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  • Livros: As Boas Mulheres da China – A estreia de Xinran na literatura

    Neste sábado, li “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso), o livro de estreia de Xinran. Esta é a primeira obra que será analisada no Desafio Literário de agosto. Quem ainda não estiver por dentro da novidade, se ligue porque o Bonas Histórias irá, neste mês, estudar a literatura da principal escritora chinesa da atualidade. Xinran deixou a China, em 1997, e foi morar na Inglaterra. Na Europa, ela se sentiu mais à vontade para escrever um livro que muito possivelmente seria censurado se ela ainda vivesse em seu país natal. Afinal de contas, as autoridades comunistas não permitem que imagens negativas de sua nação sejam divulgadas por manifestações artísticas. Em “As Boas Mulheres da China”, a escritora apresenta a realidade desoladora de suas conterrâneas. As histórias apresentadas nesta publicação são reais e envolvem chinesas de todas as classes sociais e idades. O retrato da China na perspectiva feminina é assustador. Para produzir este livro, Xinran aproveitou-se de extenso material coletado ao longo dos anos. Entre 1989 e 1997, ela foi apresentadora de um programa de rádio em Nanquim, cidade localizada no Sudeste da China e que possui aproximadamente 10 milhões de habitantes. Em "Palavras na Brisa Noturna", programa que era transmitido diariamente entre as dez da noite e a meia-noite, a jornalista falava principalmente sobre a rotina, os desafios, os sonhos e as preocupações das mulheres. Apesar de estar sob a vigilância cerrada das autoridades comunistas, Xinran pôde criar um canal de comunicação direto e sincero com as mulheres de seu país. Assim, tornou-se popular, querida e muitíssimo respeitada pela população e pelos colegas jornalistas. Os relatos que Xinran tinha a sua disposição, na época de "Palavras na Brisa Noturna", lhe eram transmitidos por cartas, por ligações telefônicas e em conversas pessoais. Ela também fez muitas viagens pelo país em coberturas jornalísticas. Nessas oportunidades, conheceu de perto a vida ainda mais difícil das moradoras de localidades afastadas dos grandes centros urbanos. De certa maneira, as ouvintes femininas encontraram na radialista uma porta-voz de seus dramas mais sérios e íntimos. Com esse material vasto e rico em mãos, Xinran pôde colocar tudo o que viu e ouviu nas páginas do livro. Sua maior preocupação, contudo, foi alterar os nomes dos citados. Assim, ninguém seria identificado ou prejudicado com o que ela narrasse. “Boas Mulheres da China” é, até o momento, o maior sucesso da carreira literária de Xinran. Publicado em 2002, o livro tornou-se um best-seller mundial. Através de 15 crônicas, cada uma relatando a vida de uma mulher chinesa, a obra escancara o quão difícil é viver em um país machista, violento, repressor e injusto. É preciso ter sangue-frio para ler os sofrimentos das personagens apresentadas por Xinran. Não é incomum o leitor ficar com os olhos marejados. Sinceramente, não sei qual é a narrativa mais triste daquelas contadas nas 256 páginas do livro. Ao longo dos capítulos, conhecemos a menina que fazia tudo para ficar doente. Ela adorava passar os dias e as noites no hospital. Ali, podia viver tranquilamente, longe do pai que a estuprava sistematicamente em casa. Também ficamos conhecendo a mulher que foi separada, em sua juventude, do homem que era o amor de sua vida. Ela o esperou virgem por 45 anos. Entretanto, ao revê-lo, ela foi acometida por uma surpresa amarga. Há também o caso da empresária bem-sucedida que demonstra grande frieza emocional em público. Na vida particular, por outro lado, ela é refém do homem que ama, mas que não parece nutrir um amor sincero por ela. Uma jornalista homossexual relata como passou a sentir atração por mulheres depois de ser estuprada por um grupo de homens na adolescência. Há a jovem que se tornou mentalmente incapacitada depois de revelar a identidade dos seus pais biológicos aos soldados, o que decretou a prisão de seus demais familiares e amigos. Para piorar, ela ainda passou dez anos sendo abusada em um povoado interiorano. Outro caso marcante é da família japonesa que vivia na China quando a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung estourou. Acusados de serem imperialistas e espiões estrangeiros, o pai e a mãe foram presos. As filhas deles passaram, então, a ser um alvo fácil da maldade dos jovens soldados do Exército Vermelho. As histórias são tristes, é verdade, mas excelentes também. O mais interessante é que Xinran conta os dramas alheios embalando-os com a sua própria narrativa de vida. A escritora escreve com sutileza e grande beleza, tecendo brilhantemente cada uma de suas crônicas. Impossível não gostar do seu estilo e da maneira como ela narra cada uma dessas histórias. “As Boas Mulheres da China” é um dos livros mais contundentes que já li sobre as consequências nefastas do machismo, da repressão ideológica e do autoritarismo governamental em uma sociedade. Nesse sentido, Xinran está para a China assim como Åsne Seierstad e Khaled Hosseini estão para o Afeganistão e Blaine Harden está para a Coreia do Norte. Todos esses escritores transmitem ao leitor estrangeiro o sofrimento de quem mora em regiões do planeta onde o valor à vida humana, principalmente a das mulheres, é muitas vezes artigo de luxo. Infelizmente, nós brasileiros, campeões mundiais em assassinatos e em feminicídios, não temos muito o que criticar os chineses, os afegãos e os norte-coreanos. Das histórias contadas no livro aquela que talvez seja a mais emblemática é a primeira, contada no Prólogo e ocorrida com a própria Xinran na Inglaterra. Veja: Às nove horas de 3 de novembro de 1999, eu estava a caminho de casa, depois de dar uma aula no curso noturno da School of Oriental and African Studies (SOAS) da Universidade de Londres. Ao sair da estação de metrô de Stamford Brook para a escura noite de outono, ouvi um som rápido atrás de mim. Não tive tempo de reagir e alguém me bateu com força na cabeça e me jogou no chão. Instintivamente, segurei firme a bolsa, onde estava a única cópia de um manuscrito que eu acabara de escrever. Mas o meu agressor não se deixou demover. “Dá a bolsa”, gritava sem parar. Resisti com uma força que não sabia que tinha. No escuro, não conseguia enxergar um rosto. Só estava ciente de que lutava com um par de mãos fortes, mas invisíveis. Tentei me proteger e, ao mesmo tempo, dar-lhe um pontapé no ponto onde achei que ficasse a virilha. Ele chutou de volta e senti uma dor aguda explodindo nas costas e nas pernas, e o gosto salgado de sangue na boca. Passantes começaram a acorrer aos gritos. Em pouco tempo o homem foi cercado por um grupo enfurecido. Quando me pus de pé, cambaleando, vi que ele tinha mais de um metro e noventa de altura. Mais tarde a polícia quis saber por que eu tinha arriscado a vida por uma bolsa. Tremendo e dolorida, expliquei: “É que o meu livro estava dentro dela”. “Um livro?”, admirou-se o policial. “Um livro é mais importante do que a sua vida?” Claro que a vida é mais importante do que um livro. Mas, em muitos sentidos, o meu livro era a minha vida. Era o meu depoimento sobre a vida de mulheres chinesas, o resultado de um trabalho de muitos anos como jornalista. Eu sabia que tinha sido imprudente: se tivesse perdido o manuscrito, poderia ter tentado reescrevê-lo. Mas não tinha certeza se seria capaz de enfrentar novamente as emoções extremas provocadas pela redação do livro. Fora doloroso reviver as histórias das mulheres que eu tinha conhecido, e ainda mais difícil pôr as minhas lembranças em ordem e encontrar uma linguagem adequada para expressá-las. Ao lutar pela bolsa, eu estava defendendo meus sentimentos e os das mulheres chinesas. O livro era o resultado de muitas coisas que, caso se perdessem, jamais poderiam ser reencontradas. Quando alguém mergulha nas próprias recordações, abre uma porta para o passado; a estrada lá dentro tem muitas ramificações e a cada vez o trajeto é diferente. Incrível, né? Mesmo na Europa, os relatos das mulheres que confidenciaram seus segredos mais íntimos à Xinran eram, ainda sim, vítimas de nova violência masculina. Depois de tanto esforço e coragem da autora chinesa para escrever e lutar por seu manuscrito, não seria justo não lermos este livro. “As Boas Mulheres da China” é uma das melhores obras que li neste ano. Em uma época em que muitos brasileiros bradam pela volta do autoritarismo e não se importam em apoiar quem despreze as mulheres, ler Xinran é, ao mesmo tempo, um prazer literário e um enriquecimento sociocultural. O Desafio Literário de agosto tem sequência no próximo sábado, dia 11, com a análise de “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), o segundo livro de Xinran. Não perca as novidades do Bonas Histórias! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Xinran #ColetâneadeCrônicas #ColetâneadeContos #Drama #LiteraturaChinesa

