ele é o tradicional sabichão (ao melhor estilo Sherlock Holmes e Hercule Poirot), capaz de desvendar qualquer mistério com sua mente privilegiada. Neste livro, o detetive de Hannah acaba lembrando bastante as habilidades de Miss Marple (assim como a detetive de Agatha Christie resolvia os mistérios sem sair de casa, Simon Waterhouse passa mais da metade do romance distante da Inglaterra). Como um bom romance policial, há muita intertextualidade literária nesta obra. Os investigados e os investigadores estão sempre citando autores, títulos e textos literários. A maior parte das citações engloba a poesia inglesa (um campo que Sophie Hannah domina como ninguém, além de ser uma referência). Por não ser especialista em poesia (muito menos em poesia britânica), admito que fiquei boiando durante as citações dos versos e dos poetas pelas personagens do livro. Se eu conhecia uma ou duas obras poéticas comentadas foi muito. Para apreciar “A Outra Casa” é preciso colocar na cabeça que este romance possui um duplo conflito: o crime propriamente dito e a dinâmica policial para investigá-lo. Esse é uma das principais qualidades da série “Waterhouse e Zailer”. Por isso, não se assuste quando uma das partes da trama for interrompida para a outra se sobressair. A própria estrutura do livro foi pensada para contemplar essa dinâmica da narrativa. Note que os capítulos pares abordam um aspecto da história enquanto os capítulos ímpares enfocam o outro aspecto. Enquanto a trama de Connie e Kit é narrada em primeira pessoa (por ela), a trama dos policiais é narrada em terceira pessoa (por um narrador observador do tipo onisciente e onipresente quanto à realidade dos investigadores). De aspecto negativo, tive a impressão de ter encontrado alguns equívocos na tradução de “A Outra Casa”. Essa sensação surgiu principalmente na escolha de alguns tempos verbais e de alguns sujeitos das orações. Sinceramente, não sei se o problema está no texto original ou em sua tradução (feita pelo competente Alexandre Martins). Como não tenho certeza sobre a origem desses tropeções, preferi construir a primeira frase desse parágrafo usando o termo “tive a impressão”. Vai ver que o equívoco seja mais da minha parte (no processo de leitura) do que no texto propriamente dito (produção do original ou da tradução). Se for essa última alternativa, peço desculpas desde já à Sophie Hannah e ao Alexandre Martins (foi mal, pessoal!). Outra questão delicada deste livro está no gasto de muita tinta (palavras) para contextualizar a história dos detetives para os leitores que não estão envolvidos com a série. Se por um lado esse expediente deixa o romance mais didático (ideal para quem não conhece os outros títulos da coletânea), por outro ele acaba alongando o texto (para desespero de quem sabe o que está acontecendo e já conhece bem as personagens retratadas). Há a sensação de que o livro se estende mais do que deveria. De qualquer forma, “A Outra Casa” é um romance policial que vale a leitura. Sophie Hannah é uma autora que precisa ser conhecida por quem gosta da moderna literatura internacional. Além disso, “Waterhouse e Zailer” é uma série criminal interessante e original. Se as editoras brasileiras publicassem os demais livros da saga de Simon Waterhouse e Charlie Zailer (principalmente, “Point of Rescue” e “The Other Half Lives”, que merecem a tradução para o português) em ordem cronológica/sequencial, acredito que muitos leitores nacionais poderiam embarcar nessa saga com mais afinco. Por enquanto, temos que nos contentar com “Uma Certa Crueldade” (Rocco), o romance publicado em 2012 (sétimo volume da coletânea) e que dá sequência à trama imediatamente depois de “A Outra Casa”, “A Vítima Perfeita” (Rocco), de 2015 (nono título) e “O Portador” (Rocco), de 2019 (o décimo primeiro e último episódio da coleção). Quem souber de mais novidades sobre essa série, por gentileza, me avise. Valeu! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Crônicas: Eu e o Mundo - 2 - Quando Deixamos de Ser Jovens?
Estou com um problema sério. Sei que não sou mais jovem, mas também não me sinto velho. Tenho 33 anos e não sei em qual patamar estou: se mais perto dos jovens ou se mais perto dos velhos! Dependendo do ambiente onde estou e das pessoas com quem interajo, sou classificado de maneira distinta. Daí minha dúvida. Não sei se essa ambiguidade é típica da minha idade ou se ela é sentida também por pessoas de outras faixas etárias. Escrevendo assim pode parecer estranho esse meu questionamento. Por isso, me sinto na obrigação de explicá-lo. Minha dúvida sobre em qual estágio da vida estou se acentuou nas últimas semanas com minha decisão de voltar para a sala de aula como aluno. Eu sou publicitário de formação (graduação) e possuo também uma pós-graduação (em Gestão da Inovação) e uma especialização (Administração de Empresas). Entretanto, sempre gostei muito de ler e escrever e alimentava um antigo sonho de fazer uma faculdade de Letras. E depois de muito adiar, resolvi, enfim, me matricular em um curso de graduação desta área. E para meu espanto, recebi comentários indignados de alguns familiares e amigos: "Outra faculdade? Você não está velho para isso?!", "Você não tem mais idade para essas coisas..." e "Na sua idade, é melhor fazer uma pós e não uma graduação". Recebi as críticas com paciência e compreensão, analisando bem o que essas pessoas queriam me indicar. Na opinião geral, eu era velho demais para frequentar novamente um curso de graduação. Não combinava comigo (e principalmente com a minha faixa etária) prestar um vestibular e me matricular em uma faculdade. Obviamente, não concordei com aquela sentença dos meus conhecidos. Aprender, assim como tantas outras coisas da vida, não tem limitação de idade ou tempo determinado para ser realizado. Quem disse que apenas os garotos e as garotas de dezoito, dezenove, vinte e vinte e poucos anos podem fazer faculdade? Quem disse que apenas as crianças e os adolescentes podem fazer viagem de intercâmbio cultural para outros países? Em muitos casos, vejo as pessoas mais velhas aproveitando mais e melhor esses cursos e essas viagens quando comparadas ao público mais jovem. Seguindo essa linha de pensamento, quem disse que apenas os jovens de vinte e trinta anos podem se casar? Vejo cada vez mais casais com muitas décadas nas costas constituindo novas famílias através de relacionamentos saudáveis e felizes. Matrimônios estes até mais interessantes se comparado aos da "molecada". Assim, desde quando alguém com trinta e poucos, quarenta e tantos, cinquenta e poucos, sessenta ou oitenta e muitos anos é velho? É maluquice pensar dessa forma. A geração dos meus pais, por exemplo, na casa dos sessenta anos, deve viver na plenitude da saúde física e mental por mais quarenta anos (a média de vida será de cem anos para eles – considerando as variáveis econômicas e geográficas). E aí, se eles entrarem hoje em uma faculdade de quatro anos, terão trinta e seis anos de uma nova atividade profissional pela frente. Se casarem novamente, terão um longo período (quatro décadas) para usufruir da nova família e do novo matrimônio. É muito tempo para ser desperdiçado! Trinta e seis ou quarenta anos é tempo à beça! Não dá para dizer, sem cometer injustiças, que eles sejam velhos com tanto caminho ainda pela frente. Nesse caso, como posso me considerar um senil se não vejo meus pais nessa condição? Seria o único filho velho de pais jovens no mundo... Diferente do senso comum, o tempo do ser humano não é mais um recurso escasso. Pelo contrário. Ele tem se tornado um recurso muito abundante em nossa sociedade. Não é raro encontrarmos pessoas em condições físicas e mentais para trabalhar e para exercitar uma atividade desperdiçando os seus dias não fazendo nada. Quantos aposentados e quantas aposentadas ficam vagando pelas cidades se sentindo tediosos por não ter nada para fazer, enquanto poderiam muito bem estar fazendo algo produtivo. Se minha geração viver também até os cem anos em plena forma, tenho quase setenta anos pela frente. Setenta! É muita coisa para eu me sentir velho agora. Uma faculdade é algo menor que eu posso fazer. Tenho tempo para mudar duas ou três vezes ainda de profissão e realizar coisas até então imagináveis antes de morrer. Fiz minha primeira graduação com dezoito anos. A minha segunda agora é com trinta e três. E a próxima, será com quantos anos? Quarenta? Cinquenta? Qual curso será que desejarei me aventurar depois de terminar Letras. Sempre gostei de História. E Jornalismo? É tentador pensar sobre isso. Voltando a pergunta inicial de minha reflexão: qual é a idade oficial para deixarmos de ser jovens e passarmos a ser velhos? Não sei. Essa dúvida é cada vez maior em nossa sociedade. Vejo senhores de cinquenta e sessenta anos correndo nos parques da cidade com mais saúde, fôlego e qualidade de vida do que muitos rapazes de dezoito anos. Vejo mulheres de quarenta e cinquenta anos tentando engravidar enquanto as de vinte tentam evitar se tornar mães. Quem é o velho e quem é o jovem nessas comparações? Sinceramente não sei. Sendo jovem ou velho, só sei que minhas aulas começam em fevereiro. Não vejo a hora delas se iniciarem. Desejem-me sorte! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Paranoias Modernas - Apresentação
Acredito que os arqueólogos extraterrestres virão ao nosso planeta inabitável, daqui alguns séculos (ou seria décadas?), para estudar nossa civilização. Eles vão escavar nossas maiores cidades atrás de evidências sobre nosso estilo de vida, nossas crenças e nossos hábitos. Tenho sérias dúvidas se eles vão, após concluir os trabalhos investigativos, nos classificar como uma raça primitiva, pouco racional e aculturada ou como a espécie mais evoluída, racional e culturalmente desenvolvida que já habitou essas bandas do Sistema Solar. Como conseguíamos viver amontoados em pequenas faixas do território? Por que precisaríamos de tantas coisas feitas de plástico? Para que tantos aparelhos eletrônicos? Por que nossas famílias seriam cada vez menores e mais diversificadas? Será que ninguém percebia que o nosso estilo de vida era insustentável? Por que a maioria das pessoas aceitava trabalhar em um sistema de semiescravidão para uma minoria de privilegiados sem nunca se rebelar? Por que tínhamos tanta vontade de acumular utensílios aparentemente fúteis? Por que produzíamos grandes latas com rodas tão velozes se elas vagavam tão lentamente em vias superlotadas? Alguém poderia explicar o fato de gostarmos tanto de nos matar, seja em grandes conflitos armados ou na violência banal do cotidiano urbano? Qual a utilidade dessa linguagem binária que estaria presente em todos os cantos? Será que não percebíamos que nossos hábitos estavam destruindo o meio-ambiente? E por que tínhamos uma fixação tão doentia por papéis que guardávamos nos bolsos? Peço desculpas desde já a você, caro leitor, se você for um terráqueo que habita nosso planeta no século XXI. Sua leitura também será bem-vinda, até porque este pobre escritor da sua espécie, apesar dos protestos inúteis, está inserido no sistema econômico ainda em voga por aqui. Contudo, gostaria de deixar bem claro para todos que as narrativas da série Paranoias Modernas são dirigidas prioritariamente aos futuros arqueólogos que virão à Terra. Minha pretensão é que através dessas breves histórias ambientadas nos tempos atuais, eles possam compreender como é nossa vida na sociedade humana contemporânea. Só espero poder influenciar positivamente as avaliações dos futuros visitantes. Exatamente por isso, criei histórias fidedignas à nossa realidade. Cada personagem ficcional e cada trama dos 11 contos de Paranoias Modernas visam retratar um aspecto da vida da sociedade mais evoluída da Terra. Veja, a seguir, a programação de posts de Paranoia Moderna, a nova série narrativa que desenvolvi para a coluna Contos & Crônicas: - Conto 1 – 14 de fevereiro de 2018 – Celebração - Conto 2 – 10 de março de 2018 – Culatra - Conto 3 – 11 de abril de 2018 – Aos Quarenta - Conto 4 – 13 de maio de 2018 – O Estagiário - Conto 5 – 8 de junho de 2018 – Princípios - Conto 6 – 16 de julho de 2018 – O Pior Inimigo do Feminismo - Conto 7 – 13 de agosto de 2018 – Idealismo - Conto 8 – 16 de setembro de 2018 – Em Pele de Onça - Conto 9 – 16 de outubro de 2018 – A Moça da TV - Conto 10 – 11 de novembro de 2018 – Vestido - Conto 11 – 21 de dezembro de 2018 – Pedido Natalino Acompanhe mensalmente as histórias de Paranoias Modernas aqui no Blog Bonas Histórias. Boa leitura a todos! ----------------- Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Paranoias Modernas - Pedido Natalino
