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- Livros: Flush, Memórias de um Cão - A brincadeira de Virginia Woolf
O que faz um(a) escritor(a) renomado(a) após conquistar o respeito definitivo da crítica e do público? Para tal questionamento, existem vários caminhos possíveis. Cada artista parece agir de uma maneira distinta. Há quem tente se reinventar (em uma busca infinita pelo novo). Há aquele(a) que prefira sair de cena no auge (deixando a melhor impressão possível). E há quem opte por continuar aprimorando seu estilo (em uma procura obstinada pela perfeição estética). Para Virginia Woolf, romancista, ensaísta e editora inglesa da primeira metade do século XX, a alternativa escolhida foi muito mais simples: se divertir! Após alcançar a consagração com obras memoráveis como “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), “Orlando” (Penguin) e “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), Woolf resolveu, no comecinho dos anos 1930, desenvolver um romance em que pudesse brincar com o processo da escrita. O resultado concreto dessa sábia decisão é “Flush – Memórias de um Cão” (L&PM Pocket), o sexto e último livro da autora britânica que vamos analisar no Desafio Literário de julho. Publicado em outubro de 1933, “Flush” é uma obra da fase final da carreira de Virginia Woolf. Quando começou a escrevê-lo, em julho de 1931, ela tinha acabado de lançar “As Ondas” (Nova Fronteira), seu sétimo romance. Visto atualmente como seu título mais experimental, “As Ondas” consumiu muito da energia de sua autora. Se o leitor sofre durante a leitura difícil e intrincada desta trama multifacetada, saiba que a escritora também padeceu para produzi-la. Esgotada física e mentalmente após meses de trabalho intenso, Woolf resolveu relaxar assim que o livro chegou às livrarias. E como uma pessoa como ela relaxa, hein? Produzindo um novo romance, oras bolas. Só que dessa vez, a nova história seria muito mais leve e divertida do que a anterior. Mais importante do que o produto final da escrita seria o processo de seu desenvolvimento. A meta era se divertir. Para os amigos e familiares, Virginia Woolf resumiu “Flush” como uma grande brincadeira sua. Ah se todo escritor brincasse dessa forma... A proposta deste livro era biografar a vida do cachorrinho de Elizabeth Barrett, uma famosa poetisa do Romantismo inglês do século XVIII. Uma biografia de um cão?! Pode isso, Arnaldo? Para Woolf, podia sim senhor(a). Ao ler as cartas de Elizabeth e seu futuro marido, Robert Browning, trocadas ao longo de vários anos, ela ficou encantada com a história de amor deles. E nesse material, havia sempre a menção a Flush, o Cocker Spaniel de estimação da poetisa. O cachorrinho ruivo era a grande companhia de Elizabeth Barrett, principalmente na fase em que, seriamente doente, ela precisou passar longas temporadas em seu quarto. As citações a Flush chamaram tanta a atenção de Virginia Woolf que a escritora resolveu fazer a reconstituição da vida do bichinho. Misturando realidade (fatos extraídos das cartas de Barrett) e ficção (fruto de sua imaginação), ela narrou, em “Flush – Memórias de um Cão”, a trajetória do cachorrinho de Barrett do nascimento até sua morte. Ah, que livro mais besta, podem pensar aqueles que não são nada apegados aos animaizinhos de estimação. Eita ideia genial, sentenciam os que amam os pets. Confesso que integro o segundo grupo de leitores/críticos literários. O fato é que Virginia Woolf gostou tanto de sua proposta que ela trabalhou por um ano e meio nesta trama. O texto de “Flush – Memórias de um Cão” só ficou pronto em janeiro de 1933. E, quando foi lançado, este livro surpreendeu a todos tornando-se o maior êxito comercial de Woolf. Sim, o maior sucesso da britânica não é nenhum dos seus romances mais importantes e valorizados pela crítica. Esqueça “Orlando”, “Passeio ao Farol”, “Mrs. Dalloway” e todas as suas inovações narrativas e estéticas. Para a maioria dos leitores, não há nada melhor do que uma boa história de um cachorrinho para incentivar a leitura. Isso quer dizer que “Flush” é um livro rasteiro? Nananinanão! Aí está o maior mérito deste título: ele passa longe de ser uma narrativa bobinha. Virginia Woolf, com todo o seu talento e maestria, jamais conseguiria produzir algo banal. Além de conceder o protagonismo do seu romance a um Cocker Spaniel (que por si só já era bastante ousado para a época), ela salpica, em seu texto, fartas doses de crítica social e de humor ácido. Como consequência, temos uma paródia genial sobre a sociedade burguesa do período vitoriano e sobre o gênero biográfico. É realmente hilário! Vale lembrar que Woolf já tinha usado esses mesmos expedientes literários em “Orlando”, não à toa, seu livro mais popular até então. “Flush – Memórias de um Cão” não apenas se tornou um sucesso de público como recebeu também o reconhecimento de grande parte da crítica literária inglesa da época. Mesmo com uma pegada mais popularesca, este livro ainda assim é um texto woolfiano. Ou seja, ele possui muitas das particularidades e das inovações típicas das narrativas de sua autora, o que lhe confere um charme todo especial. Mais interessante do que a própria história do cachorrinho e os dramas da poetisa romântica do século XVIII é o jeito como esta trama vem escrita. Só mesmo Virginia Woolf para realizar uma construção literária tão inteligente e bonita com elementos narrativos aparentemente corriqueiros. “Flush” inicia-se como uma crônica histórica sobre a origem do Spaniel. Logo de cara, são apresentadas as várias hipóteses para a escolha do seu nome. Depois, relata-se a migração desse tipo de cão ao Reino Unido, sua adoção como animal da nobreza inglesa e as variações de raças do Spaniel, entre elas a do Cocker. Após um pulo temporal considerável, chegamos ao começo do ano de 1842. Neste momento, o endiabrado Cocker Spaniel de Mary Russell Mitford, uma escritora romântica de posses limitadas e moradora da Three Mile Cross, tem um filhotinho. O novo cachorrinho é ruivo, bonito e tem pedigree. Por isso, a Srta. Mitford recebe algumas boas propostas para vender o cãozinho. Contudo, ao invés de comercializá-lo, ela decide presentear sua amiga, a também escritora e poetisa Elizabeth Barrett. Com sérios problemas de saúde, Elizabeth passa os dias em seu quarto, na mansão do número 50 da Wimpole Street, em Londres. Solitária, melancólica e com dificuldades de locomoção, ela raramente sai de casa. Na certa, pensa Mary Russell, a amiga gostará de uma companhia fiel e carinhosa ao seu lado. Assim, Flush, como o cachorrinho é nomeado, se muda ainda filhotinho para o lado rico da capital inglesa. Se ele perde a liberdade que tinha na casa dos Mitford, onde podia correr livremente pelos campos do subúrbio londrino, na nova morada ele recebe todo o luxo disponível para um animal de sua linhada. O preço que Flush paga por viver em um lugar tão chique é ter de passar quase o tempo inteiro dentro do quarto escuro de sua dona. Nas raras saídas à rua, ele usa uma coleira, exigência dos bairros mais ricos de Londres. Rapidamente, Flush e Elizabeth se tornam amigos inseparáveis. Os dois passam o dia grudados dentro do aposento da mansão dos Barrett e adquirem uma estreita cumplicidade. Se sentindo um verdadeiro aristocrata, Flush se transforma em um cão vaidoso, orgulhoso e preocupado com sua aparência. Para quem imagina que a rotina do cachorrinho será profundamente tediosa, diante desse cenário tão inóspito e fútil, alguns acontecimentos acabam por desmontar essa impressão. Da violência urbana de Londres na metade do século XVIII a acessos de ciúme pela exclusividade do coração de sua dona, Flush viverá intensas e contraditórias emoções. Entre alegrias e tristezas, o cachorrinho passará por novas e inimagináveis experiências. Acompanhando Elizabeth, o protagonista do romance morará em Pisa e em Florença, na Itália, e precisará abandonar sua formação aristocrata e sua postura arrogante para se dar bem na nova localidade. Narrado pela biógrafa do cachorro de Elizabeth Barrett, “Flush – Memórias de um Cão” é um livro curtinho (é quase uma novela). Ele possui apenas 152 páginas, que estão divididas em seis capítulos. Dá para ler esta obra em aproximadamente quatro horinhas. Foi mais ou menos esse o tempo que levei para concluir sua leitura na última quarta-feira. Iniciei o livro à tarde, lá pelas seis horas, e as dez horas da noite já havia chegado à sua última página. O primeiro elemento que chama a atenção do leitor em “Flush” é o humor de Virginia Woolf. Este é o livro mais engraçado da inglesa. Com um jeito desbocado, a escritora compara as pessoas aos animais. Neste sentido, Herald´s College, tradicional instituição aristocrata da Grã-Bretanha, não seria nadinha diferente do Spaniel Club, clube de cachorros de raça. E o que dizer de um cãozinho metido a nobre, hein? Uma vez na residência dos Barrett, Flush se torna fútil, metido e arrogante. É hilário seu comportamento. Com um humor ácido (bem ao estilo dos ingleses), Virginia Woolf tece uma forte crítica à burguesia do século XVIII, que vivia da aparência e em um mundo à parte da realidade social do país (em que a pobreza e as injustiças predominavam). Outra questão elogiável, que potencializa ainda mais a graça desta trama, é a mistura de gêneros narrativos. Chega a ser até difícil classificar “Flush”. Ele é um romance histórico na maior parte do tempo/texto. Porém, também é, em parte, uma biografia. Afinal, Virginia Woolf cria uma história ficcional em cima de elementos reais, extraídos de documentos históricos de Elizabeth Barrett. Para completar, há trechos ao melhor estilo das crônicas de costumes, das sagas de aventura, dos dramas românticos, dos romances policiais, dos road stories, das parábolas moralizantes, sátiras inteligentes e, por que não, das fábulas clássicas. Essa multiplicidade de gêneros confere dinamismo, graça e riqueza ao livro. A maior beleza de “Flush – Memórias de um Cão”, contudo, ainda está na forma como Virginia Woolf construiu sua narrativa. Melhor do que a história em si é a maneira como ela foi contada. Mesmo produzindo um romance “na brincadeira” (expressão da autora), a inglesa não abriu mão da elegância e dos principais recursos que marcaram sua literatura. Sabe quando um estilista faz uma linha de roupas populares, mesmo assim mantém a classe inconfundível do seu estilo? Ou quando um chef renomado vai para a cozinha de sua casa, só por lazer, e ainda assim não renega seu nível máximo de exigência culinária? Foi o que Woolf fez aqui. Ela é o jogador de futebol que em um campo encharcado de lama não perde a classe, jogando de pé, sem sujar o uniforme. A única questão negativa desta edição da L&PM Pocket (que li) são os erros grosseiros de português e de diagramação. Nota-se uma falta de cuidado com o texto final do livro (aposto que não houve uma revisão criteriosa por parte da editora antes da obra ser enviada à gráfica). Há palavras registradas equivocadamente (já na primeira linha do romance, duas palavras estão grudadas – “deorigem”), inversões de sobrenomes e grafias incorretas (o que é o suprassumo do desleixo). É uma pena, porque esta história de Virginia Woolf merecia um cuidado maior (a escritora fica dezoito meses trabalhando em seu original para depois alguém fazer a revisão da tradução nas coxas!). Ninguém merece isso. Ao menos, é possível perceber que a tradução de Ana Ban foi muitíssimo bem-feita, inclusive respeitando alguns termos no original (francês e italiano). Com a análise de “Flush – Memórias de um Cão”, chegamos ao final do estudo individual dos seis livros da escritora inglesa deste Desafio Literário. Agora, vamos partir para a investigação geral, tanto da carreira quanto da literatura de Virginia Woolf. Não por acaso, esta é a última missão de julho desta coluna do Bonas Histórias. A partir de tudo o que levantamos ao longo deste mês, já podemos tecer uma avaliação acurada da estética woolfiana e dos seus preceitos narrativos. O post com a análise literária de Virginia Woolf será publicado na próxima quarta-feira, dia 29. Não perca! Ah, quase que ia me esquecendo de mencionar - o post de hoje é uma singela homenagem ao Pescuitto Enny Júnior, meu grande companheirinho de aventuras pelas ruas de São Paulo. Você pode não ser um Cocker Spaniel aristocrata, mas aqui em casa você é o lorde dos Vira-Latinhas. Um abraço e uma lambidinha na fuça, Pescuittinho! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Um Teto Todo Seu - O ensaio feminista de Virginia Woolf
Em outubro de 1928, Virginia Woolf já era uma das principais escritoras de sua geração. “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket) e “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), romances publicados, respectivamente, em 1925 e 1927, revolucionaram o estilo da prosa moderna. E “Orlando” (Penguin), sua obra ficcional recém-lançada, se tornava rapidamente um best-seller no Reino Unido e nos Estados Unidos. Por isso, nada mais natural do que Virginia Woolf, que vivia seu ápice profissional e uma fase de intensa popularidade, ser convidada para dar palestras sobre literatura, crítica literária, feminismo e produção artística nos quatro cantos da Inglaterra. Um desses convites partiu da Universidade de Cambridge. A tradicional instituição de ensino superior queria que a renomada autora falasse em duas de suas faculdades femininas, a Sociedade de Artes do Newnham College e a ODTAA do Girton College. O tema das conversas seria “as mulheres e a ficção”. E lá foi Virginia Woolf discursar para as estudantes universitárias de Cambridge. Nessas palestras, ao invés de apresentar um discurso objetivo e sintético sobre o assunto proposto, a escritora inglesa preferiu, surpreendentemente, ler uma trama ficcional criada especialmente para aquele momento. Nesta história, uma personagem feminina, Mary Beton, realiza uma pesquisa pormenorizada sobre a relação das mulheres com a produção literária. A partir dessa investigação, a protagonista começa a refletir sobre os motivos pelos quais as mulheres quase não escreveram obras poéticas e em prosa até o final do século XVIII. Qual seria o motivo dos homens monopolizarem a autoria literária ao longo dos últimos séculos, hein? Com um texto metalinguístico, inteligente, recheado de referências literárias, com o típico fluxo de consciência que marcou o estilo da autora, com passagens autobiográficas e com uma pegada para lá de poética, Woolf fala, em sua narrativa ficcional, sobre o machismo da sociedade patriarcal europeia ao longo do tempo e do empoderamento feminino no comecinho do século XX. De maneira sutil e extremamente elegante, ela vai fundo na análise do tema da palestra, sem duvidar da inteligência do público para compreender o alcance de suas palavras. O material desses encontros ficou tão bom, mas tão bom, que, onze meses depois das palestras com as universitárias de Cambridge, seu conteúdo foi adaptado em um livro. Nascia, assim, “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), o ensaio feminista mais famoso de Virginia Woolf (e um dos mais conhecidos da história). Li esta obra pela primeira vez há pouco mais de dois anos no curso de Pós-Graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. E admito que fiquei positivamente impressionado com seu conteúdo. A impressão que se tem é que Woolf é uma autora contemporânea e que este texto foi escrito recentemente. Trata-se de um feito incrível se pensarmos que ele está para completar 100 anos logo mais! Na última sexta-feira à noite, reli “Um Teto Todo Seu” para o Desafio Literário de julho. Este livro é o quinto dos seis títulos de Virginia Woolf que vamos analisar neste mês no Bonas Histórias. E ele é o único ensaio desta nossa coletânea, formada majoritariamente por romances. Virginia Woolf tem um portfólio literário extremamente diversificado. São dez romances, sete coletâneas de contos, uma biografia, uma peça teatral, vários diários e três coleções de cartas. Contudo, seu gênero narrativo mais comum sempre foi o ensaio. Se a inglesa estreou na ficção apenas em 1915, aos 33 anos, com o romance “A Viagem” (Novo Século), ela iniciou a produção de ensaios, crônicas e críticas literárias onze anos antes. Em 1904, a jovem Virginia Stephen, então com 22 aninhos (e ainda sem o sobrenome Woolf que seria incorporado após o casamento com Leonard em 1915), já escrevia resenhas para o jornal Guardian. Em 1905, ela se tornou colaboradora do suplemento literário do Times. Nos anos seguintes, Virginia se consolidaria como uma das principais intelectuais e ensaístas britânicas da primeira metade do século XX. Em livros, foram publicados 14 dos seus ensaios. Esses textos tratam principalmente do feminismo, da teoria literária, da análise crítica (de obras e de autores clássicos e de sucesso) e do cenário intelectual inglês entre as décadas de 1900 e 1930. Curiosamente, apesar de mais numerosa, a produção não ficcional de Virginia Woolf é atualmente a parte menos lida do seu trabalho. O público leitor parece preferir seus romances. Para comprovar a regra, as exceções são “Um Teto Todo Seu” e “Três Guinéus” (Autêntica), dois ensaios feministas de Woolf que se complementam. Se o primeiro foi lançado em setembro de 1929, o segundo foi publicado em junho de 1938. Em “Um Teto Todo Seu”, assistimos às inquietações intelectuais de Mary Beton (personagem que é, de certa maneira, o alter ego de Virginia Woolf). Contratada para realizar uma pesquisa sobre o motivo das mulheres não produzirem literatura (salvo raríssimas exceções), a protagonista da trama viaja até Oxbridge, cidade fictícia que possui uma universidade homônima (podemos pensá-la como sendo Cambridge). Em Oxbridge, Beton senta-se no gramado do campus universitário para pensar. Contudo, rapidamente é expulsa do local por um bedel. Por ser mulher, ela não pode ficar ali, diz o segurança. Aquele lugar é exclusivo para professores e estudantes do sexo masculino. Conformada com a situação, Mary Beton parte, então, para a biblioteca da instituição de ensino. Lá, cogita a moça, poderá realizar uma pesquisa bibliográfica sobre o tema que tanto a intriga. No novo espaço, ela é impedida de entrar. Um outro bedel afirma que mulheres sem a companhia masculina não podem acessar a biblioteca. Esta é uma questão de segurança interna. Sem alternativa, a personagem segue para uma capela dentro do campus universitário. No novo recinto, ela assiste aos rituais religiosos realizados exclusivamente por homens. As instituições religiosas não permitem o ingresso de mulheres em seu corpo diretivo e operacional. Por fim, ela faz duas refeições na universidade. No almoço, participa de um banquete dado aos alunos homens de Oxbridge. E à noite, ela faz uma ceia frugal com as demais mulheres daquele ambiente acadêmico. Ainda sem uma resposta definitiva para a questão que a consome, Mary Beton retorna para Londres. Já no dia seguinte, ela vai até o Museu Britânico para, enfim, realizar sua pesquisa documental. Depois de almoçar em um restaurante, ela retorna para sua residência. No aconchego do lar londrino, Beton continua conjeturando sobre as dificuldades das mulheres para produzir literatura. Agora, sua única companhia no processo reflexivo é sua biblioteca pessoal. Para ilustrar cada pensamento que tem, ela retira um livro da estante. Os vários autores e obras ajudam a moça na formulação de uma explicação racional para suas inquietações. “Um Teto Todo Seu” possui 192 páginas. Este ensaio de Virginia Woolf está dividido em seis capítulos. Há ainda, na edição da Editora Tordesilhas, um posfácio de Noemi Jaffe (que já produziu textos muito mais inspirados que este), um trecho dos diários de Woolf (que, infelizmente, não dialogam com seu ensaio) e uma linha do tempo com os aspectos mais importantes da vida e da carreira da autora inglesa. Em outras palavras, é uma encheção de linguiça para o livro ficar próximo ao tamanho padrão do mercado editorial nacional (em torno de 200 páginas). Se o ensaio de Virginia Woolf é espetacular, seus complementos deixam a desejar. A tradução de “Um Teto Todo Seu” para o português brasileiro foi realizada por Bia Nunes de Sousa (prosa) e Glauco Mattoso (poemas). É possível ler esta obra em quatro horas. Este foi o tempo que levei na sexta-feira para percorrer todas as páginas do livro. Para quem gosta