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  • Premiações: Nobel de Literatura de 2020 - Louise Glück

    Um ingrediente que nunca falta na escolha do Prêmio Nobel de Literatura é a surpresa. Na maioria das vezes, os favoritos dos críticos literários e os queridinhos dos leitores são preteridos pela Academia de Letras da Suécia. Até mesmo quando os preferidos do público são selecionados, o que acontece de vez em quando (ou seria de vez em nunca?), a sensação de surpresa permanece. Afinal, ninguém em sã consciência cogitava que a obviedade fosse, enfim, prevalecer. O imponderável (me lembrei das crônicas de Nelson Rodrigues ao usar esta palavra!) é algo tão marcante na entrega da maior honraria da literatura mundial que, há quatro anos, chegamos ao ponto máximo dessa característica inusitada. O prêmio daquela edição foi concedido para alguém que não era escritor. Ou seja, o vencedor não estava nem mesmo inserido na literatura! Depois desta bizarrice histórica, tenho a impressão de que tudo pode acontecer (e que nada mais conseguirá me chocar tanto). Honrando a tradição de surpreender o público, o Nobel de Literatura de 2020 foi conquistado pela poetisa e ensaísta norte-americana Louise Glück. Entre as surpresas dos últimos anos, diria que esta foi de nível médio. É verdade que Glück não é um nome tão popular entre as massas. Por outro lado, a escritora nova-iorquina possui um portfólio artístico de qualidade inegável. Anunciado em 8 de outubro, o prêmio renderá a Louise Glück, além da famosa medalha redonda e dourada com o perfil de Alfred Nobel em relevo, a quantia de 10 milhões de coroas suecas (aproximadamente 1,1 milhão de dólares ou 6 milhões de reais). Assim, mais uma vez, os favoritos ao prêmio ficaram de mãos abanando. Nesta edição, os nomes mais fortes para conquistar o Nobel de Literatura eram, segundo as casas de aposta do mundinho das letras, a canadense Margaret Atwood, autora de “Conto da Aia” (Rocco), o japonês Haruki Murakami, autor de “Norwegian Wood" (Alfaguara) e da trilogia "1Q84" (Alfaguara), a franco-caribenha Maryse Condé, autora de “Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem” (Rosa dos Tempos), o queniano Ngugi wa Thiong, autor de “Um Grão de Trigo” (Alfaguara), a russa Liudmila Ulítskaia, autora de “Mentiras de Mulher” (Relógio D'Água), e o francês Michel Houellebecq, autor de “As Partículas Elementares” (Sulina). Curiosamente, ninguém citava o nome de Louise Glück como uma forte postulante ao prêmio. Daí a nova surpresa. Se Glück não era uma das favoritas, isso quer dizer que a escolha da Academia Sueca não foi justa, certo? Nananinanão! Nas últimas duas décadas, Louise Glück alcançou o status de uma das figuras centrais da poesia contemporânea em língua inglesa. Aos 77 anos, ela é professora na Universidade de Yale e publicou 12 coletâneas poéticas e alguns ensaios sobre poesia. Glück é também uma das poetisas mais premiadas dos Estados Unidos. Dos prêmios que já tinha conquistado ao longo da carreira, podemos citar o Pulitzer de Poesia de 1993, o Prêmio Bollingen de 2001, o National Book Award de 2014 e a Medalha Nacional de Humanidades em 2015. Seus versos são analisados nas universidades do seu país natal, possuem uma voz inconfundível e tratam normalmente de temas cotidianos como a infância, a vida familiar, a dureza da realidade e os sonhos. Louise Glück é o primeiro nome da poesia a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura desde 2011, quando o sueco Tomas Tranströmer foi laureado pela Academia de Letras da Suécia. Curiosamente, esta é a segunda vez em quatro anos que um norte-americano leva a principal honraria literária do planeta. Em 2016, o músico Boby Dylan foi o vencedor, quebrando, naquela oportunidade, um jejum de mais de duas décadas de seu país sem um Nobel de Literatura. O último escritor dos Estados Unidos a ganhar este prêmio tinha sido a romancista Toni Morrison, na distante data de 1993. Para o público brasileiro e português, a única nota negativa da escolha de Louise Glück é que não temos nenhum livro seu traduzido para o nosso idioma. Apenas alguns poemas avulsos da norte-americana estão em português. Por terem sido incorporados a coletâneas poéticas multiautorais, eles acabaram traduzidos para a língua portuguesa. É uma pena não termos acesso aos demais trabalhos da poetisa. Contudo, não deverá demorar para as editoras nacionais promoverem as primeiras traduções completas das obras de Glück. Esta é uma das vantagens de ser um autor vencedor do Nobel: o recebimento do prêmio desperta interesses do público, dos críticos literários e dos editores. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os livros da polonesa Olga Tokarczuk, vencedora de 2018, e com os títulos do austríaco Peter Handke, vencedor de 2019. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Filmes: Trinity é o Meu Nome - O clássico de Terence Hill e Bud Spencer

    Há cinquenta anos, estreava nos cinemas italianos “Trinity é o Meu Nome” (Lo Chiamavano Trinità: 1970), um Western Spaghetti que misturava bang bang com doses generosas de comédia. O resultado é um clássico da sétima arte e do humor audiovisual. Contudo, aos olhos dos cinéfilos de hoje, este filme tem uma particularidade especial: “Trinity é o Meu Nome” marcou o início da trajetória internacional de uma das duplas de atores de maior sucesso do cinema italiano. Estou falando, obviamente, da parceria de Terence Hill com Bud Spencer. Os dois atores protagonizaram juntos mais de duas dezenas de filmes entre a década de 1960 e a década de 1990. Assim, tornaram-se figuras populares no universo cinematográfico europeu e, por que não, mundial. Para quem ainda não identificou Terence Hill e Bud Spencer pelos seus nomes, basta dizer que eles eram “aquela dupla do magro loirinho (e falante) e do gordo barbudo (e caladão) que vivia se metendo em confusões que acabavam invariavelmente em brigas de bar homéricas”. Impossível alguém ter acompanhado o cinema comercial naquela época e não se lembrar destas figuras. Com a fama adquirida, Hill e Spencer deixaram as comédias de Western Spaghetti para trás e embarcaram em outras produções cômicas (sempre com muita ação e pancadaria, suas marcas). Eles interpretaram incontáveis papéis nas telas: policiais rodoviários, caminhoneiros, músicos, dublês, ex-presidiários, trabalhadores braçais, oficiais da Marinha, pistoleiros e criminosos comuns. Independentemente do roteiro (que seguia a moldura narrativa do grandão calado e sério e do pequenino extrovertido e arruaceiro, que juntos eram imbatíveis na briga), os dois italianos sempre estavam lado a lado em cena para a alegria dos fãs espalhados pelos quatro cantos do planeta. Terence Hill, que para mim sempre pareceu a versão italiana de Paul Newman, teve uma carreira mais longa, variada e bem-sucedida na televisão e no cinema italiano. Além de ator, ele foi diretor, roteirista e produtor. Suas atuações mais famosas foram obviamente ao lado de Bud Spencer em comédias do tipo pastelão. Porém, Hill participou de produções sérias e renomadas. Os melhores exemplos são “O Leopardo” (Il Gattopardo: 1963), quando interpretou o papel do Conde Cavriaghi, e “Viva Django!” (Preparati la Bara!: 1968), quando protagonizou Django. Sem dúvida nenhuma, como ator, ele foi muito mais completo e versátil do que seu grande parceiro. Prova disso, é que em determinado momento da carreira, Terence Hill se tornou um dos artistas italianos mais bem pagos do cinema e da TV. Já Bud Spencer ficou mais preso ao estereótipo de sua personagem cômica (o do tipo gordão, forte, bom de briga, calado e mal humorado). Dez anos mais velho do que Hill e falecido em junho de 2016, Spencer foi atleta de destaque em sua juventude. Além de ter participado de duas edições dos Jogos Olímpicos (em 1952 e 1956), foi campeão italiano de natação sete vezes consecutiva (de 1949 a 1956) e campeão europeu de polo aquático (em 1955). Ele estreou no cinema fazendo uma ponta na comédia “Quel Fantasma Di Mio Marito” (1950), quando ainda se apresentava com o nome verdadeiro (Carlo Pedersoli). Somente na segunda metade da década de 1960 e já com o nome artístico que ficaria internacionalmente conhecido, Bud Spencer passou a acumular mais e melhores papéis no cinema. A fama viria no instante em que achou o parceiro ideal de cena. Foi ao lado de Terence Hill que Spencer alcançaria o auge como ator. A criação desta dupla inesquecível do cinema é obra do diretor Giuseppe Colizzi. Na segunda metade dos anos 1960, ele juntou o já experiente Terence Hill e o novato Bud Spencer para protagonizarem três filmes na sequência: “Deus Perdoa... Eu Não” (Dio Perdona... Io No!: 1967), “Os Quatro da Ave Maria” (I Quattro Dell'Ave Maria: 1968) e “A Colina dos Homens Maus” (La Collina Degli Stivali: 1969). Repare, portanto, que os dois atores já se conheciam e já tinham atuado juntos antes de “Trinity é o Meu Nome”. Todavia, foi a partir do longa-metragem de 1970 que a dupla se tornaria internacionalmente conhecida. Dirigido e roteirizado por Enzo Barboni, que naquele momento ainda era um novato na direção e usava o pseudônimo de E. B. Clucher, e produzido por Italo Zingarelli, “Trinity é o Meu Nome” foi lançado na Itália entre dezembro de 1970 e janeiro de 1971. Sucesso imediato nas salas de cinema do país, o longa-metragem alcançou a vice-liderança em faturamento daquela temporada. Foram quase nove milhões de espectadores (uma marca considerável já que estamos falando dos anos 1970, quando a Itália tinha pouco mais de 50 milhões de habitantes). A ótima bilheteria se repetiu no exterior. Exibido a partir da segunda metade de 1971 em vários países europeus e nos Estados Unidos, esta comédia figurou na lista das produções mais populares na Espanha, na Alemanha e no Reino Unido. De certa forma, “Trinity é o Meu Nome” revitalizou o gênero do Western Spaghetti, que viveu seu apogeu nas duas décadas anteriores. A explicação para esse fenômeno está no carisma absurdo de seus protagonistas