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  • Livros: Vontade de Viver - Parte 2 da trilogia de Régine Deforges

    Minha intenção neste Desafio Literário era ler apenas "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), o primeiro livro da trilogia homônima escrito pela francesa Régine Deforges. Porém, quando cheguei ao final desta obra, descobri que ela não tinha um desfecho. A trama continuava em "Vontade de Viver" (Best Bolso). Por isso, li o segundo livro também. Ao fim dele, havia a informação que a história continuava em "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso). Assim, li todas as três publicações em sequência, em um total de mais de 1.200 páginas (ufa!). Levei menos de uma semana (seis dias) para concluir esta empreitada (exatamente dois dias por obra). Com isso, descobri na prática que a série "Bicicleta Azul" é, na verdade, uma história só, dividida em três livros. Por isso, é impossível querer ler só uma de suas partes. Na semana passada, já analisei "A Bicicleta Azul". Agora, neste post, vou debater "A Vontade de Viver", a segunda parte da série. Na semana que vem, a discussão será sobre "O Sorriso do Diabo", a terceira e última obra da trilogia. "Vontade de Viver" é, como já foi explicado, o segundo livro da coleção "A Bicicleta Azul". A história de Léa Delmas prossegue exatamente onde o livro anterior parou. Com 378 páginas, essa obra começa no ano de 1942 e termina em 1944. Agora temos uma França totalmente ocupada pelas tropas alemãs. Se os nazistas dominam a capital e a maior parte do território francês, há ainda uma região ocupada pela Resistência, grupo de franceses que não desistiu de combater o invasor. Dessa forma, a guerra prossegue, porém ela não é realizada apenas nos campos de batalha e nas trincheiras. A guerra é agora mais sutil e diplomática. Os inimigos convivem lado a lado nas cidades, cada um temendo as ações da outra parte. Por isso, Léa encara desta vez os perigos da delação, o horror da tortura e a violência do novo governo de seu país (controlado pelos alemães). Cada vez mais a jovem e seus familiares estão envolvidos com a Resistência, colocando todos em uma situação de constante alerta e perigo. Esse livro mostra os momentos mais tensos da ocupação germânica na França. A pegada da narrativa de Régine Deforges se mantém a mesma. Há vários personagens interagindo com a protagonista, muitos deles apresentados no início do primeiro livro da coleção. Isso, por vezes, pode confundir o leitor, que não se recorda de todos eles (Nem pense em começar este livro sem ter lido o anterior, por favor!). Creio que a trama tenha no mínimo duas centenas de personagens. Haja criatividade para construir uma narrativa desta magnitude. As descrições dos acontecimentos históricos da Segunda Guerra continuam sendo bem explorados. Além disso, a autora prossegue na apresentação de cada uma das experiências sexuais de Léa Delmas. Se a personagem principal não choca mais o leitor por dividir a cama com vários homens (nos acostumamos com a liberdade sexual da protagonista), aqui a moça torna-se mais experiente. Assim, ela promove algumas inovações nesta área, que podem não agradar os mais conservadores. As viagens de Léa pela França também continuam. A moça vai de um lado para outro (em plena Guerra) com a naturalidade de quem passeia no parque ao lado de casa. O que muda em "Vontade de Viver" em relação ao livro inicial da série é o aumento da violência. A história que iniciou como romântica em “Bicicleta Azul” torna-se agora uma trama de terror. Há cenas fortes e escatológicas de assassinatos, espancamentos, traições, mutilações e estupros, além do detalhamento do que aconteceu com os judeus nos campos de concentração nazistas. Para evitar o progresso alemão, os franceses que ainda combatiam os inimigos também precisaram elevar o tom de violência. Vários atentados são perpetuados pelos revoltosos, tornando a França um verdadeiro barril de pólvora. Como consequência, os partidários da Resistência são duramente perseguidos pelos alemães e pelos seus conterrâneos colaboracionistas. A impressão é que a violência se eleva em um ciclo interminável de barbárie. Cuidado para não apertar muito as páginas desse livro. Há o risco de escorrer sangue por elas. Diante de tanta adversidade, fica evidente, mais do que nunca, o grau de maturidade atingido por Léa Delmas. Ela amadureceu muito ao longo da trama. Ela não lembra em nada a menina tola, fútil e ingênua do início da "A Bicicleta Azul". Agora ela é uma verdadeira heroína. Integrante ativa da Resistência francesa, ela é uma espiã contra o governo alemão. Essa sua inclinação política faz com que ela se torne alvo cada vez mais direto da repressão da SS, a polícia nazista. Ao mesmo tempo em que atua na política do seu país, Léa também é a responsável por cuidar da fazenda da família em Montillac. A moça cuida das finanças à lavoura, colocando a mão na massa. Lendo "Vontade de Viver", lembrei muito de "Amor em São Petersburgo" (Best Bolso), romance do alemão Heinz G. Konsalik. A diferença é que a história de Deforges retrata a guerra contra a Alemanha sob o ponto de vista francês, enquanto na obra de Konsalik a narrativa é feita sob o olhar russo. A guerra é a mesma, o que muda é a geografia do conflito (uma obra se passa na Europa Ocidental e a outro na Europa Oriental). Também é possível, durante a leitura, se lembrar de "E o Vendo Levou..." (Best Bolso), de Margaret Mitchell. Neste caso, Léa pode ser comparada a Scarlett O'Hara (só que uma Scarlett muito mais ousada e lasciva). Régine Deforges, inclusive, faz menção à obra da norte-americana nos três livros da série, mostrando que se inspirou efetivamente nela. Um detalhe que não pode passar despercebido pelos leitores é em relação aos sentimentos amorosos de Léa. Aqui, ela continua apaixonada por Laurent d'Argilat. O amor platônico se transforma em algo mais carnal. Os dois chegam a fazer sexo, consumando a traição à Camile. Porém, a jovem Delmas também está apaixonada por François Tavernier. Se no primeiro livro ela fazia sexo com ele e aceitava sua companhia porque não tinha mais ninguém interessante ao seu lado, agora a questão muda. Ela se joga nos braços de François porque sente algo forte por ele, apesar de não admitir isso ou de não compreender essa alteração em seus sentimentos. Se em "A Bicicleta Azul" o coração de Léa era 90% de Laurent (sendo apenas 10% de François), em "Vontade de Viver", ele está dividido igualmente. Pode-se declarar um empate técnico: 50% para Laurent e 50% para François. Muitos leitores (geralmente o público masculino) e alguns críticos literários se aborrecem com Régine Deforges pelo hábito da francesa em descrever detalhadamente as roupas das personagens e os cardápios das refeições realizadas no livro. Sinceramente, isso não me incomodou tanto. Apesar de não apreciar este tipo de aspecto da narrativa, compreendo que tais elementos possam ser importantes para alguns leitores (no caso, leitoras) e, principalmente, para a autora. Como a personagem principal é uma jovem de aproximadamente 20 anos (sonhadora e vaidosa), é natural que se queira mostrar o que ela usava e vestia. Em relação ao cardápio, os protagonistas da trama passaram fome (estamos em período de guerra, lembre-se!). Por isso, me parece natural explicar a alegria que sentiam quando estavam comendo algo diferente do habitual (ou simplesmente quando conseguiam matar a fome e a sede). Léa, no caso, tinha um apetite voraz, chamando a atenção de todos pela sua gula. "Vontade de Viver" é um bom livro. Se você gostou do anterior, “A Bicicleta Azul”, irá gostar com certeza deste. Gostando de ambos, arrisco a dizer que você irá ler “O Sorriso do Diabo”, a parte derradeira da famosa trilogia de Régine Deforges. A análise de “O Sorriso do Diabo” ficará para quinta-feira desta semana. Não perca o próximo post do Desafio Literário. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RégineDeforges #LiteraturaFrancesa #Romance #RomanceHistórico #Drama

  • Exposições: Henri Cartier-Bresson, Primeiras Fotografias

    Na semana passada, fui à recém-inaugurada Galeria de Fotos do Centro Cultural da FIESP. A exposição em cartaz na unidade da Avenida Paulista se chama "Henri Cartier-Bresson, Primeiras Fotografias". A mostra inédita no Brasil traz setenta imagens do período inicial da carreira do mais celebrado fotógrafo do século XX. As fotografias em preto e branco retratam as impressões obtidas pelo artista durante suas primeiras viagens pelo mundo. Entre 1932 e 1935, Cartier-Bresson visitou cidades na França, Itália, Espanha, Inglaterra e México. Entre obras clássicas e inéditas, podemos verificar em "Henri Cartier-Bresson, Primeiras Fotografias" o caminho artístico construído pelo francês. A curadoria da exposição ficou a cargo de João Kulcsár. Henri Cartier-Bresson é um dos mais influentes fotógrafos da história. Nascido em 1908 em uma rica família do interior francês, ele revolucionou a fotografia. Considerado o precursor do fotojornalismo, Cartier-Bresson ajudou a conferir status de arte à atividade de captar imagens pelas máquinas. Depois de se aventurar pela pintura na juventude, ele embarcou no ofício de fotógrafo, em 1931, levando consigo conceitos da arte plástica. "Para mim, a fotografia era um meio de pintar" disse certa vez. Mais tarde, o francês foi um dos fundadores da Magnun, a maior agência de fotografia do mundo. Grande parte do estilo fotográfico de Henri Cartier-Bresson que impressiona até hoje os admiradores de sua arte já estava presente nos primeiros trabalhos do fotógrafo. Não é errado afirmar que o artista consolidou sua forma de fazer fotografia exatamente no período de 1932 a 1935. Nesta época, Cartier-Bresson produziu uma das mais originais e contundentes narrativas visuais da história fotográfica. A exposição mostra com brilhantismo a preocupação geométrica de Cartier-Bresson. É possível ver como a perspectiva e o intenso jogo de luzes (claro e escuro) foram fundamentais para a constituição de suas imagens. Estão ali também: a preocupação social, a disparidade econômica da Europa entre guerras, a sensualidade da mulher, o contrateste entre dinamismo (movimento das imagens) e imobilismo (imagem parada), a diversidade cultural (principalmente no México), o retrato urbano e a inocência da infância. As imagens de Henri Cartier-Bresson são capazes de transmitir fortes emoções. Sua força dramática permite viajarmos pelo mundo sentimental de pessoas e de cidades. As fotos constroem narrativas emocionantes de lugares e épocas eternizadas pelo olhar humano. Ao mesmo tempo, as fotos do artista transbordam em ideologia. O discurso político-social de Cartier-Bresson também pode ser evidenciado nos detalhes das fotografias. Repare nas poses das pessoas, em seus olhares, na constituição dos cenários e no ângulo da câmera. Uma das fotos mais famosas do fotógrafo francês está presente na exposição. O homem pulando a poça de água é um ícone cultural do século XX. É emocionante vê-la pessoalmente. Outras imagens célebres são o homem andando de bicicleta ao lado da escada (mais ou menos) espiralada, o senhor com nariz grande olhando a cidade entre tapumes, as crianças brincando à frente de uma parede com buracos quadrados e o homem de casaco e cartola em uma rua com árvores desfolhadas. É incrível imaginar que essas fotos foram feitas com antigas versões da câmera Leica. Apesar de elas darem alguma agilidade e mobilidade ao fotógrafo, não podemos nos esquecer da dificuldade para se produzir imagens em uma época onde havia filmes fotográficos e as máquinas não tinham grandes recursos tecnológicos. Foi com suas Leica que Cartier-Bresson andava pelas cidades do mundo em busca do "Momento Decisivo", seu conceito para o instante ideal de obter a fotografia perfeita. Além da exposição das imagens, a mostra também apresenta um pequeno documentário em vídeo e permite aos visitantes exercitarem o seu lado fotógrafo. O curta-metragem trata das características gerais das obras e dos aspetos da carreira de Cartier-Bresson. Já o exercício prático incentiva o público a fotografar a Avenida Paulista segundo os conceitos do "Momento Decisivo" elaborados pelo fotógrafo francês. "Henri Cartier-Bresson, Primeiras Fotografias" é uma exposição muito interessante. Ela permite ao visitante conhecer um importante capítulo da fotografia do século XX. Galeria de Fotos do Centro Cultural da FIESP fica localizada na Avenida Paulista, 1.313. Ela abre todos os dias entre às 10h e 20h. A entrada é gratuita. A mostra ficará em cartaz até o dia 25 de junho. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook.. #Exposição #Mostra #Fotografia #HenriCartierBresson

