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- Livros: Memórias do Cárcere - O prisioneiro Graciliano Ramos
Acabei hoje um dos livros de memórias de Graciliano Ramos. O escritor alagoano teve duas obras desse gênero publicadas: “Infância” (José Olympio) em 1945 e “Memórias do Cárcere” (Record) em 1953. Enquanto a primeira relatava a vida do jovem no interior alagoano, a segunda narrava os meses de prisão que precisou cumprir, já adulto, devido à perseguição política instaurada no país na metade da década de 1930. Pelo peso histórico, a leitura escolhida por mim foi a segunda. “Memórias do Cárcere” foi publicada alguns meses depois da morte do escritor. Ela foi lançada inacabada, pois o autor não conseguiu escrever o desfecho da trama. Ao invés de escrever os capítulos derradeiros dessa passagem de sua história (descrevendo como ele saiu da prisão), Graciliano ficou postergando o trabalho, que dizia ser breve, de algumas semanas apenas. Com sua morte, ficamos sem saber o que de fato aconteceu. Há também quem acuse a família Ramos de ter aceitado os pedidos de vetos e de cortes feitos pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual Graciliano era afiliado. Essa acusação teria provocado certa censura na obra original. Sinceramente, não acredito nessa versão. Em dois volumes, que totalizam quase 700 páginas, a narrativa se concentra no período de 1936, quando Graciliano Ramos foi preso pelo governo de Getúlio Vargas. Naquele ano que precedeu a instalação da ditadura do Estado Novo, os políticos estavam assustados com uma possível revolução socialista no país. A Intentona Comunista, de Luís Carlos Prestes, em 1935, havia tentado dar um golpe no governo, mas acabou frustrada pela intervenção militar. Graciliano, que nesta época era diretor de Instrução Pública de Alagoas, foi preso confundido com comunista. Curiosamente, nesse período, o escritor ainda não tinha uma ideologia socialista plenamente desenvolvida (só iria se filiar formalmente ao Partidão em 1945). Em 1936, ele apenas promovia um trabalho voltado para os pobres em sua passagem pelo Estado alagoano. Além disso, suas duas primeiras obras publicadas (“Caetês” e “São Bernardo”) faziam reflexões sobre o poderio econômico dos mais ricos, as injustiças sociais e a miséria do povo. A atuação e a literatura mais esquerdistas provocaram muitos inimigos e, provavelmente, despertaram a suposição de que se tratava de um comunista instalado em um gabinete do governo estadual e com capacidade para escrever romances. Ainda desconhecido do grande público, (“Caetês” e “São Bernardo” não haviam caído, até então, na graça do público leitor e “Angústia”, o terceiro romance, havia acabado de ser enviado para a editora), Graciliano precisou contar com a colaboração de amigos para escapar da prisão. Vale a pena destacar a atuação marcante de José Lins do Rego (conforme descrito no próprio livro). O romancista paraibano, já conceituado nesse período, não foi apenas importante para livrar Graciliano da cadeia, mas foi decisivo para a publicação dos novos livros do alagoano. Após a experiência no cárcere, o autor “guardou” sua história por quase uma década, quando, enfim, decidiu escrever sobre os meses terríveis passados nas prisões do país (em Maceió, Recife e Rio de Janeiro). Desse relato, temos “Memórias do Cárcere”. O primeiro livro tem aproximadamente 380 páginas. Nele, lemos sobre as duas primeiras partes da obra, intituladas de “Viagens” e “Pavilhão dos Primários”. Em “Viagens” tomamos conhecimento da esquisita demissão do diretor de Instrução Pública de Alagoas. Graciliano estranhou aquela postura do governador e já percebeu que algo de ruim iria acontecer com ele. Já prevendo sua prisão, arrumou sua mala, despediu-se da esposa e dos filhos e ficou aguardando a chega da polícia, que se concretizou no final da tarde. Levado pela polícia, o escritor foi enviado, no dia seguinte, para uma base do exército em Recife, onde passou algumas semanas. De lá, embarcou no navio “Manaus”, sendo despachado para o Rio de Janeiro. Durante essa viagem no porão da embarcação, misturado com prisioneiros comuns e perseguidos políticos, temos um retrato de um dos piores momentos da trama. Em um porão insalubre e abarrotado de gente, ficamos conhecendo um pouco o horror do cárcere e a degradante condição que o ser humano pode chegar. Ao chegar ao Rio de Janeiro, Graciliano Ramos é enviado para uma penitenciária. Para sua sorte, é colocado no Pavilhão dos Primários. Assim, começa a segunda parte da história. Nessa ala, há um conforto um pouco maior se compararmos as condições descritas na ala onde ficavam a maioria dos presos. Essa regalia é rapidamente esquecida quando ficamos sabendo como é o dia a dia daquele lugar. O autor narra seu cotidiano, as pessoas que conhece, a dinâmica de uma prisão durante a década de 1930, as intrigas políticas da época e seus medos e incertezas. Curiosamente, somos apresentados às personalidades históricas que também cruzaram por aquelas celas, como Olga Benário (esposa judia de Luís Carlos Prestes, que seria depois enviada para ser morta na Alemanha nazista), Rodolfo Ghioldi (comunista argentino preso e torturado no Brasil) e Epifrânio Guilhermino (revolucionário comunista do Rio Grande do Norte). Há citações também sobre relevantes figuras da história de nosso país como Filinto Muller (chefe da polícia de Vargas), José Olympio (fundador da editora que leva seu nome) e José Lins do Rego (escritor amigo de Graciliano). O relato também se estende aos tipos comuns que se abrigavam na prisão. Aí ficamos sabendo das histórias sobre rebeliões dos prisioneiros (por melhores comida, por exemplo), intrigas e parcerias entre presos e policiais (a corrupção policial permitia a entrega de certos produtos e alguns privilégios) e abusos sexuais (tanto na prisão quanto nas viagens no porão dos navios). No segundo livro, somos apresentados à terceira e quarta partes da obra, chamadas de “Colônia Correlacional” e “Casa de Correção”, respectivamente. O autor é enviado, após alguns meses no Pavilhão dos Primários, para a temida Colônia Correlacional. Lá os presos sofrem privações, são tratados como animais e são forçados a trabalhar até a exaustão física. Não é surpresa que muitos de definham e morrem ali mesmo. Graciliano emagreceu muito neste período (não conseguia se alimentar por ojeriza dos pratos servidos). Ele passou por maus bocados, porém não precisou trabalhar. Ele ficou alojado em uma ala para doentes. A perna do escritor dava sinais de que a operação que tinha passado alguns anos antes não ia bem. Contudo, ele preferiu sofrer a passar pelas mãos pouco cuidadosas dos médicos da penitenciária. As coisas só melhoraram quando Graciliano foi enviado, após meses no “inferno”, para a Casa de Correção. No novo lugar, ele contava com o respeito dos policiais e dos presos. Destinado exclusivamente aos prisioneiros políticos, a Casa de Correção oferecia um tratamento VIP aos seus usuários. Para ser ter uma ideia, o diretor da prisão, quando viu que Graciliano estava tentando escrever contos no meio dos presos, reservou-lhe uma sala exclusiva para ele trabalhar em paz. Apesar das melhores condições, ele e seus colegas ainda estavam confinados, desprovidos de liberdade. Para a alegria do narrador, “Angústia” foi publicado, gerando interesse do público pelo escritor. Um advogado conceituado também foi contrato para livrá-lo da cadeia. É nesse momento em que a obra acaba. O último capítulo é uma explicação breve do filho de Graciliano, Ricardo, justificando esse final abrupto: “Faltava apena um capítulo dessas memórias, quando morreu Graciliano Ramos”. Assim, ficamos sem saber o desfecho. Quem tiver interesse, pode assistir ao filme “Memórias do Cárcere”, de 1984. Na produção de Nelson Pereira dos Santos, diretor que levou para o cinema várias histórias de escritores brasileiros como Jorge Amado (“Tenda dos Milagres” e “Jubiabá”), Graciliano Ramos (“Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”) e Guimarães Rosa (“Terceira Margem do Rio”), temos enfim a cena do autor deixando a prisão e ganhando a liberdade (o que de fato aconteceu, mas não foi narrada no livro). O livro é bom, porém é muito inferior, por exemplo, a “São Bernardo”. O principal problema de “Memórias do Cárcere” foi a tentativa de Graciliano Ramos em relatar tudo o que aconteceu com ele neste período, descrevendo também todas as pessoas que ele se recordava. Assim, a obra ganhou uma extensão maior do que deveria. Há muitos capítulos nos quais a narração e a ação são colocadas de lado e o autor se perde em reflexões vagas (característica típica de Graciliano). Também há um excesso de personagens, a maioria de importância diminuta. O ideal seria se o escritor tivesse destacado os principais momentos vividos por ele nesse período. Como não fez isso, momentos importantíssimos passam despercebidos no meio de instantes banais e enfadonhos. O ponto alto da obra está na descrição realista e impactante que Graciliano faz do período em que esteve preso. A realidade, aqui, é nua e crua. O escritor alagoano não se furta em esconder nada. Tudo fica sobre os panos. Assim, temos uma narração assustadoramente real do pesadelo vivenciado pelo autor. O cenário sombrio da penitenciária, os medos do homem comum jogado no meio de uma vida insensível, a monstruosidade de muitos presos e o cotidiano nada fácil atrás das grandes ficam diante