e no tipo de humor praticado, que lembra muito o do cinema mudo. Não é errado pensarmos em Terence Hill e Bud Spencer como a versão moderna e italiana de Laurel & Hardy - Stan Laurel e Oliver Hardy, a famosa dupla “O Gordo e o Magro”. Além dos icônicos Terence Hill e Bud Spencer, participaram de “Trinity é o Meu Nome” os experientes Steffen Zacharias (figura constante nos filmes da dupla de protagonistas), Dan Sturkie e Farley Granger e os então novatos Ezio Marano, Gisela Hahn e Elena Pedemonte. A trilha sonora do filme, um dos componentes centrais de qualquer bom faroeste, ficou a cargo de Franco Micalizzi (este foi justamente seu primeiro grande sucesso). Para quem se pergunta quem foi Franco Micalizzi, basta dizer que ele foi autor das músicas de “Italia a Mano Armata” (1976), reverenciada em “Django Livre” (Django Unchained: 2012) por Quentin Tarantino. O êxito de “Trinity é o Meu Nome” incentivou Enzo Barboni a lançar, já no ano seguinte, a continuação de sua trama. “Trinity Ainda é o Meu Nome” (Continuavano a Chiamarlo Trinità: 1971) contou com a mesma dupla de protagonistas. O êxito da nova empreitada foi ainda maior. Na Itália, a segunda parte da série cinematográfica alcançou 14,5 milhões de espectadores. Nos Estados Unidos, Canadá e Europa, a nova comédia também arrecadou mais do que a versão original. Apesar do sucesso de sua continuação, voltemos a tratar de “Trinity é o Meu Nome” (também conhecido no Brasil pelo título “Chamam-me Trinity”), o assunto do post de hoje da coluna Cinema do Bonas Histórias. O enredo deste longa-metragem se passa no Velho Oeste norte-americano. Trinity (interpretado por Terence Hill) é um pistoleiro extremamente folgado (do tipo vagabundo profissional) que fica perambulando como um pé-rapado por aí. Como resultado de seu estilo de vida livre e descompromissado, ele sempre se mete em grandes confusões. Depois de atravessar o deserto, Trinity chega a um pacato povoado perto da divisa com o México. Para sua surpresa, seu irmão mais velho, Bambino (Bud Spencer), é o xerife do lugar. Bambino explica ao recém-chegado como se transformou de líder de um grupo de ladrões perigosos a responsável pela segurança pública. Após matar, ainda na costa leste, o verdadeiro xerife que seria enviado para aquele povoado isolado e longínquo, Bambino roubou a identidade da vítima e apareceu como a nova autoridade do lugar. Agora, ele quer manter o disfarce até seus companheiros de crime conseguirem fugir da prisão e atravessarem o deserto. Uma vez reconstituído seu bando, Bambino pretende roubar os cavalos puro-sangue do Major Harriman (Farley Granger), um dos mais ricos proprietários da redondeza. Justamente quando Trinity chega ali, os habitantes daquele povoado vivem um clima bélico crescente. A instalação de um grupo de mórmons, liderado pelo pacífico e bondoso Tobias (Dan Sturkie), contraria os interesses do ambicioso Major Harriman, que quer todas as terras para si. Para piorar, um grupo de vândalos mexicanos insiste em barbarizar e em praticar frequentes roubos na região. Por mais que Bambino tente contemporizar a situação, Trinity, que não suporta injustiças e está encantado com a beleza das mórmons Sarah (Gisela Hahn) e Giuditta (Elena Pedemonte), decide intervir. Ele passa a peitar tanto o Major quanto o bando de bandidos mexicanos em favor dos religiosos. Bambino, que só tem um auxiliar na delegacia, o velho e covarde Jonathan (Steffen Zacharias), se vê acuado por inimigos mais perigosos e mais numerosos. Sem opção, o xerife irá ficar ao lado do irmão mais novo e dos mórmons nesta disputa por terras e pelas riquezas do Velho Oeste norte-americano. Por consequência, muitas brigas, duelos, intrigas e tiroteios esperam pela dupla Trinity e Bambino. Os irmãos, que não se suportam, não podem se separar se quiserem sobreviver em um ambiente tão hostil. Com quase duas horas de duração, “Trinity é o Meu Nome” é um filme delicioso. Não é errado enxergá-lo como uma sátira aos faroestes clássicos e ao Western Spaghetti. O mais interessante está no humor praticado. Ora o longa-metragem de Enzo Barboni apela para a comicidade do tipo pastelão, ora aborda o humor mais sutil e inteligente. O roteiro da trama caminha o tempo inteiro nessa linha tênue entre o lado popular/escrachado e o refinado. A graça da história está em diferentes aspectos: nas roupas, nos diálogos, nos movimentos de luta, no jeito de cavalgar, nos olhares, nos tipos retratados e nas situações vivenciadas pelos protagonistas. Outro elemento que precisa ser elogiado é a construção das personagens. Os protagonistas de “Trinity é o Meu Nome” são figuras redondas. Trinity e Bambino estão mais para anti-heróis do que para heróis tradicionais do cinema. Vale lembrar que Bambino matou o xerife e que está naquele povoado como autoridade policial porque almeja praticar novos crimes (enquanto seus velhos companheiros de gangue não chegam). E ele não parece nem um pouco preocupado com as injustiças cometidas contra os desfavorecidos da região. Já Trinity é o típico vagabundo encrenqueiro que gosta de uma boa briga. E ele só aceita defender os mórmons quando fica interessado em duas jovens beldades da comunidade religiosa. Curiosamente, nem mesmo o fato de serem mais bandidos do que policiais tira o carisma dos protagonistas do filme. Por falar nas personalidades de Trinity e Bambino, repare que parte da graça desta produção está justamente no contraste das características físicas e psicológicas dos irmãos. Um parece ser o contraponto do outro: gordo-magro, bonito-feio, alto-baixo, extrovertido-introvertido, sério-brincalhão, responsável-irresponsável, inteligente-burro, impulsivo-contido, ambicioso-abnegado e forte-fraco. Essa dicotomia é fascinante em “Trinity é o Meu Nome”. A única coisa que os dois protagonistas parecem ter em comum é a rapidez em sacar a arma, a precisão no disparo e o gosto por encarar uma boa briga, além da habilidade de não dispensarem as confusões. Esse aspecto foi tão marcante que as características principais de Trinity e Bambino se estenderam mais tarde para quase todos os personagens da dupla. Outra questão que precisa ser mencionada é a trilha sonora belíssima de Franco Micalizzi. Minha sensação é que este filme é daqueles que são feitos para serem vistos e ouvidos. E a força da trilha não fica restrita à canção principal, por melhor que ela seja. Gostei também dos efeitos sonoros. Note a riqueza de elementos auditivos de “Trinity é o Meu Nome”. De maneira geral, o enredo desta comédia foi muitíssimo bem construído por Barboni. A impressão que tive é que não há nenhuma ponta solta ao longo de toda a narrativa. Além disso, a mescla de cenas de ação, de cenas cômicas e de cenas dramáticas beira a perfeição. Isso fica evidente no ritmo ágil do filme, que voa diante dos nossos olhos. Quando reparamos, ele já terminou. Vale lembrar que há cinquenta anos, era difícil encontrarmos produções de ação com esse tipo de pegada e velocidade (que lembra os filmes atuais). Juntamente com o roteiro impecável, temos uma ótima fotografia e uma excelente direção. Em outras palavras, “Trinity é o Meu Nome” não é apenas uma bela história, mas foi muito bem filmado. Não há toa, a sensação é de estarmos acompanhando uma produção hollywoodiana da década de 1970 (confusão que muitos espectadores fazem até hoje). A qualidade visual do filme italiano fica mais evidente nas cenas de brigas, geralmente protagonizadas por várias personagens ao mesmo tempo e em pequenos ambientes. Nunca foi fácil rodar esse tipo de situação, ainda mais há 50 anos. E o longa de Enzo Barboni dá um show de verossimilhança. O carisma imitado e a atuação impecável da dupla Bud Spencer e Terence Hill também ajudam a tornar tudo mais fácil e divertido. O principal ponto negativo quanto ao enredo está no desfecho da trama (cuidado, aí vai o spoiler!). Trinity e Bambino conseguem vencer os inimigos usando a inteligência e a esperteza. Sem dar um tiro nem dar um soco, a dupla consegue prender os vários inimigos na batalha final. Contudo, como eles são Bud Spencer e Terence Hill, eles soltam os adversários e promovem uma grande briga. Só mesmo os fãs de pancadaria sem limites da dupla engolem algo assim. Hilário! Outro elemento questionável é o da estereotipação de alguns tipos sociais: mulheres, indígenas, mexicanos e religiosos, por exemplo. Como um tradicional filme de humor dos anos 1970, não há qualquer preocupação com o politicamente correto. Assim, várias personagens são pintadas com tintas preconceituosas, o que pode desagradar parte do público contemporâneo. Por isso, não podemos perder o contexto no qual esta produção foi desenhada. Veja o trailer original (em italiano) de “Trinity é o Meu Nome”: E ouça agora na íntegra a canção principal do filme: Incrível! Cinco décadas depois, “Trinity é o Meu Nome” continua engraçado, emocionante e cativante. Se aos olhos dos espectadores atuais este filme não é perfeito, ao menos ele mantém grande parte dos méritos que maravilhou as plateias de cinema de outrora. Neste período em que as salas de cinema ainda não apresentam lançamentos empolgantes, vale a pena mergulhar nos clássicos da comédia internacional. Bud Spencer e Terence Hill são inesquecíveis e atemporais. A vontade que tenho é de assistir a todos as suas produções. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 15 - Siempre Coca-Cola