Papai Noel andava de um lado para o outro em sua casa. Era uma manhã de inverno típica da Lapônia. Do lado de fora, os blocos de neve se acumulavam insistentes na paisagem. No interior da residência, seu proprietário estava pensativo e totalmente indiferente ao cenário gélido. Às vezes, ele, em meio ao vai para lá, vem para cá, resmungava baixinho como se discutisse consigo mesmo. Tal comportamento era incomum para aquela época do ano. O trabalho mais intenso antes do Natal já havia se encerrado. Os presentes das crianças do mundo inteiro estavam devidamente embalados e etiquetados. Faltando três dias para a data tão aguardada, o bom velhinho e suas renas precisavam descansar. A maratona entre 24 e 25 de dezembro exigia um esforço descomunal de todos da equipe. Mesmo sabendo da importância de se poupar energia na antevéspera de Natal, Papai Noel caminhava com a cabeça abaixada pelos cômodos de sua casa. - Qual é o problema, meu velho? - quis saber Mamãe Noel. Ela estava sentada no sofá da sala costurando a roupa vermelha que seria usada em poucos dias pelo marido - Você não pode se estressar agora! É preciso relaxar. O senhor de barbas brancas não respondeu. Como se não tivesse ouvido a fala da esposa, continuou, em silêncio, sua perambulação. Seu problema deveria ser muito sério para ele agir daquela maneira, pensou Mamãe Noel. Ela largou seus afazeres e foi para perto do marido, que neste instante estava circulando a mesa da cozinha. - É problema com o Natal deste ano, né?! Pode me contar sua preocupação. Quem sabe não posso ajudá-lo como já fiz tantas vezes. Papai Noel olhou a esposa nos olhos pela primeira vez naquele dia. Depois de tantos anos juntos, ela permanecia sendo sua confidente e a parceira mais fiel. Ele não queria preocupá-la com suas dificuldades de trabalho, mas também sabia que ela era a única pessoa que poderia solucionar aquela complicada questão. Por isso, sentou-se à mesa da cozinha. - O problema é com o presente de uma família. Só falta este para eu fechar a lista deste ano. - Assim você me mata de susto, Claus! Achei que fosse algo relacionado às renas ou ao trenó. Só um presente, então? Vá até a sua oficina e produza o brinquedo. Faltam três dias para o Natal. É tempo suficiente. Achei que fosse um problema mais grave... - É grave sim, meu bem. Não sei como presenteá-los. - Como assim? - Mamãe Noel ainda não compreendia o motivo para tanto desespero - O que eles pediram para você? - A mesma coisa dos anos anteriores - o marido demonstrava seu desânimo atirando o corpo para trás na cadeira - As crianças deste lar vêm repetindo o pedido há três gerações. Agora, estou em uma situação que não consigo mais atendê-los. - E o que eles sempre pedem, afinal? - Um ano melhor. Mamãe Noel riu achando a solicitação inusitada. Apesar da aparente simplicidade do pedido, havia uma lógica inteligente por trás dele. Não havia nada melhor para uma família ganhar do que um ano melhor do que o anterior! Diante da risada da esposa, o bom velhinho explicou para ela como aquela história tinha se iniciado. A questão era muito mais grave do que ela estava pensando. Há sessenta anos, ao ver a miséria de sua casa, um menino pobre fez um pedido singular: "Papai Noel, desejo para este Natal um ano melhor para minha família". Na ocasião, a solicitação foi considerada simples por Santa Claus. Ele entregou um belo assado para a ceia natalina daquela gente. O presente foi considerado o melhor que a família, que não via um pedaço de carne há muito tempo, poderia receber. No ano seguinte, o menino fez o mesmo pedido: "Quero um ano melhor, Papai Noel". Como os parentes do garoto não passavam mais fome, o bom velhinho trouxe brinquedos simples para as crianças. Elas adoraram, já que não tinham ganhado nada deste tipo no ano anterior. Para os adultos, Noel trouxe ferramentas de trabalho. Aquele foi considerado o melhor Natal por todos da família. Passados outros doze meses, o menino repetiu a solicitação. O progresso naquela casa era evidente. Com as ferramentas ganhas no final do ano, os adultos puderam aumentar o trabalho e colocar mais comida à mesa. Também puderam construir novos brinquedos para a criançada. Vendo a nova situação, Papai Noel trouxe uma linda árvore de Natal para embelezar o ambiente. Foi envolta dela que a família celebrou o que considerou a melhor e mais farta ceia da sua história. Rapidamente, aquele garoto se transformou em um homem. Já adulto, ele ensinou seus irmãos e primos menores o que deveriam pedir ao Papai Noel nos Natais. Assim, o bom velhinho, ano após ano, trouxe algo melhor para aquela família. A tradição foi mantida. Os filhos, os netos e os sobrinhos daquele primeiro garoto aprenderam o pedido natalino e passaram a repeti-lo todas às vezes. Dessa maneira, se passaram três gerações. Os presentes se tornaram cada vez mais elaborados. Afinal, a família havia enriquecido muito ao longo do tempo. - Por isso, não sei o que fazer neste ano, querida, para contentá-los. Mamãe Noel, enfim, compreendeu a gravidade do problema do marido. Depois de muito, muito tempo, alguém corria o risco de não ter seu pedido atendido no Natal. - Qual foi o presente que você deu para eles no ano passado, meu velho? - Vendo aquela família rica e feliz, resolvi fazer algo diferente na última hora. Depois de levar os presentes para as crianças do mundo inteiro, visitei aquela casa no finalzinho da ceia. Como não tinha nada concreto para entregar-lhes, resolvi quebrar o protocolo e aparecer pessoalmente. Quando cheguei, todos estavam muito tristes, achando que eu os esquecera pela primeira vez. A minha presença encheu a residência de alegria. Eles não acreditavam que eu resolvera me revelar para eles. O avô chorava emocionado ao me conhecer pessoalmente. Agradeceu pelos presentes à sua família nestes anos todos. Depois, levei as crianças para passear em meu trenó. Elas adoraram o voo. Quando fui embora, ouvi-os dizendo: "Este foi o melhor Natal da história! Sempre sonhamos em conhecer o Papai Noel e ele apareceu especialmente para nós". O problema era muito maior do que Mamãe Noel poderia supor. Aparentemente, não havia mais nada o que pudesse ser feito para tornar a experiência natalina daquela família melhor. Depois de pensar por alguns minutos, ela se levantou da mesa da cozinha com um sorriso nos lábios. - Tive uma ideia! Com a roupa vermelha em perfeito estado, Papai Noel tocou a campainha da mansão. Era manhã de 24 de dezembro. Ao invés de deixar aquela residência por último, como havia feito no ano anterior, agora ela era a primeira a ser visitada. A alegria foi geral. Todos estavam ansiosos para saber o que o bom velhinho iria aprontar desta vez. Ao ser perguntado sobre o que tinha trazido, ele respondeu: - Trouxe todos os presentes do mundo para vocês. Em meu trenó, há os brinquedos que as crianças dos quatro cantos do planeta pediram. É tudo para vocês, meus queridos amigos. Imediatamente, as crianças soltaram um grito de felicidade, correndo em direção aos embrulhos. Havia de tudo ali, coisas que elas imaginavam e que não imaginavam existir. Apesar de já possuírem uma infinidade de carrinhos, bonecas, videogames, bicicletas, bolas, jogos e roupas, é da natureza humana sempre se querer mais. Por isso, os pequenos reviravam com empolgação o grande trenó atrás de novos brinquedos. Vendo os filhos, os netos e os sobrinhos radiantes de alegria, os adultos se sentiram ainda mais satisfeitos. Nunca viram tantos brinquedos juntos na vida e não imaginavam que a criançada pudesse se divertir tanto abrindo os pacotes. - Este é o melhor Natal de todos! - disse uma das crianças extasiada. Papai Noel acompanhou aquele espetáculo com os olhos. Depois, entrou na luxuosa casa. Lá dentro, serviram-lhe o café da manhã. Ele estava feliz, pois outra vez conseguia cumprir o pedido daquele lar. Enquanto degustava a refeição matinal, o velhinho da Lapônia sentiu a presença de alguém ao seu lado. Era o senhor que havia iniciado, quando garoto, a tradição do pedido natalino de sua família. Ele observava o bom velhinho com curiosidade. Era nítido que o proprietário da residência era um homem muito rico e realizado na vida. Ele vestia roupas caras e tinha a postura típica das pessoas bem-sucedidas. Os dois senhores trocaram olhares confidentes como só fazem velhos amigos. O dono da casa jamais esquecera do seu passado e da ajuda recebida nos momentos mais difíceis. - Papai Noel, gostaria de agradecer o que o senhor fez pela minha família neste ano. Nunca os vi tão felizes. As crianças não param de abrir presentes e acho que elas vão se cansar antes de completarem um milésimo dos embrulhos. - É um prazer trazer alegria e felicidade para esta casa. Esta é minha função. Este é o sentido do Natal! - Porém, estou com uma dúvida que está remoendo minha consciência. E o restante das crianças do mundo? O que elas vão ganhar se minha família está recebendo todos os presentes que o senhor fez? - Nada! Não dá para oferecer um Natal melhor para vocês sem prejudicar o dos outros - Santa Claus falava naturalmente enquanto comia um pedaço de bolo de chocolate - Por isso, resolvi atender sua família como ela merece neste ano e deixar as demais para o próximo. - Isso não é correto! - bradou o senhor rico - As crianças desta casa já têm brinquedos suficientes para uma vida inteira. Elas não precisam de mais nada. Elas estão felizes agora porque estão abrindo os presentes, mas depois vão largá-los e ignorá-los. Eu as conheço muito bem. Trata-se de uma alegria passageira. O destino da maioria desses produtos será o lixo amanhã. - Este será o melhor Natal delas, acredite em mim - Papai Noel lambia os dedos sujos - Elas podem não fazer nada amanhã com os brinquedos ganhos, mas hoje vão se esbaldar. - Não!!! - O dono da casa bateu com tanta força na mesa que os pratos voaram - Você precisa detê-las. Estes brinquedos não são da minha família. Você precisa entregar as encomendas para seus verdadeiros donos. - Mesmo que eu quisesse fazer isso, agora não é mais possível. Muitos embrulhos estão desfeitos e eu não conseguiria chegar a todas as casas do planeta a tempo - Papai Noel olhou para o relógio que estava pendurado na parede - Já são dez da manhã. Sozinho, não chegaria nem à metade das residências no prazo. - Nós podemos ajudá-lo, Papai Noel. O dono da casa chamou toda sua família. Juntos, crianças e adultos começaram a reembrulhar os brinquedos. Terminada a tarefa, todos embarcaram no trenó do Papai Noel para ajudá-lo nas entregas daquele ano. Assim que o veículo natalino pousava em uma determinada localidade, cada um dos integrantes daquela comitiva partia para uma residência para levar