dos nossos olhos, como jamais estiveram. Outro ponto interessante foi acompanhar a confecção dos contos escritos dentro das celas. Quem leu “Insônia” pode perceber que várias histórias daquele livro foram extraídas dos relatos de outros prisioneiros. Aí aparece a grandiosidade de Graciliano: soube transformar em ficção muitos episódios reais. O que provoca certa estranheza foi a passividade de Graciliano Ramos durante todo o período em que esteve encarcerado. Sem saber o porquê havia sido preso, ele não se indignou com aquela situação em nenhum momento. Praticamente foi enviado, por quase um ano, de uma prisão a outra sem reclamar da falta de uma acusação formal. Ele aceitou sua condição de prisioneiro e ali ficou passivamente. Outro ponto que choca é a quantidade de cigarros que o autor fuma. Ele, um fumante inveterado, deixa muitas vezes de comer (fica dias em jejum), mas não para de fumar em nenhum momento sequer. Não é à toa que morreu, alguns anos depois, de câncer no pulmão. Chega a dar nojo esse vício pelo cigarro. Quem gosta da História do nosso país (como é o meu caso) também apreciará as passagens marcantes desse período, o ambiente político efervescente da época e o desfile de personalidades conhecidas. Gostei de ter lido “Memórias do Cárcere”. Apesar de longo e um pouco enfadonho, é uma excelente obra de memórias de um momento marcante do Brasil e da vida de um dos nossos maiores escritores. Retorno ao Blog Bonas Histórias no próximo dia 25 para analisar o quinto e último livro do Desafio Literário de maio, "Caetés" (BestBolso), o romance de estreia de Graciliano Ramos. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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- Livros: São Bernardo - A obra-prima de Graciliano Ramos
Aproveitei a manhã dessa sexta-feira para ler “São Bernardo” (Martins). Em pouco menos de cinco horas, concluí a leitura das cerca de 250 páginas dessa edição. E agora posso dizer que conheci de fato o grande Graciliano Ramos. Eita livro bom! Bom não. Diria excelente! “São Bernardo” é o segundo livro publicado pelo escritor. A data de sua primeira edição é 1934. Ou seja, ele chegou às livrarias do país um ano após a edição do romance de estreia, “Caetés”. Logo em seguida, Graciliano Ramos foi preso em decorrência da ação de Getúlio Vargas de fazer frente a Intentona Comunista que se alastrava pelo país. Para muitos críticos, “São Bernardo” rivaliza com “Angústia” com a melhor obra do escritor alagoano. Se “Vidas Secas” é a publicação mais conhecida, essas outras duas são apontadas como o auge literário de Ramos. Em 1972, o cineasta carioca Leon Hirszman filmou “São Bernardo” e o longa-metragem ganhou vários prêmios em festivais no Brasil e no mundo. Nesse romance, conhecemos a história de Paulo Honório. O próprio personagem é quem narra sua saga. Logo de início, ficamos sabendo da origem sofrida do sujeito. Ele não conheceu seus pais e desde cedo precisou se sustentar. Criado por uma negra doceira em Alagoas, o menino pobre ralou como ajudante de cego, caixeiro viajante, vendedor de cocada e peão em fazendas do interior. Aos dezoito anos, foi preso ao esfaquear o homem que estava se engraçando com a moça com quem tinha perdido a virgindade. Na prisão, o rapaz aprendeu a ler e escrever. Outra vez em liberdade, Paulo pegou dinheiro emprestado com um agiota e iniciou uma série de negócios arriscados e ousados pelo sertão nordestino. Economizando ao máximo e realizando operações questionáveis (como ludibriar o filho de um amigo com o intuito de colocar as mãos nas propriedades deles e assassinar o vizinho para ter os limites da sua fazenda expandidos), ele enriqueceu. A marca maior do seu progresso era a fazenda “São Bernardo”. O latifúndio era uma indústria do agronegócio. O poder e a riqueza de Paulo Honório despertaram interesse até do governador do estado, que certa vez foi visitar a propriedade. Aos quarenta e sete anos, o fazendeiro decidiu se casar. A escolhida foi Madalena, uma delicada e dedicada professora de pouco mais de vinte anos. A escolha de Paulo pareceu, no início, acertada. A moça era dotada de todos os predicados que um homem na posição dele podia exigir. Ela era venerada por todos e tinha uma ótima reputação. Contudo, rapidamente as brigas entre o casal surgiram. As personalidades distintas deles eram as causas dos entreveros. Ela era carinhosa, preocupada com as pessoas, letrada e consciente socialmente. Ele, por sua vez, era seco emocionalmente, bravo, mesquinho e unicamente preocupado com o dinheiro. Obviamente aquele relacionamento estava fadado ao fracasso. Além da história ser muito boa, dessa vez Graciliano Ramos conseguiu colocar em prática todo o seu talento literário. Apesar do aspecto e dos comportamentos repugnantes de Paulo Honório, acabamos nutrindo certo apreso pelo personagem. Como a narrativa é contada em primeira pessoa, acabamos compreendendo os motivos das ações do rico fazendeiro. Há alguns recursos estilísticos utilizados que são bem interessantes. O fato do filho do casal não ser citado pelo nome próprio, por exemplo, indica o desprezo que o pai sente pelo garoto. O enredo político que tangia a trama também torna a história mais interessante. Os personagens secundários também possuem uma boa caracterização. A construção deles se faz mais pelos relatos de suas ações do que pela descrição dos seus aspectos físicos. Em “São Bernardo”, a história possui muita ação. Os capítulos são curtos e objetivos. Se ficamos com a sensação de que o livro não caminha em “Vida Secas” e em “Insônia”, agora a impressão é oposta. Rapidamente as histórias de vida de Paulo Honório, da sua esposa Madalena e daqueles que cercam o casal passam aceleradamente pelos nossos olhos. Parece que estamos assistindo a um filme de ação/suspense, tamanha é a velocidade da narrativa. Ou melhor, o livro parece um documentário, já que tomamos conhecimento dos episódios com base unicamente na visão e na opinião do personagem-narrador. No meio da leitura, automaticamente me recordei de várias outras obras literárias. O ciúme doentio de Paulo para com sua esposa me fez lembrar de Machado de Assis (“Don Casmurro”). A trama política e a perspectiva comunista que cerca a história é parecida com o estilo de Jorge Amado (principalmente em “Gabriela, Cravo e Canela” e “Capitães de Areia”). A questão do herói da história ser um homem um tanto bruto e sem muitos sentimentos altruísta me remeteu a Emily Brontë (“Morro dos Ventos Uivantes”). O relacionamento amoroso conturbado entre o casal de protagonista é típico de José de Alencar (“Senhora”). E até das novelas de Benedito Ruy Barbosa me lembrei (“Rei do Gado”), com as constantes brigas das poderosas famílias em relação as divisas de suas propriedades. Se em “Vidas Secas” Graciliano Ramos enfocou o dia a dia da família pobre de retirantes nordestinos, aqui a trama se concentra na vida do coronel local (o fazendeiro rico e autoritário). É evidente o aspecto social da narrativa. Enquanto Paulo Honório faz o papel de sujeito ultrapassado, capitalista, arrogante e ganancioso, Madalena, sua esposa, age como uma comunista, caridosa, preocupada com as pessoas menos favorecidas e disposta a acabar com o status quo. Esse choque de visões dos personagens principais é um dos ingredientes que levam às denúncias sociais que marcaram fortemente a carreira de Graciliano Ramos. A miséria do povo, a exploração do trabalho dos humildes pelos poderosos, as intrigas políticas e a ganância desenfreada da elite são evidenciadas da primeira à última página. A inserção de ideais esquerdistas em suas obras, assim como aconteceu com Jorge Amado, trouxe muitos dissabores ao alagoano. Porém, esses problemas não o impediram de ingressar, anos mais tarde, no Partido Comunista do Brasil e de viajar com a esposa para os país soviéticos. O que considerei mais interessante em “São Bernardo” é que essa concha de retalhos de temas variados foi inserida em uma história bem estruturada e muitíssimo interessante. Li facilmente, em algumas horas, essa obra fascinante. As horas passadas foram muitos agradáveis. Depois de ler “Insônia”, juro que não acreditava na capacidade de Graciliano Ramos de proporcionar algo deste tipo ao leitor. Estava equivocado. Agora entendi perfeitamente porque ele é considerado um dos grandes escritores modernistas do nosso país. 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- Filmes: Bonequinha de Luxo - O clássico que eternizou Audrey Hepburn
