Crônicas: Tempos Portenhos – Episódio 9 – Passeio por Buenos Aires (Parte I)
- Ricardo Bonacorci

- há 2 dias
- 43 min de leitura
No nono relato sobre como é para um brasileiro viver na capital argentina, conheceremos as particularidades de cada uma das regiões da metrópole mais efervescente às margens do Rio da Prata. Com mais de três milhões de habitantes e 48 bairros, muitos deles com personalidade própria, o Distrito Federal da Argentina reserva surpresas, contrastes e encantos para moradores e turistas.

É muito comum perguntarmos para três, quatro ou cinco pessoas o que elas acham de morar em determinada metrópole. E ouvimos embasbacados três, quatro ou cinco respostas distintas sobre a mesmíssima localidade. Não é raro alguém falar exatamente o oposto do que o outro acabou de dizer. Como assim?! Será que essa gente está mesmo tratando de um lugar em comum? Não por acaso, fico bastante confuso (e, às vezes, indignado) diante de tantas contradições. Será que esse povo não estaria mentindo para mim em suas avaliações, hein? Ou são indivíduos realmente tão heterogêneos a ponto de enxergarem realidades inversas?!
Curiosamente, as visões conflitantes surgem das análises de todas as grandes cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Bogotá, Santiago do Chile, Cidade do México, Nova York, Los Angeles, Toronto, Madrid, Lisboa, Londres, Berlim, Paris, Milão, Joanesburgo, Cairo, Tóquio, Seul, Xangai, Nova Delhi, Sydney etc. Faça você mesmo um teste questionando um trio de moradores de qualquer centro urbano global. Há grandes chances de um deles adorar, o outro odiar e o terceiro ser indiferente aos atrativos locais, não elogiando nem reclamando.
Sei disso porque vivenciei recentemente os dois lados da moeda. Ao perguntar o que os moradores de Montevideo, Assunção, Florianópolis, Melbourne e Montreal (locais que cogito morar num futuro próximo) achavam de suas cidades, ouvi as mais diferentes avaliações. Juro que fiquei bem intrigado com a variedade de respostas. Por outro lado, quando me questionam o quão feliz estou em São Paulo e Buenos Aires (cidades em que moro atualmente), costumo ver nos olhos de meus interlocutores o quanto minhas palavras os surpreendem. Certamente, esperavam análises totalmente diferentes ou já ouviram julgamentos bem distintos aos meus.
Por que isso ocorre, senhoras e senhores?! Além das diferenças naturais de perspectivas daqueles que opinam, o que influencia para valer na enorme variedade de respostas é, em minha humilde visão, a heterogeneidade dos bairros dos maiores municípios do planetinha azul. Afinal, viver em Perdizes, Santana, Morumbi ou Itaquera afeta consideravelmente a experiência do morador paulistano. O mesmo princípio se aplica à realidade carioca. Residir na Barra da Tijuca, Leblon, Lapa ou Madureira é interagir com aspectos contraditórios do Rio de Janeiro.
Para quem pensa que tal característica é exclusividade do Brasil-sil-sil, um país essencialmente desigual e frequentemente percebido como distante de certas tendências globais, aconselho a explorar metrópoles mais cosmopolitas. Em Nova York (onde, segundo Raul Seixas, todo mundo é feliz!), Midtown é completamente diferente do Bronx, que, por sua vez, é distinto do Williamsburg. Em Paris (onde, para Cauby Peixoto, nos esquecemos de tudo o que já sofremos), La Défense, Bercy Village e Buttes-aux-Cailles são mundos opostos. Ou seja, até nos centros urbanos de primeiríssimo mundo há facetas contraditórias.
Lembrando de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, Mi Buenos Aires Querido não poderia fugir dessa condição, né? Se a capital da Argentina é la ciudad de la furia para Gustavo Cerati, também é la plaza, las razas y el color para Charly García. Se é una ciudad que tiene un puerto en la puerta para Miguel Cantilo, é onde los zapatos son modernos, pero no lucen como en una plaza de un pueblo para Mercedes Sosa. Se Buenos Aires é o lugar de cansados en el alma de tanto andar para Fito Páez, é un abismo, tabla de ajedrez en blanco y negro na interpretação de Silvina Garre. Vamos combinar que não surpreende descobrir que esses artistas viveram em bairros distintos da mesma cidade.
Intertextualidade musical à parte, a proposta do post de hoje de “Tempos Portenhos”, a coletânea de crônicas sobre como é para um brasileiro morar em Buenos Aires, é debater as diferentes faces da metrópole argentina. Afinal de contas, quais são os melhores e os piores bairros para cada perfil de residente e turista? Quais as diferenças mais acentuadas entre cada uma das várias regiões do Distrito Federal da Argentina? Há boas opções de moradia, lazer, entretenimento, gastronomia e turismo fora de CABA, a Ciudad Autónoma de Buenos Aires? As demais cidades metropolitanas, que ficam na Provincia de Buenos Aires, são alternativas convidativas para os brasileiros conhecerem ou mesmo residirem? Essas são as principais questões que vou abordar nesse novo episódio de “Tempos Portenhos”, a atual série narrativa da coluna Contos & Crônicas.
Se você acabou de chegar por aqui, aviso que os capítulos anteriores analisaram: a sensação de segurança ao se perambular pelas ruas de Buenos Aires (Episódio 1 – Distopia Paulistana ou Carioca); o hábito dos locais de usufruir dos parques e das áreas externas de sua metrópole (Episódio 2 – Vida ao Ar Livre); a paixão dos portenhos pelos pets (Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes); os equívocos idiomáticos mais comuns de quem desembarca no país hermano apenas com o portunhol (Episódio 4 – O Espanhol Argentino); as delícias e a riqueza da gastronomia de BsAs (Episódio 5 – Sentando-se à Mesa com os Argentinos); a paixão pelo futebol tricampeão mundial (Episódio 6 – La Verdadera Cancha del Fútbol); a efervescência artística de Baires (Episódio 7 – A Capital Cultural da América do Sul); e as variações malucas do câmbio (Episódio 8 – A Montanha-russa da Economia Argentina).
Feita a apresentação introdutória deste novo post do Bonas Histórias e tecida uma breve recapitulação dos capítulos anteriores desta coletânea de crônicas, convido todos os leitores para embarcarem comigo no nono episódio de Tempos Portenhos. Vamos começar agora mesmo o passeio pelos principais bairros da cidade de Buenos Aires e pelas diferentes regiões de sua área metropolitana.
Para organizar minimamente nuestro recorrido, dividi este conteúdo em duas partes. Hoje, na parte I, vamos visitar meus locais favoritos em Baires ou BsAs – escolha o apelido da cidade que melhor lhe convenha. Será, por consequência, uma viagem mais afetiva e, ao mesmo tempo, com mais informações concretas. Afinal, não apenas resido (ou já residi) nos bairros que vou comentar como os visito regularmente. Para quem precisa de spoiler para seguir na leitura, adianto que o meu cantinho predileto é a Zona Norte de Buenos Aires, região da qual não abro mão de morar. No caso, sou um alegre e orgulhoso morador do extremo da ZN de CABA.

Daqui a duas semanas, retornarei a “Tempos Portenhos” para concluir nossa excursão pela capital da Argentina. Na parte II do Episódio 9 – Passeio por Buenos Aires, vamos percorrer as ruas, as avenidas, os parques, o comércio e as principais atrações das regiões metropolitanas onde morei há mais de 20 anos, com as quais hoje já não mantenho tanta familiaridade, que frequento com menos assiduidade e que não despertam em mim o mesmo encantamento de antes. Sendo mais objetivo em minhas palavras, a próxima etapa do nosso passeio será pela região central (a área mais turística), pela Recoleta, pela Zona Sul e pela Zona Oeste da Grande Buenos Aires.
Dessa forma, acredito que não vamos nos perder ao longo do encantador e prazeroso rolê internacional pela capital da qualidade de vida na América do Sul – prêmio concedido mais uma vez pela World Travel Awards (espécie de Oscar do Turismo) à metrópole portenha. Portanto, apertem os cintos e venham comigo na primeira parte dessa jornada pelo Distrito Federal da República da Argentina.
1) Entendendo a geografia e a administração de Buenos Aires
Sinto que devo começar essa crônica explicando as diferenças entre a cidade de Buenos Aires, a província de Buenos Aires e a região/área metropolitana de Buenos Aires. Esses são termos muito utilizados no dia a dia e que alguns brasileiros têm certa dificuldade para compreender, principalmente quando estão a passeio ou se mudaram recentemente para a capital da Argentina.