    Em agosto de 2004, eu havia passado no processo de trainee da Coca-Cola e fora enviado para morar em Buenos Aires. Como na unidade argentina da empresa não havia vagas disponíveis em Marketing (era nesta área em que acreditava trabalhar), fui deslocado para a área comercial. Passei a atuar como executivo de Vendas. Meu expediente era realizado a maior parte do tempo nas ruas com os vendedores. Por isso, acabei conhecendo em detalhes a capital portenha. Depois de alguns meses por lá, a cidade já não era mais uma novidade para mim. Desejando conhecer novos lugares, viajei, em um sábado à tarde, para o município de Tigre. Ele ficava a 33 quilômetros da capital do país. Fui de trem e assim voltei no domingo à noite. Ao retornar à estação do Retiro, no centro de Buenos Aires, reparei que não havia sobrado nenhum dinheiro em minha carteira. Havia gastado tudo na viagem. Assim, resolvi retornar a pé para casa. Meu apartamento estava apenas a cerca de trinta minutos a pé da estação. O problema era que aquela região era um tanto perigosa para ficar andando sozinho. Ainda mais em um domingo à noite, quando as ruas mais pareciam um deserto e a escuridão tomava conta de tudo. Sem alternativa, parti rumo à minha casa. Não havia me distanciado dois quarteirões da estação, quando entrei em uma das grandes praças que cercam o lugar. Neste momento, um rapaz veio correndo em minha direção. Ele gritava sem parar: "¡Chico, quiero plata! ¿Donde está la plata? Pases lo dinero". Levei um susto enorme. Meu coração quase saiu pela boca. Como não tinha dinheiro, simplesmente expliquei ao rapaz que não tinha como entregar o que ele me pedia. Ainda argumentei que se tivesse algum no bolso, não ficaria andando por aquelas ruas escuras e desertas com risco de ser assaltado. Eu pegaria um táxi. O rapaz, que aparentava ter entre dezoito e vinte anos, não se convenceu de imediato. Ele perguntou, percebendo meu sotaque, como um turista brasileiro ficava andando por aí sem dinheiro. Aí expliquei que não era turista, que eu morava ali há alguns meses. "¿Donde trabajas?" quis saber o jovem. Falei que era na Coca-Cola. Neste instante, o olhar do rapaz brilhou. No meio daquela escuridão toda, parece que havia falado a palavra mágica que me salvaria de um assalto ou de uma violência pior. "¿Na Coca-Cola?", exclamou surpreso. "Sí, na planta de Alcorta", respondi sem entender a felicidade do meu amigo e sendo o mais detalhista possível. O rapaz me explicou que ele era fã da Coca-Cola. Segundo me disse, era o fã número um da empresa de bebidas norte-americana. Ele levantou a manga da camisa e me mostrou uma grande tatuagem com a tampinha vermelha estampada em um dos seus braços. A partir daquele momento, ele passou a me chamar amistosamente de "Amigo de Coca-Cola". Milagrosamente, transformei-me de um possível alvo de assalto para seu melhor amigo. Inclusive me convidou para ir a um bar tomar alguma coisa com ele. Agradeci dizendo que não tinha dinheiro. Mesmo que tivesse, não iria para o bar com um cara que havia tentado me assaltar a pouco, pensei. Entretanto, o jovem argentino estava decidido. Disse que não havia problema porque era ele quem estava me convidando. Afirmou que tinha um pouco de dinheiro ainda e que seria uma alegria para ele me pagar uma bebida. Como seu "Amigo de Coca-Cola", eu deveria ir, garantiu. Não querendo contrariar o simpático rapaz, não tive como negar o empolgante convite. No bar perto da estação, pedimos uma Coca-Cola cada um e ficamos conversando. Ele me explicou que se chamava Javier. Morava em Rosário, no norte do país, e havia viajado, na semana anterior, para Mar del Plata, no sul, para ver um jogo do Rosário Central, seu time do coração, na semana passada. Era, afinal, época dos torneios de Verano. Antes da partida, porém, a torcida que ele estava se envolveu em uma grande briga com os torcedores do Boca Juniors. Por causa da confusão, Javier ficara a semana toda preso. Ele havia sido solto naquele dia à tarde. Depois de viajar para Buenos Aires, ele precisava de dinheiro para retornar a Rosário. Temia que sua família estivesse preocupada com a falta de notícias suas. Depois de falarmos de futebol, falamos bastante de Coca-Cola. Ele ficava encantado com os detalhes do que eu contava sobre a fábrica da empresa. Seu sonho era conhecer aquele lugar. Depois de muito bate-papo, Javier anotou em um papel o endereço e o telefone de sua casa em Rosário. Disse-me que quando fosse visitar o norte da Argentina para dar uma ligada. Afinal, eu era seu "Amigo de Coca-Cola". Com receio de passar o meu endereço (não esqueçamos que o rapaz havia tentado me assaltar), acabei deixando apenas meu e-mail em um papel que dei para ele. Achei que o argentino fosse ficar chateado, mas ele se animou ainda mais. Pegou o papel que havia me entregue e anotou também seu e-mail. Ao me despedir, quis saber como ele faria para conseguir dinheiro para voltar para Rosário. Juro que estava preocupado. Já cogitava até em levar o argentino até minha casa para dar-lhe alguma plata. Javier disse para não me preocupar com aquilo. Alguém na estação daria o dinheiro, voluntariamente ou não, que faltava para ele comprar a passagem. Para ajudá-lo, ainda expliquei como ele poderia fazer para ir até a rodoviária. Ela não ficava muito longe dali e ele poderia ir andando. Javier agradeceu e tascou um beijo em meu rosto, como só os argentinos gostam de fazer. Desde então, ganhei um amigo para sempre. Passamos a nos escrever ocasionalmente. Infelizmente, quando Javier voltou para Buenos Aires, eu já havia retornado ao Brasil. Ele se lembrou de mim e do meu time do coração em 2012. Na véspera da final da Copa Libertadores daquele ano, o torcedor do Rosário Central me escreveu falando que ele e sua família iriam torcer pelo Timão por minha causa. Agradeci, embora acredite que ele fosse torcer contra o Boca de qualquer forma. Conto esta história para mostrar a força de uma marca. Só porque trabalhava na Coca-Cola não sofri uma violência naquele meu retorno de Tigre. Ao invés de me colocar contra o rapaz que queria me assaltar, a marca de bebidas nos aproximou. Ficamos amigos a ponto de nos correspondermos por e-mail até hoje. É verdade que faz tempo que não falo com Javier, mas sei que sempre serei seu "Amigo de Coca-Cola". Essas coisas só acontecem com marcas extremamente fortes e poderosas. Mais do que uma propaganda (que não é o caso aqui), esta é uma constatação real: Siempre Coca-Cola. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 14 - Meu Problema com as Mulheres

    Descobri na semana passada qual é o meu maior problema com as mulheres. Este defeito da minha personalidade se revelou de maneira clara em um jantar a dois na última sexta-feira. Para explicar melhor o que aconteceu, preciso voltar no tempo. Conheci, há cerca de duas semanas, uma mulher incrível: bonita, simpática, divertida e inteligente. No alto dos meus trinta anos, já acreditava que não era possível haver alguém assim. Para minha surpresa, ela não apenas existia como surgiu na minha frente. O nome dela é Madeleine. Conheci essa beldade na academia. Depois de conversarmos por alguns dias entre um exercício e outro, tomei coragem e a convidei para sair. Ela aceitou e fomos jantar. O local escolhido foi um restaurante romântico. Foi lá onde fiz a descoberta aterradora... Depois que sentamos à mesa, a conversa fluiu numa boa. Ela era um doce de pessoa. Além de falar de todos os assuntos com desenvoltura, fazia isso com um jeito alegre e meigo. Sem conseguir entender como uma mulher tão perfeita como aquela ainda estava solteira, resolvi questioná-la a esse respeito. - O problema está nos signos dos homens que tive - confidenciou a bela como se revelasse um segredo - Só namorei caras que tinham os signos incompatíveis ao meu. Você me entende, né? - Depois da minha leve balançada de cabeça em tom afirmativo, ela emendou - Você acredita em horóscopo? É óbvio que eu nunca acreditei nisso! Não sou ingênuo para crer que os astros e suas movimentações no espaço têm o poder para reger o comportamento das pessoas aqui na Terra. Não podemos jogar toda a culpa do nosso destino na Astrologia. - Sim, claro que acredito! Acho essa questão muito importante - respondi sem hesitar - Se a Astrologia não fosse tão certeira, ela não seria considerada uma ciência. Atire a primeira pedra quem nunca mentiu em um primeiro encontro. Aquela mulher diante de mim jamais ouviria uma contestação saída da minha boca. Se ela acreditava no poder do horóscopo, na existência do Monstro do Lago Ness ou na honestidade do Paulo Maluf, eu também passaria a crer nisso tudo imediatamente. - Ai que bom! Sabe como é, acho superimportante essa compatibilidade astrológica. Infelizmente, muitos homens não acreditam nisso - disse ela um pouco tímida e novamente decepcionada com os integrantes do meu sexo - Qual o seu signo? - Touro - respondi feliz por saber ao menos o signo do zodíaco do qual pertenço. A minha alegria momentânea se transformou em preocupação. O olhar dela se modificou. Acho que dei a primeira bola fora da noite. Viu como não é bom falar as verdades nesse tipo de encontro?! - E o seu ascendente? - Italiano e português - respondi de bate pronto - A família do meu pai veio da Itália e da minha mãe de Portugal. - Gosto disso em você! - ela começou a rir - Você vem sempre com algo engraçado. Eu perguntei o ascendente do horóscopo, não a sua descendência... - Ah! Não sei, não. O que é esse tal de ascendente? - Como você não sabe? - Ela ficou alguns segundos em silêncio, para depois prosseguir - Para ser sincera, também não sei exatamente. Parece que é um lance que complementa o seu signo. Depois que você passa dos trinta anos, muitas vezes quem rege o seu comportamento não é o seu signo e sim o seu ascendente. Por isso ele é tão importante. Você deve estar sendo regido por ele. Vamos descobrir isso agora mesmo! Ela sacou o celular da bolsa e entrou em um aplicativo desenvolvido especificamente para esse fim. Como é bom ver as utilidades que as pessoas fazem da Internet. Às vezes, me pergunto como é que vivíamos antes da invenção da web. - Qual a cidade em que você nasceu? Qual o dia do seu nascimento? - Depois que respondi, ela prossegui no interrogatório - Qual o horário do seu nascimento? Ri da pergunta. Era óbvio que eu não lembrava. Sem aceitar minhas desculpas, Madeleine me fez ligar para minha mãe. Ela sim saberia informar qual o horário do meu nascimento. Foi o que aconteceu. Minha mãe não pensou duas vezes para decretar: sete horas da manhã. Com essa informação, a moça a minha frente colocou os dados no aplicativo e ficou aguardando o veredito. Será que com isso ela se sentiria mais confiante para iniciar um romance comigo? Será que iríamos namorar? Casaríamos e teríamos um monte de filhos? - Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaao!!! - gritou apavorada, em um misto de pânico e nojo. O urro foi tão alto que chamou a atenção de quem estava a nossa volta. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, duas garçonetes chegaram para ajudar. Na certa, pensaram que havia algum problema com o prato servido. Como minha companheira olhava para baixo no momento do grito, as funcionárias devem ter pensado que ela encontrou algum ser indesejável andando ou jazendo na salada. - Não há nada com o prato - respondeu Madeleine profundamente desconsolada - Apenas descobri que ele é Touro com ascendente em Touro. - Ahhhhh! - gritaram as duas garçonetes, em desespero, olhando para mim. A gerente do estabelecimento veio correndo saber o que havia acontecido de tão terrível naquela mesa. Afinal, todo mundo (ou quase todo mundo) estava gritando. Uma das garçonetes, muito educadamente, cochichou no ouvido da patroa o que havia ocorrido ali. A senhora ficou sem reação. Ela me olhou com ódio. - O que eu posso fazer por você, minha jovem - disse a gerente em tom protocolar para a bela dama sentada à mesa - é servir-lhe uma sobremesa como forma de amenizar sua dor. Que tal uma porção de brigadeiro de colher? - Muito obrigada. Acho que vou precisar mesmo - respondeu Madeleine laconicamente. Não houve a troca de uma só palavra em nossa mesa durante o restante da refeição. O que dizer numa hora como esta? Juro que não sei. O mais constrangedor, em minha opinião, eram os olhares das pessoas das outras mesas. Acredito que todas as mulheres presentes naquele estabelecimento rapidamente souberam da minha falha de caráter, solidarizando-se com a infeliz moça que estava diante de mim. Madeleine comeu sua sobremesa mecanicamente. Na sequência, pedi a conta, paguei e retornamos às nossas casas em meu carro. O caminho todo foi feito em um silêncio sepulcral. Ao sair do veículo e entrar em seu prédio, ela limitou-se a se despedir com um aceno tímido de mão, saindo do meu campo de visão para sempre. Nunca mais vi Madeleine. Ela nunca mais apareceu na academia nem respondeu às minhas insistentes mensagens no WhatsApp. É uma pena! Queria ter ao menos pedido desculpas a ela. Juro que não sabia o quão monstruoso eu era naquele momento. Se soubesse, é lógico que jamais a convidaria para sair. Deve ser por isso que nós homens não possuímos conhecimento aprofundado sobre Astrologia. Provavelmente é um comportamento nosso de autodefesa. Hoje carrego comigo essa triste constatação. Até agora não sei exatamente o que quer dizer ser Touro com ascendente em Touro, mas sei que é algo ruim, muito ruim. Este é atualmente o meu maior problema com as mulheres. Agora tenho mais uma coisa para esconder no próximo primeiro encontro. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 13 - Cidade Jardim

    Meu sonho é ter um jardim: um pequeno espaço para cultivar algo de valor para mim. Entretanto, isso, onde moro, não é tão fácil assim. Vivo em uma cidade de números sem fim. Só mesmo um santo com uma visão aguçada para cuidar desse lugar que, definitivamente, não é Berlim. Doze milhões de pessoas amontoam-se sobre a terra da fina garoa. É gente varoa vinda de Roma, Tóquio, Serra Leoa, Madrid, La Paz e Lisboa. Trafegam pelas ruas oito milhões de veículos, produzindo uma cinza névoa que não se dissipa à toa. Devoram-se por aqui, diariamente, seiscentas mil pizzas, a maioria da boa. E acontecem, a cada ano, noventa mil eventos que entretém do executivo à coroa. Às vezes creio que não vivo, apenas sobrevivo. Nesta terra em que não se dorme, estou sempre remoendo um pensamento aflitivo. Apesar das várias oportunidades de carreira, sou taxativo: sinto-me tão frágil e muito decorativo nesse mundo corporativo. Sinto falta de um amor abrasivo e de um lugar para montar o meu jardim afetivo. Na capital da aglomeração, tenho a sensação de que sou comprimido pela multidão. De manhãzinha mesmo, quase não consegui entrar na condução. Se tivesse comido um pastel de feira a mais no dia anterior, teria ficado na mão. Quando fui comprar um livro, na hora do almoço, aguardei trinta minutos em uma fila sem noção. O filme de ação dessa noite, eu não pude ver apesar de minha empolgação. A placa indicava a superlotação. Para atravessar as ruas e avenidas, em alguns momentos, é necessária a coragem de um caçador de tubarão. É muita confusão em minha opinião! O pior sentimento, contudo, ocorre quando regresso à minha casa. Ali me sinto mais solitário do que um astronauta da NASA. Saber que não há um espaço verde por perto é o que me arrasa. Como gostaria de ter um cultivo que me ajudasse a esquecer dessa rotina rasa e esquentasse meu coração em brasa. Habito um apartamento chamado de quitinete. Esse termo aportuguesado significa que ele é um minúsculo quarto/sala com uma toalete. Seus trinta metros quadrados são rodeados por janelas e revestidos por carpete. “O que é isso, afinal?”, poderia me questionar alguém no tête-à-tête. São basicamente três passos para cada um dos lados, medidos pela minha namorada Odete, uma moça meio piriguete que só sabe cozinhar omelete. Compacto e prático como um canivete, minha quitinete fica em uma área nobre, infestada por mendigos e com um ou outro pivete. Só não fico deprimido porque passo menos tempo nele do que deveria. Trabalho quinze horas por dia, mais do que poderia e muito menos do que de fato precisaria. E ainda perco duas horas no trânsito, entre o ir e vir do escritório da empresa de auditoria. Além do mais, me exercito uma hora na academia, em busca de melhoria e, por que não, de alguma euforia. Ainda arranjo tempo para cursar uma pós-graduação por exigência da minha diretoria. Penso toda hora no dia da almejada aposentadoria. As pessoas dos outros estados acham engraçado quando explico a dinâmica em meu abrigo. Ninguém acredita que além de diminuto, meu apê ainda é partilhado por um primo e um amigo. Sim, há mais duas pessoas que moram comigo. Como o aluguel é caro por estes lados, o único recurso foi convidar uma dupla que não me fizesse correr perigo. O mais curioso é que quase nunca vejo o Messias nem o Rodrigo. O primeiro é policial rodoviário, passando mais tempo em sua viatura pelas estradas do que em seu apartamento dividido. Rapaz mais velho, ele é organizado e se preocupa o tempo inteiro em pegar bandido. O segundo é um estudante universitário de dezoito anos, pouco contido. Nessa idade, ou está em uma festa, em um bar ou está estirado em alguma calçada com o olhar perdido. Não me recordo quando foi a última vez (se é que isso já tenha acontecido) em que estivemos, aqui em casa, todos juntos no mesmo momento. Deve ser por isso que temos apenas duas camas (na verdade, um beliche) no único aposento. Apesar dessa incongruência, nunca houve atropelamento. A sorte do trio foi a diversidade de comportamento. Meus dois colegas de apê são legais. Eles se contentam em viver em um local sem jardim, sem calor humano e sem animais. Não parecem se preocupar com as ausências de todos os elementos que não sejam materiais. Eles, na certa, têm preocupações mais imediatas e menos sentimentais. Não gostam, por exemplo, de consumir comida com pesticida. Não ingerem frango, pois leram em uma reportagem que a ave para se tornar suculenta sofre antes de ser abatida. Em um espaço minúsculo, fica confinada durante toda a vida. Além disso, acaba privada de sono, vive estressada e é entupida de comida. Uma crueldade sem medida! Quando analisado de perto, nenhum lugar é perfeito. Todos têm algum defeito. Os aspectos bons e ruins existem independentemente do prefeito eleito. Se o lugar inspira respeito ou deixa o povo insatisfeito, é tudo culpa da visão do sujeito. O mesmo ocorre nesse município que carrego no lado esquerdo do peito. Porém, tenho certeza de que a vida por aqui seria muito melhor se houvesse mais jardins para o nosso proveito. Essa é a única coisa que falta para deixar a cidade do meu jeito. Do livro do "Pequeno Príncipe", tenho uma inveja danada do seu principal personagem. Ele morava, como eu, em um lugar pequeno e com uma árida paisagem. Contudo, ele tinha a companhia de uma rosa de beleza selvagem, quase uma miragem. Ela era sua companheira e amiga, fornecendo-lhe alegria e coragem. Norteado por uma paixão genuína, ele protegia sua amada, temendo qualquer bobagem que pudesse afetar sua plumagem. Gostaria muito de ter um jardim para cultivar esse tipo de relacionamento. Infelizmente, isso não é possível no momento. Não há espaço para tal recurso em minha vida sempre em movimento. Quem sabe um dia haja mais cor nesse cenário cinzento. Se tiver sorte, poderei ter não apenas um pequeno, mas um grande jardim barulhento. Ali as crianças poderão correr e brincar ao relento. Os mais apressados conversarão tranquilamente, esquecendo-se das ocupações e obrigações do seu provento. Os casais apaixonados rolarão entrelaçados pela relva sem constrangimento. Os idosos poderão jogar animadas partidas de dominó ao vento. As abelhas e os pássaros visitarão as flores procurando seu sustento. E lá, cultivarei a rosa que tanto desejo e que me trará certo alento. Hoje, levo comigo essa quimera. Sei o quanto ela parece improvável durante essa longa espera. Esse sonho é mais pertinente para a galera que mora na Riviera. Nessa cidade que chamo de minha, a vida é igual a este texto onde tudo se acelera. Ao invés de um conto ou uma crônica, quem sabe eu não possa viver um dia como se habitasse uma novela ou um romance de outra era. Com certeza, teria mais tempo para cultivar os aspectos importantes dessa existência tão severa. Um simples jardim, julgo, faria uma diferença sem fim. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. 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  • Crônicas: Eu e o Mundo - 12 - O Que Você Está Fazendo com a sua Vida?