o presente solicitado. A família trabalhou sem parar um instante sequer. Aquela tarefa, apesar de prazerosa, era muito estafante. Onde já se viu entregar um presente para cada criança do planeta em 24 horas?! Quando os ponteiros do último fuso horário do planeta bateram meia-noite, a tarefa tinha sido concluída com êxito. A felicidade do grupo foi indescritível. Entregar os presentes foi algo que mexeu demais com todos. Nunca aquela família tinha se sentido tão importante e nunca havia feito algo tão generoso. Quando o trenó pousou novamente no jardim da mansão, todos os moradores daquele lugar desceram do veículo. Estavam estafados, mas também estavam radiantes com a experiência vivida. Entregar presentes era o máximo! - Obrigado, Papai Noel. Jamais vamos nos esquecer deste dia - foi o comentário geral. Ao ver o grupo seguir para o interior da residência, o bom velhinho chamou seu amigo mais antigo para uma conversa a sós. O proprietário do lugar voltou para junto do trenó. - Como vocês me ajudaram durante o dia e a noite, sei que não tiveram tempo para preparar nada para a ceia de hoje. Vocês devem estar famintos! Por isso, tomei a liberdade de trazer este assado. Ele é o meu presente deste ano. Espero que gostem. Era o mesmo presente que aquele senhor havia recebido em sua infância miserável. O homem, emocionado com as lembranças, agradeceu e entrou no casarão. Do lado de fora, Papai Noel pode ver, através das janelas, a alegria de todos com o presente recebido. Ele chegou a ouvir alguém gritando de felicidade: - Este é o melhor presente do mundo. Este é o melhor Natal de todos!!! Nos Natais seguintes, aquela família continuou repetindo o mesmo pedido que já fazia há décadas para o Papai Noel. E permaneceu sendo atendida, apesar de nunca mais conseguir ver o dono do trenó voador. A partir daquele momento, o bom velhinho nunca mais teve dificuldades para propiciar um ano melhor para os integrantes daquela casa. Eles descobriram que o grande prazer da vida não estava em ganhar mais e melhores presentes. A satisfação superior estava em oferecer amor e alegria aos outros. Dar era muito mais intenso do que receber. Neste sentido, a família descobriu algo que o Papai Noel sabia há muito tempo: quem mais ficava feliz nos Natais não eram as crianças e sim quem as contentava. Por isso, a cada ano, aquela família passou a organizar por conta própria grandes distribuições de presentes para a meninada pobre. Começaram com os filhos e netos dos funcionários das empresas da família. Depois, seguiram com os meninos e meninas dos bairros próximos de onde viviam. Com o tempo, a generosidade daquela gente alcançou todas as partes da cidade e os municípios vizinhos. Em todo Natal, eles aumentam a escala da ação. O sonho da família é conseguir um dia entregar um brinquedo para cada criança do mundo. Só assim, acham que conseguirão chegar ao ápice da felicidade, como viram certa vez nos olhos de um homem vestido de vermelho que viera visitá-los. ----------------- Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #Natal
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 8, Costura
– E então, Paulo, o que você achou?! – Em minha voz havia um quê de confiança (que meus inimigos poderiam enxergar como sendo de pura prepotência) e uma natural pontinha de curiosidade – Não vai me dizer que você, depois de tudo o que passamos, se arrependeu de ter me contratado, né? Eu começava a reunião de um jeito descontraído. No fundo, sabia da excelência do material entregue na semana passada à Pomelo. Os originais de Guerra e Paz nos Negócios tinham superado as minhas expectativas (e na certa agradaram o editor que, naquele instante, estava sentado à minha frente). Possivelmente, esse livro era o melhor que eu já tinha escrito (o que, por si só, não queria dizer grande coisa). E antes que alguém pense que eu esteja me gabando, afirmo com total clareza do processo de produção textual: os méritos são inteiramente do Roberto, o autor da obra. Trabalhar com texto é se dedicar à costura. Em muitos aspectos, as atividades dos escritores não se diferenciam às dos tecelões. Enquanto os primeiros conectam as ideias nas folhas de papel (ou nos programas de processamento de texto), os segundos juntam as fibras (algodão, linho, seda, nylon) em filamentos têxtis nas máquinas de fiar. Ambos os profissionais precisam amarrar muito bem as pequenas tramas para o conjunto das linhas ganhar forma e sentido. No caso específico do ghost writer, categoria que integro há alguns anos, todas as matérias-primas de seus trabalhos são terceirizadas. Invariavelmente, os resultados desse ofício dependem fundamentalmente da qualidade e da confiabilidade do principal fornecedor – o autor das ideias do livro. Se você não tiver alguém entregando bons e numerosos novelos textuais, não será sua habilidade na costura das linhas que produzirá uma boa obra literária. Já aconteceu de meus contratados ficarem extremamente felizes com os textos que apresentei. Mal sabiam que os méritos, nesses casos, não estavam nas habilidades do escritor aqui e sim na dedicação e na capacitação dos autores envolvidos nas empreitadas. Afinal, foram eles que trouxeram conteúdos ricos, inovadores e interessantes. Se as publicações saíram das gráficas com páginas saborosas, tiremos o chapéu para quem disponibilizou suas receitas (e não para quem agrupou os ingredientes nas formas). Por outro lado, já fui muito criticado por alguns materiais entregues, considerados pelos editores como de baixa qualidade. Aí ninguém se preocupou em saber que os autores responsáveis por fornecer os conteúdos não eram lá tão gabaritados assim nem tinham tantas novidades para apresentar aos leitores. Em alguns casos, o problema estava mais na falta de disposição e de didática do autor para transmitir seus conhecimentos do que em sua bagagem intelectual e em seu repertório profissional. Portanto, independentemente de a qualidade final ser positiva ou negativa, o maior responsável pelo resultado do livro me parece evidente: o autor. O ghost writer é sim peça fundamental no trabalho de produção textual, mas sua função é meramente de auxiliar o provedor das informações. Sem a oferta de boas linhas, não é possível obter um bom tecido. Mesmo assim, a culpa da qualidade do texto sempre acaba caindo no colo do ghost writer. É muito mais fácil, do ponto de vista da editora encarregada de desenvolver o livro, responsabilizar o escritor pelo fracasso do projeto editorial do que atribuir o insucesso à escolha, à capacidade, à postura e/ou à didática do autor, geralmente uma figura mais proeminente nos âmbitos social e profissional. Paulo deu uma risadinha silenciosa e um tanto tímida às minhas perguntas. Ao levantar os olhos até então postados nas folhas impressas e agrupadas em uma espiral, ele pareceu ter tomado coragem para me encarar pela primeira vez naquele dia. Desde que iniciáramos a reunião, ele se limitara a contemplar o material em suas mãos sem dizer qualquer palavra, além dos protocolares “bom dia” e “sente-se aí”. Por pelo menos cinco minutos, ele folheou as páginas com calma, se atentando a algumas anotações que fizera à caneta. De onde eu estava, no outro lado da mesa, pude ver que havia uma infinidade de rabiscos no texto que eu tinha produzido. As observações à mão eram de três canetas de cores diferentes (azul, preta e vermelha). Pelo visto, alguém analisara atentamente o material durante o final de semana. O resultado era uma explosão de cores que tomava conta das páginas da primeira versão de Guerra e Paz nos Negócios. Ao invés daquela imagem multicolorida me abalar, ela revigorou meu otimismo. Nenhum editor se propunha a comentar com tanto afinco um texto que ele não tivesse apreciado. Minha experiência no mercado editorial dizia que se os originais estavam muito rabiscados, havia grande chance de o livro ser aprovado e ter como destino as prateleiras das livrarias. Se as folhas, por sua vez, estivessem “limpas”, a chance de ouvir um não do editor era gigantesca. Nas nove semanas que passei em São José dos Campos me dedicando ao livro (obviamente, excluí dessa conta a primeira semana, que não quero lembrar nunca mais!), Roberto teve um comportamento admirável. Ele me levou a todas as reuniões que participou e em todos os treinamentos que ministrou. Virei, de uma hora para outra, sua sombra. O consultor não se furtou em me explicar detalhadamente sua metodologia de trabalho e suas convicções. Falo agora sobre isso porque jamais encontrei um autor tão disponível, tão disposto e com tanta sede em transmitir seus conhecimentos. Ele leu e comentou cada linha que produzi, apontando falhas conceituais e indicando melhores exemplos para ilustrar cada passagem. É até difícil de acreditar que no início aquele homem se mostrara reticente em desenvolver a publicação. Até hoje não sei se Roberto não queria ter um título com seu nome ou se as estratégias usadas pelo pessoal da editora eram desencorajadoras. Em vários momentos, admito que achei que ele só estava participando daquele projeto por minha causa. Vai ver se sentia culpado pelo que eu tinha passado na porta de sua casa. Por isso, tinha a certeza de que os originais de Guerra e Paz nos Negócios estavam redondinhos, prontos ou quase prontos para serem aprovados. Ao mesmo tempo em que tinha a confiança do bom trabalho realizado e estava esperançoso com os desdobramentos daquele projeto nas próximas semanas, algo contrastava com o final feliz da história que eu projetara. Por que o editor da Pomelo parecia tão desconfortável na reunião em que deveria aprovar a proposta do livro?! Se eu o conhecia bem, Paulo teria me recebido com um forte abraço e cheio de piadinhas de gosto duvidoso. Isso é, se ele tivesse gostado da leitura que havia feito no final de semana. Porém, seu silêncio na reunião indicava um grande desconforto. Ele nem ao menos me buscara na recepção da editora como fazia normalmente. Fora sua secretária a encarregada de me levar até a sala, onde ele me aguardava calado e com o semblante fechado. E, o que é pior, em nenhum momento Paulo me chamou de “meu escritor favorito”. Será que eu perdera esse importante posto, justamente agora que fizera por merecê-lo? – Olha, vou ser franco com você. O livro não está de todo ruim. Há alguns capítulos bem legais, bem escritos... O que ainda não consegui assimilar foi a parte ficcional que você acrescentou. – Parte ficcional?! – Sabia que não devia brincar em um momento delicado da conversa. Mas eu estava tão animado com o meu retorno à São Paulo (aliviado por ter conseguido entregar o texto à editora e empolgado com as notícias dadas por minha esposa) que soltar um chiste foi inevitável – Você quis dizer a parte não ficcional da obra, né? – Sim, não... Você entendeu o que eu quis dizer! – pela primeira vez na vida eu via o Paulo constrangido, muito constrangido. Praticamente invertíamos os papéis: eu virei o piadista inconsequente e ele o sujeito que pisava em ovos – Vamos chamá-la de parte romanceada do livro, tá bem? Foi desse jeito que você se referiu a ela no telefone, se eu não estiver enganado. “O mais legal é que temos duas partes: a teórica e a romanceada”. Foi o que você disse para mim na sexta-feira, não tá lembrado? Balancei a cabeça afirmativamente. Achei graça que o editor não notou que eu estava apenas brincando. Será que ele entendeu meu gracejo na reunião como algo sério? Ele devia estar muito nervoso para não ter notado o tom de sarcasmo das minhas frases. E ainda foi buscar na memória o que havíamos conversado outro dia. Naquela ligação da semana passada, Paulo reclamou de uma nota fiscal que eu enviara no relatório de despesas. Ele disse que a editora havia se comprometido a me reembolsar apenas com os gastos de transporte, alimentação e hospedagem que eu tivesse no interior. Por esse critério, a conta de um dentista (com muitos zeros à direita, segundo sua opinião) não estava contemplada no nosso acordo. Já prevendo aquela reclamação, usei o discurso que a Dora me orientara na véspera: “você disse que se responsabilizava por todas as minhas despesas profissionais em São José dos Campos. E os dentes quebrados foram consequência do meu trabalho. Ou não foram?”