A Ciudad Autónoma de Buenos Aires, que os locais chamam simplesmente de CABA, é a capital da Argentina. Até aí não há nenhuma novidade, certo? Por ser a Capital Federal da nação, o município possui maior autonomia administrativa, tal qual Brasília, o Distrito Federal brasileiro. Isso quer dizer que a cidade de Buenos Aires é, desde a reforma constitucional argentina de 1994, gerida única e exclusivamente por sua prefeitura (Gobierno de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires). O prefeito atual (Jefe de Gobierno) é Jorge Macri, primo do ex-presidente Mauricio Macri.
Por supuesto, há a Provincia de Buenos Aires (sem acento no “i” da “provincia”, conforme a grafia do espanhol). A Argentina está dividida em 23 províncias (que seriam como nossos Estados) e uma cidade autônoma (justamente a Ciudad Autónoma de Buenos Aires). A maior unidade da Federação argentina tanto em extensão territorial quanto em tamanho populacional é a Provincia de Buenos Aires. Seu atual governador é Axel Kicillof, considerado por muita gente como o principal opositor político do presidente Javier Milei e, por isso mesmo, um forte candidato à próxima eleição presidencial.
Geograficamente, a cidade de Buenos Aires fica dentro da Provincia de Buenos Aires, assim como o Distrito Federal brasileiro está inserido na região geográfica de Goiás. Essa associação é importante para entendermos que aquilo que os mapas nos mostram friamente diferencia-se das responsabilidades efetivas dos políticos eleitos. Tal qual o governador de Goiás não manda em absolutamente nada no nosso Distrito Federal, o governador da Provincia de Buenos Aires não tem qualquer autoridade sob as ruas e a rotina do Distrito Federal argentino. Inclusive, a capital da Provincia de Buenos Aires é La Plata, cidade a mais de 50 quilômetros de distância da maior metrópole do país.
Em síntese, apesar de Buenos Aires ser ao mesmo tempo uma cidade e uma província e a primeira estar geograficamente dentro da segunda, elas possuem governos distintos, que não se sobrepõem de maneira nenhuma. É diferente de São Paulo e Rio de Janeiro, em que os municípios são comandados pelos prefeitos (que possuem certas responsabilidades) e os Estado são administrados pelos governadores (com outras responsabilidades). Assim, a dupla prefeito-governador faz a gestão partilhada, cada qual com tarefas e deveres específicos, da área de intersecção de suas jurisdições.
O prefeito de Buenos Aires cuida sozinho da cidade de Buenos Aires, com população de 3,1 milhões de habitantes e área de 202 km². O gentílico do município de Buenos Aires é portenho (no original, porteño). O termo tem origem na palavra “porto”. Ou seja, aqueles oriundos da cidade do porto da Argentina são los porteños. Já o governador da Provincia de Buenos Aires administra uma região com 135 cidades (chamados por lá de partidos), população de 17,5 milhões de habitantes (maior do que Portugal) e área de 307.571 km² (maior do que a Itália). O gentílico da província é bonaerense.
Agora que entendemos as diferenças conceituais entre a cidade e a província de Buenos Aires, podemos inserir mais um termo bastante comum no dia a dia da Argentina. Muito empregada pela imprensa local, a expressão “Região Metropolitana de Buenos Aires”, também chamada de Gran Buenos Aires (GBA) ou Área Metropolitana de Buenos Aires (AMBA), refere-se às cidades do conurbano do Distrito Federal (Conurbano Bonaerense). Essa designação não tem nada a ver com a administração pública. Afinal, CABA segue sendo comandada pelo chefe do governo local, enquanto na província há o governador e os prefeitos, cada qual com suas responsabilidades. As designações área/região metropolitana e Grande Buenos Aires são meramente jornalísticas ou espaciais.
Compõem a região metropolitana a própria cidade de Buenos Aires e seus vizinhos (da província), como La Matanza (1,7 milhão de habitantes), Avellaneda (mais de 600 mil pessoas), Lomas de Zamora (população superior a 600 mil indivíduos), Quilmes (aproximadamente 600 mil habitantes), Lanús (450 mil residentes), Vicente López (pouco menos de 300 mil moradores) e Pilar (cerca de 230 mil pessoas). O Conurbano Bonaerense reúne 40 cidades (só citei as maiores na frase anterior) e abriga uma população de aproximadamente 15 milhões de pessoas (mais de um terço dos habitantes de todo o país).

Como esses municípios estão grudados (daí o termo conurbação), na prática eles constituem uma única região metropolitana, o que gera algumas confusões nas mentes daqueles com dificuldades de compreensão geográfica. É muito comum, entre os próprios portenhos e bonaerenses, dizer que Lanús, Avellaneda ou Vicente López são bairros de CABA. Juro que ouvi tais absurdos várias e várias vezes. Não, eles não são bairros, por Dios! São cidades independentes, que estão na Provincia de Buenos Aires, mas integram, juntamente com o Distrito Federal, a Gran Buenos Aires. Por outro lado, já escutei muita gente falando que Saavedra, bairro portenho no extremo da Zona Norte de Buenos Aires, fica na província. Não, não fica! Ele está dentro da capital, apesar de fazer divisa com a cidade de Vicente López, esse sim um município da província.
Se a distinção entre cidade de Buenos Aires (a capital do país e o Distrito Federal da Argentina), Provincia de Buenos Aires e Área/Região Metropolitana (a Gran Buenos Aires) são mais ou menos claras, onde está, então, a confusão que os brasileiros tanto fazem?!
A maior dificuldade está, na minha opinião, em misturar aspectos da cidade com aspectos da província. Cansei de ver turistas desavisados ou mesmo estrangeiros residentes há pouco tempo na capital argentina digitando endereços no aplicativo de transporte. Aí, ao invés de mostrar apenas uma rua do Distrito Federal, o mapa indica ruas homônimas em outras cidades da Provincia de Buenos Aires. Por exemplo, a pessoa digita Av. de Mayo, Buenos Aires. Com certeza, o aplicativo irá mostrar a avenida famosa na cidade de Buenos Aires, mas também indicará outras tantas nas demais cidades da Região Metropolitana. Que eu saiba, Vicente López, La Matanza e Pilar, municípios vizinhos de CABA, têm as suas próprias Av. de Mayo. Como consequência, em um clique equivocado, o brasileiro (ou o gringo) sem grandes entendimentos geográficos irá para uma zona nem um pouco turística (e, talvez, bem assustadora) da Grande Buenos Aires, a dezenas de quilômetros do destino almejado.
Portanto, fique de olho se as informações sobre Buenos Aires se referem à cidade ou à província. O Aeroparque Jorge Newbery é o aeroporto internacional localizado no bairro de Palermo, em CABA. Ele fica no meio da capital argentina e é superprático de ser acessado por transporte público. Por outro lado, o Aeroporto Internacional Ministro Pistarini, mais conhecido como Aeroporto de Ezeiza, fica na cidade de Ezeiza, na Provincia de Buenos Aires. Ele está a 32 quilômetros do centro de CABA e é uma complicação para acessá-lo de transporte público.
Conheci uma conterrânea que foi morar em Buenos Aires para fazer faculdade de medicina. Até aí, beleza. Há dezenas de milhares de estudantes brasileiros fazendo isso. O que me chamou atenção foi o fato de ela ter alugado uma casa em Pilar e ter se matriculado no curso de Ciências Biomédicas na Universidad Austral, também em Pilar. A questão é: Pilar é Buenos Aires? É. Mas fica na Provincia de Buenos Aires, não na cidade autônoma. Quando a questionei sobre o motivo de sua escolha por viver fora do Distrito Federal, que possui universidades gratuitas mais renomadas, ela fez uma cara estranha. Senti que, por sua resposta confusa, ela não sabia, na época de sua mudança para a Argentina, a diferença dos termos que acabamos de discutir aqui. Em outras palavras, por pura falta de conhecimento geográfico, uma jovem estava matriculada em uma faculdade e morava (há dois anos) em um lugar diferente do que imaginara. Dá para acreditar!
Portanto, saiba que a cidade de Buenos Aires (CABA) é o Distrito Federal da Argentina. A metrópole portenha possui 48 bairros oficiais, que estão agrupados em 15 comunas (espécie de subprefeituras). São eles:
Comuna 1: Constitución; Montserrat; Puerto Madero; Retiro; San Nicolás; e San Telmo.
