Crônicas: Tempos Portenhos – Episódio 10 – Amores e desamores na capital argentina

No penúltimo episódio da série narrativa sobre como é morar em Buenos Aires, vamos debater os desafios típicos dos brasileiros no momento de se relacionarem no exterior.

Depois de quase três anos escrevendo sobre como é morar em Buenos Aires, chegou o momento de eu contar como é para um estrangeiro se relacionar afetivamente na maior cidade às margens do rio da Prata. Esse é, provavelmente, o tema mais difícil de “Tempos Portenhos”, a série narrativa não ficcional que detalha como é para um brasileiro viver na capital da Argentina. Pelo menos para mim esse é um nó difícil de desatar. E qual seria o motivo dessa grande dificuldade, hein? Talvez a minha enorme timidez para detalhar as particularidades amorosas seja o maior dos obstáculos. Enquanto tem gente que se abre facilmente, descrevendo seus amores e desamores e postando incontáveis fotos nas redes sociais, sou do tipo tímido, fechadão. Não à toa, deixei esta crônica para o final desta coletânea não ficcional do Bonas Histórias.
Se você chegou agorinha a esta página perdida no mundão sem fim da internet em língua portuguesa, saiba que já discutimos vários assuntos (bem menos difíceis para mim) em “Tempos Portenhos”, o mais recente conteúdo da coluna Contos & Crônicas. O Episódio 1 – Distopia Paulistana ou Carioca tratou da sensação de segurança que os brasileiros têm ao perambular pelas ruas de Baires. No Episódio 2 – Vida ao Ar Livre, abordei a paixão local pelos programas em ambientes externos. O Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes e o Episódio 4 – O Espanhol Argentino foram, respectivamente, sobre a adoração dos moradores de CABA pelos animais de estimação e sobre a dificuldade dos brasileiros para falarem fluentemente o castelhano rio-platense. Aí, no Episódio 5 – Sentando-se à Mesa com os Argentinos, discorri sobre a culinária portenha e, no Episódio 6 – La Verdadera Cancha del Fútbol, dei um panorama de como é o futebol tricampeão do mundo.
No Episódio 7 – A Capital Cultural da América do Sul e no Episódio 8 – A Montanha-russa da Economia Argentina, analisei, respectivamente, a efervescência artística de la ciudad de la furia e os altos e baixos da situação financeira do país do tango. No capítulo mais recente de “Tempos Portenhos”, apresentei as particularidades das várias regiões de Buenos Aires. Como essa crônica ficou muito grande, acabei precisando dividi-la em duas partes. No Episódio 9 – Passeio por Buenos Aires (Parte I), falei especificamente da Zona Norte do Distrito Federal argentino. E no Episódio 9 – Passeio por Buenos Aires (Parte II), percorri os bairros e as cidades do restante da região metropolitana.
Agora chegou a hora do Episódio 10 – Amores e desamores na capital argentina. Nesta crônica, quero compartilhar as experiências afetivas que tive em terras portenhas. Afinal, esse é um dos aspectos sociais mais sensíveis dos imigrantes que chegam a um novo país, né? A ideia é falar das descobertas, das dificuldades e das alegrias pelas quais um solteirão passou no exterior. Curiosamente, depois fui perceber que o que vivenciei não foi tão diferente daquilo que estrangeiros passam nas outras partes do mundo.
Então, vamos ao texto de hoje, senhoras e senhores.

1) Na pele de Jack Torrance durante o inverno argentino
Vale esclarecer que me mudei em setembro de 2023 para Buenos Aires. Cheguei à metrópole argentina sozinho. Afinal, sou solteiro e não tenho filho. Como trabalhava como escritor na EV Publicações em home office, poderia morar onde quisesse. E, obviamente, com uma alma mais portenha do que paulistana, fui para Baires sem pestanejar, deixando a família e os amigos em São Paulo.
