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- Livros: Putas Assassinas - A coletânea de contos de Roberto Bolaño
Quando se fala, no Brasil, em Roberto Bolaño (sem o "s" no final do sobrenome), muita gente pensa automaticamente em Roberto Bolaños (com o "s"). Não confundamos alhos com bugalhos, por favor! O primeiro é o escritor chileno que morreu precocemente em 2003, com apenas 50 anos de idade. Bolaño é um dos autores sul-americanos mais cultuados da segunda metade do século XX. Seu estilo influenciou muitos escritores da atualidade e suas obras conquistaram muitos fãs no mundo inteiro. Por sua vez, Bolaños (repare no aparecimento do "s") é o comediante mexicano que ficou famoso na América Latina interpretando os personagens Chaves e Chapolin em programas de TV homônimos. Por mais intensos que sejam os pesares dos adoradores de Chespirito, como o mexicano é chamado nos países de língua espanhola, esse quase xará do chileno não será analisado hoje no Blog Bonas Histórias. Vamos falar aqui exclusivamente de literatura. Estou falando de Roberto Bolano (o chileno) nesta quarta-feira porque li, neste final de semana, "Putas Assassinas" (Companhia das Letras), uma de suas coletâneas de contos. É verdade que as principais obras de sua carreira foram romances. "2666" (Companhia das Letras) e "Os Detetives Selvagens" (Companhia das Letras) são suas obras-primas. Porém, Roberto Bolaño também foi um contista de mão cheia. Ao longo de sua vida, foram produzidas várias narrativas curtas, que mais tarde acabariam transformadas em cinco livros. A maioria deles foi lançada postumamente. "Putas Assassinas" é provavelmente o livro deste gênero mais famoso do chileno. Publicado pela primeira vez em 2001, dois anos antes da morte de Bolaño, "Putas Assassinas" possui 219 páginas e tem 13 contos. Suas histórias são: "O Olho Silva", "Gómez Palacio", "Últimos Entardeceres na Terra", "Dias de 1978", "Vagabundo na França e na Bélgica", "Prefiguração de Lalo Cura", "Putas Assassinas", "O Retorno", "Buba", "Dentista", "Fotos", "Carnê de Baile" e (ufa!) "Encontro com Enrique Lihn". "O Olho Silva" é o primeiro conto do livro. Nele, conhecemos Mauricio Silva, cujo apelido é Olho. Olho é um fotógrafo chileno assumidamente homossexual. Ele deixou seu país logo após o golpe militar que vitimou Salvador Allende. Depois de viver algum tempo no México, o fotógrafo fixou residência na Europa. Contudo, a história mais dramática que Olho vivenciou aconteceu na Índia. Em uma viagem a trabalho pela Ásia, o rapaz deparou-se com práticas violentas da sociedade hindu. Ele, que sempre fora pacifista, acabou diante de horríveis rituais sagrados que expunham a integridade física de crianças. Em "Gómez Palacio", o narrador relata sua experiência como instrutor de uma oficina literária na pequenina cidade ao norte do México chamada justamente de Gómez Palacio. Ali, o professor de literatura conheceu a curiosa diretora do Belas Artes, instituição local que promovia as oficinas. A mulher o levou para passear de carro pelas estradas desérticas da região, convidando-o a entrar em seus devaneios oníricos. "Últimos Entardeceres na Terra", a terceira narrativa da coletânea, abre uma série de três histórias consecutivas de B., um jovem chileno exilado no exterior após o Golpe Militar de 1973. Em 1975, já vivendo no México, o protagonista viajou de férias com seu pai. O destino da dupla era Acapulco. Depois de alguns dias aproveitando as praias e a tranquilidade do litoral mexicano, pai e filho resolveram procurar prostitutas e locais onde podiam apostar dinheiro em jogatinas de cartas. Aí, as férias sossegadas se transformam em momentos de grande perigo para os pacatos turistas. Em "Dias de 1978", B. já está vivendo em Barcelona. Em uma festa, ele discute acintosamente com U., um conterrâneo que havia sido rebelde esquerdista no Chile. Para não chegar às vias de fatos com o sujeito, o protagonista vai embora da festa. Apesar de ter evitado a briga, B. continua sentindo forte antipatia por U. Ao longo dos anos, ele vibra com as notícias negativas que chegam aos seus ouvidos sobre o esquentado rapaz. Em "Vagabundo na França e na Bélgica", B. faz uma viagem introspectiva em busca de mais informações sobre seu escritor favorito: Henri Lefebvre. Nessa jornada, ele passeia com a amiga M. e se esbalda frequentando a cama de prostitutas locais. "Prefiguração de Lalo Cura", o sexto conto da obra, aborda a paixão de um rapaz, Lalo Cura, pelos filmes da Produtora Cinematográfica Olimpo e pelo cineasta alemão Helmul Bittrich, o proprietário da empresa hoje inativa. A Olimpo era a produtora colombiana de filme pornográficos que, na década de 1980, a mãe de Lalo, um ex-prostituta, trabalhou. Ela inclusive atuou grávida. O rapaz adora assistir às antigas produções de sua mãe, quando ele era pequeno ou quando ainda estava na barriga dela. "Putas Assassinas", a narrativa que dá nome ao livro, se passa em um quarto na periferia de uma cidade sul-americana. Após assistir à apresentação de um grupo de dançarinos de conga pela televisão da sua residência, uma moça toma banho, se troca e vai até o estádio para conhecer seu artista favorito. Ao abordá-lo logo após o show, ela o convida para passar à noite em sua casa. O rapaz aceita. Além de fazer sexo com a anfitriã, o dançarino terá algumas surpresas pouco agradáveis naquela visita inesquecível. "O Retorno" é o relato de um homem após morrer precocemente. O finado rapaz teve uma experiência curiosa ao encontrar-se sem vida. As horas entre a saída do corpo e o enterro foram surpreendentes. "Buba" é o conto sobre a vida de um jogador de futebol chileno na cidade de Barcelona. Depois de um começo ruim, com contusões e atos de indisciplina, o habilidoso atleta sul-americano teve uma carreira vitoriosa no clube catalão. O motivo da reviravolta foi um estranho ritual feito antes das partidas por um colega de time. Em "Dentista", um homem que mora na cidade do México visita de férias um antigo amigo de juventude que está vivendo em Irapuato, um pequeno povoado no interior do país. Esse amigo, que é dentista, apresenta ao visitante um adolescente chamado José Ramírez. Ramírez é um índio pobre que gosta de escrever. Segundo o dentista, o rapaz tem um talento fenomenal para produzir narrativas breves. "Fotos" é o conto em que acompanhamos o fluxo de pensamentos de Arturo Belano, um fã de literatura francesa. Em uma região remota da África, ele lê uma obra sobre as histórias pessoais e as trajetórias profissionais de alguns dos mais importantes poetas da França. "Carnê de Baile" descreve, em primeira pessoa, a vida de um ex-revolucionário comunista chileno. A mãe do narrador era uma fã de Pablo Neruda. Por isso, o filho, agora um exilado político na Europa, faz uma comparação entre a vida do poeta mais famoso do Chile e a vida no exterior dos esquerdistas do seu país. E em "Encontro com Enrique Lihn", a última história do livro, um jovem escritor sonha com um encontro com Enrique Lihn, um famoso literato do seu país. Em meios aos devaneios do novato, os dois artistas se tornam amigos e confidentes. A primeira coisa que chama a atenção em "Putas Assassinas" é a sensação de que a obra é autobiográfica. Muitos contos do livro mais parecem crônicas do que tramas ficcionais. Isso se dá principalmente no início da publicação. Afinal, muitas das passagens narradas ali são bastante parecidas à biografia do autor (cidades vividas no exílio, relação com amigos e com a família, pensamentos, comportamentos, etc.). Contudo, outras são nitidamente inventadas. Há devaneios, passagens oníricas e narrações feitas por personagens evidentemente ficcionais (jogador de futebol, por exemplo). Roberto Bolaño parece misturar realidade e invenção em suas histórias, juntando os gêneros narrativos curtos (contos e crônicas) em algo híbrido. Outro elemento forte em "Putas Assassinas" é o tom melancólico e triste das histórias contadas. Sempre há violência e injustiças, independentemente da época e da região representada. Na maioria dos casos, as tramas retratam a vida de um exilado chinelo no exterior. As narrativas também abordam figuras marginalizadas da sociedade: artistas que vagabundeiam a esmo pelo mundo, pequenos larápios, prostitutas, profissionais do cinema pornográfico, homossexuais, adeptos de magias e de bruxarias, fugitivos políticos, aproveitadores da pobreza e da fé do povo mais pobre, etc. A intertextualidade literária e as frases longas são marcas destes textos de Roberto Bolaño. O chileno dialoga com vários escritores europeus e sul-americanos, citando e comentando suas obras no meio de suas histórias. Ele também faz algo que ficou famoso com Jorge Luis Borges: inventa dados bibliográficos. Quando isso acontece, o leitor, na maioria das vezes, acredita estar lendo sobre uma figura real. Quanto ao tamanho das frases do chileno, o que posso dizer é que há um conto inteiro de quase vinte páginas escrito em uma única frase. Isso sim é não ter medo de colocar ponto final, né? E por falar em final, os desfechos dos contos de Bolaño são normalmente abertos. Às vezes, eles podem parecer inconclusivos. Aí, você precisa reler a narrativa. Em alguns casos, a conclusão está no início e não no final da trama (um recurso interessantíssimo). Em outros casos (como na sequência de três contos sobre B.), a resposta do que aconteceu em uma história pode ser deduzida no contexto das tramas seguintes. "Putas Assassinas" é um ótimo livro. Quem não tem (ou ainda não teve) coragem de se aventurar pelo interminável "2666", obra máxima da carreira de Bolaño que possui mais de 850 páginas, esta coletânea de contos é uma ótima introdução à literatura do chileno. Na certa, uma vez lido este livro, o leitor irá se sentir propenso a ler outras obras do autor. Como já li "2666", admito ter ficado com vontade de conhecer o elogiado "Os Detetives Selvagens", a primeira grande obra de Roberto Bolaño. O romance de 1998 conquistou o Prêmio Rómulo Gallegos do ano seguinte como o melhor livro ficcional escrito em língua espanhola. Se Roberto Bolaños (olha o "s" novamente aí!) é um gênio do humor do nosso continente, Roberto Bolaño não fica atrás quando o assunto é literatura. Conhecer o segundo é tão importante quanto relembrar o trabalho do primeiro. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Livros: Os Anões - Os contos trágico-cômicos de Veronica Stigger
Em 2018, conheci Veronica Stigger, uma das mais originais vozes da literatura contemporânea brasileira, no curso de pós-graduação de Formação de Escritores que fiz no Instituto Vera Cruz. A escritora gaúcha mora em São Paulo desde 2001 e é professora universitária e de oficinas literárias. Ela atua também como crítica de arte. Contudo, confesso que ainda não tinha lido nenhuma de suas obras. Para por fim a esse meu péssimo retrospecto, li, nesta semana, a coletânea de contos "Os Anões" (Cosac Naify). Veronica Stigger tem seis livros publicados. Os três primeiros foram obras de contos: "O Trágico e Outras Comédias" (7 Letras), de 2004, "Gran Cabaret Demenzial" (Cosac Naify), de 2007, e "Os Anões" (Cosac Naify), de 2010. “Delírio de Damasco” (Cultura e Barbárie), de 2012, é uma coletânea de frases que a autora leu ou ouviu em seu dia a dia. Em 2013, Veronica publicou "Pisanie Swiata" (Cosac Naify), seu primeiro e até aqui único romance. O livro conquistou vários prêmios, entre eles o Prêmio Machado de Assis de melhor romance de 2013 e o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor romance de autor estreante acima de 40 anos. No ano retrasado, chegou às livrarias "Sul" (Editora 34), a sexta obra de Stigger. Essa narrativa é constituída de três partes inter-relacionadas: um conto, uma poesia e uma pequena peça teatral. De maneira geral, Veronica faz um tipo de literatura que se conveniou chamar de experimental (alguns chamam de Pós-moderna). O livro "Os Anões" tem 57 páginas e 21 contos (alguns deles são minicontos e outros são microcontos). Suas histórias estão divididas, no sumário, em três seções: Pré-História, História e História da Arte. As narrativas dessas três partes estão misturadas no interior da obra. Os contos da coletânea são: "Os Anões", "Teste", "Curta Metragem", "200 m2", "L'après-mudi de V.S.", "Passo Fundo", "Ceia", "Flávio de Carvalho", "Tatuagem", "Poeta Drummond Flat Service", "Caverna", "Teleférico", "João Cabral", "Maria Martins", "Des Cannibales", "Caça", "Colheita", "Friburgo", "Curta-Metragem II", "Quand Avez-vous le Plus Souffert?" e "Imagem Verdadeira". "Os Anões", o conto que empresta seu nome à obra, é a primeira trama do livro. Em suas seis páginas (é a narrativa mais longa da coletânea), o leitor assiste a uma briga generalizada em uma confeitaria. Um casal de anões tentou furar a fila e revoltou os demais clientes, que partiram para a violência física. Em "Teste", temos um questionamento feito às empresas do mercado de beleza. "Curta Metragem" é o pequeno roteiro de um filme. Nele, um casal tenta o suicídio ao pular da varanda do apartamento. "200 m2", por sua vez, revela um dia feliz na vida de uma escritora em busca de atenção do público. "L'après-mudi de V.S." compreende algumas breves indagações vespertinas. "Passo Fundo" é um bilhete deixado por Pati a Bia. Em "Ceia", temos uma curiosa refeição trágico-cômica de um grupo de conhecidos em um restaurante. "Flávio de Carvalho" descreve as informações técnicas de um utensílio doméstico feito de aço inox. "Tatuagem", por sua vez, é o microconto em que José é processado pela família de um poeta por expor em sua tatuagem um verso do artista. "Poeta Drummond Flat Service", outro microconto, é o endereço na cidade de São Paulo do edifício com o nome do famoso escritor mineiro. "Caverna" relata uma curiosa movimentação de pessoas no interior de uma sala. "Teleférico" narra um trágico acidente que empolga uma plateia presente em um parque. "João Cabral" e "Maria Martins" são microcontos sobre anúncios de imóveis à venda no Rio de Janeiro. Em "Des Cannibales", duas pessoas conversam sobre homicídios realizados por tribos de canibais na África. "Caça" e "Colheita" são microcontos sobre o balanço negativo do primeiro dia da temporada de caça e do primeiro dia de colheita de cogumelos, respectivamente. "Friburgo" apresenta as estatísticas de mulheres no Brasil que usam lingeries produzidas na cidade fluminense de Friburgo. "Curta-Metragem II" é a continuação do conto "Curta-Metragem". Agora, sabemos o que aconteceu com o casal após sua queda da varanda do apartamento. Em "Quand Avez-vous le Plus Souffert?", temos um passeio no parque protagonizado por uma mãe com instintos assassinos. E "Imagem Verdadeira" mostra parte do texto da certidão de