Quem me conhece sabe o quanto gosto de cinema antigo. Adoro ver ou revisitar os grandes clássicos da sétima arte. Como é gostoso mergulhar nos filmes e na realidade das décadas de 1940, 1950 e 1960! Estou falando sobre isso porque nesse final de semana assisti a um longa-metragem que marcou o cinema e que, curiosamente, eu ainda não tido a oportunidade de vê-lo. Trata-se de “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany's: 1961), do diretor Blake Edwards e com o mítico casal de protagonistas Audrey Hepburn e George Peppard. Adaptado da novela de Truman Capote, este é aquele caso em que o filme se tornou maior do que o livro. Nessa história, conhecemos Holly Golightly (Audrey Hepburn), uma jovem um tanto fútil e desmiolada. Ela vive saindo com homens ricos para ganhar um dinheirinho fácil (isso tudo para não a chamar de garota de programa). Depois que se enjoa deles, ela troca o sujeito por alguém mais interessante financeiramente. O dinheiro da moça é gasto em compras nas lojas mais caras da cidade. Ela canaliza toda a sua alegria e seu sucesso nas peças que adquire. A primeira cena do filme é exatamente Holly tomando seu café da manhã enquanto observa a vitrine da joalheria Tiffany`s (daí vem o nome original do filme). A frieza emocional da moça é caracterizada pelo seu gato de estimação. Ele não possui um nome próprio. É chamado apenas de “Gato”. A bagunça do apartamento da jovem também é um reflexo da vida dela (toda conturbada). Certo dia, Holly é surpreendia pelo aparecimento do bonitão Paul Varjak (George Peppard). Instalado no apartamento acima do dela, Paul leva também uma vida fútil e um tanto questionável. Ele é um escritor que não escreve há anos e é bancado financeiramente pela senhora Failenson (Patricia Neal), sua amante casada e rica. Ou seja, ele é uma versão masculinizada de Holly. O relacionamento entre os dois “aproveitadores” evolui a ponto de ser mais do que uma simples amizade. A paixão entre eles transforma Paul, mas não provoca nenhuma mudança em Holly. Enquanto o rapaz resolve voltar a escrever (tornando-se rentável financeiramente) e termina o relacionamento com sua amante de luxo, sua vizinha continua preocupada exclusivamente em encontrar um marido milionário. Primeiro é o herdeiro de uma magnata norte-americano e depois um político/fazendeiro brasileiro. Assim, a paixão dos dois esfria. Holly se mostra desinteressada em um rapaz pobre e simplório como Paul. Gostei muito desse filme. A fotografia do filme é ótima (afinal estamos em Paris e o casal de protagonistas são Hepburn e Peppard), assim como a sua trilha musical. É impossível não ficar com a canção “Moon River” na cabeça por alguns dias. Repare na cena de Audrey Hepburn cantando essa música, enquanto a toca no violão. É um encanto para os ouvidos e para os olhos. Um aspecto elogiável desta produção foi a ousadia de colocar nos papeis principais personagens de caráter tão duvidosos. Em plena década de 1960, a mocinha da trama era uma prostituta e o mocinho um gigolô. Antes de se conhecerem, ambos se relacionavam afetivamente e sexualmente por interesse financeiro. É ou não é uma ousadia sem precedentes para aquele tempo?! Outra marca de “Bonequinha de Luxo” é atuação marcante de Audrey Hepburn. No esplendor da sua beleza e carisma, a atriz belga conseguiu representar tão bem Holly que perpetuou para sempre a imagem de sofisticação e glamour da sua personagem. Não é errado afirmar que esse filme acabou imortalizando Audrey Hepburn como um sinônimo de classe e sofisticação. A atriz (falecida em 1993) é até hoje lembrada como um ícone feminino do cinema. Apesar de ter entrado para a história por interpretar a fútil e desmiolada Holly Golightly, não foi por “Bonequinha de Luxo” que Hepburn ganhou a estatueta do Oscar de melhor atriz. A premiação foi dada por sua atuação em “A Princesa e o Plebeu” (Roman Holiday: 1953), ocorrida oito anos antes. George Peppard também está muito bem interpretando Paul Varjak. Entretanto, não é possível comparar a atuação dele com a de seu par romântico nessa história. Enquanto ele está ótimo, Audrey Hepburn está esplendorosamente magnífica. Assim, é injusto tecer qualquer comparação entre eles. A cena final do filme também é marcante: o casal discutindo no táxi e depois percorrendo as ruas da cidade, em meio a uma chuva pesada, procurando o gato da moça. Cena de chuva mais icônica do que essa, talvez, tenhamos a conversa final entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em “Casablanca” (Casablanca: 1942) e a dança de Gene Kelly em “Cantando na Chuva” (Singin' in the Rain: 1952). O único ponto que pode incomodar o público mais moderno é a lentidão da trama em alguns momentos. Rapidamente, conhecemos o perfil dos dois personagens e é estabelecida uma paixão entre eles. A partir daí, o clímax e o desfecho da história se arrastam um pouco, tornando tudo um pouco vagaroso. Os mais ansiosos e impacientes com certeza reclamarão. Em uma primeira leitura, “Bonequinha de Luxo” pode parecer aquele filme romântico “água com açúcar”. Enquanto assistia me lembrei de “Gigi” (Gigi: 1958) e “Uma Linda Mulher” (Pretty Woman: 1990). O primeiro pela inocência das personagens de Leslie Caron e Hepburn (juro que as acho parecidas) e a segunda pelo enredo de transformar uma meretriz em princesa encantada. Contudo, quando analisamos os aspectos semióticos desse longa-metragem, encontramos vários elementos que enriquecem esta produção. Holly por mais maluca que parecesse conseguiu transformar Paul em um homem de princípios e digno do amor dela. Por outro lado, o rapaz precisou escancarar os medos e temores da moça para conquistá-la definitivamente. Além disso, o filme pode ser visto como uma crítica contumaz a sociedade exibicionista e interesseira dos tempos modernos, onde a imagem e o poder do dinheiro sobressaem aos sentimentos mais humanos e nobres. Holly e Paul conseguiram, no final, reverter suas vidas mecânicas e calcadas exclusivamente na obtenção de bens materiais. Quantos de nós ainda não estamos presos no glamour e na ambição do enriquecimento pelo enriquecimento em si? Nada como uma “aguinha com açúcar” com uma dose cult para provocar certos questionamentos... Veja o trailer de “Bonequinha de Luxo”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #BlakeEdwards #AudreyHepburn #GeorgePeppard #TrumanCapote
- Livros: Insônia - Os contos de Graciliano Ramos
Neste final de semana, reli “Insônia” (José Olympio), uma obra de contos de Graciliano Ramos (já havia lido essas histórias há mais de vinte anos). Publicado originalmente em 1947 (seis anos antes da morte do escritor), esse livro demonstra o lado contista de Graciliano, tão identificado com os romances regionais. A publicação possui treze histórias: “Insônia”, “Um ladrão”, “O relógio do hospital”, “Paulo”, “Luciana”, “Minsk”, “A prisão de J. Carmo Gomes”, “Dois dedos”, “A testemunha”, “Ciúmes”, “Um pobre-diabo”, “Uma visita” e “Silveira Pereira”. As tramas são independentes entre si, apesar de haver a repetição de personagens em alguns contos. Para ser sincero, não gostei do livro. O motivo? Primeiramente, poderia dizer que achei os enredos muito pessimistas. Os temas preponderantes são: morte, doença, limitação física, envelhecimento, crimes e injustiça social. O clima, na maior parte da publicação, é pesado e mórbido. Aqui temos um Graciliano Ramos amargo, angustiado e pessimista com o ser humano, com a sociedade e com o mundo. Acredito que o escritor (já idoso e debilitado) tenha colocado no papel todas as suas preocupações com o fim de sua vida. Contudo, não é essa a razão principal do meu desgosto. Afinal, sempre goste de Edgar Allan Poe, Stephen King, Mário de Sá-Carneiro, John Steinbeck e Herman Melville, autores que tiverem a proposta de enaltecer o lado obscuro e sombrio da nossa existência. Se não foi a temática, talvez tenha sido a forma na qual os contos foram escritos que me desagradaram tanto. Considerei a narrativa muito seca, tanto em relação aos vocábulos utilizados quanto à expressividade emotiva. Assim como em “Vidas Secas”, Graciliano é muito econômico na narração dos acontecimentos, preferindo descrever de maneira indireta as emoções dos seus personagens (quase sempre com problemas de relacionamento e com dificuldades para externar suas emoções) e as situações do que expor os fatos. Com isso, cada conto se torna mais uma trama de cunho psicológico do que uma explanação factual. Se no romance de Fabiano e Dona Vitória esse recurso se tornou incrível (retratando a realidade do cenário e da alma dos sertanejos), aqui ele se mostrou enfadonho e repetitivo. Há pouquíssimos diálogos nas tramas (quando há, eles são monossilábicos e pouco representativos). A sensação é que cada personagem vive uma vida solitária, completamente desvinculada dos demais. Parece que estamos lendo um testemunho (a maioria das histórias é em primeira pessoa). O livro tem, assim, certo ar documental. Sei que talvez tenha sido exatamente essa a intenção de Graciliano Ramos: demostrar toda o seu incômodo em relação à vida com uma narrativa opressora e angustiante. E nada mais natural do que transmitir essa sensação provocando-as no leitor. A história que abre o livro, “Insônia”, por exemplo, é um belo conto. Descrevendo, em primeira pessoa, os pensamentos de um homem que sofre para dormir à noite, acabamos sendo jogados para a cama com aquele indivíduo. Somente quando compreendemos as angústias do sujeito, passamos a entender suas ações. Todas as suas frustrações e moléstias são sentidos por nós, leitores. Neste aspecto, o conto é incrível. Um ponto interessante da obra é a mudança de cenário. Dessa vez, Graciliano Ramos abandona o sertão para abordar a cidade. Quase todas as tramas são ambientadas na região urbana (provavelmente o Rio de Janeiro, cidade onde o escritor morava naquele momento). Assim, temos uma nova perspectiva do autor, que ficou exatamente conhecido por retratar o cenário rural e sertanejo. Agora que estou externando essa minha impressão, acho que consegui chegar a uma conclusão definitiva. O problema do livro não está na sua temática nem na sua estética. Afinal, se fosse analisar todos os contos separadamente, acredito que iria avaliar a maioria de forma positiva. Contudo, quando os agrupados, eles se tornam cansativos. O cenário doentio e mórbido, constituídos por personagens frios emocionalmente, causam tanta repulsão e ojeriza no leitor que compromete a leitura. Admito que pensei em parar de lê-lo várias vezes (só continuei por causa do compromisso de analisá-lo depois). Assim, depois do bom romance “Vidas Secas”, acho que os contos de “Insônia” ficaram a desejar. Vamos ver se tenho uma melhor impressão do próximo livro do Desafio Literário: “São Bernardo” (Record). Até o próximo post do Blog Bonas Histórias! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #GracilianoRamos #ColetâneadeContos #LiteraturaBrasileira #LiteraturaClássica #Drama #Regionalismo #Modernismo