É curioso falar sobre isso, mas sempre fui do tipo antissocial. Tenho pouquíssimos amigos (que cabem nos dedos de uma mão), não sou namorador (muitas vezes, fujo de relacionamentos mais sérios) e gosto bastante de ficar em casa (me classifico como caseiro). Dessa maneira, morar num lugar sem nenhum conhecido por perto não foi um desafio pra lá de complicado. Para ser bem franco, até gosto de não ter tanta interação social no meu dia a dia. O único porém é que, numa rotina mais isolada, a fluência no espanhol acaba sendo prejudicada, pois há menos oportunidades de praticar o idioma.
Passados três meses na minha nova rotina, comecei a receber a visita de conhecidos do Brasil. Meu apartamento em Saavedra, na Zona Norte de CABA, se transformou numa espécie de consulado verde-amarelo informal. A primeira a chegar foi minha irmã Marcela, em dezembro. Ela deu uma ligeira pausa na Dança & Expressão e ficou uma semana comigo. Depois, Carlinha, amiga de longa data, e Paulinho, meu amigo mais engraçado, ficaram em casa duas semanas cada um em janeiro de 2024, em épocas distintas.
Na sequência, foi a vez de Eduardo, amigo de infância, e sua bela família (beijinho, Dri, Gui e Larissa) curtirem o Carnaval ao meu lado. Ainda tive tempo de receber Daniella (lê-se Daniecha) e Markinhos, o alemão mais verde-amarelo da história, em março. Com tanta gente no meu pequeno apê, não deu para sentir falta da família nem dos amigos. Como adorei essas visitas, Santo Deus!
Com o fim da romaria dos conhecidos por Saavedra, consegui sociabilizar um pouco com os colegas do curso de espanhol que fiz na UBA. Salve, salve, Sub-30 e Rai! Saudade de vocês dois! Depois, acabei me integrando naturalmente à dinâmica da Zona Norte. Fiz amizade com alguns vizinhos de Saavedra, Núñez e Belgrano e virei torcedor (no caso, hincha) do Platense. Assim, mesmo que sem querer, me tornei “el brasileño” daquele canto da cidade. Posso garantir que meu primeiro semestre fora do Brasil foi extremamente agradável. Um dos meus programas favoritos em CABA era realizar longas caminhadas pela cidade ou pela Costanera de Vicente López.
Estou narrando isso porque fiquei quase nove meses sem ter qualquer problema de interação social. Em outras palavras, os visitantes do Brasil (no verão) e, depois, meus amigos da UBA e os vizinhos argentinos (no outono) supriram tranquilamente minhas necessidades iniciais de convívio social. É aquele velho negócio: para quem tem bateria social baixa, não são necessários muitos atrativos para recarregá-la, né?
Aí chegou o inverno de 2024. Nesse instante, deixei de frequentar as aulas de idiomas (o trabalho não me deixou seguir com o curso no meio da tarde) e meus hóspedes desapareceram. Afinal, quem seria louco(a) de encarar a friaca do inverno da capital argentina, né? Também perdi contato com vários vizinhos e conhecidos dos bairros ao lado. Talvez todos estivessem se protegendo das baixas temperaturas e simplesmente pararam de bater perna pelas ruas.
O problema é que as semanas foram passando, o frio foi ficando mais intenso e, pela primeira vez na vida, me senti carente. Para ser franco, deveria dizer que fiquei extremamente carente. Ai, ai, ai. Tiveram dias que simplesmente não conversei com ninguém. Basicamente, não ouvi a minha própria voz.
Na metade de julho, juro que me senti como Jack Torrance, personagem clássica do romance “O Iluminado” (Suma das Letras), de Stephen King. A maioria do público conhece o escritor transformado em zelador do Hotel Overlook pela interpretação magistral de Jack Nicholson, na adaptação do thriller aterrorizante para as telonas. A comparação é para mostrar o quão sensível eu fiquei sem ninguém por perto. Isso não quer dizer que tenha enlouquecido nem que tenham aflorado em mim os instintos assassinos, tá? Apenas a solidão bateu tão forte que me machucou por dentro. Se você já sentiu algo assim, me desculpe pelo meu drama. Eu nunca vivera nada parecido e fiquei surpreso por pressentir que precisava rapidamente de uma cara-metade.