  • Desafio Literário de agosto/2018: Xinran

    Em agosto, o Desafio Literário irá dar uma boa viajada. Sairemos do Brasil, onde analisamos, em julho, as obras, a carreira e o estilo ficcional de Rubem Fonseca, e aportaremos na China. Ao longo das próximas cinco semanas, a autora que será estudada no Bonas Histórias é Xinran, jornalista, escritora e ativista dos direitos humanos. Morando desde 1997 na Inglaterra, Xinran se dedica a revelar os abusos cometidos contra as mulheres em seu país natal. Esse seu trabalho começou no final da década de 1980, na China, quando ela era radialista. Depois de colocar o dedo em uma grande ferida da sua sociedade e incomodar os políticos locais (lembremos que o regime que vigora por lá é o ditatorial), a jornalista preferiu imigrar. Uma vez na Europa, suas palavras e suas denúncias alcançaram escala global. Atualmente, Xinran é a principal porta-voz da realidade de grande parte das mulheres chinesas. Na Inglaterra, a escritora é colunista do jornal The Guardian e professora da Universidade de Londres. Em 2004, ela fundou a “Mothers´Bridge of Love”, organização não-governamental que auxilia órfãos chineses a encontrar famílias adotivas no exterior e a localizar seus pais biológicos na China. Em 2009, Xinran esteve no Brasil apresentando seu trabalho na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Nascida em 1958, em Pequim, Xinran foi criada pela avó quando seus pais foram presos durante a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung. Formada em jornalismo, Xinran trabalhou por muitos anos como radialista em Nanquim. Em seu programa “Palavras na Brisa Noturna”, ela pôde conhecer o drama de milhares de mulheres vítimas da cultura machista de seu país e das consequências da Política de Filho Único, implementada no final da década de 1970. A carreira de escritora de Xinran começou, em 2002, com o lançamento do livro de crônicas “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso). Utilizando-se de entrevistas realizadas em seu programa de rádio, de cartas enviadas pelas ouvintes, de conversas tidas em suas viagens pelo interior do país e de sua própria experiência de vida, a escritora apresenta aos ocidentais os dramas de suas conterrâneas. Na obra, vemos o sexismo da cultura tradicional chinesa, os hábitos cruéis como o infanticídio, a preferência descarada pelo filho de sexo masculino e o abandono das meninas recém-nascidas. Para completar o panorama aterrador, temos casos de casamentos forçados, venda de mulheres, estupros, corrupção e incontáveis abusos físicos perpetrados contra meninas e mulheres. O sucesso do livro de estreia moldou um estilo narrativo. As obras de Xinran são na maioria crônicas que relatam o que ela viu e ouviu no período trabalhado como jornalista em seu país natal. De certa maneira, a escritora denuncia as injustiças da sociedade chinesa. Quatro dos seis livros seguintes da escritora são muito parecidos em forma e em temática a “As Boas Mulheres Chinesas”. São os casos de “O que os Chineses Não Comem” (Companhia das Letras), de 2006, “Testemunha da China” (Companhia das Letras), de 2008, “Mensagem de Uma Mãe Chinesa” (Companhia das Letras), de 2010, e “Compre-me o Céu” (Companhia das Letras), de 2015. Os únicos livros da chinesa que fogem desse receituário são “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), de 2004, e “As Filhas Sem Nome” (Companhia das Letras), de 2008. Na primeira obra, a estreia da autora na ficção, ela se utiliza de uma história recebida por uma ouvinte do programa “Palavras na Brisa Noturna”. Com essa matéria-prima em mãos, Xinran produziu um romance. O livro pode ser encarado como um misto de ficção e não-ficção, caminhando na linha tênue entre os dois gêneros. O mesmo se aplica a “Filhas Sem Nome”. Esta novela é baseada em fatos reais ocorridos com mulheres que não se conheciam. A escritora basicamente uniu esses dramas femininos em uma trama integrada. As obras escolhidas para leitura e análise neste Desafio Literário serão “As Boas Mulheres da China” (post a ser publicado no dia 5), “Enterro Celestial” (dia 11), “O que os Chineses Não Comem” (dia 15), “As Filhas Sem Nome” (dia 19), “Mensagem de Uma Mãe Chinesa” (dia 23) e “Compre-me o Céu” (dia 27). A análise completa da literatura de Xinran será apresentada no Bonas Histórias no último dia de agosto. Uma ótima leitura para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Xinran

  • Teoria Literária: Palestra sobre Rubem Fonseca no Congresso Internacional do UNIS

    Na quinta-feira da semana passada, dia 26 de abril, estive em Minas Gerais para apresentar, no IV Congresso Internacional do Grupo UNIS e na VI Semana de EAD do UNIS, a palestra "A Literatura de Rubem Fonseca". O local do evento foi a Sala Interativa da biblioteca da Cidade Universitária do Centro Universitário do Sul de Minas, na cidade de Varginha. A apresentação foi filmada e transmitida ao vivo para professores e alunos da universidade que não puderam comparecer presencialmente. Como tinha prometido disponibilizar o link da palestra aqui no Blog Bonas Histórias, segue agora o vídeo dessa apresentação: O convite para eu ministrar essa palestra partiu da minha ex-professora e ex-orientadora Carina Adriele Duarte de Melo Figueiredo, que também é coordenadora do curso de Letras do UNIS. A apresentação de quinta-feira reuniu as descobertas que fiz ao longo do meu Projeto de Iniciação Científica, chamado de "Análise Literária dos Romances de Rubem Fonseca - Investigando a Nova Literatura Brasileira". Essa pesquisa acadêmica foi realizada sob a orientação da professora Carina e da professora Terezinha Richartz Santana entre abril de 2017 e março de 2018. A proposta do estudo era investigar os romances fonsequianos e descobrir suas principais características estilísticas. Os resultados parciais do projeto já tinham sido divulgados em dezembro do ano passado, em Minas Gerais mesmo, durante o XVI Encontro da Iniciação Científica e o III Seminário Internacional Online de Inovação do Grupo UNIS. A palestra que fiz no Congresso Internacional na semana passada englobou, dessa vez, as conclusões finais da Iniciação Científica. Assim, além de mostrar as peculiaridades do estilo literário de Rubem Fonseca, também expliquei o MAER - Modelo de Análise Estilística de Romances. Essa metodologia foi desenvolvida na "Análise Literária dos Romances de Rubem Fonseca - Investigando a Nova Literatura Brasileira" e permite ao teórico da literatura identificar os elementos particulares do estilo literário de um romancista. Espero que todos que assistiram à palestra tenham gostado dela e dos resultados do meu trabalho acadêmico. Da minha parte, foi um grande prazer retornar a Varginha e ao UNIS mais uma vez. Que tal este post? Gostou do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre esse tema, clique em Teoria Literária. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #TeoriaLiterária #Palestra #RubemFonseca

  • Mercado Editorial: As ficções mais vendidas no Brasil em 2017

    No mês passado, divulguei no Bonas Histórias a lista dos livros mais vendidos no Brasil em 2017. Como esse ranking estava entupido com obras religiosas, publicações de autoajuda e títulos biográficos (algo recorrente em nosso país há alguns anos), alguns leitores do blog pediram uma versão exclusiva com livros ficcionais de maior sucesso comercial. Achei a solicitação pertinente. Eu mesmo estava curioso para saber quais obras (realmente) literárias foram as mais vendidas nas livrarias brasileiras no ano passado. Assim, recorri mais uma vez aos dados do PublishNews, a fonte mais confiável atualmente do mercado editorial nacional, para construir o ranking das ficções mais vendidas no Brasil em 2017. E aí a minha decepção só mudou de lugar. Dos dez livros ficcionais mais comercializados nas livrarias brasileiras, temos dez obras gringas. Dessa forma, fica evidenciada a supremacia da literatura estrangeira em nosso país (ao menos no quesito comercial). O primeiro título ficcional de um autor brasileiro na lista do PublishNews é “O Livro dos Ressignificados” (Paralela), coletânea poética de Akapoeta (pseudônimo de João Doederlein), que aparece apenas na 12ª posição. Se alguém reclamar que uma obra poética foi inserida incorretamente na categoria ficcional, saiba que compartilho desse estranhamento. O PublishNews junta ficção e poesia em uma mesma categoria, fazer o quê? O segundo título nacional mais vendido dentro da categoria ficção é “Querido Dane-se” (Paralela), romance infantojuvenil da youtuber Kéfera Buchmann. Realmente, a fase da literatura brasileira não está fácil! Veja, a seguir, o ranking das obras ficcionais mais vendidas em 2017 no Brasil, segundo o PublishNews: 1) “Origem” - Dan Brown (Estados Unidos) - Arqueiro - 121 mil unidades. 2) “Outros Jeitos de Usar a Boca” - Rupi Kaur (Índia) - Planeta Brasil - 77 mil unidades. 3) “Depois de Você” - Jojo Moyes (Inglaterra) - Intrínseca - 70 mil unidades. 4) “Quatro Vidas de um Cachorro” - Bruce Cameron (Estados Unidos) - HarperCollins - 62 mil unidades 5) “Como Eu Era Antes de Você” - Jojo Moyes (Inglaterra) - Intrínseca - 55 mil unidades. 6) “Mitologia Nórdica” - Neil Gaiman (Inglaterra) - Intrínseca - 51 mil unidades. 7) “A Cabana” - William P. Young (Canadá) - Arqueiro - 49 mil unidades. 8) “Box As Crônicas de Gelo e Fogo” - George R. R. Martin (Estados Unidos) - Leya - 41 mil unidades. 9) “It - A Coisa” - Stephen King (Estados Unidos) - Suma das Letras - 38 mil unidades. 10) “Tartarugas Até Lá Embaixo” – John Green (Estados Unidos) – Intrínseca – 34 mil unidades. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Contos: Paranoias Modernas - Aos Quarenta