  • Livros: A Bicicleta Azul - O grande sucesso de Régine Deforges

    Na semana passada, li os três livros originais da série "A Bicicleta Azul", o maior sucesso editorial de Régine Deforges. Essa trilogia é composta por "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), "Vontade de Viver" (Best Bolso) e "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso). As obras foram publicadas, respectivamente, em 1981, em 1983 e em 1985. Essa coleção narra a história de Léa Delmas, uma jovem francesa que é obrigada a amadurecer abruptamente, deixando a vida adolescente e migrando para o mundo adulto. O motivo é a eclosão da Segunda Guerra Mundial, que devastou a França entre o final da década de 1930 e a primeira metade da década de 1940. É esse o período histórico retrato pela trama. Enquanto sofre com as restrições e os perigos impostos pelo conflito armado, Léa descobre o prazer do sexo, desvendas os enigmas do amor e investe na defesa dos seus ideais sociais e políticos. O sucesso da série foi retumbante. Os livros da trilogia atingiram a marca de milhões de unidades vendidas na França e no mundo, transformando sua autora em best-seller internacional. Desta maneira, nas duas últimas décadas do século XX, Régine Deforges deixava de ser uma escritora polêmica e conhecida apenas pela abordagem erótica das suas narrativas para ser vista também como uma romancista bem-sucedida e popular. Para aproveitar o êxito comercial da série "A Bicicleta Azul", Régine Deforges deu continuidade à trama de sua personagem mais famosa ao final da trilogia. Assim, as aventuras de Léa Delmas estendem-se para fora da França em mais sete publicações. A bela protagonista vivenciou momentos marcantes da história em outras regiões do planeta nos livros: "Tango Negro" (Best Seller), "Rua da Seda" (Best Seller), "A Última Colina" (Best Seller), "Cuba Livre!" (Best Seller) e "Argel, Cidade Branca" (Best Seller). "Les Généraux du Crépuscule" e "Et quand viendra la fin du voyage", o nono e o décimo livro, ainda não foram traduzidos para o português. O lançamento da primeira obra desta nova fase é datado de 1991, enquanto a última é de 2007.. Em "Tango Negro", Léa e François Tavernier (o inseparável parceiro da protagonista) viajam para a Argentina para combater os nazistas que por lá tentam se esconder após o término da Segunda Guerra. Em "Rua da Seda" e "A Última Colina", o casal vai parar o Vietnã, em plena guerra de independência do país asiático. Na sequência, Léa e François partem para Cuba em plena revolução comunista ("Cuba Libre!) e para a Argélia na época da guerra de independência da nação africana ("Argel, a Cidade Branca"). A dupla realmente gosta de uma confusão, hein?! Por ora, vou me ater à série original da "A Bicicleta Azul", composta pelos três primeiros livros da coleção. Neste post, comentarei o primeiro livro da trilogia. Nos próximos dias, analisarei também, em posts específicos, as obras "Vontade de Viver" e "O Sorriso do Diabo". Para o Desafio Literário de 2017, não iremos estudar os livros da extensão da série, publicados ao longo da década de 1990 e no início dos anos 2000. "A Bicicleta Azul" (o livro) se passa entre 1939 e 1942, os anos iniciais da Segunda Guerra Mundial. Em Montillac, no interior francês, Léa Delmas é a filha do meio de ricos proprietários rurais. A moça de 17 anos é muito bonita e é cortejada pela maioria dos rapazes da localidade. Ela, porém, é apaixonada por Laurent d'Argilat, filho de outro proprietário de terras da localidade. O problema é que o rapaz está de casamento marcado com Camile, prima dele. Com o início da Guerra, Laurent é enviado para a linha de frente do combate. Antes, ele se casa às pressas com a prima em Paris. Léa, então, vive em constante angústia: teme a morte do amado nas batalhas e continua tentando seduzi-lo, não se importando em desempenhar o papel de amante. Além disso, a jovem ainda precisa cuidar de Camile, grávida. Assim, a adolescente vive entre Paris (residência de Camile) e a fazenda em Montillac (casa de sua família). Apesar de continuar apaixonada por Laurent, Léa se envolve amorosamente com outros parceiros. Um amigo dela em Paris, François Tavernier, é o homem que tira sua virgindade. É com ele que a jovem vai para a cama quando está na capital francesa. Em Montillac, o parceiro amoroso da moça é outro, Mathias Fayard, filho do administrador da fazenda. Ou seja, os dois rapazes servem para consolar a adolescente pelo fato de ela viver longe de Laurent. Enquanto tem suas primeiras experiências sexuais, Léa Delmas precisa encarar os perigos concretos da guerra, cada vez mais violenta e próxima. Os alemães invadem a França e se aproximam de Paris. A adolescente, encarregada de cuidar da gravidez de Camile, precisa proteger a esposa do homem que ama, tirando-a da capital. As duas moças viajam sozinhas até Montillac, cruzando o país pelas estradas francesas em meio ao bombardeiro aéreo alemão. "A Bicicleta Azul" é um ótimo livro, que consegue cativar os leitores. Suas 490 páginas apresentam uma trama recheada de personagens contraditórias, conflitos que obrigam a protagonista a viajar constantemente e um fidedigno retrato do período histórico no qual a narrativa é ambientada. Este último elemento é o que mais gostei do romance. O panorama histórico é o que dá charme ao livro. Régine Deforges consegue retratar com propriedade o drama e os desafios do período inicial da Segunda Grande Guerra. Somos levados à França pré-invasão alemã. Diante dos nossos olhos, passam fatos históricos e personagens reais (tanto do cenário político como do cultural). É uma delícia viver os acontecimentos deste período (por mais tristes que sejam) e verificar como eles impactam a vida das personagens comuns na ficção. Outro elemento marcante do romance é a constituição da personalidade da protagonista. Léa Delmas, com apenas 17 anos, é uma moça à frente do seu tempo. Ela é decidida, independente e corajosa. A jovem é tão destemida que aprende a dirigir carros, mesmo não tendo idade para adquirir uma carteira de motorista. Vale lembrar que na década de 1930, não era comum uma mulher se prontificar a tal tarefa. Léa não apenas sabe dirigir como vê com naturalidade o fato de estar ao volante durante uma viagem pelas estradas do país em plena guerra. Durante a trama, ela está sempre indo de um lugar para outro, sem temer os perigos e a opinião alheia. Ciente da sua beleza, Léa também provoca os homens por onde passa, não vendo problema em fazer sexo com vários parceiros, sejam eles casados, funcionários da fazenda do pai ou possíveis espiões do governo inimigo. Neste sentido, chama a atenção logo de cara o tom liberal da sexualidade de Léa. É importante ressaltar que estamos falando de uma personagem de Régine Deforges, a primeira autora europeia moderna a tratar com naturalidade a sexualidade feminina na ficção. Deforges se tornou conhecida por produzir contos eróticos e por introduzir em seus romances cenas de sexo. O livro "A Bicicleta Azul" não é, obviamente, tão parecido com a série "Cinquenta Tons de Cinza", da inglesa Erika Leonard James, que explora intensamente os momentos libidinosos. Nas narrativas da francesa, o sexo acontece naturalmente e sem preconceitos. Se Deforges descreve com mais detalhes esse tipo de momento que os livros tradicionais (dando algumas linhas ao ato sexual e ao prazer sentido pelas personagens), ela, contudo, não avança nos pormenores como nos romances de James. Não é à toa, portanto, que as cenas inicial e final do livro sejam tão parecidas e envolvam sexo. Esses trechos da trama são simbólicos e representam a conclusão de um ciclo narrativo/dramático. Léa está no estábulo da fazenda do pai, deitada nua no feno, com um parceiro amoroso. Em cada um desses dois momentos, o parceiro é um homem diferente. Ela quer muito fazer sexo com eles. Se no começo do livro, a jovem não consegue, no desfecho do romance ela é bem-sucedida em sua empreitada. Além disso, essas cenas (casal no estábulo deitado no feno) se tornaram, com o passar das décadas, uma marca erótica da cultura ocidental. O amadurecimento da protagonista, ao longo da história, não é apenas sexual. Léa começa e termina o livro muito jovem. Porém, se no começo ela era uma menina fútil, mimada e sonhadora, no encerramento da trama ela se transforma em uma mulher que comanda a família com pulso firme. A "nova personagem" é engajada politicamente, consciente das adversidades da vida e ciente do seu papel na sociedade francesa. Mesmo François Tavernier, em seu discurso no último capítulo, não vendo diferença entre a Léa inicial e a do final da trama, o leitor reconhece o processo de evolução psicológica que moça sofreu ao longo da história. Neste caso, é marcante a transformação de Léa de uma menina simples do interior do país em uma importante espiã francesa com atuação nacional. Se as ações de "leva e traz" de documentos e informações para os revoltosos da Resistência à Ocupação Alemã é um tanto forçada no começo da trilogia, pelo menos essa particularidade confere dinamismo e emoção à narrativa. O principal ponto negativo de "A Bicicleta Azul" é a artificialidade dos encontros das personagens durante o romance. No meio da guerra, as personagens vivem se esbarrando nos lugares mais pitorescos possíveis. "Nossa! Você por aqui?" é uma frase comum. O ápice disso ocorre na viagem de carro de Léa e Camile pela França bombardeada. No trajeto difícil e perigoso, a protagonista encontra vários amigos no meio do tiroteio alemão. Ela, inclusive, tem tempo para fazer sexo com um deles, como se as bombas inimigas não passassem de um detalhe no cenário. Quem lê o livro pode pensar, vendo esses encontros constantes, que a França é uma cidade pequena do interior e não um país de grandes dimensões. O desfecho do romance é interessante e simbólico. Mesmo não sendo um final concreto (a história segue em suspense - o que pode frustrar quem não deseja se aventurar pelo restante da trilogia), ele representa o fechamento de um ciclo na vida de Léa. Após este primeiro romance da série, a Srta. Delmas deixa de ser uma menina e passa a ser uma mulher de fato. A morte do pai e da mãe (ausência das figuras paternas), a iniciação sexual (biologicamente, ela torna-se adulta), a fuga da irmã mais velha (que deveria assumir, naturalmente, a liderança da família) e a necessidade de comandar a fazenda (função que a transforma agora na matriarca da família) significam o amadurecimento efetivo da jovem. Na semana que vem, analisarei aqui no Blog Bonas Histórias o livro "Vontade de Viver", a segunda parte da série "Bicicleta Azul". Não perca. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RégineDeforges #LiteraturaFrancesa #Drama #Romance #RomanceHistórico

