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  • Mercado Editorial: Ficções nacionais mais vendidas em 2024

    Confira a lista dos livros da literatura ficcional brasileira que ficaram no alto do pódio dos best-sellers no ano passado. Em todos os anos, o receituário de posts da coluna Mercado Editorial  é mais ou menos parecido.   Começo janeiro (ou fevereiro) empolgado. Aí revelo quais foram os livros mais vendidos na última temporada em nosso país. Contudo, como sou fã confesso da ficção literária (o Bonas Histórias  é basicamente um blog sobre ficção), saio invariavelmente decepcionado com os hábitos de leitura dos meus conterrâneos. Afinal, os títulos religiosos, as obras de autoajuda, as biografias de celebridades e as dicas de como enriquecer acabam preponderando entre os líderes de venda no Brasil. Dessa forma, tenho que voltar tempos depois para apresentar apenas os best-sellers da ficção . Ainda assim, me deparo quase sempre com um novo problema: o alto do pódio é ocupado, com raras exceções, por publicações estrangeiras. Como aprecio bastante a literatura brasileira , me sinto na obrigação de retornar mais uma vez às páginas da coluna para listar o ranking dos livros da ficção nacional que foram mais vendidos no ano anterior. Em 2024, a mecânica não foi nem um pouco diferente. No início de fevereiro, exibi o ranking dos livros mais vendidos no ano passado . Diante da overdose de exemplares de não ficção – e dale “Café com Deus Pai” (Vélos), de Junior Rostirola, e “Novena e Festa da Padroeira do Brasil” (Santuário), de Missionários Redentoristas –, apareci outra vez por essas bandas no fim de março para debater as obras ficcionais mais requisitadas pelos leitores nacionais . E diante do predomínio da Literatura Young Adult de língua inglesa – Colleen Hoover segue como a best-seller em nosso país nessa área –, cá estou novamente. Agora para falar exclusivamente dos mais vendidos da nossa literatura. Portanto, vamos hoje falar de romances , novelas , coletâneas de contos e crônicas, literatura infantojuvenil e literatura infantil  com tintas verdes e amarelas, senhoras e senhores.   Começo essa breve análise destacando um aspecto positivo do raio-X do mercado editorial brasileiro em 2024 . Em comparação com os resultados dos últimos dez anos (sim, o Bonas Histórias  completou no ano passado seu décimo aniversário  e durante todo esse período tem estado de olho no que acontece de mais importante nas editoras e nas livrarias nacionais), tivemos uma elevação do número de obras de ficção de autores do nosso país na lista de best-sellers. A novidade é que esse crescimento não se deu apenas entre títulos infantis e infantojuvenis, mas também entre livros de boa qualidade literária para o público adulto. Ainda há esperança, meu povo. Como cantaria Vinicius de Moraes em “Samba da Benção”: ô, meu Brasil de todos os Santos, inclusive meu São Sebastião. Saravá! Saravá!!! Por outro lado, temos que reconhecer que nem tudo são flores na nação que continua queimando com avidez sua fauna e sua flora. Se o número de publicações da ficção nacional cresceu (6 dos 30 best-sellers de 2024 são dessa categoria – melhor número desde 2014), a quantidade de exemplares comercializados caiu após o boom pandêmico. Não é errado dizer que o Brasil é hoje um país de não leitores. Segundo pesquisas recentes, há mais pessoas que não leram nenhum livro nos últimos 12 meses do que pessoas leitoras. E a parcela minoritária dos que seguem com os olhos grudados nas páginas das publicações está lendo cada vez menos. A ficção não foge dessa triste realidade. Ai, ai, ai. Outra questão importante para debatermos é o perfil da ficção literária que os brasileiros estão consumindo. Não é novidade que os títulos infantis e infantojuvenis dominam essa listagem. Essa característica do nosso mercado vem lá de trás, dos anos 1980 e 1990. O curioso é notar que agora os influenciadores digitais tenham hipnotizado a atenção dos leitores mirins ao ponto de não termos tantos autores efetivamente de ficção entre os best-sellers. Exagero da minha parte? Então veja os números de Enaldinho , Maidy Lacerda  e Gabriel Dearo & Manu Digilio . E compare com os demais autores sem uma plataforma de comunicação digital tão robusta. Nesse sentido, Iandê Albuquerque , a grande novidade da prateleira infantojuvenil da última temporada, é a exceção que só confirma a regra. Entre os hábitos do público adulto, reparo que Ilko Minev , Carla Madeira  e Itamar Vieira Junior  seguem como líderes de venda. Isso quer dizer que eles lançaram novos livros recentemente? Nananinanão (a palavra favorita da minha venezuelana favorita – beijo, Aninha!). Suas obras mais vendidas têm pelo menos cinco ou seis anos. Ou seja, esse trio de autores adquiriu, felizmente, status entre o público leitor e suas obras vendem naturalmente ano a ano. Em outras palavras, seus nomes viraram marcas de qualidade e seus principais sucessos adquiriram o selo de clássicos contemporâneos. O lado negativo dessa condição é que não tivemos novos lançamentos da ficção para o público adulto no alto do pódio dos mais vendidos em 2024.   Os números que apresento a seguir (e que discuto frequentemente nos posts da coluna Mercado Editorial ) foram coletados e divulgados pelo PublishNews , a fonte de informação mais confiável atualmente do setor livreiro e do setor editorial do Brasil. Os leitores do Bonas Histórias  já estão acostumados com o uso preferencial das pesquisas dessa empresa pelo blog. Gosto dos levantamentos do PublishNews porque, entre outras coisas, eles se baseiam diretamente do banco de dados das principais livrarias nacionais – seja na venda online, seja na venda física.    Depois desse interminável blábláblá, vamos ao que o povo (das Letras) tanto gosta: o ranking dos livros da ficção brasileira mais vendidos em 2024 . Veja, a seguir, os best-sellers da ficção verde-amarela de nossas livrarias no ano passado segundo o PublishNews : 1º “Elo Monsters Books – Flow Pack” (2024) – Enaldinho – Literatura Infantil – Pixel – 59,8 mil unidades. 2º “A Filha dos Rios” (2015) – Ilko Minev – Literatura Ficcional – Buzz – 51,6 mil unidades. 3º “Tudo é Rio” (2014) – Carla Madeira – Literatura Ficcional – Record – 44,7 mil unidades. 4º “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (2022) – Maidy Lacerda – Literatura Infantil – Outro Planeta – 33,6 mil unidades. 5º “As Aventuras de Mike – A Origem de Robson” (2023) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantil – Outro Planeta – 30,0 mil unidades. 6º “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantil – Outro Planeta – 27,2 mil unidades. 7º “O Diário de Uma Princesa Desastrada 2” (2023) – Maidy Lacerda – Literatura Infantil – Outro Planeta – 20,5 mil unidades. 8º “As Aventuras de Mike 3 – Mudando de Casa” (2022) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantil – Outro Planeta – 20,5 mil unidades. 9º “O Caderno de Maldades do Scorpio” (2024) – Maidy Lacerda – Literatura Infantil – Outro Planeta – 19,4 mil unidades. 10º “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantil – Outro Planeta – 18,7 mil unidades. 11º “As Aventuras de Priminha Irritante no Reino dos Unicórnios” (2024) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantil – Outro Planeta – 15,3 mil unidades. 12º “Talvez a Sua Jornada Agora Seja Só Sobre Você - Crônicas” (2022) – Iandê Albuquerque – Literatura Infantojuvenil – Outro Planeta – 13,6 mil unidades. 13º “O Diário de Uma Princesa Desastrada 3” (2024) – Maidy Lacerda – Literatura Infantil – Outro Planeta – 12,7 mil unidades. 14º “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior – Literatura Ficcional – Todavia – 11,8 mil unidades. Acho que por hoje é isso, galerinha do meu Brasil. E como sempre digo: enquanto o mundo gira, a gente lê; fazer o quê? Até a próxima! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Gastronomia: Pizzería Güerrín – A melhor pizza de Buenos Aires (e da minha vida)

    Com quase um século de existência, a tradicional pizzaria da Avenida Corrientes impressiona os visitantes pela dimensão de seus salões e pelas redondas de sabores únicos e com fartos recheios. Voltemos a falar de pizza  na coluna Gastronomia , senhoras e senhores. Por quê? Porque os brasileiros, quando vem passear ou morar em Buenos Aires , demoram um bocado para descobrir os encantos das pizzarias portenhas . Falo por experiência própria. Levei mais de um ano para entender a dinâmica deste tipo de estabelecimento, para compreender as variações de redondas (é um tal de media masa , al molde , la piedra  e napolitana) e para apreciar suas particularidades. Separar o joio do trigo não é tarefa tão fácil para os novatos en tierras hermanas . Cheguei a discorrer sobre essa temática em detalhes no post sobre As Pizzarias da Capital da Argentina e superficialmente na publicação de Sentando-se à Mesa com os Argentinos , o episódio culinário de Tempos Portenhos , a atual série da coluna Contos & Crônicas . Além disso, muitos compatriotas ignoram as delícias da gastronomia italiana  quando estão em CABA  ( Ciudad Autónoma de Buenos Aires ). Aí dedicam-se exclusivamente aos prazeres da carne (bovina, no caso). Vamos combinar que é um pecado culinário (alguém aí gritou heresia?!) esse descuido dos comensais que falam português e que não estão bem-informados com as nuances desse pedacinho do nosso continente. Por mais incríveis que sejam as parrillas hermanas  (sim, elas são espetaculares mesmo e merecem nossa devoção), o cenário gastronômico da metrópole argentina é muito mais plural do que a vã filosofia do turista brasileiro médio pode supor. Por isso, retomo hoje esse assunto no Bonas Histórias . Contudo, o faço por uma nova perspectiva. Quero apresentar para vocês os pormenores da minha pizza favorita em Buenos Aires . Meus amigos e familiares que vem me visitar frequentemente por La Ciudad de la Furia ( Me verás volar/ Por la ciudad de la furia/ Donde nadie sabe de mí/ Y yo soy parte de todos  – ainda vou comentar essa canção emblemática do Soda Stereo na coluna Músicas ) já estão carecas (alguns literalmente, a maioria de forma figurada) de saber de que lugar estou me referindo. Afinal, sempre os levo lá e a experiência é inesquecível para todos. Portanto, sejam bem-vindos à riqueza histórica, à fartura de ingredientes, à criatividade de combinações, ao charme da localização e à dimensão impressionante da Pizzería Güerrín , o templo da pizza argentina . Gosto tanto da Güerrín que, já adianto para vocês, ela ganhou um pedacinho especial no meu combalido coração paulistano-portenho-maracaibero. E, provavelmente, foi o responsável por alguns centímetros de gordura abdominal que adquiri nos últimos meses. É bom que se diga que esse lugar tradicional de Buenos Aires (e da Argentina  como um todo)   não apenas se tornou a minha pizza favorita na cidade que escolhi para viver como se transformou na minha pizzaria favorita independentemente do raio de abrangência que considere para avaliação. É, meus queridos leitores desse blog cada vez mais escondido nos recôncavos da Internet, o lance é sério, muito sério, seríssimo. Confesso que precisava fazer um post especial na coluna Gastronomia  sobre essa questão que atiça minhas papilas gustativas. Por mais que tenha outros assuntos relevantes para tratar no Bonas Histórias , paremos um pouco, nos sentemos à mesa e provemos uma redonda que vale a pena. Uhu! Minhas preferidas são a Muzzarella, Jamón y Morrones  (a combinação de muçarela com pimentão é um espetáculo) e a Fugazzeta (quem inventou isso deve estar agora no Céu ao ladinho de Deus). Se você quiser ir de Muzzarella, Jamón y Huevos Fritos (pode ovo frito em cima da pizza, Arnaldo? Pode siiiiiiim!), Napolitana (vai alho, tá?) e Pepperoni, saiba que também são excelentes pedidas. Para acompanhar, sugiro uma Imperial de litrão beeeeeeem gelada, mas os vinhos Malbec sempre caem bem. O que vamos pedir hoje, hein? Fundada em 1932 (se ainda sei alguma coisa de matemática, são 93 anos de existência), a Pizzería Güerrín está localizada na mais badalada rua da  capital argentina : a Avenida Corrientes . Essa via é uma espécie de Broadway portenha. Estão ali dezenas e dezenas de salas de teatro (não é exagero do meu texto, tá? – os números de espaços teatrais chegam aos três dígitos apenas nesta rua). O mais legal é que o cenário cultural é complementado por algumas salas de cinema e incontáveis livrarias e sebos. Para colorir ainda mais o cenário idílico (não por acaso, sou apaixonado por esse lugar), há inúmeros cafés, restaurantes, pizzarias e sorveterias para entreter a multidão que trafega por ali de dia, de tarde, de noite e até de madrugada. Diferentemente do que acontece nas maiores cidades brasileiras, Buenos Aires é sim uma metrópole que não dorme. Por sinal, o melhor período para passear pela Corrientes é justamente nas noites de quarta à domingo, quando o agito gastronômico-cultural atinge o ápice. De segunda e terça, admito que ela fica meio morta e perde boa parte de seu charme. Para dar vazão ao público que superlota as calçadas no fim de tarde e à noite (principalmente às sextas-feiras e aos finais de semana), metade das faixas da avenida fica fechada para os carros e aberta para os pedestres. Isso, na minha humilde visão, aumenta ainda mais a graça do rolê. Não é errado dizer que caminhar pela Avenida Corrientes é, por si só, uma das atrações noturnas mais legais de Mi Buenos Aires Querido (Mi Buenos Aires querido/ Cuando yo te vuelva a ver/ No habrás más pena ni olvido). Ali se respira os ares artísticos da metrópole portenha, em uma mescla bem azeitada de programas divertidos para turistas e atrações legítimas para os moradores locais. Comecei falando da localização para mostrar que a Pizzería Güerrín está numa posição privilegiada, no Centrão de BsAs – o bairro se chama San Nicolás . Para você se situar, a pizzaria está a menos de 500 metros de distância do Obelisco, talvez o ponto turístico mais importante da capital argentina (a pizzaria está na Corrientes no lado do Congresso e não da Casa Rosada), 650 metros do Teatro Colón, talvez o prédio mais imponente da Avenida 9 de Julio, e 800 metros da Plaza del Congreso. No meu caso, adoro ver filmes no Cine Gaumont (que fica na Plaza del Congreso) e não perco os grandes protestos (os melhores são feitos em frente ao Congresso argentino). Aí uma pizza antes ou depois das sessões cinematográficas e das manifestações cívicas é uma combinação tão obrigatória quanto pizza com guaraná – ops, não tem este sabor de refrigerante por essas bandas; foi mal! Portanto, é fácil de chegar e de sair, independentemente de onde você more ou esteja instalado(a). Por exemplo, eu vivo em Saavedra ( Dale Marrón, River botón/ Dale Marrón, ladrón botón/ Desde chiquitito soy del Marrón/ Señores soy de Saavedra y tengo aguante/ Los sigo a los Calamares a todas partes/ Platense es un sentimiento se lleva en el corazón/ Daría toda mi vida por ser campeón/ Dale Marrón, Dale Marrón, Dale Marrón, Dale Marrón ), no extremo norte da cidade (ao ladinho de Núñez) e vou geralmente de metrô ou de ônibus à pizzaria. Em algumas ocasiões, quando estou sozinho e quero caminhar bastante, vou a pé mesmo (rolê de duas horas e meia). Porém, como sei que esse tipo de passeio não atrai a maioria dos meus conhecidos, melhor nem o citar por essas páginas, né? O fato é que a Güerrín combina perfeitamente com os vários passeios pela Avenida Corrientes e com as incontáveis atrações da redondeza. Dá para amarrar uma pizza antes ou depois de uma peça de teatro e de um cineminha. Confesso que já fiz isso várias vezes. Ou mesmo aparecer por lá só para degustar as redondas. Também já fiz isso em dezenas de oportunidades. Aí acompanhar a movimentação dos teatros, cinemas e livrarias e a luminosidade dos letreiros da avenida se torna um complemento à experiência gastronômica. Em suma, a pizzaria é um programão por si só, que dá para ser feito com amigos, familiares, em dates e até sozinho. Além da ambientação inigualável da Corrientes (pelo menos na América do Sul), o que torna a Pizzería Güerrín tão especial, Ricardo? Boa pergunta, astuto(a) e curioso(a) leitor(a) do Bonas Histórias . A resposta para essa interrogação é mais complexa do que parece. Talvez eu precise listar algumas características que fazem dessa pizzaria a melhor de Buenos Aires e, quiçá, uma das melhores do mundo. Até porque, era assim mesmo que ela se apresentava ao público até pouquíssimo tempo. Em sua fachada, havia uma frase nem um pouco modesta: qui si impasta la migliore pizza del mondo . Sim, estava em italiano. Será verdade ou exagero de publicitários argentinos, que têm a mania de intitular vários aspectos de sua capital como o melhor ou o maior do planeta?! É isso o que vamos descobrir agora na coluna Gastronomia , senhoras e senhores. O primeiro aspecto da Güerrín (ou o segundo, se considerarmos a localização privilegiada como o elemento inaugural) que chama a atenção dos visitantes de primeira viagem é a quantidade de clientes. Não importa o horário e o dia da semana, sempre haverá uma aglomeração na entrada da pizzaria. O comensal desavisado certamente olhará para o pequeno salão interno e pensará desanimado: não tem mesa vaga hoje e/ou vai demorar uma eternidade para arranjarem um lugarzinho para mim. Nessa hora, surge Compadre Washington de baixo de uma mesa gritando: sabe de nada, inocente! Se você não tiver a sorte de pegar o turno do vocalista do É o Tchan, quem faz as honras da casa é Serginho Chatinho, que aparece por detrás de uma pilastra bradando a plenos pulmões: pegadinha do Malandro, pegadinha do Malandro!    Se você se sentir intimidado logo na chegada, respire fundo e não perca o espírito esportivo, por favor. O que você precisa saber para começo de conversa é que a Pizzería Güerrín é gigantesca. E quando uso o termo gigantesca não estou exagerando (algo que, confesso, costumo fazer bastante em meus textos). Segundo li certa vez, essa tradicional casa de pizzas de Buenos Aires comporta até mil pessoas. Repito: um mil clientes!!! Se você não entendeu a dimensão absurda, vou colocar em numeral: 1.000 consumidores. Se essa não for a maior pizzaria do mundo, certamente estará entre as maiores. Como paulistano apaixonado por redondas, confesso que não conheço na minha cidade um local com tal porte. Aí está um dos grandes charmes da Güerrín. Ela é composta por vários salões, algo que o visitante novato não nota assim que chega. Logo na rua, há algumas mesas na calçada, uma tradição portenha. Confesso que nunca fiquei ali em minhas visitas à pizzaria da Corrientes. Portanto, não sei definir se é legal ou não. Contudo, tenho a impressão de que há tanta coisa divertida e diferente em seu interior que ficar no lado externo é uma tremenda bola fora (literal e figurativamente). É como ir ao motel com uma mulher maravilhosa e ficar no corredor, no lado de fora do quarto. Aí não dá, né? Tá bom, tá bom, já fui melhor (e menos indelicado) nas minhas comparações. Desculpe-me. Prometo melhorar na próxima vez. Ainda assim, é mais ou menos esse o sentimento de ficar na rua num lugar com tanta história e tantos atrativos. Logo ao entrar, o cliente se depara com o que os argentinos chamam de La Barra. La Barra é o lugar da pizzaria para se comer de pé, num balcão grande e coletivo. Daí o seu nome – barra é uma referência às barras de ferro ou barras de madeira que eram usadas para a confecção dos balcões. Ficar nesse local pode ser bastante interessante dependendo da sua necessidade. La Barra é ideal para quem está com pressa e quer fazer uma refeição super-rápida. É só ir ao caixa, pagar, levar a comanda para a estufa, pegar o prato de pizza solicitado com o atendente, apanhar os talheres à disposição e ir para o balcão comer. Tudo simples e rápido. Quem está em horário de almoço (sim, as pizzarias argentinas abrem no horário do almoço ao melhor estilo das coirmãs italianas) e quem vai pegar em breve uma sessão de cinema ou teatro (e não pode perder tempo) recorrem habitualmente a essa modalidade. Ou quem está sozinho e quer praticidade (coloca o dedo aqui que já vai fechar!). A desvantagem da La Barra é que as opções de pizza são mais limitadas. Eles só oferecem os sabores tradicionais. Esse é um padrão tanto da Güerrín quanto das demais pizzarias da Argentina. Ou seja, se você quer comer em porção, tem que pedir as mais comuns. Outro problema que ocorre ali é que às vezes a pizza pode vir fria. Estamos falando de algo guardado em uma estufa, né? Por mais que os atendentes perguntem se você quer que eles deem uma esquentada, na hora do movimento, da correria, dá para imaginar que esse cuidado não ocorra com tanta frequência. Ainda assim, preciso reconhecer que nunca comi pizza fria em La Barra da Güerrín – algo que já ocorreu algumas vezes, por exemplo, no Império da Pizza em Chacarita e na Pizzaria Burgio em Belgrano, outros dois locais que frequento com assiduidade.                  Entrando efetivamente no salão da Pizzería Güerrín, há um espaço no térreo com cerca de dez ou quinze mesas. Essa ala está encostada a La Barra e próxima a um paredão. Ali já dá para pedir as pizzas inteiras. E ainda é possível solicitar as porções individuais de pizza, tal qual se você estivesse no balcão. A diferença é que você pode comer sentado (algo impossível no setor anterior). Esse é o diferencial dessa primeira seção dos salões da pizzaria. Quase todas as mesas são para dois lugares e o aperto dá o tom desse cantinho muito concorrido. O lado negativo é que é o local mais barulhento e movimentado da casa. O entra e sai de pessoas pelo corredor é intenso – não é indicado para uma cita ou para um encontro romântico. Ainda assim, se você quer comer pizza em fatia com o mínimo de conforto, é melhor do que em La Barra. Passando por essas mesas iniciais, temos o segundo salão efetivo da Güerrín, ainda no térreo, a chamada Planta Baja. Para ser sincero, não há uma delimitação clara entre esse novo espaço e o anterior. Você precisa contar o número de mesas para saber se está na primeira ou na segunda ala. Aqui as mesas são maiores e, portanto, comportam grupos com três, quatro, cinco ou seis pessoas. E há mesas para só dois lugares também – no caso de você estar acompanhado(a) apenas do mozão. Evidentemente, há mais conforto na Planta Baja e uma distância um pouco maior entre as mesas (só não espere muita coisa nesse sentido). Por outro lado, ali já não é possível pedir as porções de pizza, só as redondas inteiras (pequenas de quatro pedaços ou as grandes de oito fatias).  O cliente iniciante pensa que a pizzaria se resume a isso, mas não. Há vários outros salões ocultos na Güerrín ou não tão evidentes ao primeiro olhar. Ao fundo do térreo, surge uma escadaria. Vale a pena subi-la. Ela dá acesso a dois salões: o Primer Piso e a Planta Alta. O Primer Piso (primeiro andar) possui um conjunto de mesas para grupos maiores de frequentadores. Seus públicos são as famílias. Trata-se de um espaço muito parecido ao anterior (Planta Baja), mas um pouco mais intimista e sossegado. Já a Planta Alta (segundo andar) é o local mais requintado e confortável da Pizzería Güerrín. Por ser mais novo, esse salão também tem decoração e mobiliário mais caprichados (faz referência ao universo cênico da Avenida Corrientes). Curiosamente, esta não é a ala mais concorrida do estabelecimento. Sempre há mesas livres ali. Tenho a impressão de que a maioria dos clientes não tem paciência para subir tantos andares atrás de uma mesa. Além disso, esse setor é enorme (o segundo maior da pizzaria). Sua capacidade é de 240 pessoas (maior que a maioria dos estabelecimentos por aí). Ou seja, comporta 24% dos clientes da Güerrín. Em horário de muito movimento, não penso duas vezes: entro, subo as escadas e vou até a Planta Alta em busca de uma mesa. Há espaços para grupos grandes e para casais. Para uma cita ou jantar romântico, esse é o local ideal! O aspecto negativo é que quando o movimento da casa não é tão alto, esse setor fica fechado. Aí não há o que fazer. É preciso procurar mesa nos outros salões. Se você acha que acabamos o passeio pelos diferentes espaços da Güerrín tire o cavalinho da chuva. O melhor ficou para o final. Na parte de baixo da escadaria, ao ladinho da Planta Baja, há uma porta despretensiosa. Ela normalmente fica fechada e uma funcionária permanece de pé para controlar o fluxo de pessoas. Quem não conhece pensa se tratar de um acesso exclusivo de funcionários à parte interna da pizzaria. Mas não. Essa porta leva os clientes ao Patio Napolitano, o setor que na minha opinião é o mais legal, principalmente quando você estiver com um grupo animado de parentes e amigos. Para chegar a essa outra ala, temos que percorrer um corredor enorme, que mais parece a ala de uma antiga fábrica. Só esse passeio já vale a visita. O corredor é escuro, estreito e cumprido. Ao percorrê-lo, a pessoa vai cruzando várias salas, que vão de estoque de produtos, cômodo de descanso de funcionários e outros salões com mesas. Há inclusive uma parte em que vemos os uniformes da equipe estendidos, como se estivessem secando – o que aumenta o ar de informalidade e de intimidade entre funcionários e clientes. Ao final do longo corredor, chegamos, enfim, ao almejado Patio Napolitano. O que faz dessa a ala a mais agradável da Pizzería Güerrín é que ela é a mais “aberta” da casa. Seu amplo salão não tem divisórias, colunas ou escadarias. Você tem uma visão abrangente do local, o que potencializa a experiência gastronômica e a sensação de bem-estar. Por isso mesmo, usei o termo “aberta” entre aspas – há cobertura, tá. Outra questão relevante é que o Patio Napolitano é o setor com maior capacidade da pizzaria. Inaugurado em 2020, ele comporta em torno de 280 pessoas (28% dos clientes do estabelecimento). Sempre que vou com tempo e quero aproveitar ao máximo a Güerrín, fico nessa ala. O problema é que ela é a mais concorrida. Raramente conseguimos uma mesa sem precisar esperar. E a espera é de pé naquele corredor escuro, estreito e cumprido que usamos para acessá-lo. Se você não estiver com muita fome e se propõe a encarar uma pequena bagunça, vá de Patio Napolitano. Há ainda um salão bem simpático que fica escondido entre as várias salas do corredor que liga a Planta Baja ao Patio Napolitano. Sinceramente, não sei o seu nome – nem sei se tem uma nomeação específica. Só sei que ele é exclusivo para grupos com mais de oito pessoas. Como nunca visitei a Güerrín na companhia de tanta gente, admito que nunca consegui frequentá-lo. Porém, só de espiá-lo, nota-se o quão divertido é ficar ali.   Por ter vários espaços, a Pizzería Güerrín conta com cinco fornos a lenha. Cada cozinha atende a uma parte do estabelecimento: o Horno 1 serve a La Barra, as mesas externas e as primeiras mesas da Planta Baja; o Horno 2 a Planta Baja; o Horno 3 o Primer Piso; o Horno 4 a Planta Alta; e o Horno 5 municia o Salão Napolitano e a ala que não sei o nome que é voltada para grandes grupos. Em termos de organização, podemos entender essa casa como cinco pizzarias diferentes em um lugar só – com o mesmo nome e com a mesma qualidade de produto, claro. O tamanho exagerado dos salões é uma das atrações da Güerrín. Se você não a conhece, recomendo fazer um passeio por todas as suas alas antes de escolher uma mesa. É isso o que faço sempre que levo algum amigo, familiar ou paquera lá pela primeira vez. Só depois de batermos perna por todas as alas (é bem divertido mesmo nos dias e horários de maior movimento, mas o rolê interno pode demorar um pouquinho), pergunto para minha companhia: em qual salão você quer ficar? Invariavelmente a resposta é: Patio Napolitano. Quando a fila ali é absurda, meus companheiros de aventura gastronômica respondem sem pestanejar: lá em cima (Planta Alta). Por isso, quando não estou em La Barra (onde fico quando vou sozinho), tenha certeza de que estou no salão do fundo ou no salão superior (é onde fico quando estou bem acompanhado).    