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- Filmes: Em Ritmo de Fuga - Perfeita integração entre música e cinema
Na próxima quinta-feira, dia 27 de julho, estreará nos cinemas brasileiros o filme "Em Ritmo de Fuga" (Baby Driver: 2017). Assisti a sua pré-estreia na semana passada e saí encantado da sessão. O longa-metragem inova ao integrar música e cinema como poucas vezes visto. Ao invés de ser um filme com uma trilha sonora de apoio, como acontece tradicionalmente, a sensação que temos em muitos momentos é que a trilha sonora, neste caso, é quem possui um enredo cinematográfico para acompanhá-la. As canções não são parte da experiência, mas um dos protagonistas do roteiro. Incrível o resultado final! Este é, sem dúvida nenhuma, o melhor e mais criativo trabalho de Edgar Wright, diretor especializado em mesclar o gênero policial/ação com comédia. Depois dos bons "Scott Pilgrim Contra o Mundo" (Scott Pilgrim vs. The World: 2010) e "Chumbo Grosso" (Hot Fuzz: 2007), Wright, que também é o roteirista de "Em Ritmo de Fuga", apresenta agora uma criação digna de premiação. Das produções em cartaz neste momento nos cinemas nacionais, esta é provavelmente a mais rica e inusitada. Os motivos que tornam "Em Ritmo de Fuga" tão eletrizante vão além da sua excelente trilha sonora e de sua perfeita integração ao contexto da história. O enredo também é inteligente e muito divertido, misturando muita ação, romantismo e humor. Há ótimas cenas de perseguição e de fuga capazes de hipnotizar a plateia. Não é errado recorrer ao velho clichê de que esta produção tem a propriedade de tirar o fôlego dos espectadores. E para finalizar, a atuação do elenco é magnífica. O que mais se pode desejar de um bom filme policial?! Por falar em elenco, temos aqui Alsel Elgort, de "A Culpa é das Estrelas" (The Fault In Our Stars: 2014) e da série "Divergente" (Divergent), e Lily James, de "Cinderela" (Cinderella: 2015) e "Orgulho e Preconceito e Zumbis" (Pride And Prejudice And Zombies: 2016), como casal principal. Os demais protagonistas são Jamie Foxx, Jon Hamm e Eiza Gonzales. Como uma cereja de bolo, temos ainda o mítico Kevin Spacey, cada vez melhor em suas interpretações de vilão. "Em Ritmo de Fuga" apresenta Baby (Alsel Elgort), um rapaz com problemas mentais. Após um acidente grave na infância, ele ouve constantemente barulho no interior de sua cabeça. Para minimizar o incômodo, ele ouve música alta o dia inteiro em seu iPod. Falando pouco e interagindo o mínimo possível com as pessoas, o jovem compreende o que as pessoas falam através da leitura labial. Baby trabalha como motorista de um grupo criminoso comandado por Doc (Kevin Spacey). Sua tarefa é pilotar o carro após os assaltos da gangue. E nisso, o rapaz é perfeito. Ele consegue escapar da polícia com manobras inimagináveis pelas ruas da cidade. Enquanto comanda o volante dos veículos dos bandidos, ele ouve músicas agitadas em seu iPod. Cada momento tem uma trilha ideal. Após se apaixonar por uma garçonete, Débora (Lily James), que também é fissurada por música, Baby decide largar aquela arriscada e errática profissão. Em seu último trabalho junto ao bando criminoso, as coisas não dão nada certo para os bandidos. O assalto a uma agência dos Correios dá errado e o jovem motorista se transforma em culpado aos olhos dos comparsas e de seu temível chefe. Assim, o rapaz precisa fugir tanto da polícia quanto dos bandidos, que querem se vingar dele. Não apenas a vida de Baby corre perigo como a de Débora também passa a ficar seriamente ameaçada. A grande inovação de "Em Ritmo de Fuga" está, obviamente, em colocar a trilha sonora em primeiro plano. Como se acompanhasse a história do ponto de vista do protagonista, o espectador na maior parte do longa-metragem ouve mais a música do iPod de Baby do que os sons das cenas e das falas dos demais personagens. Isso ocorre principalmente nas cenas de fuga e de perseguição, com um resultado primoroso. Com uma coletânea de canções escolhida a dedo por Steven Price II, que já havia trabalhado várias vezes como produtor musical de Edgar Wright, a experiência é mais intensa. Por falar na parte sonora, repare na sincronia perfeita entre os acordes das músicas e os acontecimentos na tela. A união de imagem e som é absurdamente harmônica nas cenas de ação. Cada pequeno gesto dos personagens e cada pequena batida musical das canções estão intimamente relacionados, produzindo um ótimo efeito estético. Este não é um filme musical (no sentido do gênero cinematográfico), mas é com certeza um filme extremamente musical (no sentido de assisti-lo com os ouvidos atentos). Além do aspecto sonoro, o roteiro do longa-metragem é muito bom. Wright não é apenas um ótimo diretor como também é um excelente roteirista. A história possui muita ação do início ao fim. A primeira cena de "Em Rota de Fuga", uma perseguição de carro depois de um assalto a banco, é magistral. Em poucos minutos, a plateia já fica envolvida com o enredo e não quer largar mais o filme. As várias reviravoltas da trama tornam essa produção imprevisível. A meia hora final é até mais intensa. O desfecho é emocionante ao se basear quase que exclusivamente na realidade prática da vida fora do cinema. Assim, o roteiro não abre mão do pragmatismo, não oferecendo qualquer escapismo nem um resultado satisfatório tão desejado pelos espectadores. Para contrabalancear o possível gosto amargo e triste, a pequena dose de onicidade da última cena foi essencial para agradar a plateia ávida por finais felizes. O filme não se restringe às ótimas cenas de ação e de perseguição de carro. Há também muito romantismo e humor. A complexidade narrativa é construída com personagens carismáticas e um tanto paradoxais. Baby é um excelente protagonista, com elementos dramáticos variados. Ele possui a companhia de parceiros também muito interessantes: a jovem garçonete que sonha com uma vida de aventuras e de emoção longe de sua cidade natal, o casal de bandidos que se ama perdidamente, o criminoso que é fanático pela adrenalina da profissão e o chefe da gangue que pode surpreender por possui uma alma romântica. Ou seja, os criminosos são pessoas com sentimentos nobres e românticos, enquanto os policiais podem ser frios e insensíveis. Muitas vezes, o que move a maioria dos bandidos não é a ambição material ou a sede pelo dinheiro. Eles agem passionalmente, movidos pelo sentimento de gratidão/dívida, pela vontade de realização, pelo amor pelo parceiro/parceira ou pela sensação de pertencimento a algo grandioso. É verdade que a interpretação do bom elenco ajuda a manter a pegada pop da trama. Não há nenhum ator ou atriz que fique abaixo do tom esperado. Se Kevin Spacey é um monstro de artista, os jovens Alsel Elgort e Lily James seguram muito bem a responsabilidade de ser o casal protagonista do filme. Eles são ajudados pela boa atuação do talentoso trio formado por Jamie Foxx, Jon Hamm e pela gatíssima Eiza Gonzales. Se você gosta de filmes de ação e de música boa irá pirar com o eletrizante "Em Ritmo de Fuga". Confira o trailer desse longa-metragem: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Minha Querida Sputnik - O romance mais filosófico de Murakami
Chegamos ao quinto livro de Haruki Murakami deste Desafio Literário. "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara) é uma leitura rápida e prazerosa. Com apenas 232 páginas, o romance é o mais enxuto do escritor japonês. Comecei a lê-lo na última quarta-feira e o concluí na noite seguinte. Por outro lado, esta é a obra que possui mais elementos filosóficos, gerando intensa reflexão por parte do leitor. Misturando espiritualidade e intrincados dramas amorosos, Murakami produziu uma narrativa sensível e emocionante. O livro se tornou cultuado tanto no Japão quanto no exterior ao abordar de maneira angustiante o amor e a sexualidade no mundo contemporâneo. "Minha Querida Sputnik" foi publicado originalmente em 1999. Ou seja, trata-se de um livro lançado uma década depois do auge literário de Haruki Murakami, que ocorreu na segunda metade da década de 1980. O que vemos nessas páginas é um autor maduro e consciente do seu trabalho como ficcionista. Além disso, a obra apresenta as principais características literárias de Murakami. Essa é, provavelmente, a trama mais triste e amarga da carreira do japonês. Em meio a um Japão moderno, superpovoado e tecnológico, os indivíduos continuam sofrendo por amor, sem conseguirem canalizar suas emoções de maneira positiva. A história de "Minha Querida Sputnik" é narrada em primeira pessoa por K. O rapaz é um jovem professor de uma escola primária de Tóquio. Ele tem uma grande amiga, Sumire, por quem é apaixonado. Porém, a moça não demonstra o mesmo sentimento. Aos olhos dela, K. é apenas um bom amigo e jamais será algo mais do que isso. Pode-se dizer que o livro é sobre a vida de Sumire, definitivamente uma pessoa muito exótica, e o amor platônico do narrador por ela. Sumire é uma jovem de 22 anos que vive de maneira solitária na capital japonesa. Ela não possui nenhum amigo (K. é a exceção) e tem sérias dificuldades para interagir com aqueles que estão a sua volta. A moça jamais se apaixonou por alguém e se mantém virgem. Esse aspecto parece não preocupá-la. Afinal, ela não demonstra nenhum sentimento afetivo nem vontade sexual. A jovem também se veste de maneira esdrúxula, lembrando muito a personagem Louisa Clark, do romance "Como Eu Era Antes de Você" (Intrínseca), da inglesa Jojo Moyes. Para completar o quadro, a personagem de Murakami também não se interessa por nada que não seja a literatura. Sumire abandonou a universidade para se tornar romancista. Recebendo uma ajuda mensal dos pais, a jovem vive sozinha em um pequeno e bagunçado apartamento no centro da cidade. Sua rotina é baseada na leitura de todo tipo de obra ficcional e na produção de textos com suas impressões sobre a vida. Seu sonho é escrever um romance grandioso e se tornar uma escritora profissional. Essa parece ser sua única preocupação. Todo o resto é visto como supérfluo. Ou seja, as atitudes e os pensamentos de Sumire são estranhos, muito estranhos! Por exemplo, ela telefona de madrugada para K. para discutir coisas banais do dia a dia. Ela não cumprimenta ninguém e raramente conversa com alguém. A única pessoa no mundo em que ela aceita interagir minimamente é com seu único amigo, K. Contudo, o rapaz só aceita as extravagâncias e as esquisitices da moça porque é apaixonado por ela, nutrindo uma esperança cega de conquistar o coração dela algum dia. A vida monótona e introspectiva de Sumire é repentinamente abalada com um acontecimento inusitado. Pela primeira vez na vida, a moça se apaixonada por alguém. A paixão é por Miu, uma mulher casada (e com dois filhos) que emprega Sumire como sua secretária. Miu tem 17 anos a mais do que Sumire e é uma conceituada empresária do setor de bebidas. A companhia dessa senhora é responsável por importar vinhos europeus para o Japão. Infelizmente, o amor de Sumire por Miu não é correspondido. Miu não é homossexual, além de não demonstrar qualquer apetite sexual ou possuir vontade de estabelecer novos laços românticos. Essa situação leva a personagem principal a endoidecer. Do dia para a noite, a repressão sexual de Sumire é, enfim, externada intensamente. Desejando entregar-se à mulher que ama, a jovem começa a sofrer como jamais acreditou ser possível. Sumire também teme demonstrar todo seu afeto pela patroa e ser mal interpretada. Aí, ela pode ser demitida e nunca mais poder conviver ao lado do amor de sua vida. Em uma viagem a trabalho para a Grécia com Miu, Sumire desaparece misteriosamente. Desesperada com o sumiço da funcionária (quase que escrevo "sumiço de Sumire"), Miu telefona para K. para que ele viaje às pressas para a Europa. A empresária quer sua ajuda na procura de Sumire. O narrador aproveita que está de férias no colégio que leciona e vai à Grécia para descobrir o que aconteceu de fato com sua amiga. Inicia-se, então, uma investigação para elucidar o misterioso caso. "Minha Querida Sputnik", além do título da obra, é o apelido carinhoso dado por Miu a Sumire. O livro possui um tom triste e melancólico. Apesar de essas características serem típicas da literatura de Haruki Murakami, neste romance esses elementos atingem doses ainda mais elevadas. Outro aspecto preponderante e muito intenso dessa publicação é a fragmentação da personalidade das pessoas retratadas. As três