  • Filmes: Amor.com - A decepção romântica do cinema nacional

    A ideia parecia excelente. Lançar um filme romântico na véspera do Dia dos Namorados. O nome do longa-metragem não poderia ser mais sugestivo: "Amor.com" (2016). Unia-se, assim, o romantismo tão em voga nesta época do ano com o debate sobre o universo das relações virtuais, um tema cada vez mais sério e contemporâneo. Para angariar a presença do público masculino, sempre reticente em ver uma produção melosa, nada melhor do que escalar a belíssima Isis Valverde no papel principal (meninas, não fiquem com ciúmes, por favor!). Duvido que algum namorado fosse recusar um programa assim com sua amada. Os encantos valverdianos são capazes de amolecer até mesmo os corações mais insensíveis dos marmanjos. Digo isso por experiência própria. Só aceitei ver o filme porque a atriz principal era a Isis. Se você outra (essa frase não vale para Scarlett Johansson, ok?) iria repensar minha decisão. Como disse, a ideia parecia excelente... Parecia! Na teoria uma maravilha. Na prática, porém, uma decepção. Como diria minha avó nestas ocasiões: "Por fora bela viola. Por dentro, pão bolorento". O problema para os casais de namorados que queiram ir ao cinema é que o filme é ruim. Muito fraco mesmo! Daquele em que você dorme durante boa parte da sessão. Se você não estiver com muito sono, irá pedir ajuda aos Deuses para o tempo passar mais depressa e você conseguir fugir da sala de cinema. Anita Barbosa ficou encarregada da direção de "Amor.com". Este é seu primeiro trabalho nesta posição. Até então, ela só havia trabalhado no cinema como assistente de direção de Daniel Filho e Paulo Fontenelle. O roteiro é do trio Saulo Aride, Bruno Garotti e Leandro Mato. O casal de protagonistas é interpretado por Isis Valverde e Gil Coelho. "Amor.com" trata do relacionamento pouco convencional de Katrina (Isis Valverde) e Fernando (Gil Coelho), dois vlogueiros completamente diferentes um do outro. Trata-se de um bom exemplo do famoso ditado "os apostos se atraem". Ela tem um vlog que aborda aspectos da moda feminina e que atrai milhões e milhões de seguidoras (e patrocinadores, por consequência). Katrina, portanto, navega no universo da futilidade e da aparência a qualquer preço. Fernando, por sua vez, tem um canal sobre videogames acessado por meia dúzia de gatos pingados. Assim, ele é do tipo nerd sem graça e pobretão. Katrina e Fernando se conhecem por acaso. O rapaz é chamado para ajudar um lojista com problemas em seus computadores. O sistema de informática do estabelecimento caiu justamente no dia de um grande evento. Katrina, uma das personalidades mais famosas do mundo da moda, está neste evento como a principal convidada. A moça descobre, neste momento, que um ex-namorado acabou de publicar na Internet algumas fotos suas. Nessas imagens, a jovem aparece pelada. Katrina se desespera e pede ajuda para Fernando. O rapaz consegue evitar a propagação das fotos. Como consequência, ambos se apaixonam. Trata-se de uma união nada convencional. Ela é a fútil desmiolada e rica e ele é o nerd introspectivo e pobretão. Iniciado o romance, começa o maior desafio de ambos. Eles precisam superar as diferenças e a desconfiança alheia. "Como uma moça bonita e bem-sucedida se sujeita a ficar com um pé-rapado como aquele?" é a pergunta que todos se fazem. As características tão distintas entre os protagonistas são o mote para várias cenas e situações que eles têm de enfrentar ao longo do filme. "Amor.com" é talvez o filme mais fraco que assiste neste ano. Seu principal defeito está em seu roteiro pobre e sem graça. Ele não tem nada de especial. Nada! O mundo das personalidades da Internet é algo corriqueiro e não representa nenhuma novidade para o espectador. Além disso, não há quase nenhuma cena realmente cômica no longa-metragem inteiro. Não me recordo, por exemplo, de ter rido uma única vez ao longo dos noventa minutos de produção. Por isso, não podemos classificá-lo como sendo uma comédia-romântica. Eu pelo menos me recuso a fazer isso, apesar da divulgação do filme apontá-lo como um. Para mim, "Amor.com" é um romance ruim. Se fosse encará-lo como uma comédia-romântica, diria que ele é péssimo. O único ponto que salva o filme é a atuação esplendida de Isis Valverde. Não falo isso apenas pela beleza exuberante da moça (e põe beleza nisso!). Ela também é uma atriz talentosíssima, uma das melhores de sua geração. Isis consegue pegar pequenos papéis e transformá-los em personagens riquíssimos. Veja o que aconteceu, por exemplo, com Suelen, em "Avenida Brasil" e Rakelly, em "Beleza Pura", duas participações bem-sucedidas na televisão. A atriz também sabe sustentar papéis maiores e mais complicados. Maria Lúcia em "Faroeste Caboclo" (2013), filme de René Sampaio, e mais recentemente Ritinha, em "A Força do Querer", telenovela de Glória Perez, são provas concretas do seu talento tanto no universo cômico como no dramático. Neste sentido, dá dó em ver a tentativa de Gil Coelho em interpretar o nerd Fernando. Talvez o rapaz não seja um ator ruim. Seu problema está na comparação que o expectador do filme faz ao vê-lo ao lado da excelente Isis Valverde. Aí, o resultado é desleal para ele. Gil simplesmente não convence em seu papel. Assim, o casal da trama também não convence ninguém. Falta química entre eles. A situação é tão vexatória que acabamos não torcendo por eles com a intensidade que deveríamos. Em alguns momentos, chegamos a pensar que o melhor seria o casal se separar e viver cada um a sua vidinha. "Amor.com" é bem filmado. Neste sentido, não se pode reclamar. O filme tem ótima fotografia e uma trilha sonora razoável. Seu problema mesmo é a trama pouco inspiradora e nada criativa. Isso fica evidente quando analisamos o roteiro na perspectiva dos personagens secundários. Não há um personagem verdadeiramente interessante ao redor de Katrina e Fernando. Nenhum! Os amigos e colegas deles são muito caricatos e totalmente previsíveis. Com isso, temos uma enxurrada de clichês. O filme é tão previsível (e bota previsível nisso!) que muitas vezes já sabemos, no início da cena, o que irá acontecer em seu final. Chega até a dar raiva. "Será que os roteiristas eram amadores?" pensei durante a sessão. Se você está pensando em passar este 12 de junho com seu(sua) namorado(a) no cinema, é melhor pensar em outra opção para vocês assistirem. O único caso em que esta produção é aconselhável é se seu relacionamento está chato, tedioso, complicado ou em uma fase decadente. Nestes casos específicos, "Amor.com" pode ajudar, sendo uma boa alternativa. Você terá a certeza, ao final do longa-metragem, que há casais com mais problemas do que os seus e namorados muito (muito mesmo) mais chatos também. Na certa, você achará seu relacionamento ótimo e seu parceiro uma maravilha. Veja o trailer de "Amor.com": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: A Revolta das Freiras - Romance histórico de Deforges

