Sistema de Pesquisa
Resultados encontrados para busca vazia
- Livros: Ferrugem - Os cariocas por Marcelo Moutinho
Sábado retrasado, em uma visita descompromissada à Livraria Cultura do Conjunto Nacional, deparei-me com "Ferrugem" (Record), o novo livro de contos de Marcelo Moutinho. A obra estava à venda na seção de literatura nacional e eu não pude resistir, adquirindo-a. Depois de alguns desencontros e adiamentos da semana passada, na última quarta-feira à noite consegui, enfim, ler esta publicação com o cuidado merecido. A leitura foi super-rápida, como é típico dos livros de contos. Em pouco mais de duas horas, já tinha finalizado a obra inteira. "Ferrugem" foi lançada no finalzinho de janeiro e marca a chegada do seu autor a uma editora de maior peso no cenário editorial brasileiro. Para quem não conhece Marcelo Moutinho, ele é um dos principais contistas cariocas da atualidade. O jornalista dedica-se à literatura há quase duas décadas. Sua especialidade é a narrativa curta (contos, crônicas e ensaios). Suas histórias são normalmente ambientadas no Rio de Janeiro ou na região metropolitana do estado fluminense. Os enredos de suas tramas focam geralmente o cotidiano das pessoas simples e as cenas banais da vida na metrópole. "Ferrugem" tem 160 páginas e 13 contos. O livro segue o estilo literário que consagrou Moutinho: a linguagem coloquial, a trama contemporânea, os personagens comuns e os enredos extraídos do dia a dia da população carioca. A grande novidade deste lançamento está na velada crítica ao progresso e à modernidade que o Rio de Janeiro vem passando. O tom principal das histórias é de melancolia e saudosismo. A sensação é que os cariocas perderam algo em sua cidade nos últimos anos e não conseguem mais achar suas emoções no novo cenário. Este vazio sentimental acaba afetando suas vidas atuais e suas crenças quanto ao futuro. A menina que repentinamente deixou a inocência da infância; a mulher que não crê no futuro ao lado do homem amado por causa de uma doença; a modernização do Maracanã impede que as lembranças dos antigos torcedores voltem à tona; o velho casal que sai para jantar, mas que não possui mais nenhuma afinidade; e o rapaz que procura compreender quem foi seu avô são casos emblemáticos desta condição. Assim, praticamente todas as tramas dialogam com as dicotomias passado-futuro, saudosismo-esperança e tradição-progresso. Em alguns contos, o autor explora o aspecto onírico da vida das suas personagens. Elas passam a sonhar, imaginar e desejar um tipo de vida, de cidade e de companhia que não existe mais. Neste ponto, a emoção sonhadora volta-se tanto para o futuro idílico quanto para o passado morto e enterrado. Viver sonhando e rememorando são práticas comuns do carioca contemporâneo. Apesar do bom texto e dos recursos literários interessantes empregados na construção dos enredos, o que mais gostei de "Ferrugem'" foi da composição das suas personagens. Aqui, temos um retrato atual da diversidade da população carioca. As histórias abordam os tipos comuns, pessoas que apesar da riqueza literária, muitas vezes passam esquecidas das publicações (e que são exploradas tematicamente com mais afinco pelas músicas). Nos contos de "Ferrugem", temos: o professor universitário que tem vontade de experimentar uma relação homossexual; a menina que ao visitar o Maracanã com o pai tenta acabar com o trauma dele pela derrota do Bangu na final do Campeonato Brasileiro de 1985; o rapaz que tem sentimentos contraditórios em relação ao avô que trabalhou na Rádio Nacional; a menina pequena que flagra o irmão mais velho se masturbando com sua boneca favorita; a jovem aidética que sonha com o antigo namorado e com a construção de uma família; o rapaz que sonhava em ser jogador de futebol, mas virou gandula; o jantar sem graça do antigo casal em comemoração ao aniversário dela; a mulher que deseja se casar com o amigo de infância que não vê há décadas; a cobradora de ônibus que acompanha a tentativa de flerte de um dos passageiros da sua linha; um cantor cover de Roberto Carlos que canta em uma boate e sonha em fazer um show completo com o repertório do Rei; e um sujeito que gosta de pescar em um viaduto que não existe mais. São estas as histórias que me lembro de cabeça. "Ferrugem" é um belo livro de contos. Ao lê-lo, conseguimos compreender um pouco o sentimento do carioca comum pela sua cidade e pela sua vida nos dias de hoje. Ao mesmo tempo, percebemos que Moutinho continua em ótima forma literária e com a perspicácia de enxergar o belo nos dramas corriqueiros da sua cidade. É ou não é um excelente contista?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarceloMoutinho #LiteraturaBrasileira #ColetâneadeContos
- Filmes: Despedida em Grande Estilo - O morno remake de 1979
Assisti, nesta terça-feira, ao recém-lançado "Despedida em Grande Estilo" (Going In Style: 2017). O filme, que chegou aos cinemas brasileiros na semana passada, teve a direção de Zach Braff, no início da transição da carreira de ator para a de diretor. O protagonismo ficou com um trio experiente e muito talentoso: Morgan Freeman, Michael Caine e Alan Arkin. "Despedida em Grande Estilo" é um remake de uma comédia-policial homônima de 1979. Na versão original, os papéis principais ficaram com George Burns, Art Carney e Lee Stranberg. É difícil apontar qual dos grupos de atores é o melhor! No longa-metragem de 2017, três amigos idosos, Willie (Morgan Freeman), Joe (Michael Caine) e Albert (Alan Arkin), sofrem com sérios problemas financeiros. A empresa industrial que o trio trabalhou por décadas decidiu deixar os Estados Unidos, se mudando para o exterior. A recessão econômica, fruto do colapso financeiro, foi a desculpa dada pela companhia para sua saída do país. Desta maneira, ela abandonou o pagamento ao fundo de pensão dos ex-funcionários. Ou seja, do dia para a noite, aqueles alegres senhores ficaram sem receber suas aposentadorias (e nunca mais vão recebê-las). Como consequência imediata, suas contas bancárias minguaram e suas casas correm o risco de serem confiscadas. A situação deles é delicadíssima! Justamente no momento da chegada da velhice, eles não têm dinheiro sequer para comprar uma torta em uma lanchonete barata de sua cidade. Sem esperança de terem seus direitos atendidos (até mesmo nos Estados Unidos a Justiça pode ser muito lenta), os amigos resolvem assaltar um banco. E não é qualquer agência que eles querem roubar. É o próprio banco onde são correntistas. A inspiração para aquela medida radical surgiu quando um dos integrantes do grupo presenciou um assalto em uma instituição financeira. Ele achou que os criminosos tiveram muita facilidade. Refletindo depois, ele considerou justa a apropriação dos recursos do banco, responsável pela exploração das pessoas comuns e a causadora daquela grave crise que atingiu o país inteiro. A pequena fortuna que será pega na operação servirá como aposentadoria dos amigos. Como eles não têm nenhuma experiência no mundo do crime, o plano é muito arriscado. A idade avançada também é um problema evidente. Eles não vivem a melhor fase da vida e estão longe da forma ideal para correrem da polícia. Apesar destes obstáculos, Willie, Joe e Albert estão dispostos a se arriscarem para colocar a mão naquela bolada que salvará suas vidas. O ponto alto deste filme está, obviamente, em seu elenco recheado de figurões do primeiro escalão do cinema norte-americano. Os protagonistas são todos vencedores da estatueta do Oscar. Ou alguém tem dúvida do talento de Morgan Freeman, Michael Caine e Alan Arkin? Dos coadjuvantes, temos ainda outros dois indicados ao prêmio máximo do cinema: Matt Dillon e Ann-Margret. Não dá para apontar qual deles está melhor em seu papel. Outra questão interessante é verificar como funciona o sistema de aposentadoria no país mais rico do mundo. Em um momento em que se fala tanto em reforma da previdência no Brasil, é curioso ver o lado negativo de um sistema privado de aposentadoria. Nos Estados Unidos, é o fundo criado pela própria empresa que é o responsável pelo pagamento aos ex-funcionários (o governo não tem nada a ver com isso). Se por um lado não onera as contas do Estado, a previdência privada fica a mercê da boa intenção das companhias capitalistas, o que muitas vezes não agrada aos aposentados. Ou seja, não há modelo perfeito. Os méritos de "Despedida em Grande Estilo" acabam por aí. O longa-metragem tem um espírito leve e escrachado, mas está longe de ser engraçado. As piadas soam um tanto antiquadas, pueris e machistas. Em se tratando de uma comédia, este é um problemão. O roteiro também não sai do trivial. As sucessões de acontecimentos não trazem surpresas ou grandes reviravoltas à trama. O enredo caminha de maneira morna até seu final, com raros momentos de maior empolgação. Além disso, o filme faz parecer fácil assaltar um banco. Se fosse mesmo simples esta tarefa, como o longa-metragem quer transparecer, haveria vários roubos destes todos os dias. Talvez essa tenha sido a realidade na década de 1970, período em que a história foi originalmente produzida. A segurança nos bancos naquela época era uma piada se comparada à atual. Assim, por mais elaborados que tenham sido os detalhes prévios e posteriores da operação dos corajosos velhinhos, a falta de imaginação do roteirista para explicar como superar a forte segurança da agência bancária no século XXI, prejudicou a trama. Para um filme policial, não há nada pior do que a falta de verossimilhança na ação dos criminosos. "Despedida em Grande Estilo" não é um filme ruim. Não é isso o que estou dizendo. Diria que ele é apenas razoável. Minha impressão é que esta é uma história que foi muito boa há algumas décadas e sua adaptação sem grandes alterações para os dias de hoje acabou empobrecendo muito o roteiro. Há, inclusive, várias outras produções recentes muito mais interessantes quando pensamos em roubo a banco e em iniciativa inusitada na terceira idade. Este é o grande problema deste longa-metragem. Se "Despedida em Grande Estilo" de 1979 foi inovador, abusado, divertido e perspicaz, o atual se mostra simplesmente convencional. Veja o trailer do novo "Despedida em Grande Estilo": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ZachBraff