personagens principais possuem um grande vazio interior. O trio se comporta como se fosse seres que perderam parte de sua alma ou de algo importante de sua essência. Dessa forma, me recordei durante a leitura de "Minha Querida Sputnik" da novela "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia das Letras), de Italo Calvino. As angústias e as limitações de Sumire, K. e Miu podem ser comparados às de Visconde Medardo di Terralba, o protagonista do clássico italiano. A única diferença é que Calvino é literal em sua abordagem, enquanto Murakami é mais sutil e metafórico. A história de "Minha Querida Sputnik" é recheada de elementos fantásticos. Contudo, essa narrativa é diferente das obras antecessoras do escritor japonês. Desta vez, os componentes sobrenaturais possuem uma carga espiritual/religiosa mais intensa, algo que sempre ficou em segundo plano na literatura de Murakami. Esqueça, portanto, os animais mágicos de "Caçando Carneiros" (Alfaguara) e os portais do tempo de "1Q84" (Alfaguara). O que prevalece nesse romance de 1999 é a transitoriedade da vida para outros planos espirituais e a distinção entre corpo físico e alma das pessoas. Pela primeira vez nos livros de Murakami, encontramos um narrador que fica em segundo plano. O foco narrativo está quase todo concentrado no relacionamento de Sumire com Miu, as verdadeiras protagonistas do romance. K., uma óbvia referência a uma das personagens mais célebres de Franz Kafka, tem suas características e sua vida minimamente citadas. Seu papel no romance é descrever os misteriosos e enigmáticos acontecimentos das amigas, atuando de maneira secundária na trama. A originalidade de Murakami em retratar um triângulo amoroso inusitado e único na literatura é elogiável. A história de amor das personagens é incompleta e frustrante, misturando solidão, pobreza emocional e dificuldade de relacionamentos interpessoais. A fragilidade da alma humana dá um tom sombrio a este belo e sedutor thriller. Como sempre, o autor japonês tem a capacidade de encontrar beleza e poesia nos aspetos mais obscuros da essência do homem moderno. O desfecho de "Minha Querida Sputnik" é do tipo interpretativo. Cabe ao leitor juntar as peças do quebra-cabeça e montar sua própria conclusão do romance. Eu gostei do resultado final. A reflexão ao que o leitor é levado é interessante e rica. A compreensão da realidade das personagens passa longe da racionalidade, da objetividade e do pragmatismo da ciência moderna. O transcendentalismo é parte essencial para a leitura do mundo contemporâneo. Talvez, o leitor mais tradicional se frustre um pouco com o final aberto, exigindo uma conclusão mais delimitada. Há esse risco. Em suma, achei "Minha Querida Sputnik" um belo livro. Ele não está à altura de "Norwegian Wood" (Alfaguara), o principal romance de Murakami, mas também não faz feio. Ele é equivalente em qualidade a "Caçando Carneiro". A diferença entre os dois é que a obra de 1982 possui um estilo nonsense, enquanto esta de 1999 é mais espiritualizada e reflexiva. No próximo final de semana, volto aqui no Blog Bonas Histórias para comentar os três livros da série "1Q84" (Alfaguara), as últimas obras de Haruki Murakami do Desafio Literário deste mês. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? 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- Livros: "Norwegian Wood" - A obra-prima de Haruki Murakami
Li, no último final de semana, o livro "Norwegian Wood" (Alfaguara) de Haruki Murakami. Publicado em 1987, esse romance é considerado a obra-prima do escritor japonês. E ele é realmente excelente. Depois de ter ficado maravilhado com "Caçando Carneiros" (Alfaguara) na semana passada, achei que não fosse encontrar nada mais interessante no trabalho de Murakami. Estava redondamente enganado. "Norwegian Wood" é ainda melhor do que a obra anterior. Esta publicação consolidou a carreira literária do seu autor como um dos principais escritores contemporâneos. Sucesso imediato no Japão, o livro vendeu mais de dez milhões de exemplares no país asiático. No exterior, foram três milhões de unidades comercializadas. "Norwegian Wood" se transformou em um ícone cultural de sua geração, sendo publicado em mais de quarenta países e traduzido para mais de trinta idiomas. Haruki Mirakami tornou-se, assim, um superstar entre os jovens japoneses na virada da década de 1980 para a de 1990. Esse público leitor, enfim, via refletida na literatura suas inquietações e seus dramas mais íntimos. Se "Caçando Carneiros" foi um sucesso comercial retumbante e virou um livro best-seller, "Norwegian Wood" é uma obra desde já clássica. Com fortes traços autobiográficos, "Norwegian Wood" trata com lirismo as angústias da juventude. A temática principal é o amor incompleto e fragmentado, típico dos tempos modernos. Em um romance reflexivo, filosófico e muito erótico, Murakami coloca o dedo na ferida ao desnudar as complicações dos relacionamentos afetivos. Em um ambiente mórbido e com personagens extremamente confusas e perturbadas, a história é o retrato de uma geração ao mesmo tempo deprimida e oprimida. O enredo do livro se passa essencialmente em Tóquio no ano de 1968. Porém, a trama começa com uma cena fortuita que ocorre em 1986, na Alemanha. Um avião pousa no aeroporto de Hamburgo. Enquanto os passageiros aguardam a aeronave estacionar, no autofalante do Boeing toca uma canção dos Beatles. Trata-se de uma versão orquestrada de "Norwegian Wood". A música emociona um dos passageiros, um japonês de 37 anos. A melodia traz automaticamente lembranças de sua juventude e do grande amor de sua vida. Em questões de segundos, os pensamentos da personagem viajam para quase duas décadas atrás. Ao acompanharmos essas lembranças, voltamos com ele ao Japão e aos anos finais da década de 1960. Tem-se, então, o início do romance propriamente dito. O jovem Toru Watanabe é um universitário de 19 anos que se mudou recentemente de Kobe para Tóquio para cursar Teatro. É ele quem narra a trama em primeira pessoa. O protagonista vive de maneira solitária em um alojamento estudantil de sua universidade. Apaixonado por literatura e pela música, Toru passa seus dias de maneira trivial. Sua rotina banal é constituída pela leitura de obras clássicas, longas caminhadas solitárias a pé pela cidade e a limpeza de seu pequeno apartamento. Ele quase não tem amigos. Essa sua postura antissocial é fruto de uma tragédia do passado ainda não totalmente digerida por ele. Seu grande amigo de infância, Kizuki, se suicidou aos 17 anos. As lembranças desse episódio transformaram a personagem principal em uma pessoa extremamente introspectiva, melancólica e descrente em relação ao futuro. A perda do amigo afetou diretamente sua capacidade de conviver com os outros e de constituir novas amizades. Toru Watanabe interage com apenas dois colegas na universidade. O primeiro é seu colega de quarto. Apelidado de Nazista, o rapaz é bitolado por geografia e maníaco por higiene. O segundo é um colega mais velho. Nagasawa é um moço rico, mimado e arrogante que se diverte traindo a namorada com o maior número de parceiras. Watanabe é apaixonado pela bela Naoko. Esse sentimento, entretanto, não é correspondido por ela. A moça é ex-namorada de Kizuki. O suicídio do adolescente aproximou Naoko, que também se mudou para Tóquio para cursar faculdade, e Toru Watanabe. A dupla se encontra frequentemente para caminhar em silêncio. Os dois são grandes amigos, apesar de conversarem muito pouco. Naoko tem sérios problemas psicológicos que afetam seus sentimentos amorosos e seus comportamentos. Ela não consegue gostar de ninguém e vive depressiva. Sua frigidez torna tudo ainda mais complicado. A crise mental se agrava e ela vai parar em um sanatório. Com Naoko distante, a paixão de Toru pela amiga fica mais platônica. Quem é apaixonada por Watanabe é Midori Kobayashi, uma colega de universidade do protagonista. Midori é extremamente diferente de Naoko. Divertida, lasciva, extrovertida e companheira, Midori faz com que os sentimentos de Toru por Naoko se tornem confusos. A personagem principal terá que se decidir: espera seu grande amor se recuperar dos problemas mentais ou se joga imediatamente aos braços da jovem colega que o ama perdidamente? O romance é praticamente uma versão japonesa e contemporânea do poema "Quadrilha" de Carlos Drummond de Andrade (aquele em que "João amava Teresa/ que amava Raimundo/ que amava Maria/ que amava Joaquim/ que amava Lili"). Afinal, podemos resumir o livro de Murakami como: Midori amava Toru que amava Naoko que amava Kizuki. Kizuki se suicidou, Naoko foi para o hospício, Toru não decidiu o que fazer, Midori aguardava uma definição e Reiko, que não tinha entrado na história, resolveu enfrentar seus problemas de frente. De certa maneira, esse é um jeito objetivo de se explicar com propriedade o roteiro dessa publicação. O título do livro, como fica claro na primeira página da obra, remete ao nome de uma canção dos Beatles. "Norwegian Wood" é a música preferida de Naoko. Ela é tocada por Reiko Ishida, colega de Naoko no sanatório, para alegrar a amiga. Assim como a letra da canção da banda inglesa, "Norwegian Wood" de Murakami é o retrato cabal da melancolia, do vazio emocional e da confusão mental dos jovens no instante de entrarem na vida adulta. Acho que esse romance está em um patamar muito próximo a "O Apanhador no Campo de Centeio" (Editora do Autor), de J. D. Salinger, uma das principais obras sobre o universo juvenil. Também me lembrei de outros autores e livros durante essa leitura: "Quem é Você Alasca?" (Intrínseca), de John Green, pela iniciação sexual na adolescência; "A Insustentável Leveza do Ser" (Nova Fronteira), de Milan Kundera, pela reflexão poética das relações amorosas; "Alta Fidelidade" (Companhia das Letras), de Nick Hornby, pela influência da música e da cultura pop na narrativa; "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), de Régine Deforges, pela banalidade do sexo na sociedade contemporânea; e "Veronika Decide Morrer" (Arqueiro), de Paulo Coelho, pelos problemas psicológicos de algumas personagens e pela trama ambientada em um manicômio. De alguma maneira, o romance de Haruki Murakami é a melhor representação literária dos conceitos abordados em "Modernidade Líquida" (Zahar) por Zygmunt Bauman. A primeira impressão que temos durante a leitura de "Norwegian Wood" é que não há ninguém efetivamente são na obra inteira. Todos os indivíduos possuem níveis elevados e variados de psicopatias. Suas relações interpessoais são precárias e um tanto doentias. Não é à toa que parte da trama se passe em um sanatório. Nesse local, é quase impossível distinguir os pacientes dos médicos. Curiosamente, as pessoas fora da instituição psiquiátrica parecem mais problemáticas do que as que estão dentro. Outra questão muito forte é o erotismo. Essa é a obra mais sexual de Haruki Murakami. As personagens falam, pensam, querem ou fazem sexo sem parar. Há todo tipo de cena envolvendo aspectos libidinosos das personagens: homossexualismo, masturbação, sexo oral, sexo casual, swing, traição, orgia, sexo com pessoas mais velhas, sexo com menores de idade, etc... Ao mesmo tempo, há uma diferença gigantesca entre a prática sexual e o amor. Muitos casais que se amam ficam sem transar entre si. Eles preferem outras companhias ao do parceiro preferencial. Enquanto os amantes permanecem castos (entre si), eles procuram visitar a cama de outras pessoas (muitas delas desconhecidas) para "aplacar os instintos naturais". Trata-se de um grande paradoxo. A fidelidade conjugal não passa pela monogamia e sim pelo respeito ao corpo da pessoa amada. É muito curiosa essa relação entre o amor e o sexo. Nesse sentido, as três principais personagens femininas da trama representam simbolicamente as figuras afetivas mais importantes do protagonista. Aos olhos de Toru Watanabe, Naoko, Midori e Heiko simbolizam o amor platônico, o amor carnal e o amor materno, respectivamente. Juntos, o trio compõe o cenário sentimental do homem contemporâneo, que fragmenta seus amores em pessoas e situações distintas. Outro elemento que assusta durante o romance é a epidemia de suicídios. Grande parte das personagens se mata ou quer se matar. Às vezes, parece que não vai sobrar ninguém para contar a história no final. A vida não tem sentido para as pessoas. A existência e o cotidiano são sinônimos de sofrimento e de amargura. Apesar de essa temática aparecer em todos os romances do autor, é em "Norwegian Wood" que a questão do suicídio se torna epidêmica e mais doentia. Esse livro mantém algumas das principais características literárias de Haruki Murakami: narrativa em primeira pessoa; protagonista solitário, introspectivo e confuso; personagem com psicopatias e com dificuldade para encontrar o amor e a amizade; clima melancólico e triste; forte referência à cultural popular, principalmente à música e à literatura; erotismo acentuado; linguagem simples e direta, com frases curtas e objetivas; e retrato do cotidiano banal e da vida pacata de forma reflexiva e um tanto poética. Por outro lado, vemos o desaparecimento do humor, do ambiente onírico e dos elementos fantásticos (características estas muito fortes em "Caçando Carneiros"). O final é um tanto previsível. Mesmo assim, esse detalhe não tira a beleza do livro e da história. "Norwegian Wood" é a magnum opus de Murakami. Aqui temos um autor em sua plenitude e com total domínio na arte de produzir uma narrativa sensível, profunda e inquietante. Este é, sem dúvida nenhuma, um dos melhores livros que li nos últimos anos. Amanhã, começarei a leitura de "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara), o quinto romance de Haruki Murakami deste Desafio Literário. Meu plano é terminar este livro no final de semana. Aí, poderei voltar aqui para comentá-lo. Aguardem novidades! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HarukiMurakami #LiteraturaJaponesa #Romance #Drama