    Acho que nunca fui tão feliz como agora", refletiu Isabela em um suspiro adocicado advindo dos recôncavos da consciência. Seu aniversário de quarenta anos era no dia seguinte. No carro, voltando do trabalho para casa, ela pensava, entre lembranças e planos, naquela data especial. No para-acelera-e-para-de-novo do trânsito do começo da noite, a motorista do imponente SUV aproveitava para fazer uma rápida retrospectiva de sua trajetória. Seu casamento era do tipo perfeito, capaz de provocar inveja até mesmo nas almas mais compassivas. Isabela e Evandro amavam-se exatamente como no dia em que começaram a namorar. Estavam juntos havia quinze anos. Em nenhum momento deste período, a vida afetivo-sexual do casal margarina se esmorecera. Era até difícil de acreditar em tamanha afinidade. Nelson Rodrigues estaria se revirando no túmulo se soubesse da existência daquele relacionamento monocórdio. A situação financeira da família era excelente. Ele era o mais renomado jornalista econômico do país e ela era a gerente de um importante escritório de agenciamento de artistas. Para coroar a união inverossímil, eles jamais receberam a visita da cegonha. Era muita sorte, pensava a esposa aliviada por não precisar passar pelas transmutações físicas e hormonais da gravidez. Sem filhos, os cônjuges mantinham a boa forma e continuavam com a liberdade para fazer o que quisessem. "Na certa, o Van irá preparar uma grande festa para mim amanhã", previu Isabela ao abrir a porta do apartamento. Seu marido não perdia a oportunidade de reunir os amigos e de festejar cada uma das grandes comemorações que pintavam no calendário. "Ou a surpresa será hoje à noite?". Sim, ele era bem capaz de se adiantar para surpreendê-la. – Precisamos conversar – Evandro anunciou de bate-pronto assim que a esposa colocou os pés no interior da residência. Sua voz era um misto de preocupação e desespero – Quero a separação! Não aguento mais este inferno em que estou metido. Isabela caiu no sofá assustada. Ela não podia acreditar nas palavras que violentavam seus ouvidos. Talvez fosse só uma brincadeira (de mal gosto) dele. Depois de esclarecido o chiste, Evandro anunciaria que a amava e falaria dos detalhes da festança do dia seguinte. – É verdade, Belinha. Quero o divórcio. Nos últimos anos, tenho me sentido estranho como se esta vida não fosse minha – prosseguiu o jornalista em tom melancólico – Você não tem nada a ver com isso, querida. Sou eu quem não está feliz comigo mesmo. Quero mudar completamente de rotina. Preciso fazer alterações radicais em minha vida. Tenho que descobrir coisas novas e explorar outras partes do meu eu. Você me entende, não entende? Isabela não entendeu nada daquele papinho existencialista, mas aceitou a decisão de Evandro passivamente. "O desgraçado deve ter conhecido uma vagabunda e agora está me largando para viver com ela", cogitou em uma fúria introspectiva. Ela era um vulcão de raiva e ressentimento que fazia de tudo para não expelir as lavas para a superfície. Em uma semana, estavam separados oficialmente e vivendo em casas diferentes. A celebração do aniversário de Isabela acabou sendo sinistra. Ao invés de passar aquele dia em uma sorridente festa com muita gente, ela ficou sozinha embaixo das cobertas. Suas únicas companhias foram as lágrimas que insistiram em aparecer. Para aplacar a tristeza de Isabela, Ângela, sua melhor amiga, passou a convidá-la para sair. Solteirona convicta, Ângela queria mostrar o quanto uma mulher desacompanhada poderia se divertir na noite. Depois de incontáveis recusas, Isabela, enfim, aceitou o primeiro convite da amiga. No início, ela saía uma vez por semana. Sua desculpa era sempre a mesma: – Só estou indo para te agradar, Ângela. Mas não pense que eu vou ficar por aí me atirando em cima dos homens como você faz. Não quero saber de ninguém por enquanto. Não demorou e a dupla passou a frequentar bares, baladas e shows duas, três vezes por semana. À medida que ia gostando da azaração e da boemia, Isabela fez novas amizades e não recusava nenhum programa. Em pouco tempo, já saía todas as noites e aproveitava para viajar aos finais de semana com seus novos amigos. Sua vida se transformou em uma interminável curtição. A quarentona virou uma espécie de versão feminina dos protagonistas de Jack Kerouac. Nesta fase, Isabela passou a colecionar companhias masculinas. Ela adorava terminar a noite transando com um homem diferente. O importante era variar o cardápio. A repetição do menu era encarada como uma derrota pessoal pela moça. Por sua cama passaram adolescentes, universitários, homens maduros, velhos, duplas de amigos, homens casados, deficientes físicos, antigos colegas de trabalho, rapazes desconhecidos... A fome por novos parceiros só acabou quando ela conheceu Benjamim. O moço de dezoito anos mostrou-se o professor ideal da matéria “curta o mundo pós-moderno sem pensar no amanhã”. Com o jovem, Isabela percebeu que tinha vivido até então de maneira burocrática e sem graça. O rapaz abriu sua mente para novas experiências e possibilidades. Ele a apresentou ao universo das drogas ilícitas. Benjamim também levava a namorada às casas de swing e às grandes orgias. Não havia limites para o novo casal. Eles passaram a viajar para todos os cantos do mundo. Os pombinhos escalavam montanhas, atravessavam florestas e pulavam de paraquedas. Benjamim ensinou Isabela a praticar alguns crimes por adrenalina e diversão. Certa vez, só por curtição, tentaram colocar fogo em um mendigo. Em outra oportunidade, cogitaram sequestrar uma criança de colo só para ver o desespero da mãe. Paradoxalmente, os novos hábitos e o novo estilo de vida fizeram bem para a carreira de Isabela. Vista até aquele momento como uma mulher conservadora e pouco criativa, ela estava estagnada no mesmo cargo havia oito anos. Depois de assumir o namoro com alguém doze anos mais jovem, de fazer uma série de tatuagens e de ser acusada de contrabando em uma viagem para o exterior, Isabela passou a ser vista com outros olhos pelos colegas e clientes. Todos no escritório começaram a admirá-la. A mais entusiasmada era Marisa, a dona da empresa que cuidava da carreira dos principais artistas do Brasil. Isabela, até então uma gerente comum, era agora uma mulher decidida, confiante e moderna, invejada por todo mundo. Depois de chegar bêbada algumas vezes e ser pega com maconha no banheiro da empresa, Isabela foi promovida à diretora. Enfim, ela estava preparada para administrar as contas dos maiores nomes do show business nacional. Tratava-se da primeira mulher em tal cargo na história daquela companhia. Apesar de a dona ser mulher, o alto comando da organização só havia aceitado homens desde a sua fundação. "Este é o momento mais feliz de minha vida", concluiu Isabela. Ela estava duplamente realizada: nos âmbitos pessoal e profissional. Os tempos alegres ao lado de Benjamim acabaram subitamente. O rapaz foi preso em uma operação da Polícia Federal e enviado a um presídio em Mato Grosso. Os advogados contratados por Isabela para cuidar do caso afirmaram que era difícil tirar o rapaz de trás das grades. Homicídio e sequestro eram crimes hediondos e renderiam ao menos trinta anos de cana. O mundo de Isabela desabou. Ainda bem que Marisa resolveu ajudar sua melhor funcionária. A dona da agência, recém-separada do terceiro casamento, levou sua diretora para passar um final de semana em Angra dos Reis. A ideia era que elas pudessem esquecer os pesadelos que estavam vivendo ao lado de homens errados. No primeiro dia, não houve qualquer êxito de Marisa em animar Isabela. A ex-namorada de Benjamim chorava sem parar. Ela sentia muitas saudades do companheiro que mudara sua forma de enxergar a vida. Na segunda noite, a realidade foi diferente. Depois de beberem três garrafas de vinho, Isabela e Marisa acabaram dividindo a mesma cama pela primeira vez. As duas mulheres, inexperientes no sexo homossexual, esbaldaram-se com o corpo uma da outra. Num estalar de dedos, a história de Isabela se transformou em um romance de Régine Deforges ou de Patricia Highsmith. Sem dúvida, aquela fora a melhor experiência sexual de suas vidas. Somente alguém que conhecia a intimidade feminina poderia proporcionar um prazer daquele tipo à outra mulher. Assim, nenhum homem tinha esta capacidade, concluíram as amantes com os corpos grudados. Isabela adorou tudo em Marisa, dez anos mais velha. Imediatamente, ela se esqueceu de Benjamin e de todos os homens do planeta. – Ao invés de sofrermos com maridos e namorados que não nos merecem, vamos ficar juntas para sempre, meu amor – propôs Marisa para surpresa dela mesma e da nova companheira. Na segunda-feira, ao voltar da viagem, Isabela se mudou para a casa de Marisa. Nas primeiras semanas, as duas tiveram receio de comunicar o novo relacionamento aos colegas e parentes. Contudo, depois de um mês juntas, todos os funcionários da empresa, os familiares mais próximos, os amigos e a vizinhança já sabiam da união. Para provar que aquela relação não seria passageira e que confiava de olhos fechados em sua nova esposa, Marisa promoveu sua parceira a vice-presidente. A partir de então, as duas se tornaram unha e carne tanto dentro quanto fora da agência. "Acho que jamais fui tão feliz em minha vida", decretou Isabela certa noite. O dia a dia ao lado de Marisa era maravilhoso. Isabela acreditava que poderia viver aquele conto de fadas até o fim da vida. E foi o que aconteceu. O fim da vida, neste caso, foi a morte repentina de Marisa em pleno escritório. A esposa de Isabela teve um ataque cardíaco fulminante em pleno sexo entre duas reuniões importantes. Há quem diga que a cinquentona não tenha aguentado o orgasmo múltiplo conferido pela parceira mais jovem. Polêmicas à parte, o fato é que Isabela precisou enfrentar, depois de duas conturbadas separações, uma viuvez. Era outra rasteira que o destino lhe conferia. Talvez, essa tenha sido pior do que as anteriores. Isabela caiu em uma depressão profunda. Além de sofrer com a perda da esposa, ela ainda teve de encarar uma intensa briga judicial pela herança de Marisa. Os filhos e os antigos maridos da falecida exigiam a totalidade da fortuna da empresária e não queriam deixar nada para a nova amante dela. Para aplacar a dor e fugir daquela confusão, Isabela resolveu viajar sozinha à Europa por seis semanas. Um período longe faria bem, calculou a moça. E foi o que aconteceu. Depois de visitar a Espanha, a Inglaterra e a França, a viúva já se achava renovada. E neste clima de maior otimismo, Isabela conheceu Anísio em um hotel de Florença. Anísio era um ator brasileiro quarentão, solteiro, bonito e culto. Para Isabela, foi amor à primeira vista. Ela não conseguia mais parar de pensar nele. Com a desculpa de se tornar sua agente artística, Isabela engatou os primeiros encontros e jantares com Anísio. Depois, passaram a falar de tudo, menos dos aspectos relacionados ao trabalho. Anísio parecia muito animado com a nova amizade, mas sempre conseguia fugir das investidas da amiga. A cada dia, Isabela ficava mais ousada. Ela queria aquele homem de qualquer jeito. Em uma noite, depois de uma desculpa esfarrapada dada ao funcionário da recepção do hotel italiano, Isabela conseguiu as chaves reservas do quarto de Anísio. Após vestir sua melhor lingerie, ela invadiu o quarto dele seminua. Para delírio de Isabela, seu amor estava apenas de cueca ao lado da cama quando ela adentrou no cômodo. – O que você faz aqui? – o proprietário do quarto se assustou. – Eu vim porque... – Com quem você está falando, amor? – uma voz masculina veio do banheiro, interrompendo o discurso ensaiado por Isabela. Um jovem musculoso saía do banho envolto a uma toalha – Quem é você?! Isabela ficou sem entender nada. O que um homem fazia no quarto de Anísio naquela hora? Não! Não poderia ser, pensou. – Isabela, desculpe não ter te contado. Sou gay. Ela saiu do quarto com nojo de Anísio e do amor que nutria por ele. Mal se apaixonara novamente, já se desiludia outra vez. Com raiva do mundo, Isabela passou aquela noite chorando em seu quarto. Na manhã seguinte, já havia decidido o que fazer. Voltou para o Brasil naquele mesmo dia e procurou a família de Marisa. Informou a todos que iria brigar por todo o patrimônio da esposa (e não apenas por uma parte dele) e que não sairia mais do comando da agência e da casa da falecida. Contratou os melhores advogados da cidade para cuidar do seu caso e viajou novamente. O destino dessa vez era a Indonésia. Um mês depois, Anísio retornou ao Brasil. Seu namorado português, que conhecera justamente nas férias pelas planícies italianas, havia ficado na Europa. Os dois seguiriam suas vidas separadamente. O caso havia sido, para ambos, apenas uma paixão de verão. No quarto dia no Brasil, Anísio recebeu uma mensagem misteriosa em seu celular. Um desconhecido dizia: "Ei gatinho, então você voltou! Encontre-me na mesa 20, às 20 horas, no restaurante Grand Torin. Saudades!". Curioso para saber de quem se tratava, Anísio foi ao restaurante no horário marcado e encontrou um rapaz atlético na mesa indicada. – Oi, meu nome é Victor – apresentou-se o misterioso mensageiro – Talvez você não se lembre de mim, mas a questão não é essa. O ponto principal é que você jamais irá se esquecer de mim novamente. A profecia de Victor se concretizou. Anísio se apaixonou por ele. Os dois viveram uma tórrida história de amor por dois meses. A dupla era inseparável. "Acho que nunca mais serei tão feliz como hoje" pensou Victor certa noite, enquanto tinha o corpo entrelaçado ao do parceiro. Certo dia, depois de se esbaldarem no sexo, Anísio lembrou-se da forma como se conheceram e perguntou ao amante: – Victor, quando nos encontramos no restaurante, você disse que já nos conhecíamos, mas eu não me lembro de você. Desde quando você me conhece? Nesta hora, Victor explicou que nem sempre fora um homem. Na primeira vez em que se viram de verdade, ele era ela e se chamava Isabela. – Meu amor por você é tão forte que resolvi fazer uma operação de mudança de sexo no exterior. Como você é gay, precisei me transformar em homem para satisfazê-lo. E aqui estou! Agora sou Victor. De início, Anísio não achou que aquela história fosse real. Na certa, tratava-se de uma piada. Aquele homem perfeito na sua frente, na certa jamais teria sido uma mulher. À medida que Victor contava os detalhes dos encontros entre os dois na Europa, o ator ficou convencido. Ao perceber que Victor era Isabela ou Isabela era Victor, Anísio se sentiu traído. – Você é um monstro! - disse repudiando a atitude do(a) parceiro(a). A partir do dia seguinte, Victor nunca mais viu Anísio. O namorado fugiu em um passe de mágica. Ele desapareceu completamente da vida do antigo namorado. Victor até tentou encontrá-lo, mas não descobriu seu paradeiro. E olha que ele contratou até um detetive particular para ajudar na empreitada. Diferentemente do que acontecia nos thrillers policiais de Halan Coben, a vida real era impiedosa para quem queria desvendar o esconderijo da pessoa amada. Outra vez, Victor estava sozinho no mundo, desprezado pelo destino e por quem mais amava. O que seria de sua vida a partir de agora? Dinheiro não lhe faltava. Ele conseguiu receber metade da fortuna da antiga esposa e ficou com a presidência da agência. Era um homem bem-sucedido, mas faltava alguém ao seu lado para partilhar os bens materiais. Precisava de um amor verdadeiro para alimentar a alma e confortar o coração. Na véspera de completar quarenta e um anos, Victor resolveu ir sozinho a um bar badalado na área nobre da cidade. Não queria passar pela segunda vez consecutiva o aniversário sem ninguém. Ao pedir o uísque no balcão, ele viu uma moça muito bonita sentada em um banco ao lado. Aparentemente, ela estava desacompanhada. Ao perceber que havia acertado na suposição, Victor começou a puxar conversa com a desconhecida. Em menos de cinco minutos, a dupla já estava no meio de um animado bate-papo. – Yasmin, pode parecer uma cantada barata da minha parte, mas acho que já a conheço – Após duas horas de intensa falação e flerte, o rapaz estava convicto da atração entre eles – Como isso é possível? – Também sinto isso, Victor. Engraçada esta química entre a gente, né? – Yasmin também estava sendo sincera e ficou impressionada com o que também sentia – Pode ser coisa de vidas passadas. Quem sabe já não fomos casados? Algumas horas depois, os dois estavam na cama do primeiro motel que acharam. Transaram como animais selvagens. Quem os visse diria que ambos os amantes passaram os últimos anos aprisionados sem qualquer companhia. "Este é o homem que tanto esperei", pensou Yasmin. "Acho que a felicidade da minha vida está nesta mulher incrível que conheci hoje" previu Victor. Na manhã seguinte, o casal tomou café da manhã na cama como dois pombinhos apaixonados. – Bom dia, meu amor. E parabéns para você. Feliz aniversário! Yasmin não havia se esquecido do que Victor lhe falara na noite anterior. Era realmente uma mulher sem comparação. No fim da refeição, ele pediu para ela se sentar na beira da cama. Victor precisava falar algo importante. – Conte-me tudo sobre sua vida, meu amor. Acho que iremos passar muitos anos juntos e preciso saber tudo sobre você. Só assim me sentirei pronto para revelar os meus segredos. Yasmin concordou com a solicitação. Para explicar quem ela era, precisou pegar seus documentos na bolsa. – Sei que ao mostrar isso para você, Victor, posso perdê-lo para sempre. Se você não quiser me ver nunca mais, saiba que entenderei perfeitamente. Veja isso. Victor pegou o documento de identidade que lhe fora entregue. Ao ver a foto e o nome estampado ali sentiu um arrepio. O que o documento de Evandro, seu ex-marido, estava fazendo com Yasmin? Seria ela a responsável pela sua separação? Seria aquela mulher a amante que seduziu Evandro e o tirou de casa no ano passado? Vendo a incompreensão nos olhos de Victor, Yasmin explicou: – Eu nasci homem. Há um ano chamava-me Evandro e era casado. Minha esposa era perfeita, a melhor mulher do mundo. O problema é que eu não queria estar ao lado de uma mulher, por mais maravilhosa que ela fosse. Eu queria ser a própria mulher da relação. Aí, pedi a separação e fiz uma operação de mudança de sexo. Agora sou o que sempre sonhei. Meu problema é que minha realização pessoal ainda não foi alcançada. Não consegui encontrar alguém para amar. Já estive com homens e mulheres e ninguém me complementa como eu desejo. Pela primeira vez em muito tempo, senti uma coisa especial na noite passada. Se minha intuição feminina estiver certa, você é o homem da minha vida. Lágrimas jorraram dos olhos de Victor. Ele se levantou da cama e chegou perto de Yasmin, abraçando-a carinhosamente. Depois de devolver a identidade para a moça, Victor apanhou da carteira seu documento original e entregou para ela ver. Yasmin também se espantou ao notar a foto e o nome de outra pessoa no material. Ao perceber que ela não entendia o que estava se passando ali, Victor resolveu explicar que havia abandonado o corpo de Isabela e chegado à sua nova condição. O velho-novo casal voltou a viver junto. Se não eram mais Isabela e Evandro, pelo menos eram agora Victor e Yasmin. "Nunca fui tão feliz em minha vida", pensou Victor ao fechar um livro de Virginia Woolf. Ele dormiu abraçado à esposa na primeira noite que passaram na nova residência do casal. ----------------- Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Resta Um - O romance de estreia de Isabela Noronha