Repito: independentemente de onde você fique na Pizzería Güerrín, a pizza é a mesma. E aí entramos no cerne da questão. Jojo Todynho cantaria: que redonda é essa, viado/ que redonda é essa, que tal o arraso/ que redonda é essa, viado/ que redonda é essa, arraso/ Tango, na cara da inimiga vai/ Tango, desfila com as amigas vai. Se a localização agrada aos noctívagos e aos fãs da cena artístico-cultural argentina e se a dimensão do estabelecimento impressiona os turistas de primeira viagem, é na hora de provar as pizzas da casa que o cliente entende a reputação do lugar. Aí pare o mundo que eu quero descer. Que ricas  elas são, senhoras e senhores! É bom alertar que as redondas da Güerrín (e das pizzarias argentinas de maneira geral) são diferentes daquelas servidas em São Paulo. Daí a dificuldade do brasileiro para se habituar. A distinção está no tipo de massa e na quantidade de recheio. A massa é mais grossa e se parece bastante com as dos pães. Não sei explicar tecnicamente (não sou pizzaiolo), mas são mais aeradas. Ou seja, apesar de maiores e mais grossas, elas não são pesadonas. Aí está justamente o segredo da excelência. Ao oferecer uma massa mais consistente, é possível colocar mais recheio, algo inviável quando o suporte é fininho (como as pizzas paulistanas). A combinação de massa mais grossa, mas sem ser parruda, com overdose de recheio é de fazer salivar até as almas menos gulosas. No caso da Pizzería Güerrín, você nota que eles exageram tanto na quantidade de ingredientes quanto na qualidade da matéria prima. Não falo isso por finalidades publicitárias (o conteúdo do Bonas Histórias  é 100% autoral e 0% comercial) e sim como cliente assíduo que se maravilhou com as redondas provadas ali. Os ingredientes da Güerrín são excelentes. Para você perceber o que estou dizendo, prove a muçarela. Mama mia! Ela é de primeiríssima prateleira. E não há economia. Uma fatia de pizza dessa casa tem mais recheio do que a pizza inteira de muitas pizzarias consideradas de primeiro nível na minha São Paulo. No caso das redondas, não é apenas a qualidade do produto e a excelência dos ingredientes que cativam o público brasileiro. Ao mergulharmos no cardápio da Güerrín, encontramos várias opções interessantes que não são vistas normalmente em nosso país. Por exemplo, as minhas duas pizzas argentinas favoritas são a Muzzarella, Jamón y Morrones  e a Fugazzeta , criações totalmente locais. Depois de prová-las, você pensa: por que os pizzaiolos paulistanos nunca pensaram em algo desse tipo, Meu Deus?! Nesse momento, você começa a se questionar se São Paulo tem realmente a melhor pizza do mundo, como muitos habitantes da capital paulista acreditam. Curiosamente, eu não sou fã de presunto (só curto no misto quente ou no bauru – nem na lasanha acho que fica legal) e não ia com a cara do pimentão (não me lembro de quando comi esse legume pela última vez no Brasil). Porém, uni-los à muçarela é uma sacada genial. A impressão é que eles foram feitos para serem combinados com queijo. Daí minha paixão pela muçarela com presunto e pimentão (que no espanhol argentino vira Muzzarella, Jamón y Morrones ). Não consigo ficar mais do que uma semana sem pedir uma porção desse sabor. Até posso passar um mês sem comer arroz, feijão e carne, mas não fico sete dias sem provar a incrível Muzzarella, Jamón y Morrones .   Outra obra-prima da gastronomia portenha é a Fugazzeta . Essa é uma redonda clássica para o argentino, mas de sabor e constituição totalmente distintas para os brasileiros. Para começo de conversa, ela não tem molho de tomate ( what?! ). Ela é feita com a colocação da muçarela diretamente na massa (muita muça!). Em seguida, acrescenta-se uma cobertura de massa (a mesma da base da pizza), só que bem fininha e com pequenos furos (normalmente feitos com espetadas do garfo). Nesse momento, a pizza fica com aparência de calzone. Por cima do telhado, vai muita cebola temperada. E em alguns lugares (como na Güerrín), coloca-se em cima da cebola mais queijo (muçarela e/ou parmesão). Quando a pizza sai do forno, curiosamente, a massa superior derreteu e o aspecto de calzone desapareceu, dando a impressão de ter mais queijo ainda. Para completar a passagem para o Paraíso, ainda colocam o que os argentinos chamam de vitamina  (um tempero espetacular que faz a função do orégano – o da Pizzaria Burgio é o melhor). Juro que se tivesse as Sete Maravilhas da Gastronomia Mundial, certamente a Fugazzeta  estaria na lista. Os argentinos gostam tanto dela (por motivos óbvios) que ela só perde em popularidade para a tradicional muçarela (básica). Depois da muça convencional, o que as pizzarias portenhas mais vendem é a belíssima e apetitosa Fugazzeta (não confundir com a Fugazza, que é outro sabor). Quer me deixar feliz? Então me sirva um pedaço de Muzzarella, Jamón y Morrones  e um pedaço de Fugazzeta . Depois de devorá-las, não há mal humor ou depressão que resista. Outra criação mágica da culinária italiana de Buenos Aires é (prepare-se porque essa é uma bomba sinestésica) a pizza de ovo frito. O quê?! Calma, calma, intrépido(a) e desconfiado(a) leitor(a) da coluna Gastronomia . Antes que você pare a leitura deste post ou questione a minha sanidade mental, deixe-me explicar que o resultado é mais agradável do que podemos crer. Basicamente, eles fazem uma pizza normal (muçarela e presunto) e por cima colocam ovo frito. No caso, o correto seria conjugar o complemento verbal no plural: ovos. São em torno de 12 ovos fritos – um banquete para qualquer maromba de plantão. Essa é a famosa pizza de Muzzarella, Jamón y Huevos Fritos, provavelmente o prato mais exótico que você encontrará nas pizzarias portenhas e na Güerrín. Não é uma pedida para se fazer sempre (no caso, toda semana), mas sim para provar ou comer de vez em quando. Aí ela é perfeita. Se você é paulistano(a) e adora pizza de calabresa (a segunda mais saída em São Paulo, só perdendo para a Muça clássica), preciso contar que em Buenos Aires eles não tem o costume de comer esse sabor nas redondas. Por isso mesmo, aviso que essa não é a melhor pedida por aqui. Das poucas vezes que solicitei uma pizza de calabresa (ela até consta no cardápio, mas não é boa), admito que me arrependi. Para não se frustrar, talvez o mais adequado seja ir de Pepperoni. Ainda assim, adianto que não é a melhor alternativa ir por esse caminho. Deixe a carne de porco para o choripan , esse sim um prato argentino de lamber os dedos, principalmente se vier com chimichurri e papas fritas. Já que estamos falando do que não comer, não perca seu tempo, dinheiro e apetite com a fainá. Você não sabe o que é isso, caro(a) conterrâneo(a)? Então não gaste sua energia querendo entendê-la (muito menos provando-a). Simplesmente ignore as fainás. Falo isso para o seu próprio bem. Para mim, elas são horríveis. São tão ruins que não são consumidas individualmente pelos argentinos e sim acopladas às fatias de pizza (geralmente na de muçarela). Juro que não entendo o hábito de comprar um belo pedaço de redonda e acrescentar nele uma massa seca e sem gosto. Ai, ai, ai. Até aprendi a tomar mate, mas não me apareça com uma fainá na minha frente, por favor.   Na Pizzería Güerrín, repare na grossura do cardápio. Ele está mais para um livro ao melhor estilo tijolão do que para um simples menu. São incontáveis pizzas ofertadas. É legal notar que a variedade de combinações beira o absurdo. Isso mostra a preocupação do estabelecimento em oferecer as redondas que os clientes desejam. Por isso, dificilmente você precisará fazer invenções (coloque isso, tire aquilo...). Para não se arrepender depois, invista um bom tempo folheando atentamente a carta inteira. Toda vez que vou lá com calma, descubro um sabor novo e ótimo nas páginas mais ao fundo.   Como as melhores pizzarias argentinas, a Güerrín também oferece empanadas. O duro é, diante de tantas opções incríveis de redondas, provar as empanadas, né? Meu sangue italiano não permite essa ofensa culinária. Confesso que só comi uma única vez esse item clássico da gastronomia argentina no estabelecimento da Corrientes. E, curiosamente, foi num dia de semana e no horário do almoço. Ao passar em frente da Güerrín, me veio a ideia: por que não pegar umas empanadas para forrar o estômago já que não estou com vontade de pizza (tinha comido uma redonda na noite anterior)? Pronto! Foi assim que descobri que elas são excelentes. Mesmo assim, não trocaria um pedaço de pizza por uma empanada em condições normais de temperatura e pressão. Nessa lista de aspectos positivos da Pizzería Güerrín, preciso comentar ainda a sua ambientação com ar positivo e alegre. Sinto uma vibe muito boa nesse lugar, por mais barulhento que sejam seus salões, por mais entulhado de gente que a pizzaria esteja e por mais apertadas que sejam suas mesas. Não sei explicar. Há estabelecimentos que vamos e nos sentimos bem, com uma atmosfera agradável e divertida. E há outros que paira um clima mais pesado. Na Güerrín, independentemente do salão escolhido, a aura é sempre pra cima. Impossível você se sentir mal ali. Essa condição não ocorre, em uma comparação direta, nas minhas outras duas pizzarias favoritas: a Império da Pizza de Chacarita e a Pizzaria Burgio de Belgrano. Por tudo isso, a Güerrín é minha pizzaria favorita em Buenos Aires (e no mundo). Ainda assim, é bom dizer que ela não é perfeita. Há aspectos que podem incomodar alguns clientes mais exigentes e que preciso citar neste post do Bonas Histórias . O primeiro dessabor é o conforto – no caso, a falta dele. Não estamos falando de um estabelecimento gastronômico em que o público consumidor vai se sentir muito à vontade. Infelizmente, as mesas são muito próximas umas das outras, o movimento é constante e o barulho pode incomodar as almas mais sensíveis. Além disso, como o espaço dos salões é reduzido, as pizzas são colocadas em cima da mesa (não há aparadores ou suportes de apoio). Aí o aperto impera. Contudo, nada que diminua o clima de diversão e informalidade. Outro ponto delicado é a imprevisibilidade do serviço. Por ser muito grande e ter equipes divididas por salões, a Pizzería Güerrín está longe de oferecer um atendimento padronizado e de alto nível. É verdade que nunca fui maltratado ou passei nervoso lá, mas já peguei garçons lentos, desatentos e secos, principalmente nos horários de maior movimento. Fora do rush, eles são mais simpáticos e divertidos, o que potencializa a experiência de consumo. De qualquer maneira, deixo destacado que o diferencial desta pizzaria não é o seu serviço. Em junho de 2025, data em que escrevo essas linhas, o preço deixou de ser um atrativo da Güerrín. Aí o problema não é desta pizzaria em particular e sim da Argentina como um todo. O país de Milei ficou caro para os brasileiros. Diria até que está muuuuuuito caro. Para você ter uma ideia, quando me mudei para Buenos Aires em meados de 2023, uma pizza grande na Güerrín e bebida para duas pessoas saía por aproximadamente R$ 50 (algo como 9 mil pesos argentinos). Vamos combinar que era baratíssimo, né? Hoje, dois anos mais tarde, a mesmíssima pizza grande com bebida para duas pessoas sai por cerca de R$ 250 (mais ou menos 52 mil pesos). É um valor superior ao das melhores pizzarias de São Paulo! Um belo jantar desse tipo na capital paulista fica entre R$ 150 e R$ 180 (se a bebida for cerveja e não vinho, claro). Eu que me acostumei com as vantagens do outro ciclo econômico (era feliz e sabia!), acho bem carinha a nova precificação da Güerrín. Ainda assim, é bom dizer que este não é um valor muito mais alto do que você paga em outras boas pizzarias portenhas. Afinal, estamos falando de um lugar qui si impasta la migliore pizza del mondo . De qualquer maneira, deixei de frequentá-la com a mesma assiduidade de outrora – assim como reduzi drasticamente todas as saídas gastronômico-culturais em Buenos Aires nos últimos meses. Simplesmente, meu bolso ficou pequeno demais. Agora, com minha carteira cada vez mais vazia, só vou para a tradicional casa de redondas da Av. Corrientes em datas especiais. Ou para pegar uma porção em La Barra depois de uma sessão de cinema do Cine Gaumont (o cinema mais barato da Capital Federal). A última vez que entrei nos salões da Güerrín faz menos de um mês. Foi na visita a Buenos Aires de um dos meus melhores amigos. Abraço, Paulinho! Pablito passou três semanas de maio, o mês do meu aniversário, aqui em casa. Veio para celebrar os meus 44 cumpleaños. Esse rapaz é ou não é uma fofura, hein? E um dos presentes que ele me deu foi justamente um jantar na Güerrín, que ele ainda não conhecia. Fomos lá na sua última semana de viagem. Até mesmo Paulo que não é chegadinho em pizza (o negócio dele é carne e vinho, carne e vinho, carne e vinho – como deixou explícito no post de CABA que não ACABA , narrativa de sua primeira viagem à capital Argentina), curtiu o passeio. A próxima visita à Güerrín, se eu conseguir juntar uns trocados, será no fim de junho, no aniversário da mais linda canceriana de Caballito. Beso, Aninha. Só vamos ver se vai pingar alguma graninha na minha conta até o fim do mês para presenteá-la com uma bela pizza. Essa vida de pobre não é fácil, viu? Por mais que tenha diminuído bastante as idas a San Nicolás, ainda sim bato ponto mensalmente por lá. Qualquer motivo justifica uma fugidinha para aqueles lados da cidade: hóspedes brasileiros em casa, date com mocinhas interessantes, fome antes ou depois do cineminha, aniversário de alguém importante etc. Por mais que seja a minha pizza favorita, admito que a Güerrín não é a pizzaria que mais frequento em Buenos Aires. O motivo é apenas a distância. Num final de semana comum, dou uma corrida rápida à Pizzaria Burgio, que fica no ladinho de casa e é também muito boa. Quando quero caminhar um pouco mais, vou até a Império da Pizza, a cerca de uma hora a pé de Saavedra. Atravessar a cidade para comer pizza não é algo que eu tenho disposição para fazer rotineiramente. Querendo ou não, Saavedra e San Nicolás estão em pontas opostas de Baires.    Se você estiver programando uma visita à Pizzería Güerrín, é bom se ligar nos horários de funcionamento da casa. Ela abre às 11 horas da manhã (acredite se quiser, mas há pizzarias da capital argentina que abrem as 7 horas da matina!) e fecha à 1 hora da madrugada. Às sextas-feiras e sábados, a operação se estende até às 2 horas da manhã. Para os brasileiros que ainda estranham a abertura deste tipo de negócio ao meio-dia, vale dizer que estamos numa cidade com forte migração italiana. Almoçar redondas faz parte da cultura local. Nesse sentido, Buenos Aires é muito mais italiana do que São Paulo. Por essas e outras, acho um enorme desperdício meus conterrâneos virem para a metrópole argentina e não provarem a gastronomia italiana daqui. Por mais que as carnes de Buenos Aires sejam maravilhosas, minha maior surpresa culinária ficou com as pizzas portenhas. E nessa seara, tenho um latifúndio em meu coração para as redondas da Güerrín. Essa pizzaria é espetacular, vale a pena conhecê-la, senhoras e senhores. Ou, no pior dos casos, ler um post inteiro sobre ela na coluna Gastronomia . Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia . E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Filmes: Mensagem em Uma Garrafa – A nova comédia dramática de Gabriel Nesci

    Lançado nas salas de cinema da Argentina no começo de maio e disponível no streaming internacional desde a segunda semana de junho, o longa-metragem protagonizado por Luisana Lopilato é ambientado em Mendoza, a capital argentina dos vinhos, e possui enredo sobre universos paralelos e viagem no tempo. Apesar do renascimento do cinema brasileiro nos dois últimos anos, sigo acompanhando atentamente o que para mim permanece sendo a melhor sétima arte  do nosso continente: o cinema argentino . Os motivos são simples. Sou apaixonado pelo audiovisual do país hermano , ainda que no último triênio ele tenha apresentado melhores produções televisivas – “O Eternauta” (El Eternauta: 2025), “Nada” (2023) e “O Síndico” (El Encargado: 2022-2024) são as provas cabais disso – do que títulos cinematográficos. Para completar, vivo em Buenos Aires, conforme estou apresentando em “Tempos Portenhos” , a nova coletânea textual da coluna Contos & Crônicas . Portanto, tenho grande dificuldade para ver as estreias brasileiras, o que não ocorre, por supuesto , com as novidades argentinas. Essa é a justificativa para a demora dos meus comentários sobre os êxitos dos filmes dos meus conterrâneos, como “O Agente Secreto” (2025), “Baby” (2025), “O Último Azul” e “Ainda Estou Aqui” (2024), e o excesso de longas-metragens de tierras hermanas . O fato é que nas últimas semanas, só vi exemplares argentinos nas salas escuras de en la Ciudad de la Furia . Contudo, tenho que reconhecer que a safra em cartaz por aqui continua morna, muito morna. Isso é, na melhor das hipóteses, tá? Estou me esforçando para não dizer que ando decepcionado, bastante decepcionado com o que tenho visto. Por exemplo, não me lembro do último longa-metragem local que tenha me encantado pra valer. Na atual temporada, talvez esse posto ainda seja ocupado por “Culpa Cero” (2024), a divertidíssima e inteligente tragicomédia de Valeria Bertucello que assisti no cada vez mais longínquo e quente janeiro portenho. Em maio e junho, os três melhores filmes argentinos  que vi foram “Mensagem em Uma Garrafa” ( Mensaje en Una Botella : 2025), a comédia dramática  de Gabriel Nesci , “Nancy” (2025), o suspense dramático de Luciano Zito, e “Por Tu Bien” (2024), o thriller dramático de Axel Monsú. Deu para ver que a pegada recente girou em torno dos dramas , né? Como nenhum desses títulos mexeu muito comigo (elemento indispensável para que eu desenvolva um post para o Bonas Histórias ), até algumas horas atrás não sabia o que debater hoje na coluna Cinema . Ai, ai, ai. Até me esforço para falar bem das novidades do universo artístico, mas também preciso que me ajudem, poxa vida! No fim, optei por tratar aqui no blog de “Mensagem em Uma Garrafa”, que apresentou mais elementos (tanto positivos quanto negativos) para uma análise abrangente – Aninha, prometo que na próxima oportunidade eu falo de “Por Tu Bien”! Além do mais, como esse longa-metragem está disponível no streaming desde a semana passada (no caso, no Prime Video ), o público brasileiro já pode acompanhá-lo, algo ainda inviável para os curiosos de “Nancy” e “Por Tu Bien”. Ainda assim, tenho que adiantar aos leitores assíduos desta coluna que o resultado de “Mensagem em Uma Garrafa” é dúbio (estou cheio de eufemismos hoje, meu Deus). Apesar de muito bem-feito e com um desfecho excelente, ele escorrega numa overdose de clichês, o que compromete bastante a experiência do público minimamente exigente. Confesso que se a leva de novidades em cartaz nos cinemas argentinos fosse realmente satisfatória, não teria cogitado sequer escrever sobre essa produção. Em outras palavras, em condições normais de temperatura e pressão, esse é um filme que não ganharia destaque na coluna Cinema , senhoras e senhores.    Lançado em 8 de maio (exatamente no dia do meu aniversário – uhu!) no circuito comercial argentino, “Mensagem em Uma Garrafa” é o mais recente trabalho de   Gabriel Nesci, cineasta nascido em Buenos Aires. Aos 46 anos, ele se destaca em produções para a televisão, cinema, rádio e música tanto na Argentina quanto na Espanha e Estados Unidos. Sim, você leu corretamente: eu acrescentei música na descrição audiovisual dele. Além de diretor e roteirista, Nesci é músico profissional. Sua formação é Desenho de Imagem e Som pela UBA (Universidade de Buenos Aires). “Mensagem em Uma Garrafa”, a terceira ficção de seu portfólio cinematográfico, foi dirigido e roteirizado por Gabriel Nesci. Aqui temos uma história de viagem no tempo  e um enredo baseado em universos paralelos . São temáticas que, convenhamos, proliferaram como pragas na televisão, no cinema e na internet nos últimos dez anos, né? Conforme o título desse longa-metragem indica, através de manuscritos colocados no interior das embalagens dos vinhos, a pessoa tem o poder de regressar à data de fabricação da bebida e alterar seu passado. O que poderia parecer uma dádiva ou um privilégio, talvez resulte em mais dores de cabeça para quem utilize essa ferramenta de mudança do destino. Mesmo tendo sido lançado há um mês e meio, só conferi “Mensagem em Uma Garrafa” na semana retrasada. Para tal, fiz uma visita noturna de meio de semana ao Cine Gaumount , a tradicional casa de cinema da capital argentina. Ou você pensa que a Plaza del Congreso é só lugar de protestos e bagunças, hein? Nananinanão. Ela é também local do melhor da sétima arte sul-americana, senhoras e senhores. Isso é, quando não há protestos e o cinema não tem que fechar por segurança... Para quem não conhece Gabriel Nesci, informo que ele estreou nos longas-metragens de ficção com “Días de Vinilo” (2012), uma comédia dramática divertidíssima. No seu debut cinematográfico, o portenho nos brindou com uma trama ambientada no universo musical. O foco era um grupo de quatro amigos trintões e para lá de atrapalhados que mantinham intactos os laços da infância e a paixão pelo Rock and Roll. Cinco anos mais tarde, Nesci lançou “Casi Leyendas” (2017), uma coprodução entre Argentina e Espanha. Nesta comédia interessante (mas de humor um pouco inferior ao filme anterior), temos novamente protagonistas desajustados e com grandes dificuldades para lidar com a chegada da rotina adulta. E outra vez, assistimos aos fortes elos entre amigos de infância e rapazes apaixonados pela música (sonham em ter uma banda famosa). Curiosamente, “Mensagem em Uma Garrafa” foi escrita por Gabriel Nesci há mais de uma década. Do ponto de vista temporal, portanto, seu roteiro se situa entre “Días de Vinilo” e “Casi Leyendas”. Porém, só agora ele conseguiu viabilizar a ideia de filmar essa história. Na minha visão, o trabalho deste cineasta flertava até então com os estilos e as temáticas de Nick Hornby , escritor inglês e autor de “Alta Fidelidade” (Companhia das Letras), “Uma Longa Queda” (Companhia das Letras) e “Um Grande Garoto” (Rocco). Sendo um pouco mais direto em minha associação, diria que Gabriel Nesci seria a versão argentina, mais jovem e cinematográfica de Hornby. Absurdo da minha parte fazer tal comparação?! Talvez. Só sei que sempre foi assim que vi seu portfólio audiovisual. Se bem que “Mensagem em Uma Garrafa” veio quebrar essa linha estilística e conceitual – tal qual “Funny Girl” (Companhia das Letras) representou uma grande ruptura para a literatura de Nick Hornby . As filmagens do novo longa-metragem de Nesci começaram em julho de 2023 em Buenos Aires e se encerraram em setembro daquele ano em Mendoza. A produção ficou a cargo da Leyenda Films  e da Kuarzo Entertainment Argentina , enquanto a distribuição ficou sob os cuidados da Prime Video  (ainda tenho a vontade de chamá-la de Amazon Prime Video , mas estou me segurando). O filme contou com o patrocínio da Província de Mendoza, a meca da vinicultura argentina. Não é errado encarar essa produção como uma sutil peça publicitária (ou de merchandising) das belezas naturais e das riquezas econômicas do Oeste desse hermoso  país. Os fãs dos vinhos (abraços, Eduardo e Paulinho!) vão pirar com o cenário e a ambientação selecionados por Gabriel Nesci. “Mensagem em Uma Garrafa” traz vários rostos conhecidos do grande público argentino (e até chileno). A protagonista é Luisana Lopilato , de “Presságio” (La Corazonada: 2020), “Perdida” (2018) e “Las Insoladas” (2014). Completam o elenco principal Benjamín Vicuña , de “Pacto de Fuga” (2020), “La Memoria del Agua” (2015) e “Fuga” (2006), e Benjamín Amadeo , de “A Taça é Nuestra” (Robo Mundial: 2023), “Crimes de Família” (Crímenes de Familia: 2020) e “A Última Festa” (La Última Fiesta: 2016). O time de atores e atrizes coadjuvantes é constituído por: Marina Bellati , Gabriel Corrado , Luciano Cáceres , Inés Estévez , Luis Machín , Rafael Spregelburd , Sebastían Almada , Eduardo Blanco , Belén Chavanne , Damián Dreizik , Florencia Dyszel , Charley Rappaport ,  Valeria Lois  e Graciela Pal . Apesar do belíssimo elenco, nota-se que esse longa-metragem só ganhou relevância por ter sido estrelado por uma das referências do humor argentino  da atualidade. É esse o status de Luisana Lopilato, desde que viveu a inesquecível Paola Argento no sitcom “Casados con Hijos” (2005-2006) – não confundir com o longa-metragem " Sem Filhos" (Sin Hijos: 2015), que analisamos na coluna Cinema  há quase uma década. Por mais que o enredo dessa série de televisão tenha sido inspirado no impagável e politicamente incorreto “Married with Children” (1987-1997), um dos grandes sucessos da TV norte-americana no final do século XX, a versão argentina ganhou fortes temperos locais e marcou época. Afinal, há algo que Guillermo Francella (meu humorista argentino favorito) faça que não fique excelente? Duvido de qualquer resposta que não seja positiva! Nesse sentido, preparem-se porque em agosto chega aos cinemas argentinos “Homo Argentum” (2025), a comédia local mais esperada do ano. Feito esse rápido desvio de rota, voltemos ao nosso assunto de hoje do Bonas Histórias . Quando Lopilato (agora em versão morena) topou participar do novo projeto cinematográfico de Nesci, os olhos do mercado audiovisual argentino passaram a encarar “Mensagem em Uma Garrafa” de maneira mais satisfatória. Daí para frente, foi mais fácil encontrar parceiros de produção, conquistar patrocinadores, fechar contratos comerciais e convidar os demais integrantes do elenco. Nada como a chancela de alguém que entende de comédia, né?!      