nascimento da autora. Para começo de conversa (ou seria de análise?), "Os Anões" é uma obra visualmente impactante. Seu design é inovador e muito curioso. O formato da publicação é quadrado e suas folhas possuem gramatura muito mais grossa do que estamos acostumados a encontrar. O livro parece mais uma caixinha de colocar joias do que uma brochura. A beleza do projeto gráfico ajuda a criar a sensação de originalidade e de rebeldia propostas em seu texto. Algo deste tipo só poderia ter sido feito pela Editora Cosac Naify. Que falta ela faz ao nosso mercado editorial, hein?! Este é aquele tipo de livro para guardarmos com carinho em um lugar especial na estante de nossa casa. Quanto ao seu conteúdo, "Os Anões" é um desfile de violência. A gratuidade e a banalidade dos assassinatos, das agressões físicas e dos suicídios impressionam os leitores, podendo assustar as almas mais sensíveis. Ou seja, junto com as páginas de gramatura especial e de formato diferenciado, o leitor encontra nesta obra o bom e velho derramamento de sangue que estamos acostumados a ver na rotina das grandes cidades brasileiras. Curiosamente, esse é mais ou menos o enredo da cidade do Rio de Janeiro hoje em dia: um visual maravilhoso banhado com violência de todo o tipo e vinda de todos os lados. Os atos criminosos e sanguinários das personagens dos contos são do tipo nonsense. Com isso, temos um humor negro protagonizado por figuras comuns: fregueses habituais de uma confeitaria de bairro, a mãe no parquinho infantil, o jovem casal bem-sucedido em seu apartamento, os espectadores no interior da sala de cinema, os visitantes do parque de diversão, etc. Na certa, você irá rir de algumas situações muito tristes. É o lado trágico-cômico de Veronica Stigger mexendo com suas emoções! Portanto, não espere encontrar narrativas leves e tranquilas aqui. O que temos neste livro são tramas densas e muito agressivas, por vezes tristemente engraçadas. Os desfechos das histórias são normalmente com muito sangue derramado. O suicídio parece ser a única escapatória para os habitantes da sociedade contemporânea (ao menos no Brasil). E imaginar que Sérgio Buarque de Hollanda, em "Raízes do Brasil" (Companhia das Letras), acreditava no mito do povo cordial... Por ser composto de pequenas histórias (na maioria dos casos, mini e micro contos), "Os Anões" pode ser lido muito rapidamente. Acho que concluí sua leitura em menos de uma hora nesta sexta-feira. Gostei bastante deste livro. Veronica Stigger é uma escritora realmente bem-humorada e talentosa. Ela parece encontrar graça e charme nas pequenas bizarrices do cotidiano, surpreendendo o leitor a cada palavra. Incrível! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #VeronicaStigger #LiteraturaBrasileira #LiteraturaContemporânea #ColetâneadeContos
- Filmes: O Goleiro do Liverpool – Olhar norueguês sobre o bullying escolar
Hoje à noite, fui ao Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Centro de São Paulo, para assistir ao filme “O Goleiro do Liverpool” (Keeper’n Til Liverpool: 2010). Este longa-metragem integra a “Mostra de Cinema Norueguês” que o CCBB está promovendo entre os dias 5 e 17 de dezembro. A mostra, que neste ano chega à sua segunda edição, traz ao público brasileiro as principais produções cinematográficas do país escandinavo. As duas principais novidades deste ano são a exibição de “Eu Sou Sua” (Jeg er Din: 2013), premiado drama da diretora Iram Haq que foi escolhido para representar a Noruega no Oscar de 2014, e a apresentação da terceira temporada de “SKAM”, a websérie da diretora Julie Andem que se tornou uma febre em seu país. Minha escolha por “O Goleiro do Liverpool” foi simples: queria ver uma produção que aliasse êxito comercial nas bilheterias e premiação nos principais festivais europeus. E “O Goleiro do Liverpool” obteve as duas coisas. Sucesso de público em seu país entre o final de 2010 e o início de 2011, o filme ainda ganhou o Urso de Cristal do Festival de Cinema de Berlim, em 2011, como o melhor filme sobre a infância. Lançado em outubro de 2010 na Noruega, “O Goleiro do Liverpool” foi dirigido por Arild Andresen, publicitário que migrou para as produções televisivas e, mais tarde, para o cinema. Este trabalho representou a estreia de Andresen na direção de um longa-metragem. O resultado não poderia ter sido melhor. Ele conquistou o Prêmio Sølvklumpen (uma espécie de Kikito nórdico) na categoria Melhor Diretor de Cinema Norueguês de 2010. Mais recentemente, Arild Andresen dirigiu “Kompani Orheim” (2012) e “Hjertestart” (2017). Em comum entre seus três trabalhos no cinema está um olhar diferenciado para a infância, para as relações entre pais e filhos e para o bullying escolar. O papel de protagonista de “O Goleiro do Liverpool” ficou com o jovem Ask von der Hagen. Ele dá simplesmente um show de atuação. Repare em seu trabalho neste filme! Mesmo sendo um garoto, o ator mirim sabe a hora de mudar a postura, o olhar e sua atuação de uma cena cômica para uma dramática ou mesmo para um momento de maior suspense. Ou o jovem tem um talento nato ou foi muitíssimo bem dirigido (ou as duas coisas em conjunto). Em “O Goleiro do Liverpool”, conhecemos Jo Idstad (interpretado por Ask von der Hagen), um menino de 12 anos que mora em uma pacata cidade norueguesa. Depois da morte precoce do pai em um acidente doméstico besta, Jo passou a ser criado apenas pela mãe, uma mulher superprotetora que via perigo em qualquer coisa simples que o filho único fizesse. Assim, Joe cresceu e virou um covarde. Como consequência mais imediata, o menino transformou-se em alvo preferencial do bullying praticado pelos demais garotos da escola. Contudo, ao ver a inteligência de Jo e sua grande habilidade para fazer as lições escolares, Tom (Jostein Brox), o valentão do colégio, fez um pacto secreto com Joe. Se Joe fizesse todos os deveres escolares de Tom, este não iria mais incomodá-lo, protegendo-o até das ações intimidatórias dos demais meninos da escola. O trato foi feito e a vida do protagonista do filme melhorou consideravelmente. Assim, a rotina de Joe é pautada pela resolução de equações matemáticas e pela coleção de figurinhas de futebol do campeonato inglês. Ele e sua turma de amigos esperam ansiosamente pela última figurinha do álbum para completar a coleção. O item que ninguém tem é o do goleiro do Liverpool (daí o nome do filme). Enquanto espera encontrar a almejada figurinha, Joe faz tudo para não sofrer nenhum acidente que o leve a morte. Por exemplo, ele foge dos campinhos de futebol como o diabo foge da cruz. Na visão do garoto, muitas pessoas morrem anualmente dentro de um campo de futebol e ele não quer ser o próximo. A vida tranquila da personagem principal dura até a chegada de uma nova aluna na escola. Mari (Susanne Boucher) é uma menina corajosa, decidida e muito inteligente. Além disso, ela é uma ótima jogadora de futebol e adora matemática. Rapidamente, Joe fica apaixonado pela novata. Para ganhar o coração de Mari, ele precisará mostrar que não é um covarde nem um péssimo jogador de futebol. Sua nova postura irá colocá-lo em perigo, algo que ele sempre evitou e teme mais do que tudo neste mundo. “O Goleiro do Liverpool” é um ótimo filme. Ele consegue aliar muito bem o humor das situações inusitadas que Jo Idstad acaba se metendo (sua personalidade contraditória é um prato cheio para as tiradas cômicas) com o drama do bullying escolar (um problema sério e, infelizmente, cada vez mais universal). Além de engraçado, o longa-metragem de estreia de Arild Andresen consegue ser bastante comovente. A maioria das personagens e o universo infantil da trama são extremamente carismáticos, emocionando o espectador nos primeiros minutos da sessão. As cenas mais engraçadas do filme surgem quando o protagonista fica imaginando o que poderia acontecer com ele se agisse de forma mais corajosa. A visão negativa e trágica de Jo o leva a vislumbrar as piores consequências possíveis para seus atos aparentemente simples. É hilário ver até onde pode chegar a covardia e a imaginação do garoto. Os momentos mais comoventes da produção ocorrem quando o espectador espera que Joe largue sua postura medrosa e encare as adversidades da vida com coragem. Entretanto, a personagem consegue frustrar a todos o tempo inteiro. Aí, os suspiros de decepção explodem na sala de cinema. A vontade que a plateia tem, em muitos momentos, é de dar uma boa surra no menino pela sua postura passiva e remediada. Alguns segundos depois, o mesmo público fica comovido com algo que o garoto faz, querendo embalá-lo ou consolá-lo. Os sentimentos contraditórios que o filme provoca são sua principal qualidade. Quando analisado o comportamento padrão de Jo Idstad, o final do filme destoa um pouco da dinâmica exposta no restante do roteiro. É nítida a vontade do cineasta em querer agradar ao público no desfecho. Isso talvez quebre um pouco a lógica da história e force um pouco os acontecimentos derradeiros. Por outro lado, enfim vemos o processo de transformação do protagonista ser concluído. Mesmo caindo na tentação do final óbvio e feliz, o longa-metragem ainda reserva boas e inteligentes surpresas em seu desenlace. Admito que gostei muito de “O Goleiro do Liverpool”. O filme possui uma história engraçada, inteligente e comovente. Apesar de ser um longa-metragem que retrata o universo infantil com muita propriedade e perspicácia, seu público prioritário ainda sim é o adulto. Por isso, não vá querer levar uma criança para a sessão de cinema que você terá, na certa, problemas. A “Mostra de Cinema Norueguês” ficará em cartaz até a próxima segunda-feira. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados na recepção do CCBB uma hora antes da sessão. Nos quatro últimos dias da mostra (sexta, sábado, domingo e segunda-feira) haverá exibição de três produções por dia. “O Goleiro do Liverpool” será reexibido no sábado (dia 15) às 15h. Veja o trailer de “O Goleiro do Liverpool”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Bad Twin - O romance metaficcional da série Lost
"Bad Twin" (Prestígio) é um livro, para começo de conversa, curioso. Ele pode ser lido tanto como um romance independente quanto uma metaficção pertencente ao universo mágico da série "Lost". A primeira situação acontece quando o leitor é alguém que não assistiu ao famoso programa de TV em que os passageiros do voo 815 da Oceanic Airlines ficam presos em uma ilha misteriosa do Pacífico Sul. Se esse é o seu caso, aviso desde já que você perdeu uma das produções televisivas mais icônicas deste século. O segundo cenário ocorre quando o leitor é um grande fã da história criada por Jeffrey Lieber, J. J. Abrams e Damon Lindelof. Sob qualquer uma das óticas, o romance policial consegue empolgar quem o lê. O aspecto excêntrico de "Bad Twin" começa logo na capa, mais especificamente na apresentação de seu autor. Nesse caso, a palavra autor precisaria vir escrita entre aspas. O "autor" Gary Troup é um escritor fictício. Apesar de jamais ter existido na realidade, ele é indicado como o responsável pela produção desta obra. "Como isso é possível?", alguém poderia perguntar. A identidade do literato faz parte da brincadeira metaficcional na qual "Bad Twin" está inserida (essa seria a reposta ao questionamento anterior). Para dar um ar de credibilidade à figura de Gary Troup, a quarta capa do romance estampa os seguintes dizeres: "É com um misto de orgulho e tristeza que a Prestígio apresenta 'Bad Twin', o último romance do admirável autor que nos foi arrebatado no auge de sua vida de escritor. Como muitos leitores estão cientes, Gary Troup está desaparecido desde setembro de 2004, quando o jato que o transportava de Sidney a Los Angeles explodiu em algum ponto acima do Oceano Pacífico. Embora nada seja mais humano do que ter fé em milagres, a razão nos leva a crer que o autor e seus companheiros de viagem não sobreviveram ao desastre. Além de seus muitos romances envolvendo crimes e mistério, Gary Troup escreveu vários livros de não ficção, incluindo 'A Equação Valenzetti'. Seu desaparecimento é pranteado por todos aqueles que o conhecem e admiram seu trabalho". Hilário! O leitor desavisado chega a acreditar na história sobre o triste fim do romancista (crendo, por consequência, em sua identidade). Em nenhum momento há a explicação sobre o quão inverídico é esse texto. Há apenas uma frase em letras minúsculas na quarta capa dizendo: "Nesta obra todos os nomes, personagens e acontecimentos são tratados de forma fictícia. O próprio autor é um personagem de ficção". Duvido que alguém tenha lido esse trecho em uma primeira (ou segunda ou terceira...) leitura. Para dar ainda mais peso à versão trágica do fim de Gary Troup, o livro começa com uma nota de esclarecimento dos editores. Nela, os profissionais da editora prestam homenagem ao escritor falecido, citando a irreparável perda de seu nome para a literatura policial contemporânea. Em seguida, temos a troca de correspondências eletrônicas de Gary Troup com Christine DeVries, a editora australiana que ficou encarregada de publicar o romance na Oceania. Assim como o escritor, a moça também é uma personagem fictícia. Portanto, os emails jamais existiram... Impossível não rir. Só depois desse divertido lenga-lenga, o livro começa efetivamente. Se Gary Troup não existe fora da ficção (o verdadeiro autor de "Bad Twin" é Laurence Shames, que não tem seu nome citado em nenhuma parte do romance), ao menos na trama de "Lost" ele existe. Troup é uma personagem pontual do seriado. Sua existência foi fruto da necessidade dos autores (verdadeiros) do seriado em expandir a trama dos passageiros da Oceanic Airlines para fora da TV. Assim, "Bad Twin" é só um dos vários materiais/peças produzidos que enriqueceram a narrativa de "Lost" para fora do seu ambiente original. Além do programa de TV, um jogo de realidade alternativa foi lançado na Internet, minivídeos foram divulgados pelos celulares e sites das empresas citadas na história foram materializados. "Bad Twin" é um dos três livros que acompanham a saga de "Lost". Os outros dois são "Risco de Extinção" (Prestígio), de Cathy Hapka, e "Identidade Secreta" (Prestígio), de Frank Thompson. Os fãs da série vão se lembrar de quando "Bad Twin" apareceu na TV (eu pelo menos recordo!). No vigésimo episódio da segunda temporada de "Lost", Sawyer está sentado tranquilamente em sua barraca à beira da praia. Ele lê os manuscritos achados nos destroços do avião que pertenciam a um passageiro que não sobreviveu à queda. Sim: o que ele tem em mãos são as páginas do original de "Bad Twin" (um close de câmera revela isso). Enquanto o rapaz lê sossegadamente, seus amigos, Kate, Michael, Ana-Lucia e Jack, estão desesperados