- Livros: Caçando Carneiros - O primeiro sucesso de Murakami
Só depois de ler "Caçando Carneiros" (Alfaguara), compreendi os motivos que levaram Haruki Murakami a desprezar suas duas primeiras novelas. Se "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara) e "Pinball, 1973" (Alfaguara) são obras interessantes, "Caçando Carneiros" é uma criação espetacular do escritor japonês. Percebe-se um maior cuidado do autor com a narrativa e a inclusão de novos elementos literários na trama. Além de muito divertido, o livro possui um mistério de estilo nonsense que prende o leitor nas páginas. Para completar, a história tem muito mais ação do que as publicações antecessoras. Primeiro romance da carreira de Murakami, "Caçando Carneiros" foi publicado originalmente em 1982. A obra tornou Haruki efetivamente um escritor profissional. O sucesso do livro o transformou em um autor conhecido e muito querido no Japão. A partir daquele momento, ele passou a se dedicar prioritariamente à literatura. O êxito comercial do romance alcançou também o exterior. O livro teve ótima aceitação nas livrarias dos Estados Unidos e da Europa. Haruki Murakami se transformou, então, em um best-seller internacional. "Caçando Carneiros" continua a história narrada nas duas primeiras novelas publicadas pelo japonês. Em "Ouça a Canção do Vento", temos o narrador-protagonista relatando as férias passadas em sua cidade natal no verão de 1970. Naquela oportunidade, ele, que não teve seu nome revelado, era um universitário de 20 anos de idade e descrevia suas primeiras experiências amorosas. Já em "Pinball, 1973", a personagem principal conta como está sua vida no ano de 1973. Nesse segundo instante, o rapaz já é um homem adulto e trabalha como sócio em um escritório de traduções em Tóquio. Contudo, ele continua com um grande vazio existencial, procurando encontrar seu lugar no mundo. Rato e J, seus antigos amigos, seguem com suas rotinas monótonas e entediantes na pequena cidade do litoral retratada na primeira novela. Em "Caçando Carneiros", damos um pulo no tempo e avançamos até o meio do ano de 1978. Agora, o protagonista, que continua narrando a história em primeira pessoa, é um homem casado. Ou melhor, era casado. Ele acabou de se separar. Ele havia se casado com uma funcionária da sua empresa, mas o relacionamento não deu certo. A moça se cansou, depois de alguns anos, do jeito introspectivo e melancólico do marido. O antigo escritório de traduções do narrador, por sua vez, cresceu e se transformou em uma agência de publicidade de tamanho médio. Rato, enfim, tomou coragem e saiu da sua cidade, ganhando o mundo. Ele passou a viajar sem parar e raramente entra em contato com os antigos amigos. J, por sua vez, ampliou seu negócio e continua administrando o bar. A vida pacata e a rotina banal da personagem principal sofrem uma grande reviravolta com dois fatos. O rapaz se apaixona por uma modelo que também trabalha como prostituta. A moça tem as orelhas mais belas do mundo segundo o protagonista. Ele acaba seduzido por aquele par de orelhas. Para não se expor gratuitamente à sociedade, a jovem contrai suas orelhas para elas não ficarem visíveis (não tente entender como isso é possível, ok?). Além disso, as orelhas possuem poderes mediúnicos (também não queira, por favor, compreender a lógica desse processo!). Assim, a moça consegue fazer previsões sobre o futuro e tem a habilidade de descobrir quais as melhores decisões que as pessoas devem tomar. O segundo episódio desconcertante é o surgimento de um homem misterioso no escritório da personagem principal. O visitante se apresenta como secretário particular do mais importante empresário japonês. Um anúncio publicitário criado pelo narrador teve o poder de chamar a atenção dos altos funcionários do conglomerado empresarial. A foto de um carneiro na propaganda expos sem querer um lado obscuro da vida do antigo fundador da companhia. Por isso, o secretário ameaça o protagonista. Ou o publicitário descobre onde está o tal carneiro da imagem publicada ou o grande grupo empresarial, que possui grande influência política e mercadológica, irá arruinar de uma vez por todas a agência de propaganda. Aí, a história ganha contornos fantásticos. Tudo é possível nessa intrigante trama. A busca pelo carneiro mágico é o único elemento capaz de dar sentido à vida da personagem principal. A viagem pelo Japão atrás do animal mostrará detalhes desconhecidos das vidas do narrador e de seu melhor amigo. Rato, que aparentemente estava sumido do romance, torna-se de repente uma das peças centrais para a compreensão do enigma. O fio narrativo é evidentemente forçado, mas o enredo é bastante criativo e divertido. "Caçando Carneiros" possui boa parte dos elementos literários encontrados nas duas primeiras novelas de Murakami. Contudo, esses componentes aparecem melhores desenvolvidos nessa publicação. A monotonia do cotidiano e a banalidade do mundo contemporâneo dão o tom à história. As personagens são desajustadas e incompletas, não encontrando sentido em suas vidas fúteis e desinteressantes. A impessoalidade é novamente marcada pela ausência de nomes próprios. O gato do protagonista, por exemplo, viveu muitos anos sem ter um nome, sem que isso parecesse estranho aos olhos (e aos ouvidos) de seu dono. Ironicamente, o bichinho foi apelidado de "Sardinha" por um desconhecido que ficou perplexo com um animal de estimação sem nome próprio. Esse fato explica a imagem de um peixe presente na capa do livro. Na verdade, o peixe é uma sardinha, nome do gato do personagem principal, que procura por um carneiro. As coisas podem parecer estranhas em um primeiro momento (em um segundo, terceiro e quarto instantes também)... O suicídio é, muitas vezes, o caminho encontrado por muitas personagens para dar fim ao sofrimento diário de existir. As relações sentimentais e sexuais são fragmentadas, frustrantes e perecíveis. O erotismo continua permeando à trama em quase todos os instantes. Além disso, há a continuação da pegada pop. Muitos elementos da cultura contemporânea (músicas e livros, principalmente) desfilam pelas páginas do romance, indicando aspectos fundamentais das personalidades das pessoas. O que "Caçando Carneiros" tem de diferente (e que torna esse romance tão surpreendente) é o aumento da dosagem de alguns elementos literários e o surgimento de algumas novidades narrativas (inovadoras em se tratando das obras de Murakami). O humor e o ambiente onírico tornam-se ainda mais fortes nesse livro. Se nas primeiras novelas, havia cenas engraçadinhas, nesse romance tudo é completamente amalucado, levando o leitor a dar boas risadas. Com isso, surgem personagens espetaculares. Até mesmo os papéis secundários são compostos por figuras excêntricas. O motorista de carro, o gerente de hotel ou mesmo o gato do protagonista são descritos de maneira cômica e muito melancólica. Parece que ninguém é plenamente feliz nesse romance. É impossível o leitor ficar indiferente a cada uma dessas pessoas. A mistura do que é verdade e do que pode ser um sonho confere também um colorido especial à narrativa. A magia e o sobrenatural ganham força, apresentando uma faceta até então não explorada por Murakami. "Será mesmo que o que se passa nas páginas do livro é factual?" é a pergunta que o leitor se faz em vários momentos. O clima nonsense predomina durante quase todo o livro. A história é tão interessante que acabamos nos esquecendo do aspecto inusitado e pouco viável da trama descrita. Outro aspecto positivo é o surgimento de mistério, suspense e ação. Se as histórias anteriores de Murakami eram pautas pelo imobilismo, pelo tom reflexivo e pela descrição de cenas bobas do cotidiano, aqui temos, enfim, algo acontecendo. A narrativa ganha contornos concretos de aventura (principalmente na segunda metade do romance). A personagem principal precisa atuar como um detetive particular para descobrir fatos que podem precipitar em episódios trágicos. "Caçando Carneiros" é um ótimo livro. Em suas páginas, encontramos um Haruki Murakami realmente pleno na capacidade de contar uma boa história. Ao mesmo tempo em que o romance emociona e nos faz refletir sobre nossas vidas, ele também nos diverte. O legal é que mesmo sendo uma sequência, é possível ler "Caçando Carneiros" sem ter lido "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973". Se bem que acho mais interessante conhecer primeiramente as obras precedentes. Para quem gostou dessa aventura e quiser prosseguir com a narrativa do protagonista sem nome de Murakami, a recomendação é o livro "Dance Dance Dance" (Alfaguara). Publicada em 1988, a obra coloca ponto final à saga do introspectivo personagem, descrevendo sua procura pela namorada de orelhas maravilhosas que (cuidado: aí vai um pequeno spoiler!) desaparece misteriosamente no final de "Caçando Carneiros". Infelizmente, não iremos analisar no "Desafio Literário" o romance "Dance Dance Dance". A ideia é mergulharmos em novas tramas do escritor japonês. O próximo livro que será lido e comentado aqui no Blog Bonas Histórias é "Norwegian Wood" (Alfaguara), obra-prima de Murakami. Publicado pela primeira vez em 1987, esse romance consolidou seu autor como um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Não perca o post com a análise de "Norwegian Wood" na próxima terça-feira, dia 18. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Livros: Pinball, 1973 - A segunda novela de Haruki Murakami