. Obviamente, o proprietário da Pomelo não concordou com meu ponto de vista e a discussão se arrastou por mais meia hora. Entendendo que não conseguiria convencê-lo facilmente, apelei: “Você quer falar com a minha advogada sobre isso? Ela está aqui do meu lado, louquinha para falar com você. E ela acabou de comentar que... o que, amor? Ah, sim. No caso do não pagamento do dentista, ainda podemos entrar com uma ação contra a editora, a responsável por me colocar em uma posição de vulnerabilidade”. Temeroso, Paulo disse que não falaria com a Isadora em hipótese nenhuma. Se ela não era normalmente uma interlocutora das mais fáceis, imagine só em uma fase de overdose hormonal. Ciente que perderia a “batalha dos dentes” para minha esposa, Paulo decretou o armistício ao garantir que veria com o financeiro o que poderia fazer por mim. Achei graça em sua atitude conciliatória. Eu sabia que era ele quem estava criando obstáculos para o pagamento e não o departamento financeiro. Mesmo assim, agradeci seu possível apoio. Antes de desligar, aproveitei para perguntar o que ele havia achado dos originais que entregara no começo da semana, juntamente com o relatório de despesas (que, curiosamente, parecia ter despertado mais a atenção do pessoal da editora do que o texto do livro). Paulo garantiu que só iria ler o material no final de semana e que discutiríamos o conteúdo na reunião da semana seguinte. E foi aí que falei: “Antes que você estranhe, já vou logo contando – o livro tem uma parte teórica e uma parte romanceada, que quebra um pouco o formalismo das obras de negócios”. Quando falamos ao telefone, Paulo não agira de maneira estranha comigo (sim, eu ainda era seu escritor favorito, apesar dos gastos considerados excessivos no interior). A mudança de clima começou inexplicavelmente naquela reunião na Pomelo de pós-final de semana. – Não sei se agrega, entende? O cara compra um título querendo saber mais sobre estratégia e, então, recebe uma história besta de um escritor fracassado em metade das páginas. Ele não vai gostar, sei disso! O leitor vai se sentir enganado. Não é isso o que ele comprou, sabe? Se ele quisesse ler um romance, um drama, ele ia na prateleira de ficção e pegava outro livro. – Você achou essa parte besta? – Aquele tinha sido o trecho da fala do Paulo que mais me chamou a atenção. O pedaço do “escritor frustrado” eu simplesmente relevei. Como assim falar que minha história era besta?! – Não acredito que você não gostou. Ela ficou tão boa! – Besta não. Desculpe, me expressei mal. Não é besta. Ela só é incompatível com a proposta da obra. Adorava como os editores usavam eufemismos na hora de recusar as publicações. A impressão que tinha é que não existiam livros ruins. O que havia eram: propostas incompatíveis com a linha editorial do selo; narrativas voltadas para públicos diferentes do nosso; contenção de investimentos que impossibilitam novos lançamentos nos próximos dois ou três anos; e, o que era a pior de todas as justificativas vazias, decisões estratégicas da editora não permitiam a aposta em títulos tão vanguardistas. No final da ladainha, sempre havia uma mensagem de esperança ao pobre do escritor: mas tenho certeza de que há muitas editoras interessadas em lançar um livro como o seu. – Acho que o romance dialoga muito bem com a parte teórica. Paulo, ele é um complemento da teoria, quase uma exemplificação real das questões levantadas no Planejamento Estratégico. É a colocação em prática, por alguém comum, dos ensinamentos do Roberto – meu discurso saiu convincente, ao menos para mim – Você não reparou como as duas partes estão interligadas? Se excluirmos esse pedaço, o livro perderá todo o charme. – Não concordo! Acredito que essa seção não contribua em nada para a leitura. E ainda pode causar reações negativas na maioria dos leitores. Além disso... – Paulo parou de falar como se tivesse se arrependido de prosseguir. Diante do meu olhar atônito e ávido por um complemento, ele não pôde deixar de continuar – Além disso, achei que você pintou a Pomelo com tintas negativas. O que as pessoas vão achar da minha empresa, hein? Não consegui segurar a gargalhada. Enfim, Paulo confessava o principal motivo do seu desconforto. Não era a editora que eu havia retratado com tintas negativas e sim ele, o editor que jogava escritores e autores uns contra os outros na esperança de conseguir novas obras sem muito esforço. Só aí minha ficha caiu para sua nova (e até então misteriosa) postura. Admito que achei que o Paulo fosse levar mais na esportiva o jeito que eu o descrevera em Guerra e Paz nos Negócios. Até porque ele encarara, até então, tudo meio que na galhofa, como é típico de seu espírito alegre e anárquico. Nunca imaginei que o dono da Pomelo pudesse ficar magoado com sua exposição nas páginas do livro (talvez aquilo fosse uma novidade para ele). Para ser franco, tinha me esquecido que o Paulo era uma das personagens da trama ficcional-não-tão-ficcional-assim. – Você ficou ofendidinho com o que escrevi sobre você! – Não conseguia segurar as risadas – É esse o problema, não é? Por isso a mudança repentina de comportamento... Cara, não seja infantil, é só uma narrativa como qualquer outra. De certa forma, não havia vingança melhor do que aquela. Eu devolvia os perrengues que passara expondo o grande culpado pelo meu drama pessoal-profissional. Sim, porque o Paulo era o principal vilão da minha história até ali. Eu não tinha parado para pensar sob tal ponto de vista, mas um sujeito minimamente correto não me exporia ao ridículo nem exploraria minhas fraquezas pensando unicamente nos seus interesses. Além disso, não conseguia esquecer que padecera de frio, fome, sede, solidão e, o pior, violência por causa de suas decisões questionáveis. Aceitara tudo mais ou menos de bom grado em nome da grana que receberia no final do trabalho. Porém, deixar Paulo constrangido ao publicar seus métodos ortodoxos era a cereja do bolo. Confesso que não tinha pensado em nada disso enquanto estava produzindo o texto. Só agora eu percebia o quanto aquilo era catártico e afrodisíaco, uma espécie de doce vingança. Na minha concepção, o livro representava a revolta de todos os ghost writers indefesos contra a tirania e a vilania dos editores do planeta inteiro. – A questão não é se eu fiquei ofendido ou não. O ponto central é que esse tipo de abordagem é para um público diferente do nosso. Não me importaria de passar vergonha nas páginas de uma obra, mas depois ganhar muito dinheiro com suas vendas. O problema aqui é muito claro para mim: incompatibilidade entre o desejo dos leitores e o que estamos oferecendo a eles. Bingo! Paulo trazia agora a desculpa esfarrapada número dois. Se eu me mantivesse firme na defesa do conteúdo original da publicação, ele traria, na certa, as outras duas justificativas clássicas para desaprovar o material. Como os editores podem ser previsíveis, né? Será que eles não sabem o quão patético é fugir da verdade. Por que será que eles não chegam para a gente e dizem: “Não quero saber de você e do seu livro. Vocês são uns lixos. Fora da minha sala, agora!”. Ou simplesmente: “Não gostei do texto e pronto. Não vou lançar um livro que eu não goste! Procure um editor com gosto duvidoso ou menos criterioso na avaliação”. Essas seriam posturas sinceras e elogiosas. Mas não. O que eles fazem para terminar o debate? Falam sem nenhum ponto de vergonha: “Olha, amorzinho, o problema não está em você. Eu até gosto da nossa relação e da sua pessoa. Você é ótimo(a)! O problema sou eu”. Covardes! – Se você quiser tirar essa parte, Paulo, por mim não tem problema – blefei. Se os editores podiam emoldurar os discursos ao seu bel prazer, por que eu tinha que evitar esse recurso? – Se eu não precisar escrever nada no lugar, está beleza. O problema será convencer o Roberto. Adianto que ele gostou muito do romance no meio dos capítulos técnicos. Ele inclusive pautou a narrativa para destacarmos os pontos mencionados no Planejamento Estratégico. Talvez não seja tão fácil assim convencê-lo a excluir esse texto. – Do Roberto cuido eu. Vou aproveitar que preciso mesmo ligar para ele e já esclareço que só os capítulos técnicos foram aprovados. Então você concorda em tirar sua historinha do livro? – Se eu não precisar escrever nada no lugar, concordo. – Você não precisará fazer mais nada! Vamos mexer em algumas coisas no texto, coisas normais que você já está acostumado, mas não será preciso acrescentar nada novo. A obra ficará menor do que esperávamos, mas não vejo problema. – Então beleza. Mas converse primeiro com o Roberto. É ele quem precisa aprovar a mudança, não eu. Não me pergunte como, mas eu intuía que o Roberto jamais iria aceitar a exclusão dos capítulos romanceados. Se eu que não sou muito inteligente percebi os motivos do editor para podar essa parte da obra, o autor, um cara muito mais vivo do que eu, na certa já havia sacado há um tempão as prováveis reclamações do Paulo. E lembremos: se eu tinha o que me vingar do dono da Pomelo, meu amigo de São José também tinha. Se eu fora envolvido em uma armadilha das mais sacanas, Roberto fora a outra vítima do golpe da editora. – Sim, vou falar com ele agora mesmo – Paulo se levantou da cadeira, sacou o celular e me cumprimentou friamente. Era o indício de que a reunião estava encerrada – Temos várias coisas para acertarmos. Depois eu te ligo para a gente combinar os próximos passos do livro. Claro que os dois tinham o que acertar. Roberto não tinha sequer assinado o contrato com a editora. Onde já se viu primeiro produzir o texto da obra para depois discutir os aspectos comerciais e contratuais do título? Ou o Paulo era louco ou ele era maluco. – Está bem. Bom dia. Saí da editora com a sensação de dever cumprido. Ao chegar na portaria do prédio, notei que havia esquecido de perguntar sobre a despesa do dentista. Sem dúvida, essa seria a primeira indagação da Dora quando me visse. Da próxima vez, eu questionaria o Paulo sobre isso. Contudo, se ele não disse nada na reunião, é porque ele pagaria numa boa. Deixei a rua da editora e entrei na primeira farmácia. A Dora havia pedido para comprar um remédio para enjoo e para levá-lo ao seu escritório. Desde que eu voltara de viagem, ela estava super carente. Não parecia mais uma versão brasileira da Joana d'Arc, pronta para queimar tudo e todos com sua impetuosidade. Após comprar o remédio, liguei para ela. Dora atendeu no primeiro toque. Realmente, aquela era uma nova mulher. – Bom dia, amor – Falei demonstrando meu bom humor – Como vocês estão? Fica tranquila, já comprei o remédio e estou passando aí. Posso sim. Vai ser legal almoçar com você. Há quanto tempo a gente não almoça junto durante a semana, hein? Beleza. Em meia hora eu chego. Beijo. Entrei no metrô e segui para o escritório da Couto & Pacheco Associados na Avenida Faria Lima. Eu era agora um escritor em ascensão, um marido exemplar e, quem sabe, um futuro pai presente e participativo. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: O Meu Pé de Laranja Lima - O best-seller de José Mauro de Vasconcelos