- Livros: Alice no País das Maravilhas - A edição da Cosac Naify do clássico de Lewis Carroll
Foi muito triste o encerramento das atividades, no final de 2015, da Cosac Naify. A editora fundada por Charles Cosac e Michael Naify, em 1996, era pródiga em encantar os leitores com publicações de excelente qualidade. Seus livros se destacavam tanto pela inovação editorial quanto pelo apreço estético. Em um país com baixo índice de leitura e pautado essencialmente pelas escolhas comerciais do público, o fim da Cosac Naify era, infelizmente, algo um tanto previsível. Mesmo com o fechamento da editora, muitos dos seus livros ainda estão à disposição dos leitores. E é um prazer descobrir materiais que unem excelente literatura com ótimos projeto e acabamento gráficos. Digo isso porque reli, neste final de semana, uma obra que há alguns anos tem um espaço especial em minha estante: "Alice no País das Maravilhas" (Cosac Naify). Este é o livro mais famoso da carreira do inglês Lewis Carroll. Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, foi matemático, desenhista e fotógrafo, além de escritor. Apesar de ter produzido contos, romances, ensaios e poesia adulta, ele entrou para a história literária como um dos mestres das tramas infantis. "Alice no País das Maravilhas" é a primeira publicação da trilogia da menina que tinha conversas filosóficas com animais e cartas de baralho em um mundo encantado. A edição que tenho foi lançada, em 2009, pela editora de Charles e Michael e é de maravilhar até mesmo os leitores mais exigentes. A tradução ficou a cargo do escritor e historiador Nicolau Sevcenko. Em sua versão, Sevcenko usou de muita criatividade para manter o humor nonsense do original e, ao mesmo tempo, encontrar os termos equivalentes em nosso idioma para as invencionices de Carroll. Além disso, o tradutor conseguiu imprimir em seu trabalho uma linha textual que agrada tanto as crianças quanto os adultos (algo que é um dos principais méritos da literatura de Lewis Carroll). Na maioria das vezes, os tradutores brasileiros acabaram optando por um público em detrimento ao outro, desvirtuando, assim, a essência do texto do autor inglês. "Alice no País das Maravilhas" da Cosac Naify é ilustrado por Luiz Zerbini. Os desenhos do artista paulistano são maravilhosos! Impossível não ficar hipnotizado com as lindas imagens estampadas nas páginas desta obra-prima. A sensação durante a leitura do livro é que as ilustrações de Zerbini acompanham atentamente e de maneira poética a trama (algo meio óbvio, porém ausente em muitos trabalhos). Para completar o primor estético, a diagramação e os materiais gráficos utilizados para a confecção da obra são incrivelmente bonitos. Uma vez visto algo com esse requinte, você não vai achar graça em nenhuma outra edição do livro. A história da publicação de "Alice no País das Maravilhas" é tão boa quanto o seu enredo. No Verão de 1862, Charles Lutwidge Dodgson saiu para passear de barco com as três filhas do seu amigo Henry Liddell, um reverendo da Igreja Anglicana. Como Dodgson era gago, ele se sentia, muitas vezes, mais à vontade com as crianças do que com os adultos. E a criançada adorava ouvir as tramas ficcionais inventadas pelo adulto engraçado e atencioso. Sabendo das qualidades narrativas de Dodgson, Alice, uma das irmãs presentes no barco, pediu para o matemático contar uma nova aventura. E para agradar a menina, o rapaz inventou, no meio do passeio, uma história amalucada sobre uma garota também chamada Alice que caía em um buraco mágico no jardim de casa. A personagem acabava presa em um mundo encantado. A Alice verdadeira gostou tanto da narrativa de sua homônima que pediu ao amigo o livro com aquela trama de presente de aniversário. Assim, no final de 1862, Charles Lutwidge Dodgson escreveu a história e confeccionou a mão o livro de único exemplar para Alice Liddell. O título do manuscrito era "As Aventuras de Alice Debaixo da Terra". Nele, além da história contada no Verão anterior havia ilustrações feitas pelo próprio autor. O livro fez tanto sucesso na casa e entre os familiares dos Liddell que Dodgson se sentiu encorajado a lançar a obra para o grande público. Assim, em 1865, chegava às livrarias inglesas "Alice no País das Maravilhas". As ilustrações agora foram feitas por John Tenniel, um dos mais famosos artistas da época. E o livro ganhou a assinatura de um pseudônimo inventado por Dodgson. Nascia, assim, Lewis Carroll para a literatura inglesa e mundial. Como Lewis Carroll, o escritor lançaria todos os seus livros ficcionais. Como Charles Lutwidge Dodgson, ele lançou ensaios sobre matemática, lógica e defesa dos direitos dos animais. O sucesso de "Alice no País das Maravilhas" foi tanto que nos anos seguintes Dodgson/Carroll continuaria a saga de Alice em mais dois livros. A trilogia é completada com "Através do Espelho" e "O que Alice Encontrou Lá", ambas as publicações de 1871. Nessas obras, Alice continua viajando para o País das Maravilhas em sonhos. O enredo de "Alice no País das Maravilhas" começa com sua protagonista sentada no jardim de casa, ao lado da irmã mais velha, em uma tarde quente de Verão. Entediada, Alice não vê graça na leitura que a irmã está fazendo. A procura de algo mais interessante para fazer, a menina vê um Coelho Branco passar correndo por ela. Surpreendentemente, o bicho saca um relógio do bolso do colete (sim, ele está usando roupas) e fala: "Oh, meu Deus! Eu vou chegar muito atrasado!". Então, o Coelho some no meio das árvores do jardim. Curiosa para descobrir quem é aquela figura tão exótica, Alice sai correndo em disparada, seguindo-o. A menina, então, vê o Coelho Branco entrar em um buraco no chão. Sem pensar duas vezes, ela atira-se ali também. Alice cai por vários minutos em um abismo que parece não ter fim. Quando chega finalmente ao chão, a garota está em um mundo totalmente novo. Ali, ela cresce e diminui de tamanho dependendo do que ela come ou bebe. Ela também conhece várias personagens esquisitas, a maioria bichos e cartas de baralhos que agem como se fossem seres-humanos. Além do Coelho Branco, há o Rato erudito, o Dodô professoral, a Lagarta fumante, a Duquesa mal-educada, o Chapeleiro maluco, o Grilo falante, a Falsa Tartaruga depressiva, a Rainha de Copas violenta, e tantas outras figuras incríveis. Naquele reino encantado, Alice irá vivenciar várias aventuras, desafiando os moradores do lugar com seu jeito desbocado e irreverente. A menina não respeita nenhum das regras locais e passa a questionar os aspectos mais básicos daquela sociedade. Não é à toa que ela torna-se malvista por quase todo mundo dentro do País das Maravilhas, como o buraco onde caiu é chamado. "Alice no País das Maravilhas" é um livro que revolucionou a literatura infantil. São vários os motivos que comprovam essa afirmação. Em primeiro lugar, ele inseriu na trama para crianças várias questões filosóficas típicas dos adultos. As discussões travadas por Alice com seus novos amigos são profundas e muito interessantes. Não é possível saber o que Lewis Carroll pretendia com essas reflexões inusitadas, mas o fato é que os debates gerados pelo seu texto até hoje geram infinitas respostas. Assim, essa obra pode ser lida tanto por crianças quanto por adultos (que compreenderam melhor as ironias da narrativa). Outro elemento importante é a inserção de componentes oníricos à história. Se hoje esse recurso é banal (visto até mesmo como uma artimanha simplista do autor), naquela época foi algo que ampliou os horizontes dos enredos ficcionais. Não foi por acaso que Lewis Carroll tenha usado e abusado desse expediente ao longo da trilogia de Alice. Nesse sentido, "Alice no País das Maravilhas", "Através do Espelho" e "O que Alice Encontrou Lá" são idênticos entre si (sua protagonista viaja para o reino mágico apenas em sonho). E o que dizer, então, do humor nonsense da literatura de Lewis Carroll, hein?! As histórias do inglês são ambientadas no universo encantado, estimulando a imaginação das crianças e o lado lúdico de seus jovens leitores. Carroll satiriza o mundo adulto com rara felicidade. Ele escancara as maneiras pomposas, a seriedade autodepressiva, os preconceitos bobos, a violência sem sentido, a arrogância desmedida, a intolerância ao diferente e a falta de sentido de vários hábitos das pessoas adultas. Essa crítica de costumes é feita magistralmente do ponto de vista de uma menina (criança). Alice, que vive o dilema entre crescer e ficar eternamente vivendo como uma garotinha, é quem coloca o dedo nas feridas dos mais crescidinhos. As personagens do livro são excelentes. Alice é a típica heroína rebelde que enfrenta os grandes desafios da vida com espírito extremamente contestador (outra grande inovação em se tratando de literatura infantil). Apesar de desbocada, esquentada e imprevisível (de certa forma, Emília de Monteiro Lobato lembra um pouco a protagonista de Carroll), a menina é encantadora. Divertida, atrevida e corajosa, ela enfrenta tudo e todos com a simplicidade e a inocência típicas da idade. As personagens do País das Maravilhas também são ótimas. Cada um deles (o Coelho, o Rato, o Dodô, a Rainha e o Rei de Copas, a Lagarta, a Duquesa, o Chapeleiro, o Grilo, a Falsa Tartaruga, etc.) representa metaforicamente um tipo social ou uma instituição inglesa da segunda metade do século XIX. Indiretamente, Lewis Carroll satiriza a todos, para deleite dos leitores mais atentos à genialidade do texto. Lewis Carroll é reconhecidamente um mestre na arte de contar histórias infantis com doses acuradas de humor e de filosofia existencialista. Quanto mais velho e mais instruído for o público do escritor inglês, mais os leitores poderão aproveitar a sagacidade do subtexto dessas narrativas. E se "Alice no País das Maravilhas" é um livro, por si só, especular, a versão da Cosac Naify consegue torná-lo ainda mais incrível. Impossível não ficar admirado com o resultado estético desse trabalho genial. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #LewisCarroll #LiteraturaClássica #Romance #LiteraturaInglesa #Fantasia #LiteraturaInfantojuvenil