    Viajei, no segundo semestre do ano passado, para Brasília. Fiquei um mês realizando trabalhos em uma empresa estatal. Fui enviado para dar cursos de motivação para os funcionários daquela companhia. E o que encontrei lá me deixou muito assustado e me fez refletir sobre a maneira como encaramos nossa carreira e nossa vida profissional. Você está feliz com as escolhas da sua profissão? Você acorda todos os dias transbordando motivação e exalando entusiasmo para trabalhar ou vai forçado e obrigado pelos compromissos assumidos? Você já parou para pensar sobre isso? A grande maioria dos colaboradores da organização onde fui atuar estava muitíssimo desanimada com seus empregos, suas atividades e até mesmo com suas profissões. Os corredores e as salas da organização eram um mar de lamentações, martírios e reclamações. Todos eram funcionários públicos concursados. Eles tinham, em algum momento do passado, prestado concurso público, seduzidos pelos altos salários e pelos ótimos benefícios oferecidos. Achavam que trabalhando em uma boa empresa, de renome e bem-conceituada no mercado, e recebendo uma bela remuneração, teriam todos os seus problemas (profissionais e pessoais) resolvidos. Afinal, com dinheiro no bolso, as preocupações desaparecem. Entretanto, depois de alguns dias, semanas, meses ou anos, não encontravam mais sentido para continuar trabalhando naquele lugar. Estavam ali apenas pelo dinheiro no final do mês. Assim, as horas passadas atuando naquela empresa se tornaram um peso, um sacrifício e uma penalização para esses funcionários. Eu via o martírio que era para eles passarem uma hora ali dentro. E eles faziam isso por várias horas diariamente, todos os dias da semana, por anos e mais anos. Isto é, quando não faltavam ou não entravam em greve (eles tinham acabado de voltar de uma greve e estavam ensaiando uma nova para as próximas semanas). Em contrapartida, a vida material de todos estava tranquila. O estacionamento da companhia era um desfile de carros novos e luxuosos. Conversando com aqueles trabalhadores, identifiquei que quase todos tinham casas próprias e locais para passar o final de semana (sítios, chácaras e casas de veraneio). Usavam roupas de marca e tinham hábitos sofisticados, como jantar em restaurantes caros e comprar os eletroeletrônicos mais modernos. De certa forma, o que aquela gente estava fazendo era vender seus sonhos, suas vidas e suas almas. Eles não desejavam mais ficar ali, mas permaneciam por dez, vinte ou trinta anos apenas pela boa remuneração recebida e pela garantia de receber no futuro uma polpuda aposentadoria. Fazer isso com a sua própria vida é justo? Eu, sinceramente, fiquei angustiado só de me imaginar fazendo algo no qual eu não gostasse. Como é triste ver alguém fazendo algo de maneira improdutiva apenas pelo interesse financeiro. Geralmente, esses indivíduos têm outras habilidades e talentos, esquecidos ou ignorados no dia a dia. Esses trabalhadores seriam de certa forma os "escravos modernos", obrigados pela situação a desempenhar atividades não desejadas e de baixo rendimento em detrimento de outras das quais seriam mais felizes e competentes. A pessoa fica frustrada e o ambiente a sua volta fica pesado e sombrio, seja no trabalho ou em casa (a angústia por fazer algo indesejado é carregada para as outras horas do dia, mesmo longe do escritório). Infelizmente, esse cenário não acontece apenas naquela empresa de Brasília. Também não ocorre unicamente nas empresas estatais. Estou cansado de ver funcionários de instituições privadas desmotivados e infelizes com suas vidas profissionais. Por que alguém se sujeita a fazer algo que não o deixa feliz? A resposta mais corriqueira é: "por causa do dinheiro". Sem ele deixamos de fazer muitas coisas essenciais da vida. Porém, devemos encarar a busca pelos recursos financeiros como a única variável importante da vida? Isso me fez recordar uma conversa tida há alguns anos com o meu pai. Ele fora me visitar e ficou assustado com a limitação material da minha nova casa (alugada). Eu havia largado um emprego executivo no qual ganhava bem para me aventurar em uma carreira de escritor cuja remuneração era muito menor. Eu irradiava felicidade por, enfim, fazer algo que eu sonhava há tanto tempo. Em contrapartida, tive de reduzir meus gastos mensais e abrir mão de algumas despesas (todas elas, descobriria depois, supérfluas). Meu pai (como todo pai preocupado com o bem-estar do filho) passou a questionar minhas decisões e a apontar a "queda" do meu padrão de vida. Depois de uma longa explanação, ele fez uma pergunta para saber se eu concordava com seu ponto de vista: "Filho, você acha que a vida é brincadeira?". Não pensei muito para responder. "Sim, pai, acho sim. A vida é uma grande brincadeira. Feliz de quem a enxerga dessa forma e pode se divertir durante o processo. Feliz do indivíduo com a capacidade de aproveitar os momentos realmente importantes da sua existência e não aqueles falsamente apregoados como os relevantes. Feliz do profissional com a coragem de fazer valer suas vontades e buscar sua realização plena. Feliz da pessoa que soube utilizar os talentos e os dons conferidos pela natureza em prol do coletivo e da sua verdadeira vocação". Há muitos anos não tenho casa própria, carro do ano, não posso viajar anualmente nas férias, não desfilo por aí com roupas de marca e não tenho condições de fazer minhas refeições nos restaurantes mais badalados da cidade, como podia fazer antigamente. Porém, acredito levar uma vida mais produtiva e feliz hoje do que a tida anteriormente. Meus amigos me questionam sempre: "Você é louco! Impossível manter um casamento feliz e criar os filhos dessa maneira?". "Será mesmo?", respondo de forma interrogativa. Qual é a melhor mensagem para passarmos para as nossas famílias e para os nossos descendentes: "Venda sua alma para quem pague mais ou faça muito bem aquilo que você gosta e sabe fazer de melhor?". Na minha humilde opinião, o segredo do sucesso profissional e da excelência está na segunda alternativa. Não conheço um único profissional de destaque em qualquer carreira cuja escolha tenha recaído sobre a primeira alternativa. A vida, para mim, é uma grande brincadeira. E como é bom brincarmos com aquilo que gostamos e com o que queremos fazer. Não há ninguém mais inspiradora, ativa e entusiasmada do que as crianças. Elas, verdadeiramente, sabem brincar de viver e vivem a brincar. Falo com orgulho: não sou escravo dos bens materiais e do consumismo, tão impregnados em nossa sociedade nos dias de hoje. Meus filhos certamente crescerão com esse exemplo em casa. Torço para eu manter esse entusiasmo e essa ingenuidade infantil dentro de mim por muitos anos ainda, acreditando piamente nessas crenças tidas por muitos como insanas. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 11 - Como é que se compra uma camisa branca?