de ler à tardezinha e à noite (como é o meu caso), dá para concluir este livro em uma única tarde/noite ou, no mais tardar, em dois dias consecutivos. Os leitores com maior nível de concentração podem concluir esta leitura até mesmo em uma batida só (o livro tem a extensão de uma novela). Achei “Um Teto Todo Seu” um ensaio feminista perfeito. Não dá para questionar as reflexões nem mesmo as conclusões que Virginia Woolf (ou seria Mary Beton?) tem. Se você leu os ensaios superficiais e tolos de Chimamanda Ngozi Adichie sobre este tema, “Sejamos Todos Feministas” (Companhia das Letras) e “Para Educar Crianças Feministas” (Companhia das Letras), e os achou bom, você precisa ler Virginia Woof. Enquanto a nigeriana é rasa, preconceituosa, sem graça, retrógrada e incompleta em seus argumentos, a inglesa é profunda, elegante, carismática, contemporânea e completa em suas reflexões. O mais interessante é que Virginia Woolf analisa a questão do machismo da sociedade inglesa/europeia/ocidental através de uma perspectiva histórica. Ela percorre os aspectos sociais para depois adentrar na literatura, que não deixa de ser um reflexo do que acontece no macroambiente. E ela não faz essa trajetória de forma raivosa ou vingativa como poderíamos imaginar. Não! Sabiamente, ela apresenta a questão de um jeito simples, lúcido, puro e prático. No começo de “Um Teto Todo Seu”, a escritora mostra indiretamente o quanto o patriarcalismo ainda oprimia as escritoras (e as mulheres de maneira geral) no início do século XX. Essa é a função da trama ficcional protagonizada por Mary Beton - expulsões do gramado e da biblioteca da universidade de Oxbridge e as diferenças de refeições concedidas aos homens e às mulheres no refeitório da instituição de ensino. Depois, Woolf faz um mergulho profundo na história literária e social do seu país. Assim, apresenta a evolução gradual do empoderamento feminino. Por fim, ela faz uma projeção para lá de válida: em cem anos, as mulheres irão exercer todas as funções até então praticadas exclusivamente pelos homens. Se ela não acertou totalmente no prognóstico (o machismo ainda vigora em boa parte do mundo), pelo menos não ficou muito longe de acertar nas previsões (as mulheres conquistaram muitos espaços nas sociedades ocidentais mais evoluídas). O mais legal em “Um Teto Todo Seu” é a mescla de diferentes tipos de texto: ficção (trama de Mary Beton) com não ficção (ensaio propriamente dito); panorama histórico (retrospectiva social e literária entre os século XVI e XX) com crônica contemporânea (vida no início do século XX); narrativa em parte direta e objetiva (colocando o dedo na ferida sem dó nem piedade) e em parte subjetiva e introspectiva (falando as verdades de um jeito conotativo); apresentação das teses machistas em contraposição aos argumentos feministas; prosa e poesia lado a lado; descrição histórico-social e debate histórico-literário; e insinuações reflexivas (com perguntas como: será? e se?) com afirmações contundentes. Impossível não gostar dessa mistura inusitada e multifacetada. Vale lembrar que quando Virginia Woolf fez isso em suas palestras em Cambridge, ainda não era modinha tal recurso (hoje em dia, quase todos os discursos dos escritores premiados possuem esse estilo e, muitos deles, viram livros). Ou seja, não apenas o conteúdo de “Um Teto Todo Seu” é ótimo como a forma como ele foi escrito também merece nossos rasgados elogios. Woolf reúne as características de uma intelectual de destaque com a habilidade de uma escritora que domina como poucos as técnicas estilísticas da prosa. Para mim, este livro tem algumas partes memoráveis. Uma delas é quando Mary Beton/Virginia Woolf se questiona sobre o que teria acontecido se William Shakespeare tivesse tido uma irmã tão talentosa quanto ele. A visão da narradora-protagonista/escritora é por demais negativa, mas nem um pouco irreal. Outro momento sublime é quando a autora decreta o que uma mulher precisa para se tornar uma escritora profissional: ter um local seu dentro de casa onde possa trabalhar sem importunações; e ser independente financeiramente. Aí o leitor mais ingênuo se pergunta incrédulo: só isso? A resposta é dada pela própria Woolf em seguida: só. Entretanto, essas duas condições não são poucas coisas, não! Raríssimas mulheres até o final do século XVIII tiveram o privilégio de ter essas duas coisinhas aparentemente básicas em sua rotina. Só quem trabalha ou trabalhou com literatura e com produção textual consegue entender a dimensão das palavras da escritora inglesa. Gosto também das conjecturas de Virginia Woolf sobre o crescimento ao longo dos séculos da presença feminina na literatura, de suas análises literárias sobre as autoras clássicas da língua inglesa e de suas projeções para o futuro das mulheres. Para mim, o final do livro é perfeito. Confira, a seguir, os últimos parágrafos, sem risco que um possível spoiler possa atrapalhar a futura leitura desta publicação: “Eu disse a vocês no decorrer deste ensaio que Shakespeare tinha uma irmã; mas não procurem por ela no poema escrito por Sir Sidney Lee. Ela morreu cedo, pobrezinha, nunca escreveu uma linha. Está enterrada no local onde hoje os ônibus fazem parada, em frente a Elephant and Castle. Mas acredito que essa poeta que nunca escreveu uma linha e foi enterrada no cruzamento ainda está viva. Ela está viva em você e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque estão lavando a louça ou colocando os filhos na cama. Mas ela está viva, pois os grandes poetas nunca morrem; são presenças duradouras, precisam apenas de uma oportunidade para andar entre nós em carne e osso. Essa oportunidade, acredito, está agora ao alcance de vocês. Pois acredito que se vivermos por mais um século – estou falando da vida comum que é a vida real, não das vidinhas isoladas que levamos como indivíduos – e tivermos quinhentas libras por ano e um espaço próprio; se cultivarmos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco das salas de visitas e enxergarmos o ser humano não apenas em relação aos outros, mas em relação à realidade, ao céu, às árvores ou a qualquer coisa que possa existir em si mesma; se olharmos além do fantasma de Milton, porque nenhum ser humano deveria bloquear nossa visão; se encararmos o fato, porque é um fato, de que não há em quem se apoiar, e de que seguimos sozinhas e nossa relação é com o mundo da realidade e não só com o mundo de homens e mulheres, então a oportunidade surgirá, e a poeta morta que era a irmã de Shakespeare encarnará no corpo que tantas vezes ela sacrificou (..)”. Este Desafio Literário continuará no próximo sábado, dia 25, com o post sobre o sexto e último livro de Virginia Woolf deste mês. A nova obra da inglesa que vamos analisar no Bonas Histórias será “Flush – Memórias de Um Cão” (L&PM Pocket). Este romance inusitado é protagonizado, acredite se quiser, pelo animalzinho de estimação de Elizabeth Barrett, uma das mais famosas poetisas inglesas do século XVIII. Vale a pena conferir as próximas publicações do blog sobre a literatura de Virginia Woolf. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Orlando - O romance satírico de Virginia Woolf
Nesta semana, li “Orlando” (Penguin), o quarto livro de Virginia Woolf do Desafio Literário de julho. As três obras anteriores analisadas no Bonas Histórias foram “A Viagem” (Novo Século), a estreia da autora na ficção, “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), seu título mais famoso, e “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), o drama mais autobiográfico da inglesa. No post de hoje, falemos exclusivamente de “Orlando”, o sexto romance da carreira desta escritora que revolucionou a literatura inglesa na primeira metade do século XX. Quem achou difíceis as leituras de Virginia Woolf até aqui, com seus intrincados e intermináveis fluxos de consciência que abocanham quase toda a narrativa, trago uma boa nova. “Orlando” é o livro de Woolf mais fácil de ser apreciado pelo público em geral. Afinal, sua trama tem mais ações, há um conflito rapidamente identificável e os fluxos de consciência ficam em segundo plano, isso é, quando aparecem. Ufa! Por isso, não tenha medo de adentrar nas páginas desta obra. Na certa, você sairá surpreso com a originalidade desta história e com a coragem de sua escritora para propor algo tão singular e para frente do seu tempo. Não por acaso, esse é um clássico do Modernismo que se mantém atualíssimo. Publicado em outubro de 1928, “Orlando” foi produzido velozmente (em apenas cinco meses) e de maneira despretensiosa (a ideia inicial não era lançá-lo comercialmente). Este romance histórico faz sátiras bem-humoradas às biografias, tipo de livro que Virginia Woolf conhecia tão bem (ela os lia desde a juventude). Além disso, esta obra apresenta críticas corajosas às diferenças de gênero/sexo (masculino e feminino). A partir da reconstrução da trajetória da família de sua amante, Vita Sackville-West, Woolf criou um(a) protagonista que sofre uma transmutação sexual (um homem que aos trinta anos vira biologicamente uma mulher). Não é preciso dizer que há um forte componente fantástico nesta trama, né? Sob qualquer ponto de vista, este romance possui elementos mais próximos aos livros do século XXI do que às das obras dos anos 1920. Com um enredo tão inusitado, “Orlando” se transformou rapidamente no maior sucesso comercial de Virginia Woolf. Ele superou o romance anterior, “Passeio ao Farol”, até então detentor da primeira posição do ranking dos títulos woolfianos mais vendidos. De tão popular, a história de “Orlando”, um best-seller na Inglaterra e nos Estados Unidos desde o seu lançamento, foi adaptada para o cinema e para os palcos no final do século XX. Ou seja, trata-se de um caso de sucesso instantâneo que foi se tornando mais e mais valorizado à medida que o tempo foi passando. Virginia Woolf teve a ideia de escrever “Orlando” em março de 1927. Naquele momento, “Passeio ao Farol” estava na gráfica sendo impresso e a autora já pensava no que iria produzir dali em diante. A proposta era criar um romance a partir do conto “The Jessamy Brides”. A nova obra seria uma homenagem à Vita Sackville-West, poetisa com quem Virginia tinha um affair. As duas escritoras eram casadas com seus respectivos maridos, todos membros do grupo literário Bloomsbury, mas mantinham um relacionamento homossexual. Se Virginia Woolf possuía uma vida afetivo-sexual para lá de insossa, Vita Sackville-West, por outro lado, colecionava há anos amantes de ambos os sexos em vários lugares do mundo. Não é surpresa, portanto, encontrar o nome da Sra. V. Sackville-West na dedicatória do livro de Woolf. O texto de “Orlando” começou a ser escrito efetivamente em outubro de 1927. O(a) protagonista do livro, o(a) tal Orlando do título, era o alter ego de Vita (e de suas antepassadas). Por cartas, Virginia avisou sua amante da nova empreitada literária. Obviamente, Vita Sackville-West ficou encantada e, por que não, emocionada com a homenagem. Para Virginia Woolf, mais importante do que publicar Orlando, era se divertir em seu processo de produção (além de agradar Vita, é claro). Por isso, a opção por uma narrativa menos densa, menos séria e menos exigente do ponto de vista intelectual. E assim, a escritora trabalhou por cinco meses. Em março de 1928, a obra estava finalizada. Somente quando Leonard Woolf, marido de Virginia, leu os originais de “Orlando”, a escritora passou a acalentar a proposta de publicá-lo. Leonard achou o livro sensacional, o melhor que sua esposa já tinha escrito. Para ele, um texto como aquele precisava ir sem dúvida nenhuma para a gráfica e, depois, para as livrarias. Todos aqueles que leram os originais de “Orlando” depois do Sr. Woolf tiveram a mesma opinião. Com a aprovação geral dos amigos e dos editores, o livro foi lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos no final do ano de 1928. Sucesso retumbante de crítica e de público, “Orlando” gerou uma pequena fortuna para a família Woolf. Não que eles precisassem tanto de dinheiro, já que tinham uma vida confortável em Londres e outros empreendimentos literários, como a Hogarth Press, editora fundada onze anos antes. Contudo, saber que estava tendo êxito na literatura ficcional era um prazer indescritível para Virginia Woolf, uma fervorosa incentivadora do ingresso das mulheres nas artes. Ela também encorajava suas contemporâneas a investir no desenvolvimento de carreiras profissionais (algo até então polêmico). Assim, além do retorno financeiro, “Orlando” mostrou à escritora inglesa que ela deveria continuar denunciando explicitamente, em seus trabalhos, o machismo da sociedade da época. Este romance tinha sido, até aquele momento, a manifestação mais incisiva de Woolf em relação ao Feminismo. Seus livros ficcionais anteriores até tratavam desse tema, mas ele ficava em segundo plano. Os dramas pessoais e familiares de protagonistas abaladas por tragédias e por surtos psicológicos/depressivos é o que acabava ficando no cerne das narrativas iniciais da autora. Isso mudou completamente com o êxito de “Orlando”. Já no ano seguinte, Virginia publicaria “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas) e, em 1938, “Três Guinéus” (Autêntica), dois ensaios feministas marcantes até hoje. Nascia, dessa maneira, um dos principais ícones do Feminismo mundial. Ao mesmo tempo, Virginia Woolf conseguia enterrar, por ora, seus pesadelos do passado (infância e juventude). A história de “Orlando” inicia-se em 1586. O jovem Orlando é um rapaz de dezesseis anos, bonito, sonhador e apaixonado pela literatura. Vivendo na propriedade interiorana de sua família, composta essencialmente por nobres guerreiros da monarquia inglesa, ele gosta de passar o dia escrevendo aventuras de reis e rainhas e de conquistas em terras estrangeiras. Certo dia, a Rainha Elizabeth visita aquela propriedade e fica encantada com os trejeitos e com a beleza de Orlando. Por isso, dois anos depois, quando ele completa dezoito anos, ela o convida para ir à Whitehall. Lá, a monarca nomeia o jovem para o posto de tesoureiro e senescal/mordomo. É o início da carreira de Orlando junto à corte inglesa, em Londres. Direta ou indiretamente, ele estaria próximo, nos anos seguintes, às majestades que vieram depois da Rainha Elisabeth: Rei James, Rei Carlos, Rainha Ana, Rainha Vitória e Rei Eduardo. A vida tranquila e abastada de Orlando no meio da aristocracia britânica, contudo, não demorou para apresentar suas primeiras frustrações. O primeiro abalo sensível ocorreu com o surgimento de Sasha, uma princesa russa. Durante a visita diplomática da bela moça ao Reino Unido, Orlando se apaixonou perdidamente pela estrangeira. Mesmo estando noivo de Lady Margaret, uma respeitada dama de sua corte, ele não pensou duas vezes em iniciar um tórrido romance com Sasha. Porém, a princesa russa fugiu inexplicavelmente certa noite, deixando o rapaz com o coração despedaçado. Logo depois, Orlando se sentiu traído pelo poeta Nicholas Greene. Após a estadia de Greene na propriedade de Orlando no interior do país por várias semanas, o anfitrião confidenciou ao então amigo-visitante um manuscrito com vários poemas de sua autoria. Aqueles versos estavam sendo confeccionados desde a sua juventude. Orlando queria publicá-los e, para tal, pediu a opinião do experiente poeta, alguém mais capacitado e com uma visão mais crítica do processo literário. Nicholas Greene não apenas não gostou do que leu como ridicularizou Orlando em público. Ele divulgou na imprensa um artigo em que fazia chacota do material recebido, deixando claro o quão ruins eram os textos do jovem. Desiludido com tudo e todos, Orlando aceitou o convite do Rei Carlos para ser embaixador em Constantinopla. Assim, ele deixou a Inglaterra e foi viver na Turquia por alguns anos. Rapidamente, o rapaz, agora com trinta anos, se tornou um ótimo diplomata, respeitado tanto em sua terra natal quanto no novo país. A vida estava tranquila e serena no exterior quando Orlando padeceu de uma estranha enfermidade. Durante sete dias e sete noites, ele ficou com febre altíssima. Preso à cama, nada parecia capaz de curá-lo. Os turcos e os profissionais da embaixada inglesa já estavam esperando o pior quando, inexplicavelmente, Orlando acorda curado. Contudo, ao se levantar completamente são, uma coisa tinha mudado: seu corpo. Ao invés de homem, ele/ela ressurgia como uma mulher. Uma bela mulher, diga-se de passagem. Começa, dessa maneira, a segunda parte da vida do(a) protagonista do romance de Virginia Woolf, agora como uma dama inglesa. No novo corpo, Orlando segue a vida normalmente (continua acalentando o sonho de ser uma poetisa), como se uma transmutação sexual fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Além disso, as pessoas que estão ao seu redor aceitam tranquilamente o seu novo gênero. De início, Orlando vive com os ciganos no deserto turco. Alguns anos mais tarde, ela embarca no Enamoured Lady e volta para sua propriedade no interior da Inglaterra. Tempos depois, a moça parte para Londres. Sempre sob a nova condição (mulher e não homem), Orlando precisará encarar novos desafios e dissabores para encontrar a felicidade pessoal, profissional, conjugal e familiar, além de se consolidar como uma importante escritora da sua época. A trama percorre os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, desembocando no início do século XX. Curiosamente, após quase 350 anos, Orlando só envelheceu vinte anos. Se no começo do romance, em 1586, ele era um rapaz de dezesseis anos, no final da narrativa, em outubro de 1928, ela era uma mulher de trinta e seis aninhos. Parte da graça do livro está nesse descompasso temporal. “Orlando” possui 344 páginas. Além dos seis capítulos do romance, a edição brasileira da Penguin, selo da Companhia das Letras, traz o prefácio original de Virginia Woolf, uma introdução de Sandra M. Gilbert, que ficou responsável também pelas notas explicativas do romance, e um artigo final de Paulo Mendes Campos. Para completar, há uma rápida apresentação da escritora, do tradutor e dos críticos literários chamados para analisar esta obra. A tradução para o português brasileiro ficou à cargo de Jorio Dauster. Este é o segundo livro mais volumoso de Woolf deste Desafio Literário. Em extensão, ele só perde para “A Viagem” (e seus intermináveis 500 e tantas páginas). O que explica, em parte, o tamanho acima do normal de “Orlando” é a quantidade de páginas dedicadas à introdução, ao prefácio, ao posfácio, às notas explicativas e à apresentação dos profissionais envolvidos neste texto. Se considerarmos somente o romance propriamente dito (seus seis capítulos), ele deve ocupar pouco mais de 60% da publicação. Levei dois dias para concluir essa leitura. Iniciei o livro na terça-feira à tarde e cheguei à sua última página na quarta-feira à noite. Narrado pelo(a) biógrafo(a) de Orlando, este romance de Virginia Woolf apresenta, evidentemente, duas linhas temporais bem distintas – a vida do(a) protagonista (percorrida em apenas 20 anos) e a história humana (estendida em quase três séculos e meio de duração). O tom fantástico da obra está justamente na equiparação dessas duas cronologias tão desconectadas. São três os pontos principais de “Orlando”: (1) a construção da biografia do(a) protagonista a partir da história real de Vita Sackville-West e de seus antepassados; a sátira inteligente ao gênero biográfico e à literatura como um todo; e a apresentação das crítica diretas ao sexismo da sociedade inglesa. Em relação ao primeiro aspecto, Virginia Woolf criou uma trama ficcional embasada em elementos reais da trajetória de sua amante e dos familiares dela. Isso fica evidente nas notas de rodapé produzidas por Sandra M. Gilbert. As notas de rodapé são, por falar nisso, um capítulo à parte deste livro. Elas são maravilhosas. É impossível deixá-las de lado. Fazia muito tempo que não via uma obra em que as observações do tradutor ou do analista literário fossem tão boas quanto o texto do autor. Nota-se, pelos apontamentos de Gilbert, que nada é por acaso nesta trama. Woolf fez uma profunda pesquisa histórica e biográfica sobre os Sackville-West para construir seu romance. Assim, este título tem um pé na ficção e outro na realidade. Tudo em “Orlando” tem um sentido e uma lógica. Não apenas os fatos históricos são