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- Filmes: Mãe! - O surrealismo espetacular de Darren Aronofsky
"Mãe!" (Mother!: 2017), o novo filme do diretor Darren Aronofsky, é uma obra-prima do surrealismo. Protagonizado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem, o longa-metragem estreou nesse final de semana nos cinemas brasileiros. Trata-se, desde já, de uma das produções mais marcantes de 2017. Quem gosta de roteiros surpreendentes, polêmicos, subjetivos, esquisitos, inquietantes e viscerais terá elementos de sobra para se fartar. Como esse é o meu perfil, saí da sessão do último sábado bastante empolgado com o que vi. "Mãe!" é espetacular! Porém, quem prefere tramas conservadoras e mais realistas poderá odiar a nova criação de Aronofsky. Filmes tão disruptivos possuem a capacidade de polarizar a opinião do público. Se não for a melhor produção de Darren Aronofsky até aqui (em minha opinião, "Mãe!" é o melhor trabalho desse diretor), ao menos essa pode ser vista como a criação mais ousada do norte-americano. O diretor de "Cisne Negro" (Black Swan: 2011), de "O Lutador" (The Wrestler: 2008) e de "Noé" (Noah: 2014) volta às suas origens ao trabalhar uma história onírica, passional, confusa e intensa. Vale lembrar que seu primeiro grande filme, "Réquiem para um Sonho" (Requiem for a Dream: 2000), tinha muitos dos elementos explorados em "Mãe", mas em menor escala. O enredo de "Mãe!" é aparentemente simples. Um casal mora sozinho em um casarão antigo no meio do mato. A residência, que no passado fora destruída completamente por um grande incêndio, está sendo reformada aos poucos pela jovem esposa (interpretada por Jennifer Lawrence). Foi ela quem reconstruiu a casa do marido exatamente como era no passado. Agora, ela está cuidando do acabamento final do imóvel. Sem pressa, ela trabalha na revitalização do local. Entretanto, ao tocar com os dedos nas paredes e no piso da casa, algo estranho acontece com a esposa: ela consegue sentir as vibrações do lugar como se ele estivesse vivo e tivesse a capacidade de enviar informações à moradora. Esse é o primeiro sinal de que coisas estranhas podem acontecer ali. O marido (Javier Bardem) é um famoso poeta. Bem mais velho do que a esposa, ele sofre um bloqueio criativo. Sem conseguir escrever nenhuma linha há muito tempo, ele sofre com essa situação incômoda. Nada parece trazer de volta a velha inspiração que o tornou tão talentoso no universo da literatura e tão querido pelo público. O fracasso profissional do poeta começa, pouco a pouco, a afetar seu relacionamento com a esposa. Apesar da aparente tranquilidade doméstica, a vida conjugal deles está em crise. Certa noite, a campainha da casa toca. Na porta, um homem misterioso (Ed Harris) pergunta se aquele local é um hotel e se ele pode se hospedar ali. A esposa não tem chances de apresentar suas negativas. Ela parece pouco disposta a deixá-lo entrar. O marido, entretanto, um pouco entediado por viver sozinho naquela grande casa, resolve abrigar o visitante em seu lar. Afinal, segundo suas palavras, é tarde da noite e não há nenhum lugar nas proximidades onde ele possa se hospedar. O homem entra e logo se torna muito amigo do escritor. A dupla passa a noite bebendo e conversando de maneira animada. Essa atitude pouco responsável do marido deixa a proprietária um tanto ressabiada. Na manhã seguinte, novamente a campainha da casa toca. Uma mulher (Michelle Pfeiffer) entra na residência sem nenhuma cerimônia, como se tivesse sido convidada. A esposa fica indignada, mas é contida pelo marido e pelo visitante da véspera. A mulher recém-chegada é na verdade esposa do homem misterioso. Apesar dos protestos da proprietária do lugar, o poeta recebe calorosamente a nova visitante. O casal de intrusos, assim, fica à vontade na casa. Eles se metem aonde não são chamados e começam a perambular pelo local sem respeitar a privacidade dos moradores. A jovem proprietária fica perplexa com a situação e tenta expulsar de todas as maneiras o casal visitante. Ela só consegue convencer o marido a dar um pé na bunda dos folgados quando esses destroem uma relíquia do poeta. Porém, no dia em que os visitantes iam embora, os filhos deles adentram pela porta como se tivessem sido convidados. Ou seja, ao invés de se livrar dos dois visitantes, o casal de moradores fica agora com quatro forasteiros em seu lar. Rapidamente, a família visitante passa a monopolizar a casa. As coisas só pioram quando um dos filhos do estranho casal é assassinado dentro da residência. O assassino é o próprio irmão, que foge desesperado. Sem conseguir expulsar os visitantes, a jovem proprietária ainda tem que abrigar os amigos e os demais parentes dos visitantes no grande velório que acontece ali. A partir daí, a protagonista perde totalmente o controle do que ocorre no interior do seu lar. Cada vez mais pessoas entram no local sem se importar com os anfitriões. Enquanto a esposa quer expulsar todos, seu marido é afável e cortês com os invasores. O poeta não consegue falar "não" e recebe a multidão em sua casa com os braços abertos. Desse momento em diante, a trama vai se tornando cada vez mais surreal. Os acontecimentos são do tipo trágico-cômico. A casa que fora reconstruída com esmero pelo casal é alvo da barbárie coletiva dos visitantes. Impossível dizer qualquer coisa mais sobre o enredo sem estragar o espetacular desfecho do filme. O que pode ser dito é que as cenas vão se tornando cada vez mais estranhas e perigosas, até culminar em um desenlace apoteótico. O primeiro aspecto que chama a atenção em "Mãe!" é seu ambiente claustrofóbico. Quase todo o filme é ambientado no interior da residência e as tomadas externas são raríssimas. Com um excelente jogo de luzes (entenda-se: de contraste entre claro e escuro), a sensação de desconforto da plateia é permanente. Para tornar a situação ainda mais incômoda, a câmera é agitada e prioriza o zoom nos atores. O tempo inteiro as tomadas são fechadas, realçando aspectos passionais e íntimos de cada uma das personagens. Outro componente fortemente perturbador é ausência de nomes próprios. Os protagonistas não possuem nomes. Tanto o casal proprietário da casa quanto o casal de visitantes permanecem estranhos entre si e para o público. Nem nos momentos das apresentações, eles dizem seus nomes. Isso pode até passar batido pelo espectador mais desatento, porém é um das características que ajudam a criar o clima de mistério que permeia a primeira metade do longa-metragem. Por falar nisso, o roteiro de "Mãe" pode ser dividido em duas partes bem distintas. Na primeira parte da produção, prevalece o mistério ("Quem são esses visitantes estranhos e folgados?; e "O que a moradora irá fazer para se livrar deles?"). Já na metade final, prevalece a sucessão de episódios surreais. Os acontecimentos parecem sair do controle de todos: dos protagonistas (casal de moradores do casarão), do roteirista (que atropela a lógica e o bom-senso habitual de um filme convencional) e do público da sessão de cinema (que vê diante dos olhos atos inimagináveis). Com isso, a plateia fica hipnotizada diante da tensão das cenas. São espetaculares as reações que o filme causa no público. Às vezes, a impressão que temos é que não dá para piscar os olhos nem respirar na sala sem correr o risco de perder algo na tela. Os trinta minutos finais do longa-metragem são de tirar o fôlego. É nessa parte que vemos a genialidade (ou seria loucura?!) do cineasta Darren Aronofsky. O final é incrível. Geralmente, nesse tipo de produção, o desfecho é a parte mais frustrante. Afinal, não é possível segurar tanta tensão e suspense sem decepcionar o público de alguma maneira. Porém, não é o que ocorre em "Mãe!". Sua conclusão é ainda mais desconcertante do que todo o filme, amarrando a trama de maneira criativa. Apesar de interpretativo, o final permite uma compreensão sensata de todos os elementos do longa-metragem. O quadro final é formidavelmente triste, primorosamente contundente e explicitamente surreal. Além do ótimo roteiro, "Mãe!" possui um elenco de peso. Afinal, temos Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris e Michelle Pfeiffer contracenando na maior parte do tempo. O quarteto está fabuloso em seus papéis. Não dá para precisar quem está melhor. Talvez melhor do que os atores só mesmo Darren Aronofsky. O roteiro e a direção do jovem cineasta norte-americano estão impecáveis. Seu trabalho é nota dez! Ao ver "Mãe", é impossível não se recordar de "O Anjo Exterminador" (El Ángel Exterminador: 1962), clássico de Luis Buñuel. A grande diferença é que no filme mexicano do surrealista espanhol, os convidados não conseguiam sair da casa, enquanto na nova produção de Aronofsky, os visitantes não param de entrar. Além disso, o filme norte-americano possui muito mais ação e tensão do que o famoso longa-metragem de Buñuel. Não sei se você irá gostar tanto desse filme quanto eu gostei. Inclusive, o coloquei na lista dos melhores de 2017 - clique em Recomendações para ver a seleção completa. Porém, algo eu posso afirmar sem a menor dúvida: você não ficará indiferente a "Mãe". Você pode gostar ou não dessa produção, mas ela irá com certeza mexer com você. A experiência estética do filme é tão intensa que é impossível você sair da sala de cinema indiferente. Muito provavelmente, esse longa-metragem fará você refletir por algumas horas sobre o que viu e presenciou na telefona. Isso é ou não é um ótimo indicativo de um excelente filme, hein? Veja o trailer de "Mãe!": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Terror
- Mercado Editorial: As Ficções Mais Vendidas em 2016
Vamos falar hoje no Blog Bonas Histórias dos livros e dos autores ficcionais mais vendidos nas livrarias do Brasil em 2016. Se 2015 foi o ano de Gayle Forman, escritora norte-americana que emplacou "Se Eu Ficar" (Novo Conceito) e "Para Onde Ela Foi" (Novo Conceito), dois romances entre os cinco mais vendidos no país naquela oportunidade, o ano passado foi a vez de Jojo Moyes se destacar no topo do ranking dos best-sellers ficcionais. A romancista inglesa colocou três obras entre as dez mais vendidas nas livrarias brasileiras. Seus livros ultrapassaram a marca de 620 mil unidades comerciadas. Nada mal, hein? Jojo Moyes conseguiu fazer a dobradinha sonhada por todo escritor. "Como Eu Era Antes de Você" (Intrínseca) e "Depois de Você" (Intrínseca) ficaram, respectivamente, na primeira e na segunda posições dos romances mais vendidos no país. Para completar o ano maravilhoso, ela ainda teve "A Última Carta de Amor" (Intrínseca) na oitava posição. Portanto, não é errado afirmarmos que 2016 foi o ano de Moyes no Brasil, a best-seller do momento por aqui. Na terceira e na nona posições da lista dos romances mais comercializados temos outra novidade. "Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares" (LeYa) e "Cidade dos Etéreos" (LeYa), livros do norte-americano Ransom Riggs, também chegaram ao patamar dos seis dígitos de venda em conjunto. Trata-se de um excelente desempenho para um autor estreante no mercado nacional. Outra surpresa positiva de um escritor novato no Brasil foi a sexta posição de Paula Hawkins. "A Garota no Trem", o sucesso internacional dessa britânica nascida no Zimbabwe, ultrapassou a marca de 75 mil unidades vendidas. O restante do ranking é ocupado por nomes já conhecidos dos leitores nacionais: E. L. James, Augusto Cury, Sylvia Day e Nicholas Sparks. A maioria dos ocupantes do Top 10 da ficção nas livrarias brasileiras é de escritores estrangeiros (da Inglaterra e dos Estados Unidos basicamente). Como já vem ocorrendo nos últimos anos, Augusto Cury mantém-se como o principal (e agora único) nome nacional nessa lista. Confira, a seguir, o ranking das obras ficcionais mais vendidas em 2016 aqui no Brasil, segundo o PublishNews: 1) "Como Eu Era Antes de Você" - Jojo Moyes (Inglaterra) - Intrínseca - 352 mil unidades. 2) "Depois de Você" - Jojo Moyes (Inglaterra) - Intrínseca - 228 mil unidades. 3) "Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares" - Ransom Riggs (Estados Unidos) - LeYa - 133 mil unidades. 4) "Grey" - E. L. James (Inglaterra) - Intrínseca - 99 mil unidades. 5) "O Homem Mais Inteligente da História" - Augusto Cury (Brasil) - Sextante - 78 mil unidades 6) "A Garota do Trem" - Paula Hawkins (Inglaterra) - Record - 77 mil unidades. 7) "Todo Seu" - Sylvia Day (Estados Unidos) - Paralela - 59 mil unidades. 8) "A Última Carta de Amor" - Jojo Moyes (Inglaterra) - Intrínseca - 44 mil unidades. 9) "Cidade dos Etéreos" - Ransom Riggs (Estados Unidos) - Intrínseca - 36 mil unidades. 10) "No Seu Olhar" - Nicholas Sparks (Estados Unidos) - Arqueiro - 30 mil unidades. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MaisVendidos