para descobrir onde é o esconderijo das armas que Sawyer descobriu na escotilha. Para convencê-lo a fazer a revelação, Jack, o médico que lidera o grupo de sobreviventes, implora por bom-senso. Mesmo assim, Sawyer não mostra qualquer interesse em cooperar. Sua alegação é que está muito ocupado lendo um romance inédito e muito divertido. Revoltado, Jack pega as páginas da mão de Sawyer e as atira na fogueira. Com isso, a única versão do livro de Gary Troup é destruída para sempre (pelo menos na ficção, pois na realidade tivemos acesso à obra). Publicado em 2006, entre a segunda e a terceira temporadas de "Lost", "Bad Twin" pode encantar os fãs mais fanáticos do programa porque faz citações indiretas à narrativa principal do seriado. Além de apresentar com mais profundidade personagens e grupos empresariais citados na história-mãe, temos também um ótimo dialogo no livro sobre o comportamento das pessoas no Inferno, no Purgatório e no Paraíso. Ou seja, a intertextualidade com os episódios da série de TV é evidente. Contudo, a narrativa do livro é interessante porque tem uma história com muito suspense e ação. Como obra independente (desvinculada do universo de "Lost"), "Bad Twin" também é um ótimo romance policial. Admito ter ficado empolgado com sua leitura. Li o livro inteiro (ele tem 269 páginas) em um único dia. O enredo deste romance inicia-se em Nova York. Seu protagonista é o detetive particular Paul Artisan. Solitário e decadente, o rapaz trabalha em seu pequeno escritório de investigação. Nos últimos anos, ele só é chamado para fazer serviços pouco complexos como a verificação de casos de traições conjugais e a comprovação de fraudes nos seguros. Sua vida melancólica é pautada por passeios no parque com seu velho cachorro de estimação, Argos. A guarda do cão é dividida com um amigo, o professor aposentado de literatura Manny Weissman. Argo fica um dia com um e o outro dia com o outro dono. Por isso, a dupla de amigos se encontra diariamente no parque. Eles aproveitam para conversar sobre suas rotinas e seus problemas. O dia a dia entediante de Artisan é quebrado quando o filho de um importante magnata da cidade visita seu escritório. O novo cliente trás consigo um caso realmente emocionante e desafiador para o detetive. Clifford Widmore precisa encontrar seu irmão gêmeo desaparecido. Alexander Widmore é um playboy inconsequente que está há vários meses sem dar notícias para a família. Clifford teme que, dessa vez, Alexander tenha passado dos limites. Seu temor é que o irmão tenha arrumado alguma confusão que esteja colocando sua vida em risco. Paul Artisan fica intrigado com sua contratação por Clifford Widmore. Por que um homem milionário iria arranjar um minúsculo escritório de investigação para fazer um trabalho tão complexo quanto esse? Clifford alega confiar nas habilidades do detetive. Além disso, diz que precisa de alguém que mantenha o sigilo do serviço. Afinal, esse é um caso de família e se a notícia do desaparecimento de Alexander chegar aos ouvidos da imprensa, um escândalo atrelado aos Widmore tomará conta de Nova York. Após o recebimento de um adiantamento polpudo, Artisan inicia a investigação. Contudo, o caso é mais complexo do que ele imaginava. A família Widmore esconde segredos inimagináveis. À medida que avança nos podres dos membros do clã que o contratou, Paul começa a correr perigo de vida. Assassinatos são realizados para frear sua investigação. Aterrorizado, o detetive pede ajuda para Manny Weissman. O velho professor de literatura utiliza seus conhecimentos literários para orientar o amigo. Assim, Paul Artisan inicia uma caçada ao paradeiro de Alexander. Além de viajar pelos Estados Unidos, o detetive irá a Cuba e a Austrália atrás do irmão do seu cliente. Escrita em terceira pessoa, a narrativa de "Bad Twin" é ótima. O mistério da trama prende o leitor às suas páginas. Além disso, a história tem várias reviravoltas interessantíssimas (um elemento afrodisíaco dos bons romances policiais). A cada quarenta ou cinquenta páginas, o enredo parece caminhar para um lado totalmente distinto, aguçando ainda mais a curiosidade de quem o lê. Outros quatro pontos positivos deste romance que merecem ser citados são a boa construção das personagens, as referências literárias, as cenas de ação e o bom humor do texto. Quanto à construção das personagens, temos aqui uma narrativa com figuras dúbias. Tanto os protagonistas (detetive e seu amigo) quanto os investigados (família Widmore) têm qualidades positivas e negativas que o tornam complexos (personagens redondas). Qualquer um é suspeito de ter tramado o desaparecimento de Alexander. As revelações só apareceram nas últimas páginas. Gosto muito de ler histórias que fazem referências às outras obras literárias. "Bad Twin" foi muito feliz nesse sentido. O professor Weissman avalia os envolvidos na investigação de Artisan comparando-os às figuras clássicas da ficção. São muito interessantes e engraçadas as analogias que ele faz durante a trama. A imaginação de Weissman é mais fértil do que a mente de muitos autores por aí. O livro também é pródigo em cenas de ação. O protagonista está sempre viajando para locais desconhecidos, tornando tudo mais difícil e emocionante para ele. Por outro lado, o perigo é crescente. Sem perceber, Paul Artisan está se metendo em assuntos espinhosos que poderão colocar sua própria vida em risco. E o que dizer então do humor do texto, hein? "Bad Twin" tem cenas, diálogos e momentos muito engraçados. Um dos que mais gostei foi a hilária visita do detetive a um spa naturalista. Lá, ele precisou andar pelado pelos corredores e pelos cômodos do estabelecimento. Para conseguir entrevistar o chefe/proprietário do spa, Paul Artisan teve de se submeter a um constrangedor banho de banheira junto com o anfitrião. Impagável! De pontos negativos do romance, só achei dois. O primeiro é quanto aos absurdos da narrativa. A investigação de Artisan avança por causa de uma série de coincidências que são pouco verossímeis. Para você ter uma ideia do que estou me referindo, o detetive descobre pessoas e lugares rapidamente e sem qualquer pista mais concreta. Ele, por exemplo, viaja para uma cidade turística no litoral norte-americano procurando uma mulher que ele não sabe o nome. Em apenas duas conversas (com o taxista e com o recepcionista do hotel), pronto, ele descobriu a pessoa. Ele também viaja para a Austrália sem qualquer pista do que está indo fazer lá. Novamente em duas conversas rotineiras, já está mais uma vez no paradeiro do homem que está procurando. Ou esse detetive é o mais sortudo da história ou o autor acha que o leitor é burro em acreditar nessa coletânea de coincidências. Outro elemento que incomodou minha leitura foi o excesso de erros de pontuação do texto. A editora parece ter comido bola na revisão final, deixando passar inversões de pontuação em algumas frases (pontos finais nos lugares de interrogações, interrogações nos lugares de pontos finais, por exemplo). Não é nada que inviabilize a leitura, mas que pode incomodar um pouco os leitores mais atentos e criteriosos. Adorei "Bad Twin". Ao terminar o livro fiquei imaginando o desespero de Laurence Shames. O cara escreve um baita romance policial e não pode ter seu nome revelado em nenhum momento. Aí, quem ganha os créditos pela obra é uma personagem ficcional chamada Gary Troup. Curiosa essa situação, né? Coisas de metaficção! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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- Livros: Machamba - A premiada estreia de Gisele Mirabai nos romances adultos
"Machamba" (Nova Fronteira) é o romance de estreia de Gisele Mirabai, escritora, roteirista e atriz mineira. Vivendo há alguns anos na cidade de São Paulo, Gisele produziu esta obra após ser contemplada com uma bolsa de criação literária da Funarte. O programa do Ministério da Cultura é um incentivo ao desenvolvimento da literatura nacional. Em 2017, "Machamba" conquistou o I Prêmio Kindle de Literatura, concurso organizado pela Amazon que teve mais de dois mil romances inscritos. Além do prêmio em dinheiro, a escritora mineira também ganhou um contrato com a Editora Nova Fronteira para lançar seu livro no formato impresso. Até então, a obra só estava disponível para os leitores do Kindle. Assim, o romance chegou às livrarias brasileiras no segundo semestre do ano passado. Conheci Gisele em agosto deste ano, na última Bienal do Livro de São Paulo. A autora esteve presente ao stand da Amazon, onde conversou animadamente com o público visitante e aproveitou para autografar exemplares de "Machamba". Gisele Marabai também explicou como fez para migrar do universo dos livros digitais para os livros físicos e deu dicas interessantes para escritores iniciantes na profissão. A jovem romancista ainda falou do que representou para sua carreira ter ganhado um concurso da magnitude do Prêmio Kindle. Li "Machamba" entre agosto e setembro de 2018, logo após o término da Bienal. Admito ter ficado com vontade de comentar o livro aqui no Bonas Histórias naquele momento mesmo. Entretanto, como estava envolvido com as análises do Desafio Literário (Xinran e António Lobo Antunes foram os autores estudados naqueles meses), achei melhor postergar o post sobre "Machamba". Neste finalzinho de ano, com mais calma, acredito dar, enfim, o destaque e a atenção merecidos ao romance. Antes de "Machamba", Gisele Mirabai já havia publicado quatro livros: as obras juvenis "Guerreiras de Gaia" (Global), de 2015, e "Nasci pra ser Madonna" (Cepe), de 2011, a novela "Onde Judas Perdeu as Botas" (disponível apenas em eBook), de 2011, e a biografia "Homem Livre - Ao Redor do Mundo Sobre Uma Bicicleta" (Ciao Ciao). Contudo, nenhum desses títulos recebeu tanto destaque nem comentários tão positivos da crítica quanto seu primeiro romance adulto. Esta história começa com sua protagonista, uma jovem brasileira de vinte e poucos anos, morando em Londres. A trama é narrada em terceira pessoa. Machamba, como a personagem principal é conhecida (trata-se de um apelido de infância - seu verdadeiro nome não é revelado), trabalha como garçonete em um café em London Bridge. A moça atende os clientes do estabelecimento, geralmente advogados engravatados. Ela é muito calada e extremamente solitária. Seus principais hobbies são visitar um determinado museu da cidade, caminhar a pé pelas ruas e transar descompromissadamente com rapazes bonitos. Machamba tem dois "namorados" (neste caso, o melhor termo talvez seja "parceiros sexuais mais ou menos fixos") na capital inglesa: Bruno, um espanhol, e Jostein, um britânico. Os rapazes são amigos um do outro. Chegaram a dividir, além da companhia da brasileira na cama, o mesmo apartamento por muito tempo. Assim, era muito prático para a protagonista trocar de um quarto para outro na mesma casa. Bruno e Jostein sabem que Machamba faz sexo com vários homens (e, às vezes, com mulheres também). A vida melancólica, solitária e promíscua da moça é fruto de um grave trauma do passado. Tal episódio é chamado por ela de Elo Perdido. Esse Elo Perdido divide sua trajetória em duas fases distintas: Tempo Grande e o Tempo Pequeno. Machamba, contudo, não sabe ao certo o que aconteceu em seu passado para ter deixado as coisas chegarem a tal ponto. Como se estivesse sob o efeito do flog londrino, ela não consegue enxergar com exatidão os episódios de sua vida pregressa em suas lembranças. Para estimular sua memória e para refletir sobre seu passado, Machamba pede demissão da cafeteria e, com suas economias, faz uma longa viagem para lugares onde há templos e ruínas históricos. Assim, a moça vai para Grécia, Turquia, Israel, Egito e Índia. Enquanto passeia pelos principais sítios arqueológicos da humanidade, ela recorda-se de sua vida no Brasil. Cada lugar visitado no exterior e cada dia da sua viagem são usados para resgatar sua própria história. Machamba nasceu e passou sua infância em uma fazenda em Fiandeiras, interior de Minas Gerais. Junto à natureza, aos animais e à vida tranquila do campo, a menina mostrava-se fanática, desde cedo, pela história das antigas civilizações e pela produção de mapas. Seus livros favoritos eram as enciclopédias que o pai comprava e lia para ela. Na fazenda distante da cidade, a menina podia conhecer o mundo todo e visualizar os mapas das mais diferentes regiões do planeta. Após concluir o ensino médio na zona rural, a jovem se mudou para Belo Horizonte, onde foi cursar universidade. O curso escolhido não poderia ser outro: Geografia. Em BH, Machamba passou a morar sozinha e conheceu Luís, seu primeiro namorado. O rapaz, entretanto, trocou-a por outra colega de faculdade, cujo apelido era Esponja Branca. Desiludida com o rompimento brusco do relacionamento com Luís, Machamba saiu de Belo Horizonte a pé em direção à antiga fazenda dos pais. Em meio a algo parecido a um surto emocional, ela acabou atropelada por um caminhão quando caminhava à noite pela estrada. Por sorte, a moça foi enviada com vida para o hospital. Depois de alguns meses de tratamento, que lhe renderam vários pinos pelo corpo, Machamba deixou o leito hospitalar. Assim que se viu novamente na rua e com saúde, a jovem foi direto ao aeroporto da cidade. A primeira coisa que fez foi viajar para Londres. Depois disso, ela nunca mais retornou para seu país. E raramente telefonava para sua família. "Machamba" tem 52 capítulos e 173 páginas. Trata-se de um livro muito bom, sendo possível lê-lo em duas ou três noites. Concluí sua leitura em um final de semana. A conquista do Prêmio Kindle de Literatura de 2017 foi, portanto, muito merecido. O mistério sobre o que é o Elo Perdido dá o suspense que a trama precisa. Curiosamente, essa história caminha lentamente e sempre para trás. Enquanto a vida atual de Machamba é monótona e banal, seu passado esconde segredos que atiçam a curiosidade do leitor. "O Elo Perdido teria acontecido na época da fazenda (infância) ou no período vivido em Belo Horizonte (fase universitária da personagem)?", fiquei me perguntando ao longo da narrativa. Essa resposta só é dada no capítulo 48 (lá no finalzinho do romance). E que capítulo fantástico é esse, hein? A autora consegue apresentar o drama de maneira direta e impactante. Depois de tanto rodear o episódio, quando revelado ele é atirado na cara (ou seriam nos olhos?) do leitor. Incrível o resultado estético! Outros dois elementos que chamam a atenção no texto deste romance são o erotismo acentuado e a inserção de elementos poéticos à prosa. A vida sexual movimentada da protagonista é retratada nas páginas do livro, principalmente nos capítulos iniciais. As cenas de sexo são descritas com certo lirismo. Apesar de algumas analogias triviais (ser o presunto do misto quente, por exemplo), o resulto é amplamente positivo. A descrição de cenários, episódios e pessoas de maneira metafórica também é elogiável. Se no começo ficamos confusos com essa opção da autora, do meio para o final do livro já conseguirmos compreender quase todas as associações poéticas feitas. Aí, elas ganham mais valor. O interessante é chegar ao final da obra e conseguir montar o quebra-cabeça da vida de Machamba. Essa personagem complexa e de atitudes inusitadas acaba conquistando a simpatia do leitor. Seu passado trágico, seus dramas familiares, suas opções sexuais, o texto poético e os preconceitos descritos no romance me fizeram lembrar muito de "Lavoura Arcaica" (Companhia das Letras). De alguma forma, achei "Machamba" uma versão feminina e mais contemporânea do clássico de Raduan Nassar. Sinceramente, não sei se isto é uma mera coincidência, coisa da minha cabeça ou alguma inspiração da escritora. O que sei é que gostei muito de ter lido "Machamba". Gisele Marabai é uma autora talentosa e bastante criativa. Estou aguardando seu próximo passo na carreira de romancista. Se o primeiro romance tem essa qualidade, fico me perguntando como será o segundo, o terceiro, o quarto...? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. 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- Livros: Fuga do Campo 14 - A história real de um prisioneiro norte-coreano