No último final de semana, li “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), o romance mais famoso de José Mauro de Vasconcelos. Com fortes tintas autobiográficas, este livro retrata de maneira ora divertida ora dramática a infância de Zezé, um menino pobre do subúrbio carioca no final da década de 1920. Para escapar da realidade violenta, injusta, opressora e de enormes carências afetivas e materiais, o narrador-protagonista de apenas cinco anos mergulha em sua imaginação fértil. Assim, ele constrói um mundo novo, mais condizente com suas aspirações infantis. O resultado é uma obra-prima atemporal capaz de emocionar até mesmo os coraçõezinhos mais duros. Confesso que terminei esta leitura boquiaberto com o talento literário de Vasconcelos, um dos principais autores nacionais da segunda metade do século XX. Best-seller desde o seu lançamento em 1968, “O Meu Pé de Laranja Lima” alcançou marcas invejáveis no Brasil e no exterior. Ao longo de mais de 150 edições, o romance histórico de José Mauro de Vasconcelos vendeu mais de dois milhões de exemplares em nosso país. Traduzido para vários idiomas, ele foi lançado em dezenas de países, alcançando posição de destaque em alguns mercados internacionais entre os anos 1970 e 1980. O sucesso de “O Meu Pé de Laranja Lima” não ficou restrito ao universo literário. Seu drama tragicômico foi adaptado para a televisão (três telenovelas), para o cinema (dois filmes), para os quadrinhos (uma versão foi publicada na Coreia do Sul) e para o teatro (uma peça profissional e várias de companhias amadoras). Não à toa, esta obra de Vasconcelos se tornou um clássico da literatura brasileira. O êxito comercial de “O Meu Pé de Laranja Lima” catapultou a carreira de escritor de José Mauro de Vasconcelos para patamares até então inatingíveis. Ele se tornou um dos autores mais populares do Brasil entre o final dos anos 1960 e a metade da década de 1980. Ao lado de Jorge Amado e Érico Veríssimo, Vasconcelos se transformou em um dos principais best-sellers brasileiros. O status de autor de primeira grandeza da literatura nacional permitiu que José Mauro pudesse viver, a partir daí, exclusivamente do ofício da escrita, um luxo para poucos artistas até hoje no Brasil. Nascido em Bangu, bairro do subúrbio carioca, em fevereiro de 1920, José Mauro de Vasconcelos teve uma infância pobre. Seus pais eram migrantes nordestinos que foram tentar a sorte na então Capital Federal. Por causa do pouco dinheiro (e do grande número de filhos), a família precisou enviar o menino para morar em Natal, no Rio Grande do Norte, junto com parentes de mais posses. Foi no Nordeste brasileiro que o futuro escritor passou boa parte da infância e toda a adolescência. Ao retornar já adulto para o Rio de Janeiro, José Mauro teve inúmeras profissões. Além de romancista, ele foi jornalista, radialista, pintor, modelo, ator, instrutor de boxe, garçom, sertanista, professor primário, pescador e carregador de bananas. Apaixonado por viajar pelo Brasil e por conhecer as particularidades regionais dos seus compatriotas, o escritor adorava, à la Jack Kerouac, passar longas temporadas na estrada. A estreia de José Mauro de Vasconcelos na ficção aconteceu, em 1942, com a publicação do romance “Banana Brava” (Melhoramentos). Apesar de algumas avaliações positivas da imprensa na época, a obra que retratava o cotidiano de garimpeiros em Goiás não teve grande êxito de público. O primeiro sucesso do autor ocorreria somente vinte anos depois de seu debute literário. “Rosinha, Minha Canoa” (Melhoramentos), seu sétimo romance, conquistou os leitores com uma trama entrecortada e emocionante de um canoeiro apaixonado pela floresta. A década de 1960 marcaria justamente a fase de maturidade artística do autor. Em 1967, Vasconcelos conquistou seu maior prêmio literário, o Jabuti de melhor romance com “Confissões de Frei Abóbora” (Melhoramentos). Foi naquele ano mesmo que o autor concluiu seu maior sucesso, “O Meu Pé de Laranja Lima”, publicado em 1968. Curiosamente, o romance mais famoso de José Mauro de Vasconcelos foi escrito em apenas 12 dias (não falei que ele tinha um quê de Jack Kerouac?!). O autor carioca explicava a maneira célere de produzir suas tramas ao apontar um detalhe simples: ele só começava a colocar no papel uma história depois que ela estivesse inteiramente em sua cabeça. Por ser um livro autobiográfico, é de se imaginar que o enredo de “O Meu Pé de Laranja Lima” já estivesse na mente do escritor quando ele começou a produzi-lo. Empolgado com o sucesso de público, Vasconcelos lançou, seis anos depois, a continuação de “O Meu Pé de Laranja Lima”. “Vamos Aquecer o Sol” (Melhoramentos), publicado em 1974, apresentava o mesmo narrador-protagonista da obra anterior. A diferença é que no novo título Zezé era um pré-adolescente. Já morando no Rio Grande do Norte com o padrinho rico, o rapaz precisava encarar novos dramas, mesmo tendo deixado a falta crônica de dinheiro para trás. Há também um livro anterior a “O Meu Pé de Laranja Lima” que é apontado como integrante da trilogia do menino Zezé. Trata-se de “Doidão” (Melhoramentos), novela de 1963. Nessa narrativa, a personagem principal tinha 19 anos e cursava a faculdade de Medicina. Contudo, a vida estável e rotineira não parecia seduzir o jovem protagonista. Com uma estética totalmente diferente de “O Meu Pé de Laranja Lima” e de “Vamos Aquecer o Sol”, “Doidão” pode frustrar alguns leitores que esperam encontrar nessa narrativa uma continuação estilística da obra mais conhecida de José Mauro de Vasconcelos. Quando foi lançado, acredite se quiser, “O Meu Pé de Laranja Lima” não foi bem aceito pela crítica literária brasileira. Enquanto o público leitor corria para as livrarias para adquirir o livro, os especialistas na arte ficcional torciam o nariz para o estilo da escrita de Vasconcelos. Para eles, o autor carioca apresentava textos muito simples, personagens popularescos, narrativas nada inovadoras, linguagem regional e enredos exageradamente emotivos. Visto pela perspectiva contemporânea, esse tipo de crítica mostrou-se injusto. A má avaliação inicial foi decorrente essencialmente dos preconceitos de quem não conseguia aceitar com bons olhos o sucesso de um autor popular (algo que acontece até hoje em nosso país). Prova disso é que o que era apontado como os principais defeitos da literatura de José Mauro de Vasconcelos, é atualmente visto como suas principais qualidades narrativas. É incrível notar como o ponto de vista da crítica literária pode mudar tanto ao longo do tempo. Neste caso especificamente, a mudança foi extremamente positiva, pois reparou uma grande injustiça quanto ao talento de um dos maiores escritores nacionais do século XX. O enredo de “O Meu Pé de Laranja Lima” se passa em Bangu, mais ou menos no finalzinho dos anos 1920. A trama é narrada em primeira pessoa por José de Vasconcelos. Já adulto, com 48 anos, Zezé, como o narrador-protagonista sempre foi chamado por todos os amigos e parentes, rememora as peraltices de sua infância. Aos cinco anos de idade, ele era um menino extremamente inteligente, sonhador e arruaceiro, capaz de aprontar as maiores traquinagens. Não à toa, estava sempre apanhando e de castigo. Como é possível notar logo de cara, a personagem principal do romance é homônima ao autor, o que escancara o caráter autobiográfico desta narrativa de José Mauro de Vasconcelos. Zezé é o oitavo dos nove filhos de Paulo e Estefânia. Enquanto o pai encara o desemprego e a depressão por não conseguir arranjar trabalho, a mãe precisa se virar com as longas jornadas em uma fábrica têxtil. As crianças mais velhas do casal não podem ainda ajudar no orçamento familiar pois nenhuma delas é maior de idade. Dos filhos de Paulo e Estefânia, dois (Aracy e Jurandyr) morreram ainda pequenos, antes do protagonista nascer, e uma irmã foi enviada para morar no Nordeste. Dessa forma, sobraram seis crianças na casa dos Vasconcelos: Jandira (a primogênita durona e namoradeira), Glória (a mais carinhosa e compreensiva), Antônio (o trambiqueiro e covarde), Lalá (que era quem deveria cuidar de Zezé, mas é quem menos aparece na narrativa) e Luís (o caçulinha), além do próprio Zezé. Ainda muito pequeno, Zezé tira de letra a realidade difícil e injusta de sua vida. Para superar os dissabores do cotidiano, o menino se apoia na fértil imaginação infantil, na inteligência precoce, nas traquinagens de moleque levado e em boas amizades (tanto reais quanto fictícias). Em um relato sincero e emocionante, o garotinho de um carisma inato fala: do sonho em ser poeta e ator de cinema; das brincadeiras de cowboy no quintal de casa; da admiração pela meiguice e beleza do irmãozinho caçula; das artes que apronta para desespero dos adultos; das surras cruéis que leva por conta de suas peraltices; da paixão pelo cinema e pela música; das conversas intrigantes na casa do tio Edmundo; do gosto por ler, habilidade que aprendeu sozinho; e do fato de ser o melhor aluno da classe, mesmo não tendo idade para frequentar a escola (mentiu na hora da matrícula dizendo ser mais velho). O que chama mais a atenção em “O Meu Pé de Laranja Lima” é o tipo de amizade que Zezé faz. A primeira é com um pé de laranja lima que vive no quintal de sua nova casa. O menino gosta de conversar e de brincar com a pequena laranjeira. É para a árvore que ele conta suas angústias, suas aspirações e seus segredos mais íntimos. Depois, o guri faz amizade com Ariovaldo, um cantor e vendedor ambulante de música. Zezé adora acompanhar o amigo pelos vagões de trem e pelas ruas da cidade. A dupla vende sucessos nacionais enquanto solta a voz. Eles passam o dia interpretando as canções com bastante empolgação. E, por fim, o protagonista faz amizade com Manuel Valadares, um português velho, rico e solitário. A dupla se torna inseparável. Eles trocam confidências e carinhos genuínos. Portuga, como é chamado por Zezé, se torna uma espécie de avô zeloso, atuante e generoso do garoto pobre. Mesmo com a esperteza imensurável, com as travessuras inconsequentes e com a imaginação ilimitada típica da infância, Zezé aprenderá muito cedo que a vida não é feita apenas de alegrias e de brincadeiras. Ela também esconde fatalidades, injustiças e perdas irreparáveis. É sofrendo as amarguras inerentes da existência humana que o menino amadurecerá precocemente e levará os leitores, após incontidas risadas, a derramar uma enxurrada de lágrimas. “O Meu Pé de Laranja Lima” possui 232 páginas, que estão divididas em duas partes: “No Natal Às Vezes Nasce Menino Lobo” e “Foi Quando Apareceu o Menino Deus em Toda a sua Tristeza”. A primeira seção tem cinco capítulos e a segunda tem nove. O livro que li neste sábado é uma edição comemorativa de 2018 da Editora Melhoramentos. Esta versão celebra os 50 anos da primeira publicação da obra. Por isso, esta edição traz as ilustrações originais de Jayme Cortez, exatamente como foram dispostas no livro de 1968. Inclusive a arte da capa é sua (de traços belíssimos). Além dos 14 capítulos de José Mauro de Vasconcelos, nesta nova versão de “O Meu Pé de Laranja Lima” temos um posfácio de Luiz Antonio Aguiar, escritor, roteirista de quadrinhos e crítico literário. Em seu texto, Aguiar comenta a importância deste título e dos romances de Vasconcelos para a literatura brasileira. Li esta obra em apenas um dia. Comecei a leitura de manhãzinha e a concluí no começo da noite. Devo ter levado em torno de seis horas para percorrer todas as suas páginas. O primeiro aspecto a ser destacado em “O Meu Pé de Laranja Lima” é o retrato esplêndido da infância. Zezé é um menino encantador: possui imaginação fértil, mas não perde jamais a