- Livros: A Menina que Roubava Livros - O best-seller de Markus Zusak
Depois de ler, nesse Desafio Literário, os quatro primeiros romances de Markus Zusak, cheguei, enfim, ao seu grande sucesso: "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca). O quinto livro do escritor australiano foi um divisor de águas em sua carreira. A obra se transformou em um best-seller mundial e tornou conhecido o nome do seu autor nos quatro cantos do planeta. Assim, Zusak deixou de ser um jovem e talentoso romancista da Austrália para virar da noite para o dia em um dos mais originais e sensíveis ficcionistas da sua geração. Além de ficar vários anos nas listas dos romances mais vendidos dos Estados Unidos e da Europa (chegando a magnífica marca de 10 anos presente na lista do New York Times), "A Menina que Roubava Livros" também conquistou uma sequência incrível de prêmios literários. Os mais importantes foram o Commonwealth Writer's Prize de melhor livro do Pacífico Sul e do Sudeste Asiático em 2006, o Daniel Elliot Peace em 2006 e o Michel L Printz Honor em 2007. Publicada em 2005, na Austrália, a história de "A Menina que Roubava Livros" foi depois adaptada para o cinema. Em 2013, uma produção hollywoodiana levou a trama de Markus Zusak para as telonas. Dirigido por Brian Percival e estrelado por Geoffrey Rush, Emily Watson e Sophie Nélisse, o filme teve uma bilheteria superior a US$ 75 milhões, sendo um dos principais longas-metragens no biênio 2013-2014. O quinto livro de Markus Zusak é narrado em primeira pessoa por uma personagem bem peculiar: a Morte. Já nas primeiras páginas do romance, portanto, o leitor é surpreendido pelo autor australiano com uma narrativa muito original. Afinal, quem imaginou um dia ler o ponto de vista dessa senhora fúnebre sobre seu trabalho e, principalmente, a sua visão sobre a vida humana em nosso planeta?! Tão inusitado quanto a proposta de "A Menina que Roubava Livros" é a forma como a história do livro é construída. A narradora não é o monstro de pessoa que normalmente acreditamos. Ela chega a ser simpática e consegue se emocionar com os homens e as mulheres à sua volta. Neste relato sincero e direto, a Morte apresenta a trajetória de Liesel Meminger. A menina se encontrou com a narradora em três momentos durante o final da década de 1930 e os primeiros anos de 1940. A garota conseguiu escapar em todas as oportunidades. Nesses encontros, Liesel chamou a atenção da senhora de manto negro responsável por levar embora as almas dos seres humanos. Por si só, isso já é uma grande proeza. Imagine a quantidade de seres humanos que a Morte conhece diariamente! De tão impressionada que ficou com a garota, a mórbida narradora resolveu contar a história daquela pequena e frágil vida que gostava de roubar livros. O primeiro encontro entre Liesel Meminger e a Morte aconteceu em 1939. A mãe da menina, uma comunista alemã perseguida pelos nazistas em seu país, resolveu dar o casal de filhos para adoção. Os pais adotivos, Hans e Rosa Hubermann, eram moradores pobres de uma cidade localizada nos arredores de Munique. Eles aceitaram aquela incumbência por dinheiro. Enquanto viajava de trem com a mãe biológica e o irmão menor para sua nova casa e sua nova família, Liesel se depara com a primeira tragédia. Seu irmãzinho morre de frio dentro do vagão, sendo enterrado na primeira parada do trem. Nesse instante, a garota rouba o seu primeiro livro. Trata-se do Manual do Coveiro, obra que era lida pelo assistente do homem que fez o enterro da criança morta pelo frio no trem. É também, aí, que Liesel vê pela primeira a Morte, encarando-a de frente e com certa curiosidade. A tristeza pela morte do irmão é logo depois somada ao trauma pela separação da mãe biológica. Liesel é deixada na casa de Hans e Rosa sem qualquer explicação. Na residência dos Hubermann, ela recomeça sua vida. Hans (chamado logo de pai) é um homem magro, alto, generoso e de grande coração. De dia ele é pintor de residências e à noite aproveita para ganhar uns trocados tocando seu acordeom. É o novo pai de Liesel que ensina a menina a ler e a escrever, construindo rapidamente um forte vínculo com ela. Rosa (chamada depois de um tempo de mãe) mostra-se uma mulher autoritária e brava. Sempre trabalhando (além de dona de casa, ela lava e passa as roupas de algumas famílias abastadas da cidade), Rosa está sempre xingando e discutindo. Esse comportamento e o corpanzil da mulher (ela é muito gorda) assusta Liesel em um primeiro momento, mas depois a menina se acostuma com o jeito bruto da mãe adotiva. A vida da família Hubermann (e de toda a Alemanha nazista) é abalada pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. A infância de Liesel é, assim, passada em meio ao conflito armado (cada vez mais próximo de onde ela mora), à perseguição dos judeus pelos alemães e às privações financeiras e materiais da nação. Enquanto tenta entender os acontecimentos ao seu redor, a menina adquire o hábito de roubar livros. Apaixonada pela literatura, mas sem dinheiro para comprar novas obras, a pequena Liesel e seu inseparável amigo Rudy Steiner passam a cometer alguns pequenos crimes pela cidade. Enquanto o menino busca comida para aplacar a fome que sente, a garota quer encontrar novos livros para aplacar sua fome de conhecimento. "A Menina que Roubava Livros" é daquele tipo de romance memorável. Realmente, trata-se de uma excelente obra. Sua leitura é rápida e muito agradável. Li o livro inteiro em apenas três noites. Ele possui 480 páginas e é dividido em dez capítulos. Cada capítulo é nomeado com o título de um livro roubado por Liesel (ao todo foram dez obras furtadas pela personagem em sua vida). Enquanto conhecemos a história da infância difícil da garota, também sabemos os detalhes de como ela fez para praticar cada um dos roubos. O que faz esta publicação tão interessante? Para começo de conversa, não é todo dia em que a Morte conversa com a gente. A narradora de Zusak é alguém totalmente diferente da imagem feita pelo senso-comum. Ela não é cruel, sórdida, introspectiva e insensível. Pelo contrário! A Morte é simpática, extrovertida e sensível. Em alguns momentos, chega a transparecer seu bom humor. Ela também se preocupa com as almas das pessoas que precisa carregar. Ninguém pensa nisso, mas a Segunda Guerra Mundial não foi um período nada fácil para esta senhora. Ela não teve um segundo de descanso, chegando a reclamar desta sobrecarga de tarefas. Ao invés ser a responsável pela tristeza de grande parte da humanidade, a Morte é na verdade vítima dos homens. Eles é que a fazem trabalhar incansavelmente, forçando-a a levar a vida de milhares de pessoas o tempo todo. Curiosa esta inversão de perspectivas! "Os seres humanos me assombram" é a conclusão memorável que essa senhora chega ao final do livro. A história da infância de Liesel também é incrível. Markus Zusak mostra-se mais uma vez um exímio narrador de tramas e de traumas infanto-juvenis. Seus relatos são sensíveis, emocionantes e íntimos. As vidas pobres, duras e um tanto delinquentes das crianças marginalizadas pela família e pela sociedade adquirem uma beleza poética nas páginas dos livros do australiano. O mesmo ocorre em relação às tristezas, às mortes e às tragédias. Impossível não torcer por estas personagens, mesmo quando brigam, roubam, fogem ou cometem inúmeros erros. Outro aspecto elogiável deste romance é a sucessão de reviravoltas que a história adquire. Em todo capítulo, Zusak consegue surpreender o leitor com o acréscimo de um novo elemento narrativo (um mais interessante do que o outro) ou com uma mudança no enredo. Não pense que este seja um romance convencional sobre Guerra ou sobre os efeitos da Guerra na vida das pessoas. Ele é, em sua essência, um relato direto sobre a infância passada em tempos difíceis. Markus Zusak considera "A Menina que Roubava Livros" uma obra diferente do seu portfólio: "Eu queria escrever algo muito diferente do que tinha escrito antes. A ideia de um ladrão de livros estava em minha cabeça quando escrevi "Eu Sou o Mensageiro", mas não estava pronta para ser escrita. A ideia original ambientava-se no presente, em Sidney, e isso não parecia muito certo. Depois, pensei em escrever sobre as coisas que meus pais tinham visto, ao crescerem na Alemanha nazista e na Áustria, e, quando juntei as duas ideias, a coisa pareceu funcionar, especialmente quando pensei na importância das palavras naquela época, e naquilo em que elas conseguiram levar as pessoas a acreditar, assim como levá-las a fazer". Apesar de respeitar a opinião do autor sobre as diferenças estilísticas deste livro, é possível encontrar muitas semelhanças entre "A Menina que Roubava Livros" e as demais publicações de Zusak. Alguns pontos em comum são: o foco na infância e na juventude de personagens pobres e marginalizadas; a dificuldade de adequação dos protagonistas na sociedade e na família; as aventuras criminosas de personagens que, apesar da aparência rude e dos atos inconsequentes, são pessoas boas e éticas; a beleza poética da realidade difícil e do cotidiano banal; o romantismo acentuado; o ponto de vista bem-humorado do ser humano; e a literatura sendo usada como metalinguagem (história ficcional dentro da história do livro). Por outro lado, as diferenças aparecem na escolha do cenário (Europa ao invés da Austrália), o tempo cronológico da trama (passado ao invés do presente) e o contexto histórico do livro (fatos do ambiente externo afetam diretamente as personagens retratadas e não o contrário). "A Menina que Roubava Livro" é efetivamente o ponto alto da carreira de Markus Zusak até aqui. A excelência desta obra de alguma forma explica a falta de novas publicações por parte do australiano. Zusak está há mais de uma década sem lançar nenhum novo livro. Há quase dez anos ele trabalha em seu próximo romance, "A Ponte de Clay". O escritor é meticuloso na construção de suas histórias. Por exemplo, "O Azarão" (Bertrand), seu primeiro livro e com apenas 176 páginas, demorou sete anos para chegar às livrarias. Zusak diz que está na fase de conclusão de "A Ponte de Clay" e que sua próxima publicação não irá decepcionar seus fãs que há tanto aguardam por novidades. A expectativa do mercado editorial para este lançamento é gigantesca. Os editores do mundo inteiro acreditam que este livro se transforme em um novo best-seller internacional. Agora que concluímos as leituras e as críticas dos cinco romances de Markus Zusak, o próximo passo do Desafio Literário de setembro é montar uma análise completa da literatura deste autor. Esse é o tema do post da próxima quinta-feira, dia 28. Quem quiser conhecer as características dos romances de Zusak é só pintar aqui no Blog Bonas Histórias na semana que vem. Espero você! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarkusZusak #Romance #RomanceHistórico #LiteraturaContemporânea #Drama #LiteraturaAustraliana
- Livros: Eu Sou o Mensageiro - O primeiro romance adulto de Markus Zusak