Para o público brasileiro que se interessar por “Mensagem em Uma Garrafa” , aviso que ele está disponível desde 13 de junho no Prime Video . Lá, ele foi classificado como comédia romântica , o que não concordo. Para mim, esse filme é uma comédia dramática, com toques de ficção científica , fantasia e thriller . Falo isso porque se você curte comédias românticas tradicionais, poderá ficar um pouco decepcionado(a) se assistir a essa história com tal expectativa. Como ensina Philip Kotler desde os anos 1980, o balanceamento adequado das expectativas é o primeiro ingrediente da aprovação do público (que ele chamava, na visão de profissional de Marketing, de consumidores finais). Por falar na história de “Mensagem em Uma Garrafa”, vamos ao seu enredo. Denise (interpretada pela sempre maravilhosa Luisana Lopilato) é uma talentosa e dedicada sommelière. A moça é oriunda de Mendoza e vive há muitos anos em Buenos Aires. Seu grande sonho profissional é conquistar um tradicional prêmio de sua área de atuação. Para isso, Denise não mede esforços: prova e estuda os vinhos com obstinação e prazer genuíno. Essa é a sua grande paixão desde jovem. Afinal, seu pai era um pequeno e qualificadíssimo produtor de Mendoza. Com a filha, ele adorava compartilhar garrafas de vinho e emitir suas impressões para cada rótulo degustado. Sem saber, estava formando a futura sommelière. Para tristeza de Denise, seu pai já falecera. E ela tem um trauma profissional: a derrota naquele famoso concurso de sommelière em 2015. Naquele ano, ela chegara à final e tinha tudo para sair consagrada. Afinal, era indiscutivelmente a mais capacitada entre os postulantes a honraria máxima do certame. Porém, por uma mal explicada denúncia ao júri, o resultado foi trocado e outra pessoa levou o prêmio principal. Desde então, a moça nunca mais superou a decepção e teve problemas para deslanchar na carreira, o que acabou afetando sua vida pessoal. No campo sentimental, Denise também se sente fatigada (ou seria melhor descrevê-la como frustrada?!). Ela está cansada dos namorados tóxicos e das figuras bizarras com quem se relacionou nos últimos anos. Por que é tão difícil encontrar alguém legal (e normal) para se amar nos dias de hoje, hein? A bela moça gostaria de uma resposta para isso (coloque o dedo aqui que já vai fechar!). O hall de exes patéticos dela é interminável. De um lado, Denise tem o dedo podre para os homens. Por outro, seu perfil workaholic também dificulta o bom andamento dos relacionamentos. De qualquer maneira, a moça vê uma excelente oportunidade para mudar sua realidade tanto profissional quanto amorosa quando descobre por acaso um jeito de alterar os erros do passado. Através de uma brincadeira inofensiva do pai de enviar mensagens dentro das garrafas consumidas, a sommelière pode reescrever passagens antigas. Por um inexplicável evento sobrenatural entre as fendas dos diferentes universos paralelos, o manuscrito é enviado para o ano em que o vinho foi engarrafado. Aí pronto: uma nova realidade é escrita tal qual a pessoa a concebeu. Não é preciso dizer que por mais maravilhoso que pareça esse expediente, o resultado sai errado, né? Diria até que sai muitíssimo errado para Denise. Ao consertar algo lá de trás, a moça bagunça outra, em uma interminável sequência de absurdos que só agravam a sua situação. Ou seja, inicia-se uma longa sequência de viagens no tempo. A ideia não é mais melhorar a realidade e sim trazer a antiga vida dela de volta. Pensando bem, até que a rotina de Denise não era assim tão ruim quanto ela imaginava... Com pouco mais de duas horas de extensão, “Mensagem em Uma Garrafa” é uma produção agradável. É leve, divertida e inteligente, excelente para a tarde fria de sábado ou domingo em Mi Buenos Aires Querido . Ainda assim, reafirmo que esse filme de Gabriel Nesci tem graves e numerosos problemas, principalmente em seu enredo. Para ser sincero com os leitores da coluna Cinema , sinto que o portfólio deste cineasta argentino vem decaindo ao longo do tempo. Se “Días de Vinilo” foi excelente, “Casi Leyendas” era muito bom. E agora “Mensagem em Uma Garrafa”, seu terceiro longa ficcional, é (numa visão otimista, tá?) bom. Apenas isso: bom – quase escrevi bonzinho. Para entender esse jogo de aspectos positivos e negativos, vamos à análise cinematográfica propriamente dita deste post do Bonas Histórias . O primeiro elemento elogiável deste título é o seu humor. É inegável que Nesci sabe construir histórias, personagens e cenas engraçadas. Disso ninguém duvida. Portanto, do ponto de vista cômico, “Mensagem em Uma Garrafa” entrega o que promete. A diversão aqui possui várias camadas: vai da comédia pastelão ao humor fino. A diversão vem sempre de braço dado com o drama – esse longa-metragem é uma comédia dramática, não se esqueça. Quando a ideia é soltar uma risada nervosa, não importa a forma em que ela foi gerada. O que vale é rir dos apuros alheios. É claro que não estamos falando de uma produção que vai fazer a plateia gargalhar alto durante toda a sessão de cinema. Não! Nem é essa a proposta, tá? O humor é contido, mas está presente do início ao fim de “Mensagem em Uma Garrafa”.     Outro destaque é a atuação impecável do elenco. Obviamente, acompanhar Luisana Lopilato é um espetáculo – China Suárez, não se preocupe, você continua sendo a preferida do meu coraçãozinho cinéfilo. Além de linda (agora numa versão estranhamente morena), Lopilato é talentosíssima e extremamente engraçada. Entretanto, esse não é um filme de uma só estrela. Os demais atores e atrizes, quase todos bastante experientes, dão conta do recado e vão muito bem na arte de construir o contexto narrativo. Nota-se o alto nível de suas interpretações, mesmo em papéis caricatos e pouco profundos (conforme vamos detalhar mais a frente na parte dos problemas do roteiro). Evidentemente, a culpa da pobreza de suas personagens não é deles.       O terceiro aspecto interessante de “Mensagem em Uma Garrafa” é a excelente trilha sonora e a forte intertextualidade musical. Intertextualidade musical, Ricardo? O que você quer dizer com isso?! Como alertei no início deste post, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias , Gabriel Nesci é, além de cineasta e roteirista de televisão, músico. Todos os seus títulos têm trilhas sonoras impecáveis. E a música não fica só no segundo plano, mas entra invariavelmente dentro de suas histórias. Nessa nova produção não foi diferente. O próprio nome do longa-metragem é uma referência direta à “Message in A Bottle”, canção homônima do The Police que embala as principais cenas do filme argentino. A trilha sonora ainda foi constituída com o melhor de Fleetwood Mac, Tom Petty e Neil Diamond. Aumente o som na hora de conferir “Mensagem em Uma Garrafa” porque vale sim a pena. Como um bom exemplar do cinema argentino, esse filme foi muito bem filmado e produzido. Tecnicamente falando, ele não fica aquém dos melhores títulos europeus, por exemplo. A sensação é que todas as peças de sua engrenagem ficcional (salvo o roteiro falho) estão no lugar e reluzem aos olhos dos espectadores mais exigentes. Além disso, ambientar a história em Mendoza e colocar os vinhos no centro da trama tornaram a experiência cinematográfica ainda mais charmosa e conferiram uma pitada (destaque para o termo “uma pitada” da minha frase) de originalidade ao longa-metragem. Também gostei de ver que Nesci conseguiu, enfim, fugir da temática (grupo de amigos leais que mantém a chama da infância acesa) e dos protagonistas (homens adultos um tanto imaturos, desfuncionais e que seguem sonhando em ser músicos) dos seus dois filmes ficcionais anteriores. Isso sem abrir mão da pegada estética e do humor (algo que chamamos de estilo) que tão bem caracterizaram suas produções. Ou seja, “Mensagem em Uma Garrafa” dialoga conceitualmente com “Días de Vinilo” e “Casi Leyendas”, mas não repete seus enredos nem suas personagens, algo que poderia entediar um pouco o antigo público do cineasta. Afinal, uma coisa é criar uma proposta visual forte e consistente. Outra coisa completamente distinta é ficar repetindo histórias e narrativas. Por mais méritos que esse novo filme de Gabriel Nesci tenha, seu maior acerto é o final belíssimo. Na minha visão, é justamente no desfecho surpreendente e emocionante que “Mensagem em Uma Garrafa” arrebata a plateia e confere valor à experiência cinematográfica. Não tenho receio de afirmar que essa produção só ganhou relevância para mim (e mereceu ser analisada na coluna Cinema , apesar dos vários problemas em seu roteiro) pelo brilhantismo com a qual a história foi finalizada. Admito que saí da sessão de cinema no Cine Gaumont tocado com os aprendizados que Denise adquiriu com suas viagens no tempo. Obviamente, não vou contar qual é o desenlace (nunca damos o spoiler no Bonas Histórias ), mas ele suscita ótimas reflexões sobre o equilíbrio entre a dedicação profissional e os ganhos imensuráveis dos envolvimentos familiares. Ainda que tenha gostado dessa comedia dramática, tenho que reconhecer que “Mensagem em Uma Garrafa” possui várias falhas, principalmente em seu roteiro. Vamos, enfim, detalhar esses tropeços. Talvez o mais grave problema seja a falta de originalidade de sua história. Impossível a plateia não se recordar de “Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect: 2004) e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind: 2004). E isso ocorre não apenas pela estrutura da história, mas pela dinâmica de muitas cenas. Vamos combinar que faltou originalidade. Será que precisávamos de mais um filme sobre viagem no tempo e aventura por universos paralelos, senhoras e senhores? Tenho sérias dúvidas. De cabeça, me recordo de vários títulos com essas dinâmicas que discutimos nos últimos anos na coluna Cinema : “Belle Époque” (La Belle Époque: 2019), “Yesterday” (2019), “Amor à Segunda Vista” (Mon Inconnue: 2018) e "Quero Ser John Malkovich" (Being John Malkovich: 1999). A diferença é que esses longas-metragens citados trouxeram alguma novidade interessante ao roteiro, o que tornou suas histórias minimamente originais. Definitivamente, isso não se passou com “Mensagem em Uma Garrafa”. A sensação é de acompanharmos uma overdose de clichês cinematográficos. Aí não dá para aceitar, né?! Juro que fiquei com a impressão de que este filme teria sido mais impactante (ou não tão óbvio) há dez anos, quando seu roteiro foi escrito. Se fosse produzido e lançado lá atrás, talvez conseguisse despertar algum entusiasmo no público e na crítica cinematográfica. Aos olhos de hoje, infelizmente, ele traz pouquíssimas novidades. A perda do timing é indiscutível. E, convenhamos, que timing é um componente relevante no cinema contemporâneo. Se pensarmos bem, até o título escolhido reforça o clima de déjà vu. “Mensagem em Uma Garrafa” (ou “Mensaje en Una Botella”  no original em espanhol) é, como expliquei, uma referência direta a uma música do The Police. Contudo, seja sincero(a) comigo: foi essa a primeira coisa que você se lembrou?! É claro que não. Na hora, o que vem à nossa cabeça é “Uma Carta de Amor” (Arqueiro), romance de Nicholas Sparks publicado em 1998 e que foi levado ao cinema no ano seguinte. E qual o nome do longa-metragem norte-americano? “Message in a Bottle” na versão em inglês. No Brasil, ele ficou sendo “Uma Carta de Amor” e em Portugal “Message in a Bottle – As Palavras que Nunca Te Direi”. Portanto, até o título escolhido para essa produção argentina tem um cheirinho de cópia deslavada, por mais que não seja. Outro aspecto incômodo é a grande quantidade de personagens caricatas do filme. Algumas dessas características até trazem alguma graça à história. Por outro lado, provocam a impressão de artificialidade e de exagero nos tipos retratados e de inverossimilhança à narrativa ficcional. Em alguns momentos, me senti acompanhando as bizarrices de uma má telenovela mexicana e não a sagacidade cômica de um bom filme argentino. Dando sequência às falhas, temos um excesso de personagens nessa produção. Em determinado instante da sessão cinematográfica, a plateia pode ficar confusa. Eu fiquei – confesso sem qualquer constrangimento. Aí a culpa não é apenas do roteiro caótico (como vou detalhar no próximo parágrafo). A quantidade de coadjuvantes (principalmente de namorados da protagonista) implica na dificuldade de entendimento, ainda mais porque a história vai e volta no espaço temporal muitas vezes. Então você quer dizer que achou “Mensagem em Uma Garrafa” um roteiro confuso, Ricardo? Sim, achei. À certa altura do filme, já não sabia mais o que estava acontecendo e quem era quem na trama. É claro que não sou adepto de produções que chegam mastigadas demais nem que duvidem da inteligência do público. Ainda assim, não se deve entregar algo bagunçado ou que cause estranhamento aos espectadores, né? Nesse sentido, o novo filme de Gabriel Nesci tem vários furos ou, no melhor dos casos, faltou um maior refinamento em seu roteiro para não gerar ruídos desnecessários. Lembremos que “Efeito Borboleta” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, por exemplo, propunham bagunças entre os universos paralelos e, mesmo assim, não causaram confusão na cabeça dos cinéfilos. Assista, a seguir, ao trailer de “Mensagem em Uma Garrafa” (Mensaje en Una Botella: 2025): Se você achou que peguei pesado demais com essa crítica, é porque sou fã das comédias dramáticas argentinas . Juro que me identifico bastante com o humor de los hermanos . Não por acaso, já comentei vários filmes divertidíssimos com essa proposta mais ácida aqui no blog. De cabeça, me lembro de “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019), “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018) e "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016), para ficarmos em um trio de excelente nível. Me recordei também de "O Crítico" (El Crítico: 2013), mas que tem uma qualidade ligeiramente inferior aos três citados anteriormente. Por isso, não me venha com título meia-boca nem traga algo recheado de clichês cinematográficos porque aí vou chiar mesmo. Na terra do melhor cinema latino-americano, o sarrafo é bem alto. Tá pensando o quê?! Por falar em humor argentino , e como adiantei no início deste post, estou ansioso para conferir “Homo Argentum”. Essa é a próxima grande estreia local que promete movimentar as salas de exibição de Buenos Aires em meados de agosto. O novo longa-metragem da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat, nada mais, nada menos do que os diretores de megassucessos como "O Cidadão Ilustre" , "Minha Obra-Prima" , “Concorrência Oficial” (Competencia Oficial: 2022), “O Síndico” e “Nada”, tem como estrela o ator Guillermo Francella, o Maradona (ou Messi, como queira!) da comédia argentina. Impossível ignorar essa produção, né? Portanto, em breve, teremos mais do cinema argentino. Aguardem! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Recomendações: Livros – Melhores Leituras do 1º Semestre de 2025

    Conheça as cinco publicações ficcionais e não ficcionais que propiciaram as experiências literárias mais impactantes nesta primeira metade do ano. O primeiro semestre de 2025 termina hoje. É isso mesmo o que você leu, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . À meia-noite, entramos na segunda metade do ano. Você já tinha parado para pensar nisso? Tirando o primeiro clichê do meu bolso textual, aproveito a oportunidade para lançar a pergunta retórica: passou rápido, né? E ainda no desfile de lugares comuns que certamente irritará as almas mais exigentes, conto sem corar: sempre que há qualquer mudança de ciclo, gosto de fazer um balanço do que realizei; e adoro montar um plano do que pretendo desenvolver. Por mais vergonhoso que seja esse blábláblá, o pior é entender que no meu caso ele não é falso. Digo a verdade verdadeira! Ou você pensou que não lançaria mão de uma boa redundância para terminar o parágrafo menos original dos últimos seis meses deste blog, hein? Brincadeiras à parte, venho à coluna Recomendações para apresentar os cinco livros que mais gostei de ter apreciado neste semestre . Nessa perna inicial de 2025, li ao todo 35 obras. A média foi de aproximadamente seis publicações por mês. Caso alguém se assuste com tal número, alerto que trabalho como crítico literário, editor e escritor. Assim, minha rotina profissional é, além de escrever muito, ler bastante. E se você achou que a média de mais ou menos um livro e meio por semana é muita coisa, aviso que estou numa fase preguiçosa. Ou melhor, estou produzindo mais textos do que analisando-os – algo que sempre me deixa preocupado. A culpa é (única e exclusivamente) de Eduardo Villela  e sua EV Publicações , que demandaram mais serviços do que o habitual (Saravá!). Num semestre normal, minha marca de leitura costuma superar facilmente os 50 títulos. Dou a dimensão da coletânea de livros consumida para valorizar a lista dos mais interessantes. Vale a pena alertar que entre os melhores que vou detalhar a seguir não estão apenas obras recentes. Há de tudo: publicações antigas  (que só li agora) e títulos atuais  (ou mais ou menos novos, pois nunca consigo conhecer as novidades do mercado editorial rapidamente). Também não faço distinção de gênero. Na minha estante e mesa de trabalho há ficção , não ficção , memórias , livros de negócio , autoajuda , religiosos , ensaios , literatura infantojuvenil , literatura infantil  e poesia . Dentro da literatura ficcional, minha especialidade, devoro romances , novelas ,  coletâneas de contos  e coleções de crônicas . Para completar, vale literatura brasileira  e literatura internacional . Quando o assunto é leitura, admito que minhas preferências pessoais e, principalmente, minhas obrigações trabalhistas moldaram um gosto bem eclético para a biblioteca que tenho em casa (e no meu Kindle). Portanto, o que vou apresentar agora é a lista dos melhores livros que caíram em minhas mãos (e que passaram pelos meus olhinhos) no primeiro semestre de 2025 . Aí não importa se a leitura foi por lazer (quando não estou lendo profissionalmente, saiba que estou lendo por diversão), estudo (o que exige invariavelmente a apreciação de páginas e mais páginas) ou trabalho (conforme detalhei no parágrafo anterior). Nesse momento, não faço distinção se a obra degustada gerou conteúdo para o Bonas Histórias  (em suas várias colunas: Livros – Crítica Literária , Desafio Literário , Teoria Literária , Talk Show Literário , Contos & Crônicas  e Mercado Editorial ) ou se foi para os autores da EV Publicações  (fazendo pareceres técnicos ou produzindo avaliações literárias). Os dois únicos elementos que excluem um título desta minha listagem é: (1) se ele ainda não foi publicado (o que frustraria os leitores do blog); e (2) se participei de alguma maneira de sua confecção (o que poderia ferir os princípios éticos da minha avaliação imparcial). Feita essa introdução, que acabou saindo maior do que imaginei, vamos sem mais lenga-lenga ao que interessa: as melhores leituras dos últimos seis meses . Para dar um ar de suspense, recorria à ordem crescente de importância do ranking das principais publicações semestrais. Dessa maneira, sejam bem-vindos à coluna Recomendações , senhoras e senhores. Vocês estão no espaço do blog em que rememoramos e/ou destacamos a seleção do que há de mais incrível na literatura, no cinema, na música, no teatro e na gastronomia. E lá vamos nós, pessoal! 5º Lugar: O Construtor de Pontes – Markus Zusak – Romance – Intrínseca – Literatura Australiana – Saga Histórica – 2018 – 528 páginas. Na quinta posição dos melhores livros deste semestre, aparece “O Construtor de Pontes” (Intrínseca), o último romance publicado por Markus Zusak . Para quem esperava um título tão marcante quanto “A Menina que Roubava Livros” (Intrínseca), obra-prima do escritor australiano que se tornou um dos principais best-sellers do século XXI, certamente a sensação é de decepção. Contudo, se o leitor não tiver uma expectativa tão elevada para o novo trabalho de Zusak, essa leitura pode revelar alguns aspectos positivos. Em “O Construtor de Pontes” , a narrativa ficcional longa que encerrou um jejum de 13 anos deste autor sem novidades literárias relevantes, traz a saga dramática da família Dunbar. As personagens deste livro vivem em uma cidade quente e seca do Oeste da Austrália. O narrador principal do romance é Matthew Dunbar, rapaz de 31 anos que decide revelar os seus segredos e dos seus familiares (pais e irmãos). Assim, somos levados ao típico universo da literatura de Markus Zusak : tramas enfocando garotos solitários e marginalizados, lares disfuncionais, irmãos ao mesmo tempo carinhosos e violentos, amores (e desamores) juvenis, traumas da infância e mistérios do passado. É aquela velha história: a brutalidade da rotina comum pode se tornar uma bela narrativa literária nas mãos de um romancista habilidoso. Zusak está longe de sua melhor forma. Ainda assim, é um autor que merece nossa atenção.   Confesso que “O Construtor de Pontes” só entrou na minha lista de leituras favoritas por causa do seu final sublime. Seu desenlace compensa a centenas e centenas de páginas que, em alguns momentos, me pareceram arrastadas e repetitivas. Gosto do trabalho de Zusak e achei esse seu novo livro interessante. Repito: não é algo sublime como “A Menina que Roubava Livros” . De qualquer jeito, vale a leitura.    4º Lugar: Ainda Estou Aqui – Marcelo Rubens Paiva – Memórias – Alfaguara – Literatura Brasileira – Autobiografia; Biografia Familiar – 2015 – 264 páginas. Li “Ainda Estou Aqui” (Alfaguara), livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva publicado originalmente em 2015, por causa do filme homônimo que se tornou um enorme sucesso tanto no Brasil quanto no exterior. Pouco antes do Oscar de 2025 , assisti a “Ainda Estou Aqui” (2025), longa-metragem espetacular de Walter Salles. A ideia era verificar as chances brasileiras de faturar sua primeira estatueta dourada. E saí da sala de exibição encantado com o drama histórico do casal Rubens e Eunice Paiva e de seus filhos, vítimas da infame Ditadura Militar na década de 1970. Para desenvolver o post sobre esta produção nacional na coluna Cinema , aproveitei para conhecer a obra literária que a originou. Aí vem a primeira surpresa. Por melhor que seja o filme (O Oscar é nosso!), saiba que o livro é mais interessante em vários sentidos. Por exemplo, a versão literária de “Ainda Estou Aqui” traz uma Eunice Paiva muito mais completa e contraditória. Em outras palavras, a protagonista desta história é uma figura redonda e não uma personagem plana (como o longa-metragem a retratou). Além disso, na leitura, entendemos a origem do título da obra e a perda da memória da personagem central (um lindíssimo contraponto ao grande desafio de sua vida que era preservar o legado e a reputação do marido assassinado). Ao mesmo tempo, é indiscutível que a produção cinematográfica mais premiada de Salles  possua uma carga dramática muito maior (algo inexistente ou bastante fraca na publicação de Marcelo Rubens Paiva). Dessa forma, a briga para saber o que é melhor, se o filme ou se o livro, é uma disputa acirrada. O que me parece indiscutível é a posição de melhor título do portfólio literário do filho de Rubens Paiva e Eunice Paiva. E esse posto não é ocupado por “Ainda Estou Aqui”. Nananinanão! Na minha humilde visão, “Feliz Ano Velho” (Alfaguara) é ainda a publicação mais brilhante de Marcelo Rubens Paiva (ou de Marcelinho, como retratado no Episódio 4 da Temporada VIII de Talk Show Literário ). Falo isso porque “Ainda Estou Aqui” é um bom livro, mas não é espetacular como sua versão cinematográfica nem é tão excelente quanto o drama verídico do jovem Marcelo vítima de um acidente bobo em um lago em Campinas (enredo de “Feliz Ano Velho”). Apesar desses contrapontos, “Ainda Estou Aqui” alcançou o quarto lugar no ranking das minhas melhores leituras do primeiro semestre de 2025.   3º Lugar: Un Día – Gustavo Cabezón – Novela – Paripé Books – Literatura Argentina – Thriller Psicológico – 2023 – 112 páginas. Essa é uma pequena pérola achada nas livrarias de Buenos Aires, a cidade em que vivo há quase dois anos. “Día” (Paripé Books) é o título de estreia do publicitário argentino Gustavo Cabezón na literatura ficcional adulta. Falo isso porque ele já foi premiado pela produção de livros infantojuvenis e possui algumas boas obras como roteirista de televisão e cinema e como dramaturgo. Cabezón (obviamente um apelido do universo publicitário que foi incorporado ao nome artístico do autor) é ainda pouquíssimo conhecido em seu país natal (o que dirá internacionalmente!?), mas merece a atenção do público que curte o melhor da ficção.   “Día” é o retrato fiel do talento de Gustavo Cabezón na confecção de excelentes histórias. E que trama é essa, senhoras e senhores?! Essa novela é simplesmente brilhante, uma das melhores leituras que fiz recentemente. Ganhei essa publicação de presente da minha priminha Daniella, em sua última passagem (junto com o maridão alemão) por Buenos Aires. Beijo, Dani. Abraço, Markinhos. Por ter sempre uma fila de leitura em minha biblioteca particular, levei quase um semestre para mergulhar nesse drama psicológico de tirar o fôlego. Contudo, assim que abri suas páginas, devorei seu conteúdo em apenas duas horas. Essa é uma das vantagens das novelas, narrativas enxutas e de tiro curto Em “Día”, conhecemos um homem comum que (assim como eu) vive em um pequeno apartamento no bairro de Saavedra. O curioso é que ele acredita ter chegado às últimas 24 horas de sua existência. E como a personagem sabe disso? Porque uma antiga namorada sensitiva e cartomante o avisou do seu dia derradeiro, entre outras previsões um tanto amalucadas. Como tudo o que ela disse há vários anos aconteceu, é óbvio que aquela data é o desfecho da vida do narrador-protagonista. Pelo menos é o que ele crê sem titubear. E o que o pobre rapaz fará sabendo do fim iminente, hein? Descobrir isso é a graça dessa novela tragicômica e muito inteligente. Só não a analisei na coluna Livros – Crítica Literária  porque ainda não temos sua tradução para o português (uma das condições de uma obra ganhar sua avaliação técnica no Bonas Histórias ). Ei, editoras brasileiras, o que vocês estão esperando, hein? Olha a dica de uma ótima narrativa ficcional! 2º Lugar: Nós Que Vivemos – Ayn Rand – Romance – Minotauro – Literatura Russa; Literatura Norte-americana – Saga Histórica – 1936 – 570 páginas. “Nós Que Vivemos” (Minotauro) é a primeira publicação de Ayn Rand, escritora, dramaturga, roteirista e filósofa russa naturalizada norte-americana. Publicado originalmente em 1936, esse romance não teve o merecido destaque na época do seu lançamento. Prova disso é que não obteve êxito e rapidamente deixou as estantes das livrarias dos Estados Unidos. Assim, o livro ficou vários anos fora de catálogo. Ele só voltaria a ganhar a atenção do público norte-americano quando Rand se tornou famosa como fundadora do Objetivismo, uma corrente filosófica. Aí o público leitor se interessou por todas as suas obras. Diante da procura descomunal pelo trabalho da autora, “Nós Que Vivemos” voltou a ser publicado em uma nova versão no final da década de 1950. Foi esse o material utilizado para a tradução da edição brasileira que temos à disposição. Nesse drama histórico impecável, acompanhamos uma narrativa baseada em fatos reais. Ayn Rand, que precisou fugir da União Soviética na juventude por causa da perseguição política, utilizou sua própria biografia como base para a construção desta incrível trama ficcional. Assim, conhecemos em “Nós Que Vivemos” o dia a dia do país euroasiático recém transformado em comunista. Por ser de família burguesa rica durante o Império Russo, algo abominável para os bolchevistas, os parentes de Rand e ela sofreram horrores no início do novo regime. O enredo dessa saga se passa nos anos 1920. Kira Alexandrovna Argounova, a jovem de 18 anos que é uma espécie de alter ego da autora, precisa encarar incontáveis desafios em Petrogrado (atual São Petersburgo), cidade dominada pelo Partido Comunista. O que é certo e o que é errado numa época em que a ditadura do proletariado coloca parentes como inimigos e ninguém mais sabe em quem confiar? É essa aventura que temos em “Nós Que Vivemos” , um dos melhores romances históricos que já li. Essa narrativa é simplesmente sensacional. Vale a pena conhecê-la. Sei que Ayn Rand tem outros títulos ficcionais mais famosos, mas para mim este aqui é o seu melhor trabalho literário. 1º Lugar: 1+1=2 2-1=0 – Fernanda Caleffi Barbetta – Romance – CEPE Editora – Literatura Brasileira – Drama Histórico – 2023 – 292 páginas. A melhor leitura que fiz no primeiro semestre de 2025 foi “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), a sexta publicação literária de Fernanda Caleffi Barbetta, autora paulistana que vive há anos nos Estados Unidos. Sim, é esse mesmo o título deste livro, senhoras e senhores. E antes que vocês questionem o possível erro matemático da capa, afirmo que os acertos narrativos dessa obra alçaram Barbetta à posição de um dos ótimos nomes da literatura brasileira contemporânea. “1+1=2 2-1=0” conquistou merecidamente o Prêmio CEPE Nacional de Literatura de 2022 na categoria Melhor Romance. Publicada em outubro de 2023, essa trama ficcional se destaca pela originalidade, pela prosa poética e pela estética singular. Aqui temos a história de Luiza Martins Couto, uma adolescente por vezes revoltada e inconsequente. Incentivada pela psicóloga, a jovem narradora-protagonista relata sua vida nas folhas de um caderno. Assim, voltamos aos tempos em que ela ficou órfã. Com a morte da mãe (o pai já tinha abandonado a família há muito tempo), a menina de apenas sete anos foi viver na casa de uma tia, a parente mais próxima. Ao não aguentar mais aquela criança chata, a tia abandonou Luiza na porta de um orfanato. A partir daí, a garota precisou aprender a sobreviver no novo ambiente, onde a competição da criançada era para ganhar uma família adotiva. O que Luiza Martins faria pelo sonho de adquirir um lar confortável e pela oportunidade de ter novos pais? É isso o que vamos descobrir nessa leitura que reserva incontáveis surpresas. O que mais me encantou nesse romance (que possui uma leitura tão ágil que adquire por vezes característica de novela) é a qualidade ABSURDA da literatura de Fernanda Caleffi Barbetta. Juro que não encontrei nada em “1+1=2 2-1=0” que mexeria (mania de editor, tá?) ou que faria diferente (pensamento de escritor). Temos aqui uma obra exemplar, algo digno de ser apreciado pelos leitores mais exigentes e que gostam de um texto ao mesmo tempo bonito e inteligente. Como é bom encontrar trabalhos ficcionais de alta qualidade, feitos com tanto esmero e excelência. É através de publicações do quilate de “1+1=2 2-1=0” que visualizamos o potencial da literatura de transformar realidades duras em narrativas belíssimas e em tecer várias camadas textuais. Incrível! Para quem tenha ficado curioso(a) para saber o top 10 das minhas leituras preferidas do primeiro semestre de 2025,  apresento, a seguir, a lista um pouco mais abrangente. Nesse caso, exibo a coletânea de livros em ordem decrescente de importância. Não precisamos mais de suspense, não é? Aí vai: Acho que por isso é só, pessoal. Bom finalzinho de semestre para você e uma ótima segunda parte de 2025. Nos vemos por aí, de preferência discutindo o melhor da literatura, da cultura, das artes e do entretenimento no Brasil e no mundo. Até! Gostou deste post do Bonas Histórias ? Para acessar a lista de melhores livros, filmes, músicas, peças teatrais e exposições, clique na coluna Recomendações . Para ver as nossas análises literárias, clique na coluna Livros – Crítica Literária . 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  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em maio e junho de 2025