doçura. Ao mesmo tempo em que é arteiro (deixa os adultos de cabelos em pé na maior parte das vezes), também é inteligente e consciencioso com a dura realidade em que está inserido. A pobreza de sua família e as injustiças que assiste o fazem amadurecer rapidamente. Se em alguns momentos ele não abre mão de sua criancice e de suas peraltices, em outros momentos precisará se portar como um adulto para superar os obstáculos. Por causa desta dicotomia permanente (inocência infantil versus dureza da vida real), este livro adquire tons completamente opostos: o drama e a comédia. Há instantes em que caímos no choro (confesso que durante esta leitura derramei lágrimas) e em outros caímos na gargalhada. José Mauro de Vasconcelos é excelente para produzir narrativas tragicômicas. O mais legal é notar esta variação de capítulo a capítulo ou até mesmo dentro de um determinado capítulo. Por exemplo, no capítulo 2, “Um Certo Pé de Laranja Lima”, nos divertimos com as estripulias do menino brincando com seu irmãozinho no quintal de casa e aprontando com os vizinhos. Depois, Zezé visita a nova casa e conhece seu novo amiguinho, a tal laranjeira com quem ele passa a conversar. Esta parte do livro é ancorada nos sonhos e no universo lúdico da infância. Já no capítulo seguinte, “Os Dedos Magros da Pobreza”, acompanhamos o drama do protagonista, que passa um Natal triste ao lado de seus familiares. Na residência dos Vasconcelos, não há presentes e a comida para a ceia é limitada. Por isso, não é de se admirar que os desentendimentos e as frustrações se propaguem naquele lar. O tom do texto agora é de amargura, desespero e indignação. Ao lado de “Ciranda de Pedra” (Companhia das Letras), romance de Lygia Fagundes Telles, esta é uma das descrições natalinas mais tristes da literatura brasileira. Essa variação entre graça e drama também acontece de uma página para outra do livro. As cenas mais cômicas são relativas às travessuras do menino. Como consequência, ele está sempre apanhando. As surras de Zezé são constantes e homéricas. Há dias em que ele leva mais de uma sova. Todo mundo parece espancá-lo: o pai, a mãe, os irmãos, a tia, o tio, os vizinhos, os desconhecidos na rua, os meninos mais velhos da escola... Mesmo sabendo que irá apanhar, o protagonista de “O Meu Pé de Laranja Lima” continua com suas traquinagens independentemente das consequências. Não é preciso dizer que Zezé é uma figura redonda. O elemento mais interessante em sua composição como personagem ficcional está na carência emotiva do garoto. Por mais amigos que tenha, por mais pessoas queridas que estejam a sua volta e por mais alegres que sejam seus dias, ainda sim, ele recente do genuíno carinho materno/paterno e, por que não, de uma verdadeira amizade (sem qualquer interesse). Ou seja, por baixo da felicidade e da empolgação mirim, há uma pontinha de melancolia em Zezé, fruto das frustações e da falta de afeto de sua família. No início, o menino consegue suprir essas carências com a figura do tio Edmundo. Na sequência da trama, o pé de laranja lima assumirá o papel de amigo e confidente de Zezé enquanto a figura de pai/mãe será assumida por Manuel Valadares. É emocionante acompanhar o estabelecimento destas novas amizades do narrador de “O Meu Pé de Laranja Lima”. Neste sentido, repare na relação do pequeno protagonista com o Portuga. Apesar da riqueza material de Manuel Valadares, o que aproxima o garoto do senhor mais velho é o carinho e a atenção demonstrados pelo português. A amizade deles é construída por uma bonita troca emocional. Enquanto o garotinho mostra ao solitário viúvo o quanto a vida ainda pode ser alegre, fascinante e onírica, o homem mais velho oferta um carinho e um companheirismo raros na rotina de Zezé. Como romance histórico, “O Meu Pé de Laranja Lima” é sublime. Vários acontecimentos marcantes do final dos anos 1920 permeiam a narrativa principal do livro, conferindo ainda mais colorido à trama. Acertadamente, José Mauro de Vasconcelos não se preocupa em explicar cada uma das passagens históricas do romance. Ele simplesmente as joga no meio de sua narrativa. Assim, assistimos ao efeito do crash econômico de 1929 (motivo pelo qual o pai de Zezé foi demitido), à primeira fase da industrialização no Brasil (época em que longas jornadas eram corriqueiras tanto para os homens e as mulheres quanto para as crianças), ao auge do cinema mudo (principalmente os filmes de cowboy) e ao início da Era de Ouro do Rádio (e o surgimento dos primeiros músicos com popularidade nacional). Os elementos culturais são inseridos em “O Meu Pé de Laranja Lima” de um jeito tão interessante que a narrativa de Vasconcelos adquire uma pegada pop (um recurso inusitado para a época e visto, hoje em dia, como moderno). Não dá para falar neste livro sem apontar as fortes críticas sociais contidas em seu texto. José Mauro de Vasconcelos sempre foi um autor extremamente engajado e um dos seus principais méritos foi jogar luz aos problemas nacionais. Em “O Meu Pé de Laranja Lima”, assistimos aos efeitos corrosivos da pobreza, ao racismo, à violência urbana, ao machismo, à exploração da mão de obra pela indústria, à gritante desigualdade social, à migração interna e ao crescimento caótico das grandes cidades brasileiras. Para completar, ainda temos uma forte crítica religiosa. Onde estariam Deus e Jesus Cristo que não olhavam para as tragédias rotineiras no subúrbio carioca?! A impressão que o narrador tem é que os preconceitos que os pobres sofrem no dia a dia pelos humanos também se estendem para as forças divinas. Estes parecem se preocupar em ajudar apenas os mais ricos. Do ponto de vista de Zezé, os mais humildes são vítimas tanto dos homens quanto do Deus cristão. Por falar em violência, o que dizer, então, da violência infantil, hein?! Zezé é vítima da cultura da época em que espancar a criança era a maneira correta de educá-la. Quanto mais apanhasse, mais ela aprenderia a se comportar. Aos olhos contemporâneos, essa prática parece cruel e cavernosa. As cenas do menino sendo surrado são fortes e mexem com quem as lê, apesar do tom meio jocoso com que o autor traz essa parte de sua biografia. Impossível ficarmos indiferentes a tanta violência (lembremos que Zezé só tinha cinco anos e era um garotinho de físico mirrado!). Sei que já falei sobre isso, mas preciso destacar mais uma vez a beleza das ilustrações de Jayme Cortez. Os desenhos que abrem cada um dos capítulos do livro, assim como a imagem estampada na capa da publicação, são maravilhosos. Eles remetem sutilmente à inocência infantil (base da narrativa de José Mauro de Vasconcelos) e mantêm os traços elegantes que caracterizaram o trabalho do ilustrador. Trata-se de uma excelente combinação, capaz de maravilhar os olhos dos leitores mais exigentes. O único ponto negativo desta edição de “O Meu Pé de Laranja Lima” está em suas notas de rodapé. A maioria delas é desnecessária para o leitor brasileiro. Durante a leitura, cheguei a pensar que o editor estava me chamando de burro. Acredite se quiser, mas há a explicação sobre o significado de “bondinho do Pão de Açúcar”, “folhinha de Natal”, “jogo do Bicho”, “papagaio” (no contexto de pipa), “Missa do Galo”, “balão”, entre outros termos óbvios. Visivelmente, esses esclarecimentos foram extraídos das traduções do livro para idiomas estrangeiros. Nas edições gringas, tudo bem ter essa contextualização. Porém, incluí-las na versão nacional, me soou como uma escolha equivocada. Para quê? Achei desnecessárias quase todas as notas de rodapé. “O Meu Pé de Laranja Lima” é um romance histórico incrível! Sua narrativa é contagiante e Zezé é uma das personagens mais carismáticas da literatura brasileira. Sem dúvida nenhuma, este livro ganhou um lugar de destaque na estante da minha biblioteca. Acredito que daqui a vários anos, ainda lembrarei com saudosismo da bela trama produzida por José Mauro de Vasconcelos. Atualmente, esta obra é classificada como um título infantojuvenil (por isso, as notas de rodapés talvez sejam tão óbvias para os adultos, mas nem tanto para as crianças). Sinceramente, tenho minhas dúvidas quanto à sua categorização. Para mim, esta narrativa de Vasconcelos é um clássico para todas as idades. Não sei o porquê um adolescente ou um jovem poderiam aproveitar mais as aventuras de Zezé do que um adulto. Acho até que quanto maior for a idade do leitor, mais ele poderá degustar os nuances da tragicomédia do escritor carioca. Por isso, a minha discordância quanto a ver “O Meu Pé de Laranja Lima” como um exemplar da literatura infantojuvenil. Não é porque a história é sobre a infância do protagonista que necessariamente o público do livro também deva ser (um erro que se propaga com frequência em nosso país e no exterior). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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- Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2020
O ano passado começou promissor para o mercado editorial brasileiro. Depois de perder entre 30% e 40% de seu faturamento desde 2013, o setor indicava uma curva ascendente para 2020. Para completar o otimismo, os números consolidados de 2019 mostraram o primeiro crescimento de receita desse segmento em seis anos. A sensação era de “agora vai!”. Contudo, no meio do caminho tinha uma Covid-19, tinha uma Covid-19 no meio do caminho. Ninguém podia imaginar esse acontecimento para um mercado com vendas já tão fatigadas. De uma hora para outra, o céu ficou novamente carregado e uma grande e nova tempestade se vislumbrou. Com esse panorama sombrio, as situações críticas da Livraria Cultura e da Livraria Saraiva só tornavam as coisas ainda mais nebulosas. Para alegria geral da nação (leia-se: livrarias, editoras e escritores), o cenário do mercado editorial mudou sensivelmente a partir de julho. As vendas do segundo semestre foram retomadas e o crescimento compensou as perdas do primeiro semestre de 2020 (que foram trágicas). Há quem aponte a possibilidade do faturamento do último ano terminar em um surpreendente crescimento em relação ao de 2019. Para muita gente, se 2020 ficar no mesmo patamar do ano anterior, os resultados já serão satisfatórios. Fiz essa rápida retrospectiva do ano passado do setor para explicar o comportamento do leitor brasileiro, tema desse post da coluna Mercado Editorial. Em meio a um cenário tão adverso como foi o de 2020, o que você acha que o brasileiro leu, hein? A resposta é um tanto óbvia: autoajuda, autoajuda e autoajuda. Se pensarmos bem, não mudou (quase) nada nos hábitos de leitura no Brasil com a chegada da pandemia. Afinal, nas duas últimas décadas, essa tem sido a pedida corriqueira dos compradores de livros em nosso país. Nas quatro primeiras posições do ranking dos livros mais vendidos no Brasil em 2020, só temos títulos de autoajuda: (1º lugar) “Mais Esperto que o Diabo” (Citadel), de Napoleon Hill, (2º) “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” (Intrínseca), de Mark Manson, (3º) “Do Mil ao Milhão” (HarperCollins), de Thiago Nigro, e (4º) “O Milagre da Manhã” (BestSeller), de Hal Elrod. Alguém pode me questionar: “Mas o livro do Thiago Nigro não é autoajuda. Esta publicação é na verdade uma obra de negócios!”