    No último Carnaval, li "Resta Um" (Companhia das Letras), o romance de estreia de Isabela Noronha na ficção adulta. Antes dessa obra, a escritora mineira radicada há anos em São Paulo só tinha publicado um livro infantil, "Adeus é para Super-Heróis" (Edições SM), vencedor do Prêmio Barco a Vapor em 2013. Nesse seu novo trabalho, Isabela construiu um thriller angustiante sobre uma mulher obcecada por encontrar sua filha desaparecida. Depois de muitos anos do sumiço da criança, a protagonista continua acreditando que achará a menina. A trama é multifacetada abordando simultaneamente as diferentes fases da vida da personagem principal. Esse recurso narrativo potencializa o suspense da história e o seu drama. Publicado em 2015, "Resta Um" ganhou o Curtis Brown Prize, na Inglaterra, e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2016, uma das mais badaladas premiações literárias do país. O livro concorreu na categoria de melhor autor estreante jovem (com menos de 40 anos). Nada mal para uma obra de estreia, hein? Eu conheci Isabela Noronha nas oficinas literárias do curso de pós-graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. Ela era minha professora. Nascida em Belo Horizonte, Isabela Noronha é jornalista e mestre em criação literária pela Universidade Brunel, em Londres. Atualmente, além de escritora, ela também é professora em oficinas literárias e de escrita criativa. Assim, posso garantir na prática que além de ótima escritora, Isabela também é uma excelente professora. "Resta Um" nasceu a partir de uma reportagem que a escritora mineira, então jornalista, fez há mais de dez anos para o jornal O Estado de São Paulo. As entrevistas com as várias mães que tiveram filhos desaparecidos marcaram muito Isabela. Ao terminar sua matéria, ela diz ter chorado pela tristeza daquelas mães. Quando chegou em casa naquele dia, ela colocou para fora o turbilhão emocional que estava segurando. Pela primeira e única vez na carreira, a jornalista sucumbia à tragédia do que apresentava aos leitores. Alguns anos depois de publicar a reportagem, mas com as lembranças das agonias daquelas mães ainda vivas em sua memória, Isabela Noronha iniciou a produção de um conto com essa temática. Assim, aproveitou algo real para embarcar em uma trama ficcional. Entretanto, só quando realizou seu curso de Escrita Criativa em Londres, a escritora mineira transformou sua narrativa curta em um romance. O livro demorou cerca de três anos para ser concluído. O tempo de maturação e o processo de construção da narrativa valeram a pena. Nesse romance, temos o relato em primeira pessoa de Lúcia, uma professora de matemática na faixa dos trinta anos. Ela tem uma carreira promissora na Universidade de São Paulo e uma família aparentemente feliz. Obcecada pelo trabalho, a protagonista é casada e possui uma filha pequena, Amélia. A vida de Lúcia vira do avesso quando certa noite Amélia não retorna para casa após ir a uma festinha de uma colega de escola. A menina desapareceu! Inicia-se, assim, a procura pela garota. Marido e mulher passam a viver em função da busca interminável pelo paradeiro de Lúcia. O que deixa "Resta Um" mais atraente é que sua história é contada por Lúcia em dois momentos diferentes. O primeiro capítulo do livro, por exemplo, se passa em fevereiro de 2011, quando a menina já está desaparecida há seis anos e meio. O segundo capítulo, por sua vez, é narrado em setembro de 2004, na noite do sumiço de Amélia. O romance segue a partir desses dois pontos (logo após o desaparecimento e muitos anos depois da trágica noite daquela família), alternando sistematicamente a ordem da narrativa. Com esse distanciamento temporal, o leitor pode acompanhar com mais força as transformações da fatalidade na vida da narradora. Como não poderia ser diferente, Lúcia é uma mulher em 2004 e outra completamente distinta em 2011. Além da narração dessas duas fases da vida da narradora-protagonista, há alguns capítulos em que o leitor não sabe quando a história se passa. A datação é meramente semanal ("Domingo", "Segunda-feira", "Quarta-feira"....). Também contada em primeira pessoa por uma mulher misteriosa, solitária e meio amalucada, essa nova parte da trama insere mais elementos ao drama e ao suspense do romance. Afinal, quem é essa nova personagem que surge em alguns capítulos e por que ela age de maneira tão transtornada?! Parece óbvio que a descoberta desse enigma é o que elucidará o drama de Lúcia. Porém, mesmo assim, o desfecho do livro de Isabela Noronha é surpreendente. Eu passei longe de desvendar o mistério. Prepare-se para ser jogado(a) com violência contra a parede pela autora. Não espere um final fechado, lógico e tranquilo. A agonia das personagens e, por que não, do leitor tende a prosseguir mesmo após a conclusão da leitura. Simplesmente incrível! "Resta Um" é um livro para leitores fortes. Seu clima de tensão e o suspense da história permeiam todas as 304 páginas da obra. Temos aqui uma trama de mistério com um tom pesado. Em muitos momentos, os leitores e as personagens são levados à fadiga emocional. É um terror psicológico ao extremo. Esse é o principal mérito desse romance. A agonia da protagonista extrapola as páginas do romance e chega a quem está acompanhando os dramas do livro. É impossível não se emocionar com o relato de uma mulher desesperada por respostas sobre a filha desaparecida. Também gostei muito da maneira como Isabela Noronha construiu suas personagens. As complexidades de Lúcia e do marido vão além do estereótipo do casal perfeito abatido por um "acidente doméstico". Não! Lúcia possui muitos defeitos e seu marido também. A própria Amélia não é uma garotinha calma e inocente, o que só aumenta o ar de mistério da história. Admito ter ficado positivamente impressionado com essa leitura. Se no começo pensei que iria ler mais uma trama de suspense ao estilo de Harlan Coben, ao final de "Resta Um" estava com o queixo caído pela força dramática desse texto de Isabela Noronha. Como é bom conhecer uma obra rica, inteligente, profunda e muito bem construída. Não é à toa que esse romance foi premiado nacional e internacionalmente. Se essa é a obra de estreia de Isabela na ficção adulta, eu fico desde já imaginando o que a escritora mineira nos apresentará daqui para frente, hein? Que venham mais romances como este, por favor! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2017