    Confira as quase duas centenas de títulos ficcionais e poéticos que chegaram às livrarias brasileiras no terceiro bimestre. O inverno chegou com tudo, senhoras e senhores. Nas últimas semanas, a friaca tomou conta de boa parte do Brasil. Mesmo morando longe (Buenos Aires não é tão looonge assim, vai!), tenho o privilégio de ter amigos em todas as regiões do país. Dessa maneira, recebo com frequência as notícias do que está acontecendo na terrinha da América Latina em que se fala o português. Nesse caso especificamente, o pessoal me enviou suas reclamações. E olha que a chiadeira foi geral! Não me lembro da última vez em que vi (li e ouvi) tantos brasileiros protestando com as baixas temperaturas. No Sul, a galera já congelou. Literalmente em alguns casos! Quem disse que neve e gelo não fazem parte de nossas paisagens, hein?! Em São Paulo e Minas Gerais, o povo ficou perto de solidificar. Minha irmãzinha e minha mãe que o digam, né? Beijo, Celinha. Parabéns, Dona Cidinha! No Rio de Janeiro, a maioria se viu obrigada a colocar casacos, em uma enorme contradição com os antológicos versos de “Rio 40 Graus” de Fernanda Abreu. A última vez que isso se passou foi no século XIX. Brincadeirinha! E para quem não acreditava que os nordestinos também podiam padecer desse mal, até eles tremeram na base dessa vez. É claro que é uma friaca diferente, mas ainda assim é frio (para eles!). Mas por que você está falando de previsão do tempo na coluna Mercado Editorial , Ricardinho? Boa pergunta, sagaz leitor(a) do Bonas Histórias  que não deixa nada passar sem uma boa resposta. A razão é simples. Porque entramos na estação mais gostosa para se ler bons livros . Fala a verdade: é ou não é uma delícia ficar largado(a) no sofá da sala ou embaixo das cobertas da cama com as páginas de uma ótima trama ficcional ou os versos de um excelente poeta em mãos?! Nessa hora, a gente até se esquece da temperatura do lado de fora e aproveita para curtir o conforto térmico do lar tendo a companhia das melhores personagens literárias e dos mais afinados eu-líricos.    Sei que sou suspeito para falar sobre isso pois este é para mim um programão imperdível independentemente da época do ano. De janeiro a dezembro, minha residência é, parodiando a magistral Amália Rodrigues , uma casa literária com certeza, é com certeza uma casa literária. Quer me fazer feliz? Então, me deixe sozinho com um belo livro. Pronto: minha festa está armada! E quando não estou lendo, saiba que estou escrevendo, em uma espiral viciante que se retroalimenta infinitamente.   Mesmo reconhecendo essa minha fraqueza de caráter (quando eu era jovem, minha mãe falava: “O Ricardo até seria um cara legal se não fosse essa mania besta de passar o dia lendo...”), garanto que a leitura no inverno é ainda mais charmosa e prazerosa. Quando aliada a uma bebida quente (café, chá, mate e chocolate quente) e uns petiscos saborosos (pão de queijo, empanada, pizza, chocolate e alfajor), aí o cenário idílico fica completo. Ou quase completo, né? Para mais informações, consulte o texto de Músicas Românticas em Espanhol para o Inverno , post do mês passado da coluna Recomendações . Lá tratei das baixíssimas temperaturas por outra perspectiva.       Sabendo que vários leitores do blog compartilham dessa minha preferência pelas boas obras literárias, preparei hoje a lista de quase duas centenas de novos livros de ficção e poesia. Eles foram publicados no Brasil no terceiro bimestre de 2025 . É isso mesmo, senhoras e senhores. Há vários lançamentos ficcionais e poéticos que chegaram às livrarias brasileiras em maio e junho  e que possuem excelente nível. Certamente, alguns desses títulos vão ajudar meus compatriotas a espantarem a friaca atual e vão potencializar as experiências passadas nas residências nacionais.   Para quem chegou agora ao Bonas Histórias , preciso informar que bimestralmente trago na coluna Mercado Editorial  o monitoramento das novas obras dos meus gêneros literários favoritos: Romance , Novela , Coletânea de Contos ,  Coleção de Crônicas , Ensaio sobre Teoria Literária , Literatura Infantojuvenil , Literatura Infantil  e Antologia Poética . E antes de apresentar a relação completa dos principais livros lançados nessas estantes, gosto de pincelar algumas publicações que mais me chamaram a atenção. E é exatamente isso o que vou fazer a seguir. Então venha comigo nesse rápido passeio pelo que pareceu de mais interessante em maio e junho de 2025 aos meus já fatigados (e míopes) olhinhos. Começamos pela Literatura Brasileira , senhoras e senhores. Os três títulos de autores nacionais que mais me apeteceram foram “Batida Só”  ( Todavia ), o novo romance de Giovana Madalosso , “Um Milhão de Ruas – Crônicas 2010-2025”  ( Editora 34 ), coletânea de narrativas curtas de Fabrício Corsaletti , e “Luanda No Terreiro” ( Companhia das Letrinhas ), obra infantil de Marcelo D´Salete . Escolhi essas publicações porque conheço de longa data os trabalhos de seus escritores e sou fã deles. Na minha humilde opinião, acho impossível eles apresentarem algo de baixa qualidade para os leitores. Giovana Madalosso é uma das principais romancistas do Brasil na atualidade. Prova de seu talento é o espetacular “Suíte Tóquio” (Todavia), o segundo romance da autora curitibana. Publicada em setembro de 2020, essa obra ganhou a análise detalhada na coluna Livros – Crítica Literária  em abril de 2023. Agora Madalosso lança seu terceiro romance (e quarto título ficcional). “Batida Só” apresenta o drama de uma jornalista vítima da violência urbana. Ao acordar no hospital após a tentativa de assalto, ela recebe péssimas notícias dos médicos. É algo que vai mudar sua vida. Temos aqui outro livrão de Giovana Madalosso.         Outro autor que adoro é Fabrício Corsaletti. Ele foi meu professor no curso de pós-graduação de Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz , em São Paulo. Eu adorava suas aulas e seu mal humor persistente. Por mais carrancudo que ele fosse, notava-se que o cara era apaixonado pela literatura (principalmente pela poesia e pelas crônicas) e que era muito gente boa. Cheguei a comentar no Bonas Histórias  uma de suas ficções, "Golpe de Ar" (Editora 34), novela ambientada em Mi Buenos Aires Querido. No finalzinho de maio passado, a Editora 34  nos presenteou com “Um Milhão de Ruas – Crônicas 2010-2025”, uma seleta coletânea de textos em prosa de Corsaletti, alguns inéditos. Sei que ele é mais conhecido como poeta. Contudo, admito que prefiro suas crônicas. Por isso, achei essa publicação imperdível. Para ninguém falar que excluí a Literatura Infantil  desse meu recorte, conto que Marcelo D´Salete, um dos principais quadrinistas e ilustradores nacionais, lançou um belíssimo título para a criançada. Dele, já comentei na coluna Livros – Crítica Literária  o premiado “Angola Janga – Uma História de Palmares” (Veneta). Sua nova publicação é “Luanda No Terreiro”, uma obra infantil que fala da riqueza e da beleza das religiões de matrizes africanas. Nessa história que é um deslumbre para os olhos e para os corações, acompanhamos a rotina de uma menininha que se depara com o preconceito ao Candomblé. Com sua costumeira precisão narrativa e traços impecáveis, D´Salete nos leva a um passeio às crenças, à culinária, à música, ao colorido, aos rituais e aos encantos de um terreiro. Tudo isso pelo olhar puro da garotada. Incrível! Na prateleira da Literatura Internacional , os destaques que pincei foram: “Sem Despedida”  ( Todavia ), romance da sul-coreana Han Kang , “Retrato em Sépia”  ( Bertrand Brasil ), reedição de um clássico da chilena Isabel Allende , e “O Bom Mal”  ( Fósforo ), coletânea de contos da argentina Samanta Schweblin . Confesso que adoro essas três autoras, que estão entre minhas favoritas quando o assunto é Ficção Contemporânea . Han Kang conquistou em 2024 o Prêmio Nobel de Literatura . A partir de sua consagração, seus livros começaram a ser publicados com mais força no Brasil. “Sem Despedida” é um dos romances mais recentes da autora que se tornou o orgulho da Literatura da Coreia do Sul . Ele foi publicado em seu país natal em 2021. Portanto, faz parte da fase madura da escritora. À título de comparação, “A Vegetariana” (Todavia) e “Atos Humanos” (Todavia), seus mais celebrados títulos, são de 2007 e 2014, respectivamente. Em “Sem Despedida”, Han narra a viagem de uma escritora de Seul para a ilha de Jeju, onde uma amiga precisa de ajuda. Ao chegar lá, a protagonista conhece a história triste da localidade e daquela família. Essa jornada por Jeju representa quase como o abrir de um baú antigo com memórias chocantes e reveladoras do passado de uma parte do país e dos sul-coreanos.   Dando uma meia-volta completa no planeta, chegamos à Literatura Chilena  (por mais que a autora que vamos falar agora viva há décadas nos Estados Unidos). Desde “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), Isabel Allende  é um dos principais nomes da Literatura Latino-americana . Adoro suas ficções, principalmente os romances históricos com fortes pitadas de Realismo Mágico . Por isso mesmo, admito que estou muito decepcionado com os caminhos recentes de seus romances, que fogem completamente do receituário que a consagrou e não apresentam nada de brilhante. Felizmente, “Retrato em Sépia” (Bertrand Brasil) faz parte da antiga leva de narrativas de Allende. Lançado originalmente em 2000, esse título dialoga intimamente com a estética e o conteúdo de “A Casa dos Espíritos” e “Filha da Fortuna” (Bertrand Brasil), que ganhou uma nova edição em nosso país, conforme apresentado em Livros - Lançamentos em março e abril de 2025 . Mesmo não sendo um título novo, “Retrato em Sépia” é incrível. Vale a pena conhecer as aventuras e desventuras de Aurora del Valle pelo Chile do século XIX. Para terminar a seção introdutória deste post da coluna Mercado Editorial , trago um exemplar da Literatura de Terror , um dos meus gêneros literários favoritos. Estou falando de “O Bom Mal”, a coleção de narrativas curtas de Samanta Schweblin. Quem ainda não conhece essa autora, só preciso dizer que ela é atualmente uma das principais figuras da Literatura Argentina  quando o assunto é tramas aterrorizantes. Isso é, se não for a maior exponente dessa vertente em meu novo país. Felizmente, o público brasileiro começou a receber, nos últimos quatro anos, os mais destacados títulos de Schweblin. “Pássaros na Boca e Sete Casas Vazias” (Fósforo), “Kentukis” (Fósforo) e “Distância de Resgate” (Fósforo) são ótimos exemplos disso. Em outra publicação da Editora Fósforo , “O Bom Mal” traz seis contos protagonizados por pessoas comuns que são vítimas de episódios inquietantes que subvertem a lógica natural do mundo. Mais uma vez, Samanta Schweblin encanta com histórias de tirar o fôlego.    Depois dessa longuíssima introdução, já estou preparado para apresentar a lista completa dos quase 200 livros lançados no mercado editorial brasileiro em maio e junho de 2025 . Então vamos nessa, leitores do Bonas Histórias . Vejam, a seguir, as principais novidades que ganharam recentemente as estantes da ficção e da poesia em nosso país : FICÇÃO BRASILEIRA: “Batida Só” (Todavia) – Giovana Madalosso – Romance – 240 páginas. “Carga Viva” (Rocco) – Ana Rüsche – Romance – 216 páginas. “Uma Delicada Coleção de Ausências” (Companhia das Letras) – Aline Bei – Romance – 288 páginas. “Escrevo Seu Nome No Arroz” (Fósforo) – Caetano Romão – Romance – 192 páginas. “Depois do Trovão” (Companhia das Letras) – Micheliny Verunschk – Romance – 232 páginas. “Esquema” (Alfaguara) – Jessé Andarilho – Romance – 168 páginas. “O Mapa dos Encontros” (Paralela) – Isabella Mezzadri – Romance – 440 páginas. “Moeda de Troca” (Rocco) – Lucas Mota – Romance – 256 páginas. “Mulher de Pouca Fé” (Companhia das Letras) – Simone Campos – Romance – 240 páginas. “Os Dois Amores de Hugo Flores” (Paralela) – Felipe Fagundes – Romance – 352 páginas. “Primeiro Eu Tive Que Morrer” (Tusquets) – Lorena Portela – Romance – 352 páginas. “Cartografia Para Caminhos Incertos” (Intrínseca) – Ian Fraser – Romance – 196 páginas. “Coisas Presentes Demais” (Relicário) – Flávia Péret – Romance – 188 páginas. “O Bruxo” (Instante) – Adelaide Amaral – Romance – 160 páginas. “Como Nascem Os Fantasmas” (Suma) – Verena Cavalcante – Novela – 152 páginas “Horas Azuis” (Companhia das Letras) – Bruna Dantas Lobato – Novela – 144 páginas. “Tempo de Retomada” (Autêntica) – Trudruá Dorrico – Novela – 112 páginas. “O Enigma dos 8 Cristais” (Independente) – João Antônio Salmito – Novela – 104 páginas. “Ladeira da Preguiça” (Todavia) – Evanilton Gonçalves – Novela – 72 páginas. “Os Elefantes Viriam pela Manhã – Treze Contos à Procura de Dalton Trevisan” (Autêntica) – Rogério Faria Tavares (org.) – Coletânea de Contos – 144 páginas. “Os Anos de Vidro” (Nós) – Mateus Baldi – Coletânea de Contos – 144 páginas. “Samaúme-se: É Tempo de Pés na Terra” (Edite) – Flavia Muniz Cirilo – Coletânea de Contos – 64 páginas. “Um Milhão de Ruas – Crônicas 2010-2025” (Editora 34) – Fabrício Corsaletti – Coletânea de Crônicas – 416 páginas. “Minhas Janelas” (Companhia das Letras) – Paulo Mendes Campos – Coletânea de Crônicas – 312 páginas. “Apaixonada Por Você” (Gutenberg) – Paula Pimenta – Coletânea de Crônicas – 176 páginas. “Como Escrever Histórias” (Seguinte) – Raoni Marqs – Coletânea de Ensaios – 192 páginas. “Amor à Deriva” (Alt) – Pedro Poeira – Literatura Juvenil – 400 páginas. “O Mundo Que Habita Em Mim” (Seguinte) – Luca Guadagnini – Literatura Juvenil – 368 páginas. “Feras Em Campo” (Buzz) – Luisa Landre – Literatura Juvenil – 344 páginas. “Tudo Que Ela Me Disse” (Seguinte) – Bia Crespo – Literatura Juvenil – 328 páginas. “O Roteiro do Amor” (Verus) – Ray Tavares – Literatura Juvenil – 294 páginas. “Solteiro Em Produção” (Alt) – Ruth Oliveira – Literatura Juvenil – 240 páginas. “Diário de Pilar no México” (Pequena Zahar) – Flávia Lins e Silva (autora) e Joana Penna (ilustradora) – Literatura Infantil – 160 páginas. “Diário de Uma Garota Esquisita” (HarperKids) – Thalita Rebouças – Literatura Infantil – 112 páginas. “Sofia Marujo e a Carga Preciosa” (Yellowfante) – Estevão Ribeiro – Literatura Infantil – 64 páginas. “Meu” (Tatu-bola) – Alexandre Rampazo – Literatura Infantil – 64 páginas. “A Temida e Perigosa Monça – Série Quebradas e Coladas” (Yellowfante) – Camila Piva (autora) e Jefferson Costa (ilustrador) – Literatura Infantil – 64 páginas. “A Pequena Rainha” (Companhia das Letrinhas) – Bruna Lubambo – Literatura Infantil – 52 páginas. “Luanda No Terreiro” (Companhia das Letrinhas) – Marcelo D´Salete – Literatura Infantil – 48 páginas. “Capyvibes” (Tatu-bola) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Literatura Infantil – 48 páginas “Álbum da Minha Escola” (WMF Martins Fontes) – Renata Bueno – Literatura Infantil – 48 páginas. “Não Quero Ser Super-herói” (Yellowfante) – Daniela Pinotti (autora), Marcelo Maluf (autor) e Nat Grego (ilustradora) – Literatura Infantil – 40 páginas. “Lulli, A Gata Aventureira” (Roccquinho) – Miriam Leitão (autora) e Letícia Moreno (ilustradora) – Literatura Infantil – 40 páginas. “Cores” (Companhia das Letrinhas) – Rodrigo Andrade – Literatura Infantil – 32 páginas. “Formas” (Companhia das Letrinhas) – Rodrigo Andrade – Literatura Infantil – 32 páginas. “Números” (Companhia das Letrinhas) – Rodrigo Andrade – Literatura Infantil – 32 páginas. “Por Que Os Gatos São Tão Folgados?” (Roccquinho) – Fábio Sombra – Literatura Infantil – 32 páginas. “Capivara Chuchu: Larga o Jogo e Vem Brincar!” (Sextante) – Mundo Bita (autores) e Lhaiza Morena (ilustradora) – Literatura Infantil – 32 páginas. “A Semente que Veio de Longe” (Yellowfante) – Ricardo Jaheem (autor) e Fernanda Rodrigues (ilustradora) – Literatura Infantil – 32 páginas. “Não Quero Ser Índio” (Reco-reco) – Mayra Sigwalt – Literatura Infantil – 32 páginas. “O Maiô da Dona Aranha” (Yellowfante) – Sonia Junqueira (autora) e Bruna Martins (ilustradora) – Literatura Infantil – 32 páginas. “A Visita do Sapo” (Yellowfante) – Sonia Junqueira (autora) e Gabidoo (ilustradora) – Literatura Infantil – 32 páginas. “O Que Diz a Estrelinha” (Yellowfante) – Sonia Junqueira (autora) e Ricardo Gualberto (ilustrador) – Literatura Infantil – 32 páginas. “Quem Limpa?” (Companhia das Letrinhas) – Bianca Santana (autora) e Ana Cardoso (ilustradora) – Literatura Infantil – 32 páginas. “O Galo, o Gato e o Rato” (Yellowfante) – Mirella Spinelli – Literatura Infantil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Sem Despedida” (Todavia) – Han Kang (Coreia do Sul) – Romance – 272 páginas. “Retrato em Sépia” (Bertrand Brasil) – Isabel Allende (Chile) – Romance – 336 páginas. “O Livro do Meu Pai” (Todavia) – Djaimilia Pereira de Almeida (Angola) – Romance – 272 páginas. “A Sete Chaves” (Arqueiro) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Acidente” (Record) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 350 páginas. “Casas Estranhas” (Intrínseca) – Uketsu (Japão) – Romance – 176 páginas. “O Discurso Vazio” (Companhia das Letras) – Mario Levrero (Uruguai) – Romance – 160 páginas. “Todas As Coisas Perigosas” (Planeta) – Stacy Willingham (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Só Um Pouco Aqui” (Instante) – María Ospina Pizano (Colômbia) – Romance – 176 páginas. “Até O Fim do Verão” (Arqueiro) – Abby Jimenez (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Museu da Rendição Incondicional” (Carambaia) – Dubravka Ugrešić (Croácia) – Romance – 304 páginas. “O Reino Oculto” (Buzz) – Holly Renne (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Diante da Manta do Soldado” (Autêntica Contemporânea) – Lídia Jorge (Portugal) – Romance – 200 páginas. “Não Pisque” (Suma) – Stephen King (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Magia das Trevas” (Wish) – Marjorie Bowen (Inglaterra) – Romance – 380 páginas. “A Invocação da Bruxa” (Darkside) – Fritz Leiber (Estados Unidos) – Romance – 192 páginas. “Uma Garota Mágica Se Aposenta” (Rocco) – Park Seolyeon (Coreia do Sul) – Romance – 168 páginas. “Ardil-22” (Record) – Joseph Heller (Estados Unidos) – Romance – 588 páginas. “Terra Partida” (Intrínseca) – Clare Leslie Hall (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “A Casa da Escuridão Eterna” (Darkside) – Riley Sager (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Tormenta na Vila dos Tecidos – Livro 5 da Série A Vila dos Tecidos” (Arqueiro) – Anne Jacobs (Alemanha) – Romance – 512 páginas. “Setembro Negro” (Autêntica Contemporânea) – Sandro Veronesi (Itália) – Romance – 288 páginas. “Dele e Dela” (Darkiside) – Alice Feeney (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Território da Luz” (Alfaguara) – Yuko Tsushima (Japão) – Romance – 168 páginas. “A Entidade” (Darkiside) – Frank de Felitta (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Réquiem” (Companhia das Letras) – Karl Alfred Loeser (Alemanha) – Romance – 264 páginas. “Atmosfera – Uma História de Amor” (Paralela) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Xamãs Elétricos na Festa do Sol” (Autêntica Contemporânea) – Mónica Ojeda (Equador) – Romance – 296 páginas. “O Último Segredo” (Darkside) – A. R. Torre (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “No Laço do Amor” (Rocco) – Emma Lucy (Inglaterra) – Romance – 288 páginas. “As Regras do Jogo” (Intrínseca) – Sarah Adams (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Um Pacto de Silêncio” (Darkside) – Sharon Bolton (Inglaterra) – Romance – 384 páginas. “Reckless” (Rocco) – Lauren Roberts (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Sobre a Loucura de Uma Mulher” (Companhia das Letras) – Astrid Roemer (Suriname) – Romance – 248 páginas. “Margô Está em Apuros” (Rocco) – Rufi Thorpe (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “O Colecionador de Monstros” (Darkside) – Sam Holland (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “Sorte no Amor” (Intrínseca) – Lynn Painter (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Um Cara Como Esse” (Paralela) – Stephanie Archer (Canadá) – Romance – 256 páginas. “Casa Hereditária” (Darkside) – Tananarive Due (Estados Unidos) – Romance – 528 páginas. “Querida Tia” (Intrínseca) – Valérie Perrin (França) – Romance – 496 páginas. “Proclamem Nas Montanhas” (Companhia das Letras) – James Baldwin (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Outras Vidas” (Darkside) – Claire North (Inglaterra) – Romance – 368 páginas. “Jogando Por Controle – Livro 1 da Série Sobre Gelo Fino” (Arqueiro) – Peyton Corinne (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Fora de Jogo” (Gutenberg) – Avery Keelan (Canadá) – Romance – 464 páginas. “Amores Selvagens” (Rocco) – J. T. Geissinger (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Tudo em Família” (Darkside) – John Marrs (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Foice e Pardal – Livro 3 da Série Morrendo de Amor” (Arqueiro) – Brynne Weaver (Estados Unidos) – Romance –352 páginas. “Eu Não Sou Jessica Chen” (Alt) – Ann Liang (China/Austrália) – Romance – 304 páginas. “O Livro de Algum Outro Lugar” (Jangada) – Keanu Reeves (Canadá) e China Miéville (Inglaterra) – Romance – 400 páginas.  “Doce Jogada” (Globo Livros) – Lana Ferguson (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Um Amor Problemático de Verão” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Romance – 368 páginas. “Orbital” (DBA) – Samantha Harvey (Inglaterra) – Romance – 196 páginas. “O Leiloeiro” (Darkside) – Joan Samson (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “As Crianças de Himmler” (Record) – Caroline de Mulder (Bélgica) – Romance – 272 páginas.  “Férias de Matar” (Intrínseca) – Tessa Bailey (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Kitchen” (Estação Liberdade) – Banana Yoshimoto (Japão) – Romance – 176 páginas. “A Guerra – Livro 4 da Série Blackwater” (Arqueiro) – Michael McDowell (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “A Casa – Livro 3 da Série Blackwater” (Arqueiro) – Michael McDowell (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Bruxa Rebelde – Livro 2 da Série Mariposa Escarlate” (Arqueiro) – Kristen Ciccarelli (Canadá) – Romance – 416 páginas. “O Parque Macabro” (Darkside) – Andy Rausch (Estados Unidos) – Romance – 176 páginas. “13 Maneiras de Ver Uma Garota Gorda” (Globo Livros) – Mona Awad (Canadá) – Romance – 240 páginas. “Phantasma – Volume 1 da Série Jogos Perversos” (Intrínseca) – Kaylie Smith (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Perto de Você” (Globo Livros) – Hannah Bonam-Young (Canadá) – Romance – 376 páginas. “Maldição de Snakebite” (Darkside) – Courtney Gould (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Um Verão Radiante” (Buzz) – Carley Fortune (Canadá) – Romance – 366 páginas. “Onde A Biblioteca Se Esconde – Livro 2 da Série Segredos do Nilo” (Arqueiro) – Isabel Ibañez (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “Você Não Deveria Estar Aqui” (Darkside) – Jeneva Rose (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Musashi – Volume I” (Estação Liberdade) – Eiji Yoshikawa (Japão) – Coletânea de Romances – 904 páginas. “Musashi – Volume II” (Estação Liberdade) – Eiji Yoshikawa (Japão) – Coletânea de Romances – 904 páginas. “Memórias de Menina” (Fósforo) – Annie Ernaux (França) – Novela – 144 páginas. “Ressaca” (Todavia) – Ottessa Moshfegh (Estados Unidos) – Novela – 128 páginas. “Maníaco” (Darkside) – Stéphane Bourgoin (França) – Novela – 128 páginas. “Mulheres Perfeitas” (Darkside) – Ira Levin (Estados Unidos) – Novela – 128 páginas. “Sinais de Nós” (Relicário) – Lina Meruane (Chile) – Novela – 76 páginas. “Os Ratos e o Gato Persa” (Editora 34) – Obeyd Zakani (Irã) – Novela/Conto – 64 páginas. “Os Melhores Contos de Fadas Eslavos” (Wish) – Alexander Nikolayevi Afanasyev (Rússia), Verra Xenophontova Kalamatiano de Blumenthal (Rússia), Robert Nisbet Bain (Inglaterra), Lilian Gask (Inglaterra), William Ralston Shedden-Ralston (Inglaterra), Parker Fillmore (Estados Unidos), Antoni Józef Glinski (Bielorrússia), Andrew Lang (Escócia), John Theophilus Naaké (Inglaterra) e outros autores – Coletânea de Contos – 320 páginas. “O Bom Mal” (Fósforo) – Samanta Schweblin (Argentina) – Coletânea de Contos – 160 páginas. “Contos dos Sábios Crioulos” (Editora 34) – Patrick Chamoiseau (Martinica/França) – Coletânea de Contos – 96 páginas. “O Sonho e Outros Contos” (L&PM Pocket) – Agatha Christie (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 96 páginas. “A Aventura da Tumba Egípcia e Outras Histórias” (L&PM Pocket) – Agatha Christie (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 96 páginas. “Testemunhos Tangíveis – Cenas de Leitura na Literatura Contemporânea” (Relicário) – Nora Catelli (Argentina) – Coletânea de Ensaios – 208 páginas. “O Sobrevivente Quer Morrer No Final – Volume 3 da Série Central da Morte” (Intrínseca) – Adam Silvera (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 624 páginas. “O Fogo Eterno” (Alt) – Rebecca Ross (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 552 páginas. “Saving 6 – Livro 3 da Série Os Garotos de Tommen” (Bloom Brasil) – Chloe Walsh (Irlanda) – Literatura Juvenil – 520 páginas. “Dança do Mar Ardente – Volume 2 da Trilogia Mousai” (Gutenberg) – E. J. Mellow (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 456 páginas. “Jogos Ocultos” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 456 páginas. “O Império dos Ossos” (Gutenberg) – Andrea Stewart (Estados Unidos/China) – Literatura Juvenil – 448 páginas. “Domadores de Sombras” (Alt) – R. M. Gray (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 448 páginas. “Vizinho Infernal” (Alt) – Myriam M. Lejardi (Espanha) – Literatura Juvenil – 416 páginas. “Divindade – Volume 3 da Série Covenant” (Bloom Brasil) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 392 páginas. “Apôlion – Volume 4 da Série Covenant” (Bloom Brasil) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 312 páginas. “No Ritmo do Jogo” (Alt) – Bal Khabra (Canadá) – Literatura Juvenil – 386 páginas. “Irmãs de Canção e Espada” (Galera) – Rebecca Ross (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 378 páginas. “Depois do Fim” (Seguinte) – Katy Upperman (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 352 páginas. “Um Toque de Malícia” (Bloom Brasil) – Scarlett St. Clair (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 352 páginas. “Les Normaux – Garoto Encontra Vampiro” (Seguinte) – Janine Janssen (Holanda) e S. Al Sabado (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 336 páginas. “Estrela Escura em Brasa, Neve Caindo em Cinzas” (Gutenberg) – Amélie Wen Zhao (França/China) – Literatura Juvenil – 288 páginas. “Pontos de Fadas” (Galera) – Olivia Atwater (Canadá) – Literatura Juvenil – 266 páginas. “Jujuba do Mal – Volume 8 da Série Five Night at Freddy´s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawthon (Estados Unidos) e Andrea Waggener (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 256 páginas. “Penhasco – Volume 7 da Série Five Night at Freddy´s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawthon (Estados Unidos), Elley Cooper (Estados Unidos) e Andrea Waggener (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 208 páginas. “Murdle – A Escola de Mistérios” (Intrínseca) – G. T. Karber (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 240 páginas. “O Estranhão” (Globo Clube) – Álvaro Magalhães (autor; Portugal) e Carlos J. Campos (ilustrador; Brasil) – Literatura Juvenil – 192 páginas. “O Estranhão 2” (Globo Clube) – Álvaro Magalhães (autor; Portugal) e Carlos J. Campos (ilustrador; Brasil) – Literatura Juvenil – 192 páginas. “A Rainha do Baile” (Rocco) – R. L. Stine (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 160 páginas. “O BGA: O Bom Gigante Amigo” (Galera Junior) – Roald Dahl (Inglaterra) – Literatura Infantil – 352 páginas. “Leve-me ao Seu Líder” (Boitatá) – Afonso Cruz (Portugal) e Mariana Rio (Portugal) – Literatura Infantil – 292 páginas. “A Fera Escarlate – Volume 12 da Série O Homem Cão” (Companhia das Letrinhas) – Dav Pilkey (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 224 páginas. “Cosy Calm” (Alt) – Cherry Lam (Austrália) – Literatura Infantil – 96 páginas. “Doutora Era Uma Vez” (Brinque-Book) – Catherine Jacob (autora; Inglaterra) e Hoang Giang (ilustradora; Vietnã) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Cachorro Quente” (Companhia das Letrinhas) – Doug Salati (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Meu Pai É Uma Árvore” (Pequena Zahar) – Jon Agee (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Beta Inquieta” (Tatu-bola) – Reese Witherspoon (autora; Estados Unidos) e Xindi Yan (ilustradora; China/Estados Unidos) – Literatura Infantil – 48 páginas. “O Artivista” (Companhia das Letrinhas) – Nickkolas Smith (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Como Se Come Uma Manga” (Carambaia) – Paola Santos (autora; Venezuela) e Juliana Perdomo (ilustradora; Colômbia) – Literatura Infantil – 40 páginas. “Diga Algo!” (Globinho) – Peter H. Reynolds (Canadá) – Literatura Infantil – 40 páginas. “Uma Árvore É Uma Comunidade” (Carambaia) – David L. Harrison (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 40 páginas. “Cadê O Sono da Stella?” (Boitatá) – Anete Melece (Letônia) – Literatura Infantil – 36 páginas. “O Urso” (Companhia das Letrinhas) – Joaquín Camp (Argentina) – Literatura Infantil – 32 páginas. “Tem Um Tigre No Trem” (Brinque-Book) – Mariesa Dulak (autora; Inglaterra) e Rebecca Cobb (ilustradora; Inglaterra) – Literatura Infantil – 32 páginas. “Nas Nuvens” (Globinho) – Tom Tinn-Disbury (Inglaterra) – Literatura Infantil – 32 páginas. “Urso Marrom, Urso Marrom, O Que Você Vê Lá?” (Companhia das Letrinhas) – Bill Martin Jr (autor; Estados Unidos) e Eric Carle (ilustrador; Estados Unidos) – Literatura Infantil – 26 páginas. POESIA BRASILEIRA: “A Extração dos Dias: Poesia 1984-2005” (Círculo de Poemas) – Claudia Roquete-Pinto – 368 páginas. “Fullgás – Poesia Reunida” (Companhia das Letras) – Antonio Cicero – 240 páginas. “Ano Passado” (Nós) – Júlia de Carvalho Hansen – 160 páginas. “Noite Devorada” (Círculo de Poemas) – Mar Becker – 120 páginas. “Coisas que a Gente Sente e a Duração das Coisas” (Planeta) – Claudio Thebas – 112 páginas. “Muchacho e Outros Poemas” (Círculo de Poemas) – Rodrigo Lobo Damasceno – 40 páginas. “Dois Carcarás” (Círculo de Poemas) – Leandro Durazzo – 40 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Nossa Vingança É O Amor – Antologia Poética (1971-2024)” (Editora 34) – Cristina Peri Rossi (Uruguai) – 400 páginas.  “Acredite: Coisas Boas Acontecem” (Academia) – Sofia Castro Fernandes (Portugal) – 224 páginas. “Vida em Marte” (Relicário) – Tracy K. Smith (Estados Unidos) – 140 páginas. Acho que isso é tudo por hoje, pessoal! Mas não fiquem tristes, por favor. Entre o final de agosto e o início de setembro, prometo voltar à coluna Mercado Editorial para apresentar aos leitores do Bonas Histórias  as novidades das livrarias brasileiras no quarto bimestre de 2025. Até lá, continue curtindo o conteúdo das demais páginas do blog. Nos vemos por aí! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Livros: Uma Curva na Estrada – O quinto romance de Nicholas Sparks

    Publicado originalmente em setembro de 2001 nos Estados Unidos e lançado no Brasil na versão em português em fevereiro de 2013, esse drama histórico foi inspirado na história real do cunhado do best-seller norte-americano. Em Buenos Aires, onde moro há quase dois anos, 9 de julho foi feriado. Curiosamente, esse é um dos poucos recessos argentinos que coincidem com o calendário de folgas de São Paulo, minha cidade natal e local da editora em que trabalho. Por falar nisso, aqui vão meus abraços para a galerinha da EV Publicações . Enquanto em tierras hermanas  a última quarta-feira teve a celebração do Dia da Independência (com direito a locro criollo  por todos os lados!), no território paulista foi comemorada a Revolução Constitucionalista de 1932 (mas, se eu não estiver tão enganado, sem bauru, sem sanduíche de mortadela e sem lanche de pernil na mesa da maioria das famílias). Por isso, não havia desculpa dessa vez: podia descansar sem o peso na consciência. Confesso que a incompatibilidade de agendas acaba fazendo com que eu trabalhe em quase todos os feriados argentinos/portenhos e em quase todos os feriados brasileiros/paulistanos. Ai, ai, ai. São coisas de quem atua remotamente e algo comum na rotina dos nômades digitais. Fazer o quê? O fato é que tinha que aproveitar a sincronização dos astros (ou a compatibilidade de calendários, né?) e curtir a rara oportunidade para descansar bem no meio da semana. Uhu! ¡Viva el nueve de julio en Buenos Aires ! E viva o nove de julho em São Paulo! E o que fiz nessa data tão especial, senhoras e senhores? Como os leitores mais antigos do Bonas Histórias  já estão cansados de saber, uma das minhas diversões favoritas é mergulhar nas páginas da ficção literária . Não por acaso, foi exatamente o que fiz na última quarta-feira de moleza cívica. Na manhãzinha calma de Saavedra, bairro da Zona Norte da capital da Argentina, tomei café bem cedo e me atirei no sofá embaixo das cobertas. A ideia era passar o feriado invernal com um bom livro  em mãos. Nada de sair pelas ruas com essa friaca polar (e sem dinheiro no bolso, mesmo no início do mês). Muitas vezes, tudo o que precisamos para relaxar e espairecer é permanecer quietinho (e quentinho) dentro do lar. Ao procurar um romance  na biblioteca do meu Kindle, encontrei “Uma Curva na Estrada”  ( Arqueiro ), uma das primeiras publicações de Nicholas Sparks . O pobrezinho estava atirado em um canto empoeirado e obscuro das estantes do meu leitor de livros digitais. Antes que alguém reclame do paradoxo das duas últimas construções frasais, eu explico: gosto de usar figuras de linguagem em meus textos. Entre no espírito da brincadeira, por favor. Voltando ao que estava falando... Ao avistar este romance, não titubeei. Na hora, o pensamento que brotou em mim quase como um balãozinho de história em quadrinhos foi: “Achei! É essa a obra de hoje, Ricardinho. Vou de Sparks com certeza!”. Qual o motivo da minha escolha? Sinceramente, não sei justificar racionalmente minhas decisões. Geralmente, terceirizo esse serviço para a Doutora Riolinda, minha psicóloga imaginária. Porém, em um exercício reflexivo rápido e superficial, encontrei algumas respostas possíveis. Vamos a elas! Talvez o cenário atual da minha cidade tenha pedido uma história de amor . Você vai concordar comigo que o inverno em Mi Buenos Aires Querido combina com os romances românticos . Inclusive, já falei sobre esse assunto em dois posts recentes: Lançamentos de livros de ficção e poesia em maio e junho de 2025 , conteúdo da coluna Mercado Editorial , e Músicas românticas em espanhol para o inverno , material da coluna Recomendações . Para não me tornar repetitivo (um dos meus defeitos), vou pular essa parte, tá? Obrigado pela compreensão. Outra possibilidade foi a minha necessidade de conhecer um novo drama sentimental . Admito que brincar de "Laços de Família" (2001), telenovela global em que Edu padecia para ficar com Helena, já está me angustiando. Quem manda ficar pobre justamente na época em que o Peluca de León  supervalorizou sua moeda, né? Aí não há encanto nem amabilidade de la chica venezolana más hermosa de Baires  que sobreviva à versão hétero, falida, corintiana, literata e feia do Edu do Manoel Carlos. Cada um tem o Reynaldo Gianecchini que merece, não é mesmo? O terceiro motivo pode ser que estava com a literatura de Nicholas Spark  na cabeça há algumas semanas. Para ser mais preciso em meu comentário, as obras ficcionais do best-seller norte-americano rondavam minha mente desde que assisti a “Mensagem em Uma Garrafa” (Mensaje en Una Botella: 2025), filme argentino que tem o título muito parecido com “Uma Carta de Amor” (Arqueiro), o segundo romance de Sparks. Obviamente a semelhança é com o nome da obra em inglês: “Message in a Bottle”. Muita coincidência, hein?! Até comentei essa questão na própria análise do longa-metragem na coluna Cinema . Por fim, acho que a razão principal da escolha da minha leitura do último feriado foi a certeza de que Nicholas Sparks não decepciona quando apresenta aos leitores uma narrativa ficcional. Já li várias de suas obras e até hoje nunca me frustrei. Elas misturam romance, mistério , suspense  e ação  na medida certa. Assim, quando bati os olhos em “Uma Curva na Estrada”, sabia que teria uma boa experiência literária. E foi o que aconteceu. Gostei tanto desse título que resolvi analisá-lo na coluna Livros – Crítica Literária . E aí está a resenha que prometi para mim mesmo que faria. “Uma Curva na Estrada” é uma produção narrativa da fase inicial da trajetória de Nicholas Sparks como autor ficcional. Admito que sou fã dessa etapa da carreira do romancista norte-americano, quando ele mesmo desenvolvia seus textos. Atualmente, ele possui uma equipe que executa suas ideias. Não é que os novos livros sejam ruins. Não! Por favor, não me entenda mal. Suas histórias continuam sendo muito boas – do contrário ele não teria se tornado um best-seller internacional nem uma grife do mercado editorial e do cinema hollywoodiano. Entretanto, sinto que os últimos títulos não possuem o charme das obras iniciais, quando ele tecia tramas mais originais, contundentes e com personagens memoráveis. Juro que não sei explicar essa minha preferência. Só sei apontar que os três livros de Sparks que mais gostei foram justamente os três iniciais: “Diário de Uma Paixão” (Novo Conceito), publicado originalmente em 1996, “Uma Carta de Amor” (Arqueiro), romance de 1998, e “Um Amor para Recordar” (Arqueiro), obra de 1999. Se você ainda não leu essas tramas, leia-as. Valem muito a pena. Provando que meu gosto não é tão aleatório assim, essas histórias foram justamente as primeiras do autor a ganharem adaptações cinematográficas – em 2004, 1999 e 2002, respectivamente. Acho legal mencionar que, dos seus títulos mais recentes, os meus preferidos são: “Querido John” (Arqueiro), romance de 2007, “A Última Música” (Arqueiro), drama de 2009, e “Uma Longa Jornada” (Arqueiro), publicação de 2013. Essa trinca também foi convertida em versões audiovisuais. Pelo que eu saiba, Nicholas Sparks tem mais de uma dezena de livros que foram levados às telonas e se tornaram êxitos comerciais da sétima arte norte-americana.   E por que estou falando sobre isso?! Porque “Uma Curva na Estrada” – não confundir, por favor, com “Uma Curva no Tempo” (Arqueiro), drama da inglesa Dani Atkins que comentei aqui no blog há muitos anos – é o quinto romance de Nicholas Sparks . Ele foi lançado em setembro de 2001 (uma semana após os atentados terroristas às Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova York) pela Warner Books com o nome “A Bend in the Road” . Do ponto de vista do portfólio do romancista norte-americano, esta obra chegou às livrarias um ano depois de “O Resgate” (Arqueiro) e um ano antes de “Noites de Tormenta” (Arqueiro). No Brasil, “Uma Curva na Estrada” foi adaptado para o português pela Editora Arqueiro , que tem em seu quadro figuras de renome da literatura norte-americana   contemporânea como Dan Brown, James Patterson e Harlan Coben , além do próprio Nicholas Sparks. Publicado em nosso país em fevereiro de 2013, este romance de Sparks foi traduzido por Fernanda Abreu , a homônima da cantora carioca que começou como backing vocal  na Blitz, a banda da música grudenta “Você Não Soube Me Amar” . Entre os trabalhos de mais visibilidade da tradutora nascida em Londres e criada no Brasil (que não tem nada em comum com a intérprete de “Rio 40 Graus”, além do nome igual, claro), podemos citar: “O Símbolo Perdido” (Arqueiro), de Dan Brown, “Comer, Rezar, Amar” (Objetiva), de Elizabeth Gilbert, e “Uma Vida Interrompida” (Casa dos Livros), de Alice Sebold. Apesar de ter lido esses três livros (e gostado bastante deles), acho que não os analisei no Bonas Histórias . Voltando a falar de “Uma Curva na Estrada” (nosso assunto de hoje da coluna Livros – Crítica Literária ), este não é um título tão conhecido de Nicholas Sparks. Só mesmo quem é fã de carteirinha do best-seller norte-americano o conhece. Isso se deu porque ele ficou apartado entre os primeiros sucessos do autor que tinham um estilo de produção mais artesanal – de “Diário de Uma Paixão” até “O Resgate” – e seus êxitos mais recentes com características de linha de produção – a partir de “O Guardião” (Arqueiro), de 2003. Tal processo de esquecimento ou de abandono também ocorreu com “Noites de Tormenta”, romance posterior a “Uma Curva na Estrada”. É preciso dizer que o período de publicação de “Uma Curva na Estrada” e (“Noites de Tormenta”) foi péssimo, o que ajuda a explicar a pouca visibilidade até hoje dessa(s) obra(s) no portfólio do autor. Em tempos de Guerra ao Terror, política militar promovida pelo governo de George W. Bush em resposta aos ataques terroristas da Al-Qaeda em 2001, apresentar dramas amorosos ao estilo água com açúcar  se tornou uma afronta ao bom senso dos leitores nos Estados Unidos. Aí os romances de Sparks perderam momentaneamente o apelo – algo que voltaria a partir de 2003, quando a situação geopolítica se normalizou na América do Norte. Curiosamente, a trama de “Uma Curva na Estrada” foi baseada em uma história real, algo que Nicholas Sparks fazia bastante no começo da carreira. Lembremos que “Diário de Uma Paixão” foi inspirado na trajetória dos avós de sua esposa. Dessa vez, a fonte de inspiração foi o seu cunhado. A impressão que tenho é que parte do sucesso inicial deste romancista se deve à turbulenta vida afetiva dos familiares de sua mulher, Cathy Cote. Ou melhor, ex-mulher. Afinal, o casal se separou em 2015, após duas décadas e meia de união. Bonito isso, Sr. Sparks! Você usa as melhores histórias dos parentes de Cathy por um longo tempo e, quando descobre que não tem mais nada de novo para extrair dali, troca a companheira. MONSTRO! Brincadeirinha! Adquiri este e-book há vários anos quando queria analisar a literatura de Nicholas Sparks no Desafio Literário . Apesar da vontade de me aprofundar em seu portfólio, confesso entristecido que isso nunca aconteceu. No fim das contas, acabei priorizando outros nomes de destaque da ficção contemporâneo . Ainda assim, reconheço que em várias vezes a bola bateu na trave (e caminhou por cima da linha). Juro que o gol só não saiu por mero detalhe. Em outras palavras, curto o trabalho literário de Sparks e sempre fico fascinado com os seus títulos ficcionais. E depois de tanto desprezar “Uma Curva na Estrada”, enfim dei a atenção que esse romance merecia. Antes de analisá-lo com o devido cuidado (afinal, estamos na coluna Livros – Crítica Literária , não é?), acho de bom tom apresentar aos leitores do Bonas Histórias  o enredo desta publicação. Aí vamos nós! Basicamente, a narrativa de “Uma Curva na Estrada” começa em agosto de 1988. O cenário é New Bern, uma pequena cidade do condado de Craven, na Carolina do Norte. O protagonista da trama é Miles Ryan, um dos subxerifes da localidade. Aos 32 anos de idade, ele cuida sozinho de Jonah, seu filhinho de sete anos, pois é viúvo. Há dois anos, Miles perdeu a esposa, Missy Ryan, de forma trágica. Ela foi atropelada na estrada perto de casa enquanto corria no fim de tarde. O motorista que a matou fugiu sem prestar ajuda e jamais foi identificado pela polícia. Não descobrir o assassino de Missy atormenta o subxerife até hoje. Além da falta da mulher que tanto amava e que fora sua primeira (e única) namorada, Miles se culpa por não ter conseguido avançar na investigação deste caso. Não é preciso dizer que o rapaz vive até hoje com a sombra pesada do passado e com o inconformismo que vitimou sua família. As coisas para Miles Ryan e o pequeno Jonah parecem mudar no novo ano letivo do garotinho. Agora, a professora do filho do policial é Sarah Andrews, uma mulher muito bonita e recém-divorciada que chegou há pouco de Baltimore. Ela abandonou sua cidade natal após o complicado término do casamento, que a abalou consideravelmente. Para recomeçar a vida longe das amarguras do ex, Sarah escolheu a pequena cidade da Carolina do Norte onde seus pais passaram a viver nos últimos anos. E na escola de New Bern, o aluno que mais preocupa a nova professora é Jonah. Aos sete anos de idade, o menino está muito defasado nos estudos. A comparação, obviamente, é em relação aos colegas de classe. Pelo visto, os professores antigos do garoto o pouparam dos esforços pedagógicos. Afinal, quem iria pressionar um pequeno órfão, né? Ciente de seu papel de docente, Sarah Andrews marca uma reunião com Miles Ryan para discutir a defasagem educacional de Jonah. O pai fica assustado ao descobrir que o filho é o pior aluno da classe. O correto, segundo a professora, era o estudante mirim ter repetido de ano. O menino não sabe ler nem fazer contas básicas. Para recuperar o tempo perdido, Jonah precisará passar por aulas de reforço na escola e se dedicar às lições extras em casa. Para tal, tanto Sarah quanto Miles precisarão estar mais próximos do garoto e se dedicar intensamente ao seu processo de aprendizado. Assim, o combinado da dupla de adultos é que a professora fará aulas de reforço três vezes por semana com Jonah na escola e o subxerife supervisionará as lições de casa do filho duas vezes na semana. O que nenhum dos dois poderia imaginar é que esse trabalho em conjunto fosse aproximá-los bastante e de maneira sentimental. Rapidamente, pinta um clima entre Miles e Sarah e os dois se apaixonam. A união deles parece perfeita: o policial poderá esquecer os traumas da viuvez precoce e a docente recém-chegada à cidade conseguirá virar a página do divorcio turbulento. Para completar o cenário idílico, Jonah ganhará uma figura feminina forte e carinhosa, algo que ansiava desde a perda da mãe. O que poderia complicar a nova vida de Miles, Sarah e Jonah, hein? Nada, né? Nananinanão. Aí que surgem os conflitos deste romance de Sparks, senhoras e senhores. Justamente quando o casal de protagonistas parece ter engatado o relacionamento e estar pronto para viver tempos felizes, episódios mal resolvidos do passado de todos chegam para atormentá-los. Diante de tantas e pesadas adversidades, a confiança e o amor entre Sarah Andrews e Miles Ryan serão colocados em xeque. Será que o sentimento incipiente deles sobreviverá aos segredos impiedosos que ficaram escondidos por tanto tempo e que só agora foram revelados? Esse é o mistério que movimenta esse livro ficcional. As 304 páginas de “Uma Curva na Estrada” estão divididas em 39 capítulos, sendo um de prólogo e outro de epílogo (os demais 37 capítulos são numerados). Levei aproximadamente seis horas e meia para percorrer integralmente seu conteúdo neste feriado de 9 de julho. Sucintamente, precisei de três sessões de leitura ao longo do dia. Li metade do romance na manhã de quarta-feira, o que demandou mais ou menos três horas de concentração às páginas. Depois, foram necessários um mergulho literário à tarde (de pouco mais de duas horas) e outro final à noite (de cerca de uma hora). Portanto, para quem (como eu) curte longas imersões na ficção, dá para devorar essa obra em um único dia sem problema. Do contrário, creio que dê para ler esta publicação em três ou quatro noites consecutivas.    Em relação à estrutura, o quinto romance de Nicholas Sparks possui uma divisão muito clara. A primeira metade de “Uma Curva na Estrada” é dedicada à apresentação dos componentes principais da trama (o passado difícil das personagens e o presente árido delas) e à construção do amor de Sarah Andrews e Miles Ryan. Até mesmo os leitores mais românticos vão concordar comigo que essa é a parte mais fraca (ou menos emocionante) do livro. Afinal, gasta-se uma centena e meia de páginas para mostrar os antigos traumas do casal de protagonistas e para narrar o novo envolvimento amoroso entre o policial viúvo e a professora divorciada. Por mais que não tenha nada de errado nesse tipo de expediente narrativo, os capítulos são mornos. Juro que quando cheguei no meio desta publicação, pensei: “Dessa vez, Sparks mandou mal. Enfim, estou tendo a oportunidade de ler um trabalho fraco (ou pouco empolgante) dele”. Tão logo essa reflexão brotou na minha mente, o livro mudou da água para o vinho. Na segunda metade de “Uma Curva na Estrada”, o cenário dramático se alterou completamente e o bicho pegou pra valer. Aí o que parecia ser uma história de um namorinho bobo se transformou em um drama histórico  com tintas fortes, com conflitos angustiantes e com situações delicadíssimas. De repente, o romance se potencializou e a leitura ganhou intensidade. É incrível notar essa alteração de dinâmica e o efeito desse recurso narrativo. Nesse instante, tive que reconhecer: “Tá bom, tá bom, Sr. Sparks. Você venceu outra vez. Não foi dessa vez que vou ler algo ruim do senhor”. O que serviu de estopim para essa alteração do arco dramático foi o capítulo 10, que fica justamente no meio do romance. É importante explicar que a maioria dos textos de “Uma Curva na Estrada” é narrado em terceira pessoa por um narrador observador do tipo onipresente e onisciente. Através de seus olhos, conhecemos o passado e o presente de Sarah Andrews, Miles Ryan e Jonah Ryan. Além disso, ficamos sabendo dos sentimentos e dos pensamentos dessas personagens. Até aí não há nada demais. Contudo, alguns capítulos possuem um narrador em primeira pessoa (a diferença é que este texto está em itálico). Essas narrativas de caráter mais pessoal vêm intercaladas aos capítulos em terceira pessoa, o que traz naturalmente um elemento extra de curiosidade aos leitores. Afinal, não sabemos quem é o autor desse trecho. Ainda assim, o que tornou esta leitura mais prazerosa e instigante foi descobrir, bem no meio do romance, que esse narrador misterioso era o assassino de Missy Ryan. E a bomba dramática foi entender que esse sujeito não vivia longe de Miles Ryan, como pensávamos inicialmente. Pelo contrário, ele fazia parte da rotina do viúvo e do garotinho órfão. Essa pitada de surpresa deu altíssima tensão à história de “Uma Curva na Estrada”, além de transformar o romance água com açúcar em um thriller com muita ação  e com componentes de romance policial .   Por mais paradoxal que possa parecer, o narrador misterioso em primeira pessoa foi o responsável por, ao mesmo tempo, melhorar a história desse livro e tornar sua trama inverossímil. É isso mesmo o que você leu, caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Esse expediente narrativo significou simultaneamente o maior acerto e o maior erro deste trabalho de Nicholas Sparks. Por quê? Vamos lá que vou explicar... Ora, porque o narrador misterioso, como acabei de detalhar, trouxe as doses de mistério e angústia que o romance tanto precisava. Nesse sentido, ele está perfeito. Por outro lado, a narrativa em terceira pessoa de “Uma Curva na Estrada” se tornou totalmente inconsistente com o acréscimo das passagens em primeira pessoa. Não dava para o homem que atropelou a esposa de Miles Ryan saber tudo o que o policial e a professora faziam. Ele não estava presente em todas as cenas para conseguir detalhar os acontecimentos das demais personagens, né? E da maneira como o livro foi estruturado, o narrador-personagem oculto é também o “autor” do texto em terceira pessoa (o tal narrador onipresente e onisciente da maior parte do texto). O nome disso, segundo a Teoria Literária , é inverossimilhança narrativa (ou erro de foco narrativo ) . Vamos combinar que o trabalho dos escritores ficcionais não é nada fácil, senhoras e senhores. Os artistas das letras fazem algo que potencializa a experiência de leitura e, ao mesmo tempo, prejudica a qualidade técnica do romance. Ai, ai, ai. É claro que esse não é um erro de Nicholas Sparks que afeta diretamente a leitura do público recreativo. Pelo contrário, esse expediente tornou o livro muito melhor do ponto de vista comercial e de apelo popular. Ainda assim, não podemos fechar os olhos para as questões técnicas da literatura, não é mesmo? Tecnicamente falando, esse livro tem um grave problema de foco narrativo , o que prejudica a leitura do público que estuda o fazer literário, os elementos da Teoria Literária  e os componentes da narrativa ficcional . Saindo das polêmicas mais pesadas, vamos ao que me pareceu um acerto inegável de Sparks nesta obra: a construção das personagens . Como é tradição na literatura deste autor, ele sempre desenvolve figuras redondas. É legal comentar sobre isso porque até a primeira metade de “Uma Curva na Estrada”, a sensação é que estamos diante de personagens planas e que a trama possui forte maniqueísmo. Não à toa, o mal-estar de quem esperava algo interessante. Porém, quando o romance ganha novas tonalidades na metade da história, assistimos ao florescer das contradições das personagens principais e o desaparecimento dos conflitos moldados entre o bem contra o mal. Em outras palavras, o mundo aqui não é preto e branco. As várias colorações de cinza tornam essa publicação mais rica e instigante para os bons leitores. Outro aspecto que gostei foi do espaço narrativo . Nicholas Sparks ambienta seus enredos quase sempre em paisagens que conhece bem. Daí a preponderância de cidades da Carolina do Norte em seus romances. Em “Uma Curva na Estrada”, não foi diferente. O norte-americano escolheu como cenário a sua própria cidade, New Bern. Por isso, a excelente recriação narrativa desse lugar nas páginas do livro. Às vezes é melhor caminhar bem por trilhas já conhecidas do que se aventurar por lugares novos e traiçoeiros. Por mais que eu fique listando os aspectos positivos desse título e afirme que gostei bastante desta leitura, não posso ficar indiferente aos equívocos que encontramos aqui e ali. Depois do tropeço da definição do narrador , o que mais salta aos olhos é a fraqueza de “Uma Curva na Estrada” como romance histórico .  Lembremos que seu enredo se passa em meados de 1988, quando Sarah Andrews se muda para New Bern e se torna professora de Jonah Ryan. Para ser mais preciso em meu comentário, posso afirmar que essa trama começa um pouco antes, em 1986, quando Missy Ryan sofre o fatídico acidente, e avança até a virada do ano de 1988 para 1989, quando temos o desfecho do romance. A questão que me incomodou foi a pouquíssima quantidade de elementos que amparam a narrativa ambientada nos anos 1980. Só me recordo do uso das fitas VHS, seja no aluguel dos filmes nas locadoras, seja no hábito do casal filmar as cenas em família pelas câmeras portáteis, e a necessidade de se fazer chamadas telefônicas pelas linhas fixas. Além disso, o que mais caracterizava o dia a dia há quarenta anos, hein? Não temos uma resposta por parte do autor para esse questionamento. Tirando o fato de as personagens não usarem telefone celular nem redes sociais, essa história poderia ser descrita como atual. Ou seja, achei a falta da contextualização histórica um vacilo imperdoável. Se é para ambientar o enredo numa determinada época, então vamos mergulhar pra valer naquele período. Do contrário, a sensação é que falta alguma coisa. E foi justamente o que ocorreu nesta obra. Em relação à edição brasileira de “Uma Curva na Estrada”, achei alguns erros textuais em algumas frases do romance. Não foram muitos erros (em três ou quatro trechos mais ou menos) nem coisas tão graves (palavras a mais aqui ou pontuação desnecessária ali). Ainda assim, eles causaram certo embaraço em quem esperava um material impecável – estamos falando da Editora Arqueiro , né? Como disse no início deste post da coluna Livros – Crítica Literária , recorri à edição digital da obra. Não sei se os vacilos textuais encontrados na versão do Kindle se aplicam também à versão impressa. De qualquer maneira, eles me chatearam um pouco e demonstraram um serviço de finalização de texto problemático. Acho que era isso o que eu tinha para falar (ou escrever) hoje para os leitores do Bonas Histórias . De forma geral, “Uma Curva na Estrada” é um título interessante e serviu muito bem como companhia nesse feriado gelado en la ciudad de la furia . Entretanto, é bom alertar que ele está longe dos melhores trabalhos de Nicholas Sparks. “Diário de Uma Paixão” , “Uma Carta de Amor” e “Um Amor para Recordar” seguem intactos no alto do pódio das minhas leituras preferidas deste autor. E sendo bem franco com vocês, “Querido John”, “A Última Música” e “Uma Longa Jornada” também estão numa prateleira acima de “Uma Curva na Estrada” quando os quesitos são qualidade narrativa e impacto literário. Então, você não gostou deste romance, Ricardinho? Gostei sim. Do contrário, não investiria tempo e esforço para tecer essa análise. O que estou dizendo é que dentro do portfólio de Sparks há livros melhores – alguns muito melhores. Porém, quando comparado com o que é apresentado pela média do mercado editorial, “Uma Curva na Estrada” se destaca tranquilamente. Daí minha satisfação com esta leitura no feriado. Vamos combinar que ainda está para chegar o dia em que Nicholas Sparks vai me decepcionar. Ou essa data nunca chegará? Cada vez mais duvido dessa possibilidade, senhoras e senhores. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Talk Show Literário: Dona Carolina