Nesse final de semana, li o quarto romance do australiano Markus Zusak. "Eu Sou o Mensageiro" (Intrínseca) é um thriller inusitado. O livro possui um enredo despretensioso, mas consegue trabalhar muito bem vários elementos poético-filosóficos em uma trama de mistério e com boa dose de ação. O resultado final é espetacular! Nota-se um autor mais maduro na arte de produzir narrativas e totalmente à vontade no processo da escrita ficcional. Se antes, com suas primeiras publicações, Zusak já tinha convencido como romancista, agora ele mostra algo a mais. Chego à conclusão que ele é realmente um grande escritor, um dos melhores de sua geração. Com o lançamento de "Eu Sou o Mensageiro" em 2002, Markus Zusak deixou para trás, definitivamente, a saga autobiográfica dos irmãos Wolfe, tema dos seus três primeiros livros. A opção pela construção de uma trama completamente nova já se fazia necessária. Por mais interessantes que fossem os dramas de Cameron e Ruben Wolfe, um autor não pode ficar refém de um único enredo. Com isso, o australiano também migrou da literatura infanto-juvenil, categoria de "O Azarão" (Bertrand), "Bom de Briga" (Bertrand) e "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), e passou para a literatura adulta, classificação mais apropriada para esta nova obra. "Eu Sou o Mensageiro" conquistou alguns importantes prêmios na Austrália. O principal deles foi o Prêmio do Livro do Ano da CBC em 2003. O sucesso da obra catapultou a carreira de Markus Zusak em seu país natal. No exterior, contudo, o romance demorou um pouco mais para emplacar. O livro só foi publicado após o sucesso estrondoso, em 2005, do quinto romance de Markus Zusak. Quando "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca) se tornou um best-seller nos quatro cantos do mundo, a literatura do australiano passou a ser requisitada por editores e leitores de muitos países. Assim, a partir de 2006, "Eu Sou o Mensageiro" foi publicado no exterior com grande expectativa do mercado editorial. Todos queriam ler mais obras do autor que escrevera "A Menina que Roubava Livros". Como o romance anterior de Zusak era o mais encorpado e o com uma temática mais adulta, sua escolha pelas editoras internacionais pareceu mais óbvia. No Brasil, para termos uma ideia, "Eu Sou o Mensageiro" chegou às livrarias do país em 2007. Por esse atraso em âmbito global, os prêmios internacionais do quarto livro de Zusak só vieram somente após 2006. O mais relevante deles foi o Printz Honor. Narrado em primeira pessoa pelo jovem Ed Kennedy, um motorista de táxi de dezenove anos, "Eu Sou o Mensageiro" começa com uma cena de assalto a um banco em uma pequena cidade australiana. Um desajeitado ladrão vacila na hora de fugir da agência bancária com o dinheiro surrupiado e é facilmente rendido por Ed. O rapaz estava no local com os amigos e por acaso frustrou as ações do criminoso. No dia seguinte, Ed Kennedy torna-se um herói para a mídia local, sendo reconhecido pelas pessoas na cidade como o corajoso jovem que enfrentou e venceu um perigoso assaltante de banco. O primeiro problema de Ed é que ele não é um herói. Ele se enquadra mais no perfil do jovem fracassado. Ele e todos que o conhecem sabem disso. O rapaz mora sozinho em uma espelunca, tendo como única companhia Porteiro, um velho cachorro que fede muito. Sempre sem dinheiro, ele não quis fazer faculdade e leva uma vida tediosa em sua pequena cidade natal. O pai faleceu há um ano e Ed é desprezado pela mãe, que insiste em vê-lo como um perdedor. Apaixonado pela amiga Audrey, o protagonista não tem coragem de se declarar para ela. Enquanto isso, a moça vai para a cama com todos os rapazes do município, menos com o pobre motorista de táxi. Ed, por sua vez, não consegue uma parceira sexual, permanecendo casto contra a sua vontade. Para completar o quadro tragicômico, os dois melhores amigos de Ed, Marv e Ritchie, são zeros à esquerda. Marv é um mão-de-vaca da pior espécie. Ele acumula uma grande quantia no banco, mas segue usando um carro tão velho que mal sai do lugar. Ritchie, vindo de uma família rica, não sente motivação por nada. Ele não trabalha, não estuda e passa os dias sem realizar nenhuma atividade produtiva ou relevante. Se a vida de Ed já era complicadíssima, ela piora quando o rapaz precisa ir à delegacia, no dia seguinte, para reconhecer o assaltante do banco, preso pela polícia logo após a confusão da véspera. O criminoso promete matar Ed assim que sair da cadeia. A raiva do bandido tem fundamento: o motorista de táxi foi o responsável por ter evitado o roubo e, por consequência, tê-lo metido na prisão. Para desespero de Ed, os jornais, alguns dias depois, noticiam a decisão do juiz para aquele caso. O criminoso pegou uma pena curtíssima, de apenas seis meses. Curiosamente, o narrador-protagonista não consegue nem pensar nesta complicação. Em poucos dias, ele recebe uma carta de baralho com o endereço de três pessoas, assim como os horários em que deve comparecer nestas localidades. Não entendendo porque recebeu aquilo, Ed vai aos endereços indicados. Os três locais abrigam pessoas que precisam de ajuda: uma família que sofre com a violência do pai alcoólatra, uma adolescente que não consegue vencer as corridas atléticas que participa e uma senhora idosa que sente falta do marido falecido há tantos anos. Ed, com seu jeito atrapalhado e confuso, consegue ajudá-los, trazendo algum conforto para aquelas pessoas com dificuldades. Sentindo-se melhor com os gestos altruístas realizados, Ed se surpreende quando uma nova carta chega à sua casa. Ela contém mais três missões. São novas tarefas para ele fazer o bem. Mais pessoas na cidade parecem precisar da colaboração do jovem. A cada carta que ele consegue ajudar os necessitados, uma nova carta de baralho chega para substituir à antiga. Quem estaria por trás daquela maluquice? Quem estava forçando Ed a se tornar mais solidário? A cada pessoa ajudada, o motorista de táxi se enxerga diferente. As transformações de seus comportamentos e de suas atitudes passam a ser percebidas pelos amigos. Até mesmo Audrey nota as mudanças em Ed, vendo o rapaz com outros olhos. Será que o sonho de ter a amiga como namorada será, enfim, materializado? Gostei muito de "Eu Sou o Mensageiro". Trata-se de um romance de suspense interessantíssimo e bastante original. A trama aparenta ser simples no início, mas ela adquire uma intrincada complexidade à medida que vai evoluindo. Novos e ricos personagens são inseridos a todo instante na vida do protagonista, que se torna mais e mais confusa. O livro tem 320 páginas e sua leitura é muito rápida. Em duas tardes, no sábado e no domingo, consegui concluir a obra. O que ajuda na leitura é sua "diagramação generosa". As letras das páginas não são agrupadas nem minimizadas tentando economizar o número de impressões. Pelo contrário. O projeto gráfico é excelente, incentivando a experiência do leitor. A brincadeira do protagonista de receber as cartas do baralho é compartilhada com quem lê o romance. Além de o livro ser dividido em partes de acordo com as cartas recebidas, os capítulos são numerados como um baralho (A, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, J, Q e K). As ilustrações das cartas também enriquem a leitura. A linguagem debochada, as frases curtas e o narrador irônico são um aspecto à parte na literatura de Markus Zusak. Ele escreve como se estivesse conversando com o leitor em um bar. Nesta hora, o narrador-autor não esconde nada de ninguém, expondo seus dramas, suas angústias e suas preocupações mais íntimas. O melhor exemplo disso é quando o protagonista relata que é péssimo na cama. Ele gostaria de ser bom no sexo, mas é uma negação. Os pensamentos de Ed Kennedy fluem naturamente, deixando a leitura muito agradável. Markus Zusak é um contador de história de primeira! Seu texto é saborosíssimo. O mistério da trama vai aumentando capítulo a capítulo até desembocar em um desfecho surpreendente. O final é incrível, um dos melhores que vi neste ano. Além de conseguir espantar o leitor com a razão inusitada que precipitou aquela narrativa, o autor apresenta uma bela lição de moral. A história de solidariedade e de altruísmo do romance é muito sensível e passa longe do pieguísmo que caracteriza normalmente as obras chamadas de autoajuda. Este não é um livro de autoajuda, vale a pena salientar. Porém, essa ficção possui alguns elementos de motivação e, principalmente, que remetem a reflexão do leitor em relação ao tipo de vida que está levando. Muito legal! A trama é leve, mas possui profundidade filosófica. Markus Zusak é especialista em encontrar beleza na banalidade da rotina vazia das suas personagens. Por isso, suas histórias adquirem um caráter poético. Além disso, os protagonistas do australiano estão sempre buscando um sentido para suas vidas. Ed e seus amigos sofrem com a futilidade de suas existências e precisam de ajuda externa para encontrar o que é importante para suas vidas. Ao mesmo tempo em que eles são desajustados socialmente, eles possuem um grande carisma. São personagens legais e bonzinhos, mas que se escondem atrás de rostos bravos, do mau-humor diário, das roupas maltrapidas, dos palavrões e da timidez. São pessoas que se acham fracassadas, mas que possuem um bom caráter. "Eu Sou o Mensageiro" é um ótimo romance. Admito que já estava gostando muito da literatura de Markus Zusak após a leitura de "O Azarão", "Bom de Briga" e "A Garota que Eu Quero". Contundo, a partir de agora, passei a ser fã do escritor australiano. Digo isso antes de ler seu grande sucesso. E por falar nisso, na sexta-feira que vem, dia 22, retorno ao Blog Bonas Histórias para apresentar a análise crítica de "A Menina que Roubava Livros", o best-seller de Zusak. O Desafio Literário de setembro vai se aproximando de sua conclusão. Não perca dos próximos posts. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarkusZusak #Romance #Suspense #RomancePolicial #LiteraturaAustraliana
- Filmes: It, A Coisa - Regravação do clássico de Stephen King
Nesse feriado de 7 de setembro, entrou em cartaz nos cinemas brasileiros "It - A Coisa" (It: 2017), a nova adaptação para as telonas do romance homônimo de Stephen King. O livro do norte-americano foi publicado em 1986 e foi transformado em filme para a televisão quatro anos mais tarde. O longa-metragem "It - Uma Obra-prima do Medo" (It: 1990) fez muito sucesso tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil no início da década de 1990. Apesar da ótima aceitação do público, sua qualidade deixou muito a desejar. Ele se parecia mais com uma produção B do que com uma produção de alto nível. Desta vez, o resultado final foi completamente diferente. O novo filme está excelente, mantendo a maioria dos aspectos da história original e conferindo muito medo à plateia. Ainda bem que alguém resolveu realizar um bom trabalho com um dos romances mais marcantes do "Mestre do Terror". Sem sombra de dúvida, temos aqui um dos melhores longas-metragens de suspense e de terror do ano. E temos também um novo filme entre as melhores adaptações para o cinema do vasto portfólio do escritor norte-americano mais vendido da atualidade. Para mim, "It - A Coisa" é a história que possui mais a cara de Stephen King. Outros romances do autor podem ter alcançado mais sucesso nas livrarias ("Carrie, a Estranha", "Dança da Morte" e a série "A Torre Negra"), alguns podem ter sido desenvolvidos com mais qualidade literária ("A Zona Morta", "À Espera de um Milagre" e "Sob A Redoma") e outros podem ter tido maior êxito ao migrarem para o cinema ("O Iluminado", "Louca Obsessão" e "Um Sonho de Liberdade"), mas aquela narrativa que carrega os elementos mais característicos do estilo de Stephen King (principalmente os da sua primeira fase literária, quando o terror era a base dos enredos) é "It". A nova produção cinematográfica de "It - A Coisa" contou com um orçamento de US$ 60 milhões e teve a direção do conceituado Andy Muschietti, cineasta argentino especializado em filmes de terror. Em Hollywood, Muschietti ainda é um novato. Ele fez apenas um filme, o ótimo "Mama" (2013), mas na Argentina ele produziu vários filmes e séries para a televisão