Comuna 2: Recoleta.
Comuna 3: Balvanera; e San Cristóbal.
Comuna 4: Barracas; La Boca; Nueva Pompeya; e Parque Patricios.
Comuna 5: Almagro; e Boedo.
Comuna 6: Caballito.
Comuna 7: Flores; e Parque Chacabuco.
Comuna 8: Villa Lugano; Villa Riachuelo; e Villa Soldati.
Comuna 9: Liniers; Mataderos; e Parque Avellaneda.
Comuna 10: Floresta; Monte Castro; Vélez Sársfield; Versalles; Villa Luro; e Villa Real.
Comuna 11: Agronomía; Villa del Parque; Villa Devoto; Villa Mitre; e Villa Santa Rita.
Comuna 12: Coghlan; Saavedra; Villa Pueyrredón; e Villa Urquiza.
Comuna 13: Núñez; Belgrano; e Colegiales.
Comuna 14: Palermo.
Comuna 15: Agronomía, Chacarita; La Paternal; Parque Chas; Villa Crespo; e Villa Ortúzar.
Já a Provincia de Buenos Aires possui 135 municípios. Como já informei, sua capital é La Plata. Da longa lista de cidades (partidos) da maior unidade da Federação da Argentina, pouco menos de meia centena integra a região/área metropolitana (Gran Buenos Aires). Seguem os nomes e as localizações dos municípios do Conurbano Bonaerense mais importantes:
Sul de CABA: Avellaneda; Lanús; Lomas de Zamora; Quilmes; Almirante Brown; Berazategui; Florencio Varela; Presidente Perón; e San Vicente.
Oeste de CABA: Hurlingham; Ituzaingó; Esteban Echeverría; Ezeiza; La Matanza; Merlo; e Marcos Paz.
Noroeste de CABA: José C. Paz; Malvinas Argentinas (é a cidade, não a ilha!); Morón; San Miguel; Tres Febrero; Moreno; e General Rodríguez.
Norte de CABA: General San Martín; San Isidro; Vicente López; San Fernando; Tigre; Escobar; e Pilar.
Obviamente que não há cidades a leste de CABA porque ali está o majestoso Rio da Prata. Vale a pena relembrar os leitores do Bonas Histórias que na outra margem do Rio da Prata está o sempre simpático e convidativo Uruguai.

Feito esse apanhado ao mesmo tempo geográfico e administrativo por Buenos Aires (cidade, área metropolitana e província), acho que já podemos começar efetivamente nosso passeio pela capital da Argentina. No caso, nosso rolê será basicamente por CABA – la Ciudad Autónoma de Buenos Aires, el Distrito Federal de la República Argentina. Por isso, sempre que cruzarmos as fronteiras municipais, prometo alertá-los de que estamos colocando os pés em algum município da Grande Buenos Aires. Com tal cuidado, acredito que ninguém se perderá ou ficará confuso. O que já asseguro é que não iremos para o interior do país nesse post de “Tempos Portenhos”. Nosso tour será exclusivamente metropolitano.
Então, vamos nessa jornada, senhoras e senhores!
2) Palermo (Comuna 14) é o coração de Buenos Aires
Tenho que começar el recorrido de hoy por Mi Buenos Aires Querido pelo seu bairro mais dinâmico, atraente, divertido e multicultural. Estou me referindo, obviamente, a Palermo. Sou fã desta extensa zona verde e boêmia da metrópole portenha desde que morei pela primeira vez na Argentina entre 2004 e 2005. Naquela época, residia na área central da cidade e ia frequentemente a Palermo para usufruir de seus bares, cafés, restaurantes, parques, cinemas e casas noturnas. Dessa vez, vivo em Saavedra, na Zona Norte. E sigo rumando semanalmente (às vezes, mais de uma vez por semana) para o meu bairro preferido no Distrito Federal em busca de atrações diurnas e noturnas de altíssimo nível.
Para falar a verdade, minha paixão por Palermo é coisa antiga, de mais de vinte anos. Na minha visão nada imparcial e nada fria da realidade, não há bairro mais completo, charmoso, agradável e com maior qualidade de vida do que esse, tanto na Argentina quanto na América do Sul. Exagero da minha parte? Então, vamos aos fatos, senhoras e senhores.
Imagine a Vila Madalena, na cidade de São Paulo, com seus bares e sua intensa vida noturna. Para quem gosta de agito e badalação, esse é um lugar bem legal, né? Para ficar ainda melhor, que tal acrescentarmos o Parque do Ibirapuera dentro dessa zona tão cinza e asfaltada, hein? Não, não... um parque só é pouco. Coloquemos logo de cara mais quatro áreas verdes gigantescas: o Parque Villa-Lobos, o Parque do Carmo, o Parque do Povo e o Parque da Água Branca. Aí ficou muito melhor, certo? Se ainda não está agradável, aviso que podemos inserir também o zoológico, o jardim botânico, o planetário e o cassino. Tudo num mesmo bairro? Siiim!
Mas sinto que ainda está faltando alguma coisa importante em nossa área pretensamente idílica... Já sei: vamos enchê-la de museus, centros culturais e cinemas. Então, acrescentemos à Vila Madalena portenha o MASP, o Centro Cultural Vergueiro, as melhores unidades do SESI e as mais modernas salas de cinema da cidade. No caso de Palermo, estou me referindo ao Museo de Arte Popular José Hernández, ao Museo Nacional de Arte Decorativo, ao Museu Evita e ao Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (MALBA), além das salas mais tecnológicas do Cinemark. Tá ficando cada vez melhor...
E o lado esportivo, hein? Tá bom, tá bom, não podem faltar exercícios para os moradores. Coloquemos, assim, estádios das mais variadas modalidades, como tênis, rugby, polo, equitação e ciclismo, e clubes particulares e públicos. Como nossa proposta é dar um charme especial e refinado à paisagem urbana, também acrescentamos, por que não, o Jockey Club (no caso de Buenos Aires, trata-se do Hipódromo – não confundir com a Hípica). Se você é do tipo que prefere futebol-raiz, a opção é o Juventus e a Rua da Javari. Em Palermo, esses itens atendem pelo nome de Club Atlético Excursionistas e Coliseo del Bajo Belgrano. Para quem reclamar que o endereço do Excursionistas é Belgrano, bairro vizinho, aviso que as fronteiras das duas áreas são extremamente próximas, a ponto de gerar confusão.
Já que temos nesse lugar os melhores bares e casas noturnas, que tal trazermos para cá os melhores restaurantes, churrascarias, pizzarias, bodegones, cantinas, padarias, cafeterias, sorveterias e kioscos da cidade, hein? Nossa, aí ia ficar espetacular. Uma localidade que reúne o polo gastronômico (Fasano, Rubaiyat, Terraço Itália, A Bela Sintra, Lellis Tratoria, DOM, A Casa do Porco e Pobre Juan) e o polo boêmio (D-Edge, Tokyo, Villa Country e Bourbon Street Music Club) de Buenos Aires é uma maravilha tanto para turistas quanto para moradores.
E se temperássemos esse cardápio de atrações com os melhores shoppings e os mais famosos centros de compra da metrópole argentina? Aí sim ficaria perfeito. Atendendo aos pedidos das almas mais consumistas, temos o Shopping Iguatemi, o Shopping Ibirapuera e alguns outlets de marcas renomadas nos moldes do Catarina Fashion Outlet. Isso tudo na nossa Vila Madalena de Buenos Aires. No caso, seus nomes reais são Alto Palermo Shopping, o Shopping Alcorta e Distrito Arcos Premium Outlet.
Para os fãs do audiovisual, aviso que essa parte da cidade abriga também os principais estúdios de cinema e televisão do país, as mais tradicionais produtoras do mercado publicitário, fonográfico e da sétima arte e os mais relevantes fornecedores da indústria cultural do continente. É como se um bairro portenho fosse a mescla do carioca Projac e das paulistanas Vila Leopoldina e Vila Cordeiro/Brooklin. E há ainda uma curiosidade cultural bastante portenha: a enorme concentração de consultórios de psiquiatras e psicólogos nesta região.