- Livros: O Paciente Inglês - O best-seller de Michael Ondaatje
No último final de semana, li o romance "O Paciente Inglês" (Editora 34). Esta é a obra mais famosa do multicultural Michael Ondaatje, escritor nascido no Sri Lanka, educado na Inglaterra e naturalizado canadense. Sua família é de origem holandesa, tâmil, cingalesa e portuguesa. Atualmente com 73 anos de idade e morando no Canadá desde 1959, Ondaatje ficou conhecido pelo público internacional pelo seu trabalho como romancista. Contudo, ele também se dedicou às novelas, aos contos e à poesia. Fora da literatura, seu trabalho abrange a música e o cinema. "O Paciente Inglês" foi lançado em 1992 e rapidamente se tornou um sucesso de público e crítica. Neste mesmo ano, a obra conquistou o Brooker Pize, o mais importante prêmio da literatura inglesa. No final do ano seguinte, o livro já era best-seller nos Estados Unidos e na Europa. Este sucesso chamou a atenção dos produtores cinematográficos. Na segunda metade da década de 1990, "O Paciente Inglês" (The English Patient: 1996) virou filme. A superprodução dirigida e roteirizada por Anthony Minghella foi estrelada por Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Willem Dafoe e Juliette Binoche. O resultado final deste trabalho pode ser resumido pela conquista de nove estatuetas do Oscar em 1997, inclusive as de melhor filme e de melhor diretor. Contendo 205 páginas, o livro "O Paciente Inglês" se passa na Itália no ano de 1945. Este é o período final da Segunda Guerra Mundial. No alto de uma montanha em uma pequena cidade da Toscana, vivem quatro pessoas. O lugar está devastado pelo conflito bélico. Se não fosse a permanência destes poucos indivíduos, poderíamos dizer que aquele era um local totalmente desabitado. O casarão onde a história se passa já fora uma riquíssima biblioteca. Nos últimos anos, porém, ele fora transformado em um hospital para os soldados. Com a migração da população, dos militares, dos médicos e dos feridos para o norte do país, a construção ficou vazia e semidestruída. Isolado de tudo e de todos, o casarão no alto da montanha é agora a residência de Hana (uma jovem enfermeira canadense que se recusou a seguir o caminho feito pelas suas companheiras de profissão), David Caravaggio (um espião italiano que fora atraído para aquela cidade abandonada), Kip (um soldado indiano responsável por desativar as bombas que foram espalhadas na região pelos alemães em fuga) e um homem muito ferido e misterioso chamado simplesmente de Paciente Inglês. De certa maneira, os destinos destas personagens estão entrelaçados. Hana está desiludida com a vida. As barbaridades que a moça viu ao longo dos últimos anos, a perda de um filho que estava em seu ventre e a recente morte do pai na guerra a deixaram descrente quanto ao futuro. Por isso, ela se nega a seguir com as demais enfermeiras para o norte da Itália. Hana opta por permanecer ao lado de seu paciente mais grave. O homem que ela julga ser inglês tem o corpo todo queimado. Ele sobreviveu à queda de um avião, porém seu estado é delicadíssimo. Sem possibilidade para seguir viagem para um lugar mais seguro, ele teve de permanecer no casarão no alto da montanha italiana. Por isso, Hana ficou com ele e não desgruda dele por nada. De certa forma, um precisa do outro. A enfermeira oferece todos os cuidados necessários ao paciente, enquanto ele dá um motivo para ela continuar vivendo. O momento predileto da moça é quando ela pode ler algo para o inglês. A leitura dos livros daquela residência levam seus moradores para bem longe dali. Após algum tempo vivendo sozinhos no casarão, Hana e seu paciente recebem a visita de mais duas pessoas. O primeiro é David Caravaggio. Antigo ladrão italiano, ele trabalhou como espião durante toda a guerra. Tio de Hana, ele segui até aquele remoto lugar para ficar com sua sobrinha. Já Kip é um soldado indiano que se alistou nas tropas inglesas. Ele foi enviado para aquela localidade para desativar todas as bombas espalhadas pela região. O rapaz se arrisca diariamente para tornar aquele local mais seguro. A trama de "O Paciente Inglês" gira em torno do convívio entre estes quatro protagonistas. Curiosamente, a história do romance não avança quase nada durante a maior parte do livro. A obra simplesmente narra o dia a dia do grupo naquela cidade abandonada e devastada da Itália. O enredo foca principalmente o drama psicológico de cada personagem. Para compreender os sentimentos e as emoções de cada um deles, Michael Ondaatje usa e abusa do recurso do flashback. Este é uma história que não anda para frente e sim para trás. Ou seja, a chave para a compreensão da realidade está no estudo do passado. À medida que o romance retrocede aos eventos anteriores ao ano de 1945, conseguimos entender as características e o perfil de Hana, David Caravaggio, Kip e do Conde László de Almásy (o paciente misterioso). O autor dedica cada capítulo a uma das suas personagens centrais. "O Paciente Inglês" é um romance psicológico com elementos poéticos. A beleza desta história está na descrição da paisagem, na rotina aparentemente banal das personagens e, principalmente, nos dramas pessoais. A pouca ambição dos protagonistas e a falta de preocupação deles com o futuro indicam o estado de melancolia de suas almas. O ponto alto do livro está na trágica história de amor narrada pelo paciente inglês. Deitado na cama, o enfermo passa a divagar sobre seu passado. De certa forma, ele não consegue abandonar a vida precedente à eclosão da guerra. Ele conta aos amigos o envolvimento que teve com uma mulher casada, o grande amor de sua vida. Katharine Clifton era esposa de um colega de trabalho dele. Os dois (Katharine e o paciente) se tornaram amantes gerando conflitos de várias naturezas. A fixação do doente pela figura da mulher amada faz com que ele pareça um louco a delirar. Outro ponto muito interessante é o desfecho deste livro. A história de amor entre Hana e Kip tem um final surpreendente. Quando o leitor acha que a trama terá uma determinada conclusão, em poucas palavras e nas derradeiras linhas o autor consegue mudar totalmente os acontecimentos. Trata-se de um fim que faz o queixo do leitor cair, tamanha é a beleza e a singularidade dos fatos narrados. Se "O Paciente Inglês" parece um pouco estranho no começo (com suas várias descrições de lugares e pessoas) ou muito cansativo no meio (com a narrativa de uma história que não avança nunca), ele se torna uma obra memorável à medida que nos aproximamos do seu final. Só neste momento podemos compreender a complexidade das várias pedrinhas do quebra-cabeça psicológico deixadas pelo autor. Este não é, definitivamente, um livro fácil. As várias citações filosóficas e literárias abrilhantam seu conteúdo, mas podem parecer enfadonhas para quem não as conhece ou não está disposto a refletir profundamente sobre cada aspecto da vida das personagens. Gostei tanto deste romance que fiquei com vontade de assistir ao filme. Apesar de "O Paciente Inglês" ser um clássico do cinema contemporâneo, admito que ainda não conferi o longa-metragem. Quem sabe não o faça neste final de semana. Estou curioso para saber como são Hana, Caravaggio, Kip, Almásy e Katharine na versão de Anthony Minghella. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MichaelOndaatje #LiteraturaCanadense #RomanceHistórico #Romance #Drama #LiteraturaContemporânea
- Filmes: Logan - O ponto final na saga de Wolverine
Neste final de semana, fui ao cinema e assisti ao filme "Logan" (2017). Sendo exibido em poucas salas tanto aqui em São Paulo quanto nas demais cidades do país, o novo longa-metragem de Wolverine está agora de saída do circuito comercial nacional. "Logan" estreou nos cinemas brasileiros no dia 3 de março. Completa hoje, portanto, exatamente um mês em cartaz. Por isso, é natural a dificuldade de ainda encontrá-lo em exibição. Sinceramente, não sei se ele ainda estará disponível nos cinemas a partir da próxima semana. É provável que não. Acabei preterindo esta produção várias vezes nas últimas semanas, deixando-a quase para o último momento, por um simples motivo: não sou muito fã das histórias de super-heróis. Quando garoto, por exemplo, sempre preferi os gibis da Turma da Mônica ou os quadrinhos do Ziraldo às tramas da Marvel ou da DC Comics. Meus personagens favoritos eram o Chico Bento e o Menino Maluquinho e não o Homem-Aranha ou os X-Men. Admito que só entrei na sala de cinema para ver "Logan" neste sábado por falta de opção. Este era o único filme disponível para o horário em que eu podia ver. Era este ou nenhum. Preferi a primeira alternativa, obviamente. Coisas de quem não pode passar uma tarde sem uma sessão na sala escura... Dirigido por James Mangold, diretor consagrado em "Johnny & June" (Walk the Lin: 2005) e responsável pelo último filme do Wolverine, "Wolverine: Imortal" (The Wolverine: 2016), "Logan" tem como grande mérito a coragem de se colocar