atestados realmente como muitas personagens são verídicas (famosas e não famosas). A identificação do elo entre os dois mundos (real e ficcional) é feita nas notas explicativas de Gilbert ao longo das páginas do romance. Por isso, elas são tão incríveis. Ao mesmo tempo em que respeita às bases da biografia, Virginia Woolf tece uma sátira mordaz a este tipo de gênero narrativo. O tom pejorativo pode ser identificado desde as primeiras páginas de “Orlando”. Nada escapa ao humor ácido da inglesa, que sempre criticou a construção de perfis biográficos – geralmente textos que enaltecem figuras masculinas como se eles fossem super-heróis. Além disso, a autora brinca o tempo inteiro com as contradições e as peculiaridades da literatura e da poesia. Orlando sempre quis ser poeta/poetisa e padece por isso. Em uma narrativa profundamente metalinguística, Virginia Woolf ridiculariza não apenas o processo criativo dos autores como a crítica literária em geral. Nesse caso, a personagem que melhor representa os paradoxos desta arte é Nicholas Greene. Ele é hilário! Enquanto desenvolve a biografia de Orlando/Vita/Sackville-West e critica a literatura como um todo, Woolf também apresenta um ataque explícito ao sexismo da sociedade inglesa. Orlando só entende verdadeiramente as agruras do machismo, os efeitos da misoginia e as deficiências do patriarcalismo quando precisa encarar o mundo na pele/corpo de uma mulher. Aí tudo se torna mais complicado. O simples passeio noturno pela cidade, a conversa com um estranho, a recepção de uma visita em casa e o ato de escrever alguns versos em um papel se tornam atividades extremamente polêmicas. O machismo da sociedade inglesa e ocidental ao longo dos últimos séculos fica bem evidenciado, no texto do livro, quando Orlando, já transmutado em uma moça, vai viver com os ciganos nos descampados da Turquia. Lá, ela não nota qualquer diferença entre ser homem e mulher. Porém, assim que embarca em um navio para a Europa, Orlando sente todo o peso do novo sexo. Obviamente, a base do conflito de “Orlando” está na mudança sexual do(a) protagonista. Porém, é interessante notar que a narrativa está toda ela estruturada no conjunto de desilusões sofridas por Orlando ao longo da vida. Em cada frustração, ele caminha em sentido oposto ao seu drama mais recente. É assim, por exemplo, com o bucolismo interiorano, a vida esplendorosa na corte inglesa, o amor de Sasha, a intenção de produzir literatura/poesia, o desapreço pela humanidade, a rotina de solidão/reclusão, as contradições do mundo civilizado, as particularidades da sociedade machista e a condição de solteirice. Nesse sentido, a mudança de sexo é só uma das muitas alterações radicais da vida polarizada da personagem principal do livro (alguém aí falou o termo bipolar, hein?). Não dá para ficar indiferente ao texto cômico deste romance. Pela primeira vez na carreira, Woolf se mostra bem-humorada, capaz de lances realmente divertidos. Seu humor é do tipo inteligente. Ora sutil, ora irônica, ela satiriza a androgenia, as diferenças entre os sexos, a passagem do tempo (às vezes lenta, às vezes veloz) e o universo artístico (crítica literária e produção literária). Sob esse aspecto, as linhas iniciais de “Orlando” são primorosas. Se você não quiser ler o livro inteiro, ao menos veja seus primeiros parágrafos. Eles realmente valem a pena (na verdade, a obra inteira vale a pena...). Outras passagens marcantes e engraçadíssimas são: a explicação de Orlando aos amigos ciganos de como funciona a sociedade inglesa/capitalista; o momento de transmutação sexual do(a) protagonista; e as críticas imutáveis de Nicholas Greene sobre as diferenças entre a literatura contemporânea e a literatura clássica. Gostei também do panorama histórico apresentado durante a narrativa. Assistimos ao desenvolvimento humano e tecnológico da Idade Média (Período Elizabetano) à Modernidade. Enquanto acompanhamos à tragicomédia pessoal de Orlando, vemos a sucessão de reis e rainhas ingleses subindo e descendo do trono, sem que com isso a estrutura social fosse alterada. Como romance histórico, “Orlando” apresenta uma narrativa redondinha, redondinha. “Orlando” não é o melhor livro de Virginia Woolf. “Mrs. Dalloway” e “Passeio ao Farol”, os dois romances anteriores da autora, são superiores em vários aspectos. Mesmo assim, são inegáveis as qualidades de “Orlando”. Seu principal mérito, na minha opinião, foi ter abordado temas importantes da nossa sociedade na literatura comercial. E isso foi feito de um jeito leve, divertido e inteligente. Chega a ser assustador como o texto deste livro é moderno. A impressão que tive durante sua leitura é que a autora acabou de escrevê-lo. Com a publicação de “Orlando”, Virginia Woolf, então com 46 anos, provava ser uma das vozes mais originais e competentes da literatura mundial naquele momento da história. A década de 1920 representou seu auge artístico. No final de 1928, ela colecionava seis romances de sucesso, vários ensaios e artigos críticos reverenciados pela comunidade literária e uma editora de destaque no Reino Unido. Na próxima terça-feira, dia 21, o Desafio Literário prosseguirá com a análise do quinto e penúltimo livro de Virginia Woolf deste mês. A nova obra a ser debatida no Bonas Histórias será “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas). Lançado em 1929, este ensaio feminista foi produzido a partir de duas palestras conferidas por Woolf em escolas femininas de Cambridge. Continue acompanhando o melhor da literatura de Virginia Woolf no Desafio Literário de julho! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Crescimento surpreendente do setor em 2019
A pandemia do novo coronavírus (não tão novo nesta altura do campeonato, né?) e sua consequente quarentena (cada vez mais relaxada nas principais cidades do Brasil e do mundo, ufa!) trouxeram péssimas perspectivas para o mercado editorial em 2020. Esse quadro sombrio é, infelizmente, tanto para o cenário nacional quanto para o internacional. Tratei dessa questão há cerca de três meses no Bonas Histórias. No post Crise sem fim ganha agora contornos apocalípticos, informei que havia analistas dizendo que o setor livreiro no Brasil, um dos sustentáculos do mercado editorial, poderia recuar, acredite se quiser, em até 70% neste ano. Boa parte das previsões indicava, contudo, uma queda menor, mas ainda assim elevadíssima (de impressionante dois dígitos). Vale lembrar que este segmento já havia perdido de 2013 para cá algo em torno de 30% a 40% do seu faturamento em nosso país. Uma tragédia sem dúvida nenhuma que tira o sono de todos os profissionais envolvidos com esta cadeia produtiva. Hoje, trago para a coluna Mercado Editorial um fio de esperança. Afinal, nesse mar de notícias negativas, pintou nas últimas semanas um dado positivo: o mercado editorial cresceu em 2019. Sim, cresceu!!! Depois de cinco anos de sucessivas retrações, o setor teve no ano passado vendas 6,1% maiores em relação à 2018. O resultado foi identificado na Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, realizada pela Nielsen Books a pedido da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Os dados foram divulgados no mês passado pelo Publishnews. O crescimento de 2019 surpreendeu os principais analistas de mercado, pois quase todo mundo previa uma nova queda (confesso que eu estava nesse grupo de pessimistas). No ano passado, o mercado editorial brasileiro vendeu 434 milhões de livros, dos quais 209,5 milhões foram para os consumidores e as empresas privadas e 224,5 milhões foram para o governo. Esse índice dá pouco mais de duas unidades comercializadas por habitante. O faturamento do setor chegou a R$ 5,67 bilhões, crescimento real de 6,1% em relação à 2018. Este crescimento foi consistente pois ocorreu em todos os segmentos analisados pela pesquisa: vendas para o governo, nas livrarias, em títulos reimpressos, em títulos inéditos, em exemplares físicos, em exemplares digitais, nos canais tradicionais e nos canais online. O preço médio do livro também aumentou em 2019 depois de apresentar sucessivas quedas nos últimos anos. O valor foi de R$ 18,19 em 2018 para R$ 18,95 em 2019, uma elevação nominal de 4,18%. Ótimas notícias, hein?! O problema é que esse quadro azul é relativo ao ano passado. Em 2020, como bem sabemos, a realidade é bem distinta. Desde março, uma pandemia varreu o planeta e as economias de todos os países. A partir de então, a situação do mercado editorial no Brasil e no mundo virou de ponta-cabeça. Ai, ai, ai. E agora, José? Sinceramente, não sei para onde vamos caminhar. Meu objetivo neste post de hoje era apresentar as boas notícias do ano passado. Foi o que fiz. Não me pergunte nada mais do que isso, por favor, pois não tenho a menor ideia do que irá acontecer daqui para frente. Por falar em boas novas, prometo trazer no mês que vem, na coluna Mercado Editorial, mais notícias positivas deste setor. Meu olhar, portanto, segue em retrospectiva. Além de listar os lançamentos dos principais livros de ficção e de poesia do quarto trimestre de 2020, vou tratar também do crescimento absurdo das vendas dos ebooks nos últimos meses. Isso sim eu posso prometer sem qualquer receio. Até mais! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Passeio ao Farol - O best-seller de Virginia Woolf
Segundo as perspectivas do público e da crítica literária, os livros mais famosos de Virginia Woolf são, atualmente, “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket) e “Orlando” (Penguin), respectivamente, o quarto e o sexto romances da autora inglesa. Logo depois, em termos de importância e de popularidade, aparece “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica). Esta obra ficcional foi publicada justamente entre os dois maiores sucessos de Woolf. E é especificamente sobre este título, o terceiro que analisamos no Desafio Literário de julho, que vamos comentar no post de hoje do Bonas Histórias. Li “Passeio ao Farol”, o quinto romance de Virginia Woolf, no último final de semana. E mais uma vez fiquei impressionado positivamente com a originalidade e a ousadia do estilo woolfiano. Você até pode não gostar dos livros da escritora inglesa. Juro que não faltam motivos para isso. Entendo perfeitamente quem torça o nariz. Porém, não reconhecer a relevância, a criatividade e a coragem da proposta disruptiva da literatura desta autora é nadar contra a maré ou fechar os olhos para evidências óbvias. Uma coisa é o nosso gosto pessoal (ele é variável). Outra coisa completamente distinta é o conjunto de fatos histórico-conceituais. Desse segundo grupo, é difícil fugir das conclusões convergentes. Publicado em maio de 1927, “Passeio ao Farol” é considerado o livro mais autobiográfico de Virginia Woolf. Ao narrar o drama da família Ramsay na casa de veraneio na costa escocesa, a escritora relata boa parte de suas angústias mais íntimas: a perda precoce dos pais, a desestruturação familiar, o acompanhamento da morte trágica dos irmãos ainda jovens, a importância da infância na formação do indivíduo, os questionamentos sobre o matrimônio e a maternidade, o relato dos horrores da Primeira Guerra Mundial, o machismo e o patriarcalismo da sociedade inglesa no início do século XX, as dúvidas de muita gente sobre a competência das mulheres em trabalhar fora de casa e de se inserir como produtoras culturais e a loucura como sequela da sobrecarga psicológica. Isso tudo em um texto ao melhor estilo de Virginia Woolf: predomínio do fluxo de consciência, que toma boa parte da narrativa; ausência quase completa de ação; pegada filosófica; cenas banais; personagens complexadas; e mergulho no universo interior/psicológico dos indivíduos retratados. Ou seja, em relação à estética, “Passeio ao Farol” se assemelha bastante a “Mrs. Dalloway” e “Orlando”. Não à toa, essa trinca de títulos foi lançada em um intervalo de apenas três anos - “Mrs. Dalloway” é de 1925 e “Orlando” é de 1928. Exatamente por isso, os críticos afirmam que a segunda metade da década de 1920 representou o auge da produção literária de Virginia Woolf. Em uma rara fase em que seus surtos depressivos estiveram controlados, ela pôde colocar no papel boa parte de suas visões filosóficas e existencialistas. O resultado é o conjunto de três obras-primas da literatura inglesa do século XX. “Passeio ao Farol” é também um marco do Modernismo inglês. Seu principal mérito está em aprofundar (e, por que não, popularizar) a imersão interior das personagens na base da estrutura narrativa ficcional, algo iniciado por James Joyce, em “Ulisses” (Penguin), e por Marcel Proust, em “A Busca do Tempo Perdido” (Nova Fronteira). Exatamente por isso, “Passeio ao Farol” aparece em várias listas/seleções dos melhores romances ingleses do século passado. Há até quem o veja como o trabalho mais maduro de Woolf. Confesso que prefiro “Mrs. Dalloway”, um romance com mais conteúdo. Porém, não me surpreendo com a opinião contrária (principalmente porque este livro que estamos comentando hoje tem um texto mais poético e uma trama mais subjetiva). O sucesso de “Passeio ao Farol” não ficou restrito à crítica literária. Esta obra foi também a mais vendida, até então, de Virginia Woolf tanto nas livrarias inglesas quanto nas norte-americanas. Enfim, Woolf se tornava, aos 45 anos, uma autora best-seller. Após um mês de seu lançamento no Reino Unido, “Passeio ao Farol” precisou ganhar uma nova edição (a primeira com tiragem de 3 mil cópias havia se esgotado em alguns dias). No outro lado do Atlântico, o livro teve cinco reimpressões em menos de doze meses, tamanho foi o interesse do público nos Estados Unidos. A primeira edição norte-americana teve 4 mil cópias e se esgotou em algumas semanas. Lembremos que isso aconteceu em 1927, há quase 100 anos!!! Em língua portuguesa, “Passeio ao Farol” foi editado com outros dois nomes: “Ao Farol” (título encontrado no Brasil) e “Rumo ao Farol” (título em Portugal). Portanto, não se confunda: apesar dos três nomes diferentes, trata-se da mesma obra. A versão que li é da Editora Rio Gráfica. Ela foi impressa em 1987 e teve a tradução de Luiza Lobo. Achei esse livro na biblioteca da casa do meu pai. Curiosamente, esse era o único exemplar de um romance de Virginia Woolf em seu acervo. Pelo visto, o sucesso de vendas deste título também repercutiu em nosso país. Com 216 páginas, “Passeio ao Farol” é narrado em terceira pessoa por um narrador com total acesso aos pensamentos e aos sentimentos das personagens. Esse narrador fica pulando de pessoa em pessoa, relatando o que cada um está vendo, lembrando e achando. O livro está dividido em três partes: “A Janela”, que tem 19 capítulos, “O Tempo Passa”, com 10 capítulos, e “O Farol”, com 13 capítulos. Na primeira seção do romance, “A Janela”, acompanhamos um dia, em 1910, na casa de veraneio da família Ramsay. Anualmente, a Sra. Ramsay (uma bonita senhora de 52 anos totalmente dedicada ao marido, aos filhos e à rotina doméstica), o Sr. Ramsay (um senhor de 70 anos que é um tanto calado, autoritário e melancólico) e seus oito filhos (Rose, Prue, Andrew, Jasper, Roger, Nancy, James e Cam) viajam no Verão para sua residência em Hebrides, na Ilha de Skye, na Escócia, para aproveitar o clima litorâneo, a paisagem bucólica e o contato com a natureza. Desta vez, eles estão acompanhados por um grupo de amigos: Charles Tansley (um machista ateu), Lily Briscoe (uma solteirona convicta de 33 anos que adora pintar quadros), William Bankes (um cientista viúvo e sem filhos), Augustus Carmichael (um poeta tímido e recluso), Minta Doyle (uma bonita adolescente) e Paul Rayley (um jovem de boa aparência). Todos aproveitam o período de férias. A Sra. Ramsay é o centro das atenções da casa. É ela quem cuida dos filhos, administra a rotina doméstica e precisa entreter os visitantes. Diante de um dia a dia tão estafante, o que a matriarca mais gosta é de ficar próxima ao seu caçula, James, de 6 anos. O menino adora quando a mãe fica lendo para ele. O garoto também está ansioso para fazer uma excursão até o farol local, uma promessa do pai. Contudo, a viagem marítima até lá não será possível no dia seguinte. A maré está agitada e os ventos estão muito fortes. Assim, o passeio se torna perigoso. A decepção de James corta o coração da bondosa mãe, que fica indignada com todos aqueles que comunicam a inviabilidade da viagem de barco para o dia seguinte. “A Janela” é a parte mais longa do livro, englobando quase 60% do seu texto. Isso ocorre porque ela tem mais capítulos e seus capítulo são mais extensos. Por outro lado, “O Tempo Passa” é a menor seção de “Passeio ao Farol”. Além de ter menos capítulos, eles são na maioria das vezes breves. Curiosamente, se a parte anterior se passava em um único dia, a segunda se passa em um intervalo de dez anos. De maneira rápida e com descrições poéticas sobre a dinâmica da vida, a passagem do tempo e o destino dos seres humanos, “O Tempo Passa” aborda as fatalidades que ocorrem com a família Ramsay na década seguinte. Juntamente com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, muitos dos integrantes do clã morrem precocemente, o que leva a desestruturação familiar e a corrosão do moral e da saúde mental dos sobreviventes. Por fim, a terceira parte, “O Farol”, se passa exatamente dez anos depois da primeira seção do romance. Depois de uma longuíssima ausência, os Ramsay e alguns de seus velhos amigos retornam para a residência na Ilha de Skye. O Sr. Ramsay quer fazer o passeio até o farol ao lado de James e Cam, justamente seus dois filhos menores de idade (agora James tem dezesseis e Cam é uma moça de dezessete anos). Assim, depois de uma década de atraso, o pai quer cumprir a promessa de levar os rebentos ao farol. Porém, dessa vez, James não está mais tão empolgado com a aventura como em sua infância. O ânimo e, principalmente, a postura autoritária do pai levam o adolescente a encarar aquela excursão mais como uma obrigação do que como uma atividade prazerosa. Li “Passeio ao Farol” em um único dia. Iniciei a leitura na manhãzinha de sábado e no início daquela noite já havia chegado à sua última página. Quem não gosta de fazer longas sessões de leitura, é possível ler esta obra em duas ou três noites ou mesmo em duas tardes tranquilamente. O livro é curtinho, mas é preciso realizar uma leitura extremamente atenta. Como há constante mudança de foco narrativo, é necessário se atentar para quem está falando (na verdade, pensando...). Assim como aconteceu em “A Viagem” e “Mrs. Dalloway”, o debate sobre o feminismo surge, em “Passeio ao Farol”, pelas diferenças de postura e de crença de duas personagens femininas: Sra. Ramsay e Lily Briscoe. Enquanto a primeira vê sua felicidade no casamento e na maternidade, a ponto de viver incondicionalmente para sua família, a segunda prefere a solteirice e a ausência de filhos como a melhor estratégia de encontrar a realização plena. Grande parte da graça deste romance está em notar essa dicotomia. Repare, por exemplo, que a Sra. Ramsay nem nome próprio tem (ao menos ele não é mencionado em nenhum instante do livro). Por sua vez, Lily Briscoe é chamada quase sempre pelo primeiro nome e não pelo sobrenome. Isso não é por acaso. Os destinos das duas personagens ficcionais dentro da trama também indicam a previsão de Virginia Woolf sobre o que acontecerá com esses dois tipos de mulheres ao longo do século XX. Enquanto uma está fadada a morrer/desaparecer, a outra irá viver/prosperar. É legal notar esses pontos no texto. O feminismo surge como a única solução para o combate ao machismo da sociedade da época. A personagem mais machista de “Passeio ao Farol” é evidentemente Charles Tansley. Ele chega ao ponto de repetir várias vezes que as mulheres não têm capacidade de escrever livros nem de pintar quadros. Não por acaso, ele é odiado por todos e ridicularizado pelas crianças. Entretanto, o Sr. Tansley não é o único a pensar e a se comportar desta forma. Muitas outras personagens do livro, tanto homens quanto mulheres, agem direta ou indiretamente para acabar com a perspectiva de independência e de realização feminina. O machismo, muitas vezes, está oculto em hábitos pessoais e sociais. Junto com esse debate sexista, assistimos a um romance com forte intertextualidade literária. Como é típico da ficção de Virginia Woolf, “Passeio ao Farol” comenta vários livros