local. O elenco desse longa-metragem é formado em sua maioria por atores jovens, mas com uma boa rodagem nos sets de filmagem. Destaque para o talentosíssimo sueco Bill Skarsgård, da "A Série Divergente - Convergente" (The Divergent Series - Allegiant: 2016), do seriado televisivo "Hemlock Grove" (2013-2015) e de Anna Karenina (2013). Skarsgård deu vida ao vilão Pennywise com maestria, em uma das atuações mais aterrorizantes dos últimos anos. Completam o elenco principal Jaeden Lieberher, de "Destino Especial" (Midnight Special: 2016), Finn Wolfhard, da série "Strander Things" (2016-2017), Jack Grazer, da série "Tales of Halloween" (2015), Wyatt Oleff, de "Guardiões da Galáxia" (Guardians Of The Galaxy: 2014), Chosen Jacobs, da série "Hawaii Five-0" (2010-2017), Sofia Lillis, de "The Garden" (2016) e "37" (2016) e Jeremy Taylor, de "Alvin e os Esquilos - Na Estrada" (Alvin And The Chipmunks - The Road Chip: 2015). A trama de "It - A Coisa" se passa (como quase sempre acontece em se tratando de histórias de Stephen King) em uma cidade do Maine, estado situado no extremo nordeste do território norte-americano. O nome do fictício município é Derry, palco também dos romances "Insônia" (Suma das Letras), "Saco de Ossos" (Suma das Letras) e "O Apanhador de Sonhos" (Suma das Letras). O filme se passa no final da década de 1980. Em uma tarde chuvosa, o adolescente Bill Denbrough (Jaeden Lieberher) faz um barco de papel para Georgie (Jackson Scott), seu irmãozinho caçula. O menino queria aproveitar a chuva para "brincar de marujo" pelas águas que desciam pelas canaletas das ruas. Seu barquinho de papel navegaria naturalmente, sendo levado pela enxurrada. Como estava muito resfriado, Bill não pode acompanhar o irmão menor naquela "aventura". Assim, Georgie parte pelas alagadas ruas da cidade, brincado sozinho e alegremente com seu barquinho. A cena é bonita e encantadora. A diversão, entretanto, é interrompida quando o brinquedo cai em um bueiro. Ao tentar recuperar o barco de papel, Georgie encontra uma misteriosa criatura alojada no bueiro. Trata-se de alguém vestido de palhaço e que se apresenta como Pennywise (Bill Skarsgård). Pennywise tenta fazer amizade com o menino, porém, na primeira oportunidade, devora a criança com ferocidade. Georgie é mutilado e, depois, arrastado para dentro do bueiro, desaparecendo tragicamente para sempre. Um ano depois do acidente, a cidade sofre com uma bizarra epidemia. Dezenas de crianças desaparecem misteriosamente sem deixar rastros. Intrigado com aquilo e ressentido pela ausência do irmão caçula, Bill organiza uma busca pelo sistema de esgoto do município. Aproveitando-se da chegada das férias escolares de verão, ele lidera seu grupo de amigos na procura por Georgie. O adolescente acredita que seu irmão ainda esteja vivo, perdido em algum lugar na tubulação de saneamento de Derry. O grupo de amigos de Bill se autointitula "Clube dos Perdedores". Todos os integrantes são alvos de zombaria e de bullying na escola. Temos ali o garoto gago, o hipocondríaco mimado pela mãe, o medroso de óculos de alto grau que não para nunca de falar e o judeu. Ao longo do filme, o grupo aumenta. Integram-se à trupe o gordinho, o menino negro e a moça mal falada na cidade. Esse septeto terá a incumbência de descobrir o que tem de tão errado em Derry. Por que tantas crianças da localidade somem sem explicação lógica? Além de investigar o que aconteceu com Georgie e iniciar uma batalha assustadora contra Pennywise, o "Clube dos Perdedores" precisará enfrentar as maldades de um bando de cruéis rapazes mais velhos. Os perigos que o grupo de Bill passará, portanto, vão do concreto bullying escolar à maldição sobrenatural que paira sobre a cidade desde a sua fundação. Ou seja, é aventura de sobra para um grupo de adolescentes que mal consegue realizar as atividades banais do seu cotidiano. "It - A Coisa" é um excelente filme de terror por cinco motivos simples: sua história é ótima, seus personagens são divertidos e carismáticos, atuação do diretor e dos atores beira a perfeição, há muitas cenas engraçadas e, acima de tudo, o longa-metragem consegue assustar de verdade os espectadores na sala de cinema. Não poderia haver pacote melhor para ser entregue à plateia que é aficionada pelos romances de King e/ou por filmes de terror. Como integro, orgulhosamente, as duas categorias, sou suspeito a falar... A primeira característica de "It" (sua ótima história) é fruto da combinação da criatividade de Stephen King (por ter criado uma bela trama) e do excelente trabalho da dupla de roteirista Cary Fukunaga e Gary Dauberman. Os roteiristas conseguiram fazer as adaptações certas, mantendo boa parte da essência e do clima do romance. A combinação desses dois ingredientes (excelente história e adaptação cirúrgica) transformou o enredo do filme em uma narrativa sensível, interessante e peculiar. O trabalho de Fukunaga e Dauberman foi muito elogiado pelo próprio Stephen King (que não poupa nas críticas quando não gosta do que vê na tela). Segundo o romancista, o longa-metragem é diferente do seu best-seller, mas, manteve suas principais características. Concordo plenamente. Todas as mudanças feitas têm uma explicação plausível e não prejudicam o filme como um todo. Outro elemento que precisa ser destacado é a ótima composição das personagens. O "Clube dos Perdedores" tem um elenco riquíssimo. Estão ali o garoto gago, o gordinho, o judeu, o rapaz negro, o hipocondríaco, o extrovertido e a menina mal falada. O carisma, os medos e a união dessa turma são contagiantes. De tanto sofrerem com os preconceitos da sociedade, da família e dentro do próprio grupo, a garotada se sentirá forte para enfrentar as maldades de Pennywise. A força daquele clube está, evidentemente, em seu coletivo. Nunca um bando de garotos bobocas e medrosos foi tão poderoso. Esse paradoxo é retratado de uma maneira bem divertida no longa-metragem, rendendo boas risadas. Todos os jovens atores estão muito bem em seus papéis. Eles conseguem emocionar a plateia com seus dramas e com os desafios que precisam encarar. Neste sentido, a direção de Andy Muschietti é impecável. O filme de duas horas e quinze minutos passa muito rapidamente. A impressão que temos é que ele tem pouco mais de uma hora de duração. O bom roteiro também ajudou sensivelmente nessa fluidez da produção. Quanto a Bill Skarsgård, ele dá um show de interpretação como o grande vilão da trama. Seu Pennywise é realmente assustador. Para ficar com medo desse antagonista, não é preciso nem vê-lo na tela. Somente sua voz já é causadora de arrepios. Impressionante o que o ator sueco de 27 anos consegue fazer em cena. O quarto componente muito interessante de "It - A Coisa" é o bom humor do filme. Ao mesmo tempo em que estão diante dos perigos impostos por Pennywise, os integrantes do "Clube dos Perdedores" não perdem nunca a graça e a ingenuidade infanto-juvenil. O medo dos rapazes torna o enredo ainda mais divertido. É cômico ver um grupo de jovens desengonçados, medrosos, atrapalhados e pouco confiantes lidando com uma "coisa" tão aterrorizante e poderosa. Achei o filme com uma pegada humorística que não me lembrava de ter visto no livro. Para completar, o enredo brinca com vários elementos típicos do final dos anos de 1980. Quem viveu aquela época irá se lembrar de várias passagens inusitadas do período. E quanto ao aspecto terror? Em relação a isso, "It" não deixa nada a desejar às melhores produções do gênero lançadas nos últimos anos. O filme se sai muitíssimo bem. É possível sim sentir medo e muita agonia em boa parte do longa-metragem. Do começo ao final, a tensão impera na plateia. Admito que levei vários sustos durante a exibição do filme. Fiquei arrepiado em duas ou três oportunidades durante a sessão (na minha escala, esse é o nível máximo de medo que chego). E olha que eu já conhecia a trama de Stephen King. Fiquei imaginando o quanto de medo a mais poderia sentir quem não conhecia o enredo... É verdade que o estilo de terror de "It - A Coisa" é, hoje em dia, o mais banal e corriqueiro possível. As cenas de crianças fugindo de um monstro sobrenatural, a figura diabólica de um palhaço, a ação ambientada em uma casa abandonada ou em porões assustadores e a maldição histórica que atinge uma localidade são encontradas com frequência tanto na literatura quanto no cinema. Então, qual é o apelo deste filme? Sinceramente, não sei explicar. Mesmo usando e abusando de clichês (muitos deles se acoplaram à cultura popular por méritos de Stephen King - lembremo-nos da ira dos palhaços norte-americanos na época do lançamento do romance), ainda sim a plateia consegue ficar hipnotizada com a bela história narrada. O medo que sentimos é genuíno e provocado pela torcida desesperada pelo sucesso dos carismáticos personagens adolescentes. Incrível notar como ingredientes tão simples e comuns podem, até hoje, se transformar em uma ótima trama de terror. Apenas no final do filme, somos informados que este longa-metragem aborda apenas a primeira fase da história. "It - A Coisa" é dividido em duas partes: uma acontece no final da década de 1980, quando os protagonistas são adolescentes, e outra que se passa 30 anos depois, quando todos já estão adultos. "It - A Coisa, parte II" deverá chegar aos cinemas em 2018. Com certeza, será um lançamento muito aguardado pelos fãs de King e dessa clássica trama de terror. Veja o trailer da nova versão de "It - A Coisa": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #StephenKing
- Livros: A Garota que Eu Quero - A última parte da trilogia de Markus Zusak
Li, no domingo retrasado, o livro "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), o terceiro romance publicado por Markus Zusak. Com isso, posso dizer que completei a trilogia inicial da carreira do escritor australiano em apenas um final de semana. Afinal, li "O Azarão" (Bertrand) na sexta à noite e "Bom de Briga" (Bertrand) no sábado à tarde, ambos já analisados no Desafio Literário deste mês. Essas duas obras são, respectivamente, a primeira e a segunda publicações da série dos irmãos Wolfe, saga que tem seu desfecho exatamente em a "A Garota que Eu Quero". Dá para ler os livros da trilogia de maneira independente, porém há sim perda de alguns aspectos narrativos. Como eles são romances curtos, de poucas páginas ("O Azarão" tem 176, "Bom de Briga" possui 208 e "A Garota que Eu Quero" tem 176 páginas), apresentam uma leitura fácil e suas histórias começam aonde a anterior terminou, o ideal é o leitor lê-los em sequência. Foi o que fiz e, por isso, recomendo. Desta maneira, os pontos do enredo que amarram toda a trama estão mais presentes na memória do leitor e ganham vida ao longo de toda a história. É provável que a série pudesse ter sido publicada inteira em um único livro. Assim, teríamos um grande (e excelente) romance ao invés de três pequenas (e boas) obras. Porém, Markus Zusak e sua editora não acreditaram, na época do lançamento, que essa opção seria a melhor do ponto de vista mercadológico. Além disso, o jeito meticuloso do autor produzir suas narrativas acabaria atrasando ainda mais a publicação de um livro maior e com a história toda consolidada. Assim, a trama inteira dos Wolfe ganhou três livros que chegaram aos poucos às livrarias australianas. "A Garota que Eu Quero" foi lançado em 2001 e conquistou, em 2003, o Prêmio CBCA Children's Book, concedido a melhor obra de literatura infanto-juvenil da Austrália. Vale lembrar que "O Azarão" e "Bom de Briga" já tinham ganhado esta premiação nos anos anteriores. Neste momento da carreira, Markus Zusak era reconhecido em seu país natal como um exímio autor da literatura infanto-juvenil. Ele só iria se tornar um escritor com maior apelo literário (leia-se escritor de romances adultos) com a publicação da obra seguinte, "Eu Sou o Mensageiro", em 2002. Mesmo assim, o sucesso internacional ainda demoraria alguns anos para chegar, só acontecendo com a publicação, em 