    Em mais um programa da oitava temporada do TSL, Darico Nobar entrevista a narradora-protagonista de Quarto de Despejo, livro de memórias de Carolina Maria de Jesus que foi publicado em 1960. [O estúdio do Talk Show Literário  estava vazio e escuro. Ou quase totalmente vazio e escuro. Atrás da mesa no camarim, o apresentador fazia anotações em um calhamaço de folhas sob um único holofote de luz. Estava concentrado, lendo e rabiscando. Por isso, não reparou na chegada de uma senhora magra de esperança e maltrapida de felicidade. Ela bateu na porta com delicadeza e colocou a cabeça para dentro]. Dona Carolina : Dá licensa , Seu Darico. Tem papel pra eu levar? Darico Nobar : Bom dia, Dona Carolina! [Abriu o sorriso assim que tirou os olhos das anotações]. Chegue mais, por favor. Como a senhora está? Dona Carolina : Vou levando, vou levando.... [Entrou com embaraço]. Darico Nobar : O que já faz de pé, mulher?! [Olhou no relógio: não eram ainda sete horas da manhã]. Não é muito cedo pra ficar zanzando por aí? Dona Carolina : O pobre não repousa. Não tem o previlegio  de gosar   descanço . Darico Nobar : Como estão Vera Eunice, José Carlos e João José, hein? Dona Carolina : Tão bem. Do nosso geito : com fome.... e descalsos .   Darico Nobar : Você sarou das pernas? Dona Carolina : Depois que operei, fiquei boa, graças a Deus. Até pude dançar no Carnaval, com minha fantasia de penas. Agora voltei a vida atribulada. Cato papel, lavo roupa para dois jovens, permaneço na rua o dia todo. Tudo quanto eu encontro no lixo eu cato pra vender. E estou sempre em falta. Por falar nisso, tem algo hoje pra eu pegar? Darico Nobar : Acho que tem! [Levantou-se e foi ao fundo do camarim olhar as caixas de materiais para reciclagem]. Deixei uma papelada aqui pra senhora.    Dona Carolina : Muito obrigada. Não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir na favela. Darico Nobar : Onde mesmo a senhora vive? Dona Carolina : Favela do Canindé, lá em São Paulo. Rua A, barraco 9. Com três filhos, mas sem homem para me repreender nem me bater. A favela é o pior cortiço que existe. Darico Nobar : Dureza, hein? [De costas para a visitante, revirava as caixas]. Dona Carolina : Lá, todos impricam comigo. A  mulheres dizem que falo muito bem. E os homem  ficam no meu pé. Mas o pior é para as crianças. Favela não é lugar para criar os filhos. Sempre que chego, encontro novidades. A Dona Rosa ou a indolente Maria dos Anjos vive  brigando com meus meninos. Tenho pavor destas mulheres da favela. Tudo quer  saber! A   lingua  delas é  como os pés de galinha. Darico Nobar : Imagino. Dona Carolina : Eu gosto de ficar dentro de casa, com as portas fechadas. Não fico nas esquinas conversando. Darico Nobar : Quando se fala em favela, a primeira coisa que me vem à cabeça é senso de comunidade. A união das pessoas. Dona Carolina : Ah, Seu Darico, que bobagem! A unica  coisa que não existe na favela é solidariedade. A minha porta atualmente é theatro . Todas criança  jogam pedras, mas os meus filhos são os bodes expiatórios. As mulheres alude  que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem   marido . Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade. Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas, tem  que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A  noite enquanto elas pede  socorro, eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas  do barracão, eu e meus filhos dormimos socegados . Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas. Não casei e não estou descontente. Darico Nobar : Entendo... Dona Carolina : O que me deixa horrorizada é que as crianças presenciam lá. Ouvem palavras de baixo calão. Tem barracões de meretrizes que praticam suas cenas amorosas na presença da meninada. Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam  na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o emporio  do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. E quando as mulheres foge  dos maridos, elas fica nuas na frente de todos. Uma baxaria ! Darico Nobar : Sério? Dona Carolina : Semana passada, a Pitita saiu correndo e o seu esposo atrás. As crianças olhava  estas cenas com deleite. A Pitita estava semi-nua . E as partes que a mulher deve ocultar estava   visivel . Ela correu, parou e pegou uma pedra. Jogou no Joaquim. Ele desviou-se e a pedra pegou na parede, por cima da cabeça da Teresinha. Pensei: esta nasceu de novo! Darico Nobar : Vixe. Que perigo! Dona Carolina : Oh! Se eu pudesse mudar de lá para um núcleo mais decente, seria mais feliz. Mas já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe  dar uma refeição condigna pra eles .   Preciso ser tolerante com os meus filhos. Eles não tem  ninguém no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar. Darico Nobar : Dona Carolina, eu tenho essas coisas. [Arrastou três caixas grandes pelo chão]. Veja se serve. Dona Carolina : Claro que serve. [Começou a retirar os materiais e a jogá-los num grande saco preto]. Valeu! Vai dar pra levantar uns bons cruzeiros. Darico Nobar : Não é muita coisa pra carregar? Vai conseguir levar tudo? Dona Carolina : Já estou habituada. Quem carrega a fome na alma, carrega qualquer coisa nos braço . Darico Nobar : A senhora fala umas coisas bonitas. É verdade que gosta de ler? Dona Carolina : Gosto de ficar sozinha e ler. Ou escrever! Quando fico nervosa com a gente do Canindé, não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo nos meus cadernos. Sento  no quintal e escrevo. E toda noite leio. Não sei dormir sem um livro ou revista. Gosto de manusear as páginas. O livro é a melhor invenção do homem. Darico Nobar : E o que você escreve? Dona Carolina : Todas as lambanças que pratica os favelado , estes projetos de gente humana. Ainda vou lançar um livro, sabia? Darico Nobar : Livro?! Não sabia... Sobre o que exatamente? Dona Carolina : A favela. O meu sonho é andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável. Vou conseguir quando publicar meu livro. Ou quem sabe ter meu diário divulgado no O Cruzeiro . Já pensou? Aí todo mundo vai conhecer a vida dos favelado , aqueles que vivem num quarto de despejo. Darico Nobar : Quarto de despejo?! Dona Carolina : Quando estou na favela tenho a impressão que  sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo. Sou rebotalho. Quem vive assim ou queima  ou é jogado no lixo. Darico Nobar : Tenho um amigo, o Audálio. Ele é repórter. Quer que eu diga para ele te procurar? Acho que ele iria gostar de publicar uma história como a da senhora... Dona Carolina : Se ele não me enrolar como o pessoal da The Reader Digest , tudo bem. Fui no  Correio retirar os cadernos que retornaram dos Estados Unidos. Cheguei na favela triste como se tivessem mutilado os meus membros. Devolveram os originais. Pior bofetada para quem escreve é a devolução de sua obra. Darico Nobar : E os políticos estão fazendo alguma coisa para mudar a triste realidade dos pobres da favela? Dona Carolina : O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no proximo , e nas crianças.  Sabe, Seu Darico, eu luto contra a escravatura atual, que é a miseria  do povo negro e a fome da nossa gente. E nenhum politico  olha isso. Ou quase nenhum, né? Só o Doutor Ademar se preocupa com os favelado . Darico Nobar : O Ademar de Barros!? Mas ele é um ladrão, não é? Dona Carolina : Não fale assim, Seu Darico. Sou ademarista roxa. Sempre fui. Gosto muito dele. Uma vez votei no Janio . Quem  eu não gosto é desse presidente aí. Darico Nobar : O Juscelino? Dona Carolina : O homem tem um nome esquisito que o povo sabe falar, mas não sabe escrever. E ele deu treze milhões em joias para a Rainha da Inglaterra como presente de aniversário. Onde já se viu uma coisa dessas?! Darico Nobar : Eu gosto dele... Dona Carolina : Os pobre   vê coisas diferente  dos rico . Os visinhos  ricos de alvenaria dizem que nós somos protegidos pelos politicos . É engano. Os politicos só aparece   no  quarto de despejo nas épocas eleitorais. O que o senhor Juscelino tem de aproveitável é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradavel  aos ouvidos. E agora, o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete. Darico Nobar : Isso é verdade, minha amiga. [Riu]. Preciso concordar. Dona Carolina : Mas quando estou com fome e não tenho comida para dar pros  meus filhos, quero é matar o Janio , enforcar o Ademar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta  o afeto do povo pelos politico . [Terminou de colocar os materiais no saco]. Tem mais alguma coisa que posso levar? Darico Nobar : É tudo o que tenho hoje. Dona Carolina : Tá certo. Muito obrigada, Seu Darico. Vou indo porque a única coisa certa desta vida é a morte. Até logo. Darico Nobar : Até a próxima. Bom trabalho pra você. [A senhora passou pela porta carregando o saco que pesava mais do que ela. O apresentador retomou a preparação das entrevistas do Talk Show Literário  daquela noite]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário . Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias . E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Recomendações: Cinema – Melhores Filmes do 1º Semestre de 2025

    Confira quais foram os cinco longas-metragens que geraram as experiências cinematográficas mais marcantes na primeira metade deste ano. Os leitores do Bonas Histórias  mais antigos já estão acostumados com os posts da Retrospectiva do ano . Entre dezembro e janeiro, apresento uma série de listas com os melhores livros, filmes, músicas, peças teatrais e restaurantes que analisamos ao longo da última temporada cultural. De certa forma, essa é uma tradição do blog que remonta à sua criação em dezembro de 2014. Dezembro de 2014, Ricardo?! É isso mesmo, senhoras e senhores. Não me enganei com a datação. Essas páginas que seus olhinhos contemplam com um misto de desconfiança e incredulidade completaram uma década de vida . E desde o começo dessa trajetória, divulgamos o ranking dos destaques de cada ano nos mais variados campos artísticos . Em 2025, contudo, aproveitei a boa safra de títulos literários e de produções cinematográficas dos primeiros seis meses para divulgar a coletânea de melhores leituras e filmes do primeiro semestre . Confesso que talvez a principal explicação para essa ligeira mudança de planos tenha sido a minha ansiedade. Poderia esperar para apresentar os campeões anuais em dezembro ou em janeiro de 2026? Poderia, sim. Mas quem disse que me seguro quando bate aquela vontade de mergulhar numa boa polêmica em plenos gélidos meses de junho e julho, né? Afinal, sempre que classificamos algo usando a subjetividade e os nossos gostos pessoais, estamos sujeitos a cometer injustiças e a praticar deslizes, aspectos que os leitores deste blog escondido nos recôncavos da internet normalmente não perdoam. Ai, ai, ai. Então se prepare porque lá vem discussão! No mês passado, listei os cinco melhores livros que conheci de janeiro a junho deste ano . E agora, retorno à coluna Recomendações para relatar os cinco melhores filmes que conferi nas telonas no primeiro semestre de 2025 . Quem gosta de listões (e de boas polêmicas), pegue a pipoca (e o guaraná) que lá vem o ranking do cinema ! Espero que ninguém fique muito bravo(a) comigo. Lembre-se que gosto é gosto e cada um tem as suas preferências. Portanto, nada de atirar pedras no amiguinho que vos escreve. Estamos combinados?! Para quem não sabe (e/ou não me conhece), preciso contar que visito os cinemas portenhos (moro em Buenos Aires, tá?) semanalmente. Há determinados momentos do ano em que acabo visitando com mais frequência as salas escuras, como nas vésperas do Oscar, em época de festivais cinematográficos e em períodos promocionais. Raramente falho neste que é um dos meus programas culturais favoritos en la ciudad de la furia . A partir do que vejo nas telonas, analiso um filme por mês na coluna Cinema . Geralmente, escolho a melhor produção do mês anterior para comentar em detalhes com os leitores do Bonas Histórias . Essa é outra tradição que vem dos tempos da criação deste blog. Naquela época, era menos criterioso e comentava todos os longas-metragens que via nos cinemas. Imagine o trampo que dava para produzir tanto conteúdo! Eram de três a quatro títulos apresentados mensalmente. Hoje, olho o que fazia como uma loucura (loucura divertida, mas ainda assim uma loucura). Agora me contento com apenas uma análise cinematográfica por mês. O último post dessa seara foi “Mensagem na Garrafa” (Mensaje en Una Botella: 2025), uma comédia dramática argentina que conferi no Cine Gaumont  em junho. Falo sobre isso porque nessa altura do ano, finalzinho de julho, já tenho computado quase três dezenas de longas-metragens en mi cartelera , o que permite a confecção de uma lista cinematográfica de respeito. Admito que vejo de tudo em minhas incursões pelas redes de exibição (não estou inserindo nesta conta o que vejo no streaming): suspense , terror , aventura , ação , mistério , comédia , romance , ficção científica , drama , policial , saga histórica , fantasia , faroeste , musical , infantojuvenil , infantil , animação etc. Quem trabalha como crítico da sétima arte tem a desculpa de ver certos títulos e dizer: “estou assistindo isso para o trabalho”. Distribuo muito tal fala para não ser julgado pelos que estão ao meu redor nas salas de cinema. Também não faço distinção entre ficção  e documentário  nem entre longa-metragem e curta-metragem . Por fim, embarco em obras hollywoodianas , europeias, latino-americanas (destaque para o cinema argentino  e o cinema brasileiro ), asiáticas e africanas. Se pararmos para pensar, veremos que o mundo é uma grande sala de cinema. Feita essa introdução gigantesca e totalmente desnecessária, acho que posso entrar, enfim, na coletânea de melhores longas-metragens dos últimos seis meses . Glória a Deus! Até hoje não sei o porquê tenho essa mania besta de gastar linhas e mais linhas de texto antes de ir aos finalmentes dos posts do Bonas Histórias . Desculpem-me pela enrolação. Prometo que um dia quem sabe talvez possivelmente eu possa rever a derrubada de palavras em excesso como proposta destas páginas. Saravá. Saravá! Então é isso aí! Vamos sem mais delongas para o conteúdo propriamente dito deste post. E para dar uma pitadinha de mistério à produção cinematográfica campeã de hoje (ou melhor, ao longa-metragem campeão semestral – uma espécie de Torneio Apertura do Cinema Internacional), estabeleci a ordem crescente de importância à apresentação do ranking dos principais filmes semestrais de 2025 . Um pouco de suspense nunca é demais, né? Lá vamos nós, senhoras e senhores! 5º Lugar: Um Completo Desconhecido – A Complete Unknown – 2024 – Cinebiografia/Drama Histórico – James Mangold (direção e roteiro) – Estados Unidos – 2h20. O quinto lugar do meu pódio dos melhores filmes do primeiro semestre ficou com a biografia audiovisual  de Bob Dylan . Este longa-metragem foi dirigido por James Mangold  e estrelado por Timothée Chalamet . Entretanto, preciso informar que quase coloquei nessa posição “Anora” (2024), a tragicomédia de Sean Baker que faturou o Oscar de 2025  de Melhor Filme, e “Conclave” (2024), drama de Edward Berger ambientado nos salões do Vaticano. Adorei esses três títulos! Nos meus critérios de qualidade cinematográfica, eles ficaram tecnicamente empatados no quinto posto. Só priorizei “Um Completo Desconhecido”  porque ele foi a produção mais surpreendente da última temporada do Oscar . O que quero dizer com surpreendente, caríssimo(a) leitor(a) da coluna Cinema ? Vamos combinar que mais uma cinebiografia sobre um músico famoso não era algo que criava muitas expectativas nos cinéfilos de plantão. Os últimos anos foram prósperos em enredos desse tipo, o que me deixou bastante desanimado. Juro que pensei no início da sessão: lá vem mais um blábláblá sobre um artista conhecido! Só assisti “Um Completo Desconhecido” porque ele concorria às principais estatuetas da Academia de Los Angeles e como crítico cinematográfico tinha a obrigação de conferir os principais postulantes à premiação hollywoodiana (beijo, Glorinha). Porém, o filme de Mangold trouxeram muitos elementos interessantes que potencializaram a experiência na sala de cinema e me fizeram morder a língua.  “Um Completo Desconhecido” tem um enredo bem construído (escolher os anos mais conflituosos da vida de Dylan nunca é tarefa fácil), belas atuações (acho Chalamet um ator superestimado, mas aqui ele está sublime) e uma trilha sonora de cair o queixo (ou seria empolgar os ouvidos?). Depois que saí da sala de exibição no Multiplex Belgrano , fiquei uma semana ouvindo as versões em folk das principais canções de Bob Dylan. Elas são incríveis!!! De tão envolvido que fiquei com sua música e com seu trabalho artístico, comecei até a achar justa a congratulação do Nobel de Literatura para quem nunca fez literatura. Dá pra acreditar?! 4º Lugar: Emilia Pérez – 2024 – Comédia Musical/Suspense Dramático – Jacques Audiard (direção e roteiro) – França – 2h10. Sim, senhoras e senhores, eu gostei de “Emilia Pérez”  (2024), o polêmico filme de Jacques Audiard  que conseguiu desagradar onze de cada dez cinéfilos na virada de 2024 para 2025. Talvez o verbo “gostar” não faça jus aos meus sentimentos. O mais correto seria dizer que adorei a saga protagonizada por Karla Sofía  e Zoe Saldana ! Sei que tenho a mania de avaliar as obras culturais sem ligar pelo que falam delas (até porque não uso redes sociais). E não sou do tipo patriota burro (nem me considero patriota, tá?) que para valorizar as produções de seu país precisa desmerecer as criações estrangeiras, uma mania dos meus conterrâneos desde sempre. Lembremos que o longa-metragem francês era o principal adversário de “Ainda Estou Aqui” (2024), o brasileirinho que concorria ao Oscar de Filme Internacional. Nos embates Brasil versus França, sei que sou do contra. Até hoje, acho que Allain Prost foi mais piloto que Ayrton Senna, mas isso é assunto para outro post do Bonas Histórias  (e para outras pedradas do público brasileiro). Mas por que gostei tanto de “Emilia Pérez” ? Em primeiro lugar, adoro musical . E essa comédia dramática  de Audiard tem excelentes cenas musicais do início ao fim. O mais curioso é que a sua estética flerta o tempo todo com o gênero exagerado e escrachado das telenovelas mexicanas, país retratado no enredo. Muita gente não reparou nesse detalhe, preferindo ridicularizar esses trechos sem enxergar a intertextualidade artística contida ali. Como cresci de olhos atentos às telenovelas transmitidas pelo SBT, consegui fazer tal associação sem grande dificuldade. Além disso, curti bastante o enredo deste filme, a história mais original da última safra cinematográfica, e achei que o elenco deu conta do recado, principalmente Zoe Saldana (que mereceu a estatueta) e Selena Gomez (enfim em um papel convincente). É verdade que existe uma série de problemas de ordem narrativa e cinematográfica neste longa-metragem, algo que detalhei no post que fiz sobre “Emilia Pérez” na coluna Cinema . Exatamente por isso, achei corretas as escolhas dos jurados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Eles preteriram o filme francês nas categorias Melhor Filme e Melhor Filme Internacional. Ainda assim, preciso dizer que essa produção não é horrível, como ouvi e li muita gente falar e escrever. “Emilia Pérez” é um filmaço, independentemente das polêmicas levantadas e do bafafá gerado nos bastidores da indústria audiovisual. Como minha avaliação é de espectador, digo sem qualquer receio que adorei o mais recente trabalho de Jacques Audiard.  3º Lugar: Flow – Straume – 2024 – Animação/Fantasia – Gints Zilbalodis (direção e roteiro) e Matïss Kaža (roteiro) – Letônia – 1h25. Uma produção que não tem contestação nem polêmica é “Flow”  ( Straume : 2024), a animação  que deu o primeiro Oscar para o cinema letão . É isso mesmo, senhoras e senhores, o que vocês leram. Se os brasileiros celebraram sua primeira estatueta dourada em março, o povo da Letônia comemorou a sua também. Nesse caso, o mais incrível foi notar que a conquista deles foi na categoria mais improvável do principal evento do cinema mundial: a animação. Ou vai me dizer que desbancar os investimentos bilionários dos estúdios de animação dos Estados Unidos foi tarefa fácil, hein? Nananinanão. O feito dos cineastas independentes do pequeno país europeu é quase um conto de fadas da sétima arte. Explico. “Flow” foi dirigido por Gints Zilbalodis , jovem de 31 anos. Ele reuniu um pequeno grupo de profissionais que, a partir do trabalho em um software de produção gráfica convencional e de código aberto, criou um longa-metragem impecável. É verdade que levaram cinco anos para desenvolver a animação, mas o resultado é de maravilhar as plateias dos quatro cantos do planeta. Quem disse que para fazer cinema de qualidade é preciso de vultuosa soma de dinheiro, grandes e experientes equipes e tecnologia avançada, hein? Os cineastas letões provaram que, quando se atua com excelência e dedicação, Davi pode vencer Golias em qualquer área da indústria do cinema. Se você ficou curioso(a) sobre o enredo dessa animação, conto que “Flow” aborda a comovente (e belíssima) história de um bando de animais pego de surpresa com o caos climático. Depois que a floresta onde vivem é inundada, um gato, uma ave, uma capivara, um cachorro e um primata precisam renunciar às diferenças e às antipatias mútuas e unir força em prol da sobrevivência conjunta. Assim, nasce uma poderosa amizade entre um grupo de bichos tão diferentes e, ao mesmo tempo, com características tão complementares. Com um drama  sensível e muito inteligente, “Flow” é o tipo de animação capaz de emocionar tanto adultos quanto crianças. Vale a pena conferi-lo, seja em um programa em família, seja em um programa individual. 2º Lugar: Ainda Estou Aqui – 2024 – Memória/Drama Histórico/Suspense – Walter Salles (direção) e Murilo Hauser e Heitor Lorega (roteiro) – Brasil – 2h15. 2025 será lembrado para sempre no Brasil como o ano em que conquistamos nosso primeiro Oscar. Uhu! Falei bastante sobre isso no post em que comentei os Vencedores do Oscar de 2025 , conteúdo da coluna Premiações e Celebrações . Lá, dei a dimensão exata do feito artístico-cultural de Walter Salles  e sua equipe, que para mim foi a maior conquista não esportiva da história do nosso país. Não quero ficar sendo repetitivo. O fato é que “Ainda Estou Aqui”  (2024) é um filmão e mereceu a consagração que obteve na categoria Melhor Filme Internacional. Em alguns momentos, a sensação foi que ele poderia até ter superado “Anora” e levado a estatueta de Melhor Filme na categoria geral. Isso é justamente a prova cabal de sua excelência, que encantou as plateias nacionais e internacionais. Vi esse filme no Multiplex Belgrano , em Buenos Aires, e ele foi bastante aplaudido no final da sessão. Incrível! O mais interessante de “Ainda Estou Aqui” é que ele não possui falhas aparentes. Por qualquer perspectiva que o analisemos, ele desfila méritos e aspectos de altíssima qualidade cinematográfica. O elenco ( Fernanda Torres , Selton Mello  e Fernanda Montenegro ), o roteiro (de Murilo Hauser  e Heitor Lorega ), a trilha sonora (eclética e de elevado nível), o figurino (impecável), a direção (Salles continua imbatível) e a constituição do cenário da época (o desfile de carros antigos era digno de um Oscar) potencializaram a experiência da plateia nas salas de cinema. Contudo, o que mais gostei (algo que faltou no livro de Marcelo Rubens Paiva ) foi o clima de tensão e de agonia que Eunice Paiva e sua família sofrem. Pelo ponto de vista do drama histórico  e do suspense psicológico , “Ainda Estou Aqui” é um longa-metragem inesquecível. É verdade que o cinema brasileiro continua apresentando incontáveis problemas. Não é porque um filme conseguiu superar as adversidades que a situação da indústria nacional da sétima arte tenha melhorado da noite para o dia. Como já dizia o velho ditado, uma andorinha sozinha não faz verão. Mas é bom notar a chegada de uma ave vigorosa e resplandecente no nosso quintal, né? Será esse o prenúncio de uma revoada farta e impactante? Tomara!   1º Lugar: O Brutalista – The Brutalist – 2024 – Saga Dramática/Drama Histórico – Brady Corbet (direção e roteiro) e Mona Fastvold (roteiro) – Estados Unidos – 3h34. Lá vem a maior polêmica da minha lista de melhores do semestre. É isso mesmo o que você leu, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Na minha visão, o filme que propiciou a experiência cinematográfica mais completa e impactante deste ano foi “O Brutalista” ( The Brutalist : 2024), a saga histórica do diretor Brady Corbet . Tal qual o bravo e destemido Platense no Campeonato Argentino do primeiro semestre, o campeão do torneio Clausura do Cinema Internacional foi outra zebra que derrubou um a um os demais favoritos ao título. Impossível não celebrarmos essa proeza, não é mesmo?! Em “O Brutalista”, uma produção de números colossais, acompanhamos o drama  de László Toth (interpretado magnificamente por Adrien Brody  – Oscar de Melhor Ator), um arquiteto húngaro de origem judaica que chegou aos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Segundo o filme, ele foi um dos percursores do Brutalismo (daí o título do longa-metragem), corrente arquitetônica e de design surgida na Europa no início do século XX e que obteve seu auge entre as décadas de 1950 e 1970. O que faz de “Brutalista” um filme tão bom? São vários os motivos. Da leva atual de produções cinematográficas, seu roteiro é o único que não apresenta nenhum furo. Como venho da literatura (antes de ser crítico de cinema, sou crítico literário) e prezo por uma boa linha narrativa, acho esse aspecto fundamental. Quer me ganhar? Traga uma história redonda do começo ao fim. Já é meio caminho andado, tá? Além disso, o novo título de Corbet possui vários conflitos distintos ao longo da sessão, o que faz com que o espectador não desgrude os olhos da tela em nenhum instante. E vamos combinar que fazer isso por quase quatro horas de filme é um mérito digno de Oscar, né? Quatro horas, Ricardo? Sim! Esse longa-metragem (que eu classificaria como longa-longa-metragem) tem mais de três horas e meia de duração. E acredite: você não sai quebrado nem cansado do cinema. Ele flui naturalmente e quando você vê, já é hora do intervalo (obrigatório e irrecusável no meio da sessão) ou do fim da exibição.   Outros méritos de “Brutalista” são o elenco impecável (não tem atuação ruim nesse longa), a fotografia deslumbrante (que emula a estética Brutalista), a ótima trilha sonora (capaz de chamar a atenção em várias passagens) e os temas polêmicos e delicadíssimos (que não poderiam faltar em uma superprodução). Prova maior da excelência desse filme é que você sai do cinema achando que László Toth realmente existiu. Mas ele não é uma figura real? Aí está a graça da mistura de ficção e não ficção, senhoras e senhores. A impressão é que se trata de um arquiteto verídico que sofreu horrores até ganhar a posição de destaque entre os melhores da estética brutalista do século XX. Entretanto, ele é apenas uma figura ficcional. Vamos combinar que “O Brutalista” é o melhor filme do primeiro semestre de 2025, né? Não tenho dúvida disso. Para quem ficou curioso(a), aí vai o meu ranking dos dez filmes preferidos do primeiro semestre de 2025  – agora em ordem decrescente de importância (chega de suspense): Por hoje é só. Até o próximo listão, galerinha animada da coluna Recomendações ! Gostou deste post do Bonas Histórias ? Para acessar a lista de melhores livros, filmes, músicas, peças teatrais e exposições, clique na coluna Recomendações . Para ver as nossas análises cinematográficas, clique na coluna Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Mercado Editorial: Livros juvenis mais vendidos em 2024