O livro que vamos analisar agora no Desafio Literário é "Pinball, 1973" (Alfaguara). Essa é a segunda novela criada por Haruki Murakami. Ela foi publicada em 1980, dois anos após o lançamento de "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara), a estreia do autor japonês na literatura. "Pinball, 1973" é basicamente a sequência da trama anterior e foi produzida em uma fase da vida em que Murakami não era ainda um escritor profissional. Naquela época, ele administrava um bar em Tóquio. A literatura era apenas um hobby e sua produção era realizada de madrugada na mesa da cozinha de sua residência. No final de 2016, a Alfaguara lançou, pela primeira vez no Brasil, essas duas novelas de Murakami. Na novíssima edição, "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973" foram publicados em um único livro. O projeto editorial contou com a tradução diretamente do japonês para o português (permitindo uma maior semelhança com o estilo literário das obras originais) e teve o acréscimo de um prefácio produzido pelo autor. Além disso, o projeto gráfico da obra é memorável. Esta edição é daquele tipo de livro para se ler e, também, para se contemplar visualmente. Muito provavelmente, essa foi a obra mais bonita que adquiri nos últimos anos. Seu acabamento é espetacular! Realmente, os trabalhos iniciais de Murakami mereciam uma atenção deste tipo por parte da editora brasileira. A história de "Pinball, 1973", como seu próprio nome faz menção, se passa no ano de 1973. Ou seja, a narrativa se dá três anos após o término de "Ouça a Canção Vento". O narrador é o mesmo e continuamos sem saber seu nome. Uma vez concluída a faculdade, o protagonista permanece morando em Tóquio, mas não quer mais saber da Biologia, sua antiga paixão. Ele é agora sócio de um escritório de traduções. A empresa é especializada em traduzir para o idioma japonês obras literárias clássicas. A vida do rapaz é monótona, solitária e entediante. A melancolia continua sendo a base de sua existência. A novidade é o surgimento misterioso de duas jovens gêmeas no apartamento da personagem principal. Elas passam a viver com o rapaz, dando vazão ao antigo desejo sexual masculino de ter duas mulheres ao mesmo tempo. Passada a excitação inicial dessa incomum composição doméstica, a vida do protagonista volta ao marasmo corriqueiro. Nem mesmo o fato de ter duas gêmeas nuas ou seminuas em casa (elas têm pouca roupa e preferem passam o dia mais à vontade) é capaz de trazer alguma alegria para a vida do narrador da novela. A grande motivação dele será a procura por uma antiga máquina de fliperama que desapareceu do seu bairro. As luzes, os barulhos, a empolgação do jogo e a movimentação frenética da bolinha do pinball parecem ser as únicas coisas capazes de trazer alguma alegria e sentido à existência humana. Enquanto acompanhamos o dia a dia do protagonista, também ficamos sabendo da vida de Rato, amigo de longa data da personagem principal. Rato permanece morando em sua cidade natal. Apesar do tédio e da infelicidade de viver na pequena cidade litorânea, inexplicavelmente ele não consegue deixar o local. Sem um relacionamento amoroso sério e não trabalhando, ele segue frequentado J's Bar quase que diariamente. Se a vida do narrador é melancólica, a rotina de Rato é assustadoramente deprimente. Seu dia se resume a beber, beber, beber e a se lamentar. "Pinball, 1973" é muito parecido a "Ouça a canção do Vento" (não é à toa que seja uma sequência narrativa, né?). Sua trama é desconexa e entrecortada. Os capítulos são curtos e seguem sem qualquer sequência cronológica. A linguagem é simples e direta, sem rodeios. A história tem um caráter reflexivo e um tanto onírico. As cenas banais do cotidiano amargo dos indivíduos continuam dando o tom. As neuroses e os medos das personagens, contudo, parecem se tornar mais sérios. A psicopatia de cada uma das figuras descritas no livro atingem níveis altíssimos e inacreditáveis. Ao mesmo tempo, essas pessoas seguem conformadas com suas vidas e seus destinos, não fazendo nada para mudar o cenário pessimista da qual estão inseridas. Neste caso, Rato torna-se o símbolo máximo de mutismo, solidão, melancolia e indecisão. Ele tem sérias dificuldades para assumir as responsabilidades típicas da vida adulta. Apesar dos elementos sombrios, essa não é uma novela pesada e com um ambiente opressor (por mais paradoxal que possa parecer). Pelo contrário. "Pinball, 1973" chega a ser uma narrativa leve e encantadora. As explicações para essa característica é o humor perspicaz de Murakami e a enxurrada de elementos da cultura pop inseridos na trama. O bom humor de Haruki Murakai aparece com mais intensidade nessa novela do que na anterior. Tudo é motivo para sacadas hilárias do autor. O surgimento de personagens secundárias mais bem desenvolvidas e a construção de cenas de total nonsense auxiliam nessa empreitada. O ápice é o enterro de um caixa de força pelas gêmeas desmioladas. Impossível não rir! "Pinball, 1973", assim como aconteceu com "Ouça a Canção Vento", também usa e abusa da inserção de trilhas sonoras e de comparações literárias. A trama ganha em musicalidade (e sinestesia) com as citações e os comentários sobre as canções populares da época. Ouvi-las durante a leitura permite ao leitor entrar no clima da história com mais intensidade. As reflexões extraídas de autores clássicos da literatura, por sua vez, confere um caráter ao mesmo tempo erudito e filosófico à novela. Muitas das opiniões e das sensações das personagens são externadas por passagens extraídas de outros livros. As referências culturais não se restringem ao universo da música e da literatura. A enxurrada pop engloba de filmes e programas de televisão a esportes e hábitos de lazer. Destaque, nesse caso, para o mundo dos games. O pinball torna-se um ícone cultural para os jovens japoneses durante a década de 1970. O fliperama atrai o fanatismo dos seus usuários e os leva, como uma droga eletrônica, ao vício e a dependência. Muito interessante a inclusão desse aspecto na história. Minha impressão é que "Pinball, 1973" é uma trama mais complexa e melhor trabalhada do que "Ouça a Canção do Vento". Aqui, Haruki Murakami desenvolve com mais intensidade os aspectos principais da história. Há um pouco mais de ação e uma variedade maior de personagens secundárias. Ele também acrescenta de maneira bem-sucedida alguns recursos narrativos novos e aprimora outros. O humor, a sexualidade mais aflorada, o universo filosófico e a riqueza do conteúdo dos diálogos são os melhores representantes dessa característica. "Pinball, 1973" é uma boa novela. Encaro-a como sendo uma continuação natural da obra de estreia de Murakami. Por isso, recomendo a leitura de ambas na sequência. Nesse sentido, a edição da Alfaguara englobando as duas novelas em um mesmo livro foi acertadíssima. Ela mostra o quanto as duas narrativas são complementares e estão unidas intrinsecamente. O livro com as duas tramas tem 264 páginas. Eu li as duas novelas no final de semana passado. Conclui "Ouça a Canção do Vento" na viagem de ônibus para Minas Gerais e finalizei "Pinball, 1973" na jornada de retorno a São Paulo. Quem quiser continuar lendo as aventuras melancólicas do protagonista sem nome e de seus estranhos amigos Rato e de J, saiba que as tramas envolvendo essas personagens não acabam aqui. Haruki Murakami deu prosseguimentos às narrativas com essas figuras nos romances "Caçando Carneiros" (Alfaguara), de 1982, e "Dance Dance Dance" (Alfaguara), de 1988. Confesso que estou curioso para saber como é "Caçando Carneiros", o primeiro romance do autor japonês. Essa obra foi a responsável por tornar Murakami um artista de sucesso no Japão. Seu lançamento aconteceu em 1982 e marca, segundo o próprio autor, a transformação dele em um escritor profissional. Vou ler esse livro e na próxima sexta-feira, dia 14, retorno ao Desafio Literário para comentá-lo. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HarukiMurakami #LiteraturaJaponesa #Novela #Drama
- Livros: Ouça a Canção do Vento - A estreia de Haruki Murakami
O Desafio Literário deste mês de julho começa suas análises pela obra de estreia de Haruki Murakami. A novela "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara) foi escrita em 1978 e publicada naquele mesmo ano. O livro resultou no primeiro prêmio literário da carreira do autor japonês. A premiação da revista Gunzo oferecida aos melhores escritores amadores do Japão e a boa receptividade da crítica do país fizeram com que o jovem Murakami, então com 30 anos de idade, escrevesse a continuação dessa história. Em 1980, chegava às livrarias "Pinball, 1973" (Alfaguara), a segunda novela do autor. O novo sucesso levou Haruki Murakami a vender o bar de Jazz que administrava em Tóquio há quase uma década e concentrar sua atenção na literatura comercial. Curiosamente, os leitores brasileiros só tiveram acesso às narrativas de estreia do mais popular escritor japonês da atualidade no ano passado. No finalzinho de 2016, a Alfaguara, editora com os direitos de publicação das obras de Murakami no país, lançou um livro que contém as duas novelas. O interessante é que a dupla "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973" fez parte de um projeto editorial especial. Além das histórias terem sido traduzidas diretamente do japonês (mantendo, assim, grande parte do estilo do autor), o acabamento da nova edição é primoroso. Para completar, o livro contou com um prefácio escrito pelo próprio Haruki Murakami para a ocasião. Nele, o escritor narra em qual contexto produziu suas primeiras histórias e como se transformou em um autor profissional. Neste post, vou comentar "Ouça a Canção do Vento", enquanto na segunda-feira que vem, dia 10, comentarei "Pinball, 1973". O enredo de "Ouça a Canção do Vento" se passa no verão de 1970. Quem narra a trama (em primeira pessoa) é um estudante de biologia de vinte anos de idade. Aproveitando o recesso universitário, ele retorna para sua pequena cidade natal onde ficará por dezoito dias. Enquanto está de férias, o rapaz passa o dia fumando e bebendo na companhia do seu antigo amigo, Rato. Ambos são fregueses assíduos do J's Bar. J é um chinês que imigrou para o Japão há muitos anos. O proprietário do estabelecimento é conhecido apenas pelo seu apelido (composto por uma única letra). Se isso causa alguma estranheza a você, saiba que o protagonista não tem seu nome revelado durante toda a história. Também não sabemos como Rato se chama (Rato é um apelido) nem conhecemos o nome da cidade litorânea onde a narrativa se passa. Muitos outros personagens aparecem e saem da novela sem que saibamos suas denominações. A impessoalidade das personagens (representada pela ausência de nomes próprios) é uma das marcas da obra. Quando o narrador não está no bar bebendo e fumando, ele fica parado em algum lugar contemplando a paisagem ou pensando em suas antigas namoradas. O único momento em que se quebra o enredo estático e banal do livro ocorre quando o protagonista acorda, em certa manhã, no apartamento de uma jovem muito estranha. Ambos despertam nus e sem saber o que aconteceu para terem chegado ali naquela situação. Obviamente, a noite anterior foi regada a muita bebida alcoólica pelos dois (ao menos isso eles se recordam). Depois da constrangedora apresentação, a dupla tenta demonstrar alguma naturalidade, seguindo suas vidas de maneira independente. Porém, após alguns encontros ocasionais pela cidade nos dias seguintes, novamente o casal se aproximada, passando a se ver rotineiramente. A expectativa do leitor é que se inicie, assim, um novo romance. Será que o protagonista irá deixar a solidão de lado e vai ficar com a não menos solitária moça da cidade? O que chama a atenção logo de cara em "Ouça a Canção do Vento" é o caráter desconexo da narrativa. O protagonista conta a história à medida que vai se lembrando das emoções vividas. Os capítulos são curtos e não seguem uma sequência cronológica. Ao invés de optar pela descrição dos fatos, o autor opta por expor suas emoções, por mais contraditórias e subjetivas que possam parecer. Assim, cabe ao leitor a responsabilidade de compor mentalmente a trama e ordená-la logicamente. Ao mesmo tempo, a novela possui uma pegada reflexiva e um tanto onírica. O contexto narrativo é ancorado no cotidiano das personagens. Não há muitos nem significativos acontecimentos se sucedendo no livro. Tudo se baseia em uma entediante repetição do dia a dia. É nas pequenas e banais cenas da vida diária que as personagens refletem sobre a razão das suas existências e exprimem suas angústias mais íntimas. O medo da morte, a indefinição quanto ao futuro, a busca pelo amor verdadeiro, a dificuldade de relacionamento, a frieza emocional da sociedade contemporânea, a dificuldade da transição da adolescência para a vida adulta, a busca pela aptidão profissional e o saudosismo em relação a um passado que não voltará nunca mais são alguns dos temas discutidos. Neste cenário, é inegável o caráter confuso das personagens. Tanto o narrador quanto Rato, J e a moça do apartamento são figuras solitárias, melancólicas, reprimidas, indecisas e temerosas. A baixa autoestima é geral. A baderna mental da qual sofrem é representado pelo imobilismo dos seus atos. Nada acontece em suas vidas e as personagens também não procuram realizar nada de especial. O cotidiano vazio e repetitivo consegue "matar" todos os sonhos e os desejos mais nobres dos indivíduos. Os raros instantes de ação surgem de lembranças do passado ou em reflexões existencialistas sobre a vida. Assim, a morte/suicídio, a fuga da cidade/sociedade ou uma nova relação sexual são as únicas soluções capazes de amenizar a melancolia geral. Outra característica marcante de Haruki Murakami e presente do começo ao final de "Ouça a Canção do Vento" é a intensa citação a elementos da cultura pop. Neste caso, a música e a literatura (duas