Em 2018, a Coreia do Norte esteve no centro do noticiário internacional. O programa nuclear e os testes de mísseis intercontinentais do pequeno país comunista resultaram em várias reportagens dos órgãos de imprensa do mundo todo. Os líderes dos Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão, principalmente, se indignaram com as condutas e com os discursos inflamados do exótico líder norte-coreano, Kin Jong-un. Para muitos analistas políticos, o Leste da Ásia quase viu a primeira grande guerra do século XXI. Nas últimas semanas, li um livro extremamente interessante sobre o que é viver na República Popular Democrática da Coreia (que de República e de Popular não tem absolutamente nada), um dos países mais fechados e pobres do planeta. "Fuga do Campo 14" (Intrínseca) é a biografia de Shin Dong-hyuk, o primeiro e, até o momento, único prisioneiro de um campo de trabalhos forçados da Coreia do Norte a conseguir escapar das garras do regime ditatorial de Pyongyang. Escrito pelo jornalista norte-americano Blaine Harden, que por muitos anos foi correspondente de veículos ocidentais na Ásia, a obra dá a dimensão exata do sofrimento do povo norte-coreano. Ao apresentar a vida e a fuga de Shin, Harden constrói um panorama aterrorizante da realidade do país governado por Kin Jong-un. "Fuga do Campo 14" foi publicado, em 2012, nos Estados Unidos. No mesmo ano, o livro foi traduzido para o português e lançado no Brasil pela Intrínseca. A obra foi produzida por Blaine Harden a partir de uma série de entrevistas realizadas com Shin Dong-hyuk. As conversas da dupla duraram aproximadamente três anos. Elas começaram em dezembro de 2008 na Coreia do Sul, onde Shin estava morando naquele momento, e se estenderam até a metade de 2011, nos Estados Unidos, para onde o norte-coreano se mudou. A publicação conquistou importantes prêmios internacionais na sua categoria (Não Ficção). O mais relevante deles foi o Grand Prix de La Biographie Politique, concedido anualmente na França para a biografia política mais marcante escrita ou traduzida para o francês. No Prêmio Dayton Literaty Peace, voltado para as obras literárias que promovam a compreensão de diferentes culturas, povos e religiões do planeta, "Fuga do Campo 14" ficou, em 2013, entre os finalistas. Após o sucesso de crítica e de público do livro, Blaine Harden deu sequência, nos anos seguintes, ao debate sobre a Coreia do Norte em suas obras não ficcionais. O norte-americano lançou mais dois títulos sobre a ditadura de Kin Jong-un e o regime norte-coreano: "The Great Leader and the Fighter Pilot", em 2015, e "King of Spies: The Dark Reign of America's Spymaster in Korea", em 2017 (ambos ainda sem tradução para o português). Em "Fuga do Campo 14", conhecemos a trajetória de vida de Shin Dong-hyuk, cujo nome original é Shin In Geun. O rapaz preferiu adquirir uma nova nomeação quando se naturalizou sul-coreano. Shin nasceu e viveu como prisioneiro por 23 anos no Campo 14, o mais terrível campo de trabalhos forçados da Coreia do Norte. Localizado a 80 quilômetros ao norte de Pyongyang, a capital do país, o Campo 14 é para onde são enviados os principais inimigos políticos (e os familiares desses) do governo comunista de Kin Jong-un. De lá, nunca nenhum prisioneiro tinha consegui escapar. Apenas alguns policiais e soldados que trabalharam no campo conseguiram imigraram escondidos para o Japão e para a Coreia do Sul, relatando as práticas desumanas instituídas naquele local. Isso até surgir Shin e sua incrível história de superação. No Campo 14, os prisioneiros são obrigados a trabalhar em jornadas de 12 a 15 horas diárias em fazendas, minas e fábricas estatais. Toda a produção é enviada depois para o consumo da elite governamental situada em Pyongyang. O destino dos prisioneiros é morrer em execuções sumárias, acidentes de trabalho ou vítimas de doenças provocadas pela fome. Homens, mulheres e crianças são tratados como animais e vistos meramente como mão de obra barata para o serviço braçal. Ninguém está livre das maldades dos policiais e do desespero dos demais presidiários. Shin Dong-hyuk e sua família foram parar no Campo 14 por causa de um tio paterno. Na década de 1970, esse parente fugiu clandestinamente para a Coreia do Sul. Como punição, seus familiares mais próximos (incluído o pai de Shin) foram condenados como inimigos do Estado à detenção perpétua no Campo 14. A mãe (que não sabemos por que foi parar lá) e o pai de Shin se conheceram na prisão. Do relacionamento dos dois, surgiram dois filhos. Shin não teve muito contato com o pai nem com o irmão mais velho. Ambos foram enviados para trabalhos em fábricas e em minas de carvão quando Shin era ainda pequeno. Da mãe, o protagonista só tem poucas e traumáticas lembranças. A primeira é que ele, sempre faminto, roubava a comida dela quando ela saía para trabalhar. Quando regressava, a mulher ficava furiosa e espancava a criança. Alguns anos mais tarde, Shin delatou a mãe e o irmão, que planejavam fugir do Campo. Como punição, a dupla foi executada pelos policiais na frente da família e dos demais presos. Shin recebeu como gratificação pela denúncia algumas regalias, que se estenderam por anos. Não havia, segundo as leis do Campo 14, nada mais digno para um prisioneiro do que delatar seus companheiros e até mesmo sua própria família. Naquele momento, Shin acreditou que tivesse feito a coisa certa. Cumpriu sua obrigação e foi agraciado por isso. Apesar dos benefícios pontuais recebidos pelos guardas, a vida de Shin não era nada fácil no Campo 14. O rapaz cresceu passando fome, frio, trabalhando como um escravo e sem nunca receber carinho de ninguém. A rotina sem esperanças durou até o dia em que ele conheceu Park, um preso mais velho que já havia trabalhado como burocrata do governo central norte-coreano e, por isso, tinha viajado muitas vezes para o exterior. Park relatou ao jovem a beleza do mundo fora do campo e do país. Com as histórias do amigo na cabeça, Shin convenceu Park de fugirem juntos. Sem saber o quão difícil era a missão, os dois colocaram o plano em prática. "Fuga do Campo 14" é uma obra sensacional. Com 230 páginas, é possível ler essa publicação em um único dia. O drama narrado é tão contagiante (e assustador, vale a pena ressaltar) que ficamos presos às páginas de sua história. Para vocês terem uma ideia, eu comecei o livro no sábado de manhãzinha e no começo da noite já tinha terminado (com algumas interrupções nesse meio tempo). Devo ter demorado entre quatro ou cinco horas ao todo para concluí-lo. O principal mérito desta obra está em revelar a realidade dos norte-coreanos a partir do ponto de vista das pessoas comuns. Shin Dong-hyuk descreve a rotina dentro do campo e também fora dele (após sua fuga da prisão, conheceu algumas cidades norte-coreanas). Ele passou algumas semanas viajando pelo seu país até conseguir ultrapassar a fronteira ao norte e entrar na China. Nesse período, pode vivenciar a agonia dos habitantes comuns da Coreia do Norte, que apesar de não serem presos políticos também passam fome e incontáveis privações. A constatação que ainda hoje há campos de trabalhos forçados no mundo é assustadora. Como diz Blaine Harden em seu livro, os campos nazistas foram terríveis, mas duraram apenas alguns anos. Os campos norte-coreanos, por sua vez, operam há mais de cinco décadas, dizimando milhões e milhões de vidas sem que ninguém no Ocidente pareça se importar muito com isso. É desesperador! A narrativa de "Fuga do Campo 14" é recheada de surpresas. Do início ao final, o drama de Shin chacoalha o leitor. Não sei dizer qual parte é mais incrível: a vida sofrida na prisão, a fuga espetacular pelo país ou a depressão do rapaz após chegar ao seu destino. Em relação à última parte, note a sensibilidade do autor por apresentar as angústias de Shin ao se tornar cidadão sul-coreano e, depois, morador dos Estados Unidos. Por mais que a vida se torna aparentemente maravilhosa para um ex-prisioneiro político tratado como escravo por mais de duas décadas, os demônios internos e o passado perturbador continuam a desestabilizar o rapaz. Outra questão interessante colocada por Harden foi a contextualização política e social da Coreia do Norte. Esses aspectos aparecem no meio da narrativa. Enquanto lemos sobre a vida de Shin Dong-hyuk, também ficamos sabendo o que estava acontecendo em seu país natal e no exterior de maneira geral. Essas visões micro e macro ajudam os leitores a entender exatamente a sorte ou o azar que o protagonista teve em diferentes momentos da trama. Por fim, nos anexos do livro, temos alguns pontos mais sensíveis da história rememorados. No Anexo I, há o detalhamento das dez leis que todos os prisioneiros do Campo 14 precisavam saber, decorar e, principalmente, praticar. Se descumprissem algumas delas, eram torturados e corriam o risco de serem executados. E no Anexo II, temos ilustrações das cenas mais marcantes da vida de Shin. Mais aterrorizante do que ler sobre elas, é ver suas imagens do livro. Prepara-se para fortes emoções. "Fuga do Campo 14" é um excelente livro de não ficção. Lê-lo é conhecer um pouco da agonia de norte-coreanos aprisionados direta ou indiretamente por um regime opressor, corrupto e injusto. Depois de concluir as páginas desta obra, nunca mais conseguiremos ver Kin Jong-un, o governo de Pyongyang e a Coreia do Norte com os mesmos olhos. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #BlaineHarden #LiteraturaNorteAmericana #LiteraturaCoreana #ShinDonghyuk #Biografia
- Livros: A Nudez da Verdade – A divertida novela de Fernando Sabino
Neste sábado, li uma pequena joia da literatura brasileira. O livro é o sexto e último do Desafio Literário de novembro que o Blog Bonas Histórias se propôs a estudar. A obra em questão é “A Nudez da Verdade” (Ática), uma das mais famosas e divertidas novelas de Fernando Sabino, escritor e jornalista mineiro que viveu desde os vinte e um anos de idade no Rio de Janeiro. O forte da produção literária de Sabino, falecido em 2004, sempre foram os contos e as crônicas. Ele sabia como ninguém retratar os dramas, as alegrias e os desafios cotidianos das pessoas comuns nos grandes centros urbanos. Muitas de suas histórias foram publicadas em jornais. Outras tantas foram reunidas em coletâneas e, mais tarde, lançadas em livros. Foi com as narrativas curtas que Fernando Sabino conquistou a admiração do público e a maioria dos seus prêmios literários (entre eles, o Jabuti e o Machado de Assis). É verdade que alguns romances do autor também foram muito elogiados e premiados. “Encontro Marcado” (Record), de 1956, e “O Grande Mentecapto” (Record), de 1979, respectivamente o primeiro e o segundo romances do autor, são até hoje lembrados. “O Grande Mentecapto” chegou a ganhar um Jabuti. Há quem prefira “Martini Seco” (Ática), de 1987, um divertido romance policial. Na minha visão, por melhores que sejam os romances de Fernando Sabino, nada supera a excelência de suas crônicas e contos. Prova maior disso é “A Nudez da Verdade”. “A Nudez da Verdade” foi publicado como livro independente somente em 1994. Contudo, sua história é bem mais antiga. A trama foi apresentada ao público pela primeira vez em um conto chamado “O Homem Nu”. Essa narrativa integrou a publicação homônima de Fernando Sabino de 1960, uma coletânea que misturava contos e crônicas. Obviamente, o livro “O Homem Nu” (Record) pegou emprestado o título do seu principal conto. A história do homem pelado que tentava fugir da multidão ensandecida ficou tão famosa que foi, ainda na década de 1960, adaptada para o cinema. Roberto Santos dirigiu “O Homem Nu” (1968), filme protagonizado por Paulo José. Como estratégia editorial, a Editora Ática resolveu, na década de 1990, relançar esta narrativa, desvinculando-a das demais histórias apresentadas na coletânea de contos e crônicas de 1960. Assim, Fernando Sabino revisou e incrementou seu texto. Nascia “A Nudez da Verdade”, agora na versão novela. Na metade da década de 1990, esta história de Sabino foi adaptada mais uma vez para o cinema. O filme “O Homem Nu” (1996) teve a direção de Hugo Carvana. O protagonista dessa vez foi Cláudio Marzo, com uma atuação memorável. Na novela “A Nudez da Verdade”, Sílvio Proença é um professor de folclore nacional de 38 anos de idade. Ele mora no Rio de Janeiro com sua esposa, Carla. Proença se prepara para viajar para São Paulo. Na capital paulista, ele lançará seu novo livro, uma obra escrita a partir de suas pesquisas sobre a cultura popular brasileira. Com a mala em mãos, o professor e pesquisador se despede da esposa, que na última hora não quis viajar com ele. Surpreendentemente, Carla optou por permanecer em casa a ter que viajar com o marido. Ao chegar ao aeroporto carioca, Sílvio Proença descobre que os voos para São Paulo estão atrasados. Um forte temporal cai sobre a cidade paulista, prejudicando as decolagens e os pousos. Sem ter o que fazer, ele se dirige a um bar. Lá, encontra alguns amigos e alunos que também vão viajar. Regados por muita cerveja, o grupo toca um samba animado e joga conversa fora. Proença resolve se divertir um pouco enquanto espera e acaba se juntando à festeira mesa. Algumas horas mais tarde, vem a informação. Todos os voos para a capital paulista daquele dia