Independentemente da referência literário-cinematográfica, afirmo com segurança que me vi na necessidade de interagir socialmente e, principalmente, de arranjar uma namorada. Começava, assim, o esforço de furar a bolha que eu mesmo tinha criado ao meu redor. Será que as argentinas gostavam dos brasileiros? Será que haveria algum choque cultural entre casais dos dois povos? Essas eram as principais dúvidas que rondavam minha cabeça naquele instante.

2) Mundos diferentes: brasileiros e argentinas; e brasileiras e argentinos
Aqui é importante apresentar uma diferença absurda de gênero. Se você é um brasileiro (homem) à procura de uma namorada argentina (mulher) ou se é uma brasileira (mulher) em busca de um namorado argentino (homem), a realidade é totalmente distinta. A receptividade dos locais é muuuito diferente se você é homem ou mulher. Falo com mais propriedade das relações heterossexuais porque foram as que vi no meu círculo de amizade. Infelizmente, foram poucos os casais homoafetivos com quem interagi. Dessa forma, não consigo generalizar suas relações.
A impressão que tive é que as argentinas não ligam tanto assim para os brasileiros. Nós somos apenas mais um entre tantos caras que vão perturbar o cotidiano delas e correr atrás delas. Por isso, não vi tanto diferencial em ser brazuca em Buenos Aires quando os assuntos são o flerte e a busca por um relacionamento amoroso duradouro. É diferente, por exemplo, se você for italiano, francês ou alemão. Elas adoram os europeus!
Vi isso acontecer na prática quando saí com um amigo brasileiro (abraço, Rodrigão). Já no final da balada em Puerto Madero, o sem-vergonha se virou para mim e falou: “Tá na hora de eu ligar o modo turbo senão vou embora sozinho”. Realmente, até ali estávamos sendo ignorados pelas argentinas. A partir daí, com a maior cara de pau, ele se apresentava como francês para a mulherada. E não é que choveu na horta dele! Fiquei impressionado. Algumas semanas depois, testei esse tipo de abordagem falando que eu era italiano. E não é que funcionou maravilhosamente bem! Pela primeira vez, alguém elogiou meu espanhol.
Por outro lado, os argentinos babam pelas brasileiras. É notória a paixão que eles nutrem por nossas mulheres, uma condição que creio ser universal. Nenhuma conterrânea que conheci e que vivia em Buenos Aires estava solteira. NENHUMA! Todas tinham namorados portenhos, que eram malucos, maluquinhos por elas. O motivo desse fascínio vai além do quesito beleza. Conforme alguns portenhos me afirmaram, as brasileiras são mais divertidas e amorosas do que as argentinas. Segundo um vizinho de Núñez, não é nem um pouco difícil conviver com uma brasileira. Já com as argentinas, ele falou em tom extremamente sério, é complicadíssimo. Elas estão sempre reclamando e brigando.
Antes que me chovam críticas, o conteúdo do parágrafo acima não é uma verdade absoluta, tá? Trata-se apenas de algo que percebi nas minhas interações por Baires. E quem fez tal comparação entre brasileiras e argentinas foi a meia dúzia de portenhos que conheci e que namoravam com minhas compatriotas. Só estou expondo a visão deles aqui.
Eu namorei brevemente duas argentinas (uma policial e uma nutricionista). Talvez o termo “namorar” seja exagerado para um dos casos. O mais correto seria dizer que namorei uma e saí por dois meses com outra. E o que mais chamou minha atenção nesses relacionamentos não foi o quão bravas e pouco amorosas elas eram – para comparar com o relato do meu vizinho de Núñez. Sabe o que mais me incomodou? O racismo.