2005, do best-seller "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca). O enredo de "A Garota que Eu Quero" não começa exatamente onde a história de "Bom de Briga" parou. O intervalo narrativo entre uma trama e outra é de um ano. Neste período, a vida na casa dos Wolfe melhorou substancialmente. Clifford Wolfe, o patriarca, voltou a trabalhar normalmente como encanador, conseguindo sustentar a família. A Sra. Wolfe continua trabalhando muito como empregada doméstica, porém sem tanta pressão. Ela não é mais a única fonte de renda da família. Sarah tornou-se mais responsável e abandonou as noites de bebedeira e de boemia. A jovem também trabalha. Ruben deixou de lado a rebeldia juvenil e passou a ser um rapaz dedicado e trabalhador, apesar de muito namorador. Steve, o irmão mais velho, está vivendo sozinho e tem uma carreira profissional bem-sucedida. Aparentemente as coisas estão perfeitas na casa dos Wolfe. Aparentemente... O único que apresenta agora uma vida complicada é o caçula, Cameron. O protagonista e narrador da história é um rapaz de dezesseis anos que vive de maneira solitária e introspectiva. Ele não trabalha regularmente, estuda pouco, não tem amigos, não consegue arranjar uma namorada e sua principal diversão é caminhar pelas ruas da cidade. Ou seja, continua andando maltrapido e com o cabelo bagunçado, como se fosse um mendigo. Seu grande amor é Stephanie, uma garota que apareceu brevemente no romance anterior e que humilhou o protagonista (além de ter dado em cima do irmão dele). Não podemos dizer que Stephanie despreze Cameron no presente porque ela simplesmente não se lembra dele. Nunca mais os dois se falaram. Mesmo assim, Cameron não a esqueceu e continua amando-a platonicamente. Cameron gosta de ficar sentado na frente da casa de Stephanie observando o movimento no interior da residência. Seu sonho é que um dia a moça apareça para saudá-lo e convidá-lo para entrar. Isso, porém, nunca acontece. Mesmo assim, ele permanece visitando o lugar regularmente. Cameron é, no sentido afetivo, totalmente diferente do irmão Ruben, seu grande parceiro e confidente. Ruben é charmoso, corajoso e pouco romântico. Ele está sempre com uma namorada nova. Depois de um tempo com a mesma garota, Ruben se enjoa dela e a troca por uma mais bonita, magoando assim os sentimentos da moça anterior. O caçula, por sua vez, é do tipo romântico. Ele quer encontrar a garota certa e definitiva. Sua maior preocupação é não magoar o coraçãozinho dela. Porém, ele jamais consegue chegar perto de uma mulher, não sabendo o que fazer para iniciar um namoro. Ao longo de "A Garota que Eu Quero", os sentimentos de Cameron sofrem duplamente. Primeiramente, ele descobre que sua família o vê como um zero a esquerda. Enquanto todos da casa deram a volta por cima e progrediram de alguma maneira nos últimos 365 dias, ele continua sendo o rapaz fracassado de antes. Isso o magoa. Além do mais, Cameron se apaixona por Octavia, uma garota bonita e divertida. O problema é que ela é uma ex-namorada de Ruben. O que será mais importante para o protagonista: o amor por Octavia ou a parceria histórica com o irmão? Gostei muito deste romance. Sinceramente, não sei qual obra é melhor: se esta ou a anterior ("O Azarão" está em um nível abaixo em relação as suas continuações). Se "Bom de Briga" tinha mais ação e sua narrativa focalizava os dramas financeiros da família e as crises existenciais de Ruben e Cameron, "A Garota que Eu Quero" retorna ao romantismo do caçula e às suas dificuldades de inserção na família e na sociedade (algo visto com menor intensidade dramática no primeiro volume da trilogia). "A Garota que Eu Quero" mostra com grande dramaticidade e com certa beleza poética as dificuldades de um adolescente em adentrar a vida adulta. Tudo parece ser um drama sem fim para o rapaz de dezesseis anos: a atração pelo sexo oposto, a iniciação sexual, a criação de uma identidade própria, a aquisição da autoestima, a busca pelo emprego e pela aptidão profissional, a constituição dos valores morais do indivíduo, a ocupação do seu espaço no âmbito familiar e a fidelidade para com o irmão. Curiosamente, esses aspectos da vida juvenil são retratados por Markus Zusak com realismo e muita sensibilidade. Há inúmeros elementos autobiográficos na saga de Cameron Wolfe, o que torna seus relatos ainda mais autênticos e bonitos. Raramente a complexidade e as dificuldades da adolescência se mostraram com tanta beleza nas páginas de uma obra literária. Outro elemento que mexe com o leitor é o tipo de escrita de Zusak. O australiano possui um texto leve e direto. Ele escreve como se estivesse conversando com a gente. O escritor expõe de maneira sincera os medos e as preocupações do protagonista-narrador, não se censurando nem escondendo nada de quem lê as páginas do romance. As frases curtas também dão grande charme ao texto. A impressão é que estamos realmente diante de um adolescente tímido, com dificuldade de se expressar. Impossível não acreditar que o narrador seja mesmo Cameron. Também gostei da alternativa encontrada pelo romancista para apresentar a descoberta da literatura na vida da personagem principal. Se no final de cada capítulo de "O Azarão" e "Bom de Briga" tínhamos, respectivamente, os sonhos de Cameron e suas conversas noturnas como o irmão Ruben, agora temos acesso aos textos ficcionais produzidos pelo protagonista. Vemos nascer um escritor, o que faz a realidade e a ficção se misturarem ainda mais. O único aspecto negativo de "A Garota que Eu Quero" está na escolha de uma tradutora diferente do restante da série literária. Como os direitos de publicação dessa obra no Brasil é de uma editora diferente (Intrínseca) daquele que lançou "O Azarão" e "Bom de Briga" (Bertrand), houve a troca da tradutora (saiu Ana Resende e entrou Vera Ribeiro). Notam-se, assim, algumas alterações no enredo da trama. Por exemplo, antes as personagens jogam futebol. Agora, os jogos são de futebol americano. Antes, o Sr. Wolfe era encanador. Agora, sua profissão é bombeiro hidráulico. São pequenas mudanças que não afetam a integralidade do texto, mas que não respeita a continuidade histórica da narrativa. Um leitor mais atento pode notar essas alterações na narrativa e se incomodar. Com o fim da história de Cameron Wolfe, já me preparo para ler um novo romance de Markus Zusak, dando sequência ao Desafio Literário de setembro. No próximo final de semana, lerei "Eu Sou o Mensageiro", quarto livro publicado por Zusak e que apresenta uma trama totalmente distinta da narrada até aqui. Estou curioso para saber o que o escritor australiano nos reservou. Retorno aqui no Blog Bonas Histórias na segunda-feira, dia 18, para postar minha análise dessa outra obra. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Livros: Bom de Briga - O segundo romance de Markus Zusak
"Bom de Briga" (Bertrand) é o segundo romance da carreira de Markus Zusak. Esta obra dá continuidade à história apresentada em "O Azarão" (Bertrand). O livro de estreia do autor australiano já foi analisado na semana passada aqui no Desafio Literário. Nesta sua segunda publicação, Zusak volta a retratar os dramas enfrentados pela família Wolfe. No centro dos acontecimentos estão Cameron e Ruben, os filhos caçulas do clã, que possuem uma adolescência conturbada. Cameron, de quinze anos, narra em primeira pessoa os episódios que envolvem seus familiares. O início desta trama se passa poucos meses após o término da história de "O Azarão". Por isso, é aconselhável lê-los em sequência. Foi o que fiz no final de semana passado. Li um romance na sexta à noite e o outro no sábado à tarde. Apesar de ser um prolongamento natural do livro anterior, "Bom de Briga" é ainda melhor do que seu antecessor. As aventuras de Cameron e de seu irmão Ruben tornam-se agora mais perigosas, emocionantes e comoventes. Se a obra de estreia de Markus Zusak pode ser classificada como um bom livro sobre a juventude contemporânea, esta segunda parte da trilogia da família Wolfe deve ser descrita como sendo um excelente romance sobre os dramas juvenis. Publicado em 2000 e tendo 208 páginas, "Bom de Briga" mantém quase todas as características narrativas e estilísticas de "O Azarão", além da evolução do seu enredo. A saga dos Wolfe é completada com "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), livro lançado no ano seguinte. Assim, fecha-se a trilogia da dupla de irmãos Cameron e Ruben e seus complicados familiares. Assim como já havia acontecido com "O Azarão" (em 2000) e viria ocorrer com "A Garota que Eu Quero" (em 2003), "Bom de Briga" conquistou, em 2001, o Prêmio CBCA Children's Book, concedido a melhor obra de literatura infanto-juvenil da Austrália. Apesar de não apresentar uma história nova, Markus Zusak mostrava à crítica uma capacidade ainda maior de emocionar o público. Estava provado que sua estreia exitosa não fora sorte de principiante. O australiano era sim um ótimo escritor. "Bom de Briga" começa com todos os integrantes da família Wolfe passando por sérias dificuldades. A maior delas é de ordem financeira. O pai, encanador, sofreu um acidente de trabalho e não consegue mais arranjar serviço. A mãe passou a trabalhar como faxineira em um hospital para ganhar mais dinheiro. Agora, passa mais tempo fora de casa do que com seus parentes. Mesmo assim, as condições familiares naquela residência são dignas de pena. Os quatro filhos do casal pouco podem fazer para ajudar os pais a equilibrar as contas. Steve, o filho mais velho, está com o pé quebrado, precisando ficar em casa de molho por alguns meses. Ele se machucou jogando futebol em um final de semana. Apesar de ser extremamente responsável e trabalhador, o rapaz não pode fazer nada para ajudar em casa. A filha Sarah, por sua vez, está cada vez mais deprimida. Cada vez que um novo namorado a abandona, ela se entrega mais à bebida e à boemia. Com isso, passa a ser mal falada no bairro. À procura de afeto, ela se joga nos braços de qualquer um, o que aumenta ainda mais suas frustrações e suas decepções amorosas. Diante de tantas adversidades, Ruben e Cameron, os irmãos menores e adolescentes, se veem na obrigação de contribuir com as finanças domésticas. Primeiro, a dupla tenta investir seus parcos recursos apostando em corridas de cachorro. Obviamente, não são bem-sucedidos. Depois, aceitam a proposta de um empresário local para serem lutadores de boxe amador. Os jovens partem para disputar um campeonato clandestino de lutas pela cidade. A remuneração parece boa, porém os perigos que a dupla irá passar também são grandes. Eles só ganham dinheiro se vencerem as lutas. Se "O Azarão" já possuía uma boa trama, "Bom de Briga" é ainda melhor por intensificar a dramaticidade do enredo. A história tem mais densidade e possui muito mais ação. As personagens são postas à prova em todos os momentos. Elas precisarão lutar contra o destino difícil que as espreita. A impressão que tive é que a primeira obra serviu de preparação para a segunda. O novo livro deixa de lado o romantismo para concentrar sua força narrativa nos dramas das personagens principais. Cameron precisa lidar com a alegria do sucesso do irmão Ruben, agora um lutador vitorioso, enquanto encara seu próprio fracasso como boxeador. Além disso, a mudança de status do irmão mais velho provoca reflexões no narrador. O antigo Ruben está morrendo para surgir um novo, mais confiante e decidido. Enquanto o caçula continua procurando seu papel na sociedade e em casa, Ruben parece já ter encontrado. O relato de Cameron Wolfe é sincero e muito sensível. Feito por frases curtas, o texto dá um ar infantil à narrativa. Por outro lado, o complexo drama pessoal e familiar em que o protagonista está envolvido vai apagando, pouco a pouco, toda a sua ingenuidade e sua inocência. O garoto vai amadurecendo na marra, se transformando em homem. A adolescência fica para trás, sem deixar qualquer vestígio de nostalgia ou de beleza. A banalidade do cotidiano