    Saíram os números consolidados das vendas de livros no Brasil do ano passado. Segundo o PublishNews, a fonte nacional do mercado editorial mais confiável atualmente, os títulos que figuraram no topo do ranking das livrarias nacionais em 2017 foram predominantemente obras religiosas, livros de autoajuda e publicações biográficas. Ou seja, de acordo com essa fotografia, o brasileiro como leitor é alguém voltado quase que exclusivamente para questões da sua religião, para a resolução de seus problemas pessoais e profissionais imediatos e para conhecer os detalhes da vida alheia (geralmente de personalidades famosas). Convenhamos que esse não é o perfil de leitor que devemos nos orgulhar como nação, né? Quando o assunto é literatura ficcional, a área em que mais nos interessamos no Blog Bonas Histórias, os romances internacionais continuam dando um banho nos livros brasileiros, pelo menos quando analisamos a quantidade de unidades comercializadas. O único romance na lista dos 10 livros mais vendidos em nosso país no ano passado é “Origem” (Arqueiro), última publicação do best-seller norte-americano Dan Brown. Definitivamente, o brasileiro não gosta de ficção. E quando lê algo nesta área, prefere as produções gringas. Fazer o quê? Ou seja, o cenário dos últimos anos não se alterou em absolutamente nada. A exceção à regra (lembremos que toda regra tem exceções) parece ser o surpreendente (e excelente) "Sapiens" (L&PM), do israelense Yuval Noah Harari, que figura como um estranho no ninho (afinal, não é um livro religioso nem é uma obra de autoajuda nem é um título biográfico). "Sapiens" terminou, acredite se quiser, 2017 na segunda colocação da lista dos mais vendidos nas livrarias brasileiras. Veja, a seguir, o ranking das publicações mais vendidas em 2017 no Brasil segundo o PublishNews: 1) Batalha Espiritual - Padre Reginaldo Manzotti (Brasil) - Petra - 138 mil unidades. 2) Sapiens - Yuval Noah Harari (Israel) - L&PM - 134 mil unidades. 3) O Homem Mais Inteligente da História - Augusto Cury (Brasil) - Sextante - 131 mil unidades. 4) O Poder da Ação - Paulo Vieira (Brasil) - Gente - 130 mil unidades. 5) Origem - Dan Brown (Estados Unidos) - Arqueiro - 121 mil unidades. 6) Propósito - Sri Prem Baba (Brasil) - Sextante - 119 mil unidades. 7) Por que Fazemos o que Fazemos? - Mário Sérgio Cortella (Brasil) - Planeta Brasil - 115 mil unidades. 8) Felipe Neto - Felipe Neto (Brasil) - Coquetel - 110 mil unidades. 9) Rita Lee - Uma Autobiografia - Rita Lee (Brasil) - Globo - 98 mil unidades. 10) Ansiedade - Como Enfrentar o Mal do Século - Augusto Cury (Brasil) - Saraiva - 96 mil unidades. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Flood, Uma Mulher Implacável - O início da série Burke de Andrew Vachss