grandes paixões do escritor) destacam-se. Além das referências a canções e livros, também há uma infinidade de citações a filmes, programas de televisão, games, esportes e hábitos de lazer e entretenimento típicos da década de 1960 e 1970. Muitos desses elementos marcaram tanto os japoneses quanto as sociedades ocidentais. Ler Murakami é mergulhar na riqueza da cultura popular contemporânea. A inclusão de elementos da cultura pop na literatura e a construção de personagens deslocados/perdidos no espaço temporal fez com que eu me lembrasse, durante a leitura de "Ouça a Canção do Vento", de Nick Hornby. O escritor inglês gostava de construir histórias de adultos infantilizados e que eram fortemente influenciados pela cultura pós-moderna. A diferença entre os autores é que Murakami fez isso uma década antes de Hornby e ainda acrescentou forte carga reflexiva e simbólica às suas tramas. As históricas do japonês também possuem mais cenas de sexo e reflexões sobre a sexualidade de suas personagens. Por ter sido fortemente influenciado pela cultura norte-americana e europeia (regiões onde o escritor morou), Haruki Murakami sempre foi visto como um autor mais ocidentalizado do que um escritor essencialmente japonês. Ao inserir elementos internacionais às suas obras, as narrativas de Murakami adquirem um aspecto mais universal (e, portanto, menos regional). Outra característica que merece ser comentada é a linguagem simples utilizada por Murakami. O escritor usa frases e orações curtas e com pouca variedade lexical. Trata-se de uma literatura objetiva e muito clara. Em "Ouça a Canção Vento", você não encontrará, por exemplo, paráfrases. Esqueça também a variedade de adjetivos e de advérbios. Se você achar uma construção sintática complexa no meio do texto, saiba que você deve ter pulado, inadvertidamente, alguma linha da página. Por isso, volte na leitura e a faça corretamente. A maneira encontrada por Murakami para desenvolver textos enxutos e diretos é um tanto engraçada. Ele primeiro escreve em inglês (língua em que possui intimidade, mas não grande repertório linguístico) para só depois "traduzir" para o idioma japonês (sua língua materna). Assim, ele acredita conseguir extrair "a essência das palavras e das ideias", sem recorrer o risco de ser muito descritivo ou redundante. Gostei de "Ouça a Canção do Vento". Essa é uma novela com aspectos experimentais que apresenta uma reflexão poética e emotiva da vida dos jovens japoneses na década de 1970. A melancolia do cotidiano moderno e os medos das pessoas inseguras, desiludidas, solitárias e confusas expressam o tom sombrio da existência do homem contemporâneo. Apesar do sucesso dessas primeiras histórias e da cada vez maior procurada dos leitores no mundo inteiro pelas obras iniciais da carreira do popular autor japonês, Haruki Murakami nunca viu com bons olhos essas suas novelas de estreia. Tanto "Ouça a Canção do Vento" quanto "Pinball, 1973" ficaram muitos anos sem novas edições (inclusive no Japão) por imposição do escritor. Murakami considera sua primeira obra literária efetiva o romance "Caçando Carneiros" (Alfaguara), de 1982. A explicação para isso se deve ao fato de "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973" terem sido escritas quando Murakami ainda não era um escritor profissional. Ele produziu essas novelas rapidamente (seis meses cada uma) em um período em que administrava seu bar. Com os dias e as noites corridos pelo empreendimento, ele usava as madrugadas para escrever. O local escolhido para isso foi a mesa da cozinha de sua casa. Exatamente por esta condição, ele chama, de forma um tanto pejorativa, essas duas primeiras histórias de "novelas de mesa de cozinha". Sinceramente, não vejo motivos para essa vergonha ou reticências de Murakami. Obviamente, "Ouça a Canção do Vento" não é uma obra-prima nem é fruto de uma literatura madura e evoluída de seu autor. Porém, a novela está muito distante de ser um livro fraco que mereça ser renegado ao esquecimento. Encaro-a como uma ótima experiência estética de um escritor iniciante. Como primeira obra ficcional, ela é muito boa. Quem dera se todo texto amador tivesse essa qualidade e profundidade! Na próxima segunda-feira, volto ao Blog Bonas Histórias para comentar a sequência dessa história. Não perca a análise de "Pinball, 1973", outra "novela de mesa de cozinha" de Murakami! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HarukiMurakami #Novela #LiteraturaJaponesa #Drama
- Filmes: O Círculo - A invasão de privacidade em um futuro não tão distante
Em tempos de exposição excessiva das pessoas nas redes sociais, do quase extermínio da privacidade pessoal, do desenvolvimento exponencial do Big Data e da concentração de poder em empresas monopolistas, assistir ao filme "O Círculo" (The Circle: 2017) é muito elucidativo. Confesso que saí da sala de cinema pensando nos hábitos que temos atualmente. Até onde nossa fixação pela tecnologia irá nos levar, hein?! "O Círculo" é novo filme de James Ponsoldt, diretor de "O Fim da Turnê" (The End Of The Tour: 2015) e "O Maravilhoso Agora" (The Spectacular Now: 2013). Lançada no final do mês passado, esta produção teve um orçamento de U$ 18 milhões e contou em seu elenco com nomes de peso como Tom Hanks, Emma Watson e Bill Paxton (em seu último trabalho antes de falecer no início do ano). O filme é uma adaptação do livro homônimo de Dave Eggers, um jovem escritor norte-americano. O romance foi publicado, em 2013, nos Estados Unidos e, no ano seguinte, aqui no Brasil. A adaptação da história das páginas impressas para a telona ficou a cargo de Ponsoldt. O enredo do filme se passa quase que integralmente dentro do O Círculo, a poderosa empresa de tecnologia que domina o mercado mundial. A companhia sediada na Califórnia, provavelmente no Vale do Silício, é algo como a somatória do Facebook e do Google. Em uma comparação mais abrangente, ela pode também ser vista como a união dessas duas empresas com a Microsoft e a Apple. Imagine só o poder de uma organização empresarial fruto dessa junção?! O Círculo se tornou uma companhia dessa magnitude ao adquirir todas as demais empresas de tecnologia do planeta. Onipresente (e por que não, onisciente) no mercado, ela atua desde a operação de e-mails e o gerenciamento das mídias sociais até a intermediação das transações bancárias e a administração dos sistemas de compras. É no O Círculo que Mae Holland (interpretada por Emma Watson), uma jovem interiorana, vai trabalhar. Ajudada por uma amiga, que é executiva na empresa, Mae consegue o cargo de assistente de atendimento aos clientes de e-mail. A moça se sente realizada na função. Mais divertido do que a atividade profissional em si é a rotina dela no campus da companhia. Os milhares de funcionários do O Círculo moram e trabalham na sede da empresa. Nas horas de folga, eles são agraciados com intermináveis festas e shows que podem durar a noite toda. Bebida e comida são itens que todos podem consumir à vontade. Há também incontáveis opções de lazer e de entretenimento no local. Mae não acredita na sorte que teve. Ela está em um lugar idílico. O Círculo é onde nove entre dez jovens do planeta sonham em trabalhar. Contudo, à medida que a novata vai conhecendo os bastidores do O Círculo e vai sendo promovida, ela percebe que sua organização não é tão maravilhosa assim. O domínio sobre a vida das pessoas e a influência em relação aos governos e aos países fazem da empresa um agente corrosivo para a sociedade. O Círculo e seus principais executivos, Eamon Bailey (Tom Hanks) e Tom Stenton (Patton Oswalt), fundador e CEO, respectivamente, são antiéticos e pouco preocupados com o bem-estar coletivo. Mae só irá descobrir esse aspecto da sua empregadora quando tiver se tornado a garota propaganda de um dos produtos mais ambiciosos da instituição. Aí, poderá ser tarde de mais para ela corrigir os rumos que deu para sua vida. "O Círculo" é uma distopia que dialoga intimamente com a nossa realidade atual. O ponto mais interessante do seu roteiro é ver até onde pode chegar o mundo com a evolução de hábitos, tecnologias e comportamentos contemporâneos (um futuro, de certo modo, não tão distante assim). Impossível não relacionar a empresa retratada na ficção com o jeitão do Facebook e do Google em tratarem seus clientes/usuários e em cativarem seus funcionários. Neste sentido, "O Círculo" se diferencia muito de outros filmes do gênero. "Jogos Vorazes" (The Hunger Games: 2012), "Maze Runner - Correr ou Morrer" (The Maze Runner: 2014) e "Divergente" (Divergent: 2014), por exemplo, são muito mais distópicos e futuristas. A produção de James Ponsoldt é mais real e contemporânea do que seus similares. Gostei principalmente do futuro descrito em "O Círculo" ser relacionado ao mundo atual de maneira indireta. A força dessa narrativa está nas entrelinhas e não em sua mensagem literal. Assim, o espectador precisa ser crítico e inteligente para entender o conteúdo passado pelo filme. Se o roteiro é ousado e inteligente, por outro lado, sua história demora muito até empolgar. Mais da metade do filme caminha em ritmo lento, explicando ao público as características da empresa e os detalhes das personagens. Se tal expediente em um romance é fundamental para construir o clima da trama, em uma produção cinematográfica de 1 hora e meia, essa demora talvez seja um grave problema para os espectadores mais ansiosos. Apenas no quarto final, o drama de Mae Holland se torna realmente empolgante e com algumas surpresas interessantes. O final é de longe o instante em que "O Círculo" se torna mais emocionante e com muita ação. Apesar do carisma de Tom Hanks e da boa atuação de Emma Watson, a sensação é que o desenrolar desta produção poderia ter sido acelerado em seu início. Saí da sessão com a impressão de que o filme tem uma proposta espetacular, mas que não conseguiu executar com a intensidade necessária o que almejava. Assim, "O Círculo" é somente uma produção razoável. Se você quiser assistir a um debate mais rico sobre os atuais problemas causados pela tecnologia, o recomendável é ver alguns dos episódios do seriado "Black Mirror". Lá sim o roteiro é, na maioria das vezes, bem executado e com um resultado final surpreendente e satisfatório. Veja o trailer de "O Círculo": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Desafio Literário de julho/2017: Haruki Murakami
O mês de julho já começou e, por isso, o Desafio Literário tem agora um novo escritor para analisar. O foco dessa vez está no japonês Haruki Murakami, um dos mais premiados e cultuados autores da atualidade. Após examinar Machado de Assis em maio e Régine Deforges em junho, o Blog Bonas Histórias amplia seus estudos para a literatura asiática. Nossa viagem pelo mundo das letras neste ano, portanto, começou no Brasil, deu uma passadinha na França e agora chega ao Japão. Haruki Murakami é figura constante, nos últimos anos, entre os candidatos ao Nobel de Literatura. Nas mais recentes premiações da academia sueca, ele despontou como um dos favoritos, mas na reta final foi preterido por Bob Dylan, em 2016, e por Svetlana Alexijevich, em 2015. Acredito que não demore muito até que esse carismático autor japonês seja condecorado com a honraria máxima da literatura mundial. Nascido em Kyoto, em 1949, e graduado em Artes Teatrais, o jovem Murakami foi proprietário de um bar de jazz na capital japonesa por quase uma década. Paralelamente à empreitada comercial, ele traduzia para a língua japonesa obras clássicas do ocidente. Fluente em inglês desde a infância, o futuro escritor sempre foi um apaixonado pela literatura, tendo o hábito de ler vorazmente os originais dos principais livros europeus e norte-americanos. Outra de suas paixões é a música. Não é à toa que ele quis abrir um negócio onde pudesse ouvir boas canções durante o expediente. Somente após completar trinta anos de idade, Murakami começou a trabalhar como autor ficcional. Curiosamente, ele decidiu escrever após assistir a uma partida de beisebol (ele é aficionado por esportes). No instante em que o jogador rebateu a bola no campo, Haruki, que estava na arquibancada, pensou: "Vou criar uma história minha". Foi o que ele fez. Usando as madrugadas, único tempo livre disponível, e uma mesa da cozinha de sua casa, ele produziu duas novelas. A boa receptividade de suas primeiras narrativas o fez vender o bar. Assim, passou a se dedicar integralmente às traduções