É triste falar sobre esse tema, mas a sociedade argentina é extremamente racista. Eu já tinha presenciado situações delicadas em meu país, mas nunca vivera algo tão intenso e frequente como em Buenos Aires. E olha que sou brancão. A policial (conhecida nas crônicas iniciais de “Tempos Portenhos” como a Policial de Belgrano) vivia me dizendo: “¡Ojo, ojo allá, Richi!”. Quando eu jogava o olhar para onde ela indicava/apontava, encontrava invariavelmente um rapaz negro ou moreno. No início eu não entendia e devolvia o questionamento: “¿Qué pasa, Paola?”. E ela fazia o sinal para eu ficar de olho.
Certa vez, captei o racismo sistemático e escancarado e briguei sério com ela. Então minha namorada desconfiava de todo mundo que não fosse branquelo ou branquela?! Paula achou graça do meu nervosismo, chegando a dizer que eu era brasileiro e, por isso, estava acostumado com “aquilo”. Aquilo?! Quanto mais eu discutia, mais ela balançava a cabeça desanimada. Na sua visão, eu é que estava errado. O ápice foi quando ela afirmou: “No entiendes nada de seguridad pública”. Na hora, devolvi: “Y vos entendés todo sobre el racismo”.
O mais assustador é que, no ano seguinte, quando a policial já tinha se tornado passado e eu saía com uma nutricionista que morava em Villa Pueyrredón, aconteceu algo pior. Muito pior! Fui assistir à final da Copa América na casa da família dela. A partida entre Argentina e Colômbia seria realizada nos Estados Unidos no domingo à noite. E como domingo é dia de parrilla para os argentinos, passamos uma tarde muito agradável. Eu já conhecia seus pais e sua irmã. E foi tudo de boa. Até a hora do jogo.
Não sei explicar, mas antes de a partida começar, ocorreu uma enorme confusão no estádio envolvendo os torcedores colombianos e a polícia. E aí a família da nutricionista explodiu de raiva ao ver as imagens na televisão. Todos (não estou exagerando quando digo TODOS) começaram a xingar os colombianos de “monos inmundos” e “monos de mierda”. Quanto mais eu me indignava com aquelas ofensas e pedia para eles pararem, mais eles xingavam os colombianos de macacos. Juro que me senti tão mal que fui embora antes de a bola rolar. A partida, que já começaria tarde, atrasou por causa do rebuliço dos torcedores. Aí foi a desculpa ideal para me mandar daquela casa.
Nos dias seguintes, a nutricionista insistiu que ela e sua família não fizeram nada de mais ao chamar os colombianos de macacos. Para mim, a partir daí, não deu mais para conviver com ela em hipótese nenhuma. Em duas semanas, paramos de nos ver e nunca mais nos falamos. Se eu gostava da policial de Belgrano a ponto de insistir com ela, apesar do racismo despudorado, com a nutricionista de Villa Pueyrredón o sentimento não era tão intenso.
Depois dessa situação desagradável, nunca mais namorei nem saí com uma argentina. A boa notícia é que, dali para frente, começou a fase que chamo de “La la latina, la la latina”. Para os fãs de Shakira (beijo, Maricota), essa denominação é uma referência à versão da colombiana da música “Girl Like Me”, parceria da Shaki com o Black Eyed Peas. No próximo tópico deste post do Bonas Histórias, explicarei o que quero dizer com a fase latina.

3) La la latina, la la latina
Se confesso abertamente minhas frustrações com as (duas) argentinas (com quem me envolvi), preciso reconhecer que fiquei encantado com a paraguaia (de Encarnación), a colombiana (de Pereira) e a venezuelana (de Maracaibo) que conheci en la ciudad de la furia. Antes que me acusem injustamente, aviso que saí com elas em períodos distintos, tá? Bem diferentes, no caso. Entre a paraguaia e a venezuelana, o hiato foi de quase um ano.
Se as argentinas não ligam para os brasileiros, o assunto é outro quando falamos de paraguaias, colombianas e venezuelanas (e talvez dos demais países da América do Sul). Elas adoram nosso país e nosso jeito alegre, que combina muito mais com o delas. Além disso, as achei mais carinhosas, mais divertidas e mais companheiras do que as portenhas. Não seria errado dizer que elas ganham nesses quesitos até mesmo das brasileiras (que os argentinos não saibam disso, por favor!).