- Filmes: O Guia do Mochileiro das Galáxias - Adaptação do clássico de Douglas Adans
Um amigo meu, há mais de dez anos, sabendo como sou fã de Douglas Adams e da série de ficção científica "O Guia do Mochileiro das Galáxias", me disse: "Para o seu bem, não assista à adaptação ao cinema do primeiro livro do Guia. O longa-metragem é tão ruim, mas tão ruim, que você corre o risco de começar a odiar Adams". Achei aquele comentário um tanto exagerado, apesar de não ter assistido ao filme no cinema na época do seu lançamento. Aquela história era tão boa, pensava eu, que era impossível transformá-la em um filme ruim. Somente agora consegui conferir o longa-metragem. Eu o assisti no final do mês passado, aqui em casa, com minha irmã. E, por incrível que parece, meu amigo não exagerou na ruindade da produção cinematográfica. De certa forma, ele foi até bonzinho ao dizer que se tratava de um filme ruim. "O Guia do Mochileiro das Galáxias" (The Hitchhiker's Guide to the Galaxy: 2005) é um dos piores filmes que vi nos últimos anos. Ele é horrível!!! Aí alguém pode comentar: "É óbvio que você ia falar mal do filme. Você é fã dos livros de Douglas Adams e iria, na certa, ver com maus olhos qualquer adaptação ao cinema da sua história favorita". Concordo com este ponto de vista. Porém, neste caso, eu poderia dizer simplesmente que o filme é inferior ao livro, que o longa-metragem é ruim ou que a produção cinematográfica ficou aquém das expectativas. O que estou dizendo é que fizeram algo que faria o escritor britânico se revirar no túmulo. O filme é péssimo! Para se ter uma ideia do nível de ruindade desta produção, minha irmã, que assistia ao filme comigo, com quinze minutos já queria quebrar a televisão (e olha que ela é boazinha). Com meia hora, ela me disse com muito ódio em seu rosto: "Você escolhe: ou eu cometo um suicídio aqui e agora na sua frente ou você me deixa ir embora. Não aguento mais assistir a esse lixo". Ela não é fã e nunca ouviu falar desta ficção científica (ou seja, não é implicância apenas dos fãs dos livros). Minha irmã não só saiu correndo de casa como ficou algumas semanas sem aparecer, como se temesse que eu a forçasse a ver o restante do filme até o final. Coitadinha! A adaptação ao cinema desse clássico da literatura britânica havia sido tentada antes em duas oportunidades, ambas sem sucesso: em 1982 e 2001. Em 2005, enfim, o britânico Garth Jennings dirigiu "O Guia do Mochileiro das Galáxias". O longa-metragem teve até um bom orçamento, de aproximadamente US$ 50 milhões. Os papéis principais ficaram com Martin Freeman, Yasiin Bey e Zooey Deschanel. Essa história começa com Arthur Dent (interpretado por Martin Freeman) brigando com os funcionários da prefeitura que queriam derrubar sua casa para construir uma rodovia no lugar. Durante o desespero do morador, um amigo de Arthur, Ford Perfect (Yasiin Bey), aparece e o acalma. Arthur não precisava se preocupar com sua casa, dizia o amigo. O planeta estava para ser destruído em algumas horas e aquela casa seria demolida de qualquer forma. Para fugir da destruição da Terra, a dupla pega carona em uma nave espacial que estava passando pelo planeta. Assim, Arthur e Ford começam a viajar pelas galáxias. Para sobreviverem nesse novo ambiente, eles usam o Guia do Mochileiro das Galáxias, um tipo de enciclopédia que continha todos os conhecimentos do universo. O maior problema do filme de Garth Jennings está no fato dele não conseguir retratar o humor sarcástico e debochado da literatura de Adams. O livro é engraçadíssimo enquanto o longa-metragem é cansativo. As piadinhas e a ironia fina do autor não são possíveis de serem passadas para a tela. Até mesmo quem conhece os pontos mais divertidos da trama tem dificuldade para achá-los no decorrer do longa-metragem. Outra coisa que incomoda é a falta de um roteiro claro. O expectador até consegue entender o que está acontecendo, mas não acha graça nenhuma em uma viagem interplanetária sem sentido. Assim, o filme vai se arrastando, arrastando e arrastando sem fim. Além disso, a péssima composição visual dos monstros, das aeronaves e dos cenários interplanetários confere um aspecto trash para a produção. Os extraterrestres são tão insossos e repugnantes que não cativam o expectador a acompanhar a trama. Por isso, para não entrar em pânico, não assista a este filme. Você ganhará muito mais lendo os cinco livros da série. Agora, se você quiser se arriscar a ver o longa-metragem, vá fundo. Só não convide ninguém para acompanhá-lo(a). Essa pessoa pode cometer um suicídio ou não voltar mais a vê-lo(a). Vai por mim! Veja o trailer de "O Guia do Mochileiro das Galáxias": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #DouglasAdams #GarthJennings
- Livros: Vidas Secas - O retirante sertanejo de Graciliano Ramos
Comecei a leitura de Graciliano Ramos, o autor foco deste mês do Desafio Literário, por sua obra mais conhecida: "Vidas Secas" (Record). Escrito entre 1937 e 1938 e publicado originalmente em 1938, este livro foi o quarto romance do escritor alagoano - "Caetés" (1933), "São Bernardo" (1934) e "Angústia" (1936), nessa ordem, foram antecessores. O enredo de "Vidas Secas" relata a vida sofrida da família de retirantes sertanejos: Fabiano (marido), Dona Vitória (esposa), o menino mais velho e o menino mais novo (os filhos, ainda crianças, não possuem uma denominação). Completa o grupo a cadela Baleia, considerada por todos como o quinto integrante do clã. A narrativa começa e termina com a família em caminhada para uma região menos árida. A seca castiga e devasta o Sertão, matando o gado, exterminando as plantações e trazendo fome e pobreza à população. Com a esperança de uma existência mais digna e melhor, o grupo abandonada tudo para trás e segue em caminhada para o sul do país. A primeira inovação de "Vidas Secas" foi jogar luz para um tipo de brasileiro que até então era desprezado pela literatura nacional: o sertanejo retirante. Nessa obra, entramos na vida e na mente das pessoas humildes que sofrem com a natureza (a seca implacável), com a ganância dos conterrâneos (sendo roubados pelo proprietário do armazém, pelo soldado e pelo dono das terras) e com a sua própria ignorância (não possuem qualquer estudo). Percorrer os pensamentos e os sonhos das personagens chega a ser poético. Fabiano deseja se tornar um homem respeitado socialmente; Dona Vitória sonha com uma cama de verdade e um futuro diferente para os filhos; e as crianças querem apenas emular as ações do pai-herói. Outro ponto muito interessante desta obra está em retratar o cenário (seca) e as personagens (seus comportamentos e aspirações) através da estética das palavras e do discurso. Como assim? Fabiano e sua família são descritos mais como animais do que como gente. Afinal, falam pouco (quando dizem algo é através de monossílabos ou de grunhidos), raramente conversam e estão sempre se agredindo. A seca do relacionamento e do diálogo entre eles, de certa forma, é um reflexo do ambiente em que estão inseridos. Por isso, a narrativa também é seca, sem diálogos e formada por textos curtos nos quais são descritas principalmente as ações das personagens. Ou seja, a aridez do ambiente invade as características das personagens e deságua na composição textual da obra de Gaciliano Ramos. O livro é pequeno, com pouco mais de 120 páginas. Contudo, o que é narrado é ainda mais limitado (demonstrando a pobreza da vida da família e dos acontecimentos por eles vividos). Podemos contar as cenas dessa história: Fabiano cuidando dos animais, Vitória cozinhando, as crianças brincando, Fabiano sendo roubado e maltratado pelos demais cidadãos e a família em migração por causa da seca. Possivelmente, o capítulo mais forte e marcante é aquele em que a cachorrinha da família precisa ser sacrificada. Curiosamente, há várias passagens do livro em que Baleia é quem possui os comportamentos e as características mais humanas (ela sofre um processo de humanização, enquanto seus donos passam por um processo de animalização). É realmente uma passagem muito triste e tocante. Eu que tinha lido esse livro pela primeira vez há quase vinte anos, a única personagem que me recordava em detalhes era a cadelinha Baleia e sua morte jamais saíra da minha mente. Como há pouca ação, "Vidas Secas" torna-se um livro mais descritivo (com relato dos cenários e dos acontecimentos) e psicológico (entramos nas cabeças das personagens, descobrindo seus medos, suas intenções e suas aspirações). Quem não está acostumado com uma obra literária mais reflexiva e sem tanta ação pode se incomodar um pouco. Gostei muito de reler esse livro. "Vidas Secas" realmente é um belo livro, demonstrando uma facete triste e desalentadora do nosso país. O próximo livro do Desafio Literário de maio que será analisado no Blog Bonas Histórias é "Insônia" (José Olympio), uma coletânea de contos de Graciliano Ramos. Até o próximo post! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #GracilianoRamos #Romance #LiteraturaBrasileira #LiteraturaClássica #Regionalismo #Modernismo #Drama