e, principalmente, à sua própria literatura. Iniciava, assim, sua carreira de escritor profissional. Atualmente, Haruki Murakami é o mais importante autor contemporâneo do Japão. Ele consegue aliar expressivas vendas nas livrarias do mundo todo com uma coleção invejável de prêmios internacionais. O escritor ganhou, por exemplo, o Yomiuri (o mais importante concurso literário japonês), em 1995, e o Prêmio Franz Kafka (um dos mais importantes da literatura mundial), em 2006. O público japonês ama incondicionalmente Murakami, transformando-o em um pop star nipônico. Os lançamentos dos títulos do autor costumam provocar grande frenesi nas livrarias do país, com grandes filas e cenas de fanatismo dos leitores mais empolgados. No Brasil, seus livros já ultrapassaram a marca das 300 mil unidades comercializadas. Traduzido para mais de 50 idiomas, Haruki Murakami é do tipo de autor que chegou ao patamar de best-seller sem precisar abrir mão da qualidade de suas obras. Na verdade, foi a excelência de sua ficção que o tornou tão famoso mundialmente. Suas narrativas são consideradas ocidentalizadas e com uma temática universal. Tendo morado muitos anos nos Estados Unidos e sendo muito influenciado pelos escritores ocidentais, Murakami é um elemento diferenciado dentro da moderna literatura japonesa. O autor retornou ao Japão em 1995 e desde então mora na região de Tóquio. É esse o escritor que vamos analisar neste mês. Para conseguirmos compor uma visão completa da literatura de Haruki Murakami, serão lidos, ao longo de julho, oito de suas obras. Os títulos selecionados são: "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara), de 1979, "Pinball, 1973" (Alfaguara), de 1980, "Caçando Carneiros" (Alfaguara), de 1982, "Norwegian Wood" (Alfaguara), de 1987, "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara), de 1999, "1Q84 - Livro 1" (Alfaguara), de 2009, "1Q84 - Livro 2" (Alfaguara), de 2010, e "1Q84 - Livro 3" (Alfaguara), de 2010. Ou seja, teremos ao menos um exemplar de cada uma das últimas décadas. Os dois primeiros livros representaram a estreia de Murakami na literatura. "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973" são novelas produzidas quando o japonês ainda era dono de bar em Tóquio e não imaginava que um dia pudesse atuar exclusivamente como escritor profissional. "Caçando Carneiros" é o primeiro romance de Murakami e seu primeiro grande sucesso. Com essa publicação, a fama do autor ultrapassa as fronteiras japonesas e alcança o exterior. A partir daí, Murakami passa a trabalhar prioritariamente como um autor ficcional. "Norwegian Wood" é considerado a obra-prima de Haruki Murakami. Após o lançamento deste livro, o escritor japonês se consolida como um dos grandes nomes da literatura contemporânea. "Minha Querida Sputnik", por sua vez, é uma de suas novelas mais cultuadas internacionalmente. E "1Q84" é ambiciosa trilogia publicada entre 2009 e 2010 que narra um suspense policial. Este é o cardápio do Desafio Literário em julho. Ao longo do mês, farei um post para cada livro lido. Apenas no caso de "1Q84", vou reunir as três publicações da trilogia em um único post. No último dia de julho, farei uma análise completa da literatura de Murakami. Quem quiser me acompanhar na leitura dessas obras, será muito bem-vindo. O primeiro post está programado para a próxima quinta-feira, dia 6. A novela "Ouça a Canção do Vento" será o tema da análise. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HarukiMurakami
- Filmes: Neve Negra - Suspense na Patagônia argentina
Na segunda semana de junho, fui ao Reserva Cultural para conferir a estreia de "Neve Negra" (Nieve Negra: 2016) nos cinemas brasileiros. Esta produção argentina foi a mais cara do país vizinho no ano passado. A direção ficou a cargo de Martin Hodara, jovem diretor em sua primeira empreitada em um longa-metragem. Até então, ele só havia trabalhado como assistente de direção. O elenco foi formado por grandes nomes do cinema argentino. Ricardo Darín, figura maior dos filmes portenhos, teve a companhia de Leonardo Sbaraglia, Laia Costa e Federico Luppi, ótimos e experientes atores. O bom roteiro é de Leonel D'Agostino, de "Cromo", uma série de suspense bem-sucedida da televisão argentina. O que chama a atenção logo de cara neste filme é sua peculiaridade. Não estamos diante de uma comédia passada em Buenos Aires nem de um drama histórico envolvendo o conturbado período da ditadura militar. "Neve Negra" foge do padrão dos sucessos mais recentes do cinema argentino ao apostar em um suspense ambientado na bela e misteriosa Patagônia. Neste sentido, esse lançamento está mais para "O Médico Alemão" (Wakolda: 2013) do que para "Um Conto Chinês" (Un Cuento Chino: 2011) ou "Relatos Selvagens" (Relatos Salvajes: 2014). Portanto, esqueça um pouco a pegada de "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016), "O Crítico" (El Crítico: 2013), “O Clã” (El Clan: 2015) ou "Las Insoladas" (Las Insoladas: 2014). "Neve Negra" é diferente. No enredo deste longa-metragem, Marcos (interpretado por Leonardo Sbaraglia) volta à Argentina depois de muitos anos morando na Espanha. O motivo da viagem é o falecimento do pai. Em seu retorno à terra natal, Marcos traz junto sua esposa espanhola, Laura (Laia Costa), que está grávida. A moça irá conhecer a família do marido pela primeira vez. Ao chegar à Argentina, Marcos fica sabendo pelo advogado do pai (Federico Luppi) de duas novidades. A primeira é que o falecido lhe deixou uma carta além do testamento. Nela, o pai expressa o desejo de ter suas cinzas depositadas em sua antiga propriedade na Patagônia. A família de Marcos é natural da região mais fria e distante do território argentino. Fora ali que o patriarca criara sozinho seus quatro filhos. Sua esposa (a mãe de Marcos e dos irmãos) falecera quando as crianças eram ainda pequenininhas. Além disso, o advogado informa com entusiasmo que a propriedade na Patagônia recebeu uma proposta milionária de compra. Um grupo canadense ofereceu alguns milhares de dólares pela fazenda. Porém, para conseguir vendê-la, Marcos precisará da anuência dos seus dois irmãos ainda vivos (o caçula morreu tragicamente na infância). Sabrina (Dolores Fonzi), a irmã, vive há muitos anos em um manicômio, perturbada pelas lembranças da morte do irmão. Ela não será um obstáculo para a venda. O problema é Salvador (Ricardo Darin), o irmão mais velho. Ele é o único que ainda mora na fazenda na Patagônica e dificilmente aceitará deixar a propriedade. Além disso, ele odeia Marcos, com quem não fala há quase duas décadas. O encontro dos irmãos na deserta e fria Patagônia se mostrará explosivo. A reunião entre a dupla irá suscitar antigos traumas familiares até então adormecidos na alma desses homens. A morte do irmão caçula é uma questão não resolvida para Marcos e Salvador. A tragédia ocorrida na adolescência de ambos precipitou a destruição da família e voltará à tona, levantando velhas rivalidades e ódios. A disputa violenta entre os irmãos será presenciada apenas por Laura, que pouco poderá fazer já que está grávida e precisa cuidar do filho que carrega junto a si. "Neve Negra" é um ótimo thriller. O clima de suspense é construído pela indefinição de quem é o vilão na trama daquela perturbada família. Os acontecimentos de outrora são pouco a pouco revelados para o espectador. Por isso, não é possível saber o que levou as personagens às suas difíceis decisões do passado e aos seus comportamentos estranhos do presente. As revelações surgem, magistralmente, apenas nas últimas cenas. Aí, é hora de se segurar na poltrona da sala de cinema. Apesar das revelações não serem muito inovadoras, elas continuam sendo polêmicas e chocantes. Outros elementos que aumentam a dose de suspense são a paisagem árida e fria da Patagônia e o jogo de luzes provocado pelas ousadas câmeras do filme. O isolamento, o gelo e o cenário selvagem da região mais inóspita da Argentina colaboram para tornar tudo mais tenso e complicado para as personagens. Uma reunião de dois homens que se odeiam em uma pequena casinha distante da sociedade não tem como acabar bem. Além disso, a fotografia com elementos do estilo noir dá o tom do filme do começo ao fim. A escuridão na maioria das cenas confere um aspecto de maior vilania às personagens. Uma simples refeição filmada com sombras transforma o cenário em um típico filme de terror. A trilha sonora também merece destaque. Produzida por Zacarías M. de la Riva, as músicas (e muitas vezes a ausência delas) ajudam na construção do clima tenso e de suspense. A fotografia do filme também merece destaque. O frio da paisagem é tão intenso que provoca certo calafrio na plateia. Ou seja, leve uma blusa para a sessão de cinema porque você pode sair resfriado de lá... A atuação dos atores também é algo a ser elogiada. Ricardo Darin, em um papel diferente do que ele está habituado a contracenar, está mais uma vez perfeito. Ao lado dele, Leonardo Sbaraglia e Laia Costa mostram ser também muito talentosos. Em uma produção em que a interpretação dos atores era fundamental para conferir a dramaticidade necessária à história, a escolha do elenco se mostrou acertadíssima. O desfecho é o ponto alto do longa-metragem. A sequência final serve, ao mesmo tempo, para elucidar o mistério e para dar um tapa na cara do espectador que não imaginou aquele desenlace. Para completar, a última cena permite múltiplas interpretações. O olhar diretamente para a câmera feito pela personagem interpretada por Laia Costa indica muito de sua personalidade, até então camuflada diante da overdose de intrigas dos homens da família do marido. O único ponto que pode incomodar um pouco a plateia é o ritmo lento do filme em alguns momentos. Como a tensão muitas vezes é de ordem psicológica e não tanto factual, o espectador corre o risco de ficar com sono se não estiver totalmente envolvido com os acontecimentos da telona. "Neve Negra" não é o melhor filme argentino em cartaz no momento. Para mim, "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016) é insuperável neste quesito. A produção do jovem Martin Hodara também não é o melhor suspense em cartaz nos cinemas brasileiros. O norte-americano "Corra!" (Get Out: 2017), por exemplo, é muito superior. Porém, essas constatações não tiram os méritos desse lançamento. "Neve Negra" é um bom thriller e consegue cativar o público. Em questão de suspense e de mistério ou pensando nos elementos narrativos e de cenário, o novo filme de Ricardo Darin é muito parecido ao seu conterrâneo "O Médico Alemão" (Wakolda: 2013), ao islandês "Ovelha Negra" (Hrútar: 2015) e aos norte-americanos "Pássaro Branco na Nevasca" (White Bird in a Blizzard: 2014) e "Os Oito Odiados" (The Hateful Eight: 2015). Quem gosta de thrillers psicológicos, intrigantes e surpreendentes irá gostar desse filme. Vale a pena dar uma passadinha no cinema para conferi-lo. Veja o trailer de "Neve Negra": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. 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- Livros: Sob o Céu de Novgorod – Romance medieval de Deforges