um ponto-final na saga do principal personagem da Marvel. Ainda com Hugh Jackman como intérprete do mutante criado pela dupla Wein & Romita (Jackman fez todos os papéis de Wolverine e se tornou um rosto conhecido no universo cinematográfico justamente por este desempenho), o longa-metragem inova por apresentar um aspecto quase inexistente nas tramas dos super-heróis: um verdadeiro desfecho para a série. Este sempre foi o aspecto que mais me incomodou nas tramas dos super-heróis. A falta de um final para os protagonistas sempre tornou os enredos mais inverossímeis e fantasiosos. Tudo bem que eles voem, sejam fortes, tenham poderes sobrenaturais e sejam imbatíveis. Isso eu até engulo. O que nunca tolerei é o fato das personagens principais destas histórias não morrerem ou se aposentarem. Você já reparou nisso? Eles também nunca envelhecem nem dão oportunidade para a nova geração substituí-los. Vivem em um mundo em que não há decadência física e mental, velhice, doença, limitações e finitude. A maioria não se casa, não constitui família, não evolui psicologicamente, não amadurece e nem supera seus traumas mais profundos. São eternamente iguais, independentemente da fase da vida, repetindo erros e acertos por décadas e séculos. Exatamente por isso, o lançamento da "A Morte do Super-homem" marcou muito minha adolescência. Era metade da década de 1990 e o fato de ver, enfim, o falecimento de uma personagem de tal envergadura me motivou a correr até a banca de jornal e comprar a revista em quadrinhos. "A Morte do Super-homem" foi a quebra de um importante paradigma cultural. Mesmo não sendo fã da série, adquiri na hora a revista (era uma época em que a garotada visitava as bancas com empolgação). Minha frustração foi imensa quando no mês seguinte saiu a continuação daquela história. Não acreditei quando li o título: "A Volta do Super-homem". "Como assim?", pensei incrédulo naquele momento. "Como ele pode voltar se morreu?". Eu e todos os leitores tínhamos sido enganados! Clark Joseph Kent não tinha morrido coisa nenhuma (e jamais morrerá, creio eu). Era apenas um recurso para se vender mais revistinhas. Estou contando sobre esta minha frustração histórica e sobre minha grande antipatia pelas narrativas dos super-heróis (sejam elas nos quadrinhos ou nas telas de cinema) para explicar o quanto saí do cinema, neste final de semana, impressionado positivamente com "Logan". O que sempre procurei em uma trama deste tipo, enfim, encontrei agora. Uhu! O filme é o capítulo final (sim, há um desfecho plausível!) da história de Wolverine, o personagem mais famoso e lucrativo da história da Marvel. O mutante foi figurinha carimbada nos sete filmes da série X-Men: "X-Men - O Filme" (X-Men: 2000), "X-Men 2" (X2: 2003), "X-Men - O Confronto Final" (X-Men - The Last Stand: 2006), "X-Men Origens - Wolverine" (X-Men Origins - Wolverine: 2009), "X-Men - Primeira Classe" (X-Men - First Class: 2011), "X Men - Dias de um Futuro Esquecido" (X-Men - Days of Future Past: 2014) e "X-Men - Apocalipse" (X-Men- Apocalypse: 2016). Ele também protagonizou uma trama própria recentemente: "Wolverine: Imortal". Ou seja, Wolverine é estrela de primeira grandeza do universo mágico dos heróis do cinema e dos quadrinhos. Assistir seu ocaso e, consequente, fim é algo mágico e bastante simbólico. Assim como todas as frases de um texto possuem um ponto final, todas as tramas, independentemente do enredo, precisam de um ponto final também. Em "Logan", nos deparamos com Wolverine (Hugh Jackman) vivendo de maneira decadente e sem qualquer glamour. É o ano de 2029 e ele já não é mais o herói que impressionou a todos. Morando escondido no extremo sul do país e cuidando de Charles Xavier (Patrick Stewart) já muito senil e com problemas psicológicos, Logan sofre com o alcoolismo, com a própria velhice e com algumas doenças que teimam em aparecer em seu corpo. A debilidade do "pai" nonagenário também prejudica em muito sua já complicada vida. Neste cenário, o antigo herói ganha a vida dirigindo uma limousine para endinheirados. Em certo dia, surge uma enfermeira mexicana chamada Gabriela (Elizabeth Rodriguez) que, ao reconhecer Wolverine, deseja contratar seus serviços de motorista particular. O trabalho é levar a filha pequena dela, Laura (Dafne Keen) de cerca de dez anos, para a Carolina do Norte, no extremo norte dos Estados Unidos. Após relutar em fazer tão longa viagem de carro, Logan aceita a oferta da misteriosa mulher. Contudo, ele percebe rapidamente a enrascada em que se meteu. Laura é na verdade X-23, uma jovem mutante desenvolvida artificialmente em um laboratório privado especializado em criar soldados com superpoderes para o governo norte-americano. A guarda particular da organização irá atrás da garota e, por consequência, de Logan para reaver este bem da empresa. O velho herói precisará, assim, proteger a menina dos inimigos e cumprir sua palavra de levá-la ao destino. "Logan" tem todos os elementos de um típico filme de super-herói: boas cenas de ação, brigas homéricas, perseguição sem fim, maniqueísmo acentuado, violência extrema, doses de humor e conflitos de natureza psicológica envolvendo o protagonista. Desta maneira, fica óbvia a preocupação do roteirista e do diretor em agradar aos antigos fãs da série X-Men, acostumados com este receituário. Contudo, o longa-metragem vai além deste cenário previsível. Ele insere componentes inovadores à trama. Os conflitos de ordem pessoal da personagem principal se intensificam e ganham novos contornos na medida em que ela fica velha, doente e, de certa forma, impotente para com os destinos da humanidade. Há também o acréscimo de temas inusitados para este tipo de gênero cinematográfico como o debate sobre hereditariedade, paternidade, sucessão, gratidão e legado. Este é um lado completamente novo na história de Wolverine (e de qualquer outro super-herói). É verdade que todos eles têm pontos fracos e traumas que afetam suas vidas. Porém, o que temos aqui é um grau maior destes conflitos, agravados pela passagem natural do tempo. A doença, a velhice, a decadência física e psicológica e o medo da morte, curiosamente, tornam-se os mais cruéis inimigos de uma pessoa, seja ela humana ou não. É aqui que está toda a graça deste filme. Esqueça a pancadaria, as cenas de perseguição e as batalhas travadas entre bonzinhos e malzinhos. O maior mérito de "Logan" está no verossímil drama do protagonista, algo em que todos que envelhecem vão passar um dia. Quem escreveu o desfecho da história em quadrinhos de Wolverine e quem teve a coragem de levá-lo para as telonas fez um belo serviço a todos, inclusive a Hugh Jackman. O ator, que já se aproxima dos cinquenta anos, não teria muito fôlego para novas aventuras deste tipo. Provavelmente, esta também foi sua despedida do papel que o levou ao estrelato. Como é bom ver a aplicação de um ponto final a uma trama tão complexa. Só por isso, vale a pena assistir ao filme de James Mangold. Se soubesse que esta produção tinha tantos elementos interessantes, com certeza a teria visto logo em sua estreia. Veja o trailer de "Logan": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JamesMangold
- Livros: Sentimento do Mundo - A poesia engajada de Carlos Drummond de Andrade
Como os leitores do Bonas Histórias podem constatar regularmente, sou um leitor muito mais assíduo de prosa do que de poesia. Para cada 30 análises de romances, novelas e livros de contos publicadas aqui no blog, acabo fazendo, em média, apenas um único post sobre coletâneas de poemas. Tenho consciência do quão vergonhoso é essa relação (ou seria desproporção?!). Admito, assim, conhecer muito pouco quando o assunto é a produção poética da nossa literatura. Para reparar, em parte, esse grave defeito de minha formação, eu li no começo desta semana "Sentimento do Mundo" (Companhia de Bolso), coletânea de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Para os especialistas da área, Drummond é o mais influente poeta brasileiro do século XX e um dos principais da história da literatura em língua portuguesa. Apesar de ter feito também contos e crônicas, o escritor nascido em Itabira, Minas Gerais, é muito mais conhecido pela sua poesia do que pela sua prosa. Este livro me foi emprestado, no começo do ano, pelo Paulo Sousa, meu amigo de longa data. Quem acompanha o Bonas Histórias sabe que Paulo é escritor e produziu, em 2016, a série de contos chamada "Histórias de Macambúzios", disponível na seção Contos & Crônicas. E "Sentimento do Mundo" é uma indicação da minha professora e orientadora do UNIS, Carina. Carina é uma grande fã de Drummond e, em várias oportunidades, me incentivou a lê-lo. Reparem que todos à minha volta parecem empenhados em estimular a minha leitura de poesia. Agradeço desde já a ajuda de vocês. "Sentimento do Mundo" é o terceiro livro da carreira de Carlos Drummond de Andrade. Publicada em 1940, a obra teve uma tiragem inicial bastante restrita. A maioria dos 150 exemplares da sua primeira edição foi distribuída apenas para amigos do poeta e contatos dele no mercado editorial. Embora jovem, tinha 37 anos de idade nessa época, Drummond de Andrade já era um nome de prestígio no círculo literário nacional e entre os modernistas "nascidos" sob a influência da Semana de Arte de 1922. Apesar da tímida edição, o livro representou uma nova fase na carreira do artista. Após se mudar para o Rio de Janeiro, em 1934, e vivenciar os horrores do início da Segunda Guerra Mundial e a violência do Estado Novo de Getúlio Vargas, Drummond atinge a maturidade poética ao acrescentar em seus versos as angústias sociais e as intrigas políticas daquele período conturbado da história do planeta e do Brasil. "Sentimento do Mundo" possui doses fortes de pessimismo. Essa visão