. Respeito quem enxergue dessa maneira. Porém, para mim, este livro é uma autoajuda para os investidores nacionais. Então quer dizer que o brasileiro não está lendo ficção? Ele está, mas é pouco, muito pouco. Apenas dois títulos ficcionais aparecem na lista dos dez livros mais vendidos no país no ano passado. E, o que é mais assustador, a literatura consumida é normalmente estrangeira e voltada para o público infantojuvenil. Por isso, a supremacia da série “Harry Potter” (Rocco), de J. K. Rowling, e da série “Crepúsculo” (Intrínseca), de Stephenie Meyer. Isso indica que os jovens brasileiros estão lendo muito? Não! A conclusão que chego é que, de maneira geral, o gosto literário dos brasileiros adultos é muito parecido ou é igual ao das crianças e dos adolescentes (em um processo de infantilização da nossa sociedade). Esse é o retrato do nosso país atual! Ao menos em 2020, não tivemos obras religiosas nem títulos produzidos por celebridades da Internet (vou fingir que Thiago Nigro não é um influenciador digital, tá?) invadindo o topo da lista dos mais vendidos. Ficou curioso(a) para conhecer os best-sellers das livrarias brasileiras no ano passado? Então, vamos ao que interessa: a lista com o top ten dos mais comercializados. Os dados que utilizamos no Bonas Histórias para indicar a listagem dos mais vendidos são obtidos do PublishNews, a fonte mais confiável do mercado editorial nacional. O PublishNews faz a medição do setor usando principalmente as informações coletadas nas principais redes de livrarias do país. Veja, a seguir, o ranking dos 10 livros mais vendidos em 2020 no Brasil: 1) “Mais Esperto que o Diabo” (1938) – Napoleon Hill (Estados Unidos) – Autoajuda – Citadel – 113 mil unidades. 2) “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” (2016) – Mark Manson (Estados Unidos) – Autoajuda – Intrínseca – 104 mil unidades. 3) “Do Mil ao Milhão” (2018) – Thiago Nigro (Brasil) – Negócios – HarperCollins – 77 mil unidades. 4) “O Milagre da Manhã” (2012) – Hal Elrod (Estados Unidos) – Autoajuda – BestSeller – 62 mil unidades. 5) “Box com os 7 Livros da Série Harry Potter” (1997/2007) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Ficção Infantojuvenil – Rocco – 55 mil unidades. 6) “Decida Vencer” (2020) – Eduardo Volpato (Brasil) – Autoajuda – Gente – 48 mil unidades. 7) “O Poder da Autorresponsabilidade” (2018) – Paulo Vieira (Brasil) – Autoajuda – Gente – 47 mil unidades. 8) “Seja Foda” (2017) – Caio Carneiro (Brasil) – Autoajuda – Buzz – 46 mil unidades. 9) “Sol da Meia-noite” (2020) – Stephenie Meyer (Estados Unidos) – Ficção Infantojuvenil – Intrínseca – 44 mil unidades. 10) “Os Segredos da Mente Milionária” (2005) – T. Harv Eker (Canadá) – Autoajuda – Sextante - 44 mil unidades. Como as obras ficcionais são rotineiramente encobertas pela avalanche de títulos de autoajuda, vou fazer, em março, um post com o ranking dos livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2020. Assim, iremos visualizar melhor os hábitos e as preferências dos leitores nacionais quando o assunto é literatura. Aguarde as novidades dos próximos meses da coluna Mercado Editorial do Bonas Histórias. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Que Horas Ela Volta? - À caminho do Oscar
É possível projetar, desde já, que temos grande chance de possuirmos, no ano que vem, um candidato na disputa do Oscar de 2016 pela estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Se iremos ganhar ou não o prêmio, não sei, mas que a probabilidade de pelo menos termos uma produção brasileira entre os finalistas é muito grande desta vez, isto é possível afirmar categoricamente. "Que Horas Ela Volta?" (2015), filme da diretora Anna Muylaert e protagonizado por Regina Casé, é a esperança do cinema nacional de voltar a ser protagonista no cenário internacional depois de muitos anos de ausência de títulos relevantes. Após o sucesso do cinema nacional na década de 1990, com três indicações ao Oscar, com "O Quatrilho" (1994), "O Que É Isso, Companheiro" (1998) e "Central do Brasil" (1999), a última vez em que tivemos um finalista na principal cerimônia do cinema mundial foi em 2004 com "Cidade de Deus". Este jejum, ainda bem, está próximo do fim... Faz 11 anos, portanto, que não conseguimos nem chegar à final. Isso demonstra as escolhas equivocadas feitas pelas produções selecionadas para concorrer ao Oscar (em alguns anos, infelizmente, o melhor filme brasileiro não foi o indicado) e a opção pela produção de longas-metragens com qualidade inferior, mas com potencial para angariar grandes plateias no circuito nacional (os filmes brasileiros de maior bilheteria no cinema nacional, nos últimos anos, foram principalmente comédias sem qualquer apelo internacional e sem a excelência cinematográfica digna de premiação). "Que Horas Ela Volta?", que chegou ao circuito nacional no início deste mês, após ter sido lançado internacionalmente com grande sucesso, é quem pode tirar o cinema brasileiro do marasmo que vem apresentado nas duas últimas décadas. Em cartaz em 22 países, o filme de Anna Muylaert foi eleito o Melhor Filme, segundo votação do público, no Festival de Berlim e foi premiado com o prêmio de Melhor Atriz (Regina Casé e Camila Márdila) no Festival de Sundance, nos Estados Unidos. Ele já foi visto por 150 mil pessoas na França e 70 mil na Itália. A crítica europeia e norte-americana não se cansa de rasgar elogias a produção brasileira. Assisti ontem a este filme no Caixa Belas Artes e sai da sessão maravilhado com o que presenciei. Esta, com certeza, é a melhor produção brasileira dos últimos dez anos. O filme é engraçado, poético e crítico, conseguindo retratar o cotidiano de uma família de classe média alta brasileira e as relações sociais entre patrões e empregados. Nas quase duas horas de filme, você fica completamente hipnotizado pela personagem de Regina Casé, a empregada doméstica Val. O drama e as confusões que esta mulher enfrenta no dia a dia são retratados com graça, leveza e com muita sinceridade. Nada é escondido para debaixo do tapete. Ao mesmo tempo em que é doce e divertido, o filme de Muylaert também consegue ser ácido e muito crítico. Uma excelente combinação, difícil de ser concretizada, mas que traz um excelente resultado quando bem viabilizado. A história de "Que Horas Ela Volta?" é sobre a empregada doméstica Val (Regina Casé), que vive em São Paulo e trabalha há treze anos na casa de uma família de classe média alta. Vinda de Pernambuco, a nordestina mora no serviço, dormindo em um quartinho de empregada no fundo da mansão. Ela é quem cuidou e criou, praticamente sozinha, de Fabinho (Michel Joelsas), o filho do casal empregador, Dona Bárbara (Karine Teles) e Seu Carlos (Lourenço Mutarelli). O menino, agora na adolescência, parece ter mais amor e intimidade com a empregada do que com a própria mãe. A vida de Val segue tranquila, sem qualquer anormalidade que possa interferir em sua rotina, até ela receber uma ligação telefônica da sua filha, Jéssica (Camila Márdila). Jéssica mora com pai em Pernambuco e não falava com a mãe há alguns anos. Mãe e filha não se viam há mais de dez anos. A moça, que irá prestar vestibular em São Paulo, quer saber se pode passar alguns dias na casa da mãe na capital paulista. Surpreendida com o pedido, Val aceita feliz a solicitação da filha e vê a oportunidade de ficar alguns dias com a menina, algo raro em sua vida. Porém, a empregada doméstica não fala para a filha que ela não possui uma casa e que mora nos quartinhos dos fundos da casa dos patrões. Esta realidade da mãe só é descoberta por Jéssica quando ela se muda para a mansão. Aí começam os problemas naquela residência. A moça é tratada de forma distinta pelos integrantes da família proprietária do lugar. Enquanto o marido e o filho tratam a filha da empregada com mordomias e a consideram como sendo uma hóspede, a esposa a trata com certo desprezo e uma boa dose de ciúmes. Jéssica parece não ajudar. Ela não compartilha do sentimento servil e obediente da mãe. Ela não se sente inferior aos donos da casa e não se vê na obrigação de paparicá-los. A tensão se torna insuportável entre mãe e filha, entre empregados e empregadores e entre a própria família de Bárbara e Carlos. "Que Horas Ela Volta?" é uma belíssima produção. Ele já pode ser comparado e colocado à altura de "Cidade de Deus" e "Central do Brasil". O filme de Anna Muylaert consegue ser engraçado, comovente e tratar de temas delicados da sociedade brasileira de um jeito leve e irreverente. O drama de Val e da sua filha na casa dos patrões é sintomático da sociedade preconceituosa e com grande disparidade de renda que é a brasileira. Os pontos positivos deste longa-metragem são vários. Primeiro, precisamos destacar a atuação de Regina Casé no papel principal. Ela está espetacular neste trabalho. Ela rouba todas as cenas, conferindo graça e carisma para sua personagem. Quem está acostumado a vê-la apenas na apresentação pouco inspirada em seus programas musicais na Rede Globo aos finais de semana, pode se esquecer do potencial artístico desta bela atriz. Para relembrar suas qualidades nas artes cênicas, basta recordamos da atuação de Regina em "Eu Tu Eles" (2000), quando ela se destacou e recebeu muitos elogios da crítica especializada. Ou seja, não é novidade nenhuma o desempenho de Regina Casé em frente às telas. Só que dessa vez, ela superou todas as expectativas. Nota 10 para ela! Outra que teve desempenho primoroso foi Anna Muylaert. A diretora conseguiu transformar uma bela história em um ótimo filme. O ritmo do longa-metragem é ágil (para um drama) e tem uma cadência impecável. A narrativa não tem grande variação em seu ritmo em nenhum momento. Praticamente ficamos com os olhos presos na história do início ao final. As quase duas horas da produção cinematográfica passam muito rapidamente, demonstrando a excelência do trabalho de Muylaert. A brasilidade deste filme é um dos elementos mais marcantes. A realidade do nosso dia a dia e as relações pessoais e sociais típicas do nosso país ficam acentuadas na tela. O guaraná servido como bebida na mesa da refeição, o quartinho de empregada no fundo da casa, a relação de amizade entre patrões e funcionários, o comodismo acentuado dos empregadores de ter alguém dentro de casa para fazer tudo para eles, a dificuldade de criar os filhos (independente da renda e da classe social) e a questão da migração nordestina para os centros da região sudeste são temas tipicamente brasileiros. É de encher os olhos quando vemos nosso país ser retratado com fidelidade nas telas de cinema. Engraçado. O filme consegue também ser muito divertido. O humor ajuda a tornar o ambiente tenso da narrativa mais leve e descontraído. Rimos praticamente de todas as situações dramáticas vivenciadas pelos personagens, até mesmo as mais delicadas, como quando o patrão, apaixonado pela filha da emprega, a pede em casamento. Hilário. Triste, chocante, mas engraçado. Não consegui encontrar, a princípio, nenhum grande defeito neste filme para comentar aqui. Talvez eu ainda esteja absorvido pelo encanto da produção e, por isso, não consegui localizar nenhum ponto abaixo da crítica. Pode ser. O que eu tenho certeza é que "Que Horas Ela Volta?" é um dos melhores filmes nacionais que já assisti e que merece estar na disputa do Oscar de 2016. Vamos torcer por ele que ele merece. Veja o trailer deste longa-metragem nacional: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnnaMuylaert #ReginaCasé
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em janeiro e fevereiro de 2021