- Desafio Literário de maio/2016: Graciliano Ramos
Vamos começar o Desafio Literário de 2016 com um escritor brasileiro. O foco da análise desta vez no Blog Bonas Histórias será Graciliano Ramos. O autor de "Vidas Secas" (Record), um dos clássicos de nossa literatura, se dedicou aos romances, às crônicas, aos contos e as memórias. Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em 1892 na pequena cidade alagoana de Quebrangulo. Depois de viver durante toda a infância e a adolescência em várias cidades nordestinas, Graciliano se mudou já adulto para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como jornalista. Em 1915, voltou a morar no interior de Alagoas, chegando a ser prefeito da cidade de Palmeira dos Índios. Em 1930, se muda novamente e vai morar na capital do seu estado natal, onde passa a trabalhar como professor e diretor de escola. É nesta fase da vida, viúvo e com quatro filhos, quando começa a escrever seus romances. "Caetés" (Record) é lançado em 1933. No ano seguinte, "São Bernardo" (Record) é publicado. Em 1936, quando se preparava para produzir um novo livro, Graciliano Ramos foi preso pela ditadura de Getúlio Vargas. Assustado com a Intentona Comunista deflagrada em 1935, o gaúcho resolveu perseguir opositores e prender aqueles que tinham opiniões diferentes da sua. O escritor alagoano era um destes. Do período em que passou detido, Graciliano escreveu "Angústia" (Record), considerado por muitos como sua melhor obra. Em 1938, já libertado, lançou "Vidas Secas" (Record), sua obra mais celebrada. Na década de 1940, Graciliano voltou a morar no Rio de Janeiro. Na capital do país, ele ingressou novamente na política, entrando no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nesta fase, lançou "Infância" (José Olympio) em 1945, romance autobiográfico, "Histórias Incompletas" (José Olympio) em 1946, coletânea de contos, e "Insônia" (José Olympio) em 1947, outro livro de contos. Em 1952, o escritor alagoano adoeceu e ficou internado por muito tempo no hospital. Em 1953 acabou falecendo, vítima de câncer no pulmão. Ele fumava diariamente três maços de cigarros. Após sua morte, algumas de suas obras foram lançadas postumamente. Ao todo foram dez livros inéditos, entre memórias, crônicas, contos, literatura infantil e infanto-juvenil, relatos de viagens e coletânea com suas correspondências pessoais. Destaque para "Memórias do Cárcere" (José Olympio), "Alexandre e Outros Heróis" (Martins) e "Viagens" (Record). Ou seja, metade de suas publicações ganhou as livrarias após o seu falecimento. Para esta análise do Desafio Literário, foram escolhidos cinco livros: "Vidas Secas", "Caetés", "São Bernardo", "Insônia" e "Memórias do Cárcere". Enquanto as três primeiras obras são romances, as duas últimas são contos e memórias, respectivamente. Assim, acredito que posso englobar todos os gêneros literários trabalhados por esse escritor em sua carreira. O primeiro livro a ser analisado de Graciliano Ramos é "Vidas Secas". Vou começar a lê-lo (ou melhor, relê-lo, pois já fiz a primeira leitura há dezessete anos) agora mesmo. Não perca os próximos posts do Blog Bonas Histórias. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #GracilianoRamos
- Filmes: Capitão América, Guerra Civil - Nova fase dos super-heróis
Acredito que estamos entrando em uma nova fase dos filmes de super-heróis. Depois da etapa em que era preciso reunir vários personagens dos quadrinhos em um único longa-metragem para arrebatar grandes bilheterias, a pegada agora é outra. Ao invés de lutarem juntos contra o mal, esses heróis agora são confrontados uns contra os outros. E aí cabe ao telespectador escolher para qual lado torcer. O mocinho de uns pode ser o vilão de outros e vice-versa. Esse enredo menos maniqueísta já foi constatado no regular “Batman vs Superman – A Origem da Justiça” (Batman v Superman: Dawn Of Justice: 2016). Agora essa mesma dinâmica aparece de maneira mais intensa em “Capitão América: Guerra Civil” (Captain America - Civil War: 2016), obra dos irmãos Russo, Anthony e Joe (os mesmos diretores do último filme do Capitão América). Nesta produção, tomamos consciência dos estragos provocados pelas ações dos Vingadores nos filmes passados (o que por si só já é uma ótima sacada). Ao tentarem promover o bem e matar os vilões, os super-heróis acabam indiretamente provocando muita destruição por onde passam e causando mortes de civis inocentes. Por isso, a opinião pública conseguiu convencer os principais líderes políticos mundiais a controlarem mais os Vingadores, grupo formado pelos personagens Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Capitão América (Chris Evans), Viúva Negra (Scarlett Johansson), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), Visão (Paul Bettany), Falcão (Anthony Mackie) e Máquina de Combate (Don Cheadle). A decisão de ficarem o tempo inteiro submetidos às ordens e aos caprichos dos civis provoca um racha no grupo de super-heróis. Há quem apoie essa decisão e quem seja contrário. Assim, o Capitão América acaba ficando contra as opiniões do Homem de Ferro, dando início à divisão do grupo e ao confronto entre eles. “Capitão América: Guerra Civil” é um ótimo filme. Os acontecimentos vão se sucedendo sem parar a ponto de colocar os antigos amigos em lados opostos em uma guerra interminável. Fica difícil escolher para qual lado torcer. A tensão é crescente e o desfecho se dá em uma batalha que tem tudo para se tornar célebre no cinema. Os efeitos visuais e o acabamento das cenas são dignos de elogios. Os atores estão muito à vontade em seus personagens. Robert Downey Jr. e Chris Evans conseguem fazer um bom contraponto, atraindo o conflito para si. Scarlett Johansson continua maravilhosa como Viúva Negra e aos poucos vai ganhando mais (e merecida) projeção na história. Reparem também na atuação de Tom Holland II, interpretando o jovem Homem-Aranha. É impagável seu desempenho e as cenas em que aparece para o “duelo final”. Mesmo não sendo um fã de filmes de super-heróis, admito que gostei muito dessa produção. Ela consegue prender sua atenção ao longo das duas horas e entretém principalmente com o jogo psicológico (afinal, quem tem razão no meio dessa briga toda?). As cenas de lutas e de conflito também deixam a plateia sem ar na poltrona. Ou seja, este filme é uma das boas opções em cartaz nas salas de cinema no momento. Veja o trailer de “Capitão América: Guerra Civil”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnthonyRusso #JoeRusso #RobertDowneyJr #ChrisEvans #ScarlettJohansson #TomHollandII
- Especial: O cinema de Jorge Amado - Análise dos filmes
Quando falamos no Cinema de Jorge Amado, pode-se pensar, inicialmente, que se trata do conjunto das obras cinematográficas de um cineasta ou de um diretor da sétima arte. Esta expressão "Cinema de fulano de tal" é realmente mais comum de ser empregada para cineastas, diretores, produtores e atores que trabalharam neste tipo de produção. No caso de Jorge Amado e do uso deste termo nesta análise crítica se deve a importância das adaptações das histórias do escritor baiano para as telas. Jorge apenas participou como roteirista em alguns destes filmes, adaptando o texto literário para a versão cinematográfica. Mesmo assim, o alcance dos seus filmes (ou melhor, dos filmes com as suas histórias) para a cultura brasileira é de uma dimensão inimaginável. Ao todo foram dez filmes feitos baseados nas obras de Amado. Destes, oito são nacionais: "Terra Violenta" (1948), "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), "Tenda dos Milagres" (1977), "Gabriela" (1983), "Jubiabá" (1987), "Tieta do Agreste" (1996), "Quincas Berro D'Água" (2010) e "Capitães da Areia" (2011). E outros dois são estrangeiros: "Kiss Me Goodbye" (1982) é uma produção norte-americana baseada em "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Miracoli e Peccati di Santa Tieta D'Agreste" (1996), produção ítalo-franco-teuto-hispano-brasileiro baseado em "Tieta do Agreste". Além do cinema, muitas destas histórias também se transformaram em minisséries e novelas televisivas no Brasil: "Gabriela" (1975), "Terras do Sem Fim" (1981), "Tenda dos Milagres" (1985), "Tieta" (1989), "Capitães da Areia" (1989), "Tereza Batista" (1992), "Tocaia Grande" (1995), "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1998), "Porto dos Milagres" (2001) e "Pastores da Noite" (2002). O Cinema de Jorge Amado tem uma importância comparável a sua literatura, principalmente no Brasil onde as pessoas têm certa dificuldade para ler livros, mas adoram ficar na frente da televisão assistindo a uma produção cinematográfica ou a uma novela. Muitas das histórias do escritor baiano se incorporaram ao imaginário coletivo da população por causa destas adaptações para a tela. Mesmo mais de trinta anos depois, muita gente se lembra de José Wilker desfilando pelado pelas ruas de Salvador de mão dada com Sônia Braga ("Dona Flor e Seus Dois Maridos") ou com ambos deitados na cama ao lado de Mauro Mendonça (também em "Dona Flor e Seus Dois Maridos"). Uma das cenas clássicas das telenovelas brasileiras é Sônia Braga, como Gabriela, no alto do telhado de sua casa, chamando a atenção dos homens que passavam lá em baixo ("Gabriela"). Detalhe curioso: esta passagem não consta na obra literária de Jorge Amado. Assim, o cinema de Jorge Amado, principalmente aquele da década de 1970 e 1980, é muito popular e contundente. As duas fases do escritor estão contempladas nessas adaptações: a primeira, com críticas sociais, e a segunda, da moral de costumes. A grande maioria dos enredos respeitou quase que integralmente as narrativas dos livros. E no cinema, também temos muitas das características de Jorge Amado: a sensualidade da mulata, a religiosidade africana, os debates de cunho político-econômico-social, o destaque para os personagens das classes sociais mais desfavorecidas, o culto à cultura popular (música, culinária, festas e religiosidade de origem africana), a denúncia social e o retrato da vida cotidiana da Bahia. Os principais destaques dessas produções consideradas antigas (década de 1970 e 1980) vão para os filmes "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), segundo maior bilheteria do cinema brasileiro em toda a história, e "Gabriela" (1983) e para a novela "Tieta do Agreste" (1989), da Rede Globo, um dos maiores sucessos da emissora carioca. Infelizmente, as produções mais recentes (as dos anos 2000 para cá) não tiverem muita repercussão, tendo seu alcance e seu impacto muito limitados. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Aproveite e deixe seu comentário. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #JorgeAmado #Cinema #CinemaBrasileiro
- Livros: O Monge e o Executivo – O best-seller de James C. Hunter
No último final de semana, fui até a estante do meu quarto para pegar um livro que eu tinha achado muito interessante há sete ou oito anos. Minha dúvida, agora, era se ele me surpreenderia positivamente numa segunda leitura. A passagem do tempo seria ou não seria um adversário cruel para esta publicação?! Estou falando de “O Monge e o Executivo” (Sextante), a principal obra da carreira do norte-americano James C. Hunter. Se você ainda não a leu, aposto que ao menos já ouviu falar dela. Impossível alguém que tenha frequentado minimamente as livrarias brasileiras na última década não ter se deparado com este título em algum momento. Nas páginas de “Um Monge e o Executivo”, temos um debate franco sobre as formas modernas de liderança e de gestão de pessoas. Com perspicácia, o autor apresenta essas questões através de uma narrativa ficcional, o que tira um pouco o tom didático e professoral do livro. Ou seja, por meio de uma pequena novela, o leitor compreende as diferenças entre o estilo de administração antigo e o moderno, uma questão que tem preocupado muitos profissionais nos últimos anos. Atire a primeira pedra quem ainda não perdeu o sono com algo nesse sentido! Adianto que, mais uma vez, não fiquei nem um pouco decepcionado com esta leitura. Mais de uma década e meia após seu lançamento, “O Monge e o Executivo” continua cumprindo magnificamente bem seu propósito de orientar executivos, empresários, gerentes, supervisores e líderes organizacionais na trilha de como devem atuar. Apesar de muitos dos seus conceitos serem atualmente clichês, a obra permanece atual e didática. Para quem achava que na minha biblioteca só havia títulos na área de literatura, confesso que ela possui uma boa dose de livros de negócios. São os resquícios da época em que trabalhava como executivo de empresas nacionais e multinacionais. Contudo, ressalto que, à princípio, não gosto (nunca gostei) de publicações voltadas para a autoajuda e com propostas muito midiáticas de liderança e gestão. Acho este tipo de literatura empresarial pobre e com um cheirinho de oportunismo. Por isso, minha recusa, na maioria das vezes, de comentá-las no Blog Bonas Histórias. Geralmente, leio essas obras com os “dois pés atrás” (ou seria com “a pulga atrás da orelha”?). Surpreendentemente, minha previsão e os meus preconceitos estavam errados neste caso. Lembro de ter gostado muitíssimo de “O Monge e o Executivo” na época em que o li pela primeira vez. Diferentemente da maioria dos seus similares, este livro consegue despertar no leitor uma reflexão profunda e inteligente sobre a forma como ele (o leitor) tem agido, seja no âmbito familiar, profissional ou pessoal. Não à toa, esta criação de James C. Hunter se transformou, com todo merecimento, em um dos maiores best-sellers do gênero em nosso país. Lançado, em 1998, nos Estados Unidos com o título “The Servant”, “O Monge e o Executivo” foi publicado no Brasil em 2004. E em nosso território, a obra se tornou um dos maiores sucessos editoriais da área empresarial. Até hoje, este é o livro de maior vendagem da editora Sextante, com aproximadamente 3 milhões de unidades comercializadas. Na América do Norte, por outro lado, a publicação de Hunter só vendeu 200 mil exemplares, pouquíssimo se comparado ao seu desempenho no Brasil – um mercado infinitamente menor do que o norte-americano. Curiosamente, James C. Hunter não é um escritor profissional - do tipo romancista ou que trabalha prioritariamente para vender seus livros. Ele é consultor empresarial e sócio de uma empresa de consultoria e treinamento especializada em liderança organizacional. Hunter também se dedica a realizar palestras motivacionais, principalmente nos Estados Unidos. Na esteira do sucesso de “O Monge e o Executivo”, o autor deu sequência aos conceitos apresentados em seu livro mais famoso. “De Volta ao Mosteiro” (Sextante) e “Como Se Tornar um Líder Servidor” (Sextante) são algumas das obras do norte-americano que foram traduzidas para o português. “O Monge e o Executivo” é um texto em primeira pessoa narrado por John Daily, um alto executivo de uma empresa em Michigan. O protagonista está vivendo uma séria crise tanto no âmbito profissional quanto no doméstico. No trabalho, Daily é alvo das críticas dos funcionários e dos colegas por causa de seu estilo de gestão turrão e pouco democrático. Se no passado, ele se tornou o gerente mais jovem da companhia, considerado um talento raro, hoje o executivo vive atormentado com o baixo desempenho da sua equipe, a ação cada vez mais nefasta do sindicato e o desânimo geral. Em casa, por sua vez, o casamento de John também não vai nada bem. Tanto a esposa, Rachel, quanto os dois filhos adolescentes do casal reclamam da ausência e do pouco caso que a personagem central da trama tem em relação às suas rotinas. Para refletir sobre seus problemas, John Daily vai passar uma semana no mosteiro João da Cruz, localizado às margens de um lago em Michigan. Naquele lugar bucólico e com muita natureza, ele vivenciará uma mistura de retiro espiritual com aulas sobre liderança. Ao todo, a turma de John é composta por seis alunos. Além dele, temos Lee, um pastor evangélico, Greg, um sargento do Exército, Teresa, diretora de uma escola, Chris, uma treinadora de um time de basquete, e Kim, uma experiente enfermeira. O professor do sexteto é um monge idoso chamado Simeão. Antes de virar monge e passar a viver enclausurado no mosteiro João da Cruz, Simeão, que ganhara esse nome após sua conversão, havia trabalhado por muitas décadas como diretor e presidente em grandes companhias norte-americanas. Leonard Hoffman (esse é seu nome de batismo) liderou empresas que passavam por dificuldades financeiras e as levou de volta ao sucesso comercial. Por isso, se tornou uma das figuras mais respeitadas no mercado empresarial de seu país. Porém, hoje em dia, Simeão/Leonard atua quase que anonimamente na orientação de pessoas interessadas em conhecer o estilo de liderança chamado de servidor. Ou seja, abandonou uma carreira de sucesso para viver quase que isolado no interior de um centro religioso. É através das discussões protagonizadas nas aulas diárias com Simeão que John, Lee, Greg, Teresa, Chris e Kim poderão refletir sobre suas crenças e seus comportamentos. Os capítulos do livro são, basicamente, o relato dos diálogos travados entre a turma de alunos e o professor-monge sobre a liderança servidora. Cada capítulo da obra apresenta um dia do retiro espiritual do grupo no mosteiro (ou seja, são 7 capítulos). “O Monge e o Executivo” é uma publicação com uma leitura extremamente rápida. Com menos de 140 páginas, é possível ler a obra integralmente em uma única tarde. Foi o que fiz no último sábado. Demorei entre três e quatro horas para concluí-la. O que chama a atenção logo de cara neste livro é a falta de ação em sua narrativa. A trama está quase que totalmente ancorada nos diálogos. Para sorte do leitor, James C. Hunter sabe produzir boas conversas. Acabamos conhecendo a vida, os pensamentos e os dramas de cada uma das personagens através do que elas dizem. Nesse sentido, não achei a obra parada ou entediante. Pelo contrário. Sua vitalidade está diretamente associada à qualidade dos diálogos travados. Repare na riqueza conceitual e filosófica por trás do que é discutido nas aulas de Simeão. O conflito central da obra está na resistência da turma em assimilar os conceitos apresentados por Simeão. De maneira esquemática, temos uma disputa ideológica entre alunos (sistema antigo de gestão de pessoas) e professor (sistema moderno de gestão de pessoas). Todos os participantes da aula são, de alguma forma, resistentes (uns mais do que outros, obviamente) à prática da liderança baseada na autoridade (e não na do poder, como é normalmente visto em nossa sociedade). Pouco a pouco, contudo, cada um dos integrantes da turma vai entendendo