Aproveitei minha mais recente viagem a Minas Gerais para ler o sexto e último livro do Desafio Literário deste mês de junho (quem disse que não há vantagem em se viajar de ônibus, hein?). “Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira), de Régine Deforges, não faz parte da coleção “A Bicicleta Azul” (ufa!), sendo uma obra não seriada da escritora francesa. Admito que depois de ler mais de 1.200 páginas das aventuras de Léa Delmas, precisava de uma nova história para me entreter. Publicado pela primeira vez em 1989, “Sob o Céu de Novgorod” é um romance histórico baseado em fatos reais. Aproveitando-se de acontecimentos da Idade Média, a escritora elaborou uma intrincada narrativa ficcional com algumas personalidades da corte francesa, inglesa e russa. Ou seja, ao invés de construir um romance calcado em um determinado momento histórico (como ocorreu em todos os livros de série “A Bicicleta Azul”), Régine Deforge opta, aqui, por dramatizar a vida e os sentimentos de personagens que existiram de fato. Usa-se, portanto, os trabalhos e os estudos históricos como matéria-prima para a produção de uma narrativa ficcional. Vale citar que este não foi um expediente totalmente novo no trabalho literário de Régine Deforges. Ela já havia usado essa estratégia narrativa em outras obras como, por exemplo, “A Revolta das Freiras” (Best Seller), de 1981, romance histórico ambientado no século VI. Ali, a autora misturava personalidades e fatos históricos com personagens e situações fictícias. “Sob o Céu de Novgorod” se passa na metade do século XI. A trama aborda a vida de Ana, uma jovem princesa russa. Ela se transforma em rainha francesa, em 1051, após se casar com Henrique I, rei da França. Ana, então com 20 anos, precisa abandonar bruscamente a família, os amigos e sua vida em Novgorod, sua cidade natal, para integrar a corte do seu novo marido. Essa mudança não é fácil para ela. Acostumada a caçar, cavalgar, passear e viajar pelos campos e pelas florestas de seu país, Ana se sente enclausurada na França. A moça também estranha a pobreza da população francesa e o desprestígio das mulheres naquela sociedade. Contudo, o que mais a incomoda é o comportamento de Henrique I. O rei é homossexual assumido e prefere a companhia dos seus valetes à da rainha. Ele só consegue fazer sexo com ela quando é excitado por seus parceiros. E Henrique I só faz isso para que Ana engravide, o que o livrará dos comentários maldosos da corte e da população. Mesmo amada por todos no novo país, Ana se sente solitária e desprestigiada no reino francês. Nessas horas, ela se recorda com saudosismo de sua infância e de sua mocidade passadas na Rússia. Lá, ela tinha uma vida livre e, ainda por cima, era amada e amava. Sua grande paixão era Filipe, seu amigo de infância. O amor dos dois era casto e um tanto platônico. Ciente de suas responsabilidades como princesa e como uma futura rainha, Ana nunca se jogou aos braços do amado, apesar de ansiar por isso. Proibido de viajar para a França pelos reis russos, Filipe dá um jeito de migrar para a corte francesa e ficar oculto junto à rainha, protegendo-a dos perigos iminentes. Sua estratégia de disfarce é tão boa (e heterodoxa) que nem mesmo Ana sabe de sua presença ali. O amor do rapaz é tão grande que ele aceita o papel de vassalo só para estar perto dela e garantir a proteção e a felicidade da amada. O livro possui aproximadamente 300 páginas e é dividido em 40 capítulos. Os capítulos são curto, o que dá certo dinamismo à narrativa. A velocidade da história também é acentuada. “Sob o Céu de Novgorod” retrata um período extenso da vida de Ana, de 1051 a 1075. O texto de Régine Deforges é direto (sem rodeios) e com uma linguagem simples (acessível). O que pode atrapalhar um pouco o leitor é o uso de alguns termos russos (devidamente explicados nas notas de rodapé) e o excesso de personagens (neste caso você terá que recorrer a sua memória). Os dois recursos são justificados. O primeiro serve para dar credibilidade à narrativa de Ana, alguém de alma russa. Já o segundo é explicado pelo excesso de mortes na segunda metade do romance. Sem não houvesse tantos personagens, o livro teria só metade de páginas. Há alguns autores, creio eu, que colocam os personagens na história já pensando em como vão mata-los. Deve ser divertido... Para escrever esse romance, Régine Deforges precisou fazer uma grande pesquisa sobre o período medieval francês, inglês e russo, além de recorrer a especialistas e estudiosos no tema. O resultado é uma obra emocionante e muito convincente. É impossível, no meio da leitura, saber o que é ficção e o que é realidade na história descrita por Deforges. Esse é o ponto que mais chama a atenção em “Sob o Céu de Novgorod”. Sua ambientação histórica é bem fidedigna. Tudo ali parece ancorado em estudos sérios. A vestimenta, os rituais religiosos e de coroação dos nobres, os alimentos, os hábitos cotidianos, a realidade sociocultural da época, a geografia e os personagens são descritos de maneira detalhada. Se isso pode comprometer um pouco a fluidez do texto, por outro lado, ajuda na composição do cenário. Como um bom livro de Régine Deforges, vamos encontrar aqui uma trama construída em cima de uma mulher jovem, muito bonita e de personalidade forte. Os protagonistas da francesa são sempre do sexo feminino. Ana é destemida e caridosa. Ela possui também valores e pensamentos muito à frente do seu tempo. A novidade desse romance é a presença de um homem ultrarromântico. Fiel a valores como honra, fidelidade, coragem e abnegação, Filipe possui características de um herói à moda antiga. Ele leva uma vida em prol de sua amada, chegando a se esquecer de si próprio. Trata-se do único personagem masculino importante dos romances de Deforges com essas características. Outros dois elementos corriqueiros nas obras de Régine Deforges e que estão presentes aqui são a violência e o erotismo. A violência às vezes beira o absurdo. Ela está presente tanto nos relatos das guerras como nas cenas cotidianas. É comum, em “Sob o Céu de Novgorod”, todo tipo de barbárie: mulheres serem estupradas, soldados pilharem casas e povoados, homens sofrerem amputações de membros do corpo e pessoas ficaram deformadas ou deficientes por causa da inveja alheia. Talvez a cena mais forte de violência do livro seja aquela em que Filipe precisa se autoimpor. É chocante o flagelo que o personagem opta por passar! O erotismo, por sua vez, aparece nas descrições do que acontece quando os desejos sexuais dos personagens são aflorados. As cenas de sexo são de todo tipo: heterossexual, homossexual, consentido, não consentido, orgia, sodomia e até, acredite, momentos românticos a dois. Régine Deforfes, que se dedicou com afinco aos contos eróticos, evidentemente gosta dos elementos mais lascivos das suas histórias, escrevendo algumas linhas sempre que possível. Neste ponto, é surpreendente o casamento de Ana com o conde Raul de Crépy. A rainha, uma vez viúva, aceitou as investidas de um dos maiores vilões do romance. A justificativa é hilária para uma protagonista: ela alega estar carente de afeto e precisar de um homem viril a seu lado. Depois de anos casada com um homem que a desprezava na cama, Ana encontrou alguém que a desejasse intensamente. Aos olhos de rainha, enfim ela teria um homem que a satisfaria sexualmente. Aí, não importava o quão cruel Raul era com os outros. Ele podia matar, espancar, estuprar e roubar o quanto fosse fora de casa. A esposa só via o quanto o marido era bom para ela e para seus filhos. Este, talvez, seja um dos casais mais improváveis da literatura. A união de Ana e Raul de Crépy provoca certo mal-estar no leitor. “Como isso é possível?” é a pergunta que todos se fazem. A sensação de inconformismo só aumenta quando a protagonista afirma viver os melhores anos de sua vida com aquele homem cruel e repugnante. As maravilhas que ele faz na cama, o carinho genuíno dele para com ela e apoio financeiro de Raul às causas sociais de Ana o transformam no melhor marido do mundo aos olhos da personagem principal. O desfecho da história é, ao mesmo tempo, bonito e triste. Ele carrega uma forte carga simbólica e poética. A cena final é uma das mais belas que li nos últimos anos. Ela tem elementos ultrarromânticos sim, mas não abre mão da realidade prática do mundo verdadeiro (algo tão característico de Deforges). Talvez Ana e Filipe sejam um dos poucos casais apaixonados da literatura mundial que não trocaram entre si um único beijo sequer durante toda a trama (pelo menos eu não lembro disso ter ocorrido). O momento mais carnal do relacionamento dos dois é justamente na morte. Impossível não se emocionar. Gostei desse livro. Que Léa Delmas não nos ouça, mas precisava de uma história diferente. Obrigado, Régine Deforges, por ter escrito novas tramas. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RégineDeforges #Romance #RomanceHistórico #Drama #LiteraturaFrancesa
- Livros: O Sorriso do Diabo - Parte 3 da série A Bicicleta Azul
Cheguei, enfim, ao livro "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso), a terceira parte da série “A Bicicleta Azul”. Esta obra integra o que se convencionou chamar de Trilogia de Régine Deforges. A coleção é também composta por “A Bicicleta Azul” (Best Bolso) e por “Vontade de Viver” (Best Bolso). A história dos três livros é a mesma. Ou melhor, trata-se de uma sequência narrativa. Em todos esses livros, a jovem francesa Léa Delmas está envolvida com os dramas e os horrores da Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, a série começa em 1939 (início do conflito armado) e termina em 1945 (quando a guerra tem seu fim). "O Sorriso do Diabo" tem 420 páginas. Ele começa exatamente onde o livro anterior, “Vontade de Viver”, terminou. Estamos agora no ano de 1944. A ascensão e o domínio nazista na França (e no mundo) sofrem os primeiros revesses. Os alemães têm importantes derrotas e começam a dar sinais que podem perder a guerra. Assim, a Resistência francesa intensifica suas ações no país. O objetivo é derrubar os governantes apoiados por Hitler. Novamente, a França é palco de intensos conflitos armados. Neste ambiente caótico, Léa precisa cuidar de sua família, cada vez mais fragmentada. Os Delmas vivem doentes e na pobreza. Ao mesmo tempo, Léa segue sua atuação como uma rebelde (integrante da Resistência) e dedica-se a conquistar o coração de François Tavernier, agora seu grande amor. Ou seja, a protagonista precisa se virar para atingir todas as suas intenções (contraditórias entre si). Ora ela está batalhando para conseguir dinheiro e comida para a família. Logo depois, Léa está fugindo da SS, a polícia nazista, acusada de conspiração contra o governo. Neste meio tempo, ela larga tudo para viver alguns momentos de sexo selvagem com François. Esta característica da trama faz com que a jovem esteja em constante deslocamento. A personagem principal vive em um ciclo que se repete interminavelmente: Preocupação com a família - fuga dos nazistas - sexo com Sr. Tavernier - preocupação com a família - fuga dos nazistas - sexo com Sr. Tavernier - preocupação com a família. A correria de Léa de um lado para outro dá dinamismo à trama. Contudo, a história perde em verossimilhança. O leitor deve se perguntar: “Como alguém consegue ficar atravessando ruas, estradas e cidades em meio ao tiroteio sem ser atingido?” e “Como alguém procurado pelos nazistas pode viajar tanto em pleno território inimigo?”. Dúvidas que só a ficção é capaz de produzir. A fase decisiva da guerra também aumenta a violência. Os perigos são constantes tanto para aqueles que estão na linha de frente do conflito quanto para a população civil. Temos aqui, o ápice da barbárie. Se você achou “Vontade de Viver” um livro forte e com cenas pesadas, prepara-se para a leitura de ”O Sorriso do Diabo”. Muitos personagens importantes morrem de maneira dramática. Algumas destas mortes já são esperadas, contudo, há algumas que surpreendem o leitor. Neste aspecto, ponto positivo para Régine Deforges. Ela não alivia na hora de apresentar os resultados tristes de uma guerra sangrenta que durou aproximadamente seis anos. Se as mortes conferem uma grande tristeza à história, ao menos é possível se alegrar com a virada do jogo político. Aproveitando a derrota nazista na frente oriental (guerra contra os russos), a Resistência francesa derruba o governo colaboracionista que a Alemanha tinha colocado no poder. O fim da guerra traz paz ao povo e a volta dos franceses exilados. Os patriotas sobem ao poder levando alegria aos franceses. Neste terceiro romance da série, temos as descrições mais intensas dos acontecimentos políticos e históricos da Segunda Guerra Mundial. O final do conflito é farto em episódios significativos. São vários capítulos com muitas páginas dedicadas às cenas e aos personagens reais. A trama da família e dos amigos de Léa Delmas, em várias oportunidades, fica em um segundo plano em “O Sorriso do Diabo”. Pode ser que esse recurso torne a leitura um pouco enfadonha para alguns leitores mais interessados na narrativa de Léa do que nos episódios reais passados na França durante a metade da década de 1940. Por outro lado, quem gosta de história e dos detalhes das guerras, irá se apaixonar por essas descrições. Para escrever a série “A Bicicleta Azul”, Régine Deforges precisou fazer uma grande pesquisa histórica sobre o período narrado. A Segunda Guerra Mundial é descrita em detalhes muito bem fundamentados. Por vezes, é difícil saber se este é um romance histórico ou um livro de história com elementos ficcionais. O momento mais marcante deste livro é uma cena de sexo a três. Léa talvez seja a única protagonista de um romance best-seller que tenha transado com dois homens ao mesmo tempo. Os felizardos são seus amigos