e autores relevantes da virada do século XIX para o século XX. Normalmente, as personagens woolfianas são escritores, poetas, artistas, intelectuais e apreciadores da boa cultura. Eles adoram discorrer sobre figuras de destaque da literatura e sobre obras clássicas. Ler Woolf é dialogar indiretamente com outros autores. Desses, William Shakespeare é disparadamente o mais citado. “Passeio ao Farol” trata essencialmente de tragédias. Elas são pessoais, familiares e sociais. Os dramas do romance giram sempre em torno desses três níveis de fatalidade. Em alguns casos, os diferentes tipos de tragédias se agrupam, potencializando o cenário negativo. Por meio de suas decepções, angústias, tristezas e complicações, as personagens questionam o sentido da vida, a passagem do tempo e as engrenagens sociais. Ler “Passeio ao Farol” é adentrar em uma piração existencialista de alto grau de complexidade. Se você não gosta de dramalhão nem de textos filosóficos, por favor, não comece a leitura deste livro. Algo que gostei muito foi do paradoxo entre o tamanho do texto e o tempo de duração da narrativa. A parte mais longa do romance (a primeira) é justamente a que se passa em um único dia. Tudo ali é descrito em detalhes (quando digo descrito em detalhes, não são as cenas e sim os pensamentos das personagens que são pormenorizados). A parte mais curta (a segunda) é, por outro lado, a que se passa em um longo período temporal (dez anos). Aí vemos o tempo voar. É incrível constatar esse efeito (velocidade distinta) no texto e na história do livro. Achei que “Passeio ao Farol” intensifica a proposta literária de Virginia Woolf. Proposta essa apresentada inicialmente em “O Quarto de Jacob” (Nova Fronteira) e mais tarde elaborada com mais força em “Mrs. Dalloway”. Temos nesses três livros grande mistura do tempo narrativo (passado, presente e futuro embolados), fluxo de consciência intenso, conflitos pouco aparentes, enredos simples, alternância constante de foco narrativo, mergulho na psique e na memória das personagens, exposição de preconceitos sociais e cenas banais. A diferença é que em “Passeio ao Farol” temos alguns elementos novos: uma leve pegada sobrenatural e um texto muito mais poético. Por isso, eu achei que este título foi uma evolução da proposta estética de Woolf. “Passeio ao Farol” é realmente uma obra-prima da literatura inglesa. Contudo, para se aproveitar essa narrativa em sua totalidade é preciso uma boa dose de paciência, muita concentração e certo desprendimento para o que estamos acostumados a encontrar normalmente por aí na literatura comercial. Na certa, um leitor mais ansioso, desatento e menos sensível terá muitas dificuldades para gostar deste livro. É uma pena. Porque vale sim o esforço de desbravar as reflexões, a filosofia, as angústias existencialistas, as tragédias e o feminismo de Virginia Woolf. O Desafio Literário de julho continuará na próxima sexta-feira, dia 17, com a análise do quarto livro de Virginia Woolf deste mês. A obra que vamos debater será “Orlando” (Pinguin), outro romance de grande sucesso da autora inglesa. Publicado um ano depois de “Passeio ao Farol”, “Orlando” tem um texto (ufa!) um pouco mais leve e de certa maneira mais palatável do que os livros anteriores de Woolf. Para acompanhar o próximo post do Desafio Literário, continue ligado no Bonas Histórias. E ótimas leituras para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Mrs. Dalloway - O romance mais famoso de Virginia Woolf
Neste domingo, li “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), o livro mais famoso de Virginia Woolf. Para aqueles que aportaram agora no Bonas Histórias, saibam que a escritora inglesa está sendo analisada no Desafio Literário deste mês. Depois de comentarmos, na semana passada, “A Viagem” (Novo Século), a publicação ficcional de estreia de Woolf, vamos discutir, no post de hoje, “Mrs. Dalloway”, seu quarto romance. E que diferença substancial entre esses dois títulos, hein?! Se “A Viagem” apresenta uma trama sem graça e, por que não, profundamente decepcionante, “Mrs. Dalloway”, lançado dez anos depois, é uma obra irretocável. Não à toa, ele é o trabalho literário mais celebrado de Virginia Woolf. Na lista de principais romances da língua inglesa do século XX, invariavelmente temos este livro nas primeiras posições. Justo, muito justo, justíssimo! Em uma narrativa para lá de ousada, “Mrs. Dalloway” subverte a lógica dos textos ficcionais até então consagrados e apresenta um novo jeito de se contar uma história dramática. Essa pegada inusitada marcaria o estilo autoral de Woolf dali para frente, se tornando uma de suas principais contribuições ao Modernismo literário. O resultado é um dos melhores livros que li neste ano. Em meu ranking pessoal de leituras de 2020, “Mrs. Dalloway” está lado a lado com “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), romance espetacular de Kazuo Ishiguro, e com “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras), drama semi-autobiográfico e angustiante de Kenzaburo Oe. Para entender essa mudança tão significativa entre a primeira e a quarta obra de Virginia Woolf, é preciso analisar, obviamente, os dois romances intermediários da escritora. Eles explicam em boa parte a evolução estética da literatura woolfiana. “Noite e Dia” (Novo Século), publicado em 1919, e, principalmente, “O Quarto de Jacob” (Nova Fronteira), de 1922, já apresentavam de maneira experimental as maiores ousadias vistas em “Mrs. Dalloway”: o narrador em terceira pessoa com acesso total aos pensamentos das personagens em cena, o fluxo de consciência intenso, a falta de uma definição clara sobre o conflito do romance, a multiplicidade de visões/pensamentos dos vários indivíduos retratados, as ações banais de pessoas pouco interessantes e a maior importância do que acontece na mente das personagens do que na ação narrativa em si. Diante de um receituário narrativo tão heterodoxo, um leitor mais crítico e ressabiado pode até se questionar: no final das contas, esse experimentalismo todo de Woolf gera bons livros?! Minha resposta é direta: depende. Em “A Viagem”, essa receita não funcionou nada bem. Em “Noite e Dia” e em “O Quarto de Jacob”, o resultado foi muito mais favorável. E em “Mrs. Dalloway”, atingimos o status de uma obra-prima. Evidentemente, temos nesse processo criativo uma evolução natural da nova proposta da inglesa. Não é errado pensarmos que Virginia Woolf, em “A Viagem”, era uma escritora principiante com boas intenções, mas com graves problemas de execução narrativa. E em “Mrs. Dalloway, por outro lado, ela, então com 43 anos, atingia a maturidade artística, sendo capaz de desenvolver um texto com o máximo de qualidade. Essa é a grande diferença entre as duas obras: o patamar profissional que a autora tinha atingido. Publicado em 1925, “Mrs. Dalloway” foi criado a partir de dois contos de Virginia Woolf, “Mrs. Dalloway em Bond Street” e “O Primeiro Ministro”. Além disso, os leitores de “A Viagem” irão se lembrar da protagonista deste quarto romance da autora inglesa. Clarissa Dalloway, a tal Mrs. Dalloway, e seu marido foram apresentados rapidamente no livro de estreia de Woolf. O casal viajou alguns dias no Euphrosyne, o navio de Willoughby Vinrace. Inclusive, Richard Dalloway, o honrado esposo de Clarissa, tascou um beijo na boca da inocente Rachel Vinrace, a protagonista de “A Viagem”, dando início ao conflito existencial daquela obra. Durmamos com essa! Mais tarde, a família Dalloway ainda apareceria em outros cinco contos de Virginia Woolf. Por essas e outras, Mrs. Dalloway é considerada a principal personagem da literatura woolfiana. “Mrs. Dalloway” se passa em um único dia de junho de 1923. A narrativa em terceira pessoa começa naquela manhãzinha, quando Clarissa Dalloway, uma socialite de 52 anos, casada e com uma filha de dezessete anos, vai sozinha até a floricultura Mulberry´s na Bond Street. Ela quer comprar arranjos florais para enfeitar sua casa. Afinal, uma festa será dada ali naquela noite. A trama do romance acompanha as horas posteriores ao passeio matinal da protagonista até culminar, obviamente, na recepção noturna. Nesse tão esperado encontro na residência dos Dalloway, a nata da aristocracia londrina se reunirá para alguns momentos de descontração, flerte, politicagem, exibicionismo, saudosismo, amizade e fofoca. Nesse intervalo de aproximadamente treze, quatorze horas entre os dois eventos (ida à floricultura e a realização da festança), assistimos à rotina das personagens que cruzam de alguma maneira o caminho de Clarissa. Algumas pessoas são conhecidas dela: seu marido (Richard Dalloway, um parlamentar inglês), o velho amigo que era apaixonado por ela no passado (Peter Walsh, que passou cinco anos morando na Índia), a amiga de infância (Sally Seton, que ficou anos sem falar com a personagem principal do romance após uma briga fortuita), a filha adolescente (Elizabeth Dalloway, que tinha sérios problemas de relacionamento com a mãe), a amiga da filha (Doris Kilman, com inclinações homossexuais) e o conhecido arrogante (Hugh Whitbriad, que trabalhava junto à monarquia). E havia outros indivíduos que Mrs. Dalloway simplesmente não conhecia, que apenas passaram por ela nas ruas da cidade: Septimus Warren Smith, um ex-soldado traumatizado pelo que viveu na Primeira Guerra Mundial, Lucrezia Warren Smith, a esposa italiana de Septimus e os médicos que trataram Septimus. Ao todo, “Mrs. Dalloway” possui doze cenas: (1) caminhada de Clarissa pela Bond Street para comprar flores; (2) drama médico-conjugal de Septimus e Lucrezia Warren Smith em uma praça de Londres ; (3) volta de Clarissa para casa, pois ela precisa costurar o vestido para a festa daquela noite; (4) visita, às 11horas, de Peter Walsh à residência dos Dalloway; (5) Peter Walsh volta para seu hotel; (6) médico visita os Warren Smith; (7) almoço de Richard Dalloway com Millicent Bruton; (8) sesta na casa dos Dalloway; (9) passeio de Elizabeth Dalloway, primeiro com Doris Kilman e depois sozinha; (10) decisões tomadas na casa dos Warren Smith; (11) novas reflexões de Peter Walsh em seu quarto de hotel; e (12) festa na casa de Mrs. Dalloway. Com 224 páginas distribuídas em um texto corrido (não há a divisão de capítulos, por exemplo), “Mrs. Dalloway” tem um narrador que mergulha na mente das personagens, relatando suas rotinas e reconstituindo suas memórias. É nesta hora que sabemos suas crenças, seus traumas, suas ambições, seus segredos mais íntimos e suas avaliações sobre as demais figuras em cena. Se as ações desta narrativa são extremamente banais (compra na floricultura, passeio na praça, ida ao restaurante para um almoço entre amigos, estada solitária em um quarto de hotel, consulta médica, recebimento da visita de um velho amigo, saída para fazer compras...), o universo interno de cada pessoa retratada no romance reserva uma riqueza e uma complexidade inimagináveis. É na mente das personagens do livro que moram os dramas e as inquietações que valem a pena esta leitura. O grande mérito de “Mrs. Dalloway” está na construção primorosa do fluxo de consciência de suas personagens. Sabemos o que acontece e o que aconteceu quase que exclusivamente pelos pensamentos, pelas visões, pelas memórias e pelas opiniões das pessoas em cena. Sem uma descrição pormenorizada das ações, cabe ao leitor entender o que está efetivamente se passando no texto ficcional pelo rastro de impressões e de lembranças deixadas pelas personagens. Incrível notar como uma romancista pode fazer isso e a trama ficar interessante. Obviamente, os leitores que não gostam de experimentalismos estéticos e que apreciam exclusivamente as histórias convencionais poderão se sentir desgostosos durante essa leitura. Definitivamente, Virginia Woolf não é uma autora para as massas. Seu estilo é mais condizente para um público menor e seleto, capaz de apreciar as nuances de uma narrativa entrecortada, psicológica e subjetiva. Ou seja, é preciso uma dose de coragem para encarar as páginas de “Mrs. Dalloway”. Mesmo assim, quem embarca de corpo e alma nesse inusitado livro poderá vivenciar uma experiência literária única. É incrível notar que não há um conflito nítido neste romance. O leitor até pensa: “Legal, sei que vai ter uma festa à noite, mas e daí?”. Sim, e daí? Assistimos ao dia de uma dezena de personagens sem saber o motivo para isso. E mesmo assim, o relato é riquíssimo. Ao invés de um protagonista e de um único conflito, temos vários protagonistas (cada personagem possui seus quinze minutos de fama nessa história – a ponto de muitas vezes Clarissa ficar em segundo plano) e vários pequenos conflitos paralelos (cada figura retratada possui seu drama próprio). É maravilhoso ver uma construção textual desse tipo e perceber que mesmo com os riscos de algo assim desandar, o livro ficou excelente (nada desanda aqui). Vai você fazer isso em sua obra literária para ver a avaliação das pessoas... Em meio à narrativa, temos vários temas sendo debatidos direta e indiretamente: os amores não realizados, a importância das aparências sociais, as reflexões sobre as escolhas tomadas no passado, os jogos políticos inerentes às vidas profissionais, familiares e sociais, as amizades feitas e desfeitas, as impressões que cada um tem de quem está ao seu redor, o saudosismo da juventude perdida, os aprendizados que a vida traz, o medo da morte, o padecimento das doenças, os horrores da guerra, as injustiças sociais, a loucura, os preconceitos, as vantagens e as desvantagens do matrimônio e da maternidade/paternidade, a sexualidade aflorada e escondida, o homossexualismo, o machismo da sociedade inglesa do início do século XX, as primeiras mulheres fortemente feministas, a política colonial do Reino Unido após a Revolução Industrial, as engrenagens da sociedade aristocrata etc. O mais interessante é que esses debates se dão, em “Mrs. Dalloway”, na mente das personagens e não nos diálogos, como aconteceu em “A Viagem” (e que critiquei muito naquela oportunidade). Algo que notei (e adorei!), é que minha leitura acompanhou, de certa maneira, a própria cronologia dos acontecimentos da trama ficcional. Tive essa percepção porque li justamente o romance em um único dia (período coincidentemente retratado na ficção). Comecei a leitura de manhãzinha, logo depois do café da manhã. E o texto de “Mrs. Dalloway” se passava em um começo de manhã. À medida que avançava no texto, as horas do meu relógio e da narrativa iam batendo. Ao meio-dia, quando parei para almoçar, o livro relatava acontecimentos do meio-dia, quando as personagens foram almoçar. E assim seguiu por toda a tarde. Quando terminei a leitura à noite, o romance se passava à noite, na festa dada pela Mrs. Dalloway. Achei incrível esse recurso. Não sei se Virginia Woolf pensou em fazer isso (até acho que ela fez essa compatibilização temporal de propósito), mas que dá certinho, isso dá! Se você ainda não leu esta obra, tente fazer essa leitura em um único dia (acompanhando as horas da ficção). É muito legal! Se fiquei decepcionado com a leitura de “A Viagem” na semana passada, agora estou encantado com o conteúdo de “Mrs. Dalloway”. Assim, não tenho mais dúvidas sobre a qualidade literária de Virginia Woolf (confesso que após “A Viagem”, me perguntei se ela não seria uma autora supervalorizada...). Além de criar uma obra-prima, Woolf mostrou ser uma artista extremamente corajosa e original. Afinal, não é qualquer escritor que se propõe a produzir uma narrativa tão inovadora, o que sempre suscita riscos que a trama desande. Não é o que acontece em “Mrs. Dalloway”. Tudo parece estar em seu devido lugar neste livro, por mais curiosa que seja sua receita narrativa. O Desafio Literário de julho terá prosseguimento na próxima semana, quando comentaremos mais um romance de Virginia Woolf. A próxima obra da inglesa que vamos analisar no Bonas Histórias é “Um Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), título publicado dois anos depois de “Mrs. Dalloway”. Considerado uma das principais criações de Woolf, “O Passeio ao Farol” é visto, hoje em dia, pela crítica literária como um dos marcos do Modernismo em língua inglesa. O post sobre esse livro estará disponível no blog na segunda-feira, dia 13. Se você é fã da boa literatura, não perca as próximas etapas do Desafio Literário de Virginia Woolf. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Viagem - O romance de estreia de Virginia Woolf
Li, neste final de semana, “A Viagem” (Novo Século), o romance de estreia de Virginia Woolf. Não por acaso, esta é a primeira obra da escritora inglesa que vamos analisar no Desafio Literário de julho. Nas próximas três semanas, vou publicar, no Bonas Histórias, os comentários sobre cinco outros livros de Woolf: “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), “O Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), “Orlando” (Penguin), “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas) e “Flush - Memórias de um Cão” (L&PM Pocket). Portanto, aperte os cintos - nossa jornada literária pelos títulos e pela carreira de Virginia Woolf está começando agora, agorinha! A ideia da narrativa de “A Viagem” surgiu em 1904, logo após Virginia realizar um cruzeiro marítimo, ao lado da família, pela Península Ibérica. Infelizmente, assim que desembarcou na Inglaterra, a futura escritora viu seu pai falecer, vítima de câncer. Então com 22 anos, ela ficava órfã (sua mãe havia morrido nove anos antes). Era o início de um dos períodos mais complicados da autora. Nos anos seguintes, ela assistiria a perda de mais familiares. Sua meia-irmã já tinha deixado a vida em 1897 e, em 1906, foi a vez do seu irmão padecer. Diante de tantos óbitos, Virginia Woolf entrou em depressão e passou a sofrer de estresse emocional. Internada várias vezes em clínicas psiquiátricas para tratamento, ela nunca mais teve uma vida normal e tranquila. Mesmo com o definhamento psicológico, que foi se agravando ano a ano, Virginia Woolf lançou-se na literatura. Há quem veja, nesse seu trabalho autoral, uma maneira de ela exorcizar seus demônios internos e suas neuroses mais íntimas. Além de iniciar a produção de “A Viagem”, os primeiros anos do século XX marcaram sua estreia como ensaísta. A inglesa teve seu primeiro texto não ficcional publicado, em 1904, no jornal The Guardian. Publicado em 1915, quando Woolf tinha 33 anos, “A Viagem” começou a ser rascunhado em 1904. Contudo, foi a partir de 1906 que a autora passou a se dedicar efetivamente à sua primeira narrativa ficcional. Depois de sete versões e de duas alterações de título, a obra ficou, enfim, pronta em 1913. Mais dois anos foram necessários até seu lançamento nas livrarias britânicas. O motivo da nova espera foi o quadro clínico da escritora. Os editores e a família de Woolf aguardaram Virginia sair de um longo período de internações psiquiátricas (fruto da tentativa de suicídio e de constantes crises de ansiedade) para que a autora aproveitasse minimamente os eventos em torno da publicação de seu primeiro livro. Nessa época, ela já estava casada há três anos com Leonard Woolf, seu parceiro até o final da vida. “A Viagem” é, de certa maneira, uma trama semi-autobiográfica. A crítica literária inglesa vê na protagonista desta obra, Rachel Vinrace, um dos mais fidedignos alter egos da escritora. Nesse sentido, o Sr. e a Sra. Ambrose, os tios de Rachel nessa história, seriam nada mais nada menos do que o pai e a madrasta de Virginia, respectivamente. Para completar as associações entre ficção e realidade, a viagem pelo Oceano Atlântico e a estadia em um povoado na Amazônia brasileira, que marcaram o despertar amoroso-sexual da personagem principal do livro, seriam uma emulação do cruzeiro marítimo realizado por Virginia Woolf até a Espanha e Portugal nos primeiros anos do século passado. A edição brasileira de “A Viagem” tem um charme adicional: a tradução de Lya Luft. A escritora gaúcha é, até hoje, a principal tradutora de Virginia Woolf para o português. Este livro, publicado pela Novo Século, ainda conta com o prefácio de Antonio Bivar, membro do The Virginia Woolf Society of Great Britain, e a introdução de Angelica Garnett, sobrinha de Virginia e presidente honorária de The Virginia Woolf Society of Great Britain. Esses dois textos iniciais analisam brevemente o romance e apresentam para