    Conheça os 15 títulos da literatura juvenil (ou da literatura young adult) que figuraram no alto do ranking dos mais comercializados nas livrarias brasileiras no ano passado. Quem acompanha atentamente a coluna Mercado Editorial  deve ter notado que um dos temas que debato com mais assiduidade é a lista dos livros mais vendidos no Brasil . Para fazer o levantamento completo dos títulos mais requisitados pelos meus conterrâneos nas últimas temporadas, apresento vários rankings dos best-sellers   das livrarias nacionais  ao longo de todo o ano. Basicamente, trago a cada bimestre o panorama de uma prateleira específica das lojas. Assim, acredito ajudar na elucidação dos caminhos contemporâneos da indústria livreira do nosso país. Pela grande quantidade de acessos que tais posts possuem, entendo que estamos diante de um assunto valorizado pelo público do Bonas Histórias . Sabendo de tal apelo pelo sempre revelador Google Analytics, sigo firme e confiante na tarefa de informar os leitores mais engajados deste blog escondido nas curvas da internet.   Em relação aos sucessos editoriais de 2024 , a dinâmica de publicação desta coluna não foi diferente à nossa tradição. No início de fevereiro, discuti a listagem geral das obras mais comercializadas no Brasil no ano passado . No fim de março, apresentei os títulos ficcionais preferidos pelos brasileiros na última temporada . No início de junho, exibi os best-sellers da literatura nacional entre janeiro e dezembro passados . E agora, nesse princípio de agosto, volto ao Bonas Histórias para revelar os livros juvenis mais vendidos em 2024 em nosso país . Para completar o panorama dos principais êxitos do mercado editorial   nacional , já adianto que, no finalzinho de setembro ou no mais tardar no começo de outubro, comentarei mais um ranking: o dos exemplares mais vendidos da literatura infantil. Aí terei a certeza de ter concluído a saga pelos resultados comerciais da nossa indústria no ano passado. Ao tratar da literatura juvenil  (o tema de hoje da coluna Mercado Editorial ), me sinto na obrigação de fazer um breve esclarecimento. Afinal, o que considero como pré-requisitos para classificar um livro como pertencente a esta categoria, hein? Por mais óbvia que possa parecer a resposta para um questionamento aparentemente tão singelo, saiba que ela suscita bastante polêmica. Na minha visão, um título juvenil é aquele, conforme seu próprio nome diz, direcionado ao público jovem . E quem é o público jovem, senhoras e senhores? Segundo os critérios das Nações Unidas, esse grupo é formado por pessoas na faixa etária de 15 a 24 anos. Portanto, estão nessa faixa os adolescentes e os recém-ingressantes à idade adulta. O problema do mercado editorial é que nas últimas décadas o termo literatura juvenil passou a ser visto com preconceito. Por quê? Porque muitos adultos (pessoas com mais de 24 anos na definição que acabamos de explorar) seguiram com um paladar literário típico dos adolescentes. Envelheceram na cronologia, mas continuaram lendo os mesmos materiais do passado. Aí chegamos numa situação em que muitos trintões e quarentões permanecem preferindo obras desenvolvidas para o público juvenil. Esse é um processo mundial: ocorre no Brasil (e na América Latina) e ocorre também nos Estados Unidos (América do Norte), Europa e Ásia. Provavelmente trata-se de uma característica geracional – indivíduos cada vez mais infantilizados em todos os aspectos da vida.    Para não melindrar os leitores mais velhos (ninguém gosta de ser tratado como um adolescente, por mais que se comporte como tal), as editoras e as livrarias internacionais cunharam o termo young adult . Pronto! O problema foi (aparentemente) resolvido. Sob a nova nomenclatura, o mercado editorial conseguiu agradar tanto os adolescentes e os jovens (o verdadeiro público juvenil) quanto os adultos de paladar literário menos apurado (grupo abraçado pela definição do young adult). O sucesso desses títulos nos últimos anos mostrou o quão acertada foi tal estratégia. Em boa parte dos países, os líderes de vendas na categoria da ficção são justamente títulos posicionados nas estantes do young adult. A questão é que, para mim, essas obras continuam sendo juvenis, por mais que mudaram as terminologias recentemente. Não é porque temos grupos cruzados de leitores (cada vez mais marmanjos lendo textos da molecada) que as características deste tipo de literatura tenham sofrido radicais transformações. Não! Um livro juvenil continua sendo um livro juvenil. Pelo menos na minha humilde concepção. E isso não tem nada a ver com a sua qualidade. Como todo gênero narrativo, existem exemplares bons e exemplares ruins dividindo espaço nas estantes das livrarias e das bibliotecas. Em outras palavras, a sua classificação não é referente à excelência da história e do texto produzido e sim do perfil do público-alvo (prioritário) da publicação. Depois dessas linhas de esclarecimento sobre o conceito do que é literatura juvenil, vamos à lista dos livros mais vendidos nessa categoria em 2024. Afinal, é para isso que viemos para esta página da coluna Mercado Editorial , não é mesmo? A base do nosso levantamento é a comercialização nas livrarias brasileiras no ano passado – tanto nas operações físicas quanto nas operações eletrônicas. A fonte de dados é o PublishNews , a principal referência em informação do mercado editorial do nosso país há alguns anos. Para quem se interessa pelas questões técnicas, só usamos no Bonas Histórias  os números das pesquisas e dos estudos do PublishNews . Dessa maneira, apresento sem mais rodeios o ranking dos 15 livros infantojuvenis mais vendidos no Brasil em 2024 . Confira: 1º “É Assim que Acaba” (2016) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Galera – 69,8 mil unidades. 2º “É Assim que Começa” (2022) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Galera – 51,9 mil unidades. 3º “A Biblioteca da Meia-noite” (2020) – Matt Haig (Inglaterra) – Literatura Juvenil Estrangeira – Bertrand Brasil – 51,7 mil unidades. 4º “Verity” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Galera – 39,4 mil unidades. 5º “Melhor que Nos Filmes” (2021) – Lynn Painter (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Intrínseca – 27 mil unidades. 6º “Coraline” (2002) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Literatura Juvenil Estrangeira – Intrínseca – 22,2 mil unidades. 7º “Jujutsu Kaisen – Volume 1 da Batalha de Feiticeiros” (2018) – Gege Akutami (Japão) – Graphic Novel Internacional – Panini – 20,1 mil unidades. 8º “O Ladrão de Raios” (2005) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Intrínseca – 18,4 mil unidades. 9º “O Mergulho na Escuridão” (2014) – Scott Cawthon/Elley Cooper (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Intrínseca – 17 mil unidades. 10º “Todas As Suas (Im)Perfeições” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Galera – 15,4 mil unidades. 11º “O Lado Feio do Amor” (2014) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Juvenil Estrangeira – Galera – 15,2 mil unidades. 12º “One Piece 3 em 1 – Volume 1” (2017) – Eiichiro Oda (Japão) – Graphic Novel Internacional – Panini – 15 mil unidades. 13º “Talvez A Sua Jornada Agora Seja Só Sobre Você” (2022) – Iandê Albuquerque (Brasil) – Literatura Juvenil Nacional – Outro Planeta – 13,6 mil unidades. 14º “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (1997) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Literatura Juvenil Estrangeira – Rocco – 12,8 mil unidades. 15º “Demon Slayer – Kimetsu No Yaiba – Volume 1” (2016) – Koyoharu Gotouge (Japão) – Graphic Novel Internacional – Panini – 11 mil unidades. Agora vamos a algumas conclusões que tiramos ao analisar esse ranking. Em primeiro lugar, quando falamos no Brasil de literatura juvenil (ou de literatura young adult – a chame como quiser), estamos tratando essencialmente de literatura internacional . Afinal, dos 15 títulos mais vendidos em nosso país, temos apenas um mísero exemplar da literatura brasileira . A peça solitária é “Talvez A Sua Jornada Agora Seja Só Sobre Você” , de Iandê Albuquerque . E esse livro ficou apenas na 13ª posição dos mais vendidos em sua categoria. Convenhamos que é muito pouco para os autores nacionais, né? Nossos jovens estão lendo quase que exclusivamente autores gringos. E dos escritores juvenis, ninguém vendeu mais do que Colleen Hoover . A norte-americana conseguiu o feito de colocar cinco títulos na lista dos 15 mais comercializados em nosso país: “É Assim que Acaba” , “É Assim que Começa” , “Verity” , “Todas As Suas (Im)Perfeições”  e “O Lado Feio do Amor” . Esse quinteto gerou quase 200 mil cópias vendidas. Incrível, né? Não por acaso, Hoover é a ficcionista mais consumida em nosso país independentemente das classificações (e das subclassificações). Não importa se as obras são para crianças, adolescentes, jovens adultos, adultos ou idosos. Ninguém vendeu mais literatura ficcional  para os leitores brasileiros do que Colleen Hoover, a principal best-seller internacional da atualidade.   Outra observação importante é que a literatura juvenil estrangeira é dominada por obras da língua inglesa. Essa é uma marca que persiste há muitos anos no Brasil. Os líderes de vendas por aqui são geralmente autores dos Estados Unidos e da Inglaterra. Quando muito, aparece um canadense, um escocês, um irlandês, um galês, um indiano, um sul-africano ou nigeriano. Contudo, dessa vez, os best-sellers ficaram exclusivamente com a galera da literatura norte-americana  e da literatura inglesa . Infelizmente, são raros os artistas das letras de outros idiomas que conseguem furar essa bolha anglófila e alcançar o topo do ranking dos mais vendidos. Exatamente por isso, é legal destacar o trabalho realizado nos últimos anos pela Panini Comics , selo da editora italiana especializado na publicação de histórias em quadrinhos, com os mangás japoneses . A boa nova é a presença cada vez maior e mais frequente desses títulos entre os principais sucessos editoriais do nosso país. Em 2024, por exemplo, podemos ver a presença de três obras japonesas de graphic novel na lista dos 15 best-sellers juvenis: “Jujutsu Kaisen – Volume 1 da Batalha de Feiticeiros” , de Gege Akutami , “One Piece 3 em 1 – Volume 1” , de Eiichiro Oda , “Demon Slayer – Kimetsu No Yaiba – Volume 1” , de Koyoharu Gotouge . Viva a variedade em nossas livrarias, senhoras e senhores! E viva a legítima literatura japonesa . Com essas linhas de comentários, acho que já posso encerrar o post de hoje do Bonas Histórias . Para quem deseja saber o ranking dos livros infantis mais vendidos no Brasil em 2024, minha sugestão é que continue acompanhando a coluna Mercado Editorial . Porque daqui a algumas semanas, voltarei a essas páginas para apresentar e discutir os best-sellers da criançada em nosso país. Não perca nossas novidades, hein? Até a próxima, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Músicas: En La Ciudad De La Furia – Buenos Aires pelo rock do Soda Stereo

    Lançada em 1988 no álbum Doble Vida, a canção composta por Gustavo Cerati é uma das mais conhecidas do Rock Argentino e retrata com perfeição o cotidiano nos grandes centros urbanos. Não à toa, este título virou um dos apelidos da metrópole portenha, eternamente la ciudad de la furia para os fãs do Soda Stereo . Hoje é dia de Rock , bebê! No caso, de Rock Argentino . Ou, como los hermanos  (estou me referindo aos nossos vizinhos localizados ao Oeste do Rio Grande dos Gaudérios, de Santa Catarina e do Paraná e não à banda carioca de rock alternativo, tá?) gostam de chamar o gênero mais popular em sua terra, de Rock Nacional . É por esses caminhos que vamos seguir neste novíssimo post do Bonas Histórias , senhoras e senhores. Sejam todos muito bem-vindos ao melhor da música argentina ! Por ora, vou deixar de lado os Tangos Clássicos, como “Por Una Cabeza” e “Cambalache” , os encantos do Pop em espanhol, como o recém-lançado “Quiero Mejor” de Kevin Johansen , e a animação contagiante do Reggaeton caribenho, como “Si Antes Te Hubiera Conocido” da Karol G. Convenhamos que esses assuntos já foram discutidos, nos últimos meses, à exaustão na coluna Músicas , né? Por isso, a vontade de mudar de temática. Hemos cambiado, pero no mucho . Seguimos ainda na terra dos melhores vinhos malbec, das empanadas riquíssimas, das carnes suculentas, dos doces de leite imperdíveis, do futebol catimbado, do caos econômico, dos gigantescos protestos de rua e da fervilhante polarização política. E continuamos falando do melhor de suas canções. Assim, surgiu a ideia de mergulhar à fundo numa das principais criações do Soda Stereo , a banda de rock mais importante da Argentina . Este é um dos meus grupos musicais estrangeiros preferidos e presença rotineira na minha playlist diária. Ou vocês acharam que eu produzo meus textos no silêncio en mi querido departamento en el barrio Saavedra , hein? Nananinanão. Os acordes das guitarras são excelentes estímulos à criatividade e as letras ácidas são motores às longas sessões de escrita criativa. E o que mais tem rolado no meu Spotify recentemente são bandas antigas da América Latina. Y dale  Maná, No Te Vá Gustar, Los Fabulosos Cadillacs, Enanitos Verdes, Los Abuelos de La Nada (no caso, André Calamaro), El Mató a un Policía Motorizado, Los Amigos Invisibles, Café Tacvba… Y por supuesto  Soda Stereo. Para ser mais exato em minhas palavras introdutórias (sim, ainda não saímos do preâmbulo deste texto), vou analisar hoje “En La Ciudad de La Furia” , a canção de Gustavo Cerati que virou uma designação icônica de Buenos Aires , a cidade em que sou apaixonado e que escolhi para viver. Por sinal, decisão cada vez mais difícil em tempos de câmbio extremamente desfavorável para os brasileiros que ganham em real. Muchas gracias, Peluca de León!   Em suma, vou debater com os leitores do Bonas Histórias  uma de minhas canções favoritas no cenário do Rock em língua espanhola . Assim, não se assustem com minha empolgação com esse assunto nem com os excessos de linhas deste post, por favor. A proposta aqui é conversar sem pressa e sem economia de caracteres sobre os assuntos mais interessantes do universo artístico-cultural. Enquanto a pauta do dia não for totalmente explorada, a prosa não terá fim.     Para começo de conversa, quero explicar que costumo ouvir o termo “En La Ciudad de La Furia” com frequência na capital argentina. Conforme venho relatando em “Tempos Portenhos” , a atual série não ficcional da coluna Contos & Crônicas , moro há quase dois anos em Baires. E desde que me mudei para cá em setembro de 2023, vire e mexe escuto esse apelido carinhoso saindo da boca dos locais. Confesso que no começo ficava bastante confuso. Como assim Buenos Aires, a metrópole líder em qualidade de vida e em segurança na América do Sul, continua sendo chamada de Ciudad de La Furia , tal qual era no fim dos anos 1980, por seus moradores?!! A explicação era óbvia e estava diante de mim o tempo inteiro: a culpa é deste hit de Cerati e da força do Rock do Soda Stereo. Lembro a primeira vez que ouvi um portenho falar indiretamente desta canção. No caso, uma portenha. Paula (também conhecida como Paola, a Policial de Belgrano – beso, chica hinchapelotas de Villa Crespo! ), minha primeira amiga em Buenos Aires nessa nova temporada (também vivi na Argentina entre 2004 e 2005, quando trabalhava como executivo em multinacional), tratou de usar esse termo tão logo nos conhecemos. Horrorizada com meu sotaque e meu péssimo espanhol, a bela moça quis saber de onde vinha. Expliquei que era de São Paulo. Aí quando perguntei se ela era daqui mesmo, ela lançou um encantador: soy de la ciudad de la furia. Na hora pensei:  quiero ser amigo de esta chica sagaz . Esse mesmo episódio ocorreu mais algumas vezes comigo em CABA ( Ciudad Autónoma de Buenos Aires ). Quando perguntei para uma argentina se ela era da capital (tenho a mania de não conversar com os homens, só com as mulheres – não me olhe assim, por favor!), ouvi como resposta por duas ou três oportunidades: soy de la ciudad de la furia . Foi aí que percebi que o apelido carinhoso que usava para chamar minha nova/velha localidade, Mi Buenos Aires Querido  (canção de Carlos Gardel), não era tão usado pela galerinha da minha geração. O povo local com a minha idade recorria mais ao Rock do que ao Tango como referência intertextual. Foi interessante mudar o mindset! “En La Ciudad de La Furia” foi lançada em julho de 1988 no álbum “Doble Vida” , o quarto disco do Soda Stereo. Naquele momento, a banda formada por Gustavo Cerati (vocalista e guitarrista), Zeta Bosio  (baixista) e Charly Alberti  (baterista) tinha exatamente cinco anos de vida. Apesar do pouco tempo de estrada, acredite se quiser, o trio já tinha se consolidado como o maior grupo de Rock da Argentina (e provavelmente da América Latina). A trajetória meteórica ao cume da música popular em língua espanhola se deu pelos sucessos dos três discos anteriores: “Soda Stereo”, estreia de 1984, “Nada Personal”, de 1985, e “Signos”, de 1986. Aí “Doble Vida” chegou, no fim dos anos 1980, para consolidar a produção artística dos rapazes que estavam na iminência de virar trintões. Além de “En La Ciudad de La Furia”, “Doble Vida” traz algumas canções marcantes do Soda Stereo como “Corazón Delator” ( Un señuelo/Hay algo oculto en cada sensación/Ella parece sospechar/Parece percibir, en mí, que aquel amor/Es como un océano de fuego ) e “Lo que Sangra – La Cúpula” (Te rescataré/Te rescataré/Los guardianes pierden el honor/Mientras desfilan/Hay tanto fraude a nuestro alrededor/Comprenderás). Outros sucessos deste trabalho foram “En El Borde” e “Picnic en el 4ºB”. Completaram o álbum as faixas “Languis”, “Día Comum – Doble Vida”, “En Ritmo de Tus Ojos” e “Terapia de Amor Intensivo”, que confesso não conhecer.   “Doble Vida” marcou a fase de maturidade e experimentalismo do Soda Stereo. Contudo, foi neste álbum que as diferenças e as primeiras brigas entre seus integrantes vieram à tona. Indiferente aos conflitos, o público correu às lojas para adquirir o quarto disco da banda portenha. Mais de um milhão de cópias foram comercializadas mundialmente. Só na Argentina, foram aproximadamente 100 mil unidades vendidas. Em termos de êxito nacional do trio, “Doble Vida” só perde para “Canción Animal” (500 mil cópias vendidas no país, um dos álbuns mais populares da história da música argentina) e “Nada Personal” (com aproximadamente 180 mil discos transacionados en tierras hermanas ). Nenhuma música de “Doble Vida” fez tanto sucesso quanto “En La Ciudad de La Furia”, até hoje referência cultural para os portenhos. É bom que se diga que a canção símbolo de Buenos Aires não é a mais famosa criação do Soda Stereo. Esse posto cabe a “De Música Ligera” (NÃO, essa canção NÃO é do Capital Inicial nem do Paralamas do Sucesso, PELO AMOR DE DEUS!!!), faixa principal de “Canción Animal”, quinto álbum do grupo argentino. Vale a menção de que “De Música Ligeira” não é apenas a composição mais conhecida de Gustavo Cereti (e de Zeta Bosio) e o maior sucesso do Soda Stereo. Ela é um dos ícones do Rock Argentino e do Rock Ibero-americano  de todos os tempos. Já vi muita lista com as principais criações das bandas em língua espanhola em que essa faixa figurava nas primeiras posições (às vezes, na primeiríssima colocação). Em termos de fama e prestígio para os argentinos, acredito que Cerati e sua banda só fiquem atrás de Charly Garcia, o roqueiro mais popular das margens do Rio da Prata (e quiçá, do continente). Se “De Música Ligera”, lançada em 1990, suplantou “En La Ciudad de La Furia” no coração da maioria dos fãs do Soda Stereo (beijo, Mara, a integrante do Melrose Argentina com o melhor gosto musical!), a canção que fala de Buenos Aires permanece como o melhor videoclipe do trio portenho. Por que falo isso? Porque a produção audiovisual de “En La Ciudad de La Furia” é considerada até hoje pela crítica local como uma obra de arte do Rock Nacional. Muita gente (coloque o dedo aqui, que já vai fechar!) vê esse videoclipe, que foi dirigido por Alfredo Lois , como o melhor de todos os tempos da música argentina. Difícil não concordar com tal avaliação. Assista com atenção ao vídeo original de “En La Ciudad de La Furia” pelo menos uma vez. Ele é realmente incrível. Além de dialogar com a letra da canção (angústia do eu-lírico por se sentir livre na cidade grande e, ao mesmo tempo, ter a impressão de viver preso à indiferença da multidão) e de possuir vários elementos simbólicos oriundos da letra composta por Gustavo Cerati (o voo tal qual Ícaro da Mitologia Grega e a visão panorâmica da metrópole que um ser alado teria), há uma pegada de filme de Nouvelle Vague, o que confere um charme todo especial. Por isso, o branco e preto, as tomadas oscilantes entre o take geral e o zoom in, o olhar do alto (voo) e a perspectiva de baixo (caminhada pelas ruas) e a câmera inquieta. Toda vez que vejo esse videoclipe, juro que me lembro de “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin: 1987), primeiro longa-metragem de Wim Wenders que assisti. Num tempo em que a MTV ainda não tinha chegado à América Latina (só era transmitida nos Estados Unidos em sua versão original), “En La Ciudad de La Furia” foi finalista do MTV Video Music Awards na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Para os novinhos que não fazem ideia da força da emissora norte-americana especializada em música nos anos 1980 e 1990, o MTV Video Music Awards era tão relevante quanto o Grammy Awards, principalmente para os artistas das novas gerações. Em outras palavras, esse videoclipe do Soda Stereo concorreu ao Oscar de sua modalidade (sim, o MTV Video Music Awards era o Oscar da música). De tão famoso que é o vídeo de “En La Ciudad de La Furia”, alguns dos prédios retratados e alguns de seus enquadramentos fotográficos são copiados até hoje pelos argentinos. Em um passeio rápido pelas redes sociais, é possível notar que não estou exagerando. O edifício Bencich, por exemplo, nas esquinas da Avenida Córdoba com a Calle Esmeralda, no Microcentro de Buenos Aires, aparece na capa do disco “Doble Vida” e no videoclipe de sua canção principal. Por isso, até hoje, é citado como o prédio do Soda Stereo e de “En La Ciudad de La Furia”. A esquina da Avenida Hipólito Yrigoyen com a Avenida Presidente Julio Argentino Roca (Diagonal Sur) é, por sua vez, outro pedaço da cidade reverenciado. Afinal, foi ali que o trio de roqueiros foi fotografado para sua imagem mais icônica – a capa do seu quarto álbum, que tem o edifício Bencich ao fundo. Como aconteceu com a esquina da Ipiranga com a São João em São Paulo e com a praia de Ipanema no Rio de Janeiro, a música argentina também tem os seus marcos arquitetônico-urbanísticos. Sei que sou suspeito para falar, mas acho sensacional esse caminhar simultâneo pela cultura da Argentina por múltiplas vertentes: música, cinema, arquitetura e história. Isso é Buenos Aires, senhoras e senhores. Isso é o melhor da terra de Evita Perón, Diego Armando Maradona, Carlos Gardel, Gabriela Sabatini, Quino, Padre Francisco, Mirtha Legrand, Juan Manuel Fangio, Ricardo Darín e China Soares! Voltando à discussão principal: por que “Na Cidade da Fúria” (em uma tradução direta do espanhol para o português) para designar Buenos Aires, hein?! A explicação para isso se deve à mescla de três fatores: (1) o contexto econômico-social em que a música foi criada (final dos anos 1980); (2) as características das criações dos roqueiros desta época (canções de protestos e de crítica social); (3) e à própria história da narrativa de Gustavo Cerati (a letra de “En La Ciudad de La Furia” escancara a tensão dramática dos moradores dos grandes centros urbanos, uma temática contemporânea e universal). É bom contar que a Argentina passava por uma grave crise econômica na segunda metade da década de 1980. Se bem que... quando é que nossos vizinhos não estiveram nesta situação no último século, né?! Difícil encontrar um período de bonança. De qualquer maneira, em termos econômicos, políticos e sociais, a realidade deles era muito parecida aquela que vivíamos no Brasil no mesmo momento: fim da Ditadura Militar, retorno da democratização, hiperinflação, estagnação ou mesmo retração do PIB, planos econômicos esdrúxulos, elevado nível de pobreza, gigantesco êxodo do campo para as grandes cidades e inchaço das metrópoles. Assim sendo, “En La Ciudad de La Furia” é o retrato fiel de seu tempo. Não por acaso, o Rock foi o principal gênero musical desta época. Suas letras de protesto e as fortes críticas sociais se encaixaram como luvas no sentimento de inconformismo e revolta da juventude, que não via perspectiva de crescimento e progresso em países em franco empobrecimento. Isso ocorreu no Brasil – é só ouvir as canções do Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho/Cazuza, Paralamas do Sucesso, Utraje a Rigor etc. –, na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa. De certa maneira, o Rock romântico, ingênuo e menos engajado das décadas anteriores (talvez as maiores representações dessa pegada fossem Elvis Presley e os Beatles) ficara para trás. Em seu lugar, surgiram várias ramificações do Rock, algumas mais pesadas: Pós-punk, Thrash Metal (a versão ainda mais rápida e agressiva do Heavy Metal), Glam Metal, Rock Gótico, Rock Alternativo e New Wave. É disso que estamos falando aqui, senhoras e senhores. A constituição do Soda Stereo está ligada a tal contexto. A banda portenha nasceu sob forte influência do Punk Rock inglês, principalmente do The Police e do The Cure. Essa foi justamente a linha musical de Cerati e de seus colegas nos primeiros quatro álbuns. Eles deram pitadas generosas de argentinidade ao Rock britânico do final da década de 1970 e início da década de 1980. Com o tempo, o grupo portenho foi mudando de proposta. O disco que representou essa virada de chave com mais intensidade foi “Canción Animal”. Por isso, não é errado enxergarmos “Doble Vida” como o término de um ciclo.  “En La Ciudad de La Furia” e as demais faixas de “Doble Vida” foram criadas nos primeiros meses de 1988. Após o breve descanso da longa turnê internacional de “Signos”, que levou o Soda Stereo a se apresentar em boa parte da América Latina (México, Venezuela, Equador, Colômbia, Paraguai, Peru, Bolívia e Chile) e Europa (Espanha), Gustavo Cerati mergulhou novamente no processo criativo. Ele sempre foi o líder do grupo e a engrenagem autoral da sonoridade do trio. Assim, o vocalista e guitarrista compôs as nove canções deste álbum. Em oito faixas, participou da criação tanto da melodia quanto da letra. Sem estardalhaço, Cerati trabalhou em um estúdio construído em seu apartamento no bairro de Belgrano, na Calle José Hernández. Quando Zeta Bosio e Charly Alberti o visitaram para planejar o que fariam após as férias, o compositor mostrou que os trabalhos estavam avançados. Ele já tinha, por exemplo, as estruturas melódicas de “En La Ciudad de La Furia”, “Lo que Sangra – La Cúpula” e “En El Borde” e os esboços de várias canções. Em outras palavras, as bases do novo álbum já estavam delineadas quando os três integrantes do grupo se reuniram.   Para “En La Ciudad de La Furia”, Gustavo Cerati usou a melodia que criara quando tinha entre 13 e 14 anos. Os acordes com pegada de Pós-Punk  e New Wave  foram desenvolvidos originalmente para uma canção romântica. Desde a adolescência, o músico argentino tinha a mania de compor faixas para suas namoradas, principalmente quando a relação terminava ou quando estava em crise. Ele simplesmente gravava uma nova música numa fita cassete e enviava para o endereço da amada. A estrutura melódica de “En La Ciudad de La Furia” surgiu das lembranças de Cerati de uma antiga canção feita após um término em 1972 ou 1973. Daí a melancolia do som. A letra, por sua vez, foi elaborada a partir de uma personagem que o compositor inventara na adolescência. Além de se dedicar desde cedo à música, vale a contextualização, Gustavo Cerati adorava desenhar e criar histórias em quadrinho. Em uma de suas narrativas juvenis mais saudosas, o líder do Soda Stereo criou um ser alado que sobrevoava Buenos Aires. A figura ficcional era uma espécie de Ícaro rio-platense, famoso personagem da Mitologia Grega que conseguiu voar por Creta a partir de um invento paterno. Contudo, ao se aproximar do sol, as asas feitas de cera que usava derreteram e Ícaro desabou. O protagonista da música, o eu-lírico de “En La Ciudad de La Furia”, é justamente este jovem (talvez o alter ego do líder do Soda Stereo) que alimentava o desejo de liberdade e queria encarar a metrópole pelo alto. Curiosamente, “En La Ciudad de La Furia” possui várias versões. A original é a que ouvimos em “Doble Vida” e que assistimos no famoso videoclipe dirigido por Lois. Para mim, esta é a melhor opção sem nenhuma dúvida. Ela é perfeita e não precisava de reparos ou tentativas de alteração. Em 1996, pouco antes da banda se separar, o Soda Stereo deu uma nova roupagem para este hino informal da cidade de Buenos Aires. Isso ocorreu na gravação do álbum “Comfort y Música Para Volar”, no Acústico MTV. Nela, a cantora colombiana Andrea Echeverri , da banda Aterciopelados, divide a interpretação com Gustavo Cerati. Por causa dos acordes estridentes e do ritmo mais lento, essa é a versão que menos gosto. E aí não é purismo ou saudosismo da minha parte, não. É que ficou ruim mesmo! Talvez incomodado com a repercussão negativa do acústico, o Soda Stereo lançou uma nova releitura de “En La Ciudad de La Furia” já no ano seguinte, na sua turnê de despedida. A terceira versão de 1997 possui um tom mais erudito, com acréscimo de instrumentos como violino e acordeão. Sua introdução também é mais longa e com a intensificação do solo de guitarra – que ficou SENSACIONAL! Outro acerto inegável foi a abolição da lentidão enervante da primeira releitura. Assim, Cerati voltou ao ritmo da interpretação original. Admito que gostei dessa proposta, ainda que siga preferindo a de 1988. Com o fim do Soda Stereo em 1997 (eles voltariam pontualmente em uma turnê especial em 2007 e em shows de 2020 a 2022 já sem Gustavo Cerati, falecido em setembro de 2014, após ficar quatro anos em coma, vítima de um AVC), novas variações de “En La Ciudad de La Furia” foram lançadas por outros cantores e bandas. Conheço as releituras em Dance Mix  e em Cyber Punk . São divertidas, mas longe de serem vistas como exemplares dignos de elogios. Veja, a seguir, a letra completa de “En La Ciudad de La Furia”. Logo depois, apresento o videoclipe original dessa faixa que foi lançada em 1989, um ano depois da música chegar às rádios argentinas:   En La Ciudad de La Furia – Gustavo Cerati (1988) Me verás volar Por la ciudad de la furia Donde nadie sabe de mí Y yo soy parte de todos Nada cambiará Con un aviso de curva En sus caras, veo el temor Ya no hay fábulas En la ciudad de la furia Me verás caer Como un ave de presa Me verás caer Sobre terrazas desiertas Te desnudaré Por las calles azules Me refugiaré Antes que todos despierten ¿Me dejarás Dormir al amanecer Entre tus piernas? Entre tus piernas ¿Sabrás ocultarme bien Y desaparecer Entre la niebla? Entre la niebla Un hombre alado extraña la tierra Me verás volar Por la ciudad de la furia Donde nadie sabe de mí Y yo soy parte de todos Con la luz del Sol Se derriten mis alas Solo encuentro en la oscuridad Lo que me une Con la ciudad de la furia Me verás caer Como una flecha salvaje Me verás caer Entre vuelos fugaces Buenos Aires se ve Tan susceptible Ese destino de furia es Lo que, en sus caras, persiste ¿Me dejarás Dormir al amanecer Entre tus piernas? Entre tus piernas ¿Sabrás ocultarme bien Y desaparecer Entre la niebla? Entre la niebla Un hombre alado prefiere la noche Me verás volver Me verás volver A la ciudad de la furia O que vocês acharam? Incrível, né? Comecemos a análise desta canção, a principal proposta da coluna Músicas , por sua melodia. Do início ao fim, o tom de “En La Ciudad de La Furia” é de melancolia, mistério e, por que não, urgência. A reação normal do ouvinte é ficar, ao mesmo tempo, muito atento e um pouco incomodado. Algo de sério vai acontecer a qualquer momento. Este é o pensamento ou o pressentimento que temos. Sim, senhoras e senhores, estamos numa criação essencialmente gótica de Gustavo Cerati. O compositor argentino conseguiu esses efeitos a partir de bases harmônicas que oscilam entre acordes maiores e menores, sem que a música se tornasse monótona e enfadonha (um dos efeitos colaterais desse recurso). O resultado é, além da potencialização da tensão dramática, uma perspectiva de intenso movimento – tudo a ver com sua letra, conforme veremos daqui a pouco. Acho um charme a progressão de acordes tão contraditórios – maior e menor. Na versão original, temos apenas guitarra, baixo, teclado e bateria. Nas muitas releituras, há o acréscimo de outros instrumentos musicais como sintetizadores, viola, violoncelo, fagote, acordeão etc. Ainda assim, é bom destacar, a guitarra de Cerati reina quase que absoluta em todas as versões, roubando o protagonismo. Não por acaso, o solo de guitarra de “En La Ciudad de La Furia” é um dos mais famosos da música argentina. Em poucos segundos de audição, já conseguimos reconhecer essa canção do Soda Stereo e o DNA melódico da primeira fase musical de Gustavo Cerati – o do Rock com pegada de Pós-Punk e New Wave . Por mais que a faixa toda seja brilhante, confesso que considero seu início e seu fechamento simplesmente geniais. Repare nisso, por favor. Veja (no caso, ouça!), como é feita a abertura. Em apenas dois ou três segundos, o guitarrista consegue criar a tensão dramática e, simultaneamente, lançar as marcas estilísticas dessa canção – que permanecerá na mesma batida dali pra frente. E o final dessa composição é de um lirismo e de uma criatividade ímpares. Porque quando pensamos que a música vai acabar, ela dá uma espécie de looping e volta à intensidade do começo. Ela só acaba porque o volume é abaixado – como se alguém tirasse progressivamente o som do aparelho responsável por sua execução. Esse expediente musical fica mais evidente no videoclipe (e em alguns shows da década de 1990). É como se estivéssemos em um labirinto (Labirinto de Creta?!) e pensássemos ter encontrado a porta de saída. Porém, logo depois da euforia da descoberta, somos golpeados pela realidade. Na nossa frente há uma parede. Aí é hora de voltarmos correndo atrás de um novo caminho porque o fim ainda está longe. Em suma, a melodia é essencial para criar a atmosfera da música. O que salta aos nossos olhos (tá bom, tá bom, aos nossos ouvidos!) é a harmonia estética e conceitual do som instrumental com a letra da canção. Por falar nisso, vamos ao debate sobre os versos de “En La Ciudad de La Furia”. Como sou apenas um rapaz (latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo de São Paulo) do mundo da literatura, admito que entramos na seara em que tenho mais familiaridade. Por mais que me esforce para discutir com alguma profundidade os aspectos técnicos das músicas analisadas no Bonas Histórias , ainda assim sou leigo quanto aos acordes e às melodias. O que mais gosto desta letra de Gustavo Cerati é o seu tom atemporal e universal. Curiosamente, por mais que cite Buenos Aires e retrate o sentimento da juventude no final dos anos 1980, “En La Ciudad de La Furia” trata do eterno sentimento dos moradores dos grandes centros urbanos. Portanto, seu drama é parecido ao que os habitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Santiago do Chile, Cidade do México, Nova York, Los Angeles, Madrid, Londres, Paris, Joanesburgo, Lagos, Seul, Tóquio e Sidney viveram nas décadas de 1970, 1980, 1990, 2000 e 2010 e padecem nos anos 2020. E o que seria exatamente esse sentimento, hein?! É a dicotomia de estarmos cotidianamente no meio de multidões e, ao mesmo tempo, passarmos indiferentes aos olhares das pessoas que caminham apressadas ao nosso lado pelas ruas e avenidas. Quem morou ou mora numa metrópole sabe do que estou falando. Por ter nascido em São Paulo, vivencio tal impressão desde pequeno. A grande cidade é um deserto de afeição e solidariedade. Os rostos e os olhos que nos miram possuem indiferença, desconfiança e, às vezes, medo. Daí o termo: En La Ciudad de La Furia. Tal retrato ácido da realidade fica evidente logo no comecinho da canção do Soda Stereo. Repare nos versos das duas primeiras estrofes. A seguir, apresento tanto o texto original em espanhol quanto a tradução direta para o português feita por esse humilde escriba: Me verás volar /Você me verá voar Por la ciudad de la furia /Pela cidade da fúria Donde nadie sabe de mí /Onde ninguém sabe de mim Y yo soy parte de todos /E sou parte de todos Nada cambiará /Nada mudará Con un aviso de curva /Apesar dos riscos e dificuldades  En sus caras, veo el temor /Em seus rostos, vejo o medo Ya no hay fábulas /Já não há fábulas En la ciudad de la furia /Na cidade da fúria Um episódio que vivenciei há mais de uma década representa muito bem a alienação dos habitantes dos grandes centros urbanos. No meio de uma tarde qualquer, estava indo para uma reunião em Guarulhos no carro da diretora da empresa de consultoria em que trabalhava. Na época, ainda morava em São Paulo. Pegamos um trânsito infernal na Marginal do Pinheiros e, depois, na Marginal do Tietê. Coisa normal da capital paulista. Aí a minha chefe, despreocupada com nosso atraso (ela sempre se achou mais importante do que os clientes atendidos), começou a questionar o quanto as pessoas a nossa volta eram indiferentes às nossas presenças e angústias. – Você sabia, Ricardo, que se a gente começar a gritar agora, ninguém virá nos socorrer? – disse a diretora de Marketing e Vendas atrás do volante, parada no trânsito na altura da Ponte das Bandeiras – É impressionante o quanto somos invisíveis numa cidade grande. Não acreditei em suas palavras e expressei a minha discordância. É claro que seríamos amparados em caso grave. Por mais apressada que fosse a rotina das pessoas e por mais impessoais que fossem as relações humanas no dia a dia contemporâneo, ainda assim a solidariedade, a atenção e olhar atento dos cidadãos urbanos seguiam imperando. Mesmo na Selva de Pedra. Mesmo em pleno século XXI. Querendo provar que estava certa, ela propôs: – Vou te mostrar o quão assustador é viver nesse hospício – Abaixou totalmente o volume do rádio que escutávamos – Vamos gritar! Mas é para gritar o mais forte que pudermos, tá? Você verá que ninguém nos ajudará. Achei aquela proposta inusitada e divertida. Por que não berrar como loucos dentro de um automóvel no meio do trânsito vespertino de São Paulo? Dessa maneira, nós dois começamos a gritar. Para meu espanto, os motoristas e os passageiros dos outros carros sequer nos olhavam. Seguiam parados com cara de paisagem e indiferentes ao que acontecia nos veículos ao redor. Querendo chamar a atenção daquele povo frio e insensível, propus abrirmos totalmente os vidros das janelas. E aumentamos os decibéis da gritaria. E nada. ABSOLUTAMENTE NADA! Ninguém se preocupou conosco. Incrível, né? Esse é o comportamento padrão em um conglomerado urbano. O excesso de pessoas provoca o efeito de insensibilidade na multidão. A população parece anestesiada quanto aos sentimentos e às emoções dos outros. Nadie sabe de mí / Y yo soy parte de todos .  En sus caras, veo el temor / Ya no hay fábulas . Por isso, os versos de Gustavo Cerati são atemporais e universais. Outra temática onipresente em “En La Ciudad de La Furia” (que seu videoclipe explorou magnificamente bem) é o quão pequenos nos sentimos nas dimensões exageradas das torres urbanas, das antenas e dos arranha-céus. Diante da grandiosidade das construções metropolitanas, temos a vontade de sair voando. Daí as referências ao ser alado que teima, tal qual um Ícaro contemporâneo, em fugir do labirinto de ruas e avenidas pelo alto. Nesse sentido, a citação direta à Buenos Aires (a cidade de bons ares) ganha maior poesia. ¿Sabrás ocultarme bien /Você saberá se ocultar bem Y desaparecer /E desaparecerá Entre la niebla? /Entre a neblina? Entre la niebla /Entre a neblina Un hombre alado extraña la tierra /Um homem alado tem saudades do chão E tem esse quarteto de versos também: Buenos Aires se ve /Buenos Aires se parece   Tan susceptible /tão suscetível Ese destino de furia es /O destino de fúria é Lo que, en sus caras, persiste /o que, em suas faces, persiste Se pensarmos bem, viver numa grande cidade é voar um pouco todo dia. Por exemplo, estou fazendo esse texto do oitavo andar de um prédio residencial de Saavedra, bairro da Zona Norte da capital argentina. Da vista da minha mesa de trabalho, tenho as árvores do Parque de Saavedra, vários prédios da Avenida García del Rio, as casinhas que fazem fronteira com a cidade de Vicente López, o shopping Dots e um pedaço do estádio do Platense. Em um sentido mais poético, sou um anjo que está no céu contemplando o cenário urbano, né? Esse caminhar frenético pelo alto (topos dos prédios) e por baixo (pelas calçadas e ruas) de Buenos Aires compõe o cotidiano do eu-lírico de “En La Ciudad de La Furia”. Ao se lembrar da Mitologia Grega, essa figura ficcional teme o dia e valoriza a noite. Afinal, o sol pode derreter suas asas, enquanto o brilho da lua ilumina o cenário e não infringe mal aos seus adereços. Será por isso que os portenhos gostam tanto das noites e das madrugadas, hein?! Eita povo mais noturno este, senhoras e senhores. Me verás caer /Você me verá cair Como un ave de presa /Como uma ave de rapina Me verás caer /Você me verá cair Sobre terrazas desiertas /Sobre varandas desertas Te desnudaré /Tirarei suas roupas Por las calles azules /Por ruas azuis Me refugiaré /Vou me esconder   Antes que todos despierten /Antes que todos acordem A queda é uma referência direta ao mito de Ícaro, o ser alado que despencou após ter problemas com o voo diurno. E o termo “ruas azuis” é uma maneira metafórica de chamar o céu. A personagem central de “En La Ciudad de La Furia” procura a noite, porque é o período mais tranquilo para ela circular. Além disso, evita as pessoas durante o dia, pois teme a incompreensão da multidão cada vez mais impaciente e desumana. Isso fica evidente nesse outro trecho: Con la luz del Sol /Com a luz do Sol Se derriten mis alas /Minhas asas se derretem Solo encuentro en la oscuridad /Apenas encontro a escuridão Lo que me une /O que nos une Con la ciudad de la furia /Com a cidade da fúria Me verás caer /Você me verá cair Como una flecha salvaje /Como uma fecha selvagem Me verás caer /  Você me verá cair Entre vuelos fugaces /Entre voos curtos Com o entendimento das referências a Ícaro e da vista de cima da cidade pelo eu-lírico, compreendemos alguns versos que poderiam ter uma interpretação equivocada. Por exemplo, essa parte possui uma dupla perspectiva: ¿Me dejarás /Você me deixará Dormir al amanecer /Dormir ao amanhecer Entre tus piernas? /Entre as suas pernas? Entre tus piernas /Entre as suas pernas A primeira reação é achar que o protagonista da música está relatando que dormirá, ao amanhecer, com uma mulher. Depois de passar a noite se divertindo pela cidade, ele voltou para casa bem acompanhado e aproveitará para ir para cama com sua nova companhia. Contudo, não é essa a leitura que faço desses versos. Para mim, o “entre as pernas” é o conjunto de colunas dos prédios de Buenos Aires. Lembremos que o ser alado caiu do céu. Ele agora é um zé ninguém aos olhos dos demais moradores da metrópole. E precisa dormir embaixo das estruturas dos edifícios portenhos. Portanto, esse trecho de “En La Ciudad de La Furia” possui conotação mais de crítica social do que de erotismo/sensualidade.     Por mais incríveis que sejam individualmente a melodia e a letra dessa canção de Cerati, só quando unimos as duas partes que entendemos a sua beleza musical e a sua grandiosidade artística. “En La Ciudad de La Furia” não é apenas o hino informal de Buenos Aires. Essa canção é o hit que retrata com brilhantismo a angústia, a solidão e as contradições dos moradores das metrópoles nos séculos XX e XXI. O cidadão urbano até pode voar (os elevadores nos levam para cima e para baixo o tempo todo), mas seus voos são perigosos. Ele pode caminhar livremente pelas ruas e avenidas, mas jamais se sentirá seguro e acolhido nelas. O sujeito moderno pode ver uma multidão diariamente, mas terá a impressão de não ser visto e ouvido por ninguém.    Por tudo isso, considero “En La Ciudad de La Furia” a melhor criação de Gustavo Cerati e a melhor faixa do portfólio do Soda Stereo. Admito que sou fã incondicional da fase inicial da banda argentina, quando ela trazia poesia e irreverência em forma de músicas ácidas e incômodas. Essa é a linha, por exemplo, de “Corazón Delator” (um dos hits românticos mais antirromânticos que conheço), “Nada Personal” (por mais que seus acordes iniciais me lembrem assustadoramente “Another One Bites The Dust”, do Queen, que fora composta cinco anos antes), “Lo Que Sangra – La Cúpula” e “Ella Usó Mi Cabeza Como Un Revólver (se bem que essa faixa é de 1995, já na etapa final do Soda Stereo). Contudo, reconheço o maior apelo popular de “De Música Ligera” e me curvo às preferências das massas. Realmente, andar no meio da multidão não é tarefa fácil!       Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2020

    O ano de 2020 pode ter sido atípico para boa parte dos habitantes do planeta. Para os colecionadores de música ruim , grupo do qual integro com muito orgulho e que passa os dias trancado dentro de um quarto escuro só ouvindo música brasileira verdadeiramente popular (nunca entendi esse papinho de que MPB é um gênero popular – só é no nome), os últimos doze meses foram perfeitamente normais. Toda semana (às vezes, todo dia) surgiam novas canções que mereciam nossa atenção, análise e categorização. A demanda de trabalho foi tão elevada que confesso certa surpresa com esse paniquito das pessoas em relação a vírus, pandemia, lockdown , quarentena e vacina. Com tantas faixas ruins tocando nas rádios, nas playlists , no Spotify e (a grande novidade desse ano) em lives , para que se preocupar com outro tipo de propagação epidêmica, hein? Como alguém que está se afogando em alto-mar, eu prefiro ficar abraçado com a genuína música brasileira, uma das mais ricas e legítimas manifestações culturais do nosso país. Usando o material farto e inédito disponibilizado pelos compositores e cantores nacionais, a sexta edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins , uma tradição do Bonas Histórias , apresenta um repertório de grande qualidade e variedade. As vinte melhores músicas ruins de 2020 contemplam seis gêneros: sertanejo, forró, funk, pop, rap/hip-hop e pagode . Ou seja, ninguém pode nos acusar de preconceito musical. O nosso negócio é canção ruim, independentemente do tipo e do cantor. Se é ruim, tá ótimo! A cerimônia do Prêmio Melhores Músicas Ruins desse ano foi realizada na noite de ontem, sábado. Por causa das medidas de distanciamento social, pela primeira vez o evento ocorreu virtualmente. Devido ao sucesso dessa modalidade (ao menos para os organizadores – além de economizarmos na locação de espaço e com os comes e bebes da festa, não precisamos interagir com um bando de gente alcoolizada e com uma multidão de fãs barulhentos na porta do teatro), já estamos planejando a manutenção dessa dinâmica para os próximos cinco anos (obrigado, governo federal, por não querer trazer a vacina tão rapidamente para essas bandas). A comissão julgadora do prêmio foi a mesma das cinco últimas edições. Trata-se da SOSAMOR (Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins). As identidades dos integrantes do SOSAMOR (pronuncia-se SOS AMOR) são mantidas em sigilo porque a maioria deles tem vergonha de participar de tal comunidade. Respeitamos todos aqueles que ainda não saíram do toca-discos. O grande vencedor do Orelhão de Ouro (sim, esse é o apelido carinhoso do nosso troféu!) de 2020 foi a dupla Guilherme e Benuto . Eles são os intérpretes da impecável “Três Batidas” , desde já um clássico da música brasileira. Os sertanejos são estreantes no Prêmio Melhores Músicas Ruins . Outra estreante é Luisa Sonza , a vencedora do Orelhão de Prata. Ela dá voz a bela canção “Olhos Castanhos” . O Orelhão de Bronze ficou com um velho conhecido, Wesley Safadão . Ao lado de Zé Neto & Cristiano , o forrozeiro canta “Na Cama que Eu Paguei” , uma das gratas surpresas desse ano. Apesar de não terem levado nenhum Orelhão metálico para casa, Dilsinho e a dupla Henrique & Juliano emplacaram duas faixas cada na lista das vinte melhores canções dessa edição do prêmio. Eles inclusive cantam juntos “Sogra” , uma das letras mais profundas da música popular contemporânea. Esse hit ficou na 13ª colocação no ranking das melhores da última temporada musical. Confira, a seguir, a lista completa dos vencedores do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2020 : 20 ª posição: “Romance Desapegado” – Conde do Forró – Forró 19 ª posição: “Ela Aperta a Minha Mente” – Xand Avião e Os Barões da Pisadinha – Forró 18 ª posição: “Menina Solta” – Giulia Be – Pop 17 ª posição: “Misturados” – Dilsinho – Sertanejo 16 ª posição: “Amor e Fé” – Hungria – Rap/Hip-hop 15 ª posição: “Letícia” – Zé Vaqueiro – Forró 14 ª posição: “Nem Guindaste” – Jottapê e Mila – Funk 13 ª posição: “Sogra” – Dilsinho e Henrique & Juliano – Sertanejo 12 ª posição: “Ela Tá Podendo” – MC Kekel , Mumuzinho e Maiara & Maraisa – Funk 11 ª posição: “Amor de que” – Pabllo Vittar – Pop 10 ª posição: “Casa do Amor” – Ferrugem – Pagode 9 ª posição: “Cara Feio” – Fernando & Sorocaba – Sertanejo 8 ª posição: “Tangerina” – Tiago Iorc – Pop 7 ª posição: “Liberdade Provisória” – Henrique & Juliano – Sertanejo 6 ª posição: “Já Peguei Coisa Pior” – Tierry – Forró 5 ª posição: “Bebi Minha Bicicleta” – Zé Neto & Cristiano – Sertanejo 4 ª posição: “Pare, Pensa e Volta” – Yasmin Santos e Marília Mendonça – Sertanejo 3 ª posição: “Na Cama que Eu Paguei” – Wesley Safadão e Zé Neto & Cristiano – Forró 2 ª posição: “Olhos Castanhos” – Luisa Sonza – Funk 1 ª posição: “Três Batidas” – Guilherme & Benuto – Sertanejo Parabéns aos vencedores da sexta edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins ! Contamos com todos vocês para a premiação de 2021. Afinal, precisamos manter a qualidade e a variedade de nossas criações musicais no próximo ano. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas . Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins . E não esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Talk Show Literário: Oitava Temporada - Apresentação

    Em 2024, Darico Nobar apresentará o último conjunto de entrevistas com as personagens clássicas da literatura brasileira.   Veja o calendário dos seis programas finais da versão nacional do TSL . Não somos o Kiss nem o The Who, mas nossa temporada de despedida falhou. Novamente! Vamos ser francos com os leitores do Bonas Histórias : o Talk Show Literário  foi criado sem grandes pretensões para ter apenas uma dúzia de episódios. Mas aí alguém pensou no fim daquele primeiro ano: e se tivéssemos mais 12 programas, hein? No final do segundo ano, outro abençoado (ou a mesma pessoa, quem vai saber agora o responsável pelas ideias geniais, né?!) teve a brilhante sacada: que tal mais um repeteco! Tem sido assim desde 2017. Temporada após temporada, sempre anunciamos o término do Talk Show Literário  (pelo menos em sua versão dos clássicos nacionais ) no início do ano e somos vergonhosamente desmentidos em dezembro. Porém, já adianto que dessa vez é verdade – não estou chamuscando! A oitava temporada será a última do bate-papo de Darico Nobar com as personagens mais marcantes da literatura brasileira . Em dezembro, chegaremos a incrível marca de 72 entrevistas realizadas. Creio que é mesmo o fim de um ciclo. Talvez não seja o término do Talk Show Literário  como uma coluna fixa do blog. Afinal, há planos para uma edição dos clássicos da literatura portuguesa e dos destaques da literatura brasileira contemporânea. Basta alguém convencer Darico Nobar a seguir em frente, só que com novo enfoque. Enquanto não temos certeza das novidades de médio e longo prazos, vamos apresentar aos leitores do Bonas Histórias  apenas o que temos confirmado para hoje e amanhã. Em 2024, teremos realmente as últimas 6 entrevistas do Talk Show Literário Clássicos Brasileiros. Então, pode colocar na pedra, agora não tem mais volta. É isso mesmo! Chegamos (pela sétima vez) ao grand finale da atração ficcional mais inovadora da TV brasileira. E aí, ficou interessado(a) em conhecer a nova programação do Talk Show Literário ?! Segue a lista com as seis entrevistas da oitava edição do programa de Darico Nobar para você colocar na agenda:   – 3 de junho de 2024 – Entrevista 1: Helena Matoso – A Carne – 1888 – Júlio Ribeiro . – 29 de julho de 2024 – Entrevista 2: Marta da Ala Vermelha – Câmera Lenta – 1977 – Renato Tapajós . – 21 de outubro de 2024 – Entrevista 3: Menina Raquel – A Bolsa Amarela – 1976 – Lygia Bojunga . – 16 de dezembro de 2024 – Entrevista 4: Marcelo – Feliz Ano Velho – 1982 – Marcelo Rubens Paiva . – 7 de abril de 2025 – Entrevista 5: Raimundo – O Mulato – 1881 – Aloísio Azevedo . – 21 de julho de 2025 – Entrevista 6: Dona Carolina – Quarto de Despejo – 1960 – Carolina Maria de Jesus . Boa temporada do TSL com cheirinho de despedida (ou não) para todos nós! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário . Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias . E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

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