de infância: Jean e Raul. Os irmãos, mesmo muito feridos pela guerra, transam com a amiga. Ou seja, a jovem, além de ter vários parceiros sexuais ao longo da série, agora envereda alegremente pelo ménage à trois. Trata-se de uma heroína moderna e corajosa. Impossível não gostar dela. Enquanto vemos a coleção de parceiros amorosos de Léa se multiplicar, também presenciamos a consolidação do amor dela por François Tavernier. Justamente quando a Srta. Delmas pode ficar com Laurent d'Argilat (afinal, ele regressa da guerra e não está mais casado com Camile), a moça descobre preferir o Sr. Tavernier. Curiosamente, o amor deles é intenso, porém nada romântico. Já vimos que Léa, enquanto esperava pelo amado, fazia sexo com amigos. Ele, por outro lado, deitava-se com prostitutas e com outras militantes políticas durante a guerra. Quando ambos não tinham um parceiro a sua disposição, eles optavam pela masturbação. Ao se encontrarem brevemente no meio do romance, os dois faziam sexo de maneira tórrida e mecânica. Para o casal, não havia qualquer relação entre amor e sexo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa era outra coisa. Simples assim. Talvez, esta seja a relação amorosa mais liberal estabelecida por um casal de protagonistas na literatura mundial. Os méritos desse fato são todos de Régine Deforges. A autoria francesa teve a audácia de retratar a realidade prática da vida no período da guerra. Ela não fez qualquer concessão ao romantismo idílico e platônico. Possivelmente, depois de se ler a série “Bicicleta Azul”, as personagens românticas se tornem mais artificiais, tolas e sem graça aos olhos dos leitores. Léa Delmas é a representante máxima do feminismo moderno. A personagem age promovendo o "empoderamento" das mulheres, para usarmos um termo em moda atualmente. A moça é contrária ao casamento, à vida doméstica e à maternidade. Nem precisa dizer que ela apoia a liberdade e a revolução sexuais para ambos os sexos. Além do ménage de Léa, outra cena marcante do livro é o incêndio na casa principal da fazenda em Montillac, local chamado de “Castelo”. De certo modo, a destruição da residência paterna representa o fim definitivo da infância e da adolescência da protagonista. A destruição do lugar onde foi criada significou par Léa a quebra de um importante elo com sua família. Sem o vínculo mais forte com a terra natal e com seus parentes, a moça lança-se em direção ao mundo. Este é o indicativo do que virá mais à frente na série (jornada da personagem principal por outros países). Como integrante da Cruz Vermelha, a jovem desapega-se da família e passa a viver sua vida em prol dos doentes, feridos e necessitados. Agora não é mais as guerras que procuram a jovem. É ela quem procura os locais em conflitos bélicos. Para terminar, gostaria de abordar algo relativo ao nome da trilogia. A bicicleta azul é o veículo utilizado pela personagem principal para se deslocar durante a guerra. É pedalando, por exemplo, que Léa vai e volta entre o lado do país ocupado pela Resistência francesa e o lado governado pelos nazistas. Curiosamente, a tal bicicleta de Léa só aparece em algumas frases rápidas no terço final da primeira obra. Em minha visão, o veículo de duas rodas não representa algo relevante ou decisivo da trama nesta parte inicial da série. A bicicleta azul ganha um pouco mais de destaque (só um pouco) na segunda parte da trilogia, em "Vontade de Viver". É só no terceiro romance, em "O Sorriso do Diabo", que a magrela ganha um significado maior e simbólico. Ela representa uma dupla contestação por parte da personagem principal. A bicicleta representa uma oposição ao colaboracionismo francês aos nazistas e uma aversão quanto às imposições sexistas da sociedade francesa da década de 1940. ”O Sorriso do Diabo” é um bom livro, porém fiquei frustrado com seu desfecho. Depois de mais de 1.200 páginas e de três romances lidos, a série “A Bicicleta Azul” não termina aqui. “Não é possível!”, pensei. “Não saberei o final da trama”. Régine Deforges encerra ”O Sorriso do Diabo” no meio de uma cena. Para minha surpresa, a cena (e por consequência a história de Léa) continua no livro “Tango Negro”, o primeiro romance da fase internacional da coleção. Ou seja, quem teve a infeliz ideia de chamar os três primeiros livros da série de trilogia se não temos uma conclusão ao final do terceiro romance?! Minha frustração foi perceber que se quisesse saber o desfecho da história, teria que ler mais sete livros da coleção. Pensando bem, é melhor deixar, definitivamente, a encantadora Léa Delmas de lado. Consigo superar a frustração de viver sem saber o final de sua trama. Vou agora me dedicar a uma nova história de Régine Deforges: “Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira). Na próxima segunda-feira, comento a análise deste romance medieval. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RégineDeforges #Drama #RomanceHistórico #Romance #LiteraturaFrancesa
- Peças teatrais: Pagliacci - A magia da arte circense da LaMínima
A companhia teatral LaMínima celebra, em 2017, vinte anos de sua criação. O grupo foi fundado por Domingos Montagner, ator global falecido no ano passado, e por Fernando Sampaio. A proposta da dupla sempre foi promover a arte circense de maneira inteligente e poética. Misturando teatro e circo, os artistas da trupe fazem leituras ao mesmo tempo engraçadas e dramáticas do ofício de palhaço. Os leitores mais antigos do Bonas Histórias já conhecem algumas peças da LaMínima. A última delas que analisamos aqui no blog foi "Mistero Buffo", em 2015. Para comemorar as duas décadas da companhia e para prestar uma homenagem ao primeiro aniversário de falecimento de Montagner, a FIESP fechou uma parceira com a LaMínima. Ao longo deste ano, o braço cultural da Federação das Indústrias de São Paulo irá apresentar em suas unidades espalhadas pelo estado algumas das peças históricas do grupo. As reencenações trazem novamente as produções e as personagens do grupo circense que marcam época. Na semana passada, assisti, no Teatro do SESI, no Centro Cultural FIESP, a primeira dessas peças. O espetáculo "Pagliacci" é, provavelmente, o melhor retrato do belo trabalho realizado pela LaMínima. A adaptação da ópera "Pagliacci" de Ruggero Leoncavallo ganha aqui um aspecto contemporâneo, uma ambientação nacional e, principalmente, uma abordagem metalinguística. A comédia-dramática criada pela LaMínima apresenta os desafios de um fictício grupo circense para se tornar conhecido do grande público. Acostumados a se apresentar individualmente em pequenas cidades do interior do país, os artistas da companhia precisarão unir suas forças e seus talentos para chegarem ao estrelato. Entretanto, as desavenças internas e as intrigas amorosas podem colocar a empreitada de todos em risco. A concepção de "Pagliacci" foi da dupla fundadora da companhia, Domingos Montagner e Fernando Sampaio. A produção do texto ficou a cargo de Luís Alberto de Abreu e a direção é de Chico Pelúcio. No elenco, além de Fernando Sampaio, estão Alexandre Roit, Carla Candiotto, Fernando Paz, Filipe Bregantim e Keila Bueno. Desses, eu só conhecia o trabalho dos Fernando (Sampaio e Paz). O enredo de "Pagliacci" é totalmente metalinguístico. Trata-se de uma peça que fala da criação e da encenação de uma produção teatral pelos próprios autores no palco. O espetáculo é narrado por Peppe (Fernando Paz), um palhaço escritor. Ele recebe a incumbência do chefe da companhia circense, Canio (Alexandre Roit), para produzir algo inovador e de "bom-gosto". Para tal, deve se afastar do tom popular e cômico das encenações passadas. O que o público vê desfilar no palco é exatamente o novo trabalho escrito por Peppe. Na fictícia peça da companhia circense, Peppe opta por contar a história do próprio grupo. O personagem principal é o chefe dos artistas. Canio é retratado como um homem egoísta, ambicioso e insensível. Em contrapartida, seu primeiro parceiro, Silvio (Fernando Sampaio), é um palhaço sonhador, ingênuo e puro. Nedda (Keila Bueno), uma bonita e talentosa artista do grupo, se casa com Canio para só depois descobrir-se apaixonada por Silvio. A relação extraconjugal no seio da companhia provoca reações distintas por parte dos demais integrantes. Enquanto Strompa (Carla Candiotto), uma artista desprezada pelo chefe, apoia a nova paixão de Nedda, Tonio (Filipe Bregantim), um ambicioso palhaço, almeja uma cruel vingança para Silvio. Por isso, ele ajuda Canio a descobrir a traição da esposa. A beleza de "Pagliacci" está na mistura de humor e melodrama. As cenas cômicas e tristes se sucedem rapidamente, emocionando a plateia de maneira distinta. Tanto os momentos hilários quanto os instantes mais dramáticos são excelentes! O ótimo texto também confere um ar filosófico à trama. Os diálogos são muito bem construídos e externam com propriedade as inquietações íntimas das personagens. A beleza do circo e o saudosismo dos tempos áureos dos espetáculos circenses conferem uma graça especial à história. Este é o principal mérito da peça criada por Domingos Montagner e Fernando Sampaio. Ela consegue mostrar a diversidade e a profundidade do trabalho no picadeiro. Em cima do palco, os seis atores fazem de tudo. Eles dançam, cantam, tocam diferentes instrumentos musicais e interpretam cenas dos mais diversos gêneros teatrais. Além disso, eles fazem incríveis encenações em que a mágica, o malabarismo e o equilíbrio corporal dão à tônica do espetáculo. "Como eles conseguem fazer tudo isso ao mesmo tempo?!" é a pergunta que percorre o teatro durante a peça. A sensação da plateia é estar diante de artistas completos e de altíssimo nível. Curiosamente, essa impressão é oposta à visão preconceituosa e pejorativa que os artistas circenses possuem hoje em dia. A maioria do público contemporâneo despreza este tipo de produção, considerando-a inferior e obsoleta. Nada mais equivocado! O circo, de acordo com os integrantes da LaMínima, é algo rico, vivo e emocionante. Se o Cirque du Soleil emociona o público com um tipo de espetáculo moderno, cosmopolita, tecnológico e universal, a LaMínima consegue o mesmo efeito emocional com um estilo de produção completamente diferente ao da companhia circense canadense. As peças teatrais do grupo nacional são mais intimistas, regionais e usam os elementos tradicionais do velho circo. Aqui a figura do palhaço no picadeiro continua rendendo ótimas histórias. "Pagliacci", portanto, é a demonstração cabal da riqueza, da diversidade e da força cômica e dramática do circo tradicional. Ao final do espetáculo, é impossível dizer qual dos seis artistas no palco esteve melhor. Todos estão maravilhosos na interpretação de suas personagens! Apesar do ótimo desempenho de Alexandre Roit, é inegável a falta que Domingos Montagner faz. O carismático ator conseguia cativar a plateia antes mesmo de a peça começar. Nosso consolo é saber que Fernando Sampaio e seus parceiros continuam levando essa bela empreitada para frente com o mesmo entusiasmo e a mesma excelência de sempre. A encenação de "Pagliacci" acontece de quinta a domingo no Centro Cultural da FIESP, na cidade de São Paulo (Avenida Paulista, 1.313, Bela Vista). De quinta a sábado, o horário do espetáculo é às 20h. Aos domingos, ele acontece mais cedo, às 19h. A entrada é gratuita e a distribuição de ingressos é feita na bilheteria do Centro Cultural (aberta às 13h de quinta a sábado e às 11h aos domingos). "Pagliacci" ficará em cartaz apenas até o dia 2 de julho. Ou seja, os interessados têm pouco menos de duas semanas para acompanhar essa excepcional produção da LaMínima na cidade de São Paulo. Quem quiser conhecer mais sobre a história da LaMínima, há uma exposição acontecendo ao lado do teatro, dentro do Centro Cultural FIESP. A mostra "La Mínima 20 anos" apresenta os figurinos, as personagens e as encenações que marcaram o grupo ao longo de suas duas décadas. A exposição fica em cartaz até o dia 9 de julho e sua entrada também é gratuita. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe, então, sua opinião sobre as matérias desta coluna. Para acessar as demais críticas teatrais, clique em Teatro. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #LaMínima #DomingosMontagner #FernandoSampaio #RuggeroLeoncavallo #Comédia #ComédiaDramática #LuísAlbertodeAbreu #ChicoPelúcio #AlexandreRoit #CarlaCandiotto #FernandoPaz #FilipeBregantim #KeilaBueno #peçadeteatro #teatro