familiar também chama a atenção e ganha contornos poéticos. A vida simples e honesta levada naquela residência torna-se bela e com um colorido especial aos olhos do leitor. Assim, Markus Zusak joga luz para a luta diária dos Wolfe, que encaram as adversidades e não desistem de dar a volta por cima. Todos os integrantes da família, por maior número de defeitos que possuem, ainda sim cativam o leitor. É impossível não gostar deles e não se sensibilizar com suas agruras cotidianas. A grande diferença deste romance é que não estamos mais diante de crianças ingênuas, inconsequentes e passivas como em "O Azarão". Agora, Cameron e Ruben se tornam senhores dos seus narizes e tentam descobrir um propósito para suas vidas. Eles enfrentarão quaisquer obstáculos para provarem seu valor. E, para desespero dos seus pais, é em cima de um ringue de boxe que isso acontecerá. Curiosamente, é neste livro que descobrimos o motivo do título do romance anterior da série. "O Azarão" é nome artístico de Cameron no campeonato clandestino de boxe, enquanto "Bom de Briga" é o apelido do seu irmão Ruben. Outra grande mudança do romance "O Azarão" para o livro "Bom de Briga", além da diminuição do romantismo, da perda da inocência dos protagonistas e da maior densidade dramática das situações narradas, está na ausência de elementos oníricos. Cameron deixa de sonhar no final de cada capítulo (indicando mais uma vez seu amadurecimento e sua chegada ao mundo adulto). Por outro lado, ele passa a conversa com Ruben no final de cada capítulo. Essas conversas são sempre feita à noite, antes dos irmãos dormirem (eles dividem o mesmo quarto). Neste bate-papo feito no escuro, cada um dos adolescentes mostra seus medos, suas aspirações e suas inseguranças. As cenas nas arenas de boxe também são muito boas. O leitor sente as angústias, a adrenalina e as emoções das personagens. As alegrias e as tristes dos lutadores podem mudar em questão de segundos. "Bom de Briga" é um livro muito gostoso de ler. Sua leitura é fácil e muito rápida. Acho que o concluí em pouco mais de quatro horas. Uma vez que você começa, não quer parar. A sensação é que o narrador está conversando com você, expondo seus pensamentos, crenças e aflições. Assim que cheguei à última página deste livro, tive vontade de começar imediatamente a leitura de "A Garota que Eu Quero", a terceira publicação da trilogia. Só não o fiz naquele momento porque já era noite e eu precisava sair. Porém, na manhã seguinte já estava com a nova obra aberta em minhas mãos. Markus Zusak tem a capacidade de criar personagens carismáticos e tramas emocionantes, que viciam a gente. Adorei os Wolfe e sua complicada vida doméstica. Para quem ficou curioso(a) para saber como é "A Garota que Eu Quero", eu volto aqui no Blog Bonas Histórias, na quinta-feira, dia 14, para analisar o terceiro livro da série dos irmãos Wolfe. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarkusZusak #LiteraturaInfantojuvenil #Romance #Drama #LiteraturaAustraliana
- Exposições: Wanda Pimentel Envolvimentos - O início da carreira da pintora carioca
O MASP, Museu de Arte Moderna de São Paulo, está neste momento com uma programação incrível. Visitei nas últimas semanas o espaço e encontrei algumas interessantes surpresas. Fui atraído ao local, admito, única e exclusivamente pela mais completa exposição de Henri de Toulouse-Lautrec já montada em nosso país. "Toulouse-Lautrec em Vermelho" continua sendo a grande atração do museu paulistano (e foi tema de um post publicado no Blog Bonas Histórias em julho). Porém, a coleção de obras do artista francês não é a única boa mostra em cartaz no MASP. Eu também fiquei maravilhado com "Wanda Pimentel Envolvimentos". Apesar de menor e apresentada de forma um tanto tímida no mezanino do primeiro subsolo, a exposição da pintora carioca exibe de maneira inovadora e bem peculiar um retrato crítico da condição feminina durante a década de 1960. Para quem já conhece Wanda Pimentel e seu trabalho, essa mostra em cartaz em São Paulo é uma ótima oportunidade para ver pessoalmente algumas obras emblemáticas do período mais produtivo da artista. Para quem não conhece a pintora e suas telas, essa é a melhor ocasião para ser apresentado ao criativo estilo de Pimentel. "Wanda Pimentel Envolvimentos" apresenta, pela primeira vez, um conjunto de telas da fase inicial da carreira da pintora, uma das mais marcantes artistas cariocas da segunda metade do século XX. Ao todo são 27 pinturas da série "Envolvimento", o mais famoso trabalho de Pimentel. A maior parte das telas foi pintada na segunda metade da década de 1960, mas há exemplares datados até 1984. O que chama a atenção logo de cara neste trabalho de Wanda Pimentel é a mistura da abstração geométrica com a representação da mulher no cotidiano doméstico. Com poucas e fortes cores (predomínio do verde, do vermelho e do amarelo, além do branco e do preto) e uma evidente influência da arte figurativa, mais precisamente da arte pop norte-americana da metade do século XX, a carioca conseguiu dar graça e beleza às formas abstratas e geométricas. Repare que todas as telas retratam uma mulher. A figura feminina é apresentada apenas pelas pernas e pelos pés, em uma posição de informalidade e de banalidade cotidiana. Ela está inserida em ambientes residenciais: quarto, sala, cozinha, banheiro, sala de costura e na garagem. As tarefas domésticas permeiam a vida desta mulher (louça para lavar, banho por tomar, roupas para vestir e comida por fazer). O enquadramento das cenas é o mais original possível, ficando mais evidente pelo uso de formas sintéticas, pelas linhas precisas (ora curvas, ora retas) e pela esquematização geométrica. O resultado é a fragmentação aparentemente confusa do corpo feminino e da residência por ele habitado. A impressão é que os dois elementos (a mulher e a casa) se fundem em uma coisa só. O colorido dos quadros, a unidade estilística de Pimentel e a força narrativa das telas ficam mais evidentes para quem os aprecia em conjunto. Talvez o apelo visual não fosse tão intenso se esses quadros não estivessem expostos todos juntos como aqui. De longe, já é possível ver a ebulição de formas e de cores primárias, chamando a atenção dos olhos mais curiosos. Foi o que me atraiu para esta mostra. Reconheço que minha visão foi a responsável por conduzir meus pés até "Wanda Pimentel Envolvimentos". Por esta perspectiva, a escolha do mezanino do primeiro subsolo do prédio do MASP se mostrou acertada (apesar da qualidade da exposição merecer um local de maior destaque). Impossível passar pelo andar e ficar indiferente à força expressiva daquelas telas. O pioneirismo de Wanda Pimentel esteve em criticar, através de sua arte, a posição subalterna da mulher na sociedade brasileira entre o final dos anos de 1960 e o início da década de 1970. Em meio à censura política imposta pelos militares, diante do predomínio masculino no ambiente de trabalho e aproveitando-se da urbanização que o país passava, a artista carioca expôs a vida reclusa, caótica e banal da maioria das brasileiras. O cenário doméstico era uma prisão para a mulher com grandes aspirações profissionais e sociais. Assim, por mais colorido e florido que parecesse o ambiente doméstico (visão machista), por mais equipamentos e objetos que fossem dados a esta mulher (evidenciando o consumismo) e por mais banais que fossem as cenas retratadas (futilidade da vida feminina contemporânea), a realidade dentro de casa não era muito diferente do cotidiano de um prisioneiro em sua cela. A beleza das imagens e o colorido das formas podem atenuar um pouco a impressão crítica do trabalho de Wanda Pimental, porém eles não podem excluir a veia ácida e o tom ideológico de suas representações. Com esse entendimento histórico (compreendendo como a mulher era tratada há cinquenta anos em relação à sexualidade e ao seu papel na família, no mercado de trabalho e na sociedade como um todo), "Envolvimento" é uma coleção artística de uma riqueza inestimável. Além de lindos quadros, a série de Wanda Pimentel apresenta um rico panorama cultural de uma importante época do nosso país. Reserve pelo menos meia hora para percorrer com calma as 27 telas da mostra. A exposição "Wanda Pimentel Envolvimentos" ficará em cartaz no MASP (Av. Paulista, 1.578 - Bela Vista) até o dia 17 de setembro. Ou seja, quem quiser ver as telas da artista carioca precisará correr, pois só restam nove dias. O Museu de Arte de São Paulo abre de terça a domingo das 10h às 18h. Às quintas-feiras, ele fica aberto até um pouco mais tarde (até às 20h). O ingresso custa R$ 30,00 para a visitação de todas as exposições em cartaz (às terças-feiras, a entrada é gratuita). Assim, uma dobradinha interessante é ver as exposições "Toulouse-Lautrec em Vermelho" e "Wanda Pimentel Envolvimento". Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Exposição #Mostra #Pintura #WandaPimentel
- Livros: O Azarão - A estreia literária de Markus Zusak
Na semana passada, comecei as leituras das obras do Desafio Literário de setembro. Posso dizer que meu final de semana foi com muito Markus Zusak, o mais bem-sucedido escritor australiano da atualidade. Na sexta-feira à noite, li "O Azarão" (Bertrand), romance de estreia de Zusak. No sábado e no domingo, as opções foram, respectivamente, "Bom de Briga" (Bertrand) e "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca). Como os três romances são curtos, muito agradáveis e integram uma trilogia (descrevem os dramas da família Wolfe), não foi nada difícil concluir esta tarefa. Hoje, vou comentar apenas "O Azarão". Nos próximos dias, repetirei a dose com o restante da série. "Bom de Briga" será o tema principal do post do próximo domingo, dia 10, enquanto "A Garota que Eu Quero" será o assunto do post da quinta-feira da próxima semana, dia 14. Publicado em 1999, "O Azarão" foi fruto do trabalho de sete anos do jovem escritor. Na época do lançamento deste livro, Markus Zusak tinha vinte e quatro anos de idade. De cunho autobiográfico, o romance retrata, de maneira ficcional, um pouco da infância do autor passada no subúrbio de Sidney. Vindo de uma família pobre, Markus descreve a dureza financeira dos pais, as brincadeiras com o irmão mais velho, as partidas de futebol com os amigos, as lutas de boxes travadas no quintal de casa, as descobertas amorosas e, principalmente, as travessuras juvenis. É um livro sobre a infância e a entrada de um garoto na adolescência. A receptividade da crítica australiana foi muito positiva. Logo de cara, Markus Zusak conquistou o Prêmio CBCA Children's Book, um dos mais importantes voltados para a literatura com temática infanto-juvenil. O sucesso no cenário nacional o fez prosseguir com a história da família Wolfe, transformando o pequeno romance na primeira parte de uma trilogia. Narrado em primeira pessoa, "O Azarão" mostra a vida da família Wolfe pela perspectiva do filho caçula, Cameron. Com quinze anos de idade, o menino se sente um pária social. Ele não consegue achar sua posição nos ambientes frequentados, seja dentro de casa, na escola ou na comunidade local. Ao mesmo tempo, a passagem da infância para a adolescência traz muitos aborrecimentos ao garoto. Extremamente influenciado pelo irmão Ruben, um ano mais velho, Cameron está na iminência de se tornar um delinquente juvenil. O pai de Cameron é encanador e a mãe é empregada doméstica. Ambos trabalham muito e de maneira pesada, sendo muito rigorosos com os filhos. Cameron e Ruben, os mais novos, são alvos de constantes críticas paternas. Afinal, a dupla está sempre suja, maltrapida e aprontando pequenas travessuras. Apesar da pobreza, o casal tenta dar uma boa educação aos quatro filhos. Steve é o mais velho e já trabalha, sendo visto como o único integrante daquela residência que obteve algum sucesso. Ele é o mais ajuizado dos filhos e ajuda nas finanças domésticas, sendo o orgulho dos pais. Sarah é a única mulher entre os irmãos. Ela passa o dia se agarrando