    No início do ano de 1981, Régine Deforges não era uma escritora tão renomada em seu país. Naquele momento, ela era vista pelo mercado editorial francês mais como uma editora (empresária) do que uma autora ficcional (artista das letras). Ou seja, no papel de escritora, Régine ainda buscava afirmação perante os leitores. É verdade que ela já tinha publicado algumas novelas e ensaios. Porém, nenhum havia alcançado um grande êxito comercial. Seus maiores sucessos até ali estavam concentrados nos seus polêmicos contos eróticos, que dividiam opiniões. Tinha quem os adorasse e tinha também aqueles que abominavam este tipo de literatura. Nesse contexto, Régine Deforges lançou, em 1981, o romance "A Revolta das Freiras" (Best Seller). Esse livro marcou uma etapa importante na construção da sua carreira autoral. Pela primeira vez, a francesa deixava os gêneros narrativos curtos (contos, novelas e ensaios) e publicava uma trama mais robusta. Além disso, é possível notar que os principais aspectos estilísticos da autora já estavam consolidados quando "A Revolta das Freiras" chegou às livrarias. A publicação é muito parecida, por exemplo, ao livro “Sob o Céu de Novgorod”, de 1989, e possui muitos pontos em comuns à série "A Bicicleta Azul", o maior sucesso da francesa que também foi lançado na primeira metade da década de 1980. "A Revolta das Freiras" conta a história de Vanda, uma jovem bonita, destemida, amante da liberdade e apaixonada pela natureza. A trama se passa no começo da Idade Média, mais especificamente no século VI. O cenário é onde hoje é o território francês, que na época era composto por vários pequenos reinos independentes e em busca de consolidação. Trata-se, portanto, de um momento da história francesa com grande instabilidade política, elevado número de guerras, intensos conflitos sociais e forte domínio da Igreja Católica. O romance é inspirado em fatos e pessoas reais. Muitos personagens foram retirados diretamente dos livros de história para compor esta narrativa. Outros, por sua vez, são criações ficcionais da autora. Parte da graça do livro está nessa mistura muito bem arquiteta entre realidade e invenção. Por exemplo, Vanda, a protagonista, é uma personagem fictícia. Por outro lado, sua mãe adotiva, a rainha Radegondes, existiu de verdade e teve sua vida retratada, ao longo do livro, com boa dose de liberdade criativa por parte de Régine Deforges. Vanda, a personagem principal, perdeu sua família quando tinha dois anos de idade. Sua mãe foi atacada no meio da floresta enquanto viajava pelas estradas do país. A filha, que estava junto no momento do ataque, acabou poupada. Porém, ficou largada sozinha no meio da mata. Sem nenhum homem ou mulher para cuidar do pequeno bebê, ele padeceu de fome, frio e sede por alguns dias. Assim, uma mãe loba, que acabara de dar à luz a cinco filhotes, adotou a criança. A partir daí, Vanda passou a viver com a mãe loba e seus irmãozinhos. A floresta era sua casa e os animais selvagens eram sua nova família. A menina mamava diretamente na loba e era alimentada pela sua "mãe adotiva". Além disso, a criança passava o dia a brincar com os lobinhos. Rapidamente, Vanda criou uma forte ligação com os animais, se sentindo uma legítima integrante daquela matilha. Algum tempo depois, um camponês gaulês, Romulf, em viagem pela estrada encontrou o bebê vivendo no meio dos lobos. Aterrorizado com o que presenciou na floresta, Romulf retirou a criança daquele ambiente que julgou inóspito e a levou para um convento. Vanda foi entregue aos cuidados das freiras locais. A menina foi adotada pela rainha Radegondes, que desde a separação do rei vivia no monastério. Vanda tornou-se, assim, filha adotiva de Radegonges e do camponês Romulf. Quando cresceu, Vanda sofria com o preconceito das freiras do convento. Sua forte ligação com os lobos era vista como um problema por quase todo mundo dentro da instituição religiosa. Até mesmo os moradores do povoado viam a moça com desconfiança. A jovem gostava de andar pela floresta e conversava com sua família de lobos. Os animais selvagens a obedeciam incondicionalmente. Para as religiosas, isso deveria ser coisa do demônio. Para Vanda, essa peculiaridade era algo natural de quem fora criada entre a matilha. Contudo, o problema maior da protagonista era outro. Ao mesmo tempo em que amava a vida na floresta e a liberdade de uma mulher normal, Vanda precisava lidar com as obrigações e as restrições do ambiente católico. Afinal, ela morava em um monastério e estava sendo preparada para se tornar freira. Sem a menor vocação para a rotina eclesiástica, Vanda não queria viver no convento nem desejava se tornar freira. Sua mãe adotiva sabia disso e não fazia grandes exigências à jovem, deixando-a viver como preferisse. Os dias alegres e de liberdade de Vanda acabaram com a morte da rainha Radegondes. Uma nova freira assumiu o comando do monastério, tornando-se uma ferrenha opositora às vontades da filha dos lobos. A nova madre superior exigiu que Vanda se inclinasse com afinco à vida religiosa. Não querendo este tipo de rotina para si, Vanda se rebelou contra a tirania da inimiga. Muitas noviças seguiram a filha de Radegondes e se opuseram à comandante do convento. Uma grande rebelião se precipitou. Estava iniciada o que o povo chamou de a Revolta das Freiras. Além do aumento das vendas (se comparado aos tímidos resultados precedentes), "A Revolta das Freiras" também ratificou alguns elementos narrativos utilizados em obras anteriores por Régine Deforges. A sexualidade aflorada de suas personagens, a construção de protagonistas embutidas de uma forte ideologia feminista e a linguagem simples e direta renovam-se. Estas características foram vistas, por exemplo, na novela "O Diário Roubado" (Klick), lançada em 1978 e comentada aqui no blog na última terça-feira. Além disso, esse romance serviu de base para o aparecimento de outros elementos estilísticos que seriam amplamente utilizados a partir de então por Régine Deforges (e que marcariam sua literatura para sempre). A preferência pelo gênero romanesco (ao invés das novelas e ensaios), narrativas com níveis extremos de violência, tramas históricas, enredos que misturam realidade e ficção, histórias em que os personagens estão em constante deslocamento (viagens) e romances com elevadíssimo número de personagens são algumas dessas marcas. Se pensarmos bem, esses são os ingredientes de todos os principais sucessos editoriais da escritora. "A Revolta das Freiras" é uma história surpreendente e gostosa de ser lida. A relação da protagonista com os lobos é divertidíssima, emocionando o leitor. Os animais selvagens (considerados irracionais) tornam-se amigos e companheiros da jovem por toda sua vida. Em muitos momentos, os lobos são mais leais e amorosos do que os seres humanos. Os homens, por sua vez, são retratados como traiçoeiros, violentos e muito perigosos. Curiosa esta inversão de valores. Apesar de o fato de uma criança ser alimentada por uma loba na infância parecer uma história um tanto batida e pouco original (o mito de Rômulo e Remo está na mente da maioria das pessoas), Régine Deforges consegue construir uma trama empolgante e criativa. Rapidamente, esquecemo-nos dos irmãos fundadores de Roma e somos seduzidos por Vanda, uma protagonista com fortes elementos narrativos. Vanda é uma típica personagem romântica: bonita, inteligente, sensível, corajosa, honrada, amorosa e aventureira. Ao mesmo tempo, ela é uma mulher à frente do seu tempo. A personagem principal não apenas sabe viver sozinha na floresta como também sabe lutar bravamente contra os homens que ameaçam sua integridade. Ela carrega consigo uma espada e não hesita em apontá-la para alguém. Trata-se de uma mulher independente e decidida. Vanda enfrentará com coragem todos os perigos típicos da Idade Média. Ela precisará encarar diretamente a força da Igreja Católica, uma instituição que durante o século VI era até mais poderosa do que os monarcas europeus. Este romance de Régine Deforges tem uma linguagem direta e simples e um grande dinamismo narrativo. Os acontecimentos se sucedem rapidamente, deixando a leitura ainda mais agradável. O fato das personagens estarem o tempo inteiro na estrada, viajando de um lado para outro, também intensifica essa sensação de celeridade narrativa. Não é à toa que as cenas mais marcantes e importantes do livro acontecem justamente na beira da estrada. A composição do cenário histórico foi muito bem feita. Nota-se, nitidamente, o intenso trabalho bibliográfico por parte da autora para a construção desta trama. Repare nos documentos históricos anexados ao romance, que embasam a ficção e, ao mesmo tempo, não se desvinculam da história verdadeira que aconteceu. É quase impossível saber o que é ficção e o que é realidade neste livro. Para matar a curiosidade do leitor, Régine Deforges montou, ao final da publicação, uma lista completa com o nome de todas as personagens citadas, indicando quem é quem na história e se a pessoa foi real ou é fictícia. Essa ferramenta também é de grande valia durante a leitura. Ao longo das mais de 300 páginas de "A Revolta das Freiras", surgem mais de 150 personagens. Sim, você leu direito: são mais de 150 pessoas! Não há memória humana capaz de guardar tantos nomes. Por isso, a lista no final pode (e deve) ser usada sempre que alguma confusão surgir na cabeça do leitor. Um ponto que chama a atenção é o excesso de violência durante a trama. É preciso estômago forte para encarar os acontecimentos descritos nas páginas do livro. Há todo tipo de violência possível e imaginável. Pense em uma cena forte e aterrorizante. Pensou? Pois acredite: é bem possível que ela tenha sido descrita ao menos uma vez neste romance. Estupros, amputação genital, torturas físicas e psicológicas, sodomia, prisões arbitrárias, assassinatos, suicídios e canibalismo são alguns dos ingredientes de "A Revolta das Freiras". Jovens virgens sendo violentadas na beira da estrada por grupo de homens é algo tão habitual que ocorre praticamente em quase todo capítulo. Chega uma hora que você se acostuma com isso. Seguindo a tendência da novela "O Diário Roubado", o componente erótico é um dos pontos fortes de "A Revolta das Freiras". Apesar da protagonista se manter casta e sem vontades libidinosas durante boa parte da narrativa, os demais personagens se fartam. Eles transam o tempo inteiro. Os homens são descritos como animais ávidos por sexo, independentemente da forma como o ato é praticado e se tiveram (ou não) o consentimento de suas parceiras. Régina Deforges não se furta em descrever as várias cenas de sexo e de estupros que ocorrem durante toda a trama. Ela parece ter certo prazer em apresentar aos leitores esses detalhes. O único ponto falho, em minha opinião, de "A Revolta das Freiras" está em seu desfecho. Ele é muito fraco. Praticamente não há um clímax. A trama toda caminha para o julgamento das freiras revoltosas pelos clérigos responsáveis pela Igreja na França. Imagina-se, portanto, um grande evento no qual as moças serão acusadas e precisarão se defender. Porém, isso não acontece na prática. A sentença final do julgamento é dada, no capítulo final, em uma linha. E no mesmo parágrafo, descreve-se o destino de cada uma das revoltosas. Ou seja, a autora preferiu encerrar o livro ao invés de investir no momento mais dramático da narrativa. É uma pena! A sensação é que a história foi interrompida na melhor parte. Além disso, a cena de sexo de Vanda (afinal, ninguém é de ferro, né?) no momento final da história também me pareceu artificial e incompatível com a personalidade da moça. A jovem, que nunca pensou em transar e nunca se preocupou com sua virgindade, resolveu se atirar nos braços (e em algo mais) do primeiro rapaz que surgiu na sua frente. Sem dúvida nenhuma, ela estava ávida por começar uma nova vida fora do convento... Só não vou dizer com quem ela fez sexo para não estragar a história de quem ainda não leu o livro. Não sou de contar o spoiller, mas adianto que é alguém que o leitor jamais imaginaria. O fato de Vanda transar não tem, obviamente, nada de mais. Ela pode transar onde, como, com quem e sempre que ela quiser. O problema é transformar isso em algo romântico. Vanda nunca demonstrou nenhum sentimento por aquele homem durante todo o livro. E aí, em questões de segundos, já está perdidamente apaixonada por ele. Atrelar o sexo à paixão romântica não combinou com o contexto da trama nem com o estilo de Régine Deforges. Apesar deste deslize final, "A Revolta das Freiras" é um ótimo livro. Não se impressione com sua capa e seu título, claramente antiquados. Eles não retratam o quão interessante é a obra. Terminada essa leitura, vou agora me dedicar ao romance "A Bicicleta Azul" (BestBolso), o maior sucesso da carreira de Régine Deforges. Você é meu(minha) convidado(a) nesta aventura. Leia o livro simultaneamente comigo. Na quarta-feira da semana que vem, dia 14, estarei de volta para comentar este clássico contemporâneo da literatura francesa. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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  • Livros: O Diário Roubado - A adolescência de Régine Deforges