Só sei que, depois de conhecer os encantos latinos, nunca mais quis saber das argentinas (nem das brasileiras). Só me interessava pelas mulheres do restante da América do Sul. Nesse sentido, Buenos Aires é a meca para o meu combalido e viciado coraçãozinho. As uruguaias me pareceram extremamente educadas e devotadas à família. As peruanas me surpreenderam pela beleza e pela vasta cultura. Mesmo não tendo envolvimento afetivo com elas, gostei de suas posturas e de seus estilos de vida. Admito que queria ter convivido com chilenas, equatorianas e bolivianas, mas não conheci nenhuma para poder opinar.
Assim, meu sonho era me casar com uma paraguaia, uma colombiana ou uma venezuelana. Se tivesse feito isso, acho que nunca mais voltaria para o Brasil. Se você é brasileira e vai morar na Argentina, minha recomendação é dar chance para os argentinos que vão correr atrás de você. Por outro lado, se você for brasileiro, não perca seu tempo indo atrás das argentinas. Mire na comunidade de imigrantes da América do Sul ou mesmo da América Latina, que por lá é vastíssima.
A quantidade de imigrantes do nosso continente é enorme em Buenos Aires. Nesse quesito, a metrópole portenha é um chamariz multicultural. A comparação que faço é com São Paulo. Se os estados brasileiros fossem países independentes, a capital paulista seria o centro de atração dos habitantes das nações lusófonas. É o que acontece em Baires com os falantes de espanhol. Uruguaios, chilenos, paraguaios, bolivianos, equatorianos, colombianos, venezuelanos, peruanos e caribenhos escolhem a capital argentina como local prioritário de residência. Admito que os entendo perfeitamente.
Uma vez que se conhecem os diferentes sotaques dos falantes do castelhano, é fácil reconhecer os gringos pelas ruas argentinas. Os brasileiros novatos em Buenos Aires podem notar isso de outra maneira: através da quantidade absurda de restaurantes de gastronomia sul-americana. Há incontáveis estabelecimentos de culinária paraguaia, boliviana, venezuelana e peruana, por exemplo. Eu adorava ir ao Miss Venezuela, bar divertidíssimo em Palermo centrado nos imigrantes da terra de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Em Saavedra, um programa imperdível era provar as empanadas bolivianas do Taytay. O duro era ouvir os meus conterrâneos que não conheciam a cidade dizendo que os encantos gastronômicos de CABA se limitavam às carnes. Sabem de nada, inocentes!
Além dos espíritos divertidos, dos jeitinhos carinhosos e das belezas cativantes, o que mais gostei nas relações com Fabi (a médica paraguaia), Carol (a publicitária colombiana) e Ana (a engenheira venezuelana) foi o intercâmbio cultural. De repente, passei a comer arroz quesú, sopa paraguaya, arepa, tequeño e cachapa. Num piscar de olhos, estava ouvindo Karol G (“Si Antes Te Hubiera Conocido” é ótima!), Los Amigos Invisibles, Jorge Villamizar/Bacilos e cumbia paraguaya. E, sem explicação lógica, sabia as particularidades da geografia do Paraguai, da Colômbia e da Venezuela.

4) Imigrantes procuram por imigrantes e as comunidades nacionais se fortalecem
Foi apenas no segundo ano vivendo em Buenos Aires que notei na prática algo que só conhecia teoricamente: os imigrantes acabam interagindo entre si e as comunidades nacionais se fortalecem absurdamente. Creio que essa é uma tendência social universal, constatada nos quatro cantos do mundo. Na Argentina, por supuesto, não seria diferente, né? Quando um brasileiro se encontra com uma paraguaia, uma colombiana ou uma venezuelana no exterior, eles possuem mais em comum do que se tivessem permanecido em seus países. Eles resolveram deixar a segurança de suas nações e, muitas vezes, a proximidade de familiares e amigos. Escolheram um local que lhes parecia interessante e estão abertos às novas experiências culturais. E tiveram a coragem de efetuar uma mudança significativa em suas vidas. Por tudo isso, a aproximação entre eles é natural e fluida.