foram cancelados. Assim, o grupo de amigos decide dar uma passada na casa de Marialva, uma bonita moça que acompanhava a cantoria, para prosseguir no samba e na bebedeira. A festa improvisada no apartamento de Marialva rola até tarde. Quando Sílvio Proença acorda, é manhã e ele está pelado na cama da moça. Então, se recorda de tudo o que aconteceu na noite anterior. O que Carla pensaria se soubesse o que ele tinha feito? Enquanto Marialva toma banho, Proença decide fazer um café para eles. Ainda sem nenhuma roupa no corpo, ele coloca água para ferver e vai até a porta da residência para pegar o pão que foi entregue a pouco. Entretanto, ao recolher o saco de pão colocado no lado de fora, a porta do apartamento se fecha sozinha. A trava é automática. O professor fica preso no lado de fora. Pelado! Ele grita por Marialva. Ela, no chuveiro, não o ouve. Justamente nesse momento, um casal de vizinhos está saindo de casa. Eles se deparam com Proença peladinho, peladinho da Silva no corredor do edifício. A mulher grita e o marido saca a arma. Ele quer acabar com aquele tarado. Sem pensar duas vezes, Sílvio Proença sai correndo edifício abaixo. Os berros da mulher e os xingamentos do marido armado chamam rapidamente a atenção dos demais moradores do prédio e do porteiro. Em questão de segundos, todos estão atrás do peladão. A única alternativa de fuga para o professor é pular o muro do condomínio e sair em disparada pela rua. É o que ele faz. Assim, começa a aventura do homem nu pela cidade do Rio de Janeiro. O rapaz precisará fugir da polícia, dos jornalistas e dos moradores revoltados. Seu desespero prosseguirá até a manhã seguinte. Todos parecem condená-lo só porque ele está sem roupa. São, portanto, quase 24 horas de agonia que Proença precisará passar até resolver essa situação delicada e extremamente constrangedora. “A Nudez da Verdade” é uma novela divertidíssima. Eu a li em aproximadamente uma hora. O livro possui menos de 100 páginas, o que permite ao leitor ler esta história de ponta a ponta em um fôlego só. Como não poderia ser diferente, a primeira coisa que chama a atenção neste livro é o humor de Fernando Sabino. Ele é mestre em produzir narrativas engraçadas e inteligentes. A graça da novela não está apenas na situação bizarra em que o protagonista se encontra (o enredo da obra). Ela está também presente em toda a narrativa: no comportamento/reação das demais personagens (o policial que entra em um vestiário masculino de clube à procura de um homem nu, a mulher que se lamenta por não ver um homem pelado há muito tempo, etc.) e nas várias situações inusitadas (Sílvio se esconde dentro de um armário, que está em um caminhão de mudança, e Marialva correndo atrás do pelado com a mala para ajudá-lo, por exemplo). O escritor mineiro conduz sua trama de maneira sublime, surpreendendo o leitor e levando a risada fácil. O segundo elemento presente em “A Nudez da Verdade” é o forte teor filosófico do texto. A novela de Fenando Sabino leva o leitor a refletir: Afinal de contas, o que há de tão errado em se ver um homem pelado na rua de uma grande cidade? Esse questionamento merece uma reflexão profunda do protagonista e de algumas personagens a sua volta. Nesse sentido, é interessante notar a linha filosófico- religiosa da discussão proposta propositadamente por Sabino. Gostei também da maneira como o autor construiu as cenas da novela e como ele fez as transições entre elas. Tudo nesta trama é muito enxuto e preciso. O ritmo veloz do texto não permite que o leitor desgrude do livro. Ler Fernando Sabino é estudar como se deve aplicar na prática as técnicas narrativas. Nessa perspectiva, a única coisa que achei um pouco estranha nesta história foi a evolução temporal. Quando o leitor nota, o dia já acabou, sem qualquer indicação da passagem do tempo. O mesmo se deu quando a noite cai. Quando o leitor pisca os olhos, o dia já amanheceu novamente e estamos de manhã. Algumas sinalizações mais claras para indicar o transcorrer das horas não fariam mal. Vale a pena elogiar a profundidade e a variedade dramática de “A Nudez da Verdade”. Se o conflito no primeiro plano é dominado pela necessidade de roupa por parte do protagonista, no plano secundário temos várias questões sendo explicitadas: fidelidade conjugal, o papel do artista na sociedade, a importância do folclore na cultura popular, a desigualdade de renda no Brasil/Rio de Janeiro, a relação humana com o sexo, a abordagem policial, a violência urbana, etc. Incrível como em poucas páginas e em uma história aparentemente tão simples, Fernando Sabino consegue falar tanta coisa. E, para encerrar essa análise crítica, preciso mencionar o desfecho de “A Nudez da Verdade”. A novela termina de maneira divertidíssima e muito sagaz. Se o autor conseguiu surpreender o leitor com um enredo diferente e uma narrativa muito bem conduzida, é no desenlace que vemos sua maestria. Se eu tivesse que pensar em um final mais brilhante do que esse, na certa não conseguiria. O desfecho da obra é maravilhoso por vários motivos: nos leva a rir ainda mais; dá um tom cíclico à vida e, por consequência, à trama; em alguns pontos é objetivo e claro; e em outros mantém a subjetividade que enriquece a história. Adorei este livro. Se você está procurando algo que possa ser lido rapidamente e que traga um conteúdo ao mesmo tempo inteligente e engraçado, “A Nudez da Verdade” é uma ótima opção. O encerramento do Desafio Literário de Novembro será feito na próxima quinta-feira, dia 29. Retorno ao Blog Bonas Histórias no penúltimo dia do mês para apresentar a conclusão sobre a literatura de Fernando Sabino, um dos principais escritores brasileiros do final do século XX. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FernandoSabino #Novela #LiteraturaBrasileira #Comédia
- Filmes: Infiltrado na Klan – O melhor Spike Lee dos últimos 12 anos
Ontem, estreou nos cinemas brasileiros o novo filme de Spike Lee. “Infiltrado na Klan” (BlacKkKlansman: 2018) é apontado pela crítica cinematográfica norte-americana como um dos postulantes ao Globo de Ouro e ao Oscar do próximo ano. E realmente o longa-metragem é muitíssimo bom. Confesso que saí da sessão encantado com sua trama e, principalmente, com sua construção narrativa. Considerei este o melhor trabalho de Lee desde “O Plano Perfeito” (Inside Man: 2006), seu grande sucesso comercial do século XXI. Se alguém disser que este é o melhor filme da carreira do cineasta norte-americano, não será nenhum absurdo. “Infiltrado na Klan” conquistou o Prêmio do Júri de Melhor Filme do Festival de Cannes em maio (ou seja, a crítica europeia também se rendeu às suas qualidades). Em seu elenco principal, temos John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier e Topher Grace. Orçado em US$ 15 milhões (uma pechincha para os padrões de Hollywood), esta produção é uma comédia dramática histórica com uma pegada de thriller policial. Impossível não gostar dessa combinação. O filme de Spike Lee foi baseado em “Black Klansman”, o livro autobiográfico de Ron Stallworth, policial negro que se infiltrou, na década de 1970, na Ku Klux Klan para combater os racistas que planejavam a realização de uma série de assassinatos no Colorado. Vale lembrar que esta região no centro dos Estados Unidos é ainda hoje uma das mais conservadoras do país e, infelizmente, continua tendo grupos adeptos da supremacia branca. Para dar mais dramaticidade à história do longa-metragem, Lee (que além de dirigir também produziu o roteiro) fez pequenas modificações na linha central da trama. Curiosamente, aos olhos do público atual, a narrativa de Stallworth pode até parecer absurda, completamente inverossímil. Entretanto, ela aconteceu de verdade, o que confere maior charme à trama. Incrível o feito deste policial corajoso e um tanto transloucado. Ao final do filme, me recordei das palavras de Luigi Pirandello em "O Falecido Mattia Pascal" (Abril), um dos romances mais famosos do italiano: "A vida, por todos os seus descarados absurdos, grandes e pequenos, dos quais está tranquilamente repleta, tem o inestimável privilégio de poder prescindir daquela estúpida verossimilhança, à qual a arte se crê obrigada a obedecer. Os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros. Ao contrário dos da arte que, para parecerem verdadeiros, precisam ser verossímeis. E sendo verossímeis, deixam de ser absurdos. Um acontecimento da vida pode ser absurdo; uma obra de arte, se é obra de arte, não. De onde se deduz que tachar uma obra de arte de absurda e inverossímil, em nome da vida, é tolice. Em nome da arte, sim; em nome da vida, não". “Infiltrado na Klan” se passa em 1972 na cidade de Colorado Springs, um local explicitamente racista. Ron Stallworth (interpretado por John David Washington) é o primeiro e, até então, único policial da corporação. Novato no departamento, ele só foi contratado por uma iniciativa política do prefeito. O mandatário do município, em parceria com o chefe de polícia, queria se mostrar mais aberto às causas da população negra. Daí a integração de um único agente negro na instituição flagrantemente racista. A expectativa era que Ron Stallworth aceitasse o trabalho burocrático e ficasse numa boa dentro da delegacia. Ambicioso, destemido e irreverente, o jovem rapidamente se rebela contra aquela situação e consegue ser enviado para a rua. Dependendo da tarefa que a polícia precisa fazer, ter um agente negro em seu quadro é uma grande vantagem. Assim, Stallworth é alçado rapidamente ao posto de protagonista. Por exemplo, ele consegue se infiltrar facilmente em uma organização que prega o empoderamento negro (algo que seus colegas brancos jamais conseguiriam). Ali, o policial conhece Patricia Dumas (Laura Harrier), a presidente do comitê de orgulho Black Power. No início da década de 1970, é preciso contextualizar, Colorado Springs (e boa parte dos Estados Unidos) sofria com a polarização racial: de um lado havia grupos de brancos querendo a perpetuação do racismo e de outro lado existiam grupos de negros desejando pegar em armas para impor seus direitos civis. O clima bélico estava no ar e muitos crimes de origem racial eram noticiados diariamente pela imprensa. A situação estava fugindo de controle. As autoridades temiam um derramamento de sangue ou uma nova guerra civil. Já nas primeiras missões realizadas, Ron Stallworth vai muito bem, agradando ao delegado. Por isso, ele consegue uma vaga na área de Inteligência do distrito. No novo posto, o policial negro resolve investigar o Ku Klux Klan. Tendo como arma um telefone (e uma lábia acima da média para se passar por um homem branco e racista), Ron se torna amigo dos mais influentes integrantes da Klan. Cativando as pessoas do outro lado da linha, ele chega ao ponto de se tornar próximo de David Duke (Topher Grace), o grande líder da Ku Klux Klan. Quando essas amizades precisam se tornar reais, Ron Stallworth ganha um problemão. Ele não pode aparecer pessoalmente na frente de seus novos “amigos”. Afinal, um negro jamais será bem-vindo dentro de uma organização racista! Por isso, é convocado Philip Zimmerman (Adam Driver), um policial branco da delegacia, para se passar por Stallworth quando as ações exigirem contato pessoal com os investigados. Ron continua com suas ligações telefônicas. O que parecia ser a solução ideal para a situação se transforma em um pesadelo para os policiais. Zimmerman, apesar de branco, é judeu. E o pessoal da Klan odeia tanto os negros como os judeus. A dupla Ron Stallworth e Philip Zimmerman entrará nos bastidores da Ku Klux Klan como nenhum policial de Colorado Springs conseguiu até então. Se eles estão próximos de descobrir os planos dos racistas, eles também podem ser desmascarados a qualquer momento pela organização secreta. A missão tem muitos riscos e enganar um grupelho tão fechado e violento não será fácil. Conseguirão Stallworth e Zimmerman realizar seus trabalhos e ainda sair vivos dessa difícil empreitada? Esse é o suspense do filme. Com 2 horas e 16 minutos de duração, “Infiltrado na Klan” é um longa-metragem com um ótimo ritmo, muita ação e várias cenas engraçadas. Trata-se de uma produção que consegue agradar tanto quem busca conhecimento e conscientização quanto quem quer entretenimento. Enquanto se diverte com uma trama policial de tirar o fôlego, a plateia fica chocada com os relatos de violência racial que a população negra sofria (ou sofre) no país mais desenvolvido do mundo. Em muitos momentos, o longa-metragem de Spike Lee parece um mix de ficção e documentário. É muito legal essa mistura de gêneros cinematográficos. Não dá para falar de “Infiltrado na Klan” sem citar as atuações magistrais de John David Washington e Adam Driver. A dupla dá show de interpretação e são nomes quase certos na indicação dos principais prêmios do cinema norte-americano. Se bem que Rami Malek continua como meu favorito ao Oscar de melhor ator em “Bohemian Rhapsody” (2018). O ponto alto de “Infiltrado na Klan” é o seu desfecho surpreendente e realista. Quando tudo parece caminhar para um final feliz, a investigação de Ron Stallworth e Philip Zimmerman cai nas amarras da política racista da cidade. A sensação é de uma grande injustiça. A pancada no estômago da plateia é, portanto, forte. Para completar o clima amargo, as cenas derradeiras do filme de Spike Lee são reais, retiradas de acontecimentos verídicos do ano passado. Eu disse do ano passado! Ou seja, o racismo continua sendo um câncer da sociedade norte-americana. Infelizmente, os grupos que fazem apologia à supremacia branca continuam existindo e sendo bastante atuantes. E ainda hoje há políticos que compram esses ideais. Se lá nos Estados Unidos Donald Trump é o principal porta voz dos racistas, por aqui colocamos no mais alto cargo do executivo federal alguém muito parecido. Este longa-metragem tem incontáveis acertos. De forma geral, podemos classificá-lo como um filmaço. Porém, ele também tem alguns problemas que não podem ser disfarçados. O primeiro é em relação a coleção interminável de absurdos e de coincidências que atrapalham a verossimilhança da história. Entendo que “Infiltrado na Klan” foi baseado em um livro autobiográfico, mas a impressão que temos durante sua sessão é que o roteiro foi feito por alguém muito ingênuo, que não acredita na inteligência do espectador. Volto novamente nas palavras de Pirandello: Um acontecimento da vida pode ser absurdo; uma obra de arte, se é obra de arte, não”. Outra questão que fica evidente na adaptação cinematográfica é a inconsistência histórica. Como uma trama passada nos primeiros anos da década de 1970 pode antecipar fatos ocorridos somente no final daquela década, hein?! Isso, contudo, não é o pior. O erro de continuidade narrativa em uma cena chave no finalzinho do filme (quando Ron Stallworth parte de carro e em alta velocidade para a casa de Patricia Dumas) é mais gritante e pode incomodar quem é exigente e repara nos detalhes. É inegável que depois dos protestos contra a ausência de artistas negros no Oscar de 2016, Hollywood se transformou para melhor. Se por um lado tivemos alguns exageros, a premiação de “Moonlight – Sob a Luz do Luar” (Moonlight: 2016) como melhor filme de 2017 foi o maior deles (uma escolha que preferiu a politicagem aos aspectos técnicos), por outro lado nunca tivemos tantos enredos bons com a temática de valorização dos negros e da exposição dos males do racismo. Neste ano, além de “Infiltrado na Klan”, temos os ótimos “Green Book – O Guia” (Green Book: 2018) e “Se a Rua Beale Falasse” (If Beale Street Could Talk: 2018). No ano passado, tivemos os excelentes “Corra!” (Get Out: 2017) e “Marshall – Igualdade e Justiça” (Marshall: 2017) e, em 2017, o destaque foi para “Estrela Além do Tempo” (Hidden Figures: 2016). Veja o trailer de “Infiltrado na Klan”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Livros: Martini Seco – A novela policial de Fernando Sabino