o leitor brasileiro curiosidades sobre os bastidores da obra e detalhes da vida da escritora. Por falar em Antonio Bivar, ele morreu hoje, em São Paulo, aos 81 anos, vítima do COVID-19. O enredo de “A Viagem” começa em um porto londrino. Ridley Ambrose e Helen Ambrose, um casal de aproximadamente 40 anos, embarcam no Euphrosyne. O proprietário da embarcação, e de outros nove navios responsáveis pelo transporte da borracha da Amazônia brasileira para a Europa, é Willoughby Vinrace. Acostumado a viajar pelo Oceano Atlântico, o Sr. Vinrace convidou os cunhados para uma temporada em alto-mar. Apesar de ser um navio de carga, o Euphrosyne possui alguns camarotes privativos, o que confere um mínimo de conforto aos visitantes. Assim, enquanto o empresário comandava uma de suas embarcações, os familiares poderiam aproveitar a cortesia de viajar até a América do Sul. Para essa viagem, Willoughby também convidou sua filha, Rachel Vinrace, uma jovem de 24 anos. Após a morte da mãe, Rachel passou a viver em Richmond, interior da Inglaterra, com as tias. Ou seja, aquela jornada tinha outro intuito: aproximar pai e filha, há tanto tempo distantes um do outro. Quando o Euphrosyne parte de Londres tendo como destino o Brasil, Ridley e Helen Ambrose tem pouca intimidade com Willoughby e Rachel Vinrace, apesar do grau de parentesco. Aos poucos, a convivência diária em alto-mar serve para aproximar os integrantes da família, principalmente as mulheres (Willoughby está sempre cuidando de aspectos operacionais de sua embarcação, enquanto Ridley, um intelectual introspectivo, não larga suas traduções e leituras). Quando enfim Helen se torna íntima de Rachel, a tia descobre que a sobrinha possui uma inocência assustadoramente retrógrada. Criada pelas tias de Richmond de maneira tradicional, a filha de Willoughby Vinrace nunca beijou um rapaz, jamais saiu com alguém da sua idade e desconhece até mesmo as relações mais básicas entre homens e mulheres. Apesar de já ser uma adulta, Rachel passa o dia sozinha, tocando piano e lendo livros em seu quarto, vivendo com a mentalidade de uma menina de oito ou nove anos. Querendo ajudar a sobrinha, Helen combina com o cunhado que ela ficará responsável por educar Rachel por alguns meses. Enquanto os Ambrose estiverem em Santa Maria, povoado brasileiro localizado na boca do Rio Amazonas, a jovem poderá viver com os tios uma rotina normal, algo mais próximo do dia a dia de uma moça de sua idade. A ideia agrada Willoughby Vinrace. Afinal, ele poderá seguir viagem até Buenos Aires, enquanto a filha aproveita de uma forma melhor a estada pela América do Sul (qualquer lugar parece mais interessante do que a cabine de um navio de carga). Por isso, o comandante do Euphrosyne sede sua casa no Brasil para os familiares se alojarem. Somente quando o navio voltar da Argentina, todos poderão se reencontrar e regressarão juntos para a Europa. Em Santa Maria, Rachel terá a oportunidade de conhecer e de conviver com vários conterrâneos. O povoado amazonense possui um hotel que recebe vários ingleses abonados em período de férias. E um desses hóspedes é Terence Hewet, um jovem escritor de 27 anos. Bonito e inteligente, mas um pouco preguiçoso, o rapaz está em viagem ao lado do amigo St. John Alaric Hirst. Assim que conhece Rachel, Hewet começa a nutrir certo encantamento pela moça. O sentimento dela por ele é recíproco. Pouco a pouco, os dois jovens se tornam cada vez mais próximos, o que inaugura uma nova fase na vida da protagonista. Enfim, Rachel Vinrace se comporta como uma mulher adulta e passa a tecer planos maduros para seu futuro. “A Viagem” é um romance extenso. Ele tem mais de 500 páginas. Li seus 27 capítulos em apenas dois dias. Iniciei a leitura na última quinta-feira depois do almoço e na sexta-feira à noite já a havia concluído. Para ser sincero, esse primeiro livro de Virginia Woolf me decepcionou bastante. Os fãs mais apaixonados da escritora inglesa que me desculpem, mas êta publicação chata e sem sabor esta, meu Deus! Nota-se, desde as primeiras páginas, uma autora com muito o que dizer, mas que ainda não dominava os elementos mais básicos das histórias ficcionais. O resultado é uma obra fraquinha, fraquinha, com vários problemas de ordem narrativa. E olha que Virginia passou quase uma década editando o livro! Se Woolf seria, na década seguinte, uma escritora revolucionária, em 1915, com “A Viagem”, ela era ainda uma novata com muito a aprender. Narrado em terceira pessoa por um narrador com acesso ilimitado aos pensamentos de todas as personagens retratadas, “A Viagem” é um romance calcado essencialmente nos diálogos e na crônica de costumes. O olhar tem como foco e ponto de vista a elite inglesa, que explorava o mundo colonial de um jeito predatório na virada do século XIX para o XX, e o drama sexista de uma sociedade profundamente machista e castradora para as integrantes femininas. É verdade que “A Viagem” até propõe ótimos debates. Se fosse um ensaio, tenho certeza de que Virginia Woolf iria arrebentar com um texto lúcido, inteligente e com um conteúdo profundo. Nota-se que a escritora tinha uma consciência privilegiada dos problemas de sua época e da situação complicada vivida por suas contemporâneas. Woolf fala, neste livro, sobre o orgulho inglês (muitas vezes, este sentimento se transforma em arrogância), a dinâmica da economia colonial (exploração da América, África, Oceania e Ásia pelas monarquias europeias), o universo das artes (música e literatura principalmente), o mundo machista (as mulheres servem apenas para procriar e cuidar das casas e dos filhos), o preconceito de classes (nobreza britânica se sente superior a tudo e todos), a política inglesa (liberais versus conservadores) e as contradições religiosas (catolicismo versus protestantes e religiosos versus ateus). Um dos principais problemas deste romance de Virginia Woolf está no fato desses debates surgirem quase sempre no discurso das personagens e raramente no meio da trama (algo que é o contrário do esperado em uma narrativa ficcional de qualidade). Assim, assistimos às conversas das personagens sobre vários temas, ao mesmo tempo em que não acontece nada de importante em cena. A sensação é de um diálogo interessante, mas quase sempre vazio. Não há qualquer ação que contagie o leitor: cafés da manhã monótonos, passeios sem graça pelo campo, bailes noturnos com as mesmas personagens de sempre, cavalgadas tediosas pelas montanhas amazonenses e rotina banal em um navio de carga em alto-mar. Para desespero do público que lê o romance, esses acontecimentos se prolongam por centenas e centenas de páginas. A vontade que dá é de atirar o livro pela janela. O próprio conflito principal da obra demora para se tornar claro. Ele só fica nítido no terço final da obra – o amor entre Rachel Vinrace e Terence Hewet. Enquanto isso, vemos a rotina besta de uma multidão de personagens planas e pouco cativantes. Qual é a graça de acompanhar o cotidiano entediante de nobres ingleses que passam meses e meses de férias sem fazer nada de emocionante em uma região inóspita, hein? Juro que não enxergo qualquer relevância nisso. Ao invés de centrar nas tramas principais (dramas de Rachel e de sua tia Helen), o narrador mergulha na realidade dos vários coadjuvantes presentes no hotel de Santa Maria. Para que fazer isso, Santo Deus?! Se fosse transformado em uma novela, com pouco mais de um quinto de seu tamanho atual, este livro ganharia em qualidade. Portanto, uma edição mais rigorosa não cairia mal para este texto. São poucas as personagens realmente interessantes em “A Viagem”. A maioria delas é de pessoas preconceituosas, elitistas e arrogantes. Entre as raras figuras que valem a leitura, temos St. John Alaric Hirst, um intelectual misógino e insuportável, Evelyn Murgatroyd, uma moça moderna com atitudes liberais, e Richard e Clarissa Dalloway, casal que aparece em poucos capítulos na parte inicial do romance e transforma a vida de Rachel. Por falar na Srta. Dalloway, a personagem mais famosa da literatura de Virginia Woolf, ela iria ganhar um romance só seu na década seguinte, além de integrar mais tarde contos da escritora inglesa. É legal assistir a essa estreia da contraditória socialite nos textos woolfianos. A trama de “A Viagem” é um tanto bobinha aos olhos dos leitores de hoje. A única coisa legal de seu conteúdo é a crítica feroz à sociedade machista da época, algo que Virginia Woolf já fazia em seus ensaios e que iria aprofundar em seus romances futuros. Woolf indicava possuir um olhar aguçado para tal questão, muito à frente do seu tempo. É legal reparar na consciência moderna da escritora inglesa para temas como: a educação sexual falha das mulheres no início do século passado, os preconceitos sexistas, a prisão das mulheres em uma rotina doméstica pouco nobre e tediosa, o casamento e a maternidade como únicos ideais de existência feminina, a falta de perspectiva de trabalho profissional para as mulheres etc. Ler Virginia Woolf é ler uma intelectual contemporânea e engajada. Mesmo assim, esses debates sobre os preconceitos sexistas ficam quase sempre restrito às conversas tediosas das personagens. Se ao menos esses temas aparecessem de forma mais direta no enredo do romance, aí sim a leitura poderia ficar mais interessante. Ou seja, falta sutileza e um maior requinte para a transmissão da mensagem que a escritora pretendia passar. Uma das poucas vezes em que isso acontece é na distinção das crenças e dos relacionamentos das três principais moças inglesas presentes em Santa Maria: Evelyn Murgatroyd, Susan Warrington e Rachel Vinrace. Aí sim “A Viagem” ganha em força narrativa. Enquanto Evelyn Murgatroyd não quer se casar nem ter filhos, preferindo viver livre e com vários homens, Susan Warrington faz o gênero tradicional. Ela quer se casar e ter filhos, se realizando como mulher apenas no papel de esposa e de mãe. Rachel Vinrace, por sua vez, sofre com essa dicotomia filosófica. Afinal, o que seria melhor para ela - continuar sozinha e livre das imposições machistas de sua sociedade ou se casar com Terence Hewet e aceitar indiretamente a submissão feminina em relação ao matrimônio e à maternidade? Entender o padecimento repentino da personagem principal passa necessariamente pela compreensão desse dilema. O desfecho de “A Viagem” é trágico, ao melhor estilo de Virginia Woolf e dos romances românticos do século XIX. A felicidade feminina, ao menos para alguém inteligente, conscienciosa e ambiciosa como a protagonista do livro, não tem vez nesse mundo castrador para as mulheres com almas modernas. Sob essa ótica, a mensagem final é negativa – a sociedade do início do século XX ainda está longe de ser um ambiente saudável para as integrantes do sexo feminino. Mesmo com tantos pontos negativos, o pior aspecto deste primeiro romance de Virginia Woolf ainda é a descrição equivocada do cenário. A Amazônia brasileira de “A Viagem” é algo completamente inverossímil na perspectiva de sua fauna, flora, geografia, paisagem, povoação e dinâmica social. Alguém que já tenha morado ou visitado a região por um único dia, repara no quão irreal é a Santa Maria da escritora inglesa. Nada de sua descrição cola! Nada! Sinceramente, não gosto quando um romance tenta sobrepujar a realidade concreta do cenário retratado ou não considera a inteligência do leitor para enxergar uma construção tão absurda. Aposto que Woolf jamais tenha pisado na floresta equatorial brasileira nem tenha realizado muitas pesquisas sobre esse assunto. Assim não dá, né?! Em suma, apesar de ser uma obra ficcional de estreia, “A Viagem” é um romance frustrante, com mais elementos negativos do que positivos. Esperava muito mais de Virginia Woolf, mesmo levando em conta seus problemas familiares e clínicos vividos no período de produção deste livro. O segundo título de Virginia Woolf que vamos analisar no Desafio Literário de julho é sua obra mais famosa: “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket). Esse romance tem como protagonista Clarissa Dalloway, personagem que apareceu rapidamente em “A Viagem”. O post desse novo livro de Woolf estará disponível no Bonas Histórias na próxima quinta-feira, dia 9. Não perca as novidades do blog! 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- Filmes: Thelma - O terror psicológico de Joachim Trier
Enquanto os cinéfilos brasileiros esperam avidamente pela reabertura dos cinemas (sim, um dia eles voltarão a operar!), filmes inéditos ou que não tiveram exibições massificadas no circuito comercial são apresentados em festivais online. Assim, dá para aplacar um pouco a ansiedade natural por novidades da sétima arte. Quem não tem cinemão, caça com streaming, não é?! Na semana passada, os principais lançamentos cinematográficos ficaram concentrados no Festival Espaço Itaú Play, iniciativa inédita do Espaço Itaú de Cinema. Pela primeira vez, a rede irá transmitir seus filmes de maneira remota. Em outra iniciativa para lá de louvável, o Cine Belas Artes tem realizado sessões de cinema no Memorial da América Latina por meio da modalidade do drive-in. Em seu catálogo, há uma mistura de produções clássicas e longas-metragens recentes. Por fim, a Promoção Mês do Orgulho LGBTQI+, homenagem da plataforma Looke ao Dia Internacional do Orgulho Gay a ser celebrado no dia 28, trouxe uma boa variedade de antigos títulos internacionais relacionados à temática homoafetiva. Com cardápios tão plurais como esses, aproveitei para assistir a alguns filmes nos últimos dias. A produção que destaco hoje, no Bonas Histórias, é “Thelma” (2017), um dos longas-metragens disponíveis na Promoção Mês do Orgulho LGBTQI+ do Looke. Prometo trazer, nas próximas semanas, na coluna Cinema, análises tanto de filmes do Festival Espaço Itaú Play quanto do Cine Belas Artes Drive-in. Dirigido por Joachim Trier, cineasta norueguês conhecido por “Mais Forte que Bombas” (Louder Than Bombs: 2014) e “Começar de Novo” (Reprise: 2006), “Thelma” é um drama psicológico com pitadas de terror, suspense e ficção científica. Este filme foi lançado na Noruega em setembro de 2017. No Brasil, ele chegou ao circuito comercial em novembro daquele ano. Contudo, “Thelma” ficou poucas semanas em cartaz e foi exibido em um pequeno número de salas. Por isso, essa é uma nova oportunidade para conferi-lo. “Thelma” conquistou alguns importantes prêmios internacionais. Além do Festival Internacional de Cinema da Noruega, ele foi eleito o melhor longa-metragem em língua estrangeira pela Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego e pela Associação de Críticos de Cinema de Utah. Para coroar este trabalho de Trier, “Thelma” foi indicado ao Oscar de 2018 como representante da Noruega na categoria Melhor Filme Estrangeiro, mas não chegou à finalíssima. Quem gosta do cinema escandinavo, que possui uma pegada mais sombria, tórrida e violenta - basta lembrarmos de “Rainha de Copas” (Dronningen: 2019) e “Border” (Gräns: 2018), dois filmes que estiveram em cartaz no ano passado em nosso país -, com certeza irá gostar das fortes emoções contidas nesta que é a mais recente produção de Joachim Trier. No elenco de “Thelma”, temos as jovens Eili Harboe, do mágico “O Rei da Montanha” (Askeladden - I Dovregubbens Hall: 2017) e da comédia adolescente “Beije-me, Cacete!” (Kyss Meg for Faen i Helvete: 2013), e Okay Kayao, mais conhecida como cantora do que como atriz. Ao lado delas, há as presenças de peso de Henrik Rafaelsen e Ellen Dorrit Petersen, protagonistas de “Blind” (2014), um dos melhores filmes do cinema norueguês do século XXI (se não for o melhor). Nesta trama, Thelma (interpretada por Eili Harboe) deixa a casa dos pais, Trond (Henrik Rafaelsen) e Unni (Ellen Dorrit Petersen), no interior da Noruega para fazer faculdade em Oslo. A moça se matriculou no curso de Biologia e irá morar sozinha pela primeira vez. Solitária e introspectiva, Thelma tem dificuldades para fazer amigos na capital norueguesa. Sua rígida formação cristã faz com que a jovem veja pecado em muitas coisas banais das pessoas da sua idade (sair à noite, dançar, tomar cerveja, fumar, namorar...). Por isso, a protagonista fica cada vez mais angustiada e depressiva com seu constante isolamento social. Quando conhece Anja (Okay Kayao), uma colega de faculdade, Thelma parece ter conseguido superar seu acanhamento inicial e a bolha que ela mesma construiu em seu entorno. Afinal, agora tem uma grande amiga e consegue conviver com um grupo de universitários conhecidos. Contudo, a relação de intimidade com Anja rapidamente evolui para um flerte. Thelma se apaixona pela amiga, lançando-se em uma paixão homossexual. Essa nova perspectiva de vida vai completamente contra suas crenças religiosas, levando-a a indecisão. Em pânico sem saber o que fazer (é certo ou errado, segundo a ótica de Jesus Cristo, uma mulher sentir amor por outra mulher?), a mente de Thelma desencadeia reações inimagináveis tanto para ela quanto para aqueles que estão ao seu redor. A partir desse ponto, “Thelma” se transforma em um filme de suspense psicológico de alto nível. Os comportamentos inexplicáveis da personagem principal a levam a investigar por conta própria sua condição mental, seu misterioso passado e alguns episódios sombrios de seus ancestrais. Sua infância esconde segredos cabeludos que sua família sempre tentou esconder e que agora podem cobrar um preço amargo demais por não terem sido tratados adequadamente. A pequena, melancólica e frágil Thelma esconde um poder grandioso que nem ela mesma consegue entender e, o que é pior, não consegue controlar. Com quase duas horas de duração, “Thelma” é um bom thriller, principalmente em sua metade final. Na primeira hora, o filme caminha a passos lentos, atiçando a curiosidade do espectador aos poucos e apresentando a conta-gotas o drama de sua protagonista. As principais surpresas e reviravoltas da trama estão concentradas no desfecho. E por falar nisso, que desenlace tem esse longa-metragem, hein?! A plateia fica com o coração na boca, incrédula com as descobertas de Thelma e com os acontecimentos finais de sua história. Em um caso raro de suspense, esse filme tem sua tensão dramática em constante crescimento. Se demora um pouco para pegar, depois que pega, seu drama se torna realmente pesado e desemboca em uma avalanche de proporções inimagináveis. O enredo de “Thelma” apresenta uma relação direta com outros títulos clássicos do cinema e da literatura. Essa associação começa já em seu título. Thelma, o nome da protagonista, é uma referência óbvia a “Thelma & Louise” (1991), um grande sucesso de Ridley Scott que traz um dos casais lésbicos mais conhecidos da história da sétima arte. A intertextualidade não para por aí. Se formos analisar a trama de “Thelma”, há uma nítida sensação de déjà vu. Não é errado pensar nesse filme de Joachim Trier como uma mistura de “Carrie, a Estranha” (Suma das Letras), romance de terror de Stephen King adaptado inúmeras vezes para as telonas, e “Carol” (L&PM Pocket), romance homoafetivo de Patricia Highsmith levado recentemente aos cinemas. Thelma é, nessa visão, a união de Carietta White, uma moça interiorana com poderes telecinéticos, e Therese Belivet, uma jovem que se descobre homossexual em meio a uma complicada fase de sua vida. Em uma comparação mais cinematográfica, podemos ver a protagonista de “Thelma” como sendo a versão feminina, mais jovem, mais moderna e norueguesa de David Callaway, de “Amigo Oculto” (Hide and Seek: 2004), ou de Tyler Durden, de “Clube da Luta” (Fight Club: 1999). Não é preciso ser um cinéfilo inveterado para fazer essas relações entre a personagem do filme de Trier e os anti-heróis mais conhecidos do cinema norte-americano atual. Querendo ou não, “Thelma” bebe dessas fontes, o que evidentemente o prejudica nos quesitos criatividade e originalidade (Criatividade, NOTA 3. Originalidade, NOTA 1). Esse aspecto, então, compromete a experiência cinematográfica da plateia? Por mais contraditória que pareça, minha resposta é um sonoro NÃO. Se não é criativo nem original, “Thelma” vale a pena ser visto pela tensão e pelo suspense que propicia. Sabe aquela receita velha que é manjada por todos, mas que funciona muitíssimo bem? Pois essa é a melhor definição para este filme de Joachim Trier. Chamo isso de Complexo (do Drible) de Garrincha. Por mais que já o tenhamos visto outras