É diferente (muito diferente) de interagir com uma pessoa local, no caso argentinos ou argentinas. Eles estão em sua terra natal. Alguns não gostam das influências externas e do intercâmbio cultural. No meio da rotina corrida e atribulada, nem sequer olham para os imigrantes que colorem a paisagem de sua cidade. Assim, a química, a empatia e a proximidade são menos naturais. Os esforços dos imigrantes para conquistar o coração das portenhas são maiores, o que pode desencorajá-los.
Nesse momento, percebi que não era apenas um brasileiro. Era, acima de qualquer coisa, um imigrante na Argentina. Quando compreendi a dimensão desse rótulo, entendi o motivo da dificuldade inicial de ser aceito na cultura local e, principalmente, da facilidade instantânea de interação com outros imigrantes. Ao conversar com peruanos, bolivianos e chilenos, por exemplo, que estavam vivendo em Buenos Aires, automaticamente nos identificávamos com eles e eles conosco. Porque todos somos de fora e recebemos, por vezes, olhares atravessados e desconfiados dos moradores locais. Não é errado dizer que as conversas mais interessantes, as amizades mais fortes e os relacionamentos amorosos mais intensos que fiz na Argentina foram com estrangeiros.
Também é preciso destacar a forte união entre as comunidades nacionais. Quando um brasileiro encontra outro brasileiro no exterior, a aproximação e a empatia são imediatas. A sensação é que eles estão no mesmo barco e é obrigatório se ajudarem mutuamente. O mesmo processo ocorre entre as demais nações. Assim sendo, é natural que dois conterrâneos radicados criem elos de amizade ou afetivos mais rapidamente do que se estivessem em seu país natal.
Falo por mim: morando em São Paulo, minha cidade, não dou abertura para as pessoas que conheço no meu dia a dia. Para ser sincero, o modo normal do paulistano que é ativado desde que ele nasce é o do “desconfiar de tudo e todos”. Onde já se viu trocar uma ideia mais longa, oferecer ajuda, falar da vida pessoal e dar o número de celular para alguém que você acabou de conhecer? Impossível. Entretanto, em Buenos Aires, ao conhecer um brasileiro ou uma brasileira no meio da rotina, a inclinação natural é confiar neles e se abrir sem tanto receio. Afinal, estamos todos no mesmo barco e não há motivo para desconfiar daqueles que são iguais a nós, não é mesmo?
Não namorei nenhuma brasileira na capital da Argentina, mas saí com algumas conterrâneas. A questão é que os nossos santos não bateram e os dates não evoluíram para algo mais sério. O que aconteceu com mais frequência é que fiz boas amizades com gente do Brasil inteiro: Santa Catarina (beijinho, Sub-30), Goiás (abraço, Carlos), Paraíba (salve, salve, Rai) e Mato Grosso (oi, Marissa). Não à toa, meus melhores amigos em Buenos Aires, que levarei para o restante da vida, foram brasileiros (e uma paraguaia de alma brasileira – beijão, Alba).

5) Os argentinos são gaúchos que falam espanhol
Conforme relatei até aqui nesta décima crônica de “Tempos Portenhos”, não tive tanto êxito em meus relacionamentos amorosos com as argentinas. Porém, isso não quer dizer que eu não seja apaixonado pelas pessoas e pela cultura do país em que escolhi residir por tantos anos. Sigo sendo um fã incondicional da nação albiceleste, apesar de estar ciente de seus defeitos e dos seus pontos a melhorar. A Argentina não é um lugar perfeito, até porque lugares perfeitos não existem. Ainda assim, garanto que adoro suas particularidades.