Como faríamos para chegar a esse bairro tão atrativo? Ah, sim. Vamos cortá-lo com as principais avenidas do município. Se você gosta de transporte ferroviário, não tem problema. Há linhas de metrô (no plural) e linhas de trem (também no plural) por toda parte. E dá para pegar vários ônibus que passam ou vão diretamente para lá. Afinal, estamos falando de um bairro, tal qual a Vila Madalena, que fica no coração da cidade. Porém, a Vila Madalena de Buenos Aires é geograficamente mais privilegiada do que sua coirmã paulistana, pois faz divisa simultaneamente com o Centro da cidade, com os bairros residenciais de alto poder aquisitivo (espécie de parte abastada do Morumbi ou mesmo de Alphaville) e com áreas de classe média alta (Perdizes, Vila Mariana e Tatuapé).
Por falar em transporte, que tal deslocarmos o Aeroporto de Congonhas para a Vila Madalena dos argentinos?! No caso, um Congonhas com ares de Cumbica, porque em Buenos Aires o aeroporto central é internacional. Para os paulistanos que desejam ter acesso ao mar (ou a um rio com cara de oceano), cairia muitíssimo bem um calçadão praiano à beira das águas do Rio da Prata, né? Se esse é o seu desejo, aviso que temos, na Vila Madalena de CABA, a Costanera Norte, uma rambla bem frequentada 24 horas por dia, inclusive de madrugada.
Meu Deus, um lugar tão completo assim realmente existe? Claro que sim. E ele se chama Palermo. Agora deu para entender minha adoração por essa região da cidade?!
Palermo é o maior bairro em extensão de Buenos Aires. Ele é tão grande que, informalmente, é dividido em várias sub-regiões, que possuem características particulares. Palermo Botânico reúne os principais parques da cidade. Palermo Hollywood abriga os maiores estúdios de cinema, televisão e propaganda. Palermo Soho é o polo gastronômico e da boemia, com ruas pitorescas, chão de paralelepípedo e muros com grafite. Palermo Chico é mais residencial e conta com casas enormes e de altíssimo poder aquisitivo. Palermo Viejo é a área mais antiga, com mistura de prédios, comércios, bons restaurantes e agito noturno. Palermo Freud é uma zona tradicionalmente residencial, mas concentra muitos consultórios de psiquiatras e psicólogos. E La Cañitas possui prédios modernos e excelente variedade gastronômica em volta do Hipódromo e do Campo Argentino de Polo.
Destaco que Palermo não é apenas um lugar agitado de dia e de noite, com enorme riqueza artístico-cultural e grandes espaços verdes. Ele também é extremamente seguro para se caminhar, inclusive de madrugada. Curiosamente, há setores, como Palermo Soho (em volta da Plaza Serrano), que é mais movimentado depois das duas horas da manhã do que de manhã ou à tarde. Outras áreas, como o Bosque de Palermo, são oásis naturais dentro da metrópole, cenários perfeitos para se praticar esportes ou descansar sob as árvores, contemplando os lagos e os animais.
Por tudo isso, sou fã incorrigível de Palermo. Para mim, repito sem medo de parecer repetitivo, não existe melhor bairro na América do Sul do que esse. Se tivesse que apontar apenas um local para viver em nosso continente pelo resto da vida, escolheria sem vacilar qualquer prédio de Las Cañitas. O problema, pelo menos para mim, é o preço do aluguel praticado nessa parte da cidade – acima do meu poder aquisitivo. Como sou um pobre escritor que conta as moedas para fechar o mês, nunca morei ali. Contudo, admito que sempre residi próximo a Palermo, para poder bater perna pelo coração pulsante de Buenos Aires.
Em suma, se você tiver grana para viver bem, indico Palermo sem pestanejar como bairro ideal para montar sua residência. No caso dos turistas que vão ficar na cidade por alguns dias ou semanas, vale muito a pena se hospedar nessa região. Além de ser perto do Centro, local das atrações mais turísticas, você estará no burburinho da Argentina. E, curiosamente, há opções de hotéis e Airbnb mais interessantes por essa zona do que pelos bairros centrais de CABA. Pense nisso na hora de morar ou visitar a metrópole argentina, tá?
3) Núñez, Belgrano e Colegiales (Comuna 13) são encantadores bairros da Zona Norte de CABA
Como disse, sempre sonhei em morar em Palermo. Quando planejei viver novamente na Argentina, em 2023, o pulmão verde de Buenos Aires figurava na primeiríssima posição na minha lista de prioridades. Dessa maneira, comecei a procurar imóveis para alugar nesse bairro. Todavia, logo vi que seria impossível morar ali com meu salário de ghostwriter e editor de livros. Por mais favorável que o câmbio da época estivesse para quem ganhava em real e gastava em pesos argentinos, a mágica da conversão não fazia milagres. Os apartamentos de Palermo de que gostava eram de 40 a 60% mais caros do que eu podia pagar. E aqueles que cabiam no meu bolso eram bastante velhos ou tinham algum problema grave: falta de uma boa vista da janela, barulhentos demais ou pequenos a ponto de atiçar a claustrofobia.
Se o plano A não era viável, engoli o choro e fui para o Plano B. E quais seriam os bairros alternativos de Buenos Aires para quem deseja viver bem? No meu caso particularmente, a segunda opção eram os queridinhos da Zona Norte: Núñez, Belgrano e Colegiales. Em Baires, sou um rapaz da ZN, senhoras e senhores. O que me fez/faz admirar tanto a comuna 13 de CABA é que essa região está ao ladinho de Palermo. Assim, possui grande parte das qualidades e do charme do coração pulsante da cidade, ainda que não tenha todas as atrações da vizinha mais badalada. Para completar o quadro positivo, bastam alguns minutos de caminhada para se chegar na efervescência gastronômico-cultural de Palermo.
Para ser preciso em meu relato, a sequência do meu ranking de lugares preferidos para morar em Buenos Aires é a seguinte: Núñez no 2º lugar, Belgrano na 3ª posição e Colegiales no 5º posto – Saavedra, que comentaremos no próximo tópico deste post, fica no 4º lugar. Falemos, assim, um pouco deste trio de bairros que constituem a Comuna 13 do Distrito Federal da Argentina.

Vivi por um mês em Núñez em meados de 2023 e me apaixonei por sua tranquilidade, pelo ar interiorano e pelo jeitão pacato de seus moradores. Diferentemente de Palermo, que vive movimentada dia e noite em todos os dias da semana, Núñez é o puro suco do sossego. Por ser muito mais residencial, a maioria de suas ruas apresenta poucas pessoas e automóveis circulando, principalmente durante a semana. Dependendo da parte do bairro em que se está, parece que estamos realmente no interior, com vias de paralelepípedo, construções baixinhas e estranho silêncio para uma metrópole internacional. Em determinados lugares, há um ligeiro movimento aos finais de semana, quando as famílias saem para passear ou quando tem jogo do River Plate, o time local.
Além disso, há setores de Núñez com prédios mais modernos e altos, os meus preferidos (não curto velharia). Suas opções gastronômicas são excelentes e não sofrem os efeitos inflacionários dos pontos mais turísticos da cidade. Como estamos falando de uma parte de Baires frequentada apenas pelos locais, os preços dos cardápios e das lojas costumam ser mais justos. Saravá! Inclusive, a minha parrilla favorita fica justamente ali. Trata-se do BesAres Parrilla, conforme já comentei na coluna Gastronomia.
A cena gastronômica desse pedaço de CABA é tão boa e variada que, mesmo não morando mais ali, confesso que sigo frequentando os restaurantes de Núñez. É claro que o fato de eu ter me mudado para um bairro pertinho ajudou bastante nisso. El Chaqueño é o meu choripan de todos os finais de semana. Quando quero uma boa milanesa, vario entre o La Farola e o Bodegón Núñez. Já o El Antojo Núñez vou mais raramente, só em ocasiões especiais e à noite. Quando o assunto é a boa e velha parrilla argentina, aí sou obrigado a visitar, além do BesAres Parrilla, o Solomía Parrilla, o La Brasería, o La Escondida e o Parrilla Nuñez. Para um date com uma gatinha argentina, vou de Vereda Adentro, bar de vinhos bem descolado, ou de La Guitarrita, pizzaria mais animada do que gostosa.