vezes, ainda sim ficamos estupefatos quando assistimos a sua repetição in loco. “Thelma” faz o espectador mais experiente se lembrar de um monte de títulos conhecidos, mesmo assim o público sai da sessão feliz com o resultado apresentado. Se o enredo tem lá seus defeitos, por outro lado, esse filme tem alguns aspectos elogiáveis. O clima de suspense e a ambientação de terror são os primeiros elementos a serem enaltecidos. As paisagens frias, isoladas e inóspitas do interior da Noruega e de sua capital criam uma atmosfera de tensão constante. A câmera grudada ao rosto de Eili Harboe potencializa os dramas da protagonista. Com isso, ficamos muito próximo da personagem principal, enxergando o mundo sob seu ponto de vista. Assim, ela divide conosco suas dúvidas, suas preocupações e seus pavores mais íntimos. É verdade que sem a atuação segura de Eili Harboe, esse recurso cinematográfico (câmera colada à fisionomia da atriz) não seria possível. A jovem norueguesa está ótima nesse que é, até aqui, seu papel mais importante no cinema. E olha que ela não se intimidou com a presença de Henrik Rafaelsen e Ellen Dorrit Petersen, dois dos melhores atores noruegueses da atualidade. E não apenas Harboe dá um show de interpretação como Rafaelsen e Ellen Dorrit Petersen têm uma nova atuação primorosa como casal (eles foram marido e mulher em “Blind”). Vale a pena dizer que Eili Harboe e Henrik Rafaelsen foram eleitos, respectivamente, a melhor atriz e o melhor ator no Festival Internacional de Cinema de Kosmorama, um dos mais importantes da Noruega. Ainda em relação ao elenco, o único ponto destoante foi a atuação abaixo da média de Okay Kayao, que parece ainda receosa quando larga os microfones dos shows e mergulha em produções cênicas. Contudo, isso não comprometeu a qualidade de “Thelma”. Outros aspectos que merecem ser citados neste filme é sua trilha sonora e sua edição. Parte da tensão dramática é conseguida pelas músicas, que embalam a rotina e as dúvidas de Thelma. Quase sempre orquestrais, as canções ditam o ritmo dos sentimentos da personagem e levam a plateia a se emocionar. Em muitos momentos, é o silêncio absoluto o responsável por potencializar o suspense, que faz com que o público não consiga desgrudar os olhos da tela. Repare nesse efeito. É incrível! Quanto a edição, ele confere uma narrativa fluida e verossímil. Se não temos aqui uma trama extremamente original, por outro lado, ela é aceitável do ponto de vista ficcional. Para apimentar ainda mais o clima de terror, “Thelma” mistura o universo real com o mundo onírico de sua personagem principal. Como consequência, entramos na mente perturbada da estudante de Biologia. É verdade que não temos aqui uma narrativa tão naturalista quanto “Border” e “Rainha de Copas”, mesmo assim houve tentativas neste sentido em algumas cenas. Contudo, a pegada maior não está nos elementos escatológicos e animalescos dessa história, e sim em sua tensão psicológica. As duas últimas cenas de “Thelma” são fantásticas. Sutilmente, o roteiro do filme apresenta o desfecho da trama de maneira inteligente e lógica. Ao invés de detalhar o destino da personagem principal, ele mostra o que Thelma fez/fará delicadamente. De tão sutil, há quem possa vê-lo como um final aberto. Não. Ele não é aberto coisa nenhuma! Reveja as duas últimas cenas até você chegar a uma conclusão. Um acompanhamento atento dessa parte é esclarecedor (daí o aspecto fechado do final do longa-metragem). Adoro isso! Aprecio quando o cineasta investe na inteligência do público. Como fã de suspense e de tramas de terror, gostei de “Thelma”. Não é o melhor filme escandinavo dos últimos anos, mas é uma produção interessante, que vale a experiência. Assista, a seguir, ao trailer de “Thelma”: Os filmes da Promoção Mês do Orgulho LGBTQI+ estão disponíveis no Looke até o final de junho, próxima terça-feira. Para assisti-los, basta fazer um cadastro rápido na própria plataforma de streaming. A exibição é gratuita e há mais de dez opções de produções disponíveis, entre longas-metragens e séries. Além de “Thelma”, os destaques são “A Jovem Rainha” (The Girl King: 2005), drama histórico finlandês, “Transamérica” (2004), tragicomédia norte-americana, “Adeus, Minha Rainha” (Les Adieux à La Reine: 2011), drama francês, e “De Garota em Garota” (De Chica en Chica: 2015), comédia espanhola. Entre as séries, temos “Rio #semlimites” (2019), uma produção nacional recente, e “Meus Dois Amores” (J´ai Deux Amours: 2018), um drama francês. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: 14 Contos de Kenzaburo Oe - As narrativas curtas do autor japonês
A literatura de Kenzaburo Oe é bem variada. O escritor japonês vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1994 produziu contos, novelas, romances, crônicas e ensaios. É uma pena que a maior parte desse portfólio artístico não tenha sido traduzida para o português. No Desafio Literário de junho, estamos vendo um pouco dessa multiplicidade narrativa de Oe. Foram analisados no Bonas Histórias, até agora, a novela “A Captura” (Luna), os romances “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras) e “O Grito Silencioso” (Francisco Alves) e a coleção de crônicas “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” (Companhia das Letras). No post de hoje, vamos aprofundar nosso estudo sobre a literatura de Kenzaburo Oe comentando seu principal livro de narrativas curtas. A obra em questão é “14 Contos de Kenzaburo Oe” (Companhia das Letras), minha leitura dessa semana. Este título abrange quase três décadas e meia da produção de pequenas histórias do autor. As tramas desta coletânea de contos foram publicadas originalmente, no Japão, entre 1957 e 1990. Entretanto, quase todas se mantiveram inéditas em português (e na maioria dos idiomas ocidentais) até o lançamento, em 2011, deste livro. Ou seja, “14 Contos de Kenzaburo Oe” joga luz a um importante aspecto da ficção do popular escritor naturalista, até então oculta a quem não era fluente na língua japonesa. A ideia de reunir, em uma coletânea, os melhores contos de Kenzaburo Oe partiu das editoras estrangeiras, que sentiam falta de apresentar esse tipo de texto aos seus leitores. Invariavelmente, o público fora do Japão tinha acesso principalmente às novelas e aos romances do Nobel, narrativas com maior apelo comercial. Apenas no século XXI, começaram a aparecer traduções das mais famosas narrativas curtas de Oe. Dessa maneira, pudemos conhecer uma parte riquíssima da literatura japonesa contemporânea. A edição nacional de “14 Contos de Kenzaburo Oe” teve a tradução direta de Leiko Gotoda, uma das principais tradutoras brasileiras do idioma japonês. Foi ela quem justamente selecionou os textos mais relevantes de Oe para integrar essa coleção. Com 456 páginas, este é o livro mais volumoso de Kenzaburo Oe que analisamos no Desafio Literário deste mês. As quatorze tramas desta obra são: (1) “O Armazém Zoológico” (história publicada pela primeira vez em dezembro de 1957), (2) “Salte Sem Olhar” (junho de 1958), (3) “Os Pássaros” (outubro de 1958), (4) “Em Outro Lugar” (julho de 1959), (5) “Exultação” (novembro de 1959), (6) “A Convivência” (janeiro de 1961), (7) “Seventeen” (janeiro de 1961), (8) “O Homem Sexual” (maio de 1963), (9) “A Semana do Idoso” (junho de 1963), (10) “Aghwii, O Mestre Celeste” (janeiro de 1964), (11) “Em Português Brasileiro” (fevereiro de 1964), (12) “O Nascimento de Uma Nova Izumi Shikibu” (maio de 1984), (13) “Viver em Paz” (abril de 1990) e (14) “A Dor de Uma História” (maio de 1990). Antes da apresentação das narrativas de “14 Contos de Kenzaburo Oe”, temos uma introdução desenvolvida por Arthur Dapieve, jornalista, escritor e crítico cultural carioca. Sinceramente, não sabia que o colunista de O Globo era um apreciador da literatura japonesa nem que era um grande fã do trabalho de Oe. Dapieve contextualiza para o leitor brasileiro a importância de Kenzaburo Oe para a ficção japonesa do século XX e explica a relevância dos contos para o portfólio literário do escritor. “O Armazém Zoológico”, o primeiro texto do livro, é uma pequena peça teatral. Ambientada no escritório de um armazém portuário, dois funcionários (o zelador e a escriturária) precisam resolver um problema seríssimo: o desaparecimento de uma jiboia gigante. O animal, que fora importado dos Estados Unidos, tinha sido vendido e entregue há poucas horas para o dono de um circo. Porém, o empresário circense retornou alegando que a jiboia fugiu e que agora está à solta pela cidade. Uma tragédia está para acontecer! Em “Salte Sem Olhar”, a segunda história de “14 Contos de Kenzaburo Oe”, assistimos ao drama de um universitário de 20 anos. Cursando Literatura Francesa na Universidade de Tóquio, o rapaz se vê envolvido em dois triângulos amorosos – primeiramente com Gabriel, um jornalista estrangeiro, e Yoshie, uma prostituta japonesa de meia-idade; e depois com a própria Yoshie e Yuko Tagawa, uma adolescente para quem ele dá aulas particulares de francês. “Os Pássaros” apresenta o conflito psicológico de um jovem. Aos 20 anos, o rapaz decidiu isolar-se da sociedade para viver recluso no quarto escuro da casa da mãe. Ali, ele tem a companhia sinistra de um bando de pássaros. Certo dia, aparece um psiquiatra que lhe propõe um experimento: sair de casa para ver se as aves são mesmo suas amigas. Se forem, elas irão acompanhá-lo para onde ele for. O quarto conto da coletânea é “Em Outro Lugar”. Nessa história, um rapaz se hospeda em um hotel com sua amante. Uma vez na intimidade do aposento, ao invés de fazerem sexo, os dois começam a discutir seriamente. A pauta do acalorado debate é o relacionamento que possuem. Enquanto a moça tem vontade de se casar e ter filhos, ele posterga ao máximo a evolução daquela relação. Na cabeça e no coração dele, não há lugar para um relacionamento mais profundo. Em “Exultação”, um jovem vivencia uma crise de relacionamento com K, sua namorada ninfomaníaca. A moça é uma famosa atriz japonesa. Após presenciar, ao lado do namorado, um acidente fatal de moto na estrada da cidade portuária de Kanzai, em um dia ensolarado e calmo de Verão, K fica intimamente ligada ao amigo do motociclista falecido. A partir daí, ela não desgrudará do novo amigo, deixando o antigo companheiro de lado. Em outro thriller psicológico (ao melhor estilo de Franz Kafka), “A Convivência” retrata a agonia de um jovem morador de Tóquio que precisa conviver com quatro macacos em seu apartamento. A vida do rapaz se torna um inferno com a presença dos bichanos. Envergonhado com essa situação inusitada, o protagonista vê sua trajetória profissional e sua vida sentimental degringolarem. “Seventeen” é a sétima narrativa de “14 Contos de Kenzaburo Oe”. Nele, um adolescente de Tóquio completa 17 anos diante de vários dilemas. Solitário, feio, tímido e virgem, o protagonista dessa história se vê diante da polarização política de seu país no Pós-Guerra. Apesar de possuir uma visão esquerdista, ele se alista a um partido político de extrema-direita. “O Homem Sexual” apresenta duas histórias protagonizadas por J, o filho bissexual de um milionário japonês. Na primeira trama/capítulo, o protagonista viaja, em um Jaguar, para sua casa na baía de Miminashi com outras seis pessoas. O grupo irá filmar o primeiro curta-metragem da esposa de J, uma jovem cineasta. Na segunda trama/capítulo deste conto, ele forma uma associação de molestadores de mulheres. Em “A Semana do Idoso”, três universitários (um estudante de Letras, um de Ciências Sociais e uma de Pedagogia) são contratados por um senhor de noventa anos. O velhinho está há dez anos vivendo isolado em sua mansão, sem receber qualquer informação do mundo externo. Assim, cabe aos jovens noticiar o que está acontecendo no Japão e no planeta no Pós-Segunda Guerra Mundial. Porém, a enfermeira do milionário excêntrico é enfática: nada de notícias ruins! Caso contrário, o idoso pode morrer do coração. Será que os universitários conseguirão ser otimistas em relação ao mundo em que vivem? “Aghwii, O Mestre Celeste” é o décimo conto desta coletânea. Nele, um rapaz de 28 anos e com um olho deficiente relata o primeiro trabalho que teve na vida. Há dez anos, quando ainda cursava Literatura Francesa na universidade, ele foi assistente de um compositor com problemas emocionais. “Em Português Brasileiro” gira em torno de um mistério. Todos os moradores de um povoado na floresta de Shikoku desapareceram inexplicavelmente da noite para o dia. Intrigado, o guarda florestal da localidade irá investigar o caso ao lado de seu amigo dos tempos de faculdade em Tóquio. “O Nascimento de Uma Nova Izumi Shikibu” trata dos relatos da infância de um escritor experiente. Após ficar famoso nacionalmente, ele acalenta a vontade de produzir um livro sobre “as mulheres extraordinárias” de seu vilarejo natal. Para tal, irá começar contando a história de sua Tia Hana, que lhe ensinou os poemas de Izumi Shikibu. “Viver em Paz”, o penúltimo de “14 Contos de Kenzaburo Oe”, é narrado por Maa-chan, a filha de um famoso escritor. A moça de vinte e poucos anos precisará cuidar, por algumas semanas, da rotina da casa e do irmão excepcional durante a viagem dos pais pela Califórnia. Por fim, temos “A Dor de Uma História”. Essa trama é, de certa forma, a continuação do conto anterior. A filha do escritor continua seus relatos. Agora, Maa-chan debate as mensagens dos livros “Momo” e “Uma História Sem Fim”, lidos em sua adolescência. Enquanto o primeiro fala de uma menina que salvou sozinha o mundo, o segundo trata da vida depois da morte. Li “14 Contos de Kenzaburo Oe” em três dias. Comecei na terça e o concluí na última quinta-feira. Para mim, as melhores histórias são: “O Armazém Zoológico”, “Os Pássaros”, “Seventeen”, “O Homem Sexual”, “A Semana do Idoso” e “O Nascimento de Uma Nova Izumi Shikibu”. O primeiro aspecto que notamos nesta coletânea é o predomínio de narrativas (11 de 14 contos) produzidas antes de “Uma Questão Pessoal”, cuja publicação foi em 1964. Achei acertadíssima essa escolha. É inegável que após o nascimento do filho excepcional, em 1963, e do lançamento do romance semi-autobiográfico sobre essa questão, a literatura de Kenzaburo Oe tenha se transformado completamente. A fixação pela deficiência da criança tornou-se um dos motes principais dos seus textos a partir dali. Aí o leitor se pergunta: e antes disso, qual era a temática prioritária das histórias do escritor japonês, hein? As tramas de “14 Contos de Kenzaburo Oe” apresentam justamente essa resposta. Nesse sentido, esta coletânea de contos mergulha essencialmente nos primeiros anos do trabalho de Oe como escritor. Assistimos, nesta coleção de pequenas narrativas, a conflitos psicológicos e sociais de grande tensão dramática (por vezes, tragicômicos). Os assuntos debatidos mais comumente aqui são doenças mentais, distúrbios e taras sexuais, dúvidas filosófico-existencialistas, brigas matrimoniais, relacionamentos conflituosos entre homem-mulher e debate político sobre a polarização do Japão no pós-Guerra (direita versus esquerda, movimento de pacificação versus corrida armamentista e proliferação das armas nucleares versus campanha antinuclear). Trata-se, evidentemente, de um material com uma multiplicidade temática muito maior do que encontramos nos mais famosos romances de Oe. Ao mesmo tempo, “14 Contos de Kenzaburo Oe” possui a mesma ambientação sombria e pesada dos principais livros do autor. Em outras palavras, isso não mudou absolutamente nada. Essa é uma das marcas estilísticas de Oe desde o início de sua carreira. Assim, há, nesses contos, muita violência (suicídios, assassinatos, guerras, bomba atômica, abortos, estupros, agressões, prisões, assédios, intimidações), humilhações (medos, covardias, relações abusivas), cenários inóspitos (sujeira, esgoto, fedo, escuridão, cenários claustrofóbicos e insalubres), escatologias (vômitos, excrementos, suores excessivos, sangue por todo o lado, sêmen, arrotos), personagens sem nomes próprios (em alguns casos são chamados por uma letra e em outras situações nem há essa preocupação) e animalização das personagens (homens e mulheres são comparados o tempo todo aos bichos). Vou logo avisando: é preciso estômago forte para encarar essas histórias (e a literatura de Kenzaburo Oe como um todo). Por falar nas personagens, elas, quase sempre protagonistas masculinos jovens e universitários, sofrem de depressão, loucura, paranoias, neuroses, compulsões sexuais bizarras, alcoolismo e dependência química. Em busca de uma vida normal e/ou que faça algum sentido, esses indivíduos questionam-se sobre: a dignidade humana, a coragem para correr atrás de seus sonhos, a busca pela liberdade, a existência de vida após a morte, a distinção entre realidade e imaginação e os elementos da essência do ser humano. Nota-se, dessa forma, um forte componente filosófico nesses contos. Não à toa, a influência da literatura francesa de Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Blaise Pascal no trabalho de Kenzaburo Oe atingiu seu auge nas produções textuais da primeira metade da década de 1960. Gosto da carga intertextual dos textos de Oe. Suas narrativas dialogam sutilmente com a literatura, com a música, com o cinema, com a política e com a geopolítica mundial. Porém, se comparado às suas crônicas e às histórias de outros escritores japoneses, por exemplo Haruki Murakami, essa intertextualidade pode até parecer fraquinha. De aspecto negativo, temos, em “14 Contos de Kenzaburo Oe”, um retrato negativo das mulheres japonesas. Elas são normalmente prostitutas, strippers, ninfomaníacas, esposas/namoradas infiéis, mães submissas e indivíduos com algum tipo de loucura. Invariavelmente, elas possuem apenas uma finalidade nessas narrativas: servir de amantes para os protagonistas masculinos. Não é preciso dizer que essa é uma visão de mundo extremamente machista. São raras as figuras femininas neste livro que apresentam qualidades positivas, atitudes nobres e que estejam desvinculadas da prática sexual. As exceções são as protagonistas dos três últimos contos. Também fiquei incomodado com a mistura da narrativa em terceira pessoa com o pensamento das personagens em primeira pessoa. Não há qualquer indicação/sinalização textual da entrada das reflexões das pessoas no meio da parte principal da narrativa. Isso é no mínimo estranho. Esse recurso já havia aparecido nos romances de Oe. Sinceramente, eu não gosto. O que custa colocar as aspas nos pensamentos das figuras ficcionais, hein? Com a leitura de “14 Contos de Kenzaburo Oe”, percebemos a altíssima qualidade das narrativas curtas do autor japonês. Apesar de “Uma Questão Pessoal” e “O Grito Silencioso”, dois romances, serem suas obras mais famosas, não podemos dizer que Oe seja mais romancista do que contista. Na verdade, ele é até mesmo mais contista (pela quantidade de publicações e pela profundidade destes textos) do que romancista. Não dá para alguém estudar a literatura do Nobel de 1994 sem mergulhar em seus contos. E “14 Contos de Kenzaburo Oe” é o título ideal para isso. O Desafio Literário de junho irá se encerrar na próxima segunda-feira, dia 29, com a postagem, no Bonas Histórias, da análise completa da literatura de Kenzaburo Oe. A partir de tudo o que lemos nesse mês, já podemos tecer uma visão abrangente do trabalho de um dos principais escritores japoneses do século XX. Não perca a última parte desse nosso estudo literário. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Filmes: O Mistério de Henri Pick - O thriller cômico de Rémi Bezançon