negativa da vida na cidade grande e do mundo moderno é embalada com o lirismo e a sutileza de um poeta talentoso. Nunca o feio, o terrível, o injusto e o monstruoso pareceram tão bonitos nas páginas de um livro. "Sentimento do Mundo" é uma coletânea de poemas de tamanho curto. A obra tem menos de 90 páginas. É possível lê-la em uma tacada só. Cada uma de suas 28 poesias ocupam, na maioria das vezes, apenas uma ou duas páginas. Os poemas contemplados no livro são: "Sentimento do Mundo" (poema que empresta seu nome à obra), "Confidência do Itabirano", "Poema da Necessidade", "Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte", "Tristeza do Império", "O Operário do Mar", "Menino Chorando na Noite", "Morro da Babilônia", "Congresso Internacional do Medo", "Os Mortos de Sobrecasaca", "Brinde no Juízo Final", "Privilégio do Mar", "Inocentes do Leblon", "Canção do Berço", "Indecisão do Méier", "Bolero de Ravel", "La Possession Du Monde", "Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro", "Os Ombros Suportam o Mundo", "Mãos Dadas", "Dentaduras Duplas", "Revelações do Subúrbio", "A Noite Dissolve os Homens", "Madrigal Lúgubre", "Lembrança do Mundo Antigo", "Elegia", "Mundo Grande" e "Noturno à Janela do Apartamento". Se "Alguma Poesia", de 1930, e "Brejo de Almas", de 1934, as duas primeiras coletâneas de poemas de Drummond, falavam da vida interiorana do autor em Minas Gerais, dos primeiros amores, da família e do fazer literário, em "Sentimento do Mundo" a temática é radicalmente oposta. A maioria dos poemas do livro de 1940 versa sobre a realidade social e política do país e do mundo. O panorama apresentado é o mais corrosivo e angustiante possível. As mortes nos campos de batalhas, as injustiças sociais típicas da cidade grande (ao menos no Brasil e no Rio de Janeiro), o egoísmo gerado pelo consumismo, a cultura da acumulação desmedida de capital e o medo de viver em um mundo caótico dão o tom aos versos da obra. Curiosamente, "Sentimento do Mundo" continua sendo uma obra atual depois de quase seis décadas de sua primeira publicação. Parte da "culpa" por isso está na competência de Carlos Drummond de Andrade, que soube imprimir lirismo em algo essencialmente pouco belo. Porém, a outra parte na "culpa" está, infelizmente, na nossa realidade violenta e depressiva. O mundo retratado pelo poeta em 1940 é muito parecido ao que temos no primeiro quarto do século XXI. Ou seja, ler "Sentimento do Mundo" hoje em dia é uma experiência estética tão interessante quanto foi na metade do século XX. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #CarlosDrummonddeAndrade #Poesia #LiteraturaBrasileira #Modernismo
- Músicas: The Doors - Cinquentenário da estreia da banda
The Doors é uma das bandas de rock mais cultuadas de todos os tempos. O grupo californiano formado, em 1965, por Jim Morrison (vocalista), Ray Manzarek (tecladista), Robby Krieger (guitarrista) e John Densmore (baterista) teve apenas seis anos de vida. Apesar do pouco tempo de duração, a fama do quarteto permanece inabalada até hoje. Estima-se que passadas quatro décadas da sua desintegração, The Doors ainda venda anualmente 2,5 milhões de cópias. Este longo sucesso é explicado por dois fatores indissociáveis: a polêmica imagem do carismático líder da banda e a produção de composições inovadoras e antológicas. Jim Morrison praticamente criou a figura do roqueiro rebelde que ainda perdura na cultura ocidental até hoje. Sex symbol no final da década de 1960, o vocalista provocava o público usando calças justas e casacos de couro. Ele também fazia apresentações contagiantes e amalucadas em cima do palco, enquanto fora dele abusava no uso indiscriminado de bebidas alcoólicas e de drogas ilícitas. Morrison foi preso, arranjou confusão por onde passou e criou uma lista de inimigos. Ao mesmo tempo em que não deixava pedra sobre pedra em seu caminho, o vocalista criou letras e canções memoráveis. Impossível alguém nos dias de hoje não ter ouvido, por exemplo, "Break on Through (To the Other Side)", "People Are Strange", "Light My Fire" e "Riders on The Storm". Curiosamente, estes clássicos foram apresentados ao público nos dois primeiros discos do grupo, ambos lançados no mesmo ano. Em janeiro de 1967, chegava às lojas dos Estados Unidos o álbum "The Doors", o disco de estreia da banda. Gravado no ano anterior, o LP é considerado até hoje como um dos melhores da história do rock. Com influências de vários estilos musicais como o country e o folk, a overdose sonora agradou logo de cara a crítica e o público. "Break on Through (To the Other Side)" e "Light My Fire" chegaram ao topo das paradas nas rádios norte-americanas, levando The Doors ao programa Ed Sullivan Show, o mais importante da época. "Alabama Song (Whiskey Bar)", uma regravação de uma canção célebre, e "The End", com seus longuíssimos onze minutos de duração e com tom sombrio e misterioso, também encantaram os ouvidos da plateia. Este primeiro disco do The Doors vendeu até hoje 10 milhões de exemplares. O sucesso foi tão grande que pouco mais de seis meses depois do seu lançamento, o grupo voltava ao estúdio para gravar seu segundo LP. Em outubro de 1967, chegava ao mercado "Strange Days", a segunda produção do quarteto. Neste álbum, The Doors escolheu as músicas que não entraram no álbum anterior. Aqui estão presentes "People Are Strange", "Moonlight Drive", "Love Me Two Times" e "When The Music's Over". Não dá para acreditar que estas músicas foram renegadas na gravação anterior. Há cinquenta anos, portanto, o mundo do rock ganhava dois discos memoráveis e uma banda clássica. Definitivamente, 1967 foi o ano mais inspirador do The Doors. Nos três anos seguintes, o grupo lançou mais três álbuns. Apesar do sucesso crescente, a maioria dos novos trabalhos desapontou os fãs originais por não trazer grandes novidades sonoras. As canções voltaram-se mais para o pop e se distanciaram do tom psicodélico inicial. Em 1971, Jim Morrison morreu aos 27 anos (mais um músico que sucumbiu a sina desta idade) em uma banheira de hotel em Paris. Suspeita-se que a causa da morte tenha sido overdose. Com a ausência do seu líder, The Doors foi aos poucos tornando-se irrelevante. Os demais integrantes, liderados por Ray Manzarek, até tentaram seguir com a banda, porém o fracasso foi inevitável. Um ano depois do falecimento de Morrison, o grupo parou de se apresentar regularmente. Mais recentemente, Manzarek e Krieger até tentaram se reunir em especiais para reviver os clássicos do grupo. A morte de Manzarek, em 2013, contudo, decretou o fim definitivo da banda. Para os fãs do quarteto californiano, fim é uma palavra que não existe em seu dicionário musical. Basta ouvir os dois discos de 1967 para sentir que a alma do The Doors continua viva e pulsando com intensidade até hoje. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #TheDoors
- Livros: A Paixão Segundo G.H. - O monólogo de Clarice Lispector
Um romance difícil e profundo que exige, acima de tudo, maturidade por parte do leitor. Estes foram os primeiros comentários que passaram pela minha mente ao ler a última página de "A Paixão Segundo G.H." (Rocco), de Clarice Lispector. Ao lado de "A Hora da Estrela" (Rocco) e "Laços de Família" (Rocco), "A Paixão Segundo G.H." foi a principal obra da escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira. Publicado inicialmente em 1964, este livro compõe a fase madura de Lispector, sendo considerado por muitos críticos literários como um dos principais romances da segunda metade do século XX do nosso país. O enredo deste livro é aparentemente simples. Uma mulher rica, proprietária de um apartamento em uma cobertura, decide entrar no quarto da empregada recém-demitida para limpar o ambiente antes da contratação de uma nova profissional. Contudo, uma força misteriosa prende a mulher naquele quartinho. Ela não consegue mais sair dali. As coisas só pioram quando uma barata aparece. Com medo e nojo do inseto, a proprietária decide matar a barata. Estes acontecimentos banais desencadeiam uma sucessão de reflexões na protagonista, fazendo-a repensar sua vida a partir de cada detalhe daquele quartinho escondido da sua casa. A narrativa é feita em primeira pessoa pela dona do apartamento. O nome da mulher não aparece em nenhum momento durante a trama. Ficamos sabendo apenas as suas iniciais: G.H. Ela conta o episódio no quarto da empregada ao mesmo tempo em que faz divagações sobre seus medos, suas frustrações, seus sonhos, seus desejos, seus relacionamentos e sua rotina. Tudo é motivo para uma boa dose de reflexão. O que liga os capítulos do livro é a frase inicial e final de cada um deles. Ou seja, a última frase de um capítulo é a mesma frase de abertura da nova seção. O tom do romance é de um monólogo existencialista que não respeita o tempo cronológico. As impressões e os pensamentos da protagonista aparecem à medida que surgem na mente dela. Esta é a principal característica literária de Clarice Lispector. O intenso e constante fluxo de consciência da narradora leva o leitor para dentro da alma da personagem, sendo possível compreender seus sentimentos, suas preocupações e suas aspirações. Outro aspecto interessante de "A Paixão Segundo G.H." é a constante referência à linguagem, feita pela protagonista-narradora, como forma de buscar a essência do seu ser e dos demais seres humanos. Neste ponto, as palavras e a comunicação interpessoal, segundo o livro, são as responsáveis por afastar as pessoas de suas essências e do caminho que deveriam seguir. Trata-se de um debate filosófico que permeia toda a obra e que vai, pouco a pouco, se aprofundando em um drama psicológico denso e passional. Admito que sofri um pouco (ou seria muito?) para concluir este romance. Esta leitura