e absorvendo os ensinamentos do religioso (assim como o leitor também absorve suas lições). Hunter foi tão feliz em sua produção que ele conseguiu criar heróis e antagonistas dentro da turma de Simeão. Note na ojeriza que Greg desperta nos colegas, e, principalmente, em John. A postura de confronto do protagonista em relação ao sargento é muito sintomática. Será que John não agia igualzinho a Greg antes de passar a semana no mosteiro? A impressão pelos seus comportamentos é que a resposta é positiva a esta pergunta. Outro aspecto elogiável é a objetividade do texto de James C. Hunter. O autor não perde tempo com nada que não seja essencial. Ele vai direto ao ponto, o que deixa sua história mais rápida e interessante para o leitor. É verdade que “O Monge e o Executivo” tem seus problemas de ordem narrativa. A maioria dos diálogos, apesar de excelente, é pouco verossímil. Não conheço ninguém que converse apresentando tão bem fontes bibliográficas como os alunos do mosteiro João da Cruz. Além disso, todos os participantes trocam impressões profundas sobre os conceitos apresentados pelos colegas como se tivesse ouvido, lido e analisado em profundida cada livro comentado. Já participei de muitos workshops e cursos de excelente qualidade e isso não acontece na prática. Outro problema conceitual está nas derrapadas de ordem religiosa. Quando o texto começa a descambar para a doutrinação cristão e os elogios hiperbólicos a Jesus Cristo, o livro perde um pouco de sua vitalidade. A tentação de explicar a força da liderança servidora comparando a atuação de figuras religiosas e até mesmo a presença de Deus (?) me parece um recurso apelativo do autor, se bem que condizente com a personalidade de Simeão, o professor religioso. Tenho a impressão de que quando “O Monge e o Executivo” foi lançado no final da década de 1990, muitos dos conceitos abordados por Hunter em seu texto não eram tão clichês como são agora. A disseminação dos princípios, dos exemplos e das referências apresentados nos capítulos da obra só atingiu, em grande parte, às massas (de profissionais engravatados, obviamente) graças ao sucesso retumbante desta publicação. Nesse sentido, “O Monge e o Executivo” é um livro muito bom e atual, apesar de ter perdido um pouco de sua força exatamente por ter se tornado um best-seller. É como se uma ótima música, depois de tantas vezes ouvida na rádio, tivesse se transformado em algo brega, de segunda categoria ou repleta de chavões. A culpa desse envelhecimento prematuro não é da canção, propriamente dito, e sim do excesso de vezes em que ela é ouvida. Acho que o mesmo pode ser aplicado ao “Monge e o Executivo”. Continuo gostando muito deste livro e do trabalho de James C. Hunter. Tenho certeza que se voltar a ler essa obra daqui a sete ou oito anos, continuarei gostando do seu conteúdo. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JamesCHunter #Autoajuda #LiteraturaNorteAmericana
- Filmes: Tenda dos Milagres - O preconceito e o racismo na Bahia de Jorge Amado
Um ano após o sucesso retumbante de crítica e de público, nos cinemas brasileiros, do filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), dirigido por Bruno Barreto, o cineasta Nelson Pereira dos Santos lançou o longa-metragem "Tenda dos Milagres" (1977). Nesta época, Pereira dos Santos já era um dos mais importantes cineastas nacionais, pioneiro do Cinema Novo no Brasil e muito influenciado pelo Neo-Realismo italiano. É dele, por exemplo, o clássico "Vidas Secas" (1963), filme baseado no romance de mesmo nome de Graciliano Ramos e que ganhou muitos prêmios internacionais (conquistou o OCIC e Prêmio dos Cinemas de Arte, além de ter sido indicado a Palma de Ouro daquele ano). Com Hugo Carvana no papel de Fausto Pena, Sônia Dias como Ana Mercedes, Jards Macalé e Juarez Paraíso interpretando Pedro Archanjo (em diferentes momentos, o primeiro no período jovem do personagem e o segundo no momento mais maduro) e Nildo Parente como o Professor Nilo Argolo, o filme foi baseado na obra homônima de Jorge Amado, publicada oito anos antes, em 1969. O próprio autor da obra literária participou da elaboração e da adaptação do roteiro do longa-metragem, conferindo mais autenticidade à produção cinematográfica. O espaço de tempo entre o lançamento do livro e do filme representou muitas mudanças no cenário político-social do país. Em 1969, quando Amado publicou "Tenda dos Milagres", o Brasil tinha acabado de instaurar o AI-5, o Ato Institucional No 5, que restringia as liberdades da população e o seu direito à livre expressão. Assim, o escritor baiano foi muito corajoso ao debater temas políticos em sua obra. Oito anos mais tarde, em 1977, o país já estava se preparando para a retirada gradual dos militares do poder. Assim, foi mais tranquilo para o cineasta Nelson Pereira dos Santos debater as ideias de Jorge Amado, sem sofrer muito com a censura e com a perseguição dos poderosos. Nos cinemas nacionais, "Tenda dos Milagres" não teve o mesmo sucesso de "Dona Flor e Seus Dois Maridos". O novo filme não alcançou um décimo da bilheteria do seu antecessor. Mesmo assim, em 1985, a Rede Globo lançou uma minissérie televisiva com esta história, obtendo relativo sucesso. No filme de Nelson Pereira dos Santos, temos a mesma dinâmica encontrada no livro de Jorge Amado: a história é contada em dois períodos de tempo distintos. Ora estamos no final da década de 1969, quando o poeta Fausto Pena se encarrega de pesquisar sobre a vida e sobre a obra de Pedro Archanjo. Archanjo foi alçado do completo desconhecimento à fama repentina (e póstuma) por uma declaração do prêmio Nobel, o intelectual norte-americano James D. Levenson. Em outro momento, voltamos ao final do século XIX e ao início do século XX e passamos a acompanhar a trajetória de vida de Pedro Archanjo, mulato simples e pobre que trabalhava como bedel na Faculdade de Medicina da Bahia quando passou a escrever livros defendendo a mestiçagem do povo brasileiro. O filme é um constante vai e volta entre esses dois períodos de tempo, conferindo certo dinamismo à produção. O enredo do filme respeita, na maior parte do tempo, a história original de Jorge Amado. Foram poucas as adaptações necessárias para o longa-metragem. Uma delas foi a inclusão da produção de um filme, por parte do poeta Fausto Pena, sobre a vida e as obras de Pedro Archanjo. Enquanto na literatura o poeta desenvolveu um livro sobre o seu conterrâneo (fica implícito que o livro que lemos de Jorge Amado é aquele escrito por Pena), no filme não existe um livro e sim um longa-metragem (neste caso a metalinguagem permanece e entendemos que o filme de Fausto Pena é aquele que assistimos na tela de Nelson Pereira dos Santos). Além disso, na produção cinematográfica de Pereira dos Santos, há a inclusão de muitas cenas com notícias jornalísticas da TV comunicando algum acontecimento do país e de Salvador, algo incomum no livro de Jorge Amado. O filme, por exemplo, começa com o comunicado televisivo sobre a previsão de tempo ("tempo bom, temperatura amena"), que em um contexto ditatorial assume uma conotação satírica e de paródia (como pode estar tudo bem se o país sofre com ditadores no poder?!). Outra mudança se deu na cena que retrata a morte de Pedro Archanjo. Se no livro ele morre na rua, atuando em um movimento social e pensando em escrever um novo livro, no filme ele morre em uma festa promovida por Damião de Souza (seu amigo) em um decadente prostíbulo onde ele foi morar de favor. As questões sobre a miscigenação e o debate sobre o preconceito racial permeiam o filme o tempo inteiro. Desde o início podemos perceber isso. As imagens fotográficas do século XIX com brancos e negros convivendo em espaços públicos e privados chama a atenção do espectador na abertura da produção. Algumas destas fotos mostram negros vestidos à moda dos brancos, enquanto outras imagens destacam a africanidade deles. Depois, com o desenrolar do filme, temos muitos debates e várias discussões, principalmente entre os professores da Faculdade de Medicina da Bahia, sobre a questão racial. Pedro Archanjo defende o processo de miscigenação da população brasileira e Nilo Argolo defende a segregação racial. Os diálogos são ótimos e foram muito bem extraídos do livro. A trilha sonora ajuda a criar um clima de "África" e de "Brasil Negro" para a trama. A canção “Babá Alapalá”, de autoria de Gilberto Gil, embala as principais cenas do filme e é marcante. O principal ponto negativo do filme está no excesso de personagens, o que torna, às vezes, a história um pouco confusa para quem não leu o livro. Aqueles que não gostam de filmes com muitos diálogos e com tramas sem grandes acontecimentos podem achá-lo um pouco chato e tedioso. Esta impressão é a mesma que tive ao ler o livro. "Tenda dos Milagres" foi indicado na categoria "Melhor Filme" na Palma de Ouro e ganhou os prêmios de "Melhor Diretor" (Nelson Pereira dos Santos) e de "Melhor Atriz" (Sônia Dias como Ana Mercedes) no Festival de Cinema de Brasília de 1977. Veja um trecho de "Tenda dos Milagres": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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- Filmes: Dona Flor e Seus Dois Maridos - Um clássico do cinema nacional