    Terminei ontem à noite a leitura de "Flood - Uma Mulher Implacável" (Record), um clássico do romance negro contemporâneo. Essa obra de Andrew Vachss, que possui um jeitão de história classe B ou de livro trash da literatura norte-americana, é importante por três motivos. Primeiramente, esse trabalho representou a estreia do seu autor na ficção. Até então, Vachss, um assistente social que trabalhava na defesa dos direitos dos jovens e das crianças vítimas de violência e de abuso sexual, só havia lançado livros técnicos. Curiosamente, hoje em dia, Vachss, com quase 80 anos, afirma ter conseguido falar mais do problema dos abusos sofridos pelos menores de idade em seus romances do que nos livros de não-ficção com essa temática. O escritor se apresenta como um defensor de adolescentes e de crianças em situações de risco social. "Flood" também é relevante por ter inaugurado a famosa (e extensa) série literária do detetive particular Burke. A coleção com 18 títulos foi publicada entre 1985 e 2008 e rendeu alguns prêmios literários internacionais para Andrew Vachss. "Flood" conquistou o Deutscher Krimi Preis na Alemanha, em 1989. "Strega" (Vintage Crime/Black), o segundo romance da série Burke, venceu o Grand Prix de Littérature Policière na França, em 1988, e o Maltese Falcon Award no Japão, em 1989. Nada mal para um livro de um gênero literário que desperta muitos admiradores, mas também suscita muitas críticas em relação a sua qualidade artística (é inegável o preconceito que muita gente ainda nutre pelos romances policiais). E para terminarmos as apresentações preliminares do romance de estreia de Andrew Vachss, "Flood" é importante por ter inserido na ficção policial norte-americana a temática da violência às crianças. Até então, a pornografia infantil, a prostituição de menores de idade e o abuso sexual cometido contra crianças e adolescentes eram assuntos tratados como tabus na literatura. Como ex-diretor de uma penitenciária para jovens delinquentes e como advogado que defendia menores de idade vítimas de abusos, Andrew Vachss sabia do que estava falando. A violência infantil fazia parte do seu dia a dia e ele sentia a necessidade de conscientizar a sociedade para esse grave problema. De tão polêmico, o livro demorou muito tempo até ser publicado. A maioria das editoras norte-americanas resistiu a tocar em assuntos tão delicados como estes. Lançado nos Estados Unidos em 1985, "Flood - Uma Mulher Implacável" tem quase 500 páginas e é daquele tipo de livro caudaloso. Essa história é cheia de violência (não faltam brigas e lutas corporais ao longo dos capítulos) e seu enredo possui uma coleção interminável de personagens marginalizadas socialmente (prostitutas, cafetões, transexuais, vendedores de armas, traficantes de armas e drogas, abusadores de crianças, policiais corruptos, negros, latinos, asiáticos, imigrantes ilegais, mendigos e pessoas pobres). Em um primeiro momento, a trama tensa e as cenas fortes podem assustar o leitor menos acostumado ao subgênero dos romances negros. Passado o choque inicial, o livro acaba seduzindo quem o lê. As muitas cenas de ação, o texto extremamente ágil, a narrativa bem-humorada, o clima de suspense e a boa dose de romantismo chegam a empolgar. Quando o leitor conclui a última página, o romance deixa uma vontade de que a história poderia prosseguir em novas aventuras com aquelas mesmas personagens. Nesse sentido, a opção pela criação da série literária me pareceu acertada (tanto do ponto de vista comercial quanto literário). O enredo de "Flood" gira em torno de um detetive particular nova-iorquino com métodos de trabalho bem peculiares, uma rotina heterodoxa e uma filosofia de vida blasé. Burke é solitário, excêntrico e possui uma ética própria. Afinal, segundo afirma (a trama é narrada em primeira pessoa), ele precisa sobreviver em meio ao caos da violenta metrópole norte-americana. Se não for mais esperto do que seus vários inimigos, Burke não conseguirá ganhar dinheiro. Assim, as ruas escuras, sujas, decadentes e selvagens da Big Apple são ao mesmo tempo um território perigoso e uma terra de oportunidades ilimitadas para quem sabe trafegar naturalmente por seus becos sombrios. Trabalhando em casos obscuros e vivendo à margem da lei, Burke conhece praticamente todo mundo dentro do universo criminal de Nova York. Tanto os policiais, os promotores de justiça e os jornalistas quanto os bandidos, os assassinos e as pessoas marginalizadas socialmente fazem parte do networking da personagem principal do romance. Com esse trânsito fácil pelas duas pontas da lei, o detetive consegue resolver todos os casos que caem em suas mãos com alguma facilidade. Tendo a fama de elucidador de problemas indigestos, certo dia, Burke recebe a visita de Flood em seu "escritório". A jovem loira é gordinha e baixinha. Mesmo assim, é muito bonita. Lutadora de artes marciais, a nova cliente do detetive vive abalada com um drama pessoal. A filha pequena de sua melhor amiga (tão amiga que Flood a trata como uma irmã) foi estuprada e morta por um homem chamado Cobra. O criminoso é conhecido por abusar de crianças, mas permanece solto, pois fez uma delação premiada com a Justiça. Em troca de entregar criminosos mais poderosos, ele foi perdoado pelos crimes antigos e permanece em liberdade. Em busca de vingança, Flood pede a ajuda de Burke (na verdade, ela contrata os serviços dele) para encontrar Cobra. A jovem quer achar e matar o criminoso que destruiu a vida da sua amiga (que morreu logo depois do assassinato da filha). Assim, Burke e Flood passam a trabalhar juntos atrás do estuprador de menores de idade. Não é necessário dizer que os dois começarão um namoro enquanto procuram o paradeiro de Cobra. Ao ler Andrew Vachss, as literaturas de Rubem Fonseca, João Antônio, Dalton Trevisan, Wander Piroli, Fernando Bonassi e Marçal Aquino, por exemplo, tornam-se de repente leves e com uma pegada um tanto light. Curioso isso, né? O escritor norte-americano tem a capacidade de mergulhar no submundo da criminalidade nova-iorquina do início da década de 1980 (quando a cidade era um completo caos e possuía índices alarmantes de criminalidade) com muita intensidade, não poupando os leitores de nenhum detalhe sórdido. Definitivamente, não há pudores para se chegar aos níveis mais obscuros da moralidade humana. Apesar das opções temáticas e narrativas arriscadas, esse é o principal mérito de Vachss em minha opinião. O escritor vai aonde ninguém tinha ido até então, apontando o dedo para um problema que estava oculto na sociedade moderna: a violência sexual contra crianças e adolescentes. Infelizmente, esse mal seria agravado alguns anos depois com o advento da Internet... Apesar da sua grande violência (típica dos romances negros), "Flood" é um livro recheado de graça e muito bem humorado (acredite: essa combinação é possível sim!). Apesar de um pouco exagerada, a figura de Burke (com várias esquisitices e uma moral peculiar) é divertidíssima. O protagonista caminha o tempo inteiro em uma linha tênue entre o heroísmo e o anti-heroísmo. Vivendo solitário, em um apartamento decadente de um bairro barra-pesada, com uma cadela feroz (a quem ele parece aturar porque o animal é uma ótima proteção para seu lar), Burke transformou sua residência em uma pequena fortaleza à prova de invasões indesejadas. Nesse sentido, o detetive lembra muito o taxista neurótico Jerry Fletcher, personagem protagonizado por Mel Gibson no filme "Teoria da Conspiração" (Conspiracy Theory: 1997). E o que falar, então, do carro de Burke que apesar de velho é tão poderoso e cheio de recursos inusitados quanto o Batmóvel? Hilário! O repertório de malandragens do protagonista parece ilimitado. Logo na cena inicial, o leitor é brindado com técnicas apuradas de Marketing de Guerrilha (ou seria uma gambiarra de um profissional antiético para engambelar a clientela ingênua?!) por parte do investigador. Flood (a cliente) visita Burke (o prestador de serviço) no apartamento dele, mas pensa estar diante de um escritório bem estruturado de um profissional respeitado, muito requisitado e com uma equipe de funcionários. A maneira sutil e criativa como ele engana a moça é divertida. Portanto, o protagonista do romance é, de certa forma, uma mistura de Mandrake (personagem de Rubem Fonseca) e Ed Mort (criação de Luis Fernando Veríssimo). Andrew Vachss pode fazer uma história um tanto fantasiosa e com jeitão trash, mas é inegável o charme dessa trama e de suas personagens. Tirando um ou outro erro de lógica narrativa, trata-se de um romance policial com muita graça. Li o livro inteiro em dois dias, tamanho meu interesse pela obra. Confesso ter gostado bastante de seu conteúdo e de sua estética narrativa. Esse é o tipo de leitura recreativa para quem não tem medo de se aprofundar em uma investigação policial pelo submundo do crime organizado. Para quem for ler "Flood - Uma Mulher Implacável" e gostar muito de sua história, a má notícia é que poucos livros da série Burke foram traduzidos para o português e lançados no Brasil. Tenho conhecimento da publicação apenas de "Strega" (Vintage Crime/Black), "Blue Belle" (Nova Fronteira), "Sacrifice" (Ivy) e "Mask Market" (Vintage Crime/Black) por aqui. Os dois primeiros são os títulos que vieram imediatamente depois de "Flood". "Strega", de 1987, é a segunda história da série e "Blue Belle", de 1988, é a terceira. "Sacrifice", por sua vez, é o sexto livro da coleção (foi lançado em 1991). E "Mask Market" é um dos últimos romances da série Burke (é o décimo sexto título da coleção), tendo sido publicado em 2006. E aí, vai encarar a Nova York barra-pesada dos anos de 1980?! O maior risco que você corre ao ler as páginas de Andrew Vachss é ficar viciado na história de Burke e de seus amigos nada convencionais. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Tecle 2 para Esquecer - A estreia de Carolina Zuppo Abed na literatura

    Li, no último domingo, "Tecle 2 para Esquecer" (Patuá). Este livro, uma coletânea de contos, representou a estreia de Carolina Zuppo Abed na literatura comercial. Lançada em janeiro do ano passado, esta obra é composta por 21 pequenas narrativas. Na abertura de cada capítulo/conto, o leitor é agraciado com belos desenhos do ilustrador Bruno Malfatti. Os contrastes entre as imagens delicadas e infantis de Bruno e os textos densos e dramáticos de Carolina compõem um quadro intrincado e angustiante de experiências traumáticas. Essas perturbações que rondam as personagens e os narradores do livro são concentradas na infância ou originam-se desse período. Em "Tecle 2 para Esquecer", a infância parece ser a fase mais incômoda e perigosa da vida das pessoas. Assim, a aparência singela, tranquila e doce da diagramação do livro é imediatamente sobreposta à aridez, às tragédias e ao lado negro da alma humana. O que temos aqui, portanto, é uma excelente leitura do que há de mais escuso dentro do homem moderno. Quem gosta de contos de qualidade e, principalmente, de histórias com forte carga dramática, irá adorar esse livro de Carolina Zuppo Abed. Como alerta André Argolo no prefácio da obra, o leitor precisa "estar equipado" para aguentar o tranco desta tortuosa viagem pelo interior de mentes perturbadas e de almas conflituosas. "Ao entrar neste livro você descerá muitos e muitos lances de escada como num mergulho seco, andares adentro de uma construção que é mais uma ruína. Há quem chame isso de alma, mas alma é nuvem. Talvez o nome esteja mais para passado". Complementaria as palavras de Argolo dizendo que temos nesta publicação o relato de personagens e de narradores com passados sempre tristes, incômodos e muito, muito angustiantes. Não é coincidência que o escritor favorito da autora seja David Foster Wallace. Escrito com o apoio do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo (ProAC), "Tecle 2 para Esquecer" mostra o talento precoce de Carolina Zuppo Abed para a confecção de contos. Carolina é uma jovem escritora, professora e psicopedagoga. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz, ela mora parte da semana na capital paulista, onde atua como professora de Escrita Criativa, e parte em Santos, onde desenvolve oficinas literárias e ministra aulas de redação literária e de literatura para alunos do ensino médio. O primeiro conto de "Tecle 2 para Esquecer" se chama "Factal". Nele, uma pessoa tem todas as noites um sonho recorrente: foge de inimigos desconhecidos em uma escada espiral. Por isso, a personagem precisa descer correndo os degraus em um processo eterno que lembra muito as ilustrações das escadas labirintos (moda dos pintores na primeira metade do século XX que conferia uma inusitada ilusão de ótica). Essa mesma história surge no final do livro, em seu último conto. Apesar de muito parecido à primeira narrativa (tem inclusive o mesmo nome, "Factal"), a vigésima primeira trama da coletânea tem um desfecho totalmente diferente à história inaugural. A opção por iniciar e terminar a obra com um conto aparentemente idêntico, mas ao mesmo tempo totalmente distinto, é muito legal. A riqueza e os contrastes do texto de Carolina estão nos detalhes, sejam eles uma vírgula, uma palavra ou uma omissão. O segundo conto se chama "Osso é um palíndromo. Somos Todos". Nessa história, um rapaz descreve o motivo de ter a perna torta. Tudo aconteceu quando ele era uma criança. O trauma por ter visto um cavalo sendo sacrificado com a perna quebrada foi o causador de sua deformidade. Na sequência, temos "Casa começa com i". Nessa trama, uma menina órfã relata sua agonia por crescer sem ter sido adotada. Quanto mais velha fica, menores são as chances de ter uma família e uma casa. No quarto conto do livro, chamado de "Amor Líquido", uma menina descreve os sentimentos dela e do pai no dia em que sua mãe morreu. A tônica das histórias do livro segue sempre essa linha: traumas, mortes, violências, abandonos, traições, medos, doenças não curadas... O interessante é que tanto nos contos mais curtos (de uma página apenas) quanto naqueles um pouquinho maiores (quatro ou cinco páginas), a autora consegue surpreender os leitores ou chocá-los ainda mais com um detalhezinho acrescentado no finalzinho do texto. Incrível! Os meus seis contos preferidos são: "Satisfaction (I can't get no)", "Cria, Criatura, Criador", "Meias Palavras", "Luiza", "Remoto Controle" e "Manual do bebê: instruções de uso - Capítulo 16, Tirando a Frauda". Em "Satisfaction (I can't get no)", temos um narrador arrependido por ter passado uma noite de amor tórrido com sua melhor amiga. Em "Cria, Criatura, Criador", uma menina cuidava de uma gata e de seus filhotes recém-nascidos. Ela fazia isso escondido da mãe, que odiava animais de estimação. "Meias Palavras" relata o abuso sexual sob o ponto de vista infantil da criança que foi vítima da violência. Em "Luiza", conhecemos o relato de um menino sobre uma garota que poderia ser descrita como sendo sua primeira inimiga; Em "Remoto Controle", temos um homem que não sabe/não consegue economizar dinheiro, endividando-se mais e mais. E "Manual do bebê: instruções de uso - Capítulo 16, Tirando a Frauda" é sobre uma filha adulta que se vinga da mãe velha e doente pelo sofrimento passado na infância. Em "Tecle 2 para Esquecer", podemos ver não apenas o talento de Carolina Zuppo Abed como uma contista nata, mas também é nítido o incrível potencial dessa jovem escritora. Às vezes, é difícil acreditar que essa obra seja sua estreia na literatura. Também é difícil de acreditar que a moça não tenha ainda completado trinta anos de idade. Fico imaginando o que virá daqui para frente quando a escritora tiver atingido sua maturidade artística ou mesmo tiver evoluído alguns degraus no ofício de ficcionista. Os dois elementos mais interessantes na literatura de Carolina são o primor do seu texto e a elaborada construção narrativa das suas histórias. Até mesmo nos contos menos criativos (sim, há alguns deles no livro), nota-se uma escolha acertada de palavras e um esmero na composição das tramas, das personagens e dos conflitos. Isso só é possível de ser feito por quem possui grande domínio das técnicas narrativas. Fiquei muito satisfeito com a leitura deste final de semana. "Tecle 2 para Esquecer" me surpreendeu positivamente. É muito bom ver as angústias da alma humana e os traumas infantis transformados em boa literatura. Para quem não tem medo de se aventurar pelo lado sombrio dos homens e das mulheres do tempo presente, temos aqui uma boa opção de título. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: O Fluxo Silencioso das Máquinas - Os microcontos de Bruno Zeni sobre São Paulo