não é nada fácil. É preciso certa coragem e disposição para embarcar no debate existencialista proposto por Lispector. O ideal é que esta narrativa seja lida lentamente e com atenção redobrada por parte do leitor para que ele não se perca no emaranhado de reflexões de G.H. A ausência de um enredo mais elaborado (tudo acontece, basicamente, dentro do quartinho de empregada), o limitado número de personagens (acredite, só há a protagonista e a barata) e a falta de ação (a história é pautada por reflexões e não por episódios concretos) podem assustar. Por isso, é interessante ler e reler esta obra várias vezes. A impressão que tive ao ler "A Paixão Segundo G.H." é de estar interagindo com um livro que mistura Franz Kafka (impossível não se recordar de "A Metamorfose"), Italo Calvino (e suas obras metalinguísticas e filosóficas como "Palomar"), Luis Buñuel (e seu filme surrealista "O Anjo Exterminador") e Jean-Paul Sartre (e sua teoria Existencialista). Clarice Lispector é tudo isso e mais um pouco. Ela ainda acrescenta um perspicaz conhecimento da alma feminina à trama e entrelaça prosa e poesia ao seu texto. Você pode gostar ou não gostar de "A Paixão Segundo G.H.", mas é impossível não reconhecer que se trata de uma obra profunda e com vasto conteúdo para debates e reflexões. A própria autora aponta este livro como sendo mais indicado para pessoas que atingiram um alto grau de maturidade (o que, infelizmente, ainda não é o meu caso). Afinal, é preciso lastro e bagagem de vida para entender a filosofia de G.H. contida nas 180 páginas do romance. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ClariceLispector #LiteraturaBrasileira #Romance #DramaPsicológico #Drama #LiteraturaClássica
- Filmes: Fragmentado - Suspense das múltiplas personalidades
"Fragmentado" (Split: 2017) é o novo filme do diretor Manoj Night Shyamalan. Orçada em US$ 100 milhões, esta produção estreou ontem nos cinemas brasileiros e promete agradar em cheio aos fãs do diretor. Shyamalan é especialista em construir tramas de terror e suspense. Além do clássico "O Sexto Sentido" (The Sixth Sense: 1999), o indiano naturalizado norte-americano também esteve à frente dos ótimos "Corpo Fechado" (Unbreakable: 2000), "Sinais" (Signs: 2002) e "A Vila" (The Village: 2004). Conhecendo o excelente histórico de Shyamalan, fui à sessão de cinema desta quinta-feira com a expectativa lá nas alturas. O trailer que havia visto há algumas semanas acabou intensificando ainda mais a minha suposição de que se tratava de um bom filme. Minha conclusão ao sair do cinema ontem é que "Fragmentado" é realmente uma ótima opção em cartaz. É verdade que ele pode estar em um patamar bem abaixo de "O Sexto Sentido" e não conseguir se igualar a "Sinais" e "A Vila", mas é um belo longa-metragem de suspense. Não concordo com os críticos que acham que Shyamalan não traz mais tantas novidades como na virada dos anos 1990/2000 e que tenha se tornado um diretor previsível. "A Visita" (The Visit: 2015) e, principalmente, "Fragmentado" mostram o quanto o indo-americano ainda é talentoso na arte de assustar e intrigar a plateia com tramas inovadoras e desconcertantes. Em "Fragmentado", o expectador fica com a atenção presa à tela ao longo das duas horas de produção, sofrendo com as personagens e tentando descobrir o que se passa na cabeça do desequilibrado protagonista. Se a princípio o longa-metragem pode parecer um típico drama juvenil de terror (afinal, seu início tem todos os ingredientes deste tipo de filme), à medida que avança a história mostra toda a sua complexidade psicológica. O grande tema em questão é o do Transtorno Dissociativo de Identidade, o TDI no jargão da psiquiatria. Para o público em geral, esta é a doença mental conhecida como Múltipla Personalidade. Se este não é um assunto novo no cinema, ao menos ele foi muito bem utilizado aqui. O longa-metragem começa com três adolescentes sendo sequestradas no estacionamento de um shopping center. As garotas despertam em um quarto misterioso. Elas estão trancadas ali e não sabem quem as prendeu e por quê. Rapidamente, surge a figura de Dennis (interpretado por James McAvoy). O sombrio rapaz se identifica como o sequestrador e tenta abusar de uma das jovens. As adolescentes se desesperam e começam a traçar planos de fuga. A trivialidade do enredo acaba por aí. Aos poucos, as moças percebem que o problema maior daquela casa misteriosa e daquele homem que as aprisiona está na múltipla personalidade do raptor. Dennis se transforma em Patrícia, uma mulher autoritária e fria. Logo depois, ele passa a se comportar como uma criança de nove anos. Hedwin, como ele se identifica nesta nova versão, passa a fazer amizade com as garotas e se solidariza com o drama delas. Enquanto isso, o trio Dennis/Patrícia/Hedwin também dá vez a um talentoso estilista de moda, que frequenta o consultório da Dra. Karen Fletcher (interpretado por Betty Buckley), psiquiatra especializada em Transtorno Dissociativo de Identidade. Ela é a única que sabe que seu paciente possui 23 personalidades diferentes, que emergem "a luz" dependendo da situação. Enquanto as três jovens precisam lidar com o medo e as incertezas do que seus vários sequestradores (todos no corpo de um único homem) farão, a história ainda conta com o drama interno do protagonista-vilão. O rapaz com TDI precisa lidar com uma batalha particular travada em sua própria mente por suas distintas personalidades. Uma dupla destas personalidades, que ficara adormecida por muitos anos e que possui claras intenções de provocar o mal, voltou à ativa e quer dominar as ações do rapaz. Este lado sombrio do sequestrador afirma que há uma vigésima quarta faceta que está na iminência de ser aflorada. Trata-se da versão mais forte e destruidora do TDI. A graça de "Fragmentado" está, primeiramente, em entender a complexidade deste enredo aparentemente absurdo (porém, comprovado como possível através das pesquisas na área da psicologia humana). A riqueza da história está intimamente associada ao quão pitoresco é a vida de Dennis/Patrícia/Hedwin e todas as demais 20 personalidades que habitam o mesmo corpo. Depois de compreendido o que se passa na cabeça da personagem principal, o suspense fica para saber como a intriga interna da sua mente irá afetar a vida das três infelizes garotas que tiveram o azar de caíram em suas garras. O desfecho do filme é muito bom. A tensão e a dramaticidade do longa-metragem vão crescendo continuamente até desembocarem em um clímax eletrizante e assustador. É no momento final que todas as peças da história se convergem, construindo um bom panorama. Manoj Night Shyamalan, que sempre gostou de produzir o roteiro dos seus filmes, mostra-se novamente um ótimo roteirista. Não é à toa que suas melhores produções foram justamente aquelas que tiveram sua autoria no roteiro. Talvez, o único ponto negativo de "Fragmentado" tenha sido as últimas cenas, aquelas que compõem o fechamento da trama (após o desfecho). Percebi no cinema que algumas pessoas não entenderam o finalzinho do filme. Para compreendê-lo, é preciso algum repertório cinematográfico, como por exemplo, o motivo do aparecimento na última cena de Bruce Willis e de seu David Dunn, personagem de "Corpo Fechado", filme do próprio Shyamalan. Curiosamente, apesar da complexidade e da agilidade do enredo, "Fragmentado" tem basicamente cinco atores contracenando quase todo o tempo. As garotas são interpretadas pelas jovens Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson e Jessica Sula e a dupla psiquiatra-paciente é conduzida pelos experientes Betty Buckley e James McAvoy. Anya Taylor-Joy (como a problemática Casey) e Betty Buckley (como a dedicada doutora) até trabalham muitíssimo bem, mas é impossível tirar os olhos de James McAvoy. Ele consegue emocionar o público com seus vários personagens, ora assustando, ora divertindo. Sem sombra de dúvidas, este foi o papel mais desafiador da carreira deste talentoso ator inglês, que nos últimos anos acabou trabalhando mais em produções de super-heróis e de ação (obviamente escolhas com menores graus de desafio cênico). Assim, "Fragmentado" é uma ótima opção em cartaz para quem quer passar algum medo, levar sustos e se aventurar por uma mente complexa e paranoica de um homem que sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade. Este filme só não é indicado para quem quiser levar crianças ao cinema. Pode parecer um tanto óbvio falar isso aqui, mas na minha frente tinha um homem acompanhado por uma menina de nove ou dez anos de idade assistindo à sessão. Ou a garotinha é uma alucinada precoce por tramas do gênero suspense/terror ou o provável pai errou feio na escolha do programa com a filha. Pela forma como saíram do cinema, acho que a segunda alternativa é a mais provável. Ambos estavam completamente desnorteados. Pelo menos neste sentido, o filme se mostrou muito bom. Veja o trailer: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ManojNightShyamalan
- Livros: Casa de Bonecas - Um clássico da dramaturgia de Henrik Ibsen