No último final de semana, assisti a uma pequena obra-prima do cinema francês contemporâneo: “O Mistério de Henri Pick” (Le Mystère Henri Pick: 2019). Essa comédia é o mais recente filme do diretor e roteirista Rémi Bezançon, da animação “Zarafa” (2012) e da comédia-dramática “Um Evento Feliz” (Un Heureux Événement: 2011). “O Mistério de Henri Pick” é um dos cinquenta títulos do Festival Varilux em Casa, a edição extra da mostra de cinema francês que está disponível gratuitamente em streaming. A mais nova produção de Bezançon mistura humor, thriller policial e literatura em uma história deliciosa. Quem gosta de cinema e de literatura não pode perder esse longa-metragem extremamente inteligente e divertidíssimo. “O Mistério de Henri Pick” é estrelado pelos ótimos Fabrice Luchini, de “O Melhor Está Por Vir” (Le Meilleur Reste à Venir: 2018) e “Dentro da Casa” (Dans La Maison: 2012), e Camille Cottin, de “Tal Mãe, Tal Filha” (Telle Mère, Telle Fille: 2017) e “As Primeiras Férias Não Se Esquece Jamais! (Premières Vacances: 2018). Os dois estão, sem dúvida nenhuma, entre os melhores atores franceses da atualidade. Completam o elenco principal os jovens Alice Isaaz e Bastien Bouillon e a experiente Josiane Stoléru. O roteiro de “O Mistério de Henri Pick” foi adaptado do romance homônimo de David Foenkinos, publicado em 2016. Se você gostou de “Zarafa” e “Um Evento Feliz”, saiba que Rémi Bezançon continua em altíssimo nível. Seu mais recente longa-metragem até pode não ser o melhor filme do diretor, mas é disparado o mais encantador. Lançado no começo de 2019 na França, “O Mistério de Henri Pick” chegou ao circuito comercial brasileiro em julho do ano passado. Ele integrou a última edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Como não pude vê-lo na época de sua estreia por aqui, não desperdicei a nova oportunidade. Não por acaso, a possibilidade de assistir aos grandes sucessos recentes do cinema francês dos últimos anos é o principal atrativo do Festival Varilux em Casa. Em “O Mistério de Henri Pick”, Daphné Despero (interpretada por Alice Isaaz) é uma jovem e ambiciosa assistente de editora em Paris. Em um final de semana, a moça viaja para sua terra natal, a Bretanha. Ela vai visitar o pai, um livreiro em Crozon, ao lado do marido/namorado, Fred Koskas (Bastien Bouillon), um escritor iniciante e muito frustrado com a carreira que não decola. Nessa visita, Daphné descobre, por acaso, que em seu povoado há uma biblioteca muito peculiar. O estabelecimento é formado exclusivamente por obras recusadas pelas editoras. Encantada com a ideia, a assistente de editora visita o lugar. E sem querer, encontra um romance maravilhoso entre os títulos disponíveis na estante da biblioteca. Ela mostra o material para Fred e ele também gosta do que lê. Na volta a Paris, Daphné Despero apresenta o original recusado no passado para sua chefe e surge aí a ideia de publicá-lo. O problema é que o autor é Henri Pick, um pizzaiolo de Crozon falecido há alguns anos. Quando Daphné contacta a família Pick para pegar a autorização para a publicação do livro, todos estranham o fato de o velho Henri ter se dedicado à literatura. Nem a viúva, Madeleine (Josiane Stoléru), nem a filha, Joséphine (Camille Cottin), imaginam que Henri tenha produzido um romance. O possível escritor nunca se dedicou a leitura muito menos foi visto escrevendo algo ao longo de sua vida inteira. Instigadas, as mulheres da família fazem uma varredura nas coisas do falecido. E lá encontram uma máquina de escrever e alguns livros. Sim! Aparentemente Henri escrevia escondido e criou uma pequena obra-prima da ficção francesa contemporânea. Quando o livro é lançado, ele se torna um grande sucesso na França. Rapidamente, o romance de Pick se transforma no principal best-seller do país. Chovem, então, convites para a assistente de editora e a viúva de Henri darem entrevistas e contarem a intrigante história da publicação daquele livro. Aos ouvidos do público, a saga da obra de um pizzaiolo simples da Bretanha que havia sido recusada em vida e foi encontrada em uma biblioteca distante da capital por uma jovem apaixonada por literatura ganha tons de contos de fada. Em um desses compromissos de divulgação do romance, Daphné Despero e Madeleine Pick vão ao programa de televisão de Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini), o grande crítico literário francês. Sua atração sobre literatura é vista pelo país inteiro e é bastante respeitada. Ao entrevistar as duas ao vivo, Rouche fica intrigado com aquela história sem pé nem cabeça de um pizzaiolo simplório que produziu um drama sensível, inteligente e irretocável. Depois de interpelar Daphné e Madeleine, Jean-Michel Rouche não se aguenta e declara ao vivo que ele acha aquilo tudo uma grande encenação. Em sua opinião, a autoria de Henri Pick não passa de uma invenção de Marketing para promover o romance. Indignadas com as acusações do apresentador, Daphné Despero e Madeleine Pick abandonam o programa no meio sob lágrimas. A plateia e o público em casa se solidarizam com as entrevistadas e com a falta de educação de Rouche. Do ponto de vista geral, o crítico literário foi profundamente deselegante e extremamente agressivo com o escritor póstumo e com sua viúva. O destempero de Jean-Michel Rouche na TV não demora a pagar seu preço. Quando ele chega em casa, a mulher o expulsa da residência. Ela pede o divórcio por não aguentar mais conviver com um homem tão arrogante e insensível, capaz de agredir verbalmente uma senhora viúva, simpática e interiorana na frente do país inteiro. Ao chegar em um hotel de Paris para passar a noite, Rouche recebe por celular uma mensagem ainda mais bombástica: ele foi demitido do programa de TV! No dia seguinte, desempregado e sem esposa, Jean-Michel Rouche resolve investigar por conta própria a autoria do best-seller que, de uma forma ou de outra, representou seu ocaso. Ele quer mostrar para a França toda que ele está certo e todos estão errados em atribuir a autoria daquele incrível romance ao pizzaiolo de Crozon. Inicia-se, assim, a aventura de Rouche pela origem do livro de Henri Pick. Curiosamente, ele terá, nessa investigação, a companhia de Joséphine Pick, a filha do escritor, que quer saber se o pai é realmente o autor da famosa obra. Com cem minutos de duração, “O Mistério de Henri Pick” tem como principal qualidade seu roteiro irretocável. A plateia sempre acha que consegue se adiantar à investigação de Jean-Michel Rouche e apontar um forte candidato a fraudador do best-seller francês. Contudo, poucos minutos depois, o espectador quebra a cara (assim como a pobre personagem principal do filme) ao descobrir que suas suspeitas estavam totalmente equivocadas. Toda vez que pensamos ter descoberto o segredo por trás do mistério da identidade de Henri Pick, a trama dá uma reviravolta e nós (o público e Rouche) voltamos à estaca zero. Nada é banal ou por acaso nesse enredo inteligentíssimo. E por falar nisso, seu desfecho é simplesmente espetacular. Felizmente, o ótimo suspense tem um desenlace à altura do restante do filme (algo que nem sempre ocorre nos thrillers policiais). Até a última cena, a história consegue surpreender a plateia. Por isso, não perca o que acontece depois da subida dos créditos da produção na tela. Alguns segredinhos são guardados até o último instante. Portanto, não seja apressadinho(a) e não queira abandonar a sessão logo de cara. Boa parte dos méritos de “O Mistério de Henri Pick” está justamente no roteiro impecável de Rémi Bezançon. Há muito tempo eu não via um cineasta aproveitar tão bem um texto literário em uma adaptação para as telonas. Curiosamente, quando li a sinopse desse filme, não o achei tão criativo assim. Na hora pensei: “Será mais uma produção cinematográfica a explorar os encontros e desencontros sobre a questão da autoria na literatura ou nas artes”. Lembrei, por exemplo, do norte-americano “O Escritor Fantasma” (The Ghost Writer: 2010), dos argentinos “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018), “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016) e “El Crítico” (El Critico: 2013), e do francês “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos” (Les Yeux Jaunes Des Crocodiles:2012). Entretanto, “O Mistério de Henri Pick” sai de um tema aparentemente corriqueiro para apresentar novas facetas dessa questão. Incrível! O que ajuda nesse sentido é a ótima construção das personagens. As figuras representadas nesse filme são quase sempre do tipo redondas. Ninguém é totalmente vilão nem é 100% santinho nessa trama. Exatamente por isso, o protagonismo de Jean-Michel Rouche cresce pouco a pouco aos olhos da plateia. Se ele surge nas primeiras cenas como o anti-herói da história, capaz de causar repulsa em qualquer um, à medida que o filme avança, começamos a nutrir certa empatia por ele. No final, não apenas estamos torcendo por sua investigação como estamos crentes que ele é a única pessoa certa e verdadeira do enredo. É maravilhoso acompanhar essa transmutação em pouco mais de uma hora e meia de filme. Por outro lado, aqueles que admirávamos e em quem confiávamos cegamente no começo, revelam outras características pouco nobres. As características dúbias das personagens de “O Mistério de Henri Pick” só mostram o quanto o roteiro desse filme é primoroso. Normalmente, é muito difícil fazer humor com personagens redondas. Tradicionalmente, os escritores, roteiristas e dramaturgos recorrem aos tipos planos, normalmente os caricatos, para explorar as situações cômicas. Contudo, esse não foi o recurso da dupla David Foenkinos e Rémi Bezançon. Romancista e cineasta franceses exploram o humor mesmo com personagens contraditórias e pouco caricatas. Incrível notar esse trabalho de construção narrativa. Com isso, o filme adquire uma comicidade inteligente e sutil, bem ao gosto da plateia mais exigente. Não é possível falar de “O Mistério de Henri Pick” sem realçar as atuações soberbas de Fabrice Luchini e Camille Cottin. A dupla de protagonistas dá um show de interpretação e consegue cativar a plateia desde as primeiras cenas. Se Cottim já havia demonstrado inúmeras vezes sua qualidade para as comédias (ela é uma das principais atrizes cômicas da França), foi ótimo ver Luchini em um papel diferente do que está habituado a fazer. Ele é normalmente escalado para os dramas sérios. Sinceramente, não sabia de sua capacidade para o humor (não me lembro de nenhum trabalho seu nessa área). Quem não conhece seus papéis anteriores (vale lembrar, ele é um dos principais atores do cinema francês atual), diria que Fabrice Luchini nasceu para fazer a plateia rir e que é um cômico de longa data. “O Mistério de Henri Pick” mistura vários gêneros: comédia, suspense, trama policial, romance, road story e crítica de costumes. É até difícil classificar esse filme. O mais adequado, na minha visão, é chamá-lo de thriller policial cômico. Bezançon fez essa miscelânea de gêneros de maneira sublime e antes que tal expediente se tornasse a nova modinha do cinema internacional. Afinal, muitos querem copiar o sucesso de “Parasita” (Gisaengchung: 2019), produção de Bong Joon Ho que ganhou as principais estatuetas do último Oscar ao fazer justamente essa mescla inusitada de gêneros em um mesmo filme. É só assistir “Um Evento Feliz” para ver que o diretor francês já tinha essa marca em sua filmografia muito antes de Bong Joon Ho se tornar uma estrela de primeira grandeza no cinema internacional. Outro aspecto delicioso desse filme é o mergulho nos meandros da indústria literária. Quem trabalha nessa área ou admira esse mundo, tão bem explorado nos posts e nas colunas do Bonas Histórias, irá achar essa história imperdível. Ela fala da atuação dos ghost writers, do papel dos editores, da força da crítica literária, da vaidade dos escritores, da luta pela conquista do sucesso, da disputa entre as editoras, etc. Poderia passar algumas horas apontando todos os detalhes do mercado editorial que o longa-metragem de Rémi Bezançon explora tão bem. Para completar, gostei de acompanhar a geografia, as particularidades, os preconceitos e as diferenças culturais da França por uma perspectiva diferente do que estamos acostumados a ver no cinema atual. Na maioria das vezes, assistimos ao debate cultural francês do ponto de vista do imigrante (ou melhor, do preconceito ao imigrante). “Samba” (2014) e "Que Mal Eu Fiz a Deus?" (Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?: 2014) são ótimos exemplos desse tipo de crítica social. “O Mistério de Henri Pick” até passa bem ligeiramente por essa questão, mas o que o filme aponta de maneira prioritária é o preconceito social e geográfico da metrópole cosmopolita e cultural (Paris) em relação ao interior do país, região mais bucólica, simples e sem tanta efervescência cultural (Bretanha). O preconceito, portanto, não é apenas com o estrangeiro, mas também com o conterrâneo. Esse olhar diferenciado para algumas neuras francesas é legal de se ver explorado no cinema. Dos filmes disponíveis no Festival Varilux em Casa, esse é com certeza um dos melhores, ao lado de “Amor à Segunda Vista”, “Um Homem Fiel”, “O Professor Substituto” e “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017). Essa edição especial do Festival Varilux de Cinema Francês estará disponível para acesso gratuito no site da mostra até 27 de agosto. Para poder ver os filmes, basta fazer um cadastro rápido na plataforma de streaming. Vale a pena conferir a programação. Assista, a seguir, ao trailer de “O Mistério de Henri Pick”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Jovens de um Novo Tempo, Despertai! - As crônicas de Kenzaburo Oe
Neste final de semana, li “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” (Companhia das Letras), o quarto livro de Kenzaburo Oe do Desafio Literário de junho. As obras anteriores, analisadas no Bonas Histórias nas últimas semanas, foram a novela “A Captura” (Luna) e os romances “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras) e “O Grito Silencioso” (Francisco Alves). Ou seja, estávamos, até então, manuseando os textos ficcionais do autor japonês. Agora vamos adentrar em outra parte de seu trabalho literário: as narrativas não ficcionais. Publicado em 1983, no Japão, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é a principal coletânea de crônicas de Kenzaburo Oe. Curiosamente, este título é descrito, em muitos lugares, ora como um romance semiautobiográfico, ora como uma coleção de contos. Sinceramente, não entendi essas classificações alternativas, um tanto esdrúxulas na minha opinião. Desde as primeiras páginas de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” (na verdade, desde o seu título!), já é possível notar o caráter de crônica de seu texto. O único detalhe diferente é que Oe, nesta obra, trocou ou omitiu os nomes verídicos das pessoas citadas em suas histórias. Sua ideia era não gerar problemas com ninguém (uma decisão acertada e muitíssimo elegante!). Apesar desse gênero narrativo não ser o principal da literatura de Kenzaburo Oe, que se destacou muito mais pela produção de romances e contos, achei interessante incluir uma publicação de crônicas em nossos estudos sobre o escritor japonês vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Muitas vezes, a melhor maneira para se conhecer a vida pessoal e os pensamentos de um autor é através de seus textos não ficcionais. Além disso, estamos falando de uma obra premiada. “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” conquistou, no ano de sua publicação, o Prêmio Jiro Osaragi, honraria atribuída ao melhor livro não ficcional do Japão. Quando lançou este título em seu país, Kenzaburo Oe já era um dos mais consagrados escritores japoneses de sua geração. Ele ainda não havia se tornado um autor unânime internacionalmente, mas já fazia algum sucesso fora das fronteiras nipônicas. Por isso, a riqueza do conteúdo de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!”. Se os leitores tinham uma ideia vaga dos detalhes da vida de Oe por meio de sua ficção, agora todo mundo poderia conhecer diretamente sua trajetória pessoal em um texto ancorado na realidade. No Brasil, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” só foi publicado recentemente em duas edições pela Companhia das Letras. A primeira é de 2011, enquanto a segunda é de 2016. Ambas edições contam com a tradução direta de Leiko Gotoda, uma das mais requisitadas tradutoras da língua japonesa do nosso país. Além de Kenzaburo Oe, ela traduziu para o português as principais obras de Eiji Yoshikawa, Haruki Murakami, Yukio Mishima e Junichiro Tanizaki. O livro “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” possui sete crônicas: (1) “Canções da Inocência, Canções da Experiência”, (2) “Um Frio Menino de Pé no Ar em Tumulto”, (3) “Desce, Desce, Cortando a Imensidão com Gritos de Aflição”, (4) “O Espectro de uma Pulga”, (5) “Alma Desce como Estrela Cadente até o Osso do Meu Calcanhar”, (6) “Que a Alma Acorrentada se Erga e Olhe em Volta” e (7) “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!”. Essa última narrativa, obviamente, empresta seu nome ao título da coletânea. Com 328 páginas, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” tem a mesma extensão do romance “O Grito Silencioso”. Dos títulos de Kenzaburo Oe que estamos analisando neste mês no Desafio Literário, esta obra só perde em tamanho para “14 Contos de Kenzaburo Oe” (Companhia das Letras), que será comentado no próximo domingo no Bonas Histórias. Mesmo sendo um livro aparentemente volumoso, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” possui um texto rápido e fluido. Concluí seu conteúdo em apenas um dia. Neste domingo, iniciei sua leitura de manhãzinha e no começo da noite já tinha chegado à última página (com óbvios intervalos no meio do caminho). Devo ter investido, ao todo, cerca de seis horas nesse trabalho. Em “Canções da Inocência, Canções da Experiência”, a primeira crônica do livro, Kenzaburo Oe narra, simultaneamente, a importância da poesia de William Blake em sua formação literária e os efeitos negativos de uma longa ausência de casa (viajou a trabalho pela Europa por algumas semanas) no espírito de Iiyo, seu primogênito. O menino nasceu com problemas cerebrais e tem algumas limitações motoras e cognitivas. Quando se viu por muitos dias seguidos sem o pai, Iiyo se tornou muito agressivo, assustando os familiares, os colegas e os professores. “Um Frio Menino de Pé no Ar em Tumulto”, o segundo texto da coletânea, segue a essência do capítulo anterior. Dessa vez, Oe relaciona passagens da poesia de Blake a fatos de sua trajetória pessoal. O autor lembra os momentos marcantes de sua infância, a relação com a mãe, a agonia com o nascimento do primeiro filho e o sentimento de culpa pela condição mental do menino. De alguma forma, o pai sempre se sentiu responsável pelas limitações de Iiyo. A terceira crônica de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é “Desce, Desce, Cortando a Imensidão com Gritos de Aflição”. Nessa narrativa, Oe se mostra disposto a ensinar Iiyo a nadar. Depois das reclamações do professor de natação do menino de que ele não afundava nem conseguia boiar, o escritor passou a levar o filho para sessões de natação nas piscinas do clube. Lá, Kenzaburo conheceu o Sr. Shumuta, o professor de jovens que no passado foram adeptos de um movimento revolucionário. O grupo era capitaneado pelo famoso escritor M, um militante político reacionário. Quando M se suicidou, os rapazes ficaram perdidos. Daí a tarefa de Sr. Shumuta de educá-los. A natação tinha uma função pedagógica. Em “O Espectro de uma Pulga”, o texto seguinte, acompanhamos a visita de Marion, uma estudante universitária dos Estados Unidos, ao Japão, na década de 1970. A jovem estudava a violência e o sexo na literatura japonesa. Como foco de sua pesquisa, ela escolheu os textos de M, o escritor suicida citado na crônica anterior, e de Kenzaburo Oe. Por isso, ela realizou várias entrevistas com Oe. Enquanto o autor fala sobre suas impressões dessas conversas com a jovem estrangeira, ele também relata a dificuldade de Iiyo em sonhar. O filho simplesmente não entendia o que era um sonho por nunca ter tido essa experiência. “Alma Desce como Estrela Cadente até o Osso do Meu Calcanhar”, a quinta narrativa desta coleção, apresenta a dicotomia entre imaginação e memória. A partir dos versos de William Blake que falam desse tema, Kenzaburo Oe relata a enorme facilidade e a intuitiva paixão de Iiyo pela música. Se o menino não possuía quase nenhuma imaginação, por outro lado ele tinha uma memória musical absurdamente elevada. Em “Que a Alma Acorrentada se Erga e Olhe em Volta”, Oe utiliza tanto as reflexões sobre a Constituição japonesa quanto a análise da biografia de William Blake para traçar paralelos com a vida de seu filho e de seu pai. Enquanto Iiyo, aos dezoito anos, entrou em uma escola profissionalizante, inserindo-se definitivamente na sociedade, o escritor relembra a profissão do pai no interior do Japão, quando eles viviam na Ilha de Shikoku. Outra passagem marcante desta crônica