Outro grande atrativo de Núñez é a enorme quantidade de clubes e associações esportivas. Confesso que não conheço outro bairro com tantas entidades e locais poliesportivos como este. Chega a ser assustador ver um clube ao lado do outro por vários quilômetros. A maioria dos brasileiros (e estrangeiros) só conhece o River Plate e o Monumental, o maior e melhor estádio da Argentina, que ficam em Núñez. Porém, naquela área há muito mais associações esportivas. O Estadio Obras Sanitarias é o palco mais tradicional da música argentina. Nele ocorrem os principais shows musicais do país. Também há o Club Ciudad de Buenos Aires, o Belgrano Tennis, o Club Obras Sanitarias, o City Rugby Club, o Club Atlético Comercio, o Complexo Esportivo de Alto Desempenho, o Tiro Federal Argentino e o Ciudad Golf Buenos Aires, além da Secretaria Municipal do Esporte. Esses são os clubes que conheço. Não duvido que tenha mais.
Outro lugar famoso desse pedacinho da capital argentina é o Museo Sitio de Memoria da Escuela de Mecánica de La Armada (ESMA). Foi nesse complexo militar que ocorreram as maiores atrocidades da Ditadura Militar da Argentina nas décadas de 1970 e 1980. Em meio à calma e ao bucolismo do bairro da Zona Norte, milhares de pessoas foram torturadas e mortas pelos milicos. Hoje, o espaço abriga um museu que rememora os momentos mais tristes da Ditadura e várias instituições de Direitos Humanos tanto da Argentina quanto do Mercosul. Juro que o clima dentro da ESMA (e nas calçadas no seu entorno) é pesadíssimo. De qualquer maneira, ele é um ponto histórico do bairro (quase na divisa com Vicente López).
Núñez também tem grandes e boas áreas verdes. Seus parques e praças não chegam a rivalizar com a exuberância e extensão de Palermo. Ainda assim, são dignos de elogios. O local mais diferentão é o Parque de Innovación, que abriga a instagramável Arbórea Magna. É legal visitá-lo tanto de dia quanto de noite. O espaço verde que mais frequento ali é o Parque El Salvador, que fica na divisa com Belgrano. Por estar em uma de minhas rotas de caminhadas habituais, vivo passando por ele.
De qualquer forma, a melhor parte de se morar neste bairro (e no extremo da Zona Norte de Buenos Aires) é a proximidade com a Costanera de Vicente López, esse sim um belíssimo parque à beira do Rio da Prata. Gosto tanto de caminhar pela rambla que esse é o meu passeio imperdível de final de semana na capital argentina, até mesmo no inverno. Domingo em Baires é, para mim, sinônimo de curtição na beira do rio. Se você acha a Costanera Norte legal, é porque não conhece a variedade de opções esportivas, a extensão e o clima de tranquilidade da Costanera de Vicente López. Vou detalhá-la mais a frente, quando comentar os atrativos das demais cidades da Zona Norte da Grande Buenos Aires. Afinal, Vicente López é, como vimos, um município da Provincia de Buenos Aires e não quero cruzar a fronteira por enquanto.
Juntamente com Saavedra, o bairro vizinho, Núñez é a localidade mais ao Norte da capital da Argentina. Isso significa que ele está longe do Centro. Diria beeem longe. Entretanto, no meu ponto de vista, isso não é propriamente um defeito e sim uma qualidade. Não dá para querer tranquilidade e alta qualidade de vida no meio do burburinho do Centrão de Buenos Aires, né? Ainda assim, essa distância pode ser um problema para quem precisa ir diariamente para as áreas centrais da capital (não é o meu caso atualmente – trabalho em home office). Como não há linha de metrô até Núñez (a estação mais próxima é em Belgrano), as opções de transporte público são o ônibus (uma hora até o Microcentro) e o trem (40 minutos até o Retiro). De carro, usando a autopista, chega-se em 20 minutos até o Obelisco. Portanto, é longe para os padrões portenhos, mas não para paulistanos e cariocas.
Por sua vez, Belgrano é o maior bairro da Zona Norte em extensão territorial, depois de Palermo. Ele está localizado entre Núñez (ao norte) e Palermo (ao leste). Também faz divisa com Coghlan e Villa Urquiza (ao oeste) e Colegiales e Villa Ortúzar (ao sul). Basicamente, é dividido em três setores: Belgrano R (R de Residencial), Belgrano C (C de Comercial) e a Cidade Universitária (que abriga uma reserva ecológica à beira do Rio da Prata).
Já adianto que Belgrano é muito diferente de Núñez, apesar da proximidade. Ele é mais movimentado, badalado e intenso, inclusive no seu setor residencial. Não por acaso, é cortado por duas linhas de trem e tem metrô. Além disso, é considerado um dos bairros judeus da metrópole portenha. É só caminhar por suas ruas que encontramos grandes sinagogas, lojas de comida kosher e escolas religiosas.

Como disse, Belgrano R é a sua zona residencial. Ali há um pouco mais de tranquilidade, principalmente na parte com grandes casas e nas ruas de paralelepípedo, que são extremamente charmosas. Ainda assim, nada se comparado ao bucolismo de Núñez. Talvez a falta de áreas verdes de grande dimensão dê um ar mais cosmopolita para Belgrano. Não deixe de visitar a Avenida Melián, uma das ruas mais bonitas e marcantes da metrópole argentina.
Já Belgrano C é o centro pulsante do comércio do bairro e local obrigatório de quem vive na Zona Norte. Confesso que não fico uma semana sem visitar essa charmosa e movimentada área de Belgrano. Estou sempre indo ao Multiplex Belgrano, cinema de rua que mais visito, ao Western Union da La Pampa, para trocar reais por pesos argentinos, e à Pizzería Burgio, uma das melhores pizzas de Buenos Aires. Também ficam ali meu sacolão de frutas predileto (na Cabildo com Quesada), o Palmyra, o restaurante árabe que mais frequento (na Amenábar com Olazábal), o La Paceña, uma das casas de empanadas mais gostosas da cidade (na Echeverría com Amenábar), e alguns bares legais, como o Hormiga Negra (na Amenábar com a Blanco Escalada).
Contudo, é inegável que as lojas da Avenida Cabildo são o maior chamariz dessa zona. Há comércio de todo o tipo ali. Esses estabelecimentos são excelentes para compras do dia a dia. O Mercado Municipal de Belgrano tem seu charme, admito, apesar de eu não o frequentar com tanta assiduidade. Só vou lá quando sou anfitrião de brasileiros que vão visitar Buenos Aires e preciso de um lugar legal nas proximidades para levá-los para turistar. Aonde vou sempre é o Barrio Chino, centro gastronômico de comida asiática e local de compra de produtos orientais. Além de muito divertido, ele é bastante movimentado de dia e de noite, sendo excelente opção para rolês sozinho, a dois ou em grupos. Se você acha a Liberdade, em São Paulo, legal, é porque não conhece o Barrio Chino (que apesar do nome, fica em Belgrano).
As residências de Belgrano C são normalmente prédios e não casas. Se o preço fosse mais convidativo (não é!), juro que morava fácil ali. Há uma linda e enorme praça, a Barrancas de Belgrano, que é bastante frequentada, inclusive de madrugada. Esse é um local bem instagramável e um dos points para se dançar Tango em Buenos Aires. Sim, senhoras e senhores, as pessoas dançam no meio da praça – mais precisamente em um charmoso coreto. Quem assiste/assistiu ao seriado “Meu Querido Zelador” (El Encargado: 2022-2026) certamente se recordará desse enorme e belíssimo espaço verde no coração de Belgrano, que alguns confundem, pelas imagens, com a Praça Intendente Alvear, na Recoleta. O seriado argentino usa a Barrancas de Belgrano em várias cenas. Inclusive, vale a menção, o edifício em que Eliseo Basurto (interpretado por Guillermo Francella), o protagonista da atração televisiva, vive e trabalha fica em Belgrano C.
A única parte deste bairro que não frequento é a Cidade Universitária (e sua reserva ecológica). Para não dizer que nunca vou para aqueles lados, só passo por ali de carro ou ônibus quando vou ou volto do Aeroparque. De onde moro, cortar a Cidade Universitária é o melhor trajeto até o aeroporto de Palermo. Pelo que vejo das janelas do Uber ou do coletivo, a calma e o sossego são predominantes. Pelo visto, não apenas eu não vou para aqueles lados como essa parece ser uma tendência de quase todos os portenhos. Por ser cortada pela Autopista, essa área é realmente de difícil acesso.
Para encerrarmos o tour pela Comuna 13 (eita nome mais comunista este, né?!), Colegiales é o menor bairro dessa parte da Zona Norte de Buenos Aires e um dos menores de toda a cidade. Ele fica ao Sul de Belgrano e faz fronteira com Palermo e Chacarita. Como é típico da metrópole portenha, essa região é caracterizada pela integração impecável de residências, comércios e áreas verdes. As praças mais legais de Colegiales são a Plaza Mafalda, a Plaza de Los Colegiales, a Plaza Moldes e Lacroze, a Plaza Ferroviario e Plaza San Miguel de Garicoits.