Por qualquer ponto de vista, é possível notar a retomada do mercado editorial brasileiro após o tsunami chamado COVID-19 (que varreu as receitas das editoras e das livrarias nacionais no segundo e terceiro bimestres de 2020). Um bom indicativo para mostrar a volta do otimismo neste setor é o número de lançamentos no comecinho do ano. No primeiro bimestre de 2021, chegaram às livrarias brasileiras 88 livros de destaque nas categorias de ficção (nacional e internacional) e poesia (nacional e internacional). Trata-se de uma quantidade que há muitos anos não víamos no período de janeiro e fevereiro. Esse número é ligeiramente superior ao de publicações no último bimestre de 2020 (80 títulos) e muito maior do que as publicações na mesma época do ano passado (36 obras). A notícia da elevação substancial de lançamentos é para ser comemorada por editoras, escritores, livrarias, gráficas, distribuidores e leitores. Entre os livros recém-chegados às estantes das livrarias, meus destaques vão para sete ficções e uma antologia poética. Começo destacando a publicação na versão impressa de “Dias Vazios” (Nova Fronteira), o romance de Barbara Nonato que conquistou o IV Prêmio Kindle de Literatura. Li esta obra no finalzinho de janeiro e a analisei neste mês na coluna Livros - Crítica Literária. Vale a pena conferir este título! Barbara Nonato é uma das grandes promessas da literatura brasileira contemporânea. Ainda na categoria literatura brasileira, não posso deixar de exaltar quatro romances: “A Claridade Lá Fora” (L&PM), de Martha Medeiros, “Os Supridores” (Todavia), de José Falero, “Copo Vazio” (Todavia), de Natalia Timerman, e “Não Me Empurre Para os Perdidos” (Cepe), de Maurício Melo Júnior. Para mim, esses são os títulos que merecem uma leitura cuidadosa por parte daqueles que curtem a boa ficção nacional. Quando o assunto é literatura internacional, me chamou a atenção “Dona Bárbara” (Pinard), romance clássico do venezuelano Rómulo Gallegos, e “Ressurreição” (Companhia das Letras), o último romance do russo Liev Tolstói. Ambos os livros ganharam novas edições com novas traduções. Para finalizar os destaques do começo deste ano, preciso mencionar o lançamento do segundo volume de “Poemas de Niterói” (Autografia), coletânea poética de Marcos Jorge Nasser. Nesta obra, o poeta capixaba apresenta versos da cidade fluminense que escolheu morar na década de 1950. Pelo olhar ora saudoso ora crítico de Nasser, assistimos a uma faceta diferenciada da beleza e dos problemas de uma parte da região metropolitana do Rio de Janeiro. Os principais lançamentos do mercado editorial brasileiro neste início de 2021 estão listados abaixo. O levantamento do Bonas Histórias se concentrou nos títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos e de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e nas coletâneas poéticas. Como já mencionei, são ao todo 88 obras de autores nacionais e estrangeiros que foram publicadas em janeiro e fevereiro deste ano. Confira a lista completa de lançamentos: FICÇÃO BRASILEIRA: “Dias Vazios” (Nova Fronteira) – Barbara Nonato – Romance – 304 páginas. “A Claridade Lá Fora” (L&PM) – Martha Medeiros – Romance – 256 páginas. “Os Supridores” (Todavia) – José Falero – Romance – 304 páginas. “Vista Chinesa” (Todavia) – Tatiana Salem Levy – Romance – 112 páginas. “Não Me Empurre Para os Perdidos” (Cepe) – Maurício Melo Júnior – Romance – 176 páginas. “Copo Vazio” (Todavia) – Natalia Timerman – Romance – 144 páginas. “Gaytástrofes” (Gente Preciso Falar) – Guilherme Luz – Romance – 404 páginas. “O Som dos Anéis de Saturno” (7 Letras) – Priscila Gontijo – Romance – 212 páginas. “O Patuá do Oxum” (Editora do Autor) – Marcus Veras – Romance – 128 páginas. “No Domingo de Suã” (7 Letras) – Milton Coutinho – Romance – 224 páginas. “Bateia” (Saíra) – Rômulo P. Alvim – Novela – 72 páginas. “Laranja com Papaia” (Crivo) – Saulo Pessato – Novela – 68 páginas. “Suíte Carioca e Outros Contos Esquisitos” (Graphia) – Álvaro Martins – Coletânea de Contos – 156 páginas. “Obra Completa: Poesia, Poesia Traduzida e Prosa” (Peirópolis) – Henriqueta Lisboa – Coletânea de Textos em Versos e em Prosa – 2.112 páginas. “Cada Um a Seu Modo” (Jabuticaba) – Marcelo Lotufo – Coletânea de Contos – 148 páginas. “Feliz Aniversário, Clarice – Contos Inspirados em Laços de Família” (Autêntica) – Hugo Almeida (org.) – Coletânea de Contos – 272 páginas. “No Horizonte, a Terra” (Escaleras) – Danielle Sousa – Coletânea de Contos – 88 páginas. “99 Histórias” (Terra Redonda) – Sergio Papi – Coletânea de Contos – 188 páginas. “Retratos da Vida em Quarentena” (Elefante/Dublinense) – Julia Dantas (Org.) – Coletânea de Contos – 160 páginas. “Religião e Outras Insanidades” (Oficina Raquel) – Miguel Pincerno – Coletânea de Contos – 96 páginas. “Simão Sem Medo” (Moinhos) – Miguel Granja – Literatura Infantojuvenil – 204 páginas. “A Princesa e o Dragão” (ÔZé Editora) – Fernanda Rios & Veridiana Scapelli – Literatura Infantojuvenil – 112 páginas. “Os Mundos de Dianna” (Viajante do Tempo) – Claire Parizel & Vanessa Rosa – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “Pedrinho Papa-mel” (Moderna) – Eliana Cardoso – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “Eu Sou o Max” (Escrita Fina) – Max Dalarme – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Kianda: a Sereia de Angola que Veio Visitar o Brasil” (Pallas Míni) – Raul Lody – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “A Festa Inventada da Luara” (Saíra Editorial) – Marta Dias – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “O Coração de Plástico” (ÔZé Editora) – Lido Loschi & Anita Prades – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Meu Mais Velho” (Leitura e Arte) – Padmini & Nina Elias – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “O Corte e a Chama” (Pulo do Gato) – Leo Cunha & Paulo Rea – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Série Ludo Ludens” (Editora do Brasil) – Regina Rennó & Regina Otero – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Bê-a-bá” (Vaca Tussa) – Thiago Corrêa Ramos – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “O Dragão do Mar” (Pallas Míni) – Sonia Rosa & Annabella Lopez – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Robô Não Solta Pum: Pensamentos de um Pai (Sem Dormir Há 20 dias)” (Saíra) – André Abujamra – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Vamos Brincar? Brincadeiras Indígenas Brasileiras” (Carochinha) – Marco Hailer – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Sona: Contos Africanos Desenhados na Areia” (Editora do Brasil) – Rogério Barbosa – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Alô?” (Carochinha) – Monisa Maciel & Mathias Townsend – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Dona Bárbara” (Pinard) – Rómulo Gallegos (Venezuela) – Romance – 388 páginas. “Ressurreição” (Companhia das Letras) – Liev Tolstói (Rússia) – Romance – 448 páginas. “As Tentações de Santo Antão” (Iluminuras) – Gustave Flaubert (França) – Romance – 256 páginas. “Declínio de um Homem” (Estação Liberdade) – Ozamu Dazai (Japão) – Romance – 152 páginas. “Em Águas Profundas” (Intrínseca) – Patricia Highsmith (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “A Convidada” (Nova Fronteira) – Simone de Beauvoir (França) – Romance – 432 páginas. “Vida à Venda” (Estação Liberdade) – Yukio Mishima (Japão) – Romance – 256 páginas. “O Joguete dos Deuses” (Aetia Editorial) – Paul Dunbar (Estados Unidos) – Romance – 172 páginas. “A Náusea” (Nova Fronteira) – Jean-Paul Sartre (França) – Romance – 204 páginas. “Entre a Floresta e a Água – A Pé Até Constantinopla: do Médio Danúbio às Portas de Ferro” (Edições de Janeiro) – Patrick Leigh Fermor (Inglaterra) – Romance – 342 páginas. “A Infância de Nikita” (Kalinka) – Aleksei Tolstói (Rússia) – Romance – 212 páginas. “Preço de Noiva” (Dublinense) – Buchi Emecheta (Nigéria) – Romance – 224 páginas. “Botchan” (Estação Liberdade) – Natsume Soseki (Japão) – Romance – 184 páginas. “Sim, Não, Quem Sabe” (Intrínseca) – Becky Albertalli & Aisha Saeed (Paquistão/Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Cartas a Uma Negra: Narrativa Antilhana” (Todavia) – Françoise Ega (Martinica/França) – Romance – 256 páginas. “Zona de Clivagem” (Roça Nova) – Liliana Heker (Argentina) – Romance – 296 páginas. “Esforços Olímpicos” (Todavia) – Anelise Chen (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Imperium in Imperio – Um Estudo Sobre o Problema da Raça Negra” (Aetia Editorial) – Sutton Elbert Griggs (Estados Unidos) – Romance – 204 páginas. “Ensaio Sobre o Cansaço” (Estação Liberdade) – Peter Handke (Austríaco) – Novela/Ensaio – 64 páginas. “Billy Budd” (Grua) – Herman Melville (Estados Unidos) – Novela/Conto – 152 páginas. “Lá Embaixo” (100/cabeças) – Leonora Carrington (Inglaterra) – Novela/Autobiografia – 92 páginas. “O Vampiro” (Clepsidra) – John William Polidori (Inglaterra) – Novela/Conto – 404 páginas. “Kramp” (Moinhos) – María José Ferrada (Chile) – Novela – 96 páginas. “Contos” (Companhia das Letras) – Thomas Mann (Alemanha) – Coletânea de Contos – 432 páginas. “Rashômon e Outros Contos” (Hedra) – Ryünosuke Akutagawa (Japão) – Coletânea de Contos – 204 páginas. “Impossível Sair da Terra” (Moinhos) – Alejandra Costamagna (Chile) – Coletânea de Contos – 116 páginas. “X, Y, Z” (Jabuticaba) – Carolina Tobar (Guatemala/Argentina) – Coletânea de Contos – 96 páginas. “O Spleen de Paris – Pequenos Poemas em Prosa” (Editora 34) – Charles Baudelaire (França) – Coletânea de Contos – 128 páginas. “O Homem-cão: Por Quem as Bolas Rolam” (Companhia das Letrinhas) – Dav Pilkey (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 240 páginas. “Crianças” (Pallas Míni) – María José Ferrada & Maria Helena Valdez (Chile) – Literatura Infantojuvenil – 76 páginas. “Todas as Pessoas Contam” (Companhia das Letrinhas) – Kristin Roskifte (Noruega) – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “Lina: Aventuras de uma Arquiteta” (Pequena Zahar) – Ángela León (Espanha) – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “O Casamento do Passarinho” (Companhia das Letrinhas) – Hendrik Jonas (Alemanha) – Literatura Infantojuvenil – 56 páginas. “A Sombra de Konrad” (Sesi-SP) – Matze Döbele (Alemanha) – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Ah, não! Um livro não!” (Carochinha) – Stéphanie Guérineau (França) – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Fred, o Papa-formiga” (Carochinha) – Manica K. Musil (Eslovênia) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “A Menina e o Leão” (Sesi-SP) – Kim Fupz Aakeson & Julie Völk (Dinamarca/Áustria) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Lulu Lê para Zeca” (Pallas Míni) – Anna McQuinn (Irlanda) – Literatura Infantojuvenil – 28 páginas. “Cachorrinho” (Kalinka) – Vera Ermoláieva (Rússia) – Literatura Infantojuvenil – 22 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Poemas de Niterói: O Inominado – 2º volume” (Autografia) – Marcos Jorge Nasser – 358 páginas. “92 Receitas para o Mesmo Molho Vinagrete” (Kotter) – Vinicius Barth – 212 páginas. “Livro de Sonetos” (Companhia das Letras) – Vinicius de Moraes – 160 páginas. “Carpinejar” (Bertrand Brasil) – Fabrício Carpinejar – 128 páginas. “Álbuns de Percepções” (Quixote+Do) – Luiz Edmundo Alves – 124 páginas. “Um Poema para Helena – Iridescente” (Crivo) – Helena Ferreira – 96 páginas. “O Passo do Macaco: Poema Dramático” (Cultura e Barbárie) – Sérgio Medeiros – 72 páginas. “A Menstruação de Valter Hugo Mãe” (Macondo) – Carla Diacov – 56 páginas. “O Olhar Passeia” (Global) – Ana Maria Machado – 32 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Poesia Completa Volume 1” (Editora da Unicamp) – Emily Dickinson (Estados Unidos) – 888 páginas. “Feitiços” (Iluminuras) – Paul Valéry (França) – 244 páginas. “Antologia Poética” (7 Letras) – Arthur Rimbaud (França) – 212 páginas. Em abril, retornarei à coluna Mercado Editorial para divulgar os lançamentos do segundo bimestre de 2021. Enquanto isso, continue acompanhando as novidades dos setores livreiro e editorial no Bonas Histórias! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