"Dona Flor e Seus Dois Maridos" é um filme produzido por Luiz Carlos Barreto e dirigido por Bruno Barreto, tendo a direção de fotografia Murilo Salles. De 1976, esta comédia foi um grande sucesso do cinema brasileiro. Por muitos anos, ela foi a recordista de público, ao levar mais de 10 milhões de espectadores às salas de cinema. Apenas 34 anos depois, Tropa de Elite 2 (2010) conseguiria superar este feito. A vida de Dona Florípedes Guimarães, conhecida como Dona Flor, com seus dois maridos, Vadinho e Teodoro, seria depois filmada nos Estados Unidos com o título "Meu Adorável Fantasma" (Kiss Me Goodbye: 1982). Em 1998, a Rede Globo produziu uma minissérie sobre esta história com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini nos papéis principais. De autoria de Dias Gomes, Ferreira Gullar e Marcílio Moraes, a minissérie teve direção de Mauro Mendonça Filho. O filme de Bruno Barreto teve o protagonismo de Sônia Braga, no papel de Dona Flor, de José Wilker como Vadinho (o primeiro marido de Florípedes) e Mauro Mendonça interpretando Teodoro (o segundo esposo). A atuação dos três foi tão espetacular que eles ficaram marcados para sempre como os rostos destes três personagens. Até hoje, quando falamos em Dona Flor, Vadinho e Teodoro, nos vem na mente as imagens, respectivamente, de Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. Sônia Braga fez tanto sucesso neste papel que seria chamada posteriormente para fazer outro personagem importante da obra do escritor baiano, Gabriela, no filme homônimo produzido em 1983, pelo mesmo Bruno Barreto. Assim, a atriz ficaria marcada para sempre como a imagem concreta da mulher sensual concebida por Jorge Amado. O enredo do filme, como não poderia ser diferente do livro, aborda a história de Dona Flor, uma professora de culinária, proprietária da escola Sabor & Arte. Depois de perder seu primeiro marido, o malandro Vadinho, morto durante o Carnaval, a viúva se casa, após respeitar o período de luto, com Teodoro, um respeitável farmacêutico da cidade. Apesar de ter arranjado um ótimo marido, Flor ainda sente saudade do primeiro marido. E após pedir para que ele voltasse, o espírito do falecido retorna para ela. A antiga esposa de Vadinho é a única capaz de vê-lo, o que provoca cenas curiosíssimas. E é exatamente por isto que começam as confusões na vida de Dona Flor. Insistindo em manter a fidelidade a Teodoro, ela resiste o quanto pode aos avanços libidinosos do primeiro marido, até cair na tentação. O filme de Bruno Barreto respeita fielmente a narrativa do livro de Jorge Amado. Este, talvez, seja o grande mérito do longa-metragem e o principal fator do seu grande sucesso. Ele começa exatamente como se inicia a obra literária, com a morte de Vadinho em pleno Domingo de Carnaval. O ano era 1943. Depois, a narrativa avança para o velório e para o enterro do malandro. Nestes dois momentos, enquanto os amigos louvavam os feitos do falecido, as amigas de esposa dele o condenavam como o pior marido que Dona Flor poderia ter arranjado. Com o estabelecimento da viuvez de Dona Flor, a retrospectiva da vida do morto é feita através do recurso de flashback. Dona Flor lembra como era o tempo de casada com o seu primeiro marido. Tanto no livro quanto no filme sabemos quem foi Vadinho por estas lembranças. Ou seja, as duas obras (livro e filme) utilizam da retrospectiva para contextualizar a história. Viciado em jogo, frequentador assíduo dos cassinos, dos bares e das casas de meretrizes da cidade, infiel contumaz (inclusive traiu a esposa na noite do casamento), flertando até com as alunas do curso de culinária da esposa, Vadinho era o orgulho dos amigos. Vagabundo incorrigível, andava seminu pela casa (só de shortinho, meio indecente), vivia bêbado e pedindo dinheiro para todo mundo para apostar em jogo e em apostas das mais variadas. Chegava a bater na mulher porque ela não queria lhe dar uns trocados. Mas, ao mesmo tempo, era um marido apaixonado por Dona Flor, capaz de levá-la a loucura na cama e também fazer gestos de romantismo, como proporcionar serenatas à noite, na porta da janela de casa. Também lhe dava presentes caros como joias e a levava, de vez em quando, para passeios memoráveis. A atuação de José Wilker como Vadinho é espetacular! A representação do segundo marido de Dona Flor também foi muito bem feita por Mauro Mendonça. Entrando em ação principalmente na segunda metade do longa-metragem, o ator consegue conferir ao personagem um aspecto sério, honrado e regrado. Teodoro é o oposto do primeiro marido de Dona Flor. Ele é trabalhador, honesto, fiel, culto, carinhoso, educado, sistemático e civilizado. Flor adora o segundo esposo, tendo o maior respeito e consideração por ele. Entretanto, o casamento perfeito, como este é intitulado por todos, não satisfaz plenamente a protagonista. Ela sente falta da paixão e dos momentos carnais vivenciados com o primeiro marido, quase inexistentes no segundo matrimônio. De certa forma, o ideal seria unir Vadinho e Teodoro em uma única pessoa. Afinal, os dois se completam. É isto que, de certa forma, Dona Flor tenta fazer ao ficar com os dois. O filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos" tem trilha sonora de Chico Buarque e Francis Hime. A música principal é "O que Será?" (1976), interpretada pela voz potente e marcante de Simone. Chico ficou responsável pela letra, enquanto Hime cuidou da melodia. Esta é uma das músicas mais libidinosas de Chico Buarque, se encaixando perfeitamente ao enredo desta ficção. Ela foi desenvolvida pelo músico especialmente para este filme, possuindo três versões, denominadas "Abertura", "À Flor da Pele" e "À Flor da Terra". Cada uma destas versões é uma música independente, feitas para marcar diferentes passagens da trama. A escolha desta canção para integrar o longa-metragem foi uma decisão sábia, pois ela consegue pontuar e valorizar os principais momentos da produção cinematográfica. Um dos pontos que mais chama a atenção deste longa-metragem é a sua sensualidade e sua sexualidade. Típicas da obra de Jorge Amado, estas questões se evidenciam na tela pela maneira arrojada como as cenas foram filmadas. Aqui temos muita influência da Pornochanchada, gênero do cinema brasileiro que teve seu auge exatamente na época da produção deste filme, na década de 1970. Questionando os costumes e explorando o erotismo, as Pornochanchadas usavam e abusavam da nudez e das cenas de sexo. E é exatamente o que temos aqui. "Dona Flor e Seus Dois Maridos" mostra tudo (ou quase tudo). Vadinho é um libertino, capaz de fazer sexo com todas as mulheres, a todos os momentos. José Wilker fica completamente pelado na maioria das cenas depois que seu personagem volta depois de morto. Assim como acontece no filme "Gabriela", este também é muito sinestésico. Temos uma confluência de sentidos. A audição é aflorada (as serenatas protagonizadas por Vadinho e os concertos de Teodoro são encantadores, além de todo momento alguém estar cantando em cena), o paladar é realçado (as receitas de Dona Flor parecem ser deliciosas), a visão é valorizada (principalmente com os enquadramentos de câmera das partes mais atraentes dos corpos dos atores) e o tátil é reforçado a todo instante (Vadinho está a todo momento mexendo em seu corpo ou nos das mulheres a sua volta). O principal defeito do filme está atrelado ao principal problema da história escrita. A parte mais interessante desta obra é quando Vadinho volta, depois da morte, para atazanar o cotidiano de Dona Flor. Tanto o livro quanto o filme gastam a quase totalidade do seu tempo narrando a vida de Flor com Vadinho e, depois, com Teodoro, deixando para o finalzinho as confusões provocadas pela presença dos dois maridos juntos. Esta parte poderia ser mais explorada, tanto na produção literária quanto na cinematográfica, pois é quando se concentra os momentos mais ricos, inovadores e cômicos, narrativamente falando. O filme, como é típico de qualquer adaptação para este gênero, acabou suprimindo a atuação de alguns personagens da obra literária. Quem foi mais prejudicada foi a mãe de Dona Flor, Dona Roselina. Nos textos de Jorge Amado, a velha senhora é retratada como uma megera, a atazanar a vida de todos a sua volta. No filme, ela tem passagens pontuais, não ficando tão claro este papel de vilã da história. As amigas de Dona Flor e os amigos de Vadinho também têm um peso menor no filme. Alguns destes personagens foram completamente suprimidos da história contada na tela. O filme de Bruno Barreto consegue retratar muito bem Salvador da década de 1940. Porém, seu grande mérito está em ser fiel a obra escrita de Jorge Amado. Afinal, seria um pecado fazer qualquer grande mudança nesta história tão sublime. A atuação fantástica dos atores principais também contribuiu sensivelmente para colocar esta produção em um patamar mais elevado de qualidade. Além do sucesso de bilheteria, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" foi congratulado com dois Kikitos, no Festival de Cinema de Gramado, um na categoria de melhor diretor e outro na de melhor trilha sonora. Recebeu também uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de melhor filme estrangeiro e uma indicação ao Bafta (a principal premiação da Inglaterra) na categoria atriz revelação (para Sônia Braga). Trata-se de um grande filme para uma ótima história, uma referência do cinema nacional. Veja o trailer de "Dona Flor e Seus Dois Maridos": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JorgeAmado #LuizCarlosBarreto #BrunoBarreto #MuriloSalles #SôniaBraga #JoséWilker #MauroMendonça #ChicoBuarque #FrancisHime
