com o namorado no sofá da sala. Ruben, o terceiro na linha sucessória dos Wolfe, tem dezesseis anos e é daquele tipo de garoto encrenqueiro. Fã de uma boa briga, Rube, como ele é chamado carinhosamente pelo caçula, está sempre metido em alguma confusão. Ora está assaltando os comerciantes do bairro para descolar uns trocados, ora está furtando as placas de trânsito das ruas para decorar a parede do quarto. Muito influenciado por Ruben, Cameron se lança ao submundo da delinquência juvenil. Os irmãos bolam os mais variados planos para cometer seus pequenos crimes. Todas as ideias fracassam. Ou falta coragem para a dupla ou falta competência na hora de executar o que foi planejado. Com isso, Cameron e Ruben, que são inseparáveis, vão entrando na adolescência com a sensação de serem dois derrotados. A vida de Cameron sofre uma transformação quando o rapaz larga seus amores platônicos (por todas as mulheres bonitas que passam na sua frente ou que se exibem com poucas roupas nas páginas das revistas masculinas) e concentra sua atenção em uma paixão mais concreta. O coração do garoto é conquistado por uma jovem de sua idade. Ele conhece a menina quando está ajudando o pai com o encanamento da casa de um cliente. A garota é filha dos donos da residência. É amor à primeira vista. A partir daí, Cameron começa a se questionar se ele é digno do amor de uma jovem bonita, inteligente e bondosa. Ele, o arruaceiro que passa os dias metido em brigas e em roubos pela vizinhança, conseguirá não magoar o coração daquela moça que ele tanto gosta? "O Azarão" é um livro sensível e muito bonito. Ele mostra, ao mesmo tempo, a dureza da vida da classe trabalhadora australiana e as dificuldades dos jovens pobres de atravessarem o período da adolescência. As dúvidas do personagem-narrador são representadas pela série de indagações que o rapaz faz durante seu relato. Além disso, é possível ver os sonhos e as aspirações da personagem principal. Cada capítulo é encerrado com um sonho de Cameron. Eles retratam fielmente o que o adolescente está sentindo. Às vezes, o leitor tem a sensação que o narrador está em um divã, relatando seus sonhos em um consultório psicológico. As frases curtas, a inocência infantil do texto, a sinceridade do narrador e a banalidade poética do cotidiano da família dão maior realidade ao relato. A impressão é que estamos mesmo diante das palavras expressas por um garoto de quinze anos. Vale lembra que Markus Zusak, quando começou a escrever "O Azarão", já tinha aproximadamente dezessete anos. Outro aspecto positivo do livro está na contradição das características da dupla de protagonistas. Os irmãos Cameron e Ruben são brigões, folgados, não tomam banho, estão sempre sem dinheiro, vivem maltrapidos, são demitidos dos empregos que arranjam e tentam o tempo inteiro roubar as pessoas. Por outro lado, rezam à noite pedindo proteção divina aos familiares, são fiéis companheiros um do outro, não têm coragem de cometer deslizes, juram fidelidade às futuras namoradas e se apaixonam por toda mulher bonita que passam por eles. Impossível não gostar dessa dupla. Cameron é o mais sensível, sendo romântico, altruísta e zeloso com todos da família. Ruben também tem bom coração, apesar de não querer demonstrar isso na maior parte do tempo. Gostei muito do desfecho de "O Azarão". O encerramento do romance é poético e muito simbólico. Apesar da subjetividade escancarada, ele também é profundamente pragmático. O autor não faz concessões ao sentimentalismo dos leitores. A verdade dura da vida real é revelada friamente nas páginas do livro. Apesar de permitir algumas interpretações diferentes, o final da obra retrata com propriedade as frustrações do narrador-protagonista e, com isso, o seu amadurecimento. Como um legítimo Wolfe, uma hora ou outra Cameron precisaria se transformar em um lobo. Como é muito curto, possuindo apenas 176 páginas, "O Azarão" pode ser considerado uma novela, apesar de Zusak chamá-lo sempre de romance. Novela ou romance, trata-se de uma boa história sobre a infância de um garoto pobre e sua família problemática. Li o livro em uma única noite. Em cerca de quatro horas é possível concluí-lo. Fiquei com uma boa impressão de Markus Zusak. No domingo, dia 10, retorno aqui no Blog Bonas Histórias para passar minhas considerações sobre "Bom de Briga", a continuação da trilogia da família Wolfe. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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- Músicas: Domingo no Parque - 50 anos da inovadora canção de Gilberto Gil
Há cinquenta anos, a Tropicália ainda não havia nascido formalmente. O álbum "Tropicália ou Panis et Circencis", considerado o marco inicial do estilo musical que encantou o país na segunda metade da década de 1960, só seria gravado e lançado em julho de 1968. O disco foi uma produção coletiva de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé. Os poetas Capinam e Torquato Neto e o maestro Rogério Duprat também ajudaram a viabilizá-lo. Entretanto, em 1967, já era possível ver o surgimento de um novo movimento artístico se desenhando. Isso ficou mais evidente no III Festival da Música Popular promovido pela TV Record. Em outubro daquele ano, os amigos baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso lançaram, respectivamente, as canções "Um Domingo no Parque" e "Alegria, Alegria" no palco do teatro Paramount, em São Paulo. Era o começo de uma revolução que varreria a música popular brasileira. A estreia de "Alegria, Alegria", por sinal, já foi comentada aqui no Blog Bonas Histórias em um post de fevereiro deste ano. Agora, o foco da análise é "Domingo no Parque". A música tem letra de Gilberto Gil e arranjos do maestro Rogério Duprat. A canção chegou à final do concurso ao lado de "Ponteio", de Edu Lobo (interpretada em conjunto com Marília Medalha), e "Roda Viva", de Chico Buarque (cantada com o MPB4). Gilberto Gil, por sua vez, foi ao festival tendo ao seu lado os jovens integrantes dos Mutantes (Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee), até então uma banda totalmente desconhecida. O próprio Gilberto Gil era um novato no cenário musical do eixo Rio-São Paulo. Ele havia sido apresentado ao grande público há poucos meses no "O Fino da Bossa", programa de televisão comandado por Elis Regina. A cantora naquela oportunidade interpretou algumas canções de Gilberto Gil. A originalidade de "Domingo no Parque" está tanto em sua letra quanto em sua melodia. Para ser mais preciso, o que a faz espetacular é a combinação harmônica e criativa desses dois elementos. De forma geral, a música mistura como poucas vezes visto elementos da tradição popular com referência pop e com o erudito, formando uma concha de retalho cultural. Para completar, há ainda pitadas de romance policial na letra. Incrível! Influenciada diretamente pelo álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Bands, dos Beatles, lançado alguns meses antes e que revolucionou a música internacional, a criação de Gilberto Gil ainda tem a propriedade de encantar os ouvidos dos amantes da boa música ainda hoje. Antes de comentarmos com mais detalhes os aspectos estruturais desta música, veja abaixo sua letra na íntegra: Domingo no Parque (Gilberto Gil) - 1967 O rei da brincadeira Ê, José! O rei da confusão Ê, João! Um trabalhava na feira Ê, José! Outro na construção Ê, João!... A semana passada No fim da semana João resolveu não brigar No domingo de tarde Saiu apressado E não foi prá Ribeira jogar Capoeira! Não foi prá lá Pra Ribeira, foi namorar... O José como sempre No fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo Um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio... Foi no parque Que ele avistou Juliana Foi que ele viu Foi que ele viu Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana seu sonho, uma ilusão Juliana e o amigo João... O espinho da rosa feriu Zé (Feriu Zé!) (Feriu Zé!) E o sorvete gelou seu coração O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Foi dançando no peito Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... O sorvete e a rosa Ô, José! A rosa e o sorvete Ô, José! Oi girando na mente Ô, José! Do José brincalhão Ô, José!... Juliana girando Oi girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! Oi, na roda gigante Oi, girando! O amigo João (João)... O sorvete é morango É vermelho! Oi, girando e a rosa É vermelha! Oi girando, girando É vermelha! Oi, girando, girando... Olha a faca! (Olha a faca!) Olha o sangue na mão Ê, José! Juliana no chão Ê, José! Outro corpo caído Ê, José! Seu amigo João Ê, José!... Amanhã não tem feira Ê, José! Não tem mais construção Ê, João! Não tem mais brincadeira Ê, José! Não tem mais confusão Ê, João!... Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh! Êh! Êh! Êh Êh Êh Êh!... Agora, acompanhe o vídeo com a apresentação original de "Domingo no Parque". Ela foi feita por Gilberto Gil e pelos Mutantes durante o Festival da Música Popular de 1967. Como o vídeo é antigo, a qualidade das imagens não é muito boa. Pelo menos o som, o mais importante neste caso, está em melhores condições: A melodia combina berimbau com guitarras elétricas. Também mescla sons típicos de parque de diversão com um baião bem estilizado. Surgem, a todo instante, barulhos de realejo, brinquedos e crianças. Os momentos decisivos da música são pontuados com gritos e arranjos especiais de violino. Estes recursos aumentam ainda mais a dramaticidade da trama. A impressão é que estamos acompanhando uma cena de cinema. Só que ao invés de imagem, temos uma narrativa sonora com forte intensidade melodramática. A letra trata de uma história densa e bem elaborada. José e João sãos amigos com características distintas. Um é tímido e pacífico (José) e o outro é extrovertido e brigão (João). O que une os dois é a vida simples (José é feirante enquanto João é operário da construção civil) e, principalmente, o amor pela mesma mulher, Juliana. Em certo domingo, o José pacato e brincalhão se transforma em um assassino frio e impiedoso. Ele vê Juliana no parque de diversão com João. A raiva sobe à cabeça do feirante e ele, em uma ação destemperada, mata a amada e o amigo com uma faca. O crime passional põe fim à narrativa. José é (provavelmente) preso e João e Juliana são enterrados. Com isso, "Amanhã não tem feira/ Ê, José!/ Não tem mais construção/ Ê, João!/ Não tem mais brincadeira/ Ê, José! Não tem mais confusão/ Ê, João!". O fim triste tem como contraste a volta da animação sonora. Esta opção é uma clara imposição feita pelos autores da música ao festival que participavam. Seria muito complicado terminar a canção de maneira triste. Isso iria prejudicá-la no concurso. Dificilmente "Domingo no Parque" teria alcançado o segundo lugar (a primeiro posição ficou com "Ponteio") se não tivesse um encerramento alegre melodicamente (contrastando, portanto, com a tristeza narrativa). O efeito da letra é potencializado pelos arranjos dramáticos de Duprat e pelos cortes bruscos no poema. O resultado é uma grande confusão visual, que representa a vertigem emocional das personagens. O acompanhamento da orquestra de Rogério Duprast é incrível. A mistura de música popular, guitarras e arranjos de música clássica é espetacular. Esta é uma das melhores canções brasileiras de todos os tempos. Em 2008, a já extinta Revista Bravo colocou "Domingo no Parque" como sendo a vigésima música mais importante da nossa história. Realmente, esta original criação de Gilberto Gil merece ser ouvida várias vezes. Ela um clássico da nossa cultura e a principal obra da fértil carreira do baiano tropicalista. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Desafio Literário de setembro/2017: Markus Zusak