Li, neste final de semana, o livro "Casa de Bonecas" (Veredas), uma das obras mais famosas de Henrik Ibsen, o maior dramaturgo norueguês de todos os tempos. Ibsen é considerado o pai do teatro realista moderno. Ele revolucionou a arte cênica na segunda metade do século XIX, influenciando até hoje os profissionais da área. No ano passado, assisti a "Peer Gynt", outro clássico do norueguês. Contudo, não conhecia a fundo "Casa de Bonecas". Quem havia comentado comigo, certa vez, sobre esta peça foi minha amiga Débora Pesso, que escreve críticas teatrais aqui no Blog Bonas Histórias. Ela interpretou um papel (entre várias atividades, a Débora é atriz) em uma montagem nacional desta peça de Ibsen. Desde então, fiquei curioso para conhecer esta trama (Não pude ir assisti-la no palco na ocasião porque estava morando no Rio Grande do Sul e o espetáculo ficou em cartaz apenas na capital paulista). Aí, no último sábado, achei, por acaso, este livro na estante da biblioteca do meu pai. "Pronto!", pensei. "Agora não tenho mais desculpas para não me aprofundar nesta grande obra de Henrik Ibsen". "Casa de Bonecas" faz parte de uma antiga coleção da Editora Veredas com clássicos teatrais. Publicado há dez anos, "Em Cartaz", como a série foi nomeada, trouxe para os leitores brasileiros os textos de peças de Anton Tchekhov ("A Gaivota", "O Tio Vânia", "As Três Irmãs" e "O Jardineiro das Cerejeiras"), Antunes Filho (adaptação de "Gilgamesh"), Moliére ("As Preciosas Ridículas"), August Strinberg ("A Dança da Morte") e Máximo Gorki ("Ralé"). Trata-se de uma baita coleção para quem curte os cânones da arte cênica. Encenada pela primeira vez em Copenhague, em dezembro de 1879, "Casa de Bonecas" gerou grande polêmica na época ao expor o machismo da burguesia escandinava. Esse tema não era usual no século XIX. A peça percorreu os principais teatros da Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia nos meses seguintes à sua estreia. E graças a essas apresentações, seu dramaturgo ficou conhecido na região e fora dela. Já em 1880, o espetáculo foi encenado em cidades alemãs. Em alguns anos, montagens foram feitas na França e na Inglaterra. Não é errado, portanto, afirmarmos que "Casa de Bonecas" foi responsável pela internacionalização do trabalho e do nome de Ibsen. A partir desta produção, o norueguês entrou para o hall dos mestres da dramaturgia mundial. "Casa de Bonecas" é dividida em três atos. No primeiro, conhecemos a família Helmer. A história é ambientada em uma véspera de Natal. Torvald e Nora Helmer são casados há oito anos e têm três filhos pequenos. Depois de passar por algumas dificuldades financeiras, o casal encontra-se em uma fase próspera. Torvald, um advogado honesto e altruísta, foi alçado ao posto de diretor do banco onde trabalha. Ele ocupará o novo cargo em alguns meses. Assim, seu salário será multiplicado e a família poderá viver com mais tranquilidade financeira. Por não ter assumido seu novo posto no banco, Torvald Helmer precisa conter o espírito consumista da esposa, uma dona de casa zelosa e pacata. Nora parece ansiar por gastar todo o salário que o marido ainda não recebeu. Apesar de amorosa, companheira e dedicada à casa e à família, a mulher é vista pelo marido como fútil, alienada e muito gastadora. Nora, inclusive, chega a pedir para Torvald fazer um empréstimo bancário. Assim, ambos já poderiam gastar, desde então, parte do futuro salário de diretor. O advogado, contudo, é contra a ideia da esposa. O Sr. Helmer é muito precavido quando o assunto é sua vida financeira. Ele tem horror aos empréstimos e acha que pessoas esbanjadoras sofrem de defeito de caráter. Neste momento da história, Nora recebe a visita de Kristina Linde, uma amiga viúva. As duas não se viam há anos. A Sra. Linde quer a ajuda de Nora para conseguir um emprego no banco de Torvald. Como diretor da instituição, o marido da amiga poderá ajudá-la a obter uma boa remuneração e uma boa ocupação profissional. Nora aceita a tarefa de convencer Torvald a empregar Kristina. Além disso, a Sra. Helmer conta um grande segredo à sua amiga recém-chegada. Ao invés de ser uma mulher fútil, alienada e perdulária como todos imaginam, Nora é na verdade alguém que se sacrifica pela família, que economiza todo o possível e que liderou, em silêncio, sua família no período de maior adversidade. Há alguns anos, quando Torvald padecia de uma grave doença, Nora contraiu um polpudo empréstimo de um agiota. A mulher fez isso sem o consentimento do marido. Com a grana em mãos, ela levou a família para uma temporada na Itália. Lá, o Sr. Helmer se recuperou e, tempos depois, voltou com a saúde revigorada para a Noruega. Enquanto o marido retomava seu trabalho como advogado, Nora precisou pagar a dívida e os juros ao agiota. Para ninguém perceber seus compromissos financeiros mensais, ela abriu mão dos gastos pessoais e passou a trabalhar em serviços manuais em casa para conseguir o dinheiro. Assim, ao longo dos anos, pode pagar religiosamente a dívida sem que o marido notasse nada de errado. Isso até agora... Torvald, como futuro diretor do banco, quer demitir Krogstad, um advogado de caráter questionável que trabalha na mesma instituição. O problema é que Krogstad é o agiota que emprestou dinheiro para Nora. O rapaz procura, então, a esposa de Torvald para que ela interceda a seu favor. O Sr. Helmer perceba a manobra do funcionário e o demite imediatamente. Krogstad fica furioso com Nora e promete revelar o segredo da mulher para o marido. Nora se vê sem saída e totalmente desesperada. Se Torvald descobrir sua antiga artimanha para conseguir dinheiro, ele deixará de amá-la. Ela será vista para sempre como uma mulher desprezível e inconsequente. "Casa de Bonecas" é um livro curto. Com pouco mais de 100 páginas, é possível lê-lo de uma tacada só. Constituído quase que essencialmente por diálogos (afinal foi escrito originalmente como uma peça teatral), sua leitura é veloz. Finalizei a obra em pouco mais de três horas na tarde de sábado. O texto de Henrik Ibsen é realmente muito bom. Desde o começo do livro é possível notar a força dramática desta história. O mais interessante é que à medida que a narrativa avança, a tensão vai progressivamente se elevando. Ao final do primeiro ato, é impossível largar o livro. O desespero de Nora é comovente e, na concepção burguesa tradicional, inusitado. Apesar de a evolução desta trama ser mais ou menos previsível até a metade da obra, a riqueza de sua história está concentrada no final surpreendente. A postura e as decisões tomadas por Nora Helmer no desfecho são espetaculares. "Casa de Bonecas" é aquele tipo de livro que o desenlace transforma o que o leitor havia entendido nas fases anteriores (na apresentação e na complicação). Uma vez compreendido o verdadeiro drama da Sra. Helmer, algo que só é revelado nas últimas páginas, tudo o que fora lido até então ganha uma nova significação (mais forte e poderosa). É incrível notar que alguém (ainda mais um homem) teve a sensibilidade de escrever um texto tão feminista no final do século XIX. Henrik Ibsen conseguiu expor o drama genuíno das mulheres em uma sociedade patriarcal e sexista como a burguesa. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência! E o dramaturgo norueguês fez isso com delicadeza e profundidade notáveis. Espetacular! Nesse sentido, Nora Helmer, como personagem ficcional, é de uma complexidade absurda. Vista de um jeito pela sociedade, ela é no fundo complemente diferente das aparências. A responsável por essa distorção é a mentalidade machista das pessoas da época (tanto de homens quanto de mulheres). As angustias e as aspirações da protagonista só vêm à tona no final do terceiro ato, quando, enfim, podemos entendê-la plenamente. Sem sombra de dúvida, esta peça de Ibson poderia ser confundida com alguns dos textos de Virginia Woolf ou de Clarice Lispector, produzidos algumas décadas mais tarde. Repare na reação de Torvald Helmer na última cena do livro. Ele é um homem perdido e completamente atordoado frente à nova postura da esposa (ou da mulher moderna). O curioso é que Sr. Helmer foi a primeira personagem ficcional a se tornar vítima das mudanças sociais que decretaram (ou que estão decretando, visto que, infelizmente, esse processo é bastante moroso) o fim do machismo na sociedade contemporâneo ocidental. Passados quase que 150 anos da estreia de "Casa de Bonecas", muitos homens ainda padecem do mal de Helmer, não entendendo o quanto seus atos podem oprimir as parceiras e os desejos delas. Achei a leitura de "Casa de Bonecas" sensacional. Apesar de antiga, sua trama ainda é muitíssimo atual. Independentemente da radicalização do discurso pró ou contra o feminismo dos dias de hoje (que só prejudica o debate sobre esse tema), ler este trabalho de Henrik Ibsen é uma ótima experiência literária. Imperdível! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #HenrikIbsen #LiteraturaClássica #Dramaturgia #Drama #LiteraturaNorueguesa
- Livros: A Mulher que Escreveu a Bíblia - O premiado romance de Moacyr Scliar