    Ontem à noite, li "O Fluxo Silencioso das Máquinas" (Ateliê Editorial), coletânea de microcontos de Bruno Zeni. Esta obra apresenta um retrato multifacetado da cidade de São Paulo. Sua proposta é olhar para a capital paulista a partir das pequenas e contraditórias partes do seu rico cenário. Ou seja, a análise conjunta das pequenas peças individuais da engrenagem da metrópole levará o leitor à compreensão da máquina como um todo. Com isso, São Paulo ganha uma dimensão de protagonista do livro. Querendo ou não, ela proporciona experiências distintas aos seus habitantes, dependendo da perspectiva e do foco que se tem da narrativa. Publicado em 2002, "O Fluxo Silencioso das Máquinas" foi a primeira incursão de Bruno Zeni na ficção. Depois dessa obra, o escritor lançou o romance “Corpo a Corpo com o Concreto” (Azougue), em 2009. Na área da não ficção, ele atuou, em 2002, na produção da biografia “Sobrevivente André du Rap” (Labortexto) de José André de Araújo, um ex-presidiário que vivenciou, em 1992, o massacre do Carandiru. Bruno Zeni é curitibano e mora em São Paulo há quase trinta anos. Jornalista, mestre em Teoria Literária e doutorando em Letras, Bruno atua como escritor, professor de literatura e orientador de oficinas literárias. Conheci seu trabalho neste semestre quando ele me deu aula no Instituto Vera Cruz. A matéria era "Nos Arredores do Conto" do curso de pós-graduação de Formação de Escritores. Bruno é especialista em narrativas curtas e fã de microcontos. "O Fluxo Silencioso das Máquinas" possui 43 microcontos. Suas histórias são fragmentos pinçados da rotina urbana. Algumas são tramas ficcionais e outras são reproduções de situações verídicas noticiadas pelos jornais paulistanos. Essa mistura de passagens reais e irreais dá um colorido interessante ao livro. O leitor acaba pensando que tudo o que lê é, de cerca maneira, um retrato verdadeiro da cidade (o que não deixa de ser). As pequenas narrativas estão distribuídas ao longo de 112 páginas. A maioria dos microcontos não ultrapassa uma página de extensão. Eles são apresentados normalmente em um ou dois parágrafos. Nessa coletânea, temos o mendigo que dorme olhando para o topo dos arranha-céus, o balé diário das luzes dos carros nas ruas congestionadas, o ar poluído e pesado a sufocar os habitantes, o menino que se aventura pelas grades da avenida movimentada, o usuário do metrô que embarca na escuridão das estações em pleno dia ensolarado, a canalização dos rios que aprisionam as águas no subsolo, a violência gratuita da grande cidade, as relações amorosas vazias e complicadas, a sexualidade em tempos de Internet, a mecanização da vida moderna, etc. Como é típico desse gênero narrativo, tudo é apresentado de maneira extremamente rápida e objetiva em "O Fluxo Silencioso das Máquinas". O livro acompanha de alguma forma o ritmo frenético da cidade retratada (li a obra inteira em pouco mais de uma hora). Não espere, portanto, encontrar sentido ou grandes significados em cada uma das tramas individualmente. O efeito maior está sem dúvida nenhuma no todo, ou seja, na junção das várias pequenas histórias. É na leitura completa dos contos que o leitor consegue captar o sentido estético e de conteúdo proposto por Bruno Zeni. É no efeito geral e não no particular de cada história que o leitor precisa se ater. Se as narrativas individuais parecem singelas, banais e sem brilho (como um dia na rotina da metrópole), a união desses vários fragmentos tão diversos forma um quadro interessante de São Paulo. Mesmo assim, é inegável o tom meio pueril das histórias. Vale lembrar que quando "O Fluxo Silencioso das Máquinas" foi escrito, por volta do ano de 2000, Bruno Zeni era ainda um jovem recém-chegado à São Paulo, que iniciava seus estudos na faculdade. Portanto, ele estava longe de ser um escritor experiente. Naquela época, ele ainda trilhava os primeiros passos que o transformaria em um dos principais teóricos da literatura de nosso país. Por isso, é preciso fazer a leitura com essa ressalva. Para quem deseja conhecer a face mais madura de Bruno Zeni como escritor, aí, então, a indicação de leitura é o romance “Corpo a Corpo com o Concreto". Esse sim é um trabalho mais maduro e profundo do ponto de vista narrativo e literário. Como não estou habituado aos microcontos, gostei da experiência de ler uma obra com esse formato. Apesar de achar "O Fluxo Silencioso das Máquinas" um livro fraquinho em conteúdo (a partir do conhecimento literário que sei que seu autor possui atualmente), admito ter apreciado a estética inovadora que a obra se propõe. Trata-se de uma leitura para quem pretende ver formas diferentes de se apresentar as narrativas curtas. Neste sentido, a leitura valeu a pena. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Desafio Literário: Quarta Edição - Calendário de 2018