Na metade da década de 1980, Fernando Sabino já era um dos principais escritores brasileiros de sua geração. Considerado um dos maiores cronistas da história do país, o autor mineiro ainda ostentava em seu portfólio literário dois romances, “O Encontro Marcado” (Record) e “O Grande Mentecapto” (Record), e uma obra infantojuvenil, “O Menino no Espelho” (Record), entre os best-sellers nacionais. Mesmo com o sucesso, Sabino se ressentia de nunca ter publicado uma trama policial, gênero que sempre apreciou como leitor. A oportunidade para produzir uma narrativa desse tipo surgiu quando um delegado que era muito amigo do escritor relatou um caso real ocorrido há muito tempo em um departamento de polícia do Rio de Janeiro. Segundo o tira, certa vez, um casal apareceu, no mesmo dia e em horários diferentes, na delegacia para se acusar mutuamente. A esposa alegava que o marido estava tentando envenená-la, algo que já havia feito com a ex-mulher. Ele, por sua vez, dizia que a parceira queria se suicidar. Ao se envenenar, ela iria automaticamente incriminá-lo só para ter o gosto de vê-lo preso. O pobre do delegado não sabia em quem acreditar. Ao ouvir o relato, Fernando Sabino escreveu uma novela com o mesmo enredo. Além de usar muitos dos fatos verídicos narrados pelo amigo policial, o escritor acrescentou à história elementos fictícios para tornar o drama mais intenso. O resultado é “Martini Seco” (Ática), uma pequena narrativa policial de excelente qualidade. Este é o quinto livro que o Bonas Histórias analisa no Desafio Literário deste mês (e a primeira novela de Fernando Sabino). Publicado inicialmente, em 1985, na coletânea de contos “A Faca de Dois Gumes” (Record), “Martini Seco” foi republicado, em 1987, desta vez como livro independente. Episódio similar ocorreu com outra novela famosa de Sabino: “O Homem Nu”. Lançada na coletânea de contos homônima de 1960, a história do rapaz que é perseguido pela sociedade e pela polícia por estar sem roupa no meio da rua foi editado em livro próprio em 1994 com o nome de “A Nudez da Verdade” (Ática). “Martini Seco” integra o trio de thrillers policiais desenvolvido por Fernando Sabino em 1985. A trilogia é composta também por “A Faca de Dois Gumes” e “O Outro Gume da Faca”. As três histórias foram lançadas em uma obra conjunta, porém mais tarde ganharam versões independentes. Dessas novelas policiais de Sabino, “Martini Seco” é quem obteve o maior sucesso entre o público e a crítica. A novela começa com uma pequena introdução: “Na noite de 17 de novembro de 1962, ocorreu numa delegacia de polícia do Rio de Janeiro uma tragédia em misteriosas circunstâncias, jamais esclarecidas. O que se segue é uma reconstituição, o tanto quanto possível fiel, dos fatos que conduziram a esse terrível desfecho. Como poderá ter sobrevivido um testemunho do que se passou, é o novo mistério que ficará para sempre insolúvel. Tudo começou cinco anos antes, precisamente na mesma data, ou seja, no dia 17 de novembro de 1957”. Na delegacia carioca, o Comissário Serpa recebe a queixa de uma mulher, Maria Miraglia. A dona de casa disse ter descoberto um crime cometido pelo marido há cinco anos. Amadeu Miraglia, o esposo de Maria, teria envenenado sua antiga noiva em um bar. Assim que bebeu um Martini Seco (daí o nome da novela), a moça caiu morta no chão. Apesar de todos os indícios apontarem para Amadeu, ele foi inocentado pela Justiça por falta de provas. Maria descobriu o passado nebuloso do marido ao achar reportagens antigas do caso na residência do casal. A partir daí a esposa alega estar sendo perseguida pelo companheiro. Amadeu estaria tentando matá-la envenenada, assim como ele já tinha feito com a ex. Depois de ouvir a mulher, o Comissário Serpa encaminha a Sra. Miraglia para o escrivão, para a queixa crime ser registrada. Assim que Maria deixa a delegacia, Amadeu aparece por lá, surpreendendo a todos. O marido disse que a esposa está o ameaçando. Depois de ter descoberto a tragédia ocorrida com sua ex, a mulher estaria ameaçando se suicidar. Ao se envenenar, todos achariam que o culpado seria Amadeu. Assim, ela conseguiria colocá-lo atrás das grades, mesmo que para isso precisasse morrer. Começa, assim, o jogo de acusações mútuas. Quem estaria querendo matar quem? O Comissário Serpa não sabe em quem acreditar. Para ele, a solução do que se passa no presente está em descobrir o que ocorreu no passado. Teria sido Amadeu Miraglia o verdadeiro assassino da sua noiva no bar há cinco anos? Para descobrir isso, o comissário de polícia reabre informalmente o caso. “Martini Seco” é um livro extremamente curto. Ele não chega a ter 90 páginas. Mesmo assim, a obra está dividida em três partes. Essa estrutura é parecida com a divisão em atos (cada parte seria um ato, com uma tragédia própria). É possível ler esta publicação em uma tacada só. Foi o que fiz na última segunda-feira à noite. Em menos de uma hora e meia já havia concluído esta leitura. A primeira questão que precisa ser comentada sobre esta obra é o estilo direto do texto de Fernando Sabino. O autor não perde tempo com nada que não seja essencial para sua história. Esqueça a descrição detalhada de cenários e de personagens, as divagações existencialistas ou filosóficas do narrador e a composição ornamental do enredo, características estas de “O Encontro Marcado”, “O Grande Mentecapto” e “O Menino no Espelho”, por exemplo. A narrativa de “Martini Seco” é construída principalmente em cima dos diálogos dos seus protagonistas. Sabino é mestre na produção de ótimos discursos. Assim, a história adquire um tom meio seco, parecido ao dos romances policiais noir, e uma velocidade alucinante. As ações ocorrem muito rapidamente, uma atrás da outra, sem parar. O leitor fica até sem fôlego, encantado com tantos acontecimentos em poucas páginas. Na maior parte do tempo, é impossível interromper essa leitura. O mistério percorre a trama da primeira à última página. Esse é um dos pontos altos desta obra. Nem o Comissário Serpa, nem o narrador (em terceira pessoa do tipo observador neutro), nem os leitores sabem quem é o verdadeiro vilão da história. Para mim, ora o marido era o culpado, ora ele era a grande vítima de um complô bem arquitetado. O tempo inteiro oscilei em acreditar e em desacreditar na versão contada por Amadeu Miraglia, uma das grandes personagens criadas por Fernando Sabino. Esse é o principal mérito de um autor policial: deixar sempre seu leitor em dúvida. Nesse aspecto, essa construção narrativa é magistral. Até a última linha de “Martini Seco”, não sabemos efetivamente para quem torcer e o que irá acontecer. Outra questão muito interessante é o humor do texto de Sabino. Em meio à grande tensão dramática da história, o autor mineiro consegue levar seu leitor à risada fácil. E ele faz isso de várias maneiras. Em alguns momentos, é o ambiente caótico da delegacia quem dá mote ao humor. Em outros, é o jeito desbocado como os policiais encaram seus serviços. Às vezes, é o próprio comportamento amalucado do marido e da mulher que gera a situação engraçada. E até mesmo a estrutura da narrativa permite ao leitor achar graça nessa trama. Isso se dá, por exemplo, quando Fernando Sabino repete as mesmas palavras e as mesmas frases em partes diferentes da novela. Esse efeito confere um ambiente de absurdo e de maluquice completa à história. Impossível não rir disso. Ao mesmo tempo em que assistimos a um ótimo drama conjugal e a um excelente mistério policial, também podemos notar o tom crítico do texto de Sabino. No Brasil do autor, a polícia se utiliza da violência física (leia-se tortura) como um dos recursos de investigação. A Justiça tarda e falha, não merecendo o nome que tem. Os comerciantes são sacanas com seus consumidores, aproveitando-se de pequenas malandragens para faturar mais (por exemplo, servir o mesmo copo de drink para clientes diferentes). A impressão que se tem é que ninguém respeita as regras e as leis neste país. Ainda bem que este é um Brasil da ficção de Fernando Sabino e não o da nossa realidade. Um primeiro problema da novela “Martini Seco” é a falta de originalidade do seu enredo. Lembro de várias histórias de outros autores com uma trama muitíssimo parecida. “Maquinações”, quinto conto de Patricia Highsmith do livro “Álibi Perfeito” (Biblioteca Visão), tem uma disputa matrimonial muito similar a esta de Sabino. O mesmo ocorre com “A Magnólia Perdida”, conto de Luiz Lopes Coelho. Apesar de possuir uma construção narrativa parecida com alguns contos precedentes, “Martini Seco” possui seu valor. A trama é muito bem escrita e consegue envolver o leitor. Outra questão que não gostei foi do seu desfecho. Para mim, o desenlace da trama é decepcionante. Não fiquei incomodado com o final aberto da novela. Muito pelo contrário: até acho que a história adquire maior graça quando não sabemos exatamente quem é o vilão e quem é a vítima na casa dos Miraglia. Assim, cabe ao leitor julgar Amadeu e Maria, assim como o comportamento do Comissário Serpa durante a investigação. O problema está no encerramento pastelão e trágico-cômico da narrativa. Sabe quando o Stephen King termina um romance de mais de mil páginas porque botou fogo em tudo e matou todas as personagens? Pois bem, temos algo parecido aqui. Admito que até acredito que esse desfecho tenha ocorrido na história verdadeira contada pelo amigo policial de Fernando Sabino. Porém, colocá-la dessa maneira na ficção acabou deixando a novela com uma pitada de inverossimilhança (com um ar de absurdo pueril). Com exceção do desfecho polêmico, adorei esta novela de Sabino. “Martini Seco” tem tudo o que uma boa narrativa policial precisa ter: suspense, emoção, surpresas, drama, ação, tensão, personagens contraditórias e humor. E isso tudo em uma trama extremamente inteligente e contagiante. Mesmo não tendo se dedicado muito a esse gênero ao longo de sua carreira, Fernando Sabino se mostrou um excelente escritor policial em “Martini Seco”. Confesso que estou com vontade de ler “A Faca de Dois Gumes” e “O Outro Gume da Faca”, as outras duas partes desta trilogia. Contudo, não será agora que irei conhecer esses títulos. Minha próxima leitura do Desafio Literário de novembro é “A Nudez da Verdade” (Ática), a novela mais famosa de Sabino. O post com o comentário dessa obra estará disponível no Bonas Histórias no próximo domingo, dia 25. Não perca a análise do sexto e último livro de Fernando Sabino que o Desafio Literário traz para você. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FernandoSabino #Novela #RomancePolicial #LiteraturaBrasileira
- Livros: As Melhores Crônicas de Fernando Sabino – O principal gênero do escritor mineiro
Já estamos no quarto livro do Desafio Literário de novembro. Depois de analisarmos dois romances, “O Encontro Marcado” (Record) e “O Grande Mentecapto” (Record), e uma obra infantil, “O Menino no Espelho” (Record), vamos hoje, no Bonas Histórias, tratar de uma coletânea de crônicas de Fernando Sabino. Assim, chegamos ao gênero narrativo que o jornalista e escritor mineiro mais produziu ao longo de sua carreira. E o título escolhido para a análise deste post é “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” (BestBolso). Os textos de “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” foram publicados originalmente em jornais e revistas. A atuação de cronista por Sabino começou cedo. No início da década de 1940, quando mal tinha completado vinte anos de idade e ainda morava na capital mineira, o jovem jornalista já escrevia colunas e reportagens para as revistas Mensagem, Alterosa e Belo Horizonte, veículos de comunicação regionais. Ao se mudar para a cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1944, ele passou a trabalhar regularmente para o jornal Correio da Manhã. Na década de 1950, suas crônicas foram publicadas diariamente pelo Jornal do Brasil e mensalmente pela revista Senhor. Na década de 1960, ao morar no exterior, Fernando Sabino diminuiu a produção de suas colunas, mesmo assim continuou escrevendo para o Jornal do Brasil e para as revistas Manchete e Cláudia. O livro “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” reúne textos escolhidos pelo próprio autor. A obra contempla os exemplares do trabalho de cronistas de Sabino produzidos ao longo de quatro décadas. Publicado pela primeira vez em 1986, “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” continua sendo editado até hoje. O livro que comprei no finalzinho deste ano é a sexta edição impressa pela BestBolso. Nesta coletânea de crônicas, temos pequenas narrativas sobre os aspectos banais do dia a dia de Fernando Sabino, os relatos sobre as personalidades que o jornalista e escritor conheceu e a apresentação de análises críticas da realidade brasileira e das mudanças de comportamento da população. Adorei este livro. Fernando Sabino usa o humor de maneira inteligente para construir um retrato fiel e saboroso de sua rotina e de seu ofício. Quando seus textos abordam a vida e o trabalho de artistas, jornalistas e pessoas famosas, o autor procura apresentá-los de uma forma humana e sensível, descrevendo-os como um amigo próximo faria. O resultado é um passeio pelo cotidiano de um dos grandes nomes da literatura brasileira da segunda metade do século XX. Também temos a oportunidade de verificar como era a vida entre as décadas de 1940 e 1980, tanto no Rio de Janeiro quanto no exterior (Sabino morou em Londres e Nova York). Com aproximadamente 200 páginas, o livro “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” possui 50 narrativas curtas. Em média, cada texto se estende por 4 páginas. Assim, é possível ler o material todo bem rapidamente. Concluí esta leitura em uma única noite, na última quinta-feira. Iniciei a obra por volta das 19h e às 22h já tinha terminado (e olha que não li tudo de uma vez, fiz duas paradinhas no meio do percurso). “Dez Minutos”, a primeira crônica da obra, é o texto feito para o filho recém-nascido do autor. “O Retrato” trata de uma foto antiga de Sabino que aparecia regularmente em sua coluna de jornal, mas que não condizia mais com a verdadeira imagem do colunista. Em “A Quem Tiver Carro”, temos as peripécias de um dono de veículo que vive tendo problemas mecânicos com seu carro. “Um Doador Universal” narra uma inusitada viagem de táxi ao hospital. E “O Habitante e sua Sombra” é uma homenagem ao escritor chileno Pablo Neruda, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1971. “Dormir de Touca” é a quinta crônica. Nela, Fernando Sabino conta o dilema que é cortar cabelo em Londres. “A Escrita é Outra” descreve uma divertida entrevista que o escritor concedeu a uma jovem e desmiolada jornalista. “De Mel a Pior” narra uma divertida conversa telefônica sobre a língua portuguesa. E “Como Melhorar a Memória”, por sua vez, apresenta a dificuldade do autor em decorar os nomes das pessoas que o cercam. “O Hóspede do 907”, a décima crônica da obra, descreve o dia a dia de um burocrata em Nova York. “Notícia de Jornal” trata da morte de um morador de rua no Rio de Janeiro, vitimado pela fome. “De Homem para Homem” relata um trauma de infância que persegue Fernando Sabino por muitos e muitos anos. “Cada Um No Seu Poleiro” narra a conversa do cronista com o papagaio de um vizinho. “O Menestrel do Nosso Tempo” é um texto sobre Vinicius de Moraes. E “Que Língua, a Nossa” fala dos excessos retóricos dos usuários contemporâneos da língua portuguesa. A décima sexta crônica é “Escritório”, texto sobre o aluguel de uma sala onde Fernando Sabino iria trabalhar. “A Lua Quadrada de Londres” é um fenômeno estranho e ficcional visto em uma noite de inverno. “Obrigado, Doutor” trata de um homem hipocondríaco. “Sandy, o Artesão”, por sua vez, narra uma visita à casa do escultor Alexander Calder. “Frases Célebres” é uma conversa amalucada e bem-humorada de um banqueiro, um colunista social e uma vedete. E em “Menino” temos todos os avisos e conselhos que um garoto ouve das pessoas mais velhas. “O Buraco Negro”, o vigésimo segundo texto da coletânea, mostra o quão distraído é o autor em sua rotina. “A Última Flor do Lácio” faz uma comparação das aulas de língua portuguesa ministradas no passado e na atualidade. “A Minha Salamandra” trata do desespero de um romancista em busca de uma informação específica para sua nova história. Em “A Falta que Ela me Faz”, temos o caos doméstico de um homem após dar férias para sua empregada. “Retrato do Nadador Quando Jovem” compara a natação feita antes e agora. “Expressivo, Romântico e Musical” é uma divertida crítica às aulas de português dadas aos estrangeiros. E “Burro Sem Rabo” fala do processo de mudança de residência do escritor. A vigésima nona crônica, “Com o Mundo nas Mãos”, é o estudo da geografia a partir de um globo terrestre de brinquedo. “O Poeta e a Câmera Indiscreta” mostra os desafios de se filmar um documentário sobre Carlos Drummond de Andrade. “Hay que Vigiar” é o divertido texto sobre as malandragens dos ladrões cariocas. “Como Vencer no Bar Sem Fazer Força” retrata os percalços de um fotógrafo brasileiro que está trabalhando em Londres. Em “Minas Enigma”, Fernando Sabino faz uma brincadeira sobre o que é ser mineiro. E “Um Gerador de Poesia” e “Suíte Ovalliana” são duas crônicas sobre o compositor Jayme Ovalle. “Corro Risco Correndo” é o trigésimo sexto texto de “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino”. Nele, o escritor fala sobre o hábito que adquiriu nos últimos anos de praticar cooper (corrida) diariamente. Em “Sexta-feira”, temos um homem que caminha solitariamente pelas ruas à noite. Em “Experiência de Ribalta”, Sabino recorda suas vivências como ator teatral. “Numa Curva da Estrada” temos um homem que reencontra, no meio de uma viagem, um velho carro conversível que já o pertenceu. “Elegância” trata do hábito antigo das pessoas em procurar os alfaiates para que eles fizessem suas roupas, algo que caiu em desuso nas últimas décadas. “Homens de Canivete” narra o apego do autor pelos canivetes suíços. E “O Brasileiro, Se Eu Fosse Inglês” é o olhar de um estrangeiro para a realidade brasileira. No quadragésimo terceiro texto, “O Ballet do Leiteiro”, temos um homem que espia pela janela de seu apartamento os vizinhos nos edifícios ao lado. “O Indesejável Espectador” narra o porquê de Sabino não gostar de visitar os teatros. “Precisa-se de um Escritor” relato o drama de escritores famosos na hora que eles têm de produzir textos banais do dia a dia. “Uma Vez Escoteiro” é a resposta de Fernando Sabino para a carta enviada por uma leitora do jornal que queria saber a importância do escotismo na vida do escritor. “Evocação no Aniversário do Poeta” é uma reverência a Manuel Bandeira e ao seu trabalho literário. Em “Por Isso lhe Digo Adeus” temos a despedida de Sabino de Nova York, cidade onde morou por dois anos. “Amor de Passarinho” fala das visitas que os beija-flores fazem à varanda da casa do escritor. E “A Última Crônica”, por fim, temos o fechamento das narrativas com o acontecimento singelo ocorrido em um bar. Gostei muito da qualidade destes textos de Fernando Sabino. O mais interessante é que as crônicas dele não ficaram datadas ou perderam suas forças narrativas quando passadas para o livro. Esse processo é muito comum de acontecer. Os textos veiculados em jornais e em revistas acabam, infelizmente, se tornando fracos, irrelevantes, chatos e/ou incompreensíveis quando levados a uma publicação literária alguns anos depois. Costumo chamar esse problema de “O Mal das Crônicas”. “O Mal das Crônicas” tem se manifestado recorrentemente no Desafio Literário. Sinceramente, não gostei de muitos livros desse gênero (apesar de adorar as crônicas). Lya Luft, Ignácio de Loyola Brandão, Herta Müller, Machado de Assis e Xinran, por exemplo, sofreram com minhas análises pouco elogiosas sobre alguns de seus trabalhos nessa área. O único que passou imune às minhas críticas negativas foi Mia Couto. “Se Obama Fosse Africano?” (Companhia das Letras) é um livro maravilhoso e atemporal do escritor moçambicano. O que posso dizer é que “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” é, possivelmente, a obra mais interessante do gênero que li nos últimos anos. O principal mérito desse livro de Fernando Sabino está na escolha dos textos. Quase nenhuma das crônicas desta publicação envelheceu mal ou se tornou obsoleta. Pelo contrário. Elas ainda estão muito atuais, algumas décadas depois de terem sido escritas. O dono de um carro que tem dificuldade para achar um bom mecânico no Rio de Janeiro. Escritores famosos que tem dificuldade para escrever um texto simples e banal do dia a dia. O rico universo dos vizinhos nos apartamentos das grandes cidades. Os pequenos traumas infantis. A dificuldade de um homem para administrar a rotina doméstica sem a empregada. A homenagem feita ao filho recém-nascido em um texto emocionante e emocionado. A entrevista concedida a uma jornalista jovem e despreparada. Os golpes criativos praticados pelos malandros do Rio de Janeiro. As peripécias de um hipocondríaco inveterado. E os modismos da língua portuguesa. Repare que todos esses são temas que permanecem atualíssimos ainda hoje. Na minha opinião, as melhores narrativas da coletânea são justamente aquelas que abordam a realidade cotidiana de Fernando Sabino. Os meus textos favoritos são: “Dez Minutos”, “A Quem Tiver Carro”, “Um Doador Universal”, “A Escrita é Outra”, “De Mel a Pior”, “Como Melhorar a Memória”, “Notícia de Jornal”, “Que Língua, a Nossa”, “Obrigado, Doutor”, “Menino”, “A Minha Salamandra”, “Hay que Vigiar”, “Minas Enigma”, “Homens de Canivete”, “O Brasileiro, Se Eu Fosse Inglês”, “O Ballet do Leiteiro” e “Precisa-se de um Escritor”. Essas 18 crônicas são excelentes. Fernando Sabino usa o humor e a linguagem coloquial para produzir narrativas deliciosas. A impressão que temos é que os textos do autor são tão limpos, simpáticos e engraçados como as conversas em um bar feitas entre amigos. Os dramas retratados por Sabino são os mesmos do leitor, o que cria uma proximidade entre leitor e escritor. É verdade que Fernando Sabino foi mais premiado pelo seu trabalho como romancista e autor de livros infantojuvenis. Contudo, para mim, a melhor faceta de sua literatura está nas crônicas. Neste gênero, ele é um dos maiores escritores da história do nosso país. Ler seus textos que foram publicados em jornais e revistas é uma experiência incrível. Além de leves, divertidas e inteligentes, as crônicas de Sabino são viciantes. Você lê uma e não quer parar mais. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FernandoSabino #ColetâneadeCrônicas #LiteraturaBrasileira
- Filmes: Bohemian Rhapsody – A vida de Freddie Mercury e a trajetória do Queen
Estamos ainda na metade de novembro. Porém, me arrisco a dizer que “Bohemian Rhapsody” (2018), filme que estreou nas salas de cinema no início deste mês, seja o melhor longa-metragem do ano. Assisti a esta produção nos primeiros dias de seu lançamento e estava louco para comentá-la aqui no Blog Bonas Histórias. Agora, enfim, consegui fazer um post a respeito do filme sobre a vida de Freddie Mercury e a trajetória do Queen. Afinal de contas, o que faz de “Bohemian Rhapsody” um filmão?! Diria que é o conjunto da obra. Sua história é espetacular, as personagens principais são complexas e maravilhosas, a trilha sonora é incrível, a fotografia e o figurino são impecáveis, os atores estão perfeitos em suas atuações e a narrativa possui vários conflitos dramáticos que emocionam e divertem o público. Não se surpreenda se você for levado às lágrimas e acabar soltando altas risadas durante a sessão. O que mais você quer de um longa-metragem, hein? Dirigido por Bryan Singer, especialista em filmes de ação, “Operação Valquíria” (Valkyrie: 2008) e “Os Suspeitos” (The Usual Suspects: 1995), e de super-heróis, algumas das principais produções da série “X-Men”. “Bohemian Rhapsody” é sem dúvida o ponto alto da carreira do cineasta norte-americano. Orçado em aproximadamente US$ 52 milhões, o filme teve Rami Malek, Gwilym Lee, Joseph Mazzello e Ben Hardy como intérpretes, respectivamente, de Freddie Mercury (vocalista e pianista), Brian May (guitarrista), John Deacon (baixista) e Roger Taylor (baterista), o quarteto do Queen. “Bohemian Rhapsody” narra a trajetória de Freddie Mercury da sua entrada no Queen, em 1970, até a apresentação antológica da banda inglesa no Live Aid, em 1985. No início da década de 1970, Freddie era um jovem de 24 anos que trabalhava no aeroporto de Londres como carregador de malas. Nascido com o nome de Farrokh Bulsara na hoje Tanzânia, o rapaz sofria com o preconceito por ser de uma família de imigrantes e pela sua aparência exótica (além do nome pouco usual). Isso não o impediu de entrar em um grupo de rock. O Smile era uma banda com potencial artístico que, em determinada noite, ficou sem seu líder e vocalista. Aproveitando-se da vaga aberta, Freddie Mercury, nome inventado pelo músico para esconder sua ascendência tanzaniana, se candidatou ao posto. No mesmo dia em que foi aceito por Brian May, John Deacon e Roger Taylor na banda, Mercury conheceu Mary Austin (interpretada por Lucy Boynton). A amizade dos dois foi instantânea e muito forte. Mary e Freddie se apaixonaram perdidamente e logo se casaram. Rapidamente, Freddie Mercury imprimiu sua marca ao Smile, com uma música mais experimental, um figurino ousado e uma atuação totalmente desinibida no palco. Freddie também sugeriu que a banda mudasse de nome. Nascia, assim, o Queen, uma das bandas inglesas mais queridas de todos os tempos. Enquanto o grupo tornava-se conhecido nos quatro cantos do planeta, compondo músicas memoráveis, Freddie vivia uma crise existencial. Ele adorava Mary, porém não conseguia controlar sua homossexualidade. Depois de um período de bissexualidade e de infidelidade conjugal, Mercury abriu o jogo para a esposa, admitindo ser gay. Mary pediu o divórcio, mas manteve uma sólida amizade com o ex-marido. Separado de Mary Austin, Freddie lançou-se em uma jornada amalucada pelas drogas, pelo álcool, pelas festas e pelas orgias intermináveis. Seu comportamento destrambelhado acabou afetando o relacionamento com os outros músicos do Queen. Eram iniciadas as fases de brigas dentro do grupo e de decadência artística e pessoal de Freddie Mercury. “Bohemian Rhapsody” não é apenas um longa-metragem excelente. Ele é também uma produção revolucionária. A partir de agora, as cinebiografias musicais ganham um novo padrão de excelência, principalmente nas cenas ambientadas no palco. Boa parte do magnetismo do filme de Bryan Singer está em levar o espectador a acreditar que está vendo os verdadeiros músicos e não uma obra ficcional. Tudo foi meticulosamente pensado e maravilhosamente executado. Até mesmo os shows do Queen e as cenas gravadas nos estádios estão irretocáveis, sendo os pontos altos do longa-metragem. A atuação de Rami Malek como o protagonista do filme é digna de ganhar um Oscar. Isso fica evidente desde as primeiras cenas. O ator norte-americano parece realmente Freddie Mercury em todos os instantes da vida do músico. Em muitos momentos, nos esquecemos de estar vendo um filme e achamos que estamos diante de um documentário. É difícil de acreditar que Malek não era a primeira opção para o papel principal do longa-metragem, só integrando o elenco depois da saída tumultuosa de Sacha Baron Cohen, ator britânico mais conhecido pela atuação como Borat, o excêntrico repórter fictício do Cazaquistão. As histórias de Freddie Mercury e do Queen narradas no filme são tão boas que nem mesmo as passagens desvinculadas da realidade atrapalham o longa-metragem. A forma como a trama do filme foi contada está tão incrível, que a vontade que temos é de querer alterar a realidade ao invés da ficção. A única passagem narrativa estranha envolve a sexualidade de Mercury. Parece um pouco inverossímil que o cantor tenha sido hétero por tantos anos. No longa-metragem, a homossexualidade (ou bissexualidade) do líder do Queen aflora muito tempo depois de ele já ser adulto e famoso. Não conheço a história real de Freddie Mercury, mas a impressão que a produção cinematográfica passa é que o músico já era gay desde a adolescência. Contudo, precisou de muitos anos para perceber isso. Talvez nem mesmo ele soubesse dos seus verdadeiros gostos. Aí, pode ser que esse ponto cole um pouco. Mesmo assim, ele soou bem estranho para mim. A escolha de deixar os últimos quinze minutos de “Bohemian Rhapsody” para o show do Queen em Wembley foi perfeita. O público na sala de cinema se sente no estádio diante da banda de verdade no Live Aid. Impossível não cantar nem interagir com os músicos no palco (ops, quis dizer com os atores na tela). Saí da sessão ainda mais fã de Freddie Mercury e do Queen. Sinceramente, não conhecia muitas das particularidades da vida do cantor e do seu grupo. Se o Queen revolucionou o Rock and Roll, podemos dizer que agora seu filme também revolucionou a maneira de se produzir cinema (ao menos do ponto de vista dos longas-metragens sobre música). Se você ainda não foi ver este filme, você não sabe o que está perdendo. Até mesmo quem não gosta de Rock, do Queen ou de música, irá gostar desta produção. Impossível ficar indiferente a uma trama tão intensa como esta. Para mim, não será surpresa nenhuma se “Bohemian Rhapsody” bater recordes de bilheteria e acumular no próximo ano algumas das mais importantes estatuetas do mercado cinematográfico norte-americano. Veja, a seguir, o trailer de “Bohemian Rhapsody”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FreddieMercury #Queen #BryanSinger #RamiMalek