Seu ponto turístico imperdível é o Mercado de Las Pulgas, que fica em frente a Plaza Mafalda. Se você gosta de velharia (beijos, Marcelinha; e abraços, Sr. Horacio) não pode deixar de visitar os empoeirados corredores deste tradicional centro de compras de antiguidades. Gosto de Colegiales principalmente porque ele reúne opções gastronômicas com excelente custo-benefício. Como estamos falando de uma zona menos turística e menos movimentada do que as vizinhas Palermo e Belgrano, os preços de seus restaurantes são mais econômicos. Vou sempre ao Barcelona Asturias e ao La Farola de Ortúzar, bodegones tradicionais, e à La Mezzetta, histórica pizzaria de CABA.
As avenidas mais movimentadas dessa zona são a Federico Lacroze (centro comercial), a Álvarez Thomas (corta o bairro e tem muitas opções de linhas de ônibus) e a Cabildo (divide Colegiales de Belgrano). Para quem curte transporte público, o bairro é servido por uma linha de trem (estação Colegiales). Sua rua que mais gosto de caminhar é a Avenida de Los Incas, na área em que ela é de paralelepípedo e tem um belíssimo boulevard no canteiro central (pedaço da Crámer até a Álvarez Thomas).
Juro que moraria facilzinho, facilzinho em Colegiales. Para ser bem sincero com quem me lê neste novo relato da coluna Contos e Crônicas, viveria tranquilamente em Núñez e Belgrano também. E viva a Comuna 13. Viva!
4) Saavedra (ao lado de Coghlan, Villa Pueyrredón e Villa Urquiza, na Comuna 12) é o meu cantinho na capital argentina
Se sou apaixonado por Palermo, Núñez, Belgrano e Colegiales, preciso admitir que minha história de amor é, na verdade, com Saavedra. É mais ou menos igual ao lance de ser gamado na Scarlett Johansson, Margot Robbie, China Suárez, Isis Valverde e Paloma de Oliveira, mas namorar, na prática, uma bruxinha encantadora da Freguesia do Ó. Por mais que o mundo platônico tenha lá certa graça e confira alguns privilégios, a realidade nua e crua é o que realmente move o nosso dia a dia.
E onde fica Saavedra, hein?! Essa é uma boa pergunta, pois aposto que quase nenhum brasileiro ouviu falar desse bairro no extremo da Zona Norte de Buenos Aires. Pudera: ele é distante do Microcentro e não tem absolutamente nada de turístico. Ainda assim, é um pitelzinho que faz balançar meu coração peludo. Gosto tanto desse pedaço da cidade que não penso em sair daqui tão cedo, por mais que os desejos carnais por Palermo e seus vizinhos sigam me atentando e desafiando minha fidelidade geográfica.

Além de Núñez (ao nordeste), Saavedra faz fronteira com Belgrano e Coghlan (ao leste), Villa Urquiza (ao sudeste) e Villa Pueyrredón (ao sul). Esses são todos bairros da capital argentina – Coghlan, Villa Pueyrredón e Villa Urquiza integram, juntamente com Saavedra, a Comuna 12. Do outro lado, a divisa é com a belíssima Vicente López (tanto ao noroeste quanto ao oeste) e com a tranquilíssima Villa Martelli (ao sudoeste), ambas cidades da Provincia de Buenos Aires. O que delimita os três municípios (CABA, Vicente López e Villa Martelli) é a General Paz, misto de rodovia e avenida que corta boa parte da região metropolitana.
Conheci Saavedra quando morava em Núñez. Em meados de 2023, ao sair para caminhar pelo bairro vizinho (basicamente, Saavedra e Núñez são separados pela Avenida Cabildo), encontrei uma região de classe média recheada de áreas verdes, com ruas residenciais tranquilas, sem nenhum turista e com excelente infraestrutura. Por ser frequentado apenas por moradores locais, os preços dos aluguéis de seus apartamentos eram mais convidativos para o meu bolso do que os da Comuna 13. Pronto: demos match instantaneamente!
Assim, vivo feliz da vida há três anos na Avenida García del Río, uma charmosa rua com boulevard no canteiro central, ciclovia e alguns parques para crianças e cachorrinhos. Meu apartamento ainda fica ao lado do Parque Saavedra (local de corridas e caminhadas no fim de tarde) e próxima à Avenida Cabildo (via que dá acesso à área central da capital da Argentina).
Por falar nisso, a primeira coisa que chama a atenção em Saavedra é a absurda quantidade de parques e praças. Os espaços verdes mais importantes do bairro são: o Parque Saavedra, o Parque Presidente Sarmiento, o Parque Carlos Mugica, o Parque General Paz, o La Copita, a Plaza Benjamín Vicuña Mackenna e a Plaza Alberdi. Há até uma via importante do bairro chamada de Avenida Parque Roberto Goyeneche. Mas o porquê do nome de parque numa rua? Porque a via reúne incontáveis praças por sua extensão, formando um mar verde em pleno perímetro urbano. Uma vez tive a curiosidade de contar e cheguei a mais de dez praças pela Avenida Parque Roberto Goyeneche. Incrível, né? Essa é Saavedra, senhoras e senhores.
Olhando pelo Google Maps, tentei estimar qual era o percentual de áreas verdes deste bairro. Minha mais recente estimativa girava entre 25% e 33% do território de Saavedra ocupado por parques e praças, além de passarelas com gramado e ruas com canteiro central arborizado. Esse último aspecto é justamente o que mais gosto por aqui. Além da García del Río, existem várias outras vias com bonitos e esverdeados boulevards, que potencializam a experiência de se caminhar pelas ruas. Dá para citar a Avenida San Isidro Labrador e a Avenida Ruiz Huidobro (no lado do Parque Sarmiento) com esse padrão.
Além das praças, parques e boulevards nas avenidas, Saavedra tem um dos maiores shopping centers de Buenos Aires. Estou me referindo ao Shopping Dot Baires, que fica na divisa com Vicente López (na beira da Rodovia General Paz). Ele é muito legal – e olha que não sou da turma que se amarra em shopping. Juntamente com boas e variadas lojas, esse centro de compras é famoso pela gastronomia diferenciada e pelos espaços de entretenimento que fogem do convencional. Seus restaurantes vão das opções clássicas da praça de alimentação até unidades mais refinadas no térreo e nos terraços. No Dot Baires, há também cinema, teatro, pistas de boliche (neste caso, boliche é o esporte, tá?), campos de minigolfe, academia, espaço de exposição, casas noturnas... Tudo isso num shopping? Sim, senhoras e senhores. Ele também tem supermercado, sacolão, agência da imigração e um monte de coisa que agora não me lembro. Não é errado dizer que esse é, provavelmente, o shopping mais completo de Buenos Aires, melhor até do que os de Palermo.
Outro patrimônio cultural desta localidade é o time do Platense. O pequeno clube da Zona Norte foi fundado em maio de 1905 e retornou à primeira divisão do futebol argentino há apenas seis anos. Chamado carinhosamente de Calamar, sua cor típica é o marrom (para desespero dos profissionais da moda e do design). É só caminhar alguns minutos pelas ruas de Saavedra para ver os grafites nos muros com o símbolo do Platense e encontrar torcedores com o uniforme marrom desfilando para cima e para baixo.
A agremiação tem duas sedes esportivas e sociais. A mais antiga fica no próprio bairro, perto do Parque Sarmiento. As novas instalações estão na cidade vizinha de Vicente López, onde fica o estádio próprio do clube e as modernas dependências sociais. Por isso, muita gente diz que o Platense não é uma equipe portenha e sim bonaerense. Não está totalmente errado pensar dessa maneira, se bem que para os moradores de Saavedra, o time é exclusivamente do seu bairro.