    O Desafio Literário vai voltar ao Bonas Histórias. Uhu! Depois de uma folga (ou seriam férias?) de quatro meses (longa admito, mato merecida), retomo, em abril, às análises dos grandes escritores. Espero que todos os leitores do blog acostumados aos nossos debates literários tenham sentido saudades desta coluna, a minha favorita. Eu pelo menos não via a hora de recomeçá-la. Passei os últimos meses matutando quais autores deveriam ser contemplados nos estudos estilísticos deste ano. Depois de muitos esboços, cheguei, enfim, ao calendário final da nova temporada. A edição de 2018 do Desafio Literário, a quarta divulgada no blog, começará no mês que vem e se estenderá até novembro. Ou seja, temos muito trabalho pela frente nos próximos oito meses. A proposta é debatermos ao longo deste ano a literatura de J. M. Coetzee (África do Sul), em abril, Juan Carlos Onetti (Uruguai), em maio, Herta Muller (Alemanha), em junho, Xinran (China), em agosto, Albert Camus (França), em setembro, Patricia Highsmith (Estados Unidos), em outubro, e Fernando Sabino (Brasil), em novembro. Como já é tradição no Desafio Literário do Bonas Histórias, estudaremos um autor por mês. Para tal, investigaremos mensalmente seis obras relevantes de cada escritor contemplado no estudo. Assim, chegaremos ao começo de dezembro tendo percorrido quase todos os continentes do planeta em nossas leituras. Nesta temporada, a Oceania acabou ficando de fora. Nada mal essa jornada, hein? Veja, a seguir, o cronograma completo de posts do Desafio Literário de 2018: Calendário do Desafio Literário de 2018: - Abril - J. M. Coetzee (África do Sul) 1º de abril - Introdução à Literatura de J. M. Coetzee 5 de abril - "À Espera dos Bárbaros" (1980) 9 de abril - "O Cio da Terra – Vida e Tempo de Michael K (1983) 13 de abril - "Infância" (1997) 17 de abril - “Desonra" (1999) 21 de abril - "Juventude” (2002) 25 de abril - "Diário de Um Ano Ruim" (2007) 29 de abril - Análise Literária de J. M. Coetzee - Maio - Juan Carlos Onetti (Uruguai) 1º de maio - Introdução à Literatura de Juan Carlos Onetti 5 de maio - "O Poço" (1939) 9 de maio - "A Vida Breve" (1950) 13 de maio - "Para Uma Tumba Sem Nome" (1959) 17 de maio - "O Estaleiro" (1961) 21 de maio - "Junta-Cadáveres" (1965) 25 de maio - "Deixemos Falar o Vento" (1979) 29 de maio - Análise Literária de Juan Carlos Onetti - Junho - Herta Müller (Alemanha) 2 de junho - Introdução à Literatura de Herta Müller 6 de junho - "Depressões" (1982) 10 de junho - "O Homem é um Grande Faisão no Mundo" (1986) 14 de junho - "A Raposa já era o Caçador" (1992) 18 de junho - "O Compromisso" (1997) 22 de junho - "O Rei se Inclina e Mata" (2003) 26 de junho - "Sempre a Mesma Neve e Sempre o Mesmo Tio" (2011) 30 de junho - Análise Literária de Herta Müller - Agosto – Xinran (China) 1º de agosto - Introdução à Literatura de Xinran 5 de agosto - "As Boas Mulheres da China" (2002) 11 de agosto - "Enterro Celestial" (2004) 15 de agosto - "O que os Chineses Não Comem" (2006) 19 de agosto - "As Filhas Sem Nome" (2008) 23 de agosto - "Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida" (2010) 27 de agosto - "Compre-me o Céu – A Incrível Verdade" (2015) 31 de agosto - Análise Literária de Xinran - Setembro - Albert Camus (França) 2 de setembro - Introdução à Literatura de Albert Camus 6 de setembro - "O Estrangeiro" (1942) 10 de setembro - "O Mito de Sísifo" (1942) 14 de setembro - "A Peste" (1947) 18 de setembro - "O Homem Revoltado" (1951) 22 de setembro - "A Queda" (1956) 26 de setembro - "A Morte Feliz" (1971) 30 de setembro - Análise Literária de Albert Camus - Outubro - Patricia Highsmith (Estados Unidos) 2 de outubro - Introdução à Literatura de Patricia Highsmith 6 de outubro - "Pacto Sinistro" (1950) 10 de outubro - "Carol" (1952) 14 de outubro - "O Talentoso Ripley" (1955) 18 de outubro - "Ripley Subterrâneo" (1970) 22 de outubro - "O Álibi Perfeito" (1993) 26 de outubro - "Small G" (1995) 30 de outubro - Análise Literária de Patricia Highsmith - Novembro - Fernando Sabino (Brasil) 1º de novembro - Introdução à Literatura de Fernando Sabino 5 de novembro - "O Encontro Marcado" (1956) 9 de novembro - "O Grande Mentecapto" (1979) 13 de novembro - "O Menino no Espelho" (1982) 17 de novembro - "As Melhores Crônicas de Fernando Sabino" (1986) 21 de novembro - "Martini Seco" (1987) 25 de novembro - "A Nudez da Verdade" (1994) 29 de novembro - Análise Literária de Fernando Sabino Ao todo, o Desafio Literário apresentará 42 obras de 7 autores em 2018. Espero que todos tenham gostado do calendário desta quarta temporada. E, portanto, deixo aqui o convite para quem ama literatura. Você é nosso(a) convidado(a) para ler e analisar comigo essa coletânea seleta de livros e escritores. O Bonas Histórias divulgará um post para cada publicação e artista. Boas leituras e ótimas análises para todos nós ao longo deste ano. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Terminália – O romance de estreia de Roberto Taddei

    Terminália é o nome de um festival da Roma antiga que cultuava o deus Término, divindade responsável pela proteção das intermináveis fronteiras daquele que foi o mais extenso império da antiguidade. Este foi também o mote usado por Roberto Taddei para nomear sua obra de estreia na ficção. “Terminália” (Prumo) é o primeiro romance deste paulistano que, além de poeta e prosador, é um dos principais nomes de sua geração quando o assunto é teoria literária. A história do livro de Taddei se passa essencialmente no município do Oiapoque, região da Amazônia brasileira que faz fronteira com a Guiana Francesa. O título do romance é, portanto, uma clara associação tanto ao festival do antigo deus romano quanto aos dramas contemporâneos vividos pela população residente no limite norte do território nacional. A trama principal de “Terminália” é protagonizada pelo major do exército brasileiro, Marcelo, e sua esposa, Elena. A conflituosa história de amor e ódio do casal é narrada simultaneamente por dois jornalistas: um paulista de meia-idade que vive há muitos anos no exterior e que visita com um grupo de estudantes brasileiros a vila de Clevelândia do Norte, próximo ao Oiapoque, no Amapá; e um jovem nativo que diz conhecer em detalhes o intrigante caso do polêmico matrimônio que virou assunto da diplomacia brasileira e francesa. A conversa dos jornalistas se dá enquanto o barco onde a dupla está faz um passeio pelo rio Oiapoque. Ao mesmo tempo em que os narradores do romance entram na selva amazônica pelas águas do rio, nós, os leitores, mergulhamos no sinuoso drama matrimonial de Marcelo e Elena pelas páginas da publicação. Escrito entre julho de 2008 e agosto de 2009, “Terminália” foi publicado em 2013. A obra fez parte do trabalho de conclusão de curso de Roberto Taddei no mestrado de Criação Literária realizado na Columbia University. Exatamente por isso, o romance foi escrito originalmente em inglês e, depois, foi traduzido para o português pelo próprio autor. Esse processo de produção criativa é similar ao exercitado por escritores como Haruki Murakami e Vladimir Nabokov, que primeiro escreviam em inglês e só depois transformavam seu texto para o idioma natal. Nascido em 1975, na capital paulista, Roberto Taddei é jornalista, professor de literatura e de escrita criativa, tradutor e coordenador do curso de pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. “Terminália” foi concebido a partir de uma viagem do autor pela região amazônica onde a trama se passa. Não é à toa que um dos narradores da história é um jornalista brasileiro que vivia há muitos anos nos Estados Unidos (uma espécie de alter ego de Taddei). Segundo o escritor paulistano, seu romance nasceu a partir de um conto em que ele narrava de maneira criativa a experiência daquela jornada. À medida que a história ganhava em extensão e riqueza, Taddei percebeu a mudança de gênero narrativo. “Terminália” possui 160 páginas, podendo ser classificado como um pequeno romance. Eu li a obra inteira em um único dia (em minha mais recente viagem de ônibus para Minas Gerais). Ao chegar ao destino, só faltava a leitura do epílogo (feita à noite, no conforto do hotel). A história do livro é basicamente a conversa dos dois jornalistas sobre o casamento do major Marcelo, responsável por um batalhão do Exército na fronteira amapaense, e sua esposa, uma mulher que desejava viver nos grandes centros urbanos e odiava o isolamento da floresta equatorial. O entrevero conjugal provocou centenas de comentários entre os habitantes da vila de Clevelândia e chegou a virar tema diplomático, tratado pelos presidentes do Brasil e da França (país que comanda a Guiana Francesa). A curiosidade do jornalista visitante, que pretendia entender aquela região do país a partir dos conflitos pessoais dos protagonistas da história ouvida, e o interesse do jornalista local, que queria contar a qualquer custo aquela trama que o rondava incessantemente há tanto tempo, confluem para a felicidade do bisbilhoteiro leitor, ávido por mais e mais detalhes. “Terminália” é um livro realmente peculiar. O leitor é atraído para dentro desse romance com intensidade. A sensação é que a publicação puxe o leitor para suas páginas. Assim, a curiosidade dos narradores da obra é compartilhada por quem a lê. Esse recurso narrativo confere veracidade à história. Além de atiçar algo que os leitores entendem bem em seu cotidiano, a curiosidade para saber mais sobre a vida de alguém (atire a primeira pedra quem nunca fofocou ou ficou ouvindo a fofoca alheia!), Taddei é primoroso quanto ao trabalho do foco narrativo. O romance é muitíssimo bem construído, não deixando nenhuma pedra solta no meio do caminho. Outro ponto que gostei deste livro foi da escolha temática. Abordar uma região muitas vezes esquecida do país, a fronteira norte do Brasil, se mostrou acertada. A cultura, a história, a realidade e os problemas locais são interessantes e merecem ser mais abordados na literatura brasileira contemporânea. As personagens de Roberto Taddei também são bem construídas. Tanto os protagonistas da história quanto seus narradores apresentam características contraditórias. Por isso, é difícil apontar, ao final da narrativa, quem estava certo ou quem estava errado. Legal notar como o escritor deixou o final do romance em aberto, jogando os julgamentos e as avaliações derradeiras no colo do leitor. Os debates sobre o jornalismo e a literatura deixam a obra ainda mais rica. Afinal de contas, o que os diferencia e o que os une? Quem pode narrar de maneira verídica uma história com mais propriedade: o jornalista ou o escritor ficcional? Ótimo debate! No meu ponto de vista, o único elemento negativo de “Terminália” está no conteúdo da sua trama principal. A relação entre Marcelo e Elena é um tanto banal, igual a de milhares de casais por aí. Apesar de os narradores do romance ficarem muito curiosos para saber o desfecho do casamento dos protagonistas (algo estendido para os leitores), a impressão é que estamos diante de uma mera fofoca, algo que poderia ter sido extraído de uma reportagem de uma revista sensacionalista ou de uma conversa de pessoas fúteis. Nada mais do que isso. Assim sendo, o grande mérito do romance de estreia de Roberto Taddei está muito mais na trajetória da construção ficcional feita pelo autor (em relação à narrativa, “Terminália” é um livro impecável) do que pela temática de sua obra (de certa forma, fraquinha). Este é um ótimo exemplo de como a técnica apurada se sobressai ao conteúdo narrado. É a famosa analogia: a viagem é muito mais interessante do que o local visitado. Quer ler “Terminália”? O que posso dizer é que se trata de uma ótima escolha. Aperte os cintos e faça uma viagem por uma literatura requintada e muito bem construída. Roberto Taddei domina a teoria e o processo da escrita criativa (literária) como poucos. É muito bom ver alguém com tanto conhecimento aventurando-se (e porque não se arriscando) neste difícil ofício que é escrever ficção. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

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