Li, nesta semana, o livro "A Mulher que Escreveu a Bíblia" (Planeta DeAgostini), do gaúcho Moacyr Scliar. Publicada em 1999, esta obra ganhou o prêmio Jabuti, no ano seguinte, na categoria melhor romance. Scliar era médico, carreira que seguiu durante toda a vida, e também atuou como romancista, contista, cronista e ensaísta. Lançou mais de setenta livros que lhe renderam vários prêmios (entre eles, quatro Jabuti) e uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, em 2003. Moacyr Scliar faleceu em 2011, em Porto Alegre, sua cidade natal, aos setenta e três anos de idade. "A Mulher que Escreveu a Bíblia" permite ao leitor conhecer o estilo peculiar deste prolífico autor brasileiro. Neste romance, Moacyr Scliar mistura passagens e personagens históricos, elementos da religião judaica, drama feminino e muita ação. A narrativa é saborosíssima, fruto de uma fértil imaginação e de uma habilidade acima da média para se contar uma boa história. Com um texto leve, irônico e bastante ágil, o autor consegue produzir uma trama ao mesmo tempo sedutora e maliciosa, que prende a atenção de quem a lê. Consumi vorazmente as 216 páginas do livro em duas noites. Este é aquele tipo de leitura que uma vez iniciada, você não quer mais parar de ler. A história praticamente hipnotiza o leitor, fazendo com que ele não desgrude os olhos de suas páginas. Não duvido que muita gente leia este livro de uma única vez. Deve ter sido por isso que Scliar fez este romance sem a divisão tradicional de capítulos. O texto é apresentado praticamente em texto corrido, em uma batida só (salvo uma breve introdução, que adquire característica própria de um capítulo inicial ou de prefácio). Esta obra inicia-se com o relato em primeira pessoa de um historiador especializado em fazer regressão. Ele se declara "terapeuta de vidas passadas". Conduzindo seus pacientes para outras vidas, o historiador-terapeuta alcançou a fama e o reconhecimento nacional, além de constituir uma boa fortuna com esta ocupação. Ele é figurinha constante dos programas de televisão e é a primeira escolha das pessoas mais ricas do Brasil quando o assunto é regressão. Neste seu breve relato, de pouco mais de dez páginas, o narrador inicial da trama conta a história da sua paciente mais enigmática, uma moça muito feia que havia contratado seus serviços. Natural do interior, ela havia se mudado para a capital do estado devido às constantes brigas com a família e a uma desilusão amorosa. No meio do "tratamento", entretanto, a jovem abandonou às sessões de repente e partiu para outra cidade. Antes da mudança, ela teve a preocupação de deixar um calhamaço de folhas manuscritas explicando seus motivos para o historiador. Neste material, ela narrava a trajetória que tivera em uma de suas vidas passadas, conhecida por ela durante as regressões realizadas no consultório do terapeuta. A moça havia mantido segredo em relação a esta história, mas agora resolvera contar tudo. Seu único pedido era que seu verdadeiro nome jamais fosse revelado. O relato da paciente, também escrito em primeira pessoa e com tom de confidência, se passava no século X antes de Cristo. Aquela moça fora uma das setecentas esposas do Rei Salomão, um dos personagens do Velho Testamento e figura central do judaísmo. Apesar de ser a mulher mais feia que o rei tinha em seu harém, a jovem tinha uma habilidade que poucas pessoas do seu sexo tinham naquela época: sabia ler e escrever. Ser uma mulher alfabetizada, apesar de muito feia, conferiu a ela uma posição de destaque dentro do reino de Salomão. É com este relato da antiga esposa do rei judeu que o livro efetivamente se inicia e se desenvolve até o final. A história contada pela mais feia entre as esposas do monarca (ou seja, ela se torna a segunda narradora do romance) percorre as demais 200 páginas da obra. A jovem de dezoito anos conta a sua trajetória desde a infância sofrida em um povoado do interior até o período vivido ao lado do marido no castelo real. Seu casamento foi fruto de uma conveniência política entre seu pai (um líder local) e o mandatário da nação. Os pontos em comum das várias fases da vida da moça são: sempre há muita ação acontecendo paralelamente a sua rotina aparentemente monótona e sem graça; e os desejos lascivos da narradora são o tempo todo frustrados. Ela sonha com uma noite de sexo. Só uma! Por ser muito feia, a jovem se mantém virgem por muitos anos, enquanto os demais personagens se esbaldam na prática sexual. Pode-se dizer que o livro é, em suma, uma grande suruba. Neste cenário liberal, a personagem principal só tem um simples desejo, que ela confessa abertamente: "Só quero uma boa trepada". Algo aparentemente simples, mas que para ela ganha contornos de uma saga quase impossível de ser concluída. "A Mulher que Escreveu a Bíblia" chama, primeiramente, a atenção do leitor por sua excelente fluência narrativa. Moacyr Scliar consegue contar esta história com uma naturalidade ímpar. Parece que os narradores (o "terapeuta" e a virgem dos tempos bíblicos) estão conversando com a gente. Os elementos narrativos que são inseridos constantemente no livro aumentam ainda mais a dramaticidade da trama. Com isso, os acontecimentos vão se sucedendo aceleradamente, com ótimos instantes de tensão e o surgimento de várias reviravoltas. Outra questão que merece citação (e elogio) é o linguajar utilizado. Ele ora pende para o formal e ora cai no popular, valendo-se de gírias e de expressões cotidianas. Por exemplo, é comum as personagens do período bíblico se expressarem como as pessoas dos dias de hoje falam. Esta incongruência (proposital) confere certa comicidade à trama e às situações. O humor provocado por este contraste permeia a história do início ao fim. A graça deste romance também é provocada pelas cenas absurdas (por exemplo, a tentativa de greve das setecentas esposas do rei por causa de ciúmes do marido) e pela característica psicológica da personagem principal. Apesar de ser uma mulher forte, instruída e decidida, ela se torna frágil e passional pela necessidade (não atendida) de sexo. Ela quer deixar de ser virgem a qualquer custo. Assim, a única coisa em que pensa e que influência seus atos é a vontade de ser levada para a cama. Este sonho, contudo, se transforma em pesadelo, porque sempre há algo para frustrá-la. A moça nunca consegue chegar à via de fato. Por isso, suas lembranças mais saudosas são do tempo em que ela fugia para uma caverna, ainda no povoado natal, para pegar uma pedra que tinha o formato fálico. Era com a pedra que a jovem conseguia aliviar sua libido. Enquanto somos transportados para o passado bíblico, acabamos sendo apresentados a um estilo de vida curioso. O dia a dia na corte do monarca judeu não é como imaginamos. Os aspectos mais pitorescos e inusitados são relatados pela narradora com primor. Impossível não se divertir nem se emocionar com esta história muito bem construída e trabalhada pelo autor. Moacyr Scliar consegue, em "A Mulher que Escreveu a Bíblia", demonstrar todo o seu talento literário. O romance é um primor de qualidade técnica e narrativa. Utilizando-se de uma trama simples (lembrei, em alguns momentos, de "Mil e Uma Noites"), um texto bem-humorado, boas doses de conhecimento histórico, muitas reviravoltas e várias pitadas mais picantes, o autor produz uma história memorável. É uma delícia ler este livro. A única frustração que ele nos provoca é quando chegamos à última página. Apesar de o desfecho ser bem interessante, a sensação é que não queríamos que a história terminasse. Eita livro bom este! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MoacyrScliar #LiteraturaBrasileira #Drama #RomanceHistórico #Romance
- Desafio Literário: Terceira Edição - Calendário de 2017
O calendário da terceira edição do Desafio Literário do Blog Bonas Histórias já está definido. Seguindo a tradição, o Desafio acontecerá de maio a novembro. Neste período, o blog analisará mensalmente cinco obras de um escritor pré-determinado. Ao final de cada mês, uma resenha crítica completa sobre este autor e seu estilo será produzida e apresentada aos nossos leitores. Assim, ao final do evento, teremos conhecido profundamente sete importantes escritores da literatura mundial e seus principais livros. Os sete autores contemplados no Desafio Literário de 2017 são: Machado de Assis (Maio), Régine Deforges (Junho), Haruki Murakami (Julho), Nora Roberts (Agosto), Markus Zusak (Setembro), Lya Luft (Outubro) e Ondjaki (Novembro). A lista de todos os livros que serão lidos e analisados de cada escritor está descriminada a seguir: Maio - Machado de Assis - BRASIL "Crisálidas" (1864) "A Mão e a Luva" (1874) "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881) "Várias Histórias" (1896) "Dom Casmurro" (1899) Junho - Régine Deforges - FRANÇA "O Diário Roubado" (1978) "A Revolta das Freiras" (1981) "A Bicicleta Azul" (1981) "Vontade de Viver" (1983) "O Sorriso do Diabo" (1985) "Sob o Céu de Novgorod" (1989) Julho - Haruki Murakami - JAPÃO "Ouça a Canção do Vento" (1979) "Pinball, 1973" (1980) "Caçando Carneiros" (1999) "Norwegian Wood" (1987) "Minha Querida Sputnik" (1999) "1Q84 - LIVRO 1" (2009) Agosto - Nora Roberts - ESTADOS UNIDOS "Pecados Sagrados" (1987) "Doce Vingança" (1988) "Nudez Mortal" (1995) "A Cruz de Morrigan" (2006) "Querer e Poder" (2013) "Um Novo Amanhã" (2016) Setembro - Markus Zusak - AUSTRÁLIA “O Azarão” (1999) “Bom de Briga” (2000) “A Garota que Eu Quero” (2001) “Eu Sou o Mensageiro” (2002) "A Menina que Roubava Livros" (2005) Outubro - Lya Luft - BRASIL "As Parceiras" (1980) "O Rio do Meio" (1996) "Perdas & Ganhos" (2003) "Pensar é transgredir" (2004) "Em outras palavras" (2006) "O Tigre nas Sombras" (2012) Novembro - Ondjaki - ANGOLA "Bom Dia, Camaradas" (2003) "E Se Amanhã o Medo" (2005) "Os da Minha Rua" (2007) "Avó Dezanove e o Segredo do Soviético" (2008) "A bicicleta que tinha bigodes" (2011) "Os transparentes" (2012) O que chama mais a atenção neste grupo é a diversidade de características dos nomes escolhidos. Basicamente, temos autores de todos os continentes. São dois da América do Sul (Brasil), um da América do Norte (Estados Unidos), um da Europa (França), um da África (Angola), um da Ásia (Japão) e um da Oceania (Austrália). Nunca o Desafio Literário conseguiu ser tão versátil. Além disso, a composição entre homens e mulheres está mais equilibrada neste ano. São quatro autores do sexo masculino contra três do sexo feminino. Ou seja, pela primeira vez temos um equilíbrio de gêneros no Desafio. Dos sete autores, dois são falecidos (Machado de Assis e Régine Deforges). No grupo dos escritores contemporâneos, temos desde o jovem Ondjaki, de 39 anos, até a experiente Lya Luft, de 78 anos. A lista de livros inclui romances adultos, juvenis e infantis, novelas, contos, crônicas e poesias. É um portfólio bem eclético que irá agradar aos verdadeiros amantes da boa literatura. O Desafio Literário de 2017 promete! Convido os leitores para lerem também estas obras. Assim, o debate sobre os livros e sobre cada autor analisado ficará mais interessante. Boa leitura para todos nós. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
