Juro que em poucos meses vivendo aqui virei um fanático torcedor do Calamar. É claro que a primeira temporada que acompanhei in loco ajudou bastante nesse processo. No Clausura de 2023, o time de Saavedra chegou à final, mas perdeu o jogo decisivo por 1 a 0 para o Rosário Central. Assim, terminamos com o vice-campeonato, algo impensável até mesmo para os hinchas mais otimistas. Por mais felizes que os torcedores do pequeno time tenham ficado com tal feito, nada se compara ao êxtase do Apertura de 2025. Apenas um ano e meio depois do vice-campeonato, o Platense alcançou novamente a finalíssima. Só que dessa vez bateu o Huracán por 1 a 0 na decisão. Acredite se quiser, mas o Calamar se sagrou campeão argentino pela primeira vez em seus 120 anos de história. Vocês conseguem imaginar a festa? Só digo que acompanhei de perto as celebrações dos moradores tanto no clube quanto pelas ruas do bairro. Aqueles dias foram incríveis. Jamais vou esquecê-los.
Saavedra também é a terra de Roberto Goyeneche. El Polaco, como é chamado carinhosamente pelos argentinos, é um dos cantores de Tango mais famosos de todos os tempos. Talvez o mais correto seja dizer que foi um dos maiores da música local, pois ele faleceu há mais de 30 anos. Por ser do bairro e torcedor fanático do Platense, Goyeneche vivia falando de Saavedra e do Calamar em suas aparições nas rádios, na televisão e nos shows. O carinho que demonstrava pelo local onde nascera e crescera ainda repercute por aqui. Até hoje, ele é a maior personalidade desse pedaço da cidade. Prova disso é que por onde andamos no bairro, encontramos citações ao cantor. O estádio do Platense se chama Roberto Goyeneche. A avenida mais verde se chama Roberto Goyeneche. Além disso, é fácil encontrar grafites com suas imagens e os versos de suas canções por todos os lados.

Por falar em grafites, Saavedra é um bairro extremamente cultural. Suas ruas estão repletas de desenhos que fazem referências a vários artistas antigos da metrópole e do país. Portanto, não é apenas El Polaco que aparece nos muros. Outros cantores, atores e esportistas ilustram o cenário urbano. Além disso, é bom dizer que esse é o bairro mais carnavalesco de Buenos Aires. O que não quer dizer, convenhamos, muita coisa. Famosa por suas murgas, Saavedra tem o Carnaval mais animado e tradicional de CABA. Na prática, para os brasileiros que vivem intensamente essa data, diria que o evento local é abaixo do razoável para o nosso padrão, mas elevado para o padrão portenho.
A gastronomia e o comércio me parecem extremamente provincianos. Afinal, não conheço ninguém que atravesse a cidade para vir comer, beber, se divertir ou fazer compras por esses lados. Assim, restaurantes, parrillas, bares, cafés, padarias e supermercados (aí incluindo os chinos) de Saavedra possuem preços mais baixos do que os praticados na Comuna 13. Afinal, atendem apenas aos moradores do bairro, famílias de classe média. Meus restaurantes preferidos por aqui são: Los Amigos de Siempre, Parrilla Jorge e La Parraca Parrilla (belas parrillas); A Morfar (excelente bodegón); La Rossi Maniera (ótima cantina italiana); Dandy Saavedra e Moshu Café (ótimas cafeterias para desayunar y merendar); Rincón del Árbol, Hormiga Negra Saavedra, Bulebar Food & Drinks e Ibera Bar (bares descolados).
Para não dizer que Saavedra é habitada exclusivamente por argentinos, informo que há muitos imigrantes russos e ucranianos por aqui (beijo, Olga!). Numa caminhada despretensiosa pelo Parque Saavedra num fim de tarde ou num final de semana, é impossível não ouvir a língua russa sendo pronunciada algumas vezes. Também conheci uma paraguaia (beijo, Fabi) e um casal de peruanos. De brasileiro mesmo, confesso que não vi nenhum por essas bandas.
A parte do bairro perto de Núñez e Belgrano/Coghlan (onde moro) é constituída por prédios residenciais modernos e de altura mediana. Já a porção de Saavedra mais perto de Villa Pueyrredón, Villa Urquiza, Vicente López e Villa Martelli é caracterizada por casas térreas e sobrados. Para os leitores mais atentos do Bonas Histórias, aviso que as imagens de abertura deste capítulo de “Tempos Portenhos” são fotos tiradas da sacada do meu apartamento. Enquanto na Parte I (post de hoje) registrei a ala mais horizontalizada do bairro, na Parte II (que será publicada em duas semanas) o registro é do setor mais verticalizado de Saavedra.
De modo geral, estamos falando de um bairro muitíssimo calmo e bucólico, ideal para quem gosta de parques (oásis de natureza e esporte a céu aberto), caminhar sem preocupação por ruas pouco movimentadas (seja sozinho, seja com crianças e cachorros) e deseja qualidade de vida (para si e para a família). Minha paixão por essa localidade está na combinação de cultura e esporte e na proximidade com os bairros mais badalados de CABA. Na maioria das vezes, vou a pé mesmo para Núñez, Belgrano e Palermo. Além disso, há boa acessibilidade para a região central da cidade. Saavedra tem uma estação de trem que leva o passageiro ao Retiro.
Os demais bairros da Comuna 12 possuem perfis parecidos aos das regiões aos seus redores. No dia a dia, Coghlan é confundido com Núñez e Belgrano. Eu mesmo quando vou para essa área raramente falo que estou em Coghlan (até porque nem sei pronunciar corretamente tal palavra). Quase sempre me sinto em Núñez ou Belgrano. Por sua vez, Villa Pueyrredón tem ar de cidadezinha do interior, com muitas áreas verdes e poucos prédios. Em certos pontos, só se avista casas por todos os lados. Essa é provavelmente a região mais tranquila e bucólica da Zona Norte de CABA (muito mais do que Núñez, por exemplo).
Já a Villa Urquiza passou recentemente por um processo de verticalização acelerada e se transformou bastante. Há vários prédios modernos e charmosos com pegada mais hipster. Sua área gastronômica também está bem desenvolvida, com vários restaurantes e bares descolados. Vou para aqueles lados geralmente à noite, para a curtição. De madrugada, admito que quando estou com amigos carnívoros (abraços, Paulinho e Eduardo), a melhor pedida é o Lo de Charly, parrilla aberta 24 horas. Churrascaria 24 horas em Buenos Aires, Ricardo? Sim, queridos leitores da série “Tempos Portenhos”, é isso mesmo o que vocês leram. É bem curioso estar, às três horas da manhã, à mesa provando os melhores cortes de carne argentina. Impossível não ser apaixonado por essa cidade, né?
Antes que me esqueça de contar, tanto Villa Pueyrredón quanto Villa Urquiza são servidas pela mesma linha de trem e ambos os bairros têm as suas próprias estações ferroviárias. Essa é a Comuna 12 de CABA, senhoras e senhores, o local onde moro.
5) Outras áreas tranquilas, de classe média e pouco turísticas da Zona Norte da capital argentina (Agronomía, Chacarita, La Paternal, Parque Chas, Villa Crespo e Villa Ortúzar – Comuna 15)
Até aqui, em nosso passeio por Buenos Aires, perambulamos única e exclusivamente pela Zona Norte da cidade. Até porque, não dá para negar que a Comuna 12 (Coghlan, Saavedra, Villa Pueyrredón e Villa Urquiza), a Comuna 13 (Belgrano, Colegiales e Núñez) e a Comuna 14 (o gigantesco Palermo) integram efetivamente a ZN da capital argentina, né? Trata-se de uma evidência tanto geográfica (é só olhar o mapa do município!) quanto sociocultural (está na mente da população).
Tradicionalmente, o Norte portenho reúne os bairros mais elitizados da metrópole, sendo a campeã em qualidade de vida, poder aquisitivo, IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), segurança, infraestrutura urbana, malha de transporte público, opções de lazer, gastronomia e entretenimento, áreas verdes, ofertas de escolas e hospitais e sei lá mais o quê. De modo geral, podemos enxergar Palermo, Núñez, Belgrano, Colegiales e Coghlan como regiões de classe média alta, enquanto Saavedra, Villa Pueyrredón e Villa Urquiza como regiões de classe média média. Obviamente, uso como referência o padrão de Buenos Aires, uma ilha de riqueza da Argentina.

Mas o porquê estou falando disso agora no Bonas Histórias, hein? Porque a próxima área de nossa análise é a Comuna 15, constituída pelos bairros de Agronomía, Chacarita, La Paternal, Parque Chas, Villa Crespo e Villa Ortúzar. Curiosamente, ora ela é classificada como uma integrante da Zona Norte de Buenos Aires, ora é classificada como pertencente à região Central. Já até li que seria, na verdade, uma representante da Zona Oeste. Para a galera que fica em cima do muro, essa comuna estaria localizada na Zona Centro-Norte do Distrito Federal. Eita confusão! Ou, no linguajar portenho, “¡Que Quilombo!”.