    Comecei a leitura das obras de Régine Deforges pela novela "O Diário Roubado" (Klick). Lançado em 1978, este livro não foi o primeiro da autora. Deforges já havia publicado um ensaio e uma ficção anteriormente. Em 1975, chegou às livrarias francesas "O M'a Dit" (Sem tradução para o português), ensaio em que a francesa apresenta uma série de entrevistas com um importante escritor do seu país. Em 1976, ela lançou "Blanche et Lucie" (Também sem tradução), novela sobre a vida de suas avós. A importância de "O Diário Roubado" para a carreira de Régine Deforges está no fato desta obra ter iniciado o estilo literário que marcaria, anos mais tarde, o portfólio artístico da escritora. Este livro é aquele em que Deforges imprime verdadeiramente sua personalidade. Surgem, neste momento, o feminismo como ideologia e o erotismo como componente literário. Com pouco mais de 100 páginas, "O Diário Roubado" apresenta o drama da adolescente Léone. A moça de quinze anos vive em uma pequena cidade do interior da França durante a década de 1950. É a própria protagonista que narra (em primeira pessoa) a trama. Léone é uma adolescente muito bonita, que chama a atenção da maioria dos rapazes da sua cidade. Todos querem namorá-la. Entretanto, ela já tem uma namorada: Mélie. Mélie é a melhor amiga e colega de escola de Léone. As meninas possuem um romance homossexual há alguns anos. O relacionamento das duas não é assumido publicamente, porém muitas pessoas da cidade percebem aquele envolvimento entre elas. Léone é verdadeiramente apaixonada por Mélie. A recíproca também é válida. As duas iniciaram suas vidas sexuais em conjunto. Apesar de se deliciar com as carícias e com o sexo da parceira, Léone tem curiosidade para saber como é transar com garotos. Ainda virgem (em se tratando de relação com homens), a protagonista tem alguns namoricos com alguns colegas de escola. O principal affair masculino de Léone é Jean-Claude. Às escondidas, os dois se encontram para namorar. Tudo é feito sem o conhecimento (e, principalmente, sem a concordância) de Mélie. Para Mélie, sua namorada é homossexual e não bissexual. Nem mesmo a personagem principal saberia se autodefinir claramente. Ela vive um momento de descobertas e de experimentações. Exatamente quando Léone está quase aceitando fazer sexo com Jean-Claude, a vida da garota sofre uma reviravolta. O diário em que ela narra seus (vários) relacionamentos é roubado por Alain, amigo de Jean-Claude. Alain alega que Léone "humilha" sistematicamente Jean-Claude por preferir a companhia de Mélie ao do amigo. Na cabeça do ladrão de brochuras, é inconcebível uma garota bonita preferir a cama de uma colega do mesmo sexo à cama de um rapaz viril. É o preconceito da conservadora e machista sociedade francesa da década de 1950 se manifestando ardilosamente. Quando o diário de Léone cai nas mãos de Alain, rapidamente os detalhes da vida da protagonista são revelados para a cidade inteira. O rapaz passa a ler os trechos mais picantes do caderno da protagonista em público. Assim, do dia para a noite, a homossexualidade de Léone vira assunto dos moradores locais. O choque é geral. Aos olhos dos habitantes do pequeno povoado francês, a adolescente torna-se uma figura abominável. De moça bonita e encantadora, ela se transforma em uma jovem depravada e ardilosa. Léa passa a ser a vilã da localidade, sendo alvo da ira e da chacota geral. "O Diário Roubado" é uma boa novela. É possível ler este livro em uma única tarde (foi o que fiz no último sábado). Ele consegue prender a atenção do leitor desde o início. Tudo acontece muito rapidamente na primeira parte. Já nas páginas iniciais da narrativa, sabemos quem são os personagens envolvidos nesta história e a problemática que precisará ser resolvida pela protagonista. O texto em primeira pessoa confere mais veracidade à novela. A obra é autobiográfica e foi inspirada em fatos reais vivenciados por Deforges em sua adolescência. A própria autora admitia isso. Quando jovem e morando em uma pequena cidade do interior da França, Régine teve seu diário roubado. Para seu desespero, nesta época, ela estava apaixonada por uma amiga. A fictícia Léone é, portanto, um alter ego da escritora. O que chama mais atenção neste livro é, evidentemente, a ousadia da autora em introduzir uma grande quantidade de cenas de sexo homossexual na história. Léone e Mélie transam regularmente e cada ato sexual das adolescentes é descrito com detalhes picantes. A narradora não se cansa de comentar o que sua parceira faz na cama para dar-lhe prazer. Não é à toa que Régine Deforges é até hoje considerada a maior representante da literatura erótica da França. Além de ter a coragem para detalhar cenas de sexo explícito, ela ainda acrescentou dois outros elementos até hoje polêmicos na literatura: relação sexual entre adolescentes e amor homossexual. A junção destes componentes é que transformou, no final da década de 1970, a história de Léone em uma novela tão explosiva. Na época do seu lançamento, não foram poucas as pessoas do mercado editorial e livreiro que proibiram a venda do livro na França. Naqueles anos, obras literárias como "Cinquenta Tons de Cinza" (Intrínseca) e filmes como "O Azul é a Cor Mais Quente" (La Vie d'Adèle: 2013) não eram benquistos pelo público tradicional. O erotismo era visto essencialmente como algo despudorado e infame, desvinculado totalmente das manifestações artísticas populares. "O Diário Roubado" é, em si, um bom drama. A narrativa é muito simples, porém bem escrita. A linguagem é coloquial e o leitor não encontrará grandes recursos literários utilizados pela autora. Deforges procura simplificar sua história ao máximo, delimitando os personagens em mocinhos e vilões. O maniqueísmo prevalece durante toda a novela e segue imutável do início ao fim. Não espere, portanto, grandes reviravoltas ou surpresas na trama. O principal mérito literário deste livro é jogar luz aos preconceitos da sociedade conservadora do interior da França nos anos de 1950 (preconceitos estes ainda existentes nos dias de hoje em muitos lugares do mundo). Em uma cultura machista e patriarcal, a homossexualidade feminina era encarada, infelizmente, como um desvio de caráter. Repare na indignação da protagonista com a intransigência das pessoas de sua cidade em relação a sua vida particular. Além disso, discutir o desabrochar da sexualidade adolescente e debater os dramas típicos desta fase da vida são sempre bons motes para a ficção. Lembremo-nos de "Quem É Você, Alasca?" (Intrínseca) de John Green, "O Ateneu" (Pinguim) de Raul Pompeia e "O Apanhador no Campo de Centeio" (Editora do Autor) de J. D. Salinger. Todos estes livros abordaram com brilhantismo algum tema juvenil. Apesar da boa história, do belo panorama social e da contundente crítica de costumes, o elemento que torna "O Diário Roubado" único é a sua parte erótica. As várias cenas de sexo conferem um tempero especial à trama de Léone. Atire a primeira pedra quem não se diverte ao saber da intimidade alheia! Para a década de 1970, estas narrativas sexuais, em se tratando de literatura, foram ousadíssimas. Hoje, com a banalização do sexo, seja na televisão, no cinema, na Internet ou na literatura, os momentos a dois (ou seria, momentos a duas?) vividos por Léone e Mélie parecem brincadeiras de criança. O ponto mais amargo do livro é seu desfecho. Fique tranquilo(a) que não vou contá-lo, apenas analisá-lo (não costumo divulgar os spoilers). O final é previsível e, o que é pior, muito condescendente com os preconceitos sociais em voga (algo sempre combatido por Deforges). A autora opta pelo caminho mais conservador. De certa forma, Léone acaba se curvando aos desejos da comunidade da sua cidade natal. Se esta solução parece bem realista, ao mesmo tempo, ela é frustrante. Minha sensação é que Régine Deforges acabou agradando o público conservador com este desfecho. Afinal, ela já havia causado tantas polêmicas durante a história. Ou Régine simplesmente narrou o que efetivamente aconteceu. Como uma obra autobiográfica, o destino de Léone não foi muito diferente do que aconteceu de verdade com a própria escritora. "O Diário Roubado" (Le Cahier Volé: 1992) foi adaptado ao cinema e lançado nas salas de cinema da França em 1993. O longa-metragem foi dirigido e roteirizado por Christine Lipinska. Contudo, o roteiro do filme possui vários pontos distintos se comparado ao enredo literário. Por exemplo, a personagem principal da produção cinematográfica se chama Virginie (e não Léone). Além disso, a garota sonha em ser escritora (ponto inexistente no livro). Na tela, dois amigos e uma amiga de Virginie são apaixonados por ela. No diário que é roubado, a adolescente escreve suas fantasias sexuais que almeja ter com os três parceiros possíveis (na literatura, ela escreve sobre sua vida e sobre seus sentimentos, não sobre seus sonhos). Estas são apenas algumas das diferenças entre o longa-metragem e o livro. Se fosse listá-las todas, faltariam páginas para apontá-las. Existe uma infinidade delas! Não se assuste, portanto, se você achar que está vendo histórias totalmente distintas. Praticamente a trama do filme é uma e a do livro é outra, com apenas alguns pontos que coincidem. Agora que finalizei a novela "O Diário Roubado", posso iniciar a leitura de um romance de Régine Deforges. O próximo livro deste mês do Desafio Literário é "A Revolta das Freiras" (Best Seller). Este é o primeiro romance histórico produzido pela autora francesa, um tipo de gênero que ela abordaria muito ao longo de sua carreira. Vou começar a leitura de "A Revolta das Freiras" agora mesmo e, no sábado, eu retorno ao blog para comentá-lo. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RégineDeforges #LiteraturaFrancesa #Novela #Erotismo #Drama