Uma pergunta dos meus conterrâneos que ouço com frequência é: “Como são os argentinos?”. Obviamente, a curiosidade dos brasileiros está ligada ao dia a dia, à rotina dos nossos vizinhos. Normalmente, respondo com a seguinte frase: “Eles são gaúchos que falam espanhol”. Faço tal analogia porque vivi mais de um ano no Rio Grande do Sul (entre 2005 e 2006) e essa é minha segunda passagem por Buenos Aires (a primeira foi entre 2004 e 2005). Portanto, conheço as duas culturas muitíssimo bem.
As semelhanças estão na linguagem (“tchê”/”che” e várias gírias em comum), na gastronomia (carne e mate), na vestimenta (tradicional e do cotidiano), no humor (meio ácido), no jeitão arrogante (se sentem superiores aos vizinhos de continente e de estado), no zelo pela família e pelo descanso aos domingos (algo que invejo), na paixão pelo futebol (quase sempre sem limites) e na devoção artística (seja literária, seja audiovisual). Isso é o que lembro agora. Provavelmente, assim que publicar este post na coluna Contos & Crônicas, vou me lembrar de mais compatibilidades.
Portanto, se você está pensando em morar em Buenos Aires e quer namorar uma argentina ou um argentino, pense que eles são gaúchos que usam o espanhol na comunicação. Com esse entendimento, conseguimos compreender sua cultura e seus hábitos com mais facilidade.
Uma coisa eu digo com segurança: eles são apaixonados pelo Brasil e por nossa cultura. Esqueça a rivalidade futebolística e as rixas geopolíticas. No cotidiano, os argentinos, principalmente os portenhos, expressam sua admiração pela nossa espontaneidade, alegria, musicalidade e receptividade. Às vezes, são diretos, às vezes, são indiretos em seu fascínio pela nossa brasilidade.
Em uma das primeiras visitas de Soledad, a dona do apartamento que eu alugava em Saavedra (ela veio para receber o pagamento mensal), ouvi sem querer sua conversa com uma vizinha de andar. Acho que elas já se conheciam havia muito tempo. Minha locadora perguntou sobre mim, se era um bom morador do prédio, do tipo calmo e ordeiro. A vizinha que eu sempre cumprimentava educadamente respondeu de forma surpreendente: “Com certeza, ele é um bom rapaz. Como todo brasileiro, está sempre alegre e sorrindo. É impossível um tipo destes arranjar confusão. Fique tranquila”. O mais interessante é que ela não apenas me descreveu como generalizou meu jeitão para todos os meus compatriotas. Incrível!
Assim, encerro o conteúdo de hoje da coletânea sobre como é para um brasileiro morar na capital argentina. Como adiantei, esse era o texto mais difícil para eu escrever. Espero ter expressado minhas convicções, sentimentos e crenças sem ofender ninguém. Sabe como é produzir conteúdo na era do mimimi ensandecido e das interpretações dilatadas, né? Quando vejo que não recebi uma enxurrada de xingamentos, críticas negativas e ataques à minha pessoa, respiro aliviado. Muitas vezes, o objetivo não é agradar alguém, mas simplesmente não desagradar ninguém.

A próxima publicação de “Tempos Portenhos” será o último capítulo de minha aventura como morador de Buenos Aires. Nela, pretendo apresentar a trilha musical que compus para a minha rotina na capital argentina. “Mas você é músico, Ricardo?!”. Não, caro(a) leitor(a) imaginário(a) do Bonas Histórias. Considero-me apenas um letrista amador (beeem amador) e limitado (limitadíssimo). E, após musicar alguns versos de tudo o que comentei com vocês ao longo de quase três anos, criei coragem para apresentar essas canções. Não perca o Episódio 11: Álbum Musical da Minha Vida em Buenos Aires – Parte I.
Até a próxima, pessoal!
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Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques, o amor incondicional aos cachorros, a paixão pela carne, a devoção pelo futebol, as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata, a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às cidades brasileiras, a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante, o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha.
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