- Livros: O Menino no Espelho – As memórias infantis de Fernando Sabino
Hoje, o Bonas Histórias irá investigar a literatura infantil de Fernando Sabino. Depois de analisarmos, na semana passada, dois romances adultos deste autor, “O Encontro Marcado” (Record) e “O Grande Mentecapto” (Record), agora vamos tratar, no Desafio Literário, de uma obra que mergulha nas memórias da infância do escritor mineiro. “O Menino no Espelho” (Record) é a primeira publicação infantojuvenil de Sabino. Este livro também é considerado um clássico nacional em seu gênero narrativo. Além de ter ganhado dezenas e dezenas de reimpressões ao longo das décadas (está se aproximando da marca da centésima edição), esta história de Sabino foi adaptada para o cinema recentemente. O filme “O Menino no Espelho” foi dirigido por Guilherme Fiúza Zenha e estreou no circuito nacional em junho de 2014. Publicado pela primeira vez em 1982, o livro “O Menino no Espelho” se passa no início da década de 1930, em Belo Horizonte. Fernando, o protagonista e narrador da obra, é o Fernando Sabino em sua infância. Com oito anos, o garoto vive as típicas aventuras de uma criança levada, sonhadora e extremamente astuta. As peripécias que a personagem apronta se tornam mais divertidas pois, além do componente de memórias trazido pelo escritor, há também doses elevadas de fantasia trazidas pelo pequeno Fernando. Assim, temos um retrato bonito, poético, mágico e singelo da infância. Em poucas páginas, o leitor já entra no universo infantil do narrador e passa a acompanhar, ao longo dos capítulos, as delícias e os desafios da vida dessa criança. “O Menino no Espelho” tem pouco mais de 200 páginas. Apesar da grande extensão do livro (o padrão da literatura infantojuvenil é constituído por obras curtas), sua leitura é rápida e fácil. Além da linguagem simples, muitas páginas possuem desenhos, que acabam ocupando muitas vezes toda a página ou boa parte dela. O texto de Sabino é complementado com as ilustrações de Carlos Scliar, famoso desenhista e pintor gaúcho. Por isso, a grande quantidade de páginas. A obra tem dez capítulos, que também podem ser vistos como contos. Afinal, cada parte do livro possui um conflito próprio. A unidade da obra é construída pela manutenção do narrador (o menino Fernando), do cenário (a cidade de Belo Horizonte), da época retratada (o final dos anos de 1920 e, principalmente, o início da década de 1930), da temática (o mergulho na infância do protagonista) e das personagens (Fernando, sua família, seus animais de estimação, os amigos e vizinhos). Além dos dez capítulos/contos, “O Menino no Espelho” possui um prólogo e um epílogo que conversam entre si e dão um charme especial à narrativa do livro. No Prólogo, chamado de “O Menino e o Homem”, o pequeno Fernando brinca com as formigas no quintal de casa quando surge, ao seu lado, um homem misterioso de aproximadamente 50 anos. O sujeito conversa e brinca com a criança por um longo tempo. A afinidade dos dois é surpreendente. A impressão que se tem é que eles já se conheciam há anos. Antes de ir embora, o adulto deixa um conselho sobre como o garoto deve fazer para encontrar a felicidade em sua vida. O primeiro capítulo da obra é “Galinha ao Molho Pardo”, um dos textos mais famosos de Sabino. Nele, o menino Fernando tentará salvar a galinha Fernanda (nome dado por ele) de virar o prato principal do almoço de domingo. “O Canivetinho Vermelho”, a segunda narrativa, retrata o dia em que a personagem principal do livro adquiriu poderes especiais para transformar o mundo ao seu redor conforme seus desejos. Em “Como Deixei de Voar” narra as tentativas do garotinho em voar como os pilotos do aeroclube de sua cidade. Em “O Mistério da Casa Abandonada”, ficamos conhecendo uma das missões do Departamento Especial de Investigações e Espionagem Olho de Gato, grupo secreto formado por Fernando, sua amiguinha Mariana, Hindemburgo, o cachorro de Fernando, e Pastoff, o coelhinho do menino. O quarteto sairá à noite para descobrir o que se passa em uma casa abandonada na vizinhança. O quinto capítulo do livro é “Uma Aventura na Selva”. Nele, Fernando narra os perigos que ele passou na primeira vez que foi acampar no meio do mato com o grupo de escoteiros. “O Valentão da Minha Escola” é o relato do que o grupo de colegas do protagonista aprontava na escola. A vítima preferida da criançada era a professora de religião. O sétimo capítulo é o conto/história que empresta seu nome ao título do livro. Em “O Menino no Espelho”, o pequeno Fernando faz amizade com seu reflexo no espelho. Sua versão idêntica, mas invertida, sai de dentro do espelho e passa a acompanhar o garoto verdadeiro em sua vida real, provocando as maiores confusões. Em “Minha Glória de Campeão”, Fernando apresenta suas frustrações como jogador de futebol. Torcedor do América, o menino é o maior perna-de-pau da escola. Mesmo assim, ele terá a chance de se redimir quando vai assistir ao irmão mais velho jogar a partida final do Campeonato Mineiro. O nono capítulo é “Nas Garras do Primeiro Amor”. Nele, o menino se apaixona pela prima mais velha, a bela Cíntia. O problema é que Cíntia já é uma moça maior de idade, enquanto o garoto está com apenas 8 anos de idade. E, por fim, temos “A Libertação dos Passarinhos”, a história em que Fernando e Mariana aprontam diabruras com um vizinho que mantinha várias aves presas em gaiolas. No epílogo, chamado de “O Homem e o Menino”, temos a elucidação do mistério apresentado no prólogo. O primeiro aspecto que chama a atenção do leitor em “O Menino no Espelho” é a mistura de realidade e de imaginação. As histórias narradas possuem um pé no mundo concreto e outro no universo fantasioso criado pelo protagonista-narrador. Como é típico das crianças, o menino Fernando viaja em sua imaginação, recriando o mundo a sua volta como bem deseja e como melhor lhe convém. Assim, o garoto conversa com seus animais de estimação (um cachorro, uma galinha, um coelho e um papagaio), fazendo-se entender por eles. Fernando, com apenas oito anos de idade, entra em campo para disputar uma partida de futebol profissional de adultos. Também consegue voar, faz seu reflexo sair do espelho, ganha poderes de transformar o mundo, adquire a capacidade de ficar invisível, sobrevive dias sozinho na floresta perigosa e realiza missões secretas. Que criança nunca imaginou essas coisas, hein? Esse elemento contraditório (o que é verdade e o que é brincadeira imaginativa em cada história?) da personagem principal traz graça e, curiosamente, veracidade aos relatos do livro. Afinal de contas, parte da experiência de entrar na mente do garoto é embarcar em sua imaginação fértil, independentemente do que os adultos vão achar. Sem esse aspecto lúdico, não teríamos um retrato tão fiel da infância. Outro elemento interessante do livro é a linguagem utilizada por Fernando Sabino. Ao ler “O Menino no Espelho”, o leitor mergulha no linguajar mineiro e infantil. O texto da obra é fluído, natural e intuitivo. A ingenuidade do narrador e seus devaneios contribuem para dar credibilidade à narrativa em primeira pessoa. As histórias do livro estão ancoradas no retrato do cotidiano, algo que Fernando Sabino sempre foi um mestre em apresentar para seus leitores. Apesar de conter muitos elementos banais do dia a dia, as tramas dos contos do livro são interessantes e possuem certa beleza poética. Para o olhar infantil, aspectos aparentemente simples da rotina ganham dimensões grandiosas e emocionantes. Interessante reparar no retrato de Belo Horizonte que o livro traz. A BH de “O Menino no Espelho” é de quase cem anos atrás, época em que a cidade tinha ares de pequeno município do interior. Os moradores da capital mineira vão identificar vários cenários descritos nas páginas do livro, o que torna sua leitura ainda mais gostosa e encantadora. Por falar na época retratada no livro, é válido notar como era a infância no início do século passado. Nesse sentido, Fernando Sabino consegue transportar o leitor para o passado. Na ficção, podemos caminhar e brincar junto com o menino Fernando em um período em que as crianças passavam os dias nas ruas sem qualquer preocupação quanto à violência urbana. Incrível reparar no quão distinta era a infância daquela época para a de hoje em dia. A divisão dos capítulos, como já disse, dá a ideia de formação de contos. Cada capítulo possui um conflito particular. Esse recurso ajuda na leitura das crianças, pois não é preciso ler tudo de uma vez só, nem rememorar em detalhes as tramas passadas. Assim, pode-se ler a obra aos poucos, um capítulo por dia ou um capítulo por semana, sem risco de se esquecer algo importante. Respeito quem chama “O Menino no Espelho” de romance, porém, para mim, este livro tem mais as características de uma coletânea de contos (possui várias pequenas narrativas curtas e independentes) do que um romance (com uma única narrativa longa). É curioso notar as semelhanças entre “O Menino no Espelho” e “O Menino Maluquinho” (Melhoramentos), outro clássico da literatura infantil. As criações de Fernando Sabino e Ziraldo são mais ou menos da mesma época. Enquanto “O Menino no Espelho” foi publicado em 1982, “O Menino Maluquinho” chegou às livrarias brasileiras dois anos antes. As semelhanças entre os dois livros são quase que intermináveis: títulos parecidos (meninos nos nomes), temas similares (os retratos das infâncias felizes de garotos sapecas), mesmas personagens (os protagonistas são meninos e eles interagem, de alguma forma, com suas versões mais velhas, homens adultos que mantêm o espírito leve da infância), mensagens finais similares (para os adultos serem felizes, eles precisam ter tido infâncias alegres e manter sempre o espírito da época em que eram garotos), enredos parecidos (memórias dos tempos de criança dos autores) e os mesmos recursos narrativos (combinações de textos e imagens). Sinceramente não sei se isso foi coincidência ou se Fernando Sabino se inspirou na obra de Ziraldo. E por falar em pontos em comum, algumas histórias do livro de Sabino lembram algumas narrativas de outros escritores nacionais e internacionais. “Galinha ao Molho Pardo”, por exemplo, faz lembrar “As Margens da Alegria” de João Guimarães Rosa, conto que abre “Primeiras Estórias” (Nova Fronteira). Quando o menino Fernando passa a visitar outras histórias infantis, lembrei de “Reinações de Narizinho” (L&PM Pocket), de Monteiro Lobato, que permitia esse intercâmbio intertextual. “O Mistério da Casa Abandonada” tem um quê de “O Gênio do Crime” (Global), romance de João Carlos Marinho Silva. E “Nas Garras do Primeiro Amor” parece bastante com alguns episódios de “O Pequeno Nicolau” (Rocco), obra da dupla francesa René Goscinny e Jean-Jacques Sempé. Note bem: não estou dizendo que Fernando Sabino tenha copiado outras histórias para construir este livro. Não, definitivamente não é isso! Só estou dizendo que os capítulos de “O Menino no Espelho” lembram um pouco outras tramas. Mesmo com essas várias semelhanças narrativas, as histórias do livro de Sabino são ótimas. Um aspecto que não gostei do livro foi dos desenhos apresentados ao longo das páginas. Como uma boa obra infantil, “O Menino no Espelho” possui ilustrações que contribuem para o enriquecimento e o incentivo da leitura pela meninada. Até aí, beleza. Contudo, a qualidade dos desenhos de Carlos Scliar deixa muito a desejar. Quando comparadas, por exemplo, às ilustrações de Ziraldo, em “O Menino Maluquinho”, as criações visuais de “O Menino no Espelho” são muito inferiores. Além de não dialogar diretamente com o texto, não integrando-se à experiência de leitura (algo que “O Menino Maluquinho” faz de maneira espetacular), os traços parecem displicentes, pouco cuidadosos, quase que amadores. Uma coisa é fazer ilustrações que se parecem com o universo infantil. Outra coisa é fazer traços banais e de maneira apressada. Nesse caso, achei que em “O Menino no Espelho” temos mais a segunda opção do que a primeira. Outra questão que me pareceu excessivamente simplista foi a do mistério do prólogo. Apenas um leitor muito ingênuo não percebe, logo de cara, quem é o homem adulto que conversa com o menino nas páginas iniciais do livro. É verdade que a construção narrativa de Fernando Sabino é poética e bonita, tendo um desfecho maravilhoso no epílogo. Porém, ainda sim a descoberta não provoca qualquer espanto no leitor adulto (talvez as crianças “comprem” a surpresa bombástica da verdadeira identidade da personagem misteriosa). Admito que adorei a leitura de ”O Menino no Espelho”. A obra de Fernando Sabino é espetacular e consegue emocionar tanto os leitores adultos quanto os mirins. Não à toa, este livro esteja no catálogo das livrarias há quase quarenta anos (um feito raríssimo) e integre os cânones da literatura infantojuvenil brasileira. No próximo sábado, o Desafio Literário prossegue com a análise de “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” (BestBolso), coletânea de textos do autor mineiro que foram publicados originalmente em jornais e revistas. Não perca os novos posts sobre a literatura de Fernando Sabino que o Bonas Histórias publicará ainda em novembro. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #FernandoSabino #LiteraturaInfantojuvenil #ColetâneadeContos #LiteraturaBrasileira
