  • Filmes: Corra! - Um terror original e inteligente

    Há quem diga que os filmes de terror são, na maioria das vezes, muito parecidos. Para os adeptos dessa teoria, as tramas deste gênero giram sempre em torno de uma residência assombrada, uma alma penada que invade corpos inocentes, rituais ou jogos fantasmagóricos feitos por adolescentes, bonecas demoníacas que ganham vida, crianças enigmáticas, vídeos perturbadores e serial killers que atacam jovens em viagens de férias. Até mesmo eu, que sou um grande fã deste tipo de produção, preciso admitir certa dose de verdade nesta avaliação. É muito difícil fugir destes estereótipos quando se analisa as opções que entraram em cartaz nos cinemas nos últimos anos. Por isso, foi com alegria e (admito) surpresa que, na semana retrasada, saí da sessão de estreia de "Corra!" (Get Out: 2017). Este thriller psicológico é extremamente original e inteligente. Apesar de ter sido produzido com um orçamento baixíssimo para os padrões de Hollywood (aproximadamente US$ 4,5 milhões), o resultado final de "Corra!" é empolgante. Não é à toa que o longa-metragem recebeu muitos elogios da crítica e teve uma boa bilheteria nos países onde já foi lançado. Seu faturamento até o momento está na casa dos US$ 180 milhões. Um lucro nada desprezível para seus produtores, hein? "Corra!" marcou a estreia na direção do ator cômico Jordan Peele. Admito que é surpreendente, em um primeiro momento, vê-lo se aventurando (e sendo bem-sucedido) pelos caminhos do suspense e do terror. Não deve ser nada fácil para alguém famoso nos palcos de stand-up comedy migrar para o drama na telona. Peele também foi o responsável pelo desenvolvimento do ótimo roteiro do filme. O elenco foi composto essencialmente por atores e atrizes novatos (Daniel Kaluuya, Caleb Landry Jones e Lil Rel Howery), estreantes (Allison Williams) e do segundo escalão do cinema norte-americano (Catherine Keener e Bradley Whitford). Com uma hora e quarenta e cinco minutos, "Corra!" foi filmado muito rapidamente. As gravações ocorreram em menos de um mês nas cidades de Fairhope e Mobile, no Alabama. A velocidade de produção e a escolha do set de filmagens, assim como a escalação de atores desconhecidos do grande público, se deram pelo baixo orçamento que Jordan Peele teve à sua disposição. Curiosamente, as limitações causadas pela baixa verba não se fazem notar durante a sessão. Neste quesito, o trabalho do diretor é impecável. O filme foi muito bem produzido e seu roteiro consegue criar uma forte tensão no expectador. Tirando um ou outro detalhe técnico (especificamente no quesito efeito visual), a impressão do público é que "Corra!" esteja mais próximo de uma superprodução do que de um filme independente. O enredo deste longa-metragem se passa em um final de semana. Chris Washington (interpretado por Daniel Kaluuya) é um jovem negro que namora Rose Armitage (Allison Williams), uma moça rica e branca. Depois de cinco meses juntos, o casal decide viajar para a casa de campo da família dela, localizada em uma região remota. Aproveitando o encontro, Rose irá apresentar pela primeira vez o namorado negro aos pais, Missy e Dean Armitage (Catherine Keener e Bradley Whitford, respectivamente). Antes da viagem, Chris fica preocupado com a receptividade dos sogros, mas a moça demonstra muita tranquilidade. Ela afirma que seus pais não são racistas. "Ele inclusive votou no Obama", revela a jovem otimista. Ao chegar à residência dos sogros, o namorado se sente desconfortável. Há algo de muito estranho naquele local e com aquela gente. O Sr. e a Sra. Armitage tentam ser cordiais e simpáticos com Chris, mas acabam sempre assustando o convidado com seus atos e com comentários enigmáticos. Os funcionários da casa são um caso à parte. Eles são todos negros e parecem um tanto robóticos. O visitante fica, então, em dúvida se ele está sendo paranoico com os anfitriões ou se realmente está correndo perigo ao visitar àquelas pessoas tão esquisitas. O clima do filme é de total tensão. A plateia fica nervosa do início ao final de "Corra!". É impossível piscar os olhos da tela enquanto não descobrimos o que está se passando naquela estranha casa do interior dos Estados Unidos. E uma vez descoberto o enigma central da histórica, a trama só aumenta em dramaticidade. Ou seja, prepara-se para quase duas horas de fortes emoções. Na primeira metade da sessão, "Corra!" é mais um longa-metragem de suspense psicológico do que de terror. Afinal, queremos porque queremos compreender os enigmáticos acontecimentos vivenciados por Chris. Uma vez revelado o segredo do filme, a narrativa muda totalmente de patamar. Ela passa, a partir daí, a ser mais efetivamente um terror. Não faltam cenas e momentos de sustos e de medo. A maioria destas sensações é provocada mais pelo estado de espírito de tensão do expectador do que por instantes realmente decisivos ou de perigos sofridos pelo protagonista. O principal ponto positivo de "Corra!" é seu roteiro muito bem construído. Juro que não sei se Jordan Peele está melhor como diretor ou como roteiristas. Nas duas funções, ele está primoroso nesta produção. A trama é muito bem costurada do início ao fim e foi muito bem executada no vídeo. Cada personagem, cada cena e cada situação, por mais banais que possam parecer em um primeiro momento, têm funções relevantes para o contexto da história. Nem mesmo a falta de verossimilhança no segredo da família Armitage (diria que ele é um tanto escrachado) nem a atuação limitada de alguns atores secundários prejudica o filme. Gostei também das sucessivas reviravoltas na trama ocorridas na sequência final do longa-metragem. Quando pensamos que "Corra!" irá terminar com a "vitória" de um dos lados, somos imediatamente surpreendidos, mudando nossa opinião. E, aí, novas surpresas acontecem e outras mais aparecem, o que altera nossa expectativa pelo desfecho. Só é possível precisar a "vitória" na última cena. Antes disso, não queira fazer prognósticos antecipados. A boa trilha sonora, a temática diferenciada (é raro alguém abordar o racismo sob a perspectiva do filme), o contraditório clima de leveza e tensão da narrativa e algumas cenas de humor (principalmente as protagonizadas por Lil Rel Howery, que interpreta um segurança de aeroporto, amigo de Chris) contribuem para tornar "Corra!" uma ótima opção em cartaz. Quem gosta de filmes de suspense e de terror, este é um prato cheio. Além de muito original, ele é muito divertido e inteligente. Veja o trailer de "Corra!": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Terror

  • Desafio Literário de junho/2017: Régine Deforges

    Terminado maio, vamos alterar o foco do Desafio Literário. Se no mês passado analisamos, no Blog Bonas Histórias, as obras e a carreira de Machado de Assis, agora, em junho, a proposta é estudarmos Régine Deforges. Trocamos, portanto, um autor brasileiro do século XIX por uma autora europeia do século XX. Sai o realismo sul-americano e entra o pós-modernismo francês. Deixamos um pouco de lado a literatura feita por um homem e mergulhamos nas obras de uma feminista militante. Esta é a diversidade que tanto gosto do Desafio Literário. Régine Deforges ficou mundialmente famosa durante a década de 1980 e 1990. Por isso, é possível que muitas de suas obras sejam desconhecidas do público mais jovem. Esta característica também prejudica o leitor no momento de procurar os livros da autora no mercado. As publicações de Deforges não estão no catálogo tradicional das livrarias nem das editoras. Alguns títulos possuem apenas edições de algumas décadas atrás. Para comprá-los, é necessário reservá-los às editoras internacionais ou recorrer aos sebos das grandes cidades, um calvário que muitos leitores não estão dispostos a passar. Foi o que vivenciei pessoalmente em maio. Agora, posso dizer que estou com todos os livros que serão lidos ao longo do mês de junho em mãos (ufa!). A história mais famosa de Régine Deforges é a série "A Bicicleta Azul", composta por vários livros. A trilogia inicial da coleção foi escrita na primeira metade da década de 1980 e se tornou um best-seller internacional quase que instantaneamente. A autora também foi uma importante contista. Sua especialidade eram as histórias eróticas. Suas obras neste estilo sofreram com a censura e o boicote das livrarias. O conservadorismo francês nos anos de 1960 e 1970 também atrapalhou muito a escritora no início de sua carreira. Régine era vista como uma despudorada pela sociedade e pelos críticos da época. Apenas muitos anos depois de publicados, os contos eróticos da francesa passaram a ser reconhecidos pelo mercado e pelo público leitor como tendo alguma qualidade. Nascida em 1935, na pequena cidade de Montmorillon, no interior da França, Régine Deforges se mudou para Paris ainda na adolescência. Apaixonada pela literatura, desde cedo trabalhou como vendedora de livros, encadernadora, editora, patrocinadora de bibliotecas públicas e colecionadora de obras literárias. Sua paixão pelo universo da escrita a fez mergulhar de cabeça neste mercado. Em 1968, usando o dinheiro do marido industrial, Régine abriu sua própria editora, a Or du Temps. Essa decisão causou certo alvoroço no mercado editorial francês, que naquele momento não estava acostumado com uma mulher à frente dos negócios. O ambiente machista da época não concebia uma mulher empresária neste ramo de atividade. Além disso, ao apostar em títulos polêmicos (com temáticas eróticas e com enredos feministas), Deforges se tornou persona non grata pelas livrarias. Apesar dos vários inimigos em todos os elos da cadeia de mercado, Deforges conseguiu impor sua marca no universo editorial francês durante a década de 1970. "Irène", por exemplo, um livro erótico do início do século XX, teve sua primeira edição esgotada em menos de 48 horas pela Or du Temps. Contudo, os processos, as multas e a censura da sociedade levaram, ao longo dos anos, a falência da editora de Régine Deforges. Obstinada, a francesa abriu (e fechou) várias outras editoras ao longo de sua vida. Apesar de muito interessante, essa atuação de Régine Deforges como editora e empresária não será analisada neste Desafio Literário. O foco deste estudo está na atuação autoral da escritora. Assim, seu primeiro livro que será investigado é a novela "O Diário Roubado" (Klick), de 1978. Esta obra é autobiográfica e narra o desaparecimento do diário de Léone, uma moça de quinze anos. Léone é a narradora da trama e o alter ego da escritora (que vivenciou algo parecido quando morava em Montmorillon). Nas páginas do seu caderno, a jovem narrava suas primeiras experiências sexuais, inclusive com uma colega de escola. O homossexualismo da protagonista torna-se, assim, o principal assunto na pequena cidade do interior francês. O forte teor erótico da novela também causou certa polêmica na época do seu lançamento. Na sequência, vamos ler "A Revolta das Freiras" (Best-Seller), o primeiro romance histórico de Régine Deforges. A obra foi publicada em 1981. Aqui, a autora mantém as cenas quentes de sexo (comuns em "O Diário Roubado" e em seus contos) e acrescenta dois elementos que marcariam sua literatura: a mistura de personagens e acontecimentos reais à ficção (ambientação histórica) e a construção de uma narrativa com intensa violência. Prepara-se porque vai jorrar sangue para todos os lados... Depois, será lida a trilogia da "A Bicicleta Azul": "A Bicicleta Azul" (BestBolso), "Vontade de Viver" (BestBolso) e "O Sorriso do Diabo"(BestBolso). Os três livros foram lançados, respectivamente, em 1981, 1983 e 1985. Eles representam o que há de melhor na carreira da autora. A trama, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial, se tornou um sucesso mundial. O êxito comercial foi tão grande que Régine Deforges escreveu mais cinco livros contando a continuação das aventuras de Léa Delmas, a protagonista da história. É, portanto, uma série que parece não ter fim... Para encerramos o Desafio Literário, o sexto livro que será lido é “Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira), de 1989. Esse é mais um romance histórico de Régine Deforges com muito sexo, violência e uma narrativa que mistura ficção e realidade. Neste sentido, ele se parece muito com "A Revolta das Freiras". Este é nosso cardápio de leitura para este mês. Confesso que estou excitado para ler Régine Deforges. Enquanto escrevo essas linhas, estou com todos os livros dela diante de mim. Não vejo a hora de começá-los. Para quem está estranhando o fato de eu analisar seis livros (e não os tradicionais cinco como faço normalmente no Desafio Literário), vale aqui uma explicação. A culpa foi da minha empolgação na hora de adquiri-los. Eu errei na contagem e quando vi tinha comprado seis livros ao invés de cinco. Aí, ao invés de descartar um para o Desafio, coloquei todos na lista de leitura. Acredito que não irei me arrepender. Nas próximas semanas, colocarei aqui as análises de cada um desses livros, reservando um post, no último dia de junho, para a discussão completa do perfil literário de Régine Deforges. Não perca os próximos passos do Desafio Literário. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RégineDeforges