    Preciso de uma camisa branca... É domingo e amanhã tenho uma reunião importante no escritório. Nestas ocasiões, minha experiência e meu bom senso me alertam para ir ao trabalho da maneira mais convencional possível. A discrição é a arma do jogo. Aí, entra em cena a tal camisa branca. Ela é o melhor uniforme para tais circunstâncias. O problema é que a única que tinha fora jogada no lixo há duas semanas. Estava velha de mais, consumida pelo uso frequente. Olho agora para o interior do meu armário e vejo uma coleção interminável de camisas de todas as cores, tecidos, formatos e estampas. Não há nenhuma branca. Não tem nenhuma discreta, que realmente eu possa usar. Por que minha esposa decidira dar um fim derradeiro à minha camisa branca tão querida? Por que nunca encontro algo que goste de utilizar entre estes cabides?! Diante destes enigmas indecifráveis, resolvi ir ao shopping. Queria comprar uma nova camisa. Como não sei fazer este tipo de atividade sozinho, chamei minha esposa para me auxiliar. Não há ninguém mais preparado neste mundo do que as mulheres para esta ocasião tão complexa na vida de um homem. Ela ficou radiante com o convite. Ao chegarmos à loja em que sempre compro minhas roupas, demorei quinze segundos para escolher o que precisava. Quando me dirigia ao caixa, ouvi uma vendedora abordar minha mulher: - Estamos com uma promoção hoje. Na compra de 3 peças, você ganha 15% de desconto na compra total. - Que sorte! – gritou minha esposa – Vou comprar, então, uma camisa e uma calça para o meu pai. Queriiiiiiiiiiido, volte aqui!!! O processo de escolha dos novos itens não foi tão demorado. Cinquenta minutos depois da primeira fala da funcionária da loja, tínhamos definido as três peças que levaríamos: minha camisa branca e os presentes do sogrão. No caixa do estabelecimento, reencontramos a vendedora, que desta vez soltou uma trágica notícia: - Temos outra promoção neste final de semana: na compra de 5 peças, vocês ganham 25% de desconto no preço final de todos os itens. - Ótimo! – minha companheira se voltou para mim como se tivéssemos ganhado na Mega-Sena - Podemos comprar mais duas camisas para você. Discutimos pelos quarenta minutos seguintes. Minha excelentíssima senhora queria que levássemos as camisas nas cores mais extravagantes possíveis. E eu recusava todas as opções apresentadas. - Só preciso de uma camisa branca... – implorei - Meu armário já está abarrotado de tanta roupa desnecessária! Como, naquele momento, eu não era a pessoa mais preparada para emitir julgamentos ou para tomar decisões, acabei cedendo. Decidimos pelas duas novas peças que levaríamos em comum acordo: uma camisa verde-abacate e uma vermelho-sangue. - Acho que não falei para vocês - disse a diabólica vendedora para a minha perplexidade - Há uma oferta imperdível de aniversário da loja. Na compra de 10 peças, vocês ganham 35% de desconto. Quatro horas, vinte e três minutos e quinze segundos depois de ter pegado a camisa branca pela primeira vez, saí daquela loja com vinte peças nas sacolas: dez camisas, três calças, dois cintos e um blusão para mim, além de presentes para o sogro, para meu pai e para meu cunhado. Para a minha companheira de compras, aquela foi a melhor aquisição dos últimos anos. Afinal, não é todo dia em que conseguimos 50% de desconto. E ela já havia adiantado as compras de aniversário dos nossos pais e de Natal do irmão dela. Só quando cheguei à nossa casa, percebi a furada na qual tinha me metido. Minha esposa, na ânsia de colocar mais camisas coloridas em minha compra, acabara tirando algumas peças que ela não tinha gostado. E, com isso, a minha tão desejada camisa branca fora descartada, voltando à bancada da loja. Como é difícil comprar roupa, né? Meu sonho é um dia ter habilidade suficiente para realizar esta atividade sem precisar recorrer à ajuda de uma mulher. Por enquanto, aproveito os préstimos da minha zelosa senhora. Já imaginou que terrível seria se não a levasse comigo! Enquanto penso sobre isso, recordo-me de algo: preciso de uma camisa branca. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 10 - É melhor rir do que chorar com o futebol brasileiro

    Já diz um ditado popular antigo: é melhor rir do que chorar. É assim que me sinto assistindo aos jogos do Campeonato Brasileiro deste ano. Como todos nós sabemos, nosso estimado e outrora honrado futebol vive uma entressafra de talentos. Com isso, os times nacionais, em sua maioria, possuem atletas de baixa qualidade técnica. Os jogos, assim, são realizados com um nível pobríssimo de qualidade. Isto no começo me incomodava um pouco, admito. Depois me acostumei e agora não vivo sem uma boa disputa entre pernas de pau. Meu fascínio pelo futebol mal jogado é tanto que eu procuro assistir somente aos piores jogos e aos confrontos entre as equipes mais limitadas tecnicamente. Tudo para me divertir. E sabe que é engraçadíssimo ver este tipo de partida. Afinal, é melhor rir do que chorar... Nos últimos meses, tenho fugido sistematicamente dos jogos de maior apelo midiático e protagonizado pelas melhores equipes do nosso país. Qual é a graça de ver uma bela partida de futebol? Nenhuma. Se eu quisesse ver um jogo assim, primeiramente, não iria procurar no Brasileirão de 2015. Ligaria a TV na Liga dos Campeões da Uefa, no Campeonato Inglês, Alemão ou Espanhol. Depois, não faz sentido ver uma peleja bem jogada. Ela não rende risadas, gozações e divertimento ao torcedor. O legal é ver os lances de furadas bizarras, os gols perdidos, os passes mal feitos, os frangos, os tropeções e as divididas entre os caneludos. Aí está a graça do esporte bretão. Depois de alguns meses vendo apenas os piores jogos do nosso futebol (toda rodada escolho a dedo quais pelejas assistir), me sinto em condições para escrever um pequeno guia do que você deve assistir em nosso campeonato nacional para se divertir. Aí vai: Comece pelos jogos do Vasco da Gama. É hilário ver a ruindade desta equipe. Eu não tenho perdido nenhum jogo da equipe de Eurico Miranda nos últimos dois meses. O Vasco 2015 é o novo Íbis. Muito provavelmente, este é o pior elenco da história da equipe da Colina. Sabe aquele time da sua rua que não vencia ninguém? Pois ele tem grande chance de derrotar a equipe de São Januário em uma partida deste nacional. E dando show! O elenco cruzmaltino tem alguns atletas péssimos. Ver um ataque formado por Riasco (também conhecido como Fiasco) e Herrera (apelidado na Argentina de "Quase Gol") é de chorar de rir. E depois os jornalistas ficam se perguntando por que o Vascão ficou quase dois meses sem marcar um único tento (dois meses sem fazer um único gol!!!). Luan, o zagueiro titular, é horrível. Ele não acerta um passe e só faz besteira. Quando ele entra em campo, é diversão na certa. A lateral direita vascaína é um caso à parte. O técnico, desesperado para encontrar uma solução, coloca a cada meio tempo um jogador diferente para cuidar do lado direito da sua defesa. Em dois jogos que assisti, vi quatro laterais diferentes sendo testados. Um pior do que o outro. E no gol? Sempre que o goleiro titular, o uruguaio Martín Silva, fica ausente (jogos pela sua seleção ou contusões), entra um tal de Jordi. O jovem arqueiro pode até um dia se transformar em um grande goleiro. Só que hoje a realidade é bem distinta. Sua especialidade é sair mal do gol e se esticar para pegar a bola e não conseguir. Ninguém pega a bola dentro do gol mais e melhor do que Jordi neste Brasileirão. Chega a dar dó do rapaz (e da torcida vascaína). Não perca também os jogos do Coritiba. Apesar da melhora da equipe desde a chegada do técnico Ney Franco, ainda é possível se divertir com a grossura dos jogadores do Coxa. O pior jogador (neste caso, o mais divertido) é um tal de Thiago Gallardo. O meio-campista só atrapalha sua equipe. Ele é mestre em estragar contra-ataques e dar passes para o adversário. Aí você se pergunta: como ele é titular? Sempre na metade do segundo tempo ele é substituído. E então entendemos porque ele continua na equipe que começa as partidas. Os reservas da posição chegam a ser piores. É curiosíssimo ver a atuação de Esquerdinha e Lúcio Flávio. Eles fazem a torcida sentir saudades de Gallardo. Pelo menos, o titular é esforçado. Pelo menos isso... Coloque na sua agenda de final de semana as partidas do Avaí. A equipe catarinense não possui nenhum grande "craque" (neste caso, o termo se refere a um péssimo jogador). A ruindade é coletiva. Por isto, não foque na atuação de um jogador especificamente. Analise o conjunto da obra, principalmente a defesa. Veja como eles são ruins, individualmente, mas coletivamente também. Vagner (goleiro), Nino Paraíba (lateral direito), Emerson, Antônio Carlos (zagueiros) e Romário (lateral esquerdo) formam o quinteto defensivo mais horripilante da Série A deste ano. Jogo do Avaí é certeza de muitos gols (para o adversário). Repare também na limitação (técnica e física) do meia Marquinhos (considerado o melhor jogador da história do Avaí!). Se quando ele era jovem ele era ruim, agora imagine como o meio-campista está atuando depois de ter ficado lento e velho. Hilário! Outra equipe que rende boas risadas é a Ponte Preta. Anote a escalação dela: Marcelo Lomba; Rodinei, Renato Chaves, Ferron e Gilson; Josimar, Fernando Bob, Elton e Adrianinho; Biro Biro e Diego Oliveira. Torça para que nenhum deles vá para seu time algum dia. Para fechar o teatro dos horrores da Série A (Série A???!!!), fica a sugestão a equipe do Internacional. Ver os passes errados de Alex no meio de campo, as tentativas frustradas de drible de Vitinho, os chiliques nervosos e as constantes contusões de D'Alessandro (a brincadeira é: em qual minuto da partida o camisa 10 colorado irá se machucar desta vez?), os gols perdidos por Rafael Moura e a grossura de Lisandro López são cenas engraçadíssimas (isto é, quando você não é torcedor do Internacional). Se você tiver estômago (aí a coisa fica um pouco mais pesada, já vou logo avisando...), a Série B também rende boas diversões. A melhor equipe, neste sentido, é o ABC. Eles são praticamente o Vasco da Gama da Segundona. Não há jogo bom para eles (mesmo quando eles conseguem milagrosamente vencer alguém). O ataque do meu querido BOA Esporte é uma piada este ano. Quando eles fazem gol, é decretado feriado municipal no dia seguinte em Varginha. E o que falar do Mogi Mirim que até pouco tempo atrás tinha Rivaldo, com quase 90 anos, atuando como titular. O Ceará completa esta lista tragicômica. Fica aqui a dica, então: aproveite o futebol brasileiro de 2015! Ele é cheio de emoção e diversão para os torcedores. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 9 - O que Devo Fazer Nesta Crise?