Na minha concepção, o motivo dessa polêmica é mais sociocultural do que geográfico. Afinal, olhando para o mapa de CABA, sempre tenho a certeza da integração da Comuna 15 com as Comunas 12, 13 e 14. Ela fica, portanto, no Norte (ou, no pior dos casos, no Nordeste)! Então, por que a discussão?!
A questão é que esses bairros não são nem um pouco parecidos aos demais da ZN. Alguns deles possuem características mais próximas das áreas centrais da cidade, como San Nicolás, Balvanera e San Cristóban, por exemplo. A Comuna 15 é mais movimentada e possui maior integração entre os setores comercial e residencial. Além disso, tem ampla rede de transporte público, com linhas de trem (Línea San Martín – Retiro/Dr. Cabred) e metrô (Línea B do Subte), maior sensação de insegurança (ainda assim, baixíssimo para o padrão das grandes cidades brasileiras) e algumas áreas um tanto feias, degradadas e barulhentas. Como consequência, por mais que frequente essa área de Buenos Aires, admito que não moraria nela.
Vários bairros dessa zona possuem padrão de vida e opções de lazer e entretenimento inferiores aos vistos, por exemplo, em Palermo, Núñez e Belgrano. Assim, destoam da riqueza, do glamour e/ou do verde do restante da Zona Norte. De qualquer maneira, é bom dizer, ainda estamos numa área de classe média de Buenos Aires, só que num setor menos turístico, famoso e descolado. Por isso mesmo, algumas pessoas gostam de excluir essa região da ZN, como se não fosse merecedora de pertencer ao mais desejado pedaço da metrópole. Em outras palavrinhas, preconceito!
As partes da Comuna 15 que mais conheço são, nessa ordem, Chacarita, Villa Crespo e La Paternal. Chacarita é um bairro tradicional de classe média que está ao Sudoeste de Palermo e ao Sul de Colegiales. Por isso, ele integrou naturalmente minha rota de caminhadas e rolês, tanto diurnos quanto noturnos. Basta cruzar a Avenida Álvarez Thomas e a Avenida Elcano e, pronto, já estou em terras chacaritenses (não faço a mínima ideia do gentílico dessa zona).
Uma das minhas pizzarias portenhas favoritas fica exatamente em Chaca. Trata-se do El Imperio de La Pizza, um estabelecimento fundado em 1947 e que está em frente ao Cemitério de Chacarita, principal ponto turístico do bairro, e em frente à estação de trem Federico Lacroze. Só não a confunda, por favor, com a quase homônima Pizzería El Imperio, localizada em Almagro. A El Imperio de Chacarita é conhecida por suas deliciosas redondas e pelo péssimo atendimento, que adquire certo charme. Juro que me divirto com as patadas dos garçons mal-humorados, lentos e atrapalhados. Quando a pizza vem certa, o que ocorre raramente, festejo em tom de conquista de Copa do Mundo. Graças a esse lugar mágico, descobri vários sabores de redondas argentinas que jamais pediria. Tá vendo as vantagens dos pedidos errados?!
Também já frequentei bastante (num passado não tão distante) o Growlers da Calle Olleros 3750, bar que às sextas-feiras sediava eventos do Mundo Lingo, o La Vaquita de Chaca, parrilla-raiz com bom custo-benefício (principalmente quando o câmbio era favorável para os brasileiros), e o Albamonte, bodegón de 1958 que muita gente considera ter uma das melhores sobremesas da cidade (nunca achei nada de especial). Aos finais de semana, fui algumas vezes à feira popular do Parque Los Andes, a maior área verde do bairro e, provavelmente, o espaço arborizado mais completo e legal da Comuna 15.
O lugar que todo mundo fala que é imperdível e que eu jamais entrei é o Cemitério de Chacarita. Desculpem-me os leitores da coluna Contos & Crônicas, mas não acho graça nenhuma no turismo fúnebre, algo que os argentinos adoram. Nem no cemitério da Recoleta eu vou (a última vez que coloquei os pés por lá foi há mais de 20 anos).

Contudo, se você acha graça nesse tipo de programa, é bom saber que o Cemitério de Chacarita abriga os restos mortais de importantes tangueiros. Estão lá, por exemplo, Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, compositores de “Por Una Cabeza”, talvez a música argentina mais famosa no exterior. A figura número 1 de Saavedra, Roberto Goyeneche, tem o seu cantinho próprio em Chaca. É possível visitar as tumbas de Astor Piazzolla e Homero Manzi. Já quem não conhece o universo do Tango e curtiu, como eu, “Made in Lanús”, peça teatral argentina clássica, e “O Faz Nada” (Nada: 2023), um dos seriados nacionais mais divertidos dos últimos anos, pode se despedir de Luis Brandoni. O famoso ator faleceu recentemente e ainda comove os corações portenhos.
Chacarita é famosa por abrigar a torcida mais briguenta do país. O Chacarita Juniors tem os barra bravas mais temidos do futebol argentino, que colocam medo nos rivais e na própria polícia e nas autoridades. Para se ter uma ideia do nível de periculosidade desse pessoal, seus jogos são sempre com torcida dividida. Como as partidas de futebol na Argentina são por lei com torcida única, como isso é possível? O motivo é que as duas principais barra bravas do Chacarita Juniors se odeiam tanto que uma quer matar (literalmente) a outra. Assim, elas ficam separadas no estádio e a polícia precisa monitorá-las com atenção. Seria engraçado se não fosse trágico, né? O maior rival do Chacarita Juniors é o Atlanta, equipe de Villa Crespo, o bairro vizinho.
Por falar nisso, outro pedaço bastante interessante da comuna 15 é justamente a Villa Crespo. Localizado ao Sudeste de Chacarita e ao Sudoeste de Palermo, esse bairro é famoso por abrigar os principais outlets de Baires. Para as almas mais consumistas e para os amantes da moda, vale a pena alertar que essas lojas ficam essencialmente na Calle Gurruchaga (principalmente no trecho entre a Avenida Córdoba e a Avenida Corrientes). Como sou uma negação quando o assunto é moda, reconheço que nunca achei graça nessa região. Mesmo na época de câmbio favorável, não considerei os outlets de Villa Crespo opções de compra de roupas tão vantajosas assim.
Meu local predileto ali sempre foi o Mercat Villa Crespo (beijo, Paola!). Com pegada mais gastronômica e com visitantes essencialmente locais (são raros os turistas), o mercado se tornou especializado em culinária asiática nos últimos anos. Mas existem algumas opções para quem quer cerveja, vinho e restaurantes de outras nacionalidades gastronômicas. Por exemplo, há um ou outro estabelecimento com pratos árabes, italianos e argentinos. Os três andares do Mercat Villa Crespo (o primeiro andar é chinês, o segundo andar é japonês e o terceiro é coreano) são muito movimentados nos finais de semana à noite, com música ao vivo e badalação. A proposta é parecida ao das praças de alimentação dos shopping centers: compra-se nos restaurantes e leva-se o prato em bandejas para as mesas coletivas. Quem me apresentou esse lugar foi a policial de Belgrano (que nasceu e foi criada em Villa Crespo).
Assim como Chacarita, Villa Crespo é ótimo para quem gosta de caminhar e é uma excelente opção para quem busca local de moradia mais em conta, principalmente se compararmos os valores dos aluguéis das Comunas 13 e 14. Basicamente, suas residências são prédios de classe média de alturas e idades medianas. A linha de metrô corta o bairro bem ao meio, o que ajuda na locomoção geral de toda a região. Diferentemente de Chaca, que se tornou mais descoladinha nos últimos dois ou três anos, Villa Crespo se mantém fora do mapa do burburinho portenho.
Seu principal ponto negativo é a maior movimentação e barulho, muito em função das várias avenidas com trânsito intenso (Avenida Juan B. Justo, Avenida Dorrego, Avenida Raúl Scalabrini Ortiz, Avenida Ángel Gallardo, Avenida Córdoba, Avenida Corrientes, Avenida Warnes e, ufa, Avenida Doctor Honorio Pueyrredón) e do comércio pujante em todos os cantos (que não se restringe aos outlets). Portanto, esqueça o clima tranquilo e bucólico de outras áreas da Zona Norte. Outro problema é a ausência de grandes e vistosos