  • Exposições: Construções Sensíveis - O Concretismo latino-americano

    Na semana retrasada, fui à Galeria de Arte do Centro Cultural da FIESP, na Avenida Paulista, para conferir a exposição "Construções Sensíveis - A Experiência Geométrica Latino-Americana". As obras da mostra, em cartaz desde 18 de abril, são da coleção Ella Fontanals-Cisneros e possuem a curadoria de Rodolfo de Athayde e Ania Rodrigues. A proposta desta exposição é apresentar o legado das várias vertentes do concretismo e do neoconcretismo latino-americano durante o século XX. Por isso, há obras de artistas brasileiros, argentinos, uruguaios, colombianos, venezuelanos, cubanos e mexicanos criadas desde a década de 1930. Ao todo são 124 peças expostas, abrangendo pinturas, desenhos, obras sobre papel, esculturas, objetos, fotografias e vídeos. Por mais que essas criações sejam independentes e tenham sido criadas em contextos específicos dos seus países, ficam nítidas as influências e os diálogos entre elas. Estão ali os trabalhos criados pelo grupo capitaneado pelo uruguaio Joaquín Torres-Garcia, pelo grupo argentino liderado por Madi, pelos brasileiros Lygia Clark e Hélio Oiticica, pelo colombiano Edgar Negret, pelos mexicanos Mathias Goeritz e Gunther Gerzso e pelo grupo mexicano Diez Pintores Concretos. Destaque também para as fotografias de Thomaz Farkas e Geraldo de Barros e para as criações do movimento da arte óptica e da arte cinética. Quem gosta da rivalidade entre o grupo paulista Ruptura, de 1952, e o grupo carioca Manifesto Neoconcreto, de 1959, irá adorar a seção específica da mostra que se dedica a apresentar as diferenças e as semelhanças destas duas concepções artísticas. O resultado é um show de formas geométricas e de efeitos visuais que encantam o público. Até mesmo quem não possui o olhar treinado para apreciar este tipo de arte irá gostar dos efeitos visuais proporcionados por ela. Neste sentido, a melhor parte da exposição, pelo menos para mim, é aquela dedicada à arte cinética e à arte óptica. Sou fã deste tipo de pintura e de escultura. Outra seção muito boa é a que apresenta fotografias do Foto Cine Clube Bandeirante, grupo paulista criado em 1939 que pretendia expor a pulsante e crescente industrialização de São Paulo. As imagens em que o grupo retrata a explosão demográfica e econômica da capital do estado durante a metade do século XX é de tirar o fôlego. "Construções Sensíveis - A Experiência Geométrica Latino-Americana" impressiona pela extensa quantidade de obras expostas, pela variedade de artistas contemplados e pela qualidade do acervo. Acredito que esta seja a mostra mais completa dos últimos anos sobre o concretismo e neoconcretismo de nosso continente. Esta exposição ficará em cartaz até 18 de junho. Ou seja, os interessados têm mais três semanas para conferi-la. Para percorrer toda a mostra sem atropelo, é preciso reservar de uma hora à uma hora e meia. A entrada é gratuita e a Galeria de Arte do Centro Cultural FIESP abre diariamente das 10h às 20h. Quem gosta do concretismo e do neoconcretismo ou deseja aprender mais sobre este estilo artístico não pode perder "Construções Sensíveis - A Experiência Geométrica Latino-Americana". Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Exposição #Mostra #ArtesPlásticas #Concretismo #Neoconcretismo #JoaquínTorresGarcia #Madi #LygiaClark #HélioOiticica #EdgarNegret #MathiasGoeritz #GuntherGerzso #DiezPintoresConcretos

  • Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2016

    Quais foram os livros mais vendidos no Brasil em 2016? Admito ter ficado curioso para descobrir a resposta para essa questão. Por isso, acessei, nesta semana, os dados do PublishNews, a fonte mais confiável do mercado editorial nacional atualmente. E lá encontrei os números consolidados da comercialização de livros em livrarias em nosso país no ano passado. O resultado mostra um cenário muito parecido ao verificado nos últimos anos. O leitor médio brasileiro mostra sua preferência por ficção estrangeira (principalmente norte-americana e inglesa), obras religiosas, publicações produzidas por celebridades da mídia e, acima de tudo, da Internet, livros de autoajuda e títulos voltados para o público adolescente. O receituário para a produção de um best-seller em nosso país passa necessariamente pelo alinhamento a uma dessas características. Assim, o sucesso dos livros de pintar que foram a grande febre do mercado editorial em 2015 parece ter ficado para trás. Com esse entendimento, é possível verificar com mais critério o ranking das publicações mais vendidas em 2016 aqui no Brasil segundo o PublishNews. Veja, a seguir, a lista dos best-sellers das livrarias nacionais: 1) Como Eu Era Antes de Você - Jojo Moyes (Inglaterra) - Intrínseca - 352 mil unidades. 2) Ruah - Padre Marcelo Rossi (Brasil) - Principium - 228 mil unidades. 3) Depois de Você - Jojo Moyes (Inglaterra) - Intrínseca - 228 mil unidades. 4) O Diário de Larissa Manoela - Larissa Manoela (Brasil) - HarperCollins - 178 mil unidades. 5) Harry Potter e a Criança Amaldiçoada - J. K. Rowling (Inglaterra) - Rocco - 170 mil unidades. 6) AuthenticGames - Marco Túlio (Brasil) - Astral Cultural - 144 mil unidades. 7) Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares - Ransom Riggs (Estados Unidos) - LeYa - 133 mil unidades. 8) Ansiedade - Como enfrentar o mal do século - Augusto Cury (Brasil) - Saraiva - 129 mil unidades. 9) A Coroa - Kiera Cass (Estados Unidos) - Seguinte - 110 mil unidades. 10) Muito Mais que 5inco Minutos - Kéfera Buchmann (Brasil) - Paralela - 104 mil unidades. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MercadoEditorial

  • Livros: Dom Casmurro - A eterna dúvida deixada por Machado

    A última obra que analisarei, neste mês de maio, para o Desafio Literário é "Dom Casmurro" (Ática). Esta publicação integra, juntamente com "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Martin Claret) e "Quincas Borba" (L&PM Pocket), a "Trilogia Realista" de Machado de Assis. Para muita gente, o autor carioca deixou o melhor do seu trabalho para esta terceira e última parte da sua trilogia. Desta maneira, "Dom Casmurro" seria o ápice artístico de Machado. Este romance psicológico levanta acalorados debates até hoje. Afinal, o marido apaixonado (e ciumento) fora ou não traído pela mulher prendada (e dissimulada)?! Há quem veja indícios de traição, enquanto outros apostam na retidão da esposa. A leitura que fiz de "Dom Casmurro" nesta semana representou meu terceiro contato mais intenso com este livro. A primeira leitura aconteceu quando eu ainda era adolescente. A releitura inicial foi há cinco ou seis anos. Curiosamente, em cada uma delas, fiquei com uma impressão distinta. Esta, talvez, seja a principal comprovação da excelência artística deste romance: proporcionar ao leitor uma nova experiência a cada contato com a história. Assim, continuo com a indecisão sobre qual seria o melhor trabalho de Machado de Assis. Às vezes, acho que é "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Outras vezes, acho que é "Dom Casmurro". Juro que não consigo tomar partido nesta questão. "Dom Casmurro" foi publicado pela primeira vez em 1899. Diferentemente dos outros integrantes da "Trilogia Realista", este romance já foi lançado diretamente em livro ("Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Quincas Borba" foram editados inicialmente em folhetins). Por isso, esta obra se apresentou logo de cara com um caráter mais consolidado aos leitores, o que agradou em cheio aos críticos e ao público. "Dom Casmurro" é considerado pela Universidade de Coimbra como sendo o terceiro principal romance da Língua Portuguesa de todos os tempos. O jornal Folha de São Paulo o coloca como o segundo principal romance brasileiro da história. A trama de "Dom Casmurro" é narrada em primeira pessoa por um dos seus personagens, Bento de Albuquerque Santiago. Bentinho, como o rico advogado é chamado pela família, conta para o leitor a história da sua vida. Já idoso e morando sozinho em uma casa construída no bairro do Engenho Novo, o protagonista recapitula os principais momentos vividos. Ele volta até sua infância para iniciar o relato. Depois, segue em ordem cronológica até chegar a sua triste velhice. O foco principal da narrativa é a relação da personagem principal com Capitolina, sua esposa. Capitu, como a moça era chamada pelos amigos e pelos familiares, foi a grande paixão de Bentinho. Os dois se conheceram ainda crianças e prometeram, naquela época, que iriam se casar. Depois de muitos obstáculos para concretizar este sonho, enfim, o casal conseguiu ficar junto. Contudo, o que parecia ser o estabelecimento de uma relação idílica ao lado da mulher amada se transformou, ao longo dos anos, em um pesadelo. Tudo culpa das suspeitas, por parte dele, de que era traído. A infidelidade de Capitu seria com Ezequiel de Sousa Escobar, o melhor amigo de Bentinho. Apesar de não possuir nenhuma evidência concreta do caso extraconjugal da esposa com o amigo, Bento sempre acreditou que fora enganado pela dupla. O que mais o incomodava era a aparência de seu filho. O garoto, que também se chamava Ezequiel, era a cara de Escobar, acreditava o pai. A grande tristeza do protagonista era que, além de tê-lo traído, Capitu ainda havia colocado dentro de casa o fruto da sua traição para ele criar. "Dom Casmurro" é um livro espetacular. Em relação ao seu estilo literário, não temos muitas novidades. Basicamente, Machado de Assis repete a fórmula consagrada nos dois primeiros livros da "Trilogia Realista": narração não linear; visão crítica (e ácida) do mundo burguês do século XIX; constante debate e interação com o leitor; inserção de reflexões por parte do narrador; intensa ironia; construção aprofundada do perfil psicológico das personagens; e texto metalinguístico. O brilhantismo de "Dom Casmurro" está no acréscimo de um elemento novo às tramas machadianas: a subjetividade do enredo. Nunca uma história foi tão suscetível à interpretação do leitor. O que realmente aconteceu? Esta é a pergunta que todos se fazem à medida que a história vai sendo apresentada. Como na vida real, o certo e o errado e a verdade e a mentira dependem do ponto de vista de quem analisa a questão. A definição dos acontecimentos ocorridos na família Santiago, portanto, depende mais da opinião dos leitores do que das descrições feitas pelo autor da obra. A cada capítulo, a cada episódio, a cada página e a cada palavra dita por Machado de Assis, tentamos desvendar o mistério sobre o comportamento de Capitu. Assim, o debate sobre a possível traição sofrida por Bentinho está mais no campo das ideias do que da prática. Nem mesmo o protagonista, que narra a trama com passionalidade, tem qualquer certeza do que efetivamente aconteceu. Tudo não passa de suspeitas e de impressões. O que deixa a história ainda mais rica é descobrir que a principal característica de Bento Santiago é o ciúme exacerbado. Tudo é motivo para ele desconfiar do caráter e dos atos da esposa. Uma vez que compreendemos que a trama nos é apresentada por um homem "cego de paixão" e "totalmente inseguro de si", começamos a duvidar do que ele nos transmite. Desta maneira, "Dom Casmurro" é muito mais uma obra que trata do ciúme doentio do que, propriamente, da traição conjugal. Por isso, não é possível compará-lo de maneira nenhuma a "Madame Bovary" (Abril) de Gustave Flaubert ou "Primo Basílio" (Penguin) de Eça de Queirós. Capitu traiu ou não traiu Bentinho com Escobar? O menino Ezequiel é, afinal, filho de quem? Estas perguntas dependem unicamente das interpretações de cada leitor. Diria até que nosso ponto de vista sobre esta questão está relacionado às nossas próprias características. Um leitor ciumento, muito desconfiado, inseguro de si e/ou que tenha passado por episódios traumáticos de traição em sua vida pessoal, provavelmente, irá achar Capitolina Santiago infiel. Outro leitor, desta vez menos passional, mais lúcido, menos melindrado e sem traumas, muito possivelmente, considerará a esposa de Bento como sendo uma mulher exemplar. Eu, por exemplo, não tive qualquer certeza sobre a fidelidade de Capitu na minha primeira leitura. Curiosamente, naquela época (adolescência), eu era muito inseguro e um pouquinho desconfiado das minhas namoradas (jamais fui uma pessoa ciumenta). Também não tinha muita experiência de vida para compreender o comportamento feminino. Assim, era natural minha dúvida. Na segunda vez que li "Dom Casmurro", já comecei a acreditar na retidão de Capitu. Não era de se admirar esta minha visão. Nesta fase da vida, eu já era um homem trintão, bem menos passional e ainda menos desconfiado das ações de minhas parceiras. Viu como nossa interpretação desta história é um reflexo direto da nossa personalidade! Agora, com a nova leitura do livro, tive "certeza" da fidelidade de Capitu. Para mim (atualmente com uma taxa de ciúme beirando o 0% - acredite!), o lunático desta história é Bentinho. Ele não soube amar e ser amado por uma mulher maravilhosa como Capitolina. Capitu, em minha visão, não apenas não traiu Bento Santiago como jamais deu margem para suas suspeitas. O ciúme exacerbado do narrador foi o responsável por "achar pelo em ovo" e destruir sua vida e sua relação com a esposa. A inspiração de Machado de Assis para a criação de Bento Santiago, um personagem tão rico e enigmático quanto Capitu, pode ter vindo de si mesmo. Pouca gente fala sobre isso atualmente, mas o maior romancista de nossa história era um homem profundamente ciumento. Por ser feio, mulato e ter vindo de uma família pobre, Machado possuía grande insegurança. Ele morria de ciúmes da esposa, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais Assis. Apesar de ela ser mais velha do que ele e ser muito feia, seu marido constantemente ficava enciumado quando Carolina conversava ou interagia com outros homens. "Dom Casmurro" é uma obra espetacular. Além de ser leitura obrigatória, este tipo de livro exige uma releitura de tempos em tempos. Será que terei a mesma visão da história daqui dez ou vinte anos? Fiquei com esta dúvida agora. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MachadodeAssis #LiteraturaClássica #LiteraturaBrasileira #Romance #Drama