O Desafio Literário de 2017 muda mais uma vez de continente. Depois de passarmos pela América do Sul (Machado de Assis - maio), Europa (Régine Deforges - junho), Ásia (Haruki Murakami - julho) e América do Norte (Nora Roberts - agosto), vamos, agora em setembro, à Oceania. Desta vez, nosso objetivo é conhecer a literatura de Markus Zusak, um dos principais autores australianos da atualidade. Para compormos o panorama artístico de Zusak, serão lidos todos os seus romances até aqui publicados. São cinco no total: "O Azarão" (Bertrand), de 1999, "Bom de Briga" (Bertrand), de 2000, "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), de 2001, "Eu Sou o Mensageiro" (Intrínseca), de 2002, e "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca), de 2005. Markus possui uma obra em fase final de desenvolvimento, "A Ponte de Clay", porém ela ainda não foi publicada. Ele está trabalhando neste romance há quase uma década e jura lançá-lo brevemente. A escolha do nome de Markus Zusak para integrar o Desafio Literário de 2017 se deu pelos insistentes pedidos dos leitores do Blog Bonas Histórias. Foram várias pessoas que, nos últimos dois anos, queriam uma análise crítica completa do autor de "A Menina que Roubava Livros". Curiosamente, ninguém que fez esta solicitação indicou ter lido outro livro do escritor. Porém, para integrar o Desafio, é preciso mais do que um romance de sucesso. O autor necessita ter algumas obras de destaque em seu portfólio. Por isso, resolvi pesquisar um pouco sobre o australiano para ver se ele atendia aos requisitos do Desafio Literário. "A Menina que Roubava Livros" foi um dos grandes best-sellers da última década. Pouquíssimos livros venderam mais do que ele em escala global no século XXI. Este romance ficou meses entre os mais vendidos em vários países, transformando Markus Zusak em um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Além do sucesso comercial nas livrarias, "A Menina que Roubava Livros" também ganhou prêmios literários nos quatro cantos do mundo. Em 2013, esta história foi adaptada para o cinema, virando filme. A produção hollywoodiana teve a direção de Brian Percival e foi estrelada por Geoffrey Rush, Emily Watson e Sophie Nélisse. O longa-metragem foi um dos maiores sucesso de bilheteria no biênio 2013-2014, ultrapassando as cifras de US$ 75 milhões de arrecadação. Markus Zusak tem outros quatro romances publicados. Todos estes foram lançados antes do seu grande sucesso e nenhum alcançou destaque parecido ao fenômeno editorial "A Menina que Roubava Livros". Assim, a pergunta que me fiz no começo de 2017 foi: "Markus Zusak é realmente um grande escritor ou ele é um autor de um único grande livro?". Esta indagação poderia, naquele momento, ter sido expressada de outra maneira: "Será que as demais publicações do australiano estão à altura do seu best-seller ou "A Menina que Roubava Livros" é mesmo um ponto fora da curva, um trabalho de qualidade isolada?". A melhor alternativa para descobrir as respostas para estas questões era investigando na prática o repertório de Zusak. Por isso, assumi o risco e inclui seu nome no Desafio Literário. A proposta neste mês, portanto, é estudar cada um dos cinco romances do autor. A resposta definitiva para as dúvidas iniciais serão obtidas no final de setembro, quando, após o estudo dos cincos livros do australiano, montarei uma análise completa da sua literatura. A princípio, acho que não sairei frustrado deste Desafio. Além do sucesso de "A Menina que Roubava Livros", as demais obras de Markus Zusak também foram muito premiadas, apesar de não terem alcançado o status de best-seller mundial. "Eu sou o Mensageiro" foi reconhecido internacionalmente como sendo um romance de excelente qualidade. Ele conquistou, em 2003, o Prêmio CBCA Children's Book e o Prêmio NSW Premier's Literary, ambos de âmbito australiano. Depois, foi até a final do Prêmio The Michael L. Printz, importante premiação norte-americana, na categoria melhor obra juvenil, em 2006. Conquistou o Publishers Weekly Best Books of the Year-Children (Estados Unidos), em 2005, o Bulletin Blue Ribbon Book (Estados Unidos), em 2006, e o Deutscher Jugendliteraturpreis (Alemanha), em 2007. Nada mal, hein?! "O Azarão", "Bom de Briga" e "A Garota que Eu Quero", que integram uma coletânea de romances com as mesmas personagens, também foram premiados na Austrália. "O Azarão" (em 2001), "A Garota que Eu Quero" (em 2002) e "Bom de Briga" (em 2003) ganharam o Prêmio CBCA Children's Book. "Bom de Briga" ainda levou, em 2003, o Prêmio NSW Premier's Literary. Ou seja, a série inicial do escritor foi aclamada como sendo um ótimo exemplar de literatura infanto-juvenil. Nascido em Sidney, em 1975, Markus Frank Zusak é filho de europeus. O pai austríaco e a mãe alemã se mudaram para a Oceania na década de 1950. Caçula de quatro irmãos, o escritor estudou História e Inglês na faculdade e se formou em Artes e Educação. Contudo, sua paixão pela literatura o levou a ficção bem cedo. Antes de completar dezoito anos, já desenvolvia suas próprias histórias, almejando publicá-las. Sem pressa, seu processo de construção das tramas sempre foi lento e muito meticuloso. Ele pode ficar anos ou décadas trabalhando em uma mesma narrativa. Atualmente, Markus Zusak é casado e tem uma filha. Continua morando em Sidney, onde trabalha como professor em meio período. Quem quiser embarcar comigo na leitura de Markus Zusak, seja muito bem-vindo(a). A programação deste mês é a seguinte: "O Azarão" será discutido aqui no Blog Bonas Histórias no dia 6, "Bom de Briga" no dia 10, "A Garota que Eu Quero" no dia 14, "Eu sou o Mensageiro" no dia 18 e o tão aguardado "A Menina que Roubava Livros" no dia 22. O Desafio Literário de setembro será concluído no dia 28 com a análise literária geral do autor australiano. Espero você neste estudo do mais vendido escritor australiano do momento. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarkusZusak
- Filmes: Shivá, Uma Semana e Um Dia - O humor israelense sobre o luto
Na quinta-feira da semana passada, estive no Reserva Cultural, na Avenida Paulista, para conferir a estreia nos cinemas brasileiros do filme israelense "Shivá - Uma Semana e Um Dia" (Shavua ve Yom: 2016). Esta comédia-dramática marcou a estreia de Asaph Polonsky na direção de um longa-metragem. O jovem cineasta também criou o roteiro do filme. Até então, Polonsky só havia comandado a produção de curtas-metragens. Importante não confundi-lo com o experiente e polêmico Roman Polanski, também com descendência judaica, mas nascido na França na década de 1930. "Shivá - Uma Semana e Um Dia" foi estrelado por Shai Avivi, Evgenia Dodina e Tomer Kapon, trio de atores mais conhecido do público israelense do que da plateia internacional. O filme recebeu alguns importantes prêmios tanto em seu país natal quanto no exterior. Em Israel, a produção levou os troféus de melhor filme e de melhor roteiro no Festival de Cinema de Jerusalém do ano passado. No Festival de Cannes de 2016, o longa-metragem foi indicado à Câmera de Ouro e ao Grande Prêmio da Crítica, conquistando o segundo. No começo de "Shivá", há uma explicação sucinta para quem não conhece a cultura judaica. Após a morte de um parente próximo, é realizada por uma semana a Shivá. Neste período de luto, a pessoa fica recolhida em casa. Compreendida esta particularidade da tradição judaica, é possível entender o enredo do filme. A família Spivak acabou de cumprir sua Shivá. Eyal (Shai Avivi) e Vicky Spivak (Evgenia Dodina) perderam o único filho do casal, um rapaz que tinha deixado recentemente a adolescência e tinha ingressado no universo adulto. No dia seguinte ao término do luto obrigatório (daí o nome da produção), as duas personagens precisarão reconstruir suas vidas em meio à dor da perda do jovem filho. A retomada da rotina e dos afazeres cotidianos se mostrará contraditória para o casal Spivak. Enquanto Vicky volta ao trabalho como professora em uma escola primária e tenta ser durona, Eyal descamba para uma fase hedonista e de experimentações. O senhor de cabelos brancos passa, então, a querer consumir drogas e a se empanturrar de doces. Ele se incomoda com as atitudes dos vizinhos e começa a ser grosseiro com as pessoas à sua volta. Além disso, Eyal aproveita-se da comoção geral pela morte do filho para conseguir pequenos privilégios das pessoas mais sensíveis. Ou seja, o protagonista do filme regride à fase adolescente. Não é à toa que seu melhor amigo a partir deste momento será o destrambelhado Zooler (Tomer Kapon), antigo colega do filho de Eyal e que vive como um típico adolescente inconsequente. Será Zooler que irá ensinar Eyal a fumar maconha, a se aventurar pela cidade como um louco e a não se preocupar com nada além do prazer imediato. Com isso, o protagonista viverá um dia totalmente atípico para um homem da sua idade, para desespero da esposa aparentemente regrada. "Shivá - Uma Semana e Um Dia" é um exemplo típico do humor negro dos israelenses. Para achar graça nas cenas protagonizadas por Eyal, Vicky e Zooler, é preciso entender (e gostar) do tipo de humor judaico. Eu aprecio, mas, na sessão de cinema que estive presente, percebi que a maioria não curtiu tanto assim. Um grupo, inclusive, quis sair antes do término da produção. Na certa, devem ter achado o longa-metragem parado e sem grandes acontecimentos. Esta impressão pode ser sentida por quem não consegue se envolver com os dramas das personagens e não entende a graça sutil dos seus comportamentos amalucados. É verdade que "Shivá" não é tão engraçado quanto os prêmios conquistados podem indicar. Por outro lado, também não é tão chato como o comportamento daquele grupo no Reserva Cultural pode parecer. O filme de Asaph Polonsky se parece, para compararmos com dois filmes recentes, com "A Missão do Gerente de Recursos Humanos" (The Human Resources Manager: 2010), do incrível Eran Riklis, e com "A Festa de Despedida" (Mita Tova: 2014), da dupla de diretores Sharon Maymon e Tal Granit. Porém, "Shivá" acaba perdendo em graça e em dramaticidade para estas duas produções (o que não é um mau sinal, vistos a qualidade e o sucesso destes conterrâneos mais velhos). De maneira geral, gostei de "Shivá". O filme é sensível e engraçado. Ele aborda um tema delicado para qualquer cultura: a perda de um filho. Por isso mesmo, não ficamos sabendo nada (ou quase nada) sobre o rapaz morto. A história não é sobre o jovem falecido e sim sobre seus pais. Como eles vão encarar o futuro sem o garoto? Compreender as angústias, os dramas e a falta de perspectiva do casal desolado é uma maneira de entender (e aceitar) seus comportamentos atípicos. Aí, a atuação de Shai Avivi (como o ranzinza Eyal Spivak) é esplendida. Ajudado pelo bom roteiro, o experiente ator dá um show ao interpretar um típico judeu rabugento, hedonista e muquirana. Apesar de bem caricato, a personagem principal do filme consegue cativar o público com um jeito peculiar. O hilário Tomer Kapon (como o jovem vizinho Zooler) ajuda o protagonista a entrar em mais confusões. "Shivá" é um pouco parado em determinados momentos. Neste ponto, preciso concordar com aqueles que criticam a morosidade do longa-metragem. Algumas passagens poderiam ter sido cortadas ou substituídas. Outras situações mais cômicas e emocionantes poderiam também ter sido melhores exploradas no roteiro. Para uma produção cinematográfica classificada como comédia-dramática, faltou aumentar principalmente a dose de humor. Além disso, conferir um pouco mais de ação ao drama não faria nada mal ao filme. Os espectadores mais impacientes na certa agradeceriam. Se você está procurando uma comédia inteligente, sensível e que apresente um drama genuinamente complexo, esta é uma boa opção em cartaz nos cinemas. Você não sairá da sala de cinema chorando de tantas gargalhadas dadas (duvido até mesmo que dê uma só durante a sessão), mas estará com um sorrisinho leve e cínico no rosto ao final da sessão. Foi assim que sai do Reserva Cultural na semana passada. Às vezes, um humor leve e sádico é capaz de trazer uma graça ao nosso dia a dia. Veja, a seguir, o trailer de "Shivá - Uma Semana e Um dia": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CinemaIsraelense
