é o rapto de Iiyo, quando o menino tinha entre oito e nove anos. Passado e presente da vida familiar do autor se misturam com debates literários, políticos e filosóficos. E, por fim, em “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!”, a narrativa que dá nome ao livro, Kenzaburo Oe inicia falando de uma viagem que fez a Java. Em uma visita ao Jardim Botânico de Bogor, ele fica diante da famosa árvore da chuva. Depois de tanto ansiar por conhecê-la pessoalmente, o escritor percebe que não terá graça vê-la de perto sem o filho, Iiyo, que ficou no Japão. Por falar nele, Iiyo, próximo de completar vinte anos, irá pela primeira vez a um internato. Essa quebra do laço com os pais e a casa gera ansiedade no rapaz e em seus familiares. “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é um livro de crônicas interessante. Ele permite ao leitor matar a curiosidade sobre a vida pessoal do escritor japonês, principalmente a respeito do relacionamento com o filho excepcional. Se em “Uma Questão Pessoal” e “O Grito Silencioso” ficamos nos perguntando sobre o destino real daquele garoto que nasceu com problemas cerebrais, aqui temos boa parte das respostas para tais questionamentos. De maneira delicada, Kenzaburo Oe chama o filho mais velho por um pseudônimo – Iiyo. Assim, poupa o rapaz de uma exposição excessiva. Isso aconteceu não apenas com o primogênito de Kenzaburo, mas com as demais pessoas citadas ao longo desta obra. Outra questão muito legal é poder ver na prática as influências literárias que Oe teve em sua carreira. Normalmente, são citados apenas os autores franceses que o escritor japonês estudou na época em que cursou literatura na Universidade de Tóquio: Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Blaise Pascal. Contudo, nota-se, durante a leitura deste livro, o quão importante foram os textos de William Blake e Malcolm Lowery para o trabalho de Kenzaburo Oe. De certa maneira, ele sempre foi mais próximo aos autores de língua inglesa do que dos autores de língua francesa. E por falar em literatura, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” é um ótimo ensaio literário. Kenzaburo Oe intercala os relatos de sua trajetória pessoal, profissional e familiar a suas impressões sobre a literatura, principalmente em relação aos poemas de William Blake. Não por acaso, os títulos das crônicas são extraídos invariavelmente de versos do poeta inglês. E nesse caso, Oe é muito didático ao apresentar a intertextualidade literária. Algo que me surpreendeu bastante em “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” foi a manutenção de parte do estilo naturalista dos romances e dos contos de Oe em suas crônicas. Por exemplo, em vários trechos desta obra, as pessoas citadas sofrem um processo de animalização, sendo comparadas com os bichos. Se isso já é polêmico e inquietante na ficção, imagine só em textos ancorados em aspectos reais, hein? Há também o predomínio do clima tenso e da ambientação de suspense e de terror em vários capítulos do livro. Se fosse um título ficcional, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” poderia ser comparado aos melhores thrillers noir. Para completar, assistimos a várias camadas narrativas em cada um dos relatos de Oe. Normalmente, temos a apresentação simultânea de fatos de diferentes épocas e a sobreposição de realidades (inserção de pensamentos, sonhos e passagens literárias aos acontecimentos verídicos). Esse conjunto de características estilísticas é mais comum de ser encontrado em livros ficcionais do que em publicações não ficcionais. Não à toa, muita gente confunde, até hoje, “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” como um romance ou como uma coletânea de contos. Não, ele não é uma ficção! Não vá pelo estilo da narrativa para classificar o livro. Utilize o teor do seu conteúdo para essa tarefa. É dessa maneira que diferenciamos as crônicas dos contos. O ponto central de “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” está na relação de Kenzaburo Oe com Iiyo. De alguma forma, todas as histórias do livro acabam confluindo para o relacionamento entre pai e filho. Nota-se o tempo inteiro a importância deste menino na vida do escritor. Se isso já era evidente em seus trabalhos literários, agora essa questão fica ainda mais clara no âmbito pessoal. Em muitos trechos, assistimos a um pai com neuroses e preocupações que remontam à sua infância ou ao passado de sua família para explicar a condição do primogênito. Em alguns casos, há um nítido sentimento de culpa pelas limitações do Iiyo, que somente alguém com muito amor ao filho poderia ter. Portanto, esqueça os narradores-protagonistas monstruosos de “Uma Questão Pessoal” e “O Grito Silencioso”. As personagens principais desses romances são figuras totalmente opostas a personalidade real de Kenzaburo Oe. Nem mesmo quando ele cita seus pensamentos mais negativos na época em que Iiyo era recém-nascido, conseguimos ver um homem demoníaco. É verdade que “Jovens de Um Novo Tempo, Despertai!” também tem seus pontos falhos, principalmente do ponto de vista do leitor brasileiro dos dias de hoje. Em primeiro lugar, é preciso conhecer boa parte do contexto político e literário do Japão entre as décadas de 1940 e 1980 para entender a dimensão dos textos de Oe. E isso é muito complicado para a maioria dos brasileiros contemporâneos. Quem seria o escritor suicida M? Por que sua morte foi tão significativa para seu povo? O que propunham os movimentos políticos de extrema direita e de extrema direita do Japão no Pós-Segunda Guerra Mundial? Essas respostas não são encontradas nesta coletânea de crônicas, mas são fundamentais para a compreensão de suas narrativas. Outro ponto delicado é sugerir esta obra para alguém que não é fã nem profundo conhecedor da literatura de Kenzaburo Oe. Qual a graça da relação de pai e filho para uma pessoa que não conhece os enredos de “Uma Questão Pessoal” e/ou de “O Grito Silencioso”, hein? Acredito que nenhuma. Por isso, recomendo ao leitor se lançar sobre esse título apenas depois de ter apreciado os principais livros do autor japonês. Aí sim esta obra se tornará mais sedutora. No próximo domingo, dia 21, o Desafio Literário irá prosseguir com a análise do quinto e último livro de Kenzaburo Oe deste mês. A obra a ser discutida será “14 Contos de Kenzaburo Oe” (Companhias das Letras), coletânea de contos do escritor japonês. Essas histórias foram produzidas entre 1957 e 1990. Portanto, depois de acompanharmos, no Bonas Histórias, as novelas, os romances e as crônicas de Oe, vamos agora analisar seus contos. Boa leitura a todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: O Grito Silencioso - O romance mais emblemático de Kenzaburo Oe
O livro mais lembrado pelo público e pela crítica internacional, quando falamos da literatura de Kenzaburo Oe, é, indiscutivelmente, “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras). Nesse drama denso e extremamente sombrio, acompanhamos a agonia de um jovem pai que renega seu filho recém-nascido com problemas cerebrais. Essa obra inquietante foi analisada na semana passada no Bonas Histórias. Hoje, no Desafio Literário de junho, a proposta é comentar outro romance famoso deste escritor japonês: “O Grito Silencioso” (Francisco Alves). Se “Uma Questão Pessoal” é o trabalho literário mais popular de Oe, “O Grito Silencioso”, por sua vez, pode ser classificado como seu título mais emblemático. Afinal, nas páginas deste livro, o autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1994 conseguiu expressar de maneira mais completa e intensa boa parte das temáticas e da estética literária que marcaram para sempre sua carreira ficcional. Não à toa, para muitos críticos literários, esta é a melhor obra de Kenzaburo Oe. Respeito essa opinião, mas eu ainda prefiro, como narrativa dramática, “Uma Questão Pessoal”. “O Grito Silencioso” foi publicado, no Japão, pela primeira vez em 1967. Assim como ocorreu com as obras anteriores de Oe, este título também possui muitos elementos autobiográficos. De certa maneira, trata-se de uma trama ficcional ancorada principalmente na vida e nas memórias familiares do seu escritor. Este livro semi-autobiográfico conquistou o Prêmio Tanizaki, uma das mais importantes honrarias literárias japonesas, como melhor romance nipônico daquele ano. No Brasil, “O Grito Silencioso” foi traduzido para o português por Sergio Ryff e lançado pela Livraria Francisco Alves em 1983. Três anos depois, houve uma reimpressão desse livro para uma coleção da Abril Cultural (Os Grandes Romancistas). Essas duas edições são as únicas desta história de Kenzaburo Oe em nosso país. Portanto, não espere encontrá-la nas principais livrarias brasileiras. É mais fácil recorrer aos sebos na hora de adquirir uma unidade (antiga) deste título. Apesar de preferir a trama de “Uma Questão Pessoal”, uma das mais sinistras e tensas que li em minha vida, reconheço que, olhando tecnicamente, “O Grito Silencioso” é uma narrativa ficcional mais completa, versátil, rica e polissêmica. Afinal, Kenzaburo Oe mantém sua pegada naturalista (com muita violência, escatologia e animalização dos indivíduos) e continua explorando a tensão psicológica à flor da pele de suas personagens (o que as leva invariavelmente à loucura e à depressão). Entretanto, dessa vez, ele acrescenta alguns elementos novos à sua literatura: a história/passado do seu país, o debate crítico sobre as influências estrangeiras na cultura popular japonesa e os preconceitos do seu povo. E o autor japonês faz isso através da construção simultânea de várias narrativas entrecortadas. Incrível!!! Assim, temos um romance de maior fôlego e com maior quantidade de nuances literários. Não é errado enxergar esta obra como o ápice da maturidade artística de Oe. Ambientado nos primeiros anos da década de 1960, “O Grito Silencioso” é narrado em primeira pessoa pelo seu protagonista, Mitsusaburo Nedokoro. Aos 27 anos, o rapaz que nasceu no povoado interiorano de Okubo, na Ilha de Shikoku, se formou em literatura em Tóquio e trabalha há alguns anos como tradutor na capital japonesa. Cego de um olho quando ainda era criança (vítima da violência dos meninos de sua terra natal) e muito feio, Mitsusaburo é casado com Natsmi, uma alcoólatra inveterada. O casal teve um filho com problemas mentais e abandonou a criança em um asilo. O suicídio de seu melhor amigo, que se enforcou pelado, com a cabeça suja de tinta vermelha e com um pepino enfiado no ânus, foi a gota d´água para o narrador-protagonista, que entrou em um grave quadro de depressão. Em meio a pior fase de sua vida, Mitsusaburo Nedokoro assiste ao retorno ao Japão do irmão mais novo, Takashi Nedokoro, que estava morando nos Estados Unidos. Ator de teatro e de ótima aparência, Takashi viajou para a América junto com sua companhia de arte cênica. Após alguns meses no novo país, o jovem abandonou seus colegas e a peça que estava encenando para viajar por conta própria pelos Estados Unidos. Assim, Takashi lança-se em aventuras polêmicas e pouco edificantes no exterior. Por nunca ter sido realmente próximo de Takashi, Mitsusaburo fica incomodado com o retorno do irmão. Além disso, ele está desconfortável em revelar ao parente mais próximo o estado de embriaguez constante de sua esposa e a verdade sobre a saúde mental de seu filho abandonado. Contudo, logo que se vê frente a frente com Takashi, Mitsusaburo não se sente intimidado e revela seus dramas mais íntimos. Compreendendo a fase complicada do irmão, Takashi faz um convite surpreendente: viajarem juntos para Okubo, terra natal de ambos, para vender a casa antiga de sua família. Um magnata do ramo de supermercados está interessadíssimo em adquirir a construção, vista como uma relíquia dos tempos da Era Meiji. Sem nada de muito relevante para fazer em Tóquio, Mitsusaburo viaja para a aldeia rural da Ilha de Shikoku ao lado da esposa. Ele encara essa jornada como uma tentativa de reconstruir seu casamento, há tempos desintegrado, e de encontrar um novo sentido para sua vida, abalada obviamente pela grave depressão que está passando. Ele também tem a esperança de que a viagem e a mudança de ares façam Natsmi parar de beber. Takashi viaja para lá ao lado de dois amigos adolescentes, Hoshio e Momoko. A ideia do grupo é vender a antiga casa da família Nedokoro e passar algumas semanas como turistas na distante localidade, para só depois retornar a Tóquio. Uma vez em Okubo, os irmãos mergulham nos velhos segredos de seu clã. A morte dos irmãos mais velhos da dupla, no final da Segunda Guerra Mundial, e as histórias das brigas do bisavô com o irmão mais novo dele, em 1860, voltam a acalentar a imaginação e a suscitar as memórias afetivas de Mitsusaburo e Takashi. As duas personagens principais do romance não conseguem desgrudar do passado, enquanto tentam olhar para o futuro. Enquanto o irmão mais velho tem uma interpretação mais objetiva e pragmática da história familiar, o caçula vê os acontecimentos do passado de uma maneira mais passional e idílica. Dessa forma, mais uma vez, eles se tornam adversários, brigando pelo que acham certo. Inspirado pelos feitos controversos dos seus antepassados, Takashi se vê rapidamente envolvido com os assuntos cotidianos de Okubo. Após presenciar a falência da cooperativa de criação de aves do povoado e constatar o quanto os jovens da região são desprezados pela população mais velha, ele decide montar, com parte do dinheiro da venda de sua propriedade, um time de futebol local. Dessa maneira, Takashi se torna naturalmente o líder da juventude de sua terra. As ações do seu grupo, pouco a pouco, começam a se tornar mais violentas e baderneiras, colocando em xeque a política tradicional e o sistema econômico daquela zona rural de Shikoku. De um time de futebol, os amigos de Takashi se transformam em uma milícia armada e perigosa. Incomodado com a postura criminosa do irmão mais novo, Mitsusaburo se opõe tanto a pretensão de Takashi em ficar definitivamente em Okubo quanto em sua decisão de liderar um grupo de jovens pobres contra a elite financeira do povoado. Mais uma vez, Mitsusaburo e Takashi escolhem caminhos opostos e se tornam inimigos. Os dois, querendo ou não, irão emular os comportamentos dos antigos Nedokoro. Com 328 páginas, “O Grito Silencioso” é o livro mais volumoso de Kenzaburo Oe que vamos analisar no Desafio Literário deste mês. Precisei de dois dias para concluir sua leitura. Devo ter levado, ao todo, em torno de onze ou doze horas para percorrer todo o conteúdo desta obra. Iniciei os trabalhos na última quarta-feira de manhã e o terminei na quinta-feira à noite. Foram três os elementos que mais gostei neste romance. Em primeiro lugar, temos várias histórias sendo contadas simultaneamente em “O Grito Silencioso”. Inegavelmente, esse recurso confere uma maior agilidade e mais dramaticidade à narrativa apresentada. E Kenzaburo Oe faz essa interpolação de tramas de maneira sublime, relacionando-as o tempo inteiro (passado, presente e futuro dos Nedokoro estão intimamente ligados uns nos outros). Assim, ao mesmo tempo em que acompanhamos os dramas presentes de Mitsusaburo e Takashi, também assistimos às angústias do passado de ambos, às intrigas familiares da época da Segunda Guerra Mundial e, em uma volta ainda maior no tempo, às brigas dos antepassados dos protagonistas no período de 1860 a 1870. Por falar em passado, outro aspecto a ser elogiado é o do contexto narrativo deste livro de Oe, que apresenta algumas passagens marcantes da história do Japão. As manifestações de junho de 1960, realizadas pelos jovens nas principais cidades do país contra o Tratado de Segurança, o trágico desfecho da Segunda Guerra Mundial, que representou a ocupação do território japonês pelos Estados Unidos, e os levantes rurais de 1860, que abalaram substancialmente o então Império nipônico, são peças fundamentais da engrenagem de “O Grito Silencioso”. Se o leitor tiver um conhecimento mínimo dos acontecimentos históricos do Japão, melhor será sua experiencia de leitura. Enquanto assistimos à confluência entre o presente e o passado das personagens ficcionais e da trajetória coletiva de sua nação, em um romance histórico de tirar o fôlego, conseguimos captar boa parte da cultura tradicional japonesa. Essa é a terceira grande novidade deste romance. Há menções direta, o tempo inteiro, aos hábitos alimentares, às vestimentas, às crenças religiosas, às tradições, à arquitetura, às músicas, às relações sociais, às festas, às dinâmicas familiares e ao cotidiano desse povo. E o mais legal é que esses aspectos são partes integrantes do conflito principal da narrativa. Para entender realmente a essência de “O Grito Silencioso” é necessário compreender essa crítica de Kenzaburo Oe quanto à perda da identidade cultural japonesa. O escritor se opõe fortemente a influência estrangeira tão disseminada na época da Abertura dos Portos na segunda metade do século XIX e durante a ocupação dos Estados Unidos a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Outra questão muito interessante de “O Grito Silencioso” está em suas ótimas personagens secundárias. Paek Sun-gi, o coreano dono do supermercado, Gii, o eremita de Okubo, Jim, a mulher mais gorda do Japão, e o amigo de Mitsusaburo que se suicidou (que juro não ter conseguido identificar seu nome no meio da história) são criações marcantes. Elas fazem normalmente o tipo tragicômico. São talvez as melhores figuras secundárias da literatura de Kenzaburo Oe. E por falar nesse tema, o único ponto negativo na construção das personagens deste romance é que boa parte das características do protagonista são repetidas de outras obras do autor, principalmente “A Captura” (Luna) e “Uma Questão Pessoal”: homem do povoado interiorano que foi tentar a sorte em Tóquio; possui um filho excepcional, que despreza; sofreu bullying na infância; passa por problemas matrimoniais; trabalha com literatura; e apresenta um quadro depressivo. Querendo ou não, há um cheirinho de dèjá vu aqui. Esses são os elementos novos, se assim podemos chamar, que “O Grito Silencioso” trouxe à literatura de Kenzaburo Oe. Como é típico dos seus trabalhos anteriores, temos também personagens sem nomes próprios (despersonalização dos indivíduos), violência constante e extrema (suicídios, assassinatos, estupros, torturas, vinganças, traições, masoquismos, roubos, depredações), personagens loucas e depressivas (levadas ao esgotamento físico e mental), animalização das pessoas (comparadas a patos, tartarugas, cachorros, ratos, lagartixas, galinhas, peixes, macacos, sapos, rãs), mistura da realidade com o universo onírico (sonho como manifestação do subconsciente das personagens), indivíduos atormentados com graves problemas familiares (incesto, doenças mentais) e ambientes insalubres (esgoto, escuridão, sangue, suor excessivo, vômito, urina, fedo, excrementos). Vale lembrar que esses componentes narrativos e estéticos estão presentes em abundância em “A Captura” e em “Uma Questão Pessoal”. Só por isso disse que não são novidades. Algo que gostei muito em “O Grito Silencioso” foi do seu desfecho. Ele é inteligente e surpreendente. Não temos aqui um final tão pessimista/aterrador quanto “A Captura” nem tão positivo/exageradamente feliz quanto “Uma Questão Pessoal”. Dessa vez, Kenzaburo Oe se equilibrou entre as duas pontas, chegando à medida certa. O desenlace deste romance mistura violências e tragédias, mas mantém um pouquinho de esperança. “O Grito Silencioso” é realmente uma obra-prima da literatura japonesa. Se você ler esse livro e “Uma Questão Pessoal” não precisará ler mais nada para compreender a excelência de Kenzaburo Oe como escritor ficcional e ver que ele mereceu sim conquistar o Nobel de Literatura. Mesmo com essas certezas em mente, continuarei o Desafio Literário deste mês com mais duas leituras deste autor. Na próxima quarta-feira, dia 17, retorno ao Bonas Histórias para apresentar a análise de “Jovens de um Novo Tempo, Despertai!” (Companhia das Letras). Essa coletânea de crônicas de Oe foi publicada em 1983 e apresenta os dramas íntimos de um pai abalado pelo nascimento de um filho excepcional e a paixão de um escritor japonês pela literatura ocidental. Não perca os próximos post deste Desafio Literário! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
