  • Filmes: O Cidadão Ilustre - Debate literário no cinema argentino

    Na semana retrasada, fui ao Caixa Belas Artes para assistir à estreia nos cinemas brasileiros do filme argentino "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016). Esta comédia dramática representou seu país no Oscar do ano passado na categoria Melhor Filme Estrangeiro. O longa-metragem participou dos Festivais de Toronto e do Rio de Janeiro em 2016, recebendo muitos elogios tanto da crítica quanto do público. O filme também teve uma das maiores bilheterias da Argentina no ano passado. A direção é de Mariano Cohn e Gáston Duprat, jovens cineastas que já mostraram seus valores. "Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto" (Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo: 2011) e "O Homem ao Lado" (El Hombre de Al Lado: 2009) são os longas-metragens anteriores da dupla. "O Cidadão Ilustre", entretanto, está evidentemente em um patamar bem superior aos trabalhos antecessores de Cohn e Duprat. A nova produção que chega agora aos cinemas brasileiros também contou com as excelentes participações de Andrés Duprat, irmão de Gáston, e de Oscar Martinez. O primeiro foi o responsável pela produção do roteiro, enquanto o segundo foi o ator principal do filme. "O Cidadão Ilustre" começa com a apresentação da cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. O premiado da vez é o escritor argentino Daniel Mantovani (interpretação de Oscar Martinez), que está radicado na Europa há quase quarenta anos. Ele deixou seu país ainda jovem e nunca mais regressou nem mesmo para visitar os familiares. Apesar da distância geográfica, a literatura de Mantovani está baseada totalmente em sua terra natal. Em seus livros, ele descreve o atraso, a ignorância, a violência, a pobreza, o isolamento e os peculiares hábitos de seus conterrâneos, moradores do remoto interior argentino. Segundo o autor, enquanto ele conseguiu sair da Argentina, seus personagens estão eternamente presos aos pequenos e rústicos povoados interioranos do país. No discurso de "agradecimento" do Nobel, realizado na academia sueca, Daniel Mantovani provoca um mal-estar generalizado. A plateia e os presentes à cerimônia ficam estarrecidos com o comportamento e as palavras proferidas pelo escritor. O argentino acusa aqueles que estão entregando o prêmio de estarem prejudicando seu trabalho literário. O recebimento do Nobel é a sentença de morte do autor e o fim de sua liberdade criativa. Uma vez transformado em um escritor clássico, Mantovani sente que ficará preso para sempre em um rótulo artístico ou em estereótipos literários. A cena é hilária! Ao invés de ficar feliz e orgulhoso com o prêmio, o argentino está triste e decepcionado. Nos anos seguintes, o vencedor da honraria máxima da literatura mundial recebe infinitos convites para participar de palestras, eventos, noites de autógrafos e debates literários nos quatro cantos do mundo. Muitas editoras também o assediam em busca de novos trabalhos para serem publicados. Com um espírito introspectivo e uma rotina contrária aos holofotes, Mantovani recusa todas as propostas, preferindo viver recluso em sua mansão em Barcelona. Além disso, ele não possui mais nenhuma inspiração para escrever. Parece que sua tristeza por ter recebido o Nobel é legítima. Ele se sente entediado com sua vida e sem criatividade para produzir novos livros. Neste momento, um convite entre as dezenas de recebidos semanalmente chama sua atenção. A pequena cidade de Salas, no interior da Argentina, organizou um evento de homenagem a Daniel Mantovani e quer sua presença ali. O prefeito da localidade deseja entregar o prêmio de Cidadão Ilustre ao seu conterrâneo mais famoso. Foi em Salas onde o escritor nasceu e foi criado antes de emigrar para a Europa. Por isso, Daniel fica tentado a regressar pela primeira vez. O autor tem curiosidade para saber como estão seus antigos amigos e sua cidade natal. Para surpresa da sua empresária, Mantovani, enfim, aceita um convite. Porém, o destino é a pitoresca cidade argentina. Em Salas, Daniel Mantovani é, logo de cara, recebido com pompa e alegria. Ele é uma personalidade querida e admirada pela população local. Ele se esforça para agradar a todos e os moradores do município também se dedicam a prestar várias homenagens ao seu conterrâneo mundialmente conhecido. Ao longo da semana que o escritor ficará no povoado, haverá uma intensa programação cultural em volta dele. Entretanto, à medida que os dias passam, as diferenças culturais entre o escritor e os habitantes de Salas ficam cada vez mais nítidas. Aí começam os problemas. Um a um, os moradores do povoado vão desagradando Daniel Mantovani e, ao mesmo tempo, Mantovani vai causando transtornou à cidade. O que era para ser uma semana de alegria e festa se transforma subitamente em um drama violento e perigoso. Sem querer, rancores, invejas e temas mal resolvidos do passado, que até então estavam adormecidos, voltam à tona de maneira intensa e descontrolada. "O Cidadão Ilustre" é um belo filme. Durante suas quase duas horas de produção, é possível se emocionar com o drama do protagonista e rir das várias situações inusitadas proporcionadas pela estada do escritor em sua pequenina cidade natal. O desfecho é tenso e enigmático, prendendo a plateia na cadeira da sala de cinema. Há também vários momentos simbólicos durante o longa-metragem. O principal deles é quando o escritor precisa rasgar páginas de um dos seus livros para fazer uma fogueira no meio da estrada, salvando-se de morrer de frio (demonstrando o valor da literatura para aquela região). Nesta mesma cena, o motorista de carro responsável pela viagem a Salas pede para o conceituado autor contar uma de suas histórias, mas não acha nenhuma graça no que ouve (indicando os problemas futuros que o escritor terá com os moradores da localidade). Outra cena interessante é quando o antigo amigo de Daniel assa cabeças de carneiros para o jantar de confraternização, provocando certo estranhamento no convidado (incompatibilidade cultural entre o visitante e os anfitriões). E o que falar da cena inicial do filme? Ela é primorosa! O discurso de Daniel Mantovani na academia sueca durante a entrega do Nobel é memorável. Além de muito engraçada, ela é bastante reveladora sobre os dramas dos escritores. Trata-se de uma aula de literatura. Na verdade, o filme inteiro debate pontos muitos interessantes sobre a produção literária. Durante o longa-metragem, abordam-se temas como o pacto ficcional, a inspiração criativa, o desenvolvimento de temas narrativos, a criação de um estilo próprio, o desenvolvimento das personagens e o processo de canonização do autor. É, portanto, um prato cheio para os amantes das letras. O maior mérito deste filme está na qualidade do roteiro de Andrés Duprat. O jovem roteirista, responsável por "Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto" e "O Homem ao Lado" e parceiro inseparável dos diretores Mariano Cohn e Gáston Duprat, produz uma trama intrigante, saborosa e engraçada. Ao mesmo tempo, ela é ácida, tensa e desconfortável para o espectador. O choque cultural e ideológico entre os moradores da cidade de Salas e o escritor famoso é o que move toda a narrativa. Temos, assim, um embate nada saudável da tradição, do regionalismo, do isolamento e da ignorância contra a modernidade, o universalismo, o cosmopolitismo e a cultura. Oscar Martinez está magnífico em "O Cidadão Ilustre". Ele conquistou o prêmio de melhor ator no festival de Veneza do ano passado com a interpretação de Daniel Mantovani. Martinez tem se consolidado, nos últimos anos, como o principal ator do cinema argentino, deixando um pouco Ricardo Darín para trás. Além de fazer várias e ótimas produções, como "Kóblic" (2016), "Paulina" (La Patota: 2015) e "Relatos Selvagens" (Relatos Salvajes: 2014), Martinez, um conhecido ator da televisão e do teatro argentino, tem escolhido muito bem seus recentes papéis no cinema. Ele está tão bem como Daniel Mantovani que, no meio do filme, esquecemos que se trata de uma ficção e acreditamos estar assistindo a um documentário. Se você gosta de cinema argentino e de literatura, "O Cidadão Ilustre" é um longa-metragem imperdível. Se você gosta de uma boa comédia-dramática, está é a melhor opção em cartaz no cinema no momento. Confira esta produção porque ela é excelente. Veja o trailer de "O Cidadão Ilustre": Se você gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias deixe um comentário aqui. Se você é fã de filmes novos e antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MarianoCohn #GastónDuprat #AndrésDuprat #OscarMartinez #CinemaArgentino #Comédia

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