    Os tempos de bonança da economia ficaram para trás. Depois do crescimento constante do PIB (Produto Interno Bruto) nos primeiros anos do novo século e nos primeiros anos desta década, uma grave crise econômica chegou ao nosso país. Em qualquer canto do Brasil é possível ver pessoas reclamando da queda acentuada dos negócios, da falta de emprego, da perda de poder aquisitivo e da inflação elevada. O cenário é o pior possível. Junto com a crise econômica vieram em conjunto as crises política, social e de confiança. O que fazer nesta situação? Como encarar as adversidades? A primeira coisa na qual devemos analisar é que crises fazem parte da dinâmica do capitalismo (e da própria vida, se formos pensar um pouco mais filosoficamente). Não é possível viver eternamente progredindo. Às vezes, é necessário parar e até mesmo dar alguns passos para trás, para depois seguir avançando com mais força e confiança. Joseph A. Schumpeter, brilhante economista austríaco, já afirmava na década de 1930 que a economia capitalista é formada por sucessivos períodos de crescimento e de recuo. Depois da expansão sempre vem a regressão. E depois da crise, sempre vem o progresso. Esse é um movimento cíclico. Assim, o que estamos vivendo hoje em nosso país não é novidade nenhuma. Depois do crescimento dos últimos anos, nada mais natural do que a economia entrar em crise para se readequar às extravagâncias e aos excessos do período de expansão rápida. Sabendo desta dinâmica da economia, muitos estrategistas do mundo dos negócios orientam as pessoas e os profissionais a trabalharem sempre se antecipando ao ciclo. Ou seja, no período de progresso, o ideal é já se preparar para a chegada da crise iminente. Lembramo-nos da fábula da formiga e da cigarra, quando a primeira trabalhava incansavelmente e economizava em pleno verão para a chegada do inverno, enquanto a segunda não trabalhava nem se preparava para a vinda do tempo frio. Não é à toa que esta passou por maus momentos quando o inverno chegou... No período de crescimento, as famílias devem economizar seus recursos, os profissionais devem investir em suas capacitações e as empresas devem diminuir seus custos e melhorar seus processos. Todos precisam estar preparados para a chegada do inverno (período de maior competição e de menor quantidade de recursos disponíveis no ambiente) que se aproxima. Infelizmente, quase ninguém age dessa forma no Brasil. Somos um povo muito parecido com a cigarra. Admiramos o jeito da formiga, mas não conseguimos imitá-la. E como devemos agir agora na época da crise? Quem não fez a lição de casa, precisa fazê-la na marra e urgentemente. O problema está no fato que não estamos na melhor condição e no melhor cenário para fazer muitas das práticas aqui sugeridas. É mais difícil economizar, por exemplo, quando os salários e os faturamentos são menores. O mesmo se aplica a necessidade de investimento em capacitação, no corte de custos e no investimento em melhorias de processos. Isto tudo era mais fácil de ser feito há alguns anos. Contudo, quem não fez isto no passado, precisará fazer agora de qualquer jeito. Queira ou não queira. Quem já realizou essas medidas (amargas), por outro lado, deve e pode pensar no próximo ciclo econômico. Afinal, depois da crise sempre vem o crescimento, não é? E o que é pensar na fase de progresso? É investir na expansão ou na diversificação dos negócios (os ativos estão mais baratos para serem adquiridos nesta época) e no crescimento da carreira (sim, por que não conseguir aquela promoção tão sonhada no emprego?). A princípio pode até parecer contrassenso investir pensando em crescimento (profissional ou nos negócios) na época de crise, mas não é não (assim como parecia ilógico para a cigarra pensar no inverno durante a estação mais quente do ano). Vejamos o que acontece na prática. Tenho um casal de amigos que são sócios de uma conceituada empresa de consultoria e treinamento de âmbito nacional. Nesse período de crise, a primeira coisa que as empresas fazem é cortar a verba de treinamento e de consultoria. Ou seja, a companhia deles está vivendo uma das piores fases de sua existência. O que eles fizeram? Além de diminuir os custos do seu negócio e reforçar o investimento em Marketing e Vendas da empresa de consultoria e treinamento, eles resolveram investir em outro negócio, de outro ramo de atividade. A escolha foi pelo setor de entretenimento. Aí alguém pode pensar: eles estão malucos, abrir uma nova empresa quando vivemos uma séria crise econômica! Eu não faria isso, muita gente concluiria. Em pouco mais de três meses, a nova empresa é um sucesso, sendo destaque nos noticiários de televisão, jornal, revista e Internet. Há a expectativa que até o final do ano, esse novo negócio seja maior do que a primeira empresa deles, com quase vinte anos de existência. Como isso é possível? É possível porque eles investiram em um momento em que ninguém está arriscando. Fica mais fácil crescer quando não há concorrentes ousados por perto. Outro exemplo aconteceu na minha família. Minha irmã possui uma academia de dança. E sabe qual foi o período de maior crescimento do negócio dela? Justamente durante a crise de 2008. Como isso foi possível? Simples: com a queda da economia, muitas academias de dança no bairro onde a dela estava (está) instalada precisaram fechar as portas. Afinal, não tinham recursos para fazer frente à queda do faturamento e não possuíam processos enxutos para operar com baixa demanda. Com o encerramento das atividades desses vários estabelecimentos, só ficaram algumas poucas academias (justamente as que fizeram a lição de casa na época do oba-oba de crescimento). E estas absorveram os alunos órfãos das que fecharam. Assim, foi possível crescer, mesmo com a economia em evidente recuo. Curioso como funciona a dinâmica dos negócios. Um amigo meu da época da faculdade também conseguiu recentemente uma grande promoção na empresa na qual trabalha há alguns anos. No meio da demissão de muitos colegas, ele conseguiu ser promovido. Perguntado como aquilo era possível, ele explicou. Enquanto muita gente na companhia estava acomodada nos últimos anos, ele aproveitou para se desenvolver (fez uma pós-graduação e um MBA) e, principalmente, se sujeitou a realizar os projetos mais complicados e renegados da organização. Ele inclusive se mudou três vezes de cidade (para diferentes regiões do país) para assumir postos que ninguém queria. Agora, quando as coisas não estão mais fáceis, ele não apenas passou longe do corte de pessoal como foi o primeiro a ser lembrado quando abriu uma vaga para a diretoria. Dessa forma, o que devo fazer nesta época de crise? A esta pergunta, a mais ouvida por mim ultimamente, respondo: Se você não fez a lição de casa, faça-a. Se já a fez, invista pensando na próxima fase da economia, a do crescimento. Aproveite essa fase mais morosa da economia para fazer bons negócios e crescer mais do que seus concorrentes (menos preparados e descapitalizados). Trabalhe pensando sempre à frente e nunca com os olhos no passado. Essa é a receita dos bem-sucedidos. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 8 - O Eco de Antigas Palavras

    Andar por cidades antigas ou avistar construções de muitas décadas atrás é voltar no passado e rememorar um tempo já esquecido. O mesmo se passa quando entramos em contato com objetos antiquados. Vê-los e manuseá-los é uma maneira de compreendermos como era a vida de nossos antepassados. Esse choque entre presente e passado é riquíssimo. Apesar do progresso tecnológico e científico constante de nossa sociedade, estamos o tempo todo interagindo com o antigo. Conhecer e entender nossas raízes é, de certa forma, um exercício de maturidade e de autoafirmação. O mesmo processo se passa com o nosso idioma. Você já parou para pensar sobre isso? As línguas estão em constante evolução e, por isso, estamos sempre interagindo com fragmentos do passado. Compreender o desenvolvimento idiomático é entender como a sociedade e a cultura de um povo se consolidou ao longo dos anos. Em cada palavrinha, expressão, ditado popular ou construção semântica temos um pouquinho dos nossos antepassados e um elo perdido de nós mesmos. Curiosamente, poucas pessoas enxergam a importância deste tipo de estudo. Os historiadores, os arqueólogos, os cientistas, os pesquisadores e os desenvolvedores de novos produtos são vistos geralmente como protagonistas do estudo da relação sociocultural de uma civilização. Já os estudiosos do idioma são renegados para um injusto segundo plano nesta discussão. Esse equívoco se faz pelo desconhecimento das pessoas da importância do idioma para seu povo. No vídeo "Idiomaterno", exibido no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, há algumas passagens interessantes sobre essa questão. "Não existe humanidade sem língua. É ela quem dá significado e sentido ao que somos, pensamos e fazemos", diz o narrador da produção. Em outro trecho do mesmo vídeo, a relação do idioma e a formação cultural da sociedade é mais explícita: "A língua é como a espinha dorsal que põe de pé as sociedades, organizações, crenças, costumes, valores e comportamentos". De maneira mais poética, Chico Buarque, em sua canção chamada "Futuros Amantes", proclama: "Sábios em vão/tentarão decifrar/o eco de antigas palavras/fragmentos de cartas, poemas/mentiras, retratos/vestígios de estranha civilização(...)". Para o músico e compositor carioca, as letras têm o poder de retratar um período de tempo específico de uma sociedade. Para José Saramago, conforme descrito no documentário "Língua - Vidas em Português", a língua pátria é um arquivo de beleza e fonte de valor, sendo muito mais do que mera ferramenta de comunicação. Ela é a expressão maior de um povo. Dessa forma, fica clara a importância de estudarmos e compreendermos os "ecos das antigas palavras". Elas dizem muito do que somos e do que nossos antepassados foram. Nossa língua é a parte fundamental da representação cultural e social de nosso povo. Não podemos nos esquecer disso. Jamais! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 7 - Não Volto Tão Cedo ao Estádio!

    Preciso contar esta história para vocês. De certa maneira, tomo a liberdade para usar o Blog Bonas Histórias e a coluna Contos & Crônicas para desabafar. Até agora não sei se sou eu quem está errado ou se o mundo está maluco. Este episódio aconteceu comigo no ano passado e ainda está vivo em minha memória. Pode parecer um episódio surreal, inventado por uma mente criativa e insana, mas ele é, infelizmente, totalmente verídico. Sei disso porque aconteceu comigo mesmo... Acreditem, fui impedido de entrar no novo estádio do Corinthians porque estava portando um objeto perigosíssimo em minhas mãos. Os policiais responsáveis por fazer a revista na porta da moderna arena (alguns têm a coragem de chamar dessa forma os estádios atuais) não me deixaram adentrar no recinto porque eu estava desrespeitando as leis estaduais. Afinal de contas, estava com um livro em minhas mãos. Um livro! Vocês já viram um item mais periculoso do que uma brochura com algumas páginas impressas? Os policiais enxergaram aquele objeto como se ele fosse uma arma de fogo ou uma bomba. "Não pode. Você precisará jogar fora isso para entrar" bradou um dos homens da segurança pública. Senti-me como se estivesse em “Fahrenheit 451”, romance clássico de Ray Bradbury, no qual é proibido ler e portar livros, os materiais mais subversivos daquela sociedade futurista. Para explicar melhor esta situação, eu preciso começar a história do início. Em 2014, eu estava morando em Minas Gerais. Eu vinha de vez em quando para São Paulo, geralmente aos finais de semana, uma vez a cada bimestre. Com a inauguração da Arena Corinthians (um sonho antigo de todos os corintianos, como eu), eu fiquei maluco para conhecer a "nossa nova casa", tão moderna e luxuosa, como propagavam. Depois de muitos desencontros, consegui agendar uma visita. O jogo era em um sábado à noite. Corinthians e Bahia pelo Campeonato Brasileiro. Comprei meu ingresso no valor de R$ 180,00 (os preços nestes estádios novos são muito mais salgados do que nos antigos) e no meio da tarde de sábado me dirigi para Itaquera, onde fica a Arena Corinthians. Para chegar até a Zona Leste de São Paulo (estava hospedado na casa dos meus pais, localizada no extremo da Zona Oeste), precisava viajar de trem por quase uma hora e meia. O que faria dentro de um vagão por tanto tempo? Nada melhor do que ler! Peguei um livro e segui meu caminho. A viagem foi rápida (quando se está lendo, o tempo voa). O primeiro problema surgiu no início da noite, quando cheguei em Itaquera: uma chuva fina e fria caia do céu. Nada, porém, iria atrapalhar meu grande sonho. Eu iria conhecer o novo estádio do Timão. Como um fiel corintiano, estava esperando por este dia há quase 100 anos. Só quem é alvinegro do Parque São Jorge pode imaginar a expectativa de um torcedor (até então) fanático em conhecer de perto, pela primeira vez, sua tão aguardada casa. Para meu espanto, fui impedido de entrar no estádio. Estava a alguns metros da arquibancada. "Não pode! Com um livro em suas mãos, não pode entrar", disse-me um policial ao lado da catraca. Fiquei chocado com as palavras ouvidas. Em um país como o Brasil, com milhares de analfabetos, de ignorância assustadora, com baixa cultura e má educação, um oficial público renega o valor de um livro e da leitura. O pior, na minha opinião, foi a solução encontrada por ele: "Jogue isso aí fora ou esconda em algum lugar para quando você sair poder pegar". Jogar no lixo?! Esconder um livro?! Como assim? Eu não tenho vergonha de saber ler nem de fazê-lo em público. Não consegui me controlar diante daquela afronta. Passei a discutir calorosamente com o policial. Em alguns segundos, fui cercado por outros dois PM's (policiais militares). Eles se interessaram em ouvir a discussão e logo começaram a participar do debate. Como eu tenho educação (obrigado meu pai e minha mãe por isso!), meu discurso foi pautado com argumentos e lógica. Em nenhum momento ofendi os oficiais nem demonstrei estar bravo com eles. O problema, a meu ver, era a situação e a justificativas deles (nada como combater as ideias e não as pessoas). Acho que isso evitou a minha prisão naquela noite. O debate, juro, foi em alto nível e eu estava inspirado. Os policiais ficaram constrangidos. Lembro-me de algumas frases e indagações faladas por mim aos homens de farda: "Os senhores já viram alguém tacar um livro no gramado? Então, se nunca viram porque é perigoso entrar com um livro no estádio?"; "Já pensaram o dia em que antes de uma briga de torcida, os torcedores tiverem de ler um livro ou um trecho de uma obra clássica para poder continuar a batalha? Esse país poderia não ser menos violento, mas seria mais culto e melhor"; "Vocês acham certo homens públicos pedirem para um cidadão jogar um livro no lixo?"; "Onde está o guarda-volumes deste moderno estádio? Afinal, preciso guardar os meus pertences. Se não posso levar para dentro, tenho o direito de guardá-lo em algum lugar"; "Se eu posso entrar em um avião com um livro em minhas mãos, local esse cercado de segurança e de regras rígidas, porque não posso fazer o mesmo em um mero campo de futebol?"; e "Falta mais de uma hora para o jogo começar. O que irei fazer lá dentro se não tiver algo para ler? Vocês querem que eu fique xingando a torcida adversária ou quebrando alguma coisa como passatempo?". Os policiais foram inflexíveis. Informaram-me que aquela era uma lei estadual: não pode entrar com nada impresso (livro, jornal, revista) em um estádio de futebol. Parabéns, governador! Os índices de educação e de cultura em São Paulo devem ser excelentes... Inconformado com a situação, resolvi ir embora sem ver o jogo. Se um livro não era bem quisto naquele lugar, o ambiente também não era adequado para mim. Prometi para mim mesmo não voltar tão cedo para a Arena Corinthians. Também deixarei de ser um consumidor do futebol. Se o Sport Club Corinthians Paulista me desrespeitou como consumidor (tinha adquirido o ingresso e queria entrar), nada mais lógico do que não comprar mais nada dessa instituição. Nem jogo pela televisão pretendia mais assistir. Esse episódio já faz alguns meses. De lá para cá, nunca mais fui a uma partida do meu time do coração no estádio. Também diminui sensivelmente os jogos acompanhados pela TV. Nunca mais comprei nada do meu time como camisa, caneca, lembrancinhas, etc.. Posso dizer francamente: deixei de ser um consumidor fiel, como era antes do fatídico episódio. Essa é a força do consumidor. Se você é desrespeitado, deixa de consumir. É simples e prático. Entretanto, não larguei os livros... Continuo lendo e os devorando frequentemente. Acho que fiz a escolha certa. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #esportes

  • Crônicas: Eu e o Mundo - 6 - Sozinho no Cinema

    Você já ficou sozinho em um cinema assistindo a um filme? Quando digo sozinho, é sozinho mesmo: só você dentro da sala e mais ninguém na mesma sessão! Você e ninguém mais por perto, nenhum outro espectador ou cliente.... Isso aconteceu comigo hoje em Varginha (MG). Na pequena e única sala de cinema da cidade em que fui passar o final de semana, eu era o espectador exclusivo do filme da noite. A experiência de ter uma sala só para mim foi estranha e engraçada. Graças a minha presença, o pessoal do cinema foi obrigado a passar o filme. Provavelmente, eles ficaram, creio eu, arrependidos de terem me vendido aquele ingresso. Se soubessem da falta de mais quórum, talvez não tivessem comercializado a entrada para mim, evitando custos desnecessários de operar para um único cliente. Provavelmente, também ganhariam aquelas horas de folga longe do trabalho. Assistir a filmes no cinema em cidade pequena tem suas particularidades. Aprendi isso quando morei em Varginha entre o ano passado e o ano retrasado. O município conta com uma única sala de péssima qualidade, localizada no centro da cidade - não há shopping center ainda. Primeiro: você não escolhe o que vai assistir. Você vê o que está passando. Simples assim. As opções são limitadas. Às vezes há um único filme sendo transmitido por semanas. Neste final de semana tive sorte, afinal a programação contemplava dois filmes. Ou seja, poderei ver um hoje e outro amanhã. A segunda particularidade é: não espere qualquer qualidade de som e imagem, muito menos conforto. A infraestrutura é simples. Diria até precária. A sensação é de estar em uma sala de vinte, trinta ou quarenta anos atrás. Para os mais exigentes, trata-se de uma ofensa aos clientes. Para mim, chamo isso de charme. É legal poder voltar no tempo e vivenciar uma experiência que nossos pais (e, quem sabe, avós) tinham. Um ponto que me deixava muito incomodado era o hábito dos varginhenses de conversarem durante as sessões. Não sei se isso é exclusivo dos moradores dessa cidade ou de todo o interior do país. Como eles faziam barulho e como eles atrapalhavam quem queria prestar atenção no filme! Geralmente eram os adolescentes os responsáveis pelas maiores algazarras. Eles não deviam estar acostumados a frequentar cinemas e não sabiam se portar corretamente ali. Admito que em muitas oportunidades, fui embora bravo. Por outro lado, havia a vantagem financeira - sempre tem um lado positivo, né? Frequentar salas de cinema no interior do país é normalmente um passeio muito mais em conta do que visitá-las nos grandes centros urbanos. Os ingressos em Varginha, na minha visão, são extremamente baratos. O valor da inteira é de R$ 14,00 e a meia custa R$ 7,00. Esses preços não sofrem alteração há pelo menos três anos. É um valor justo para uma sessão! Curiosamente, em alguns dias da semana, o cinema ainda faz promoções conferindo meia entrada para todo mundo. Como adoro essa cidade! Depois de explicar tudo isso, preciso entrar no filme propriamente dito, né? Assisti a "Golpe Duplo" (Focus: 2015), com Will Smith, Margot Robbie e Rodrigo Santoro. Assim, na teoria, não estava tão sozinho na sala de cinema. Os atores e as atrizes na figura das personagens interpretadas faziam companhia para mim. Como todo bom filme, sua história foi muito mais interessante do que a minha, de estar em um cinema sozinho. Entretanto, vou deixar o relato desse longa-metragem para um próximo post do Blog Bonas Histórias. Este aqui ficará exclusivo para o relato do dia em que tive uma sala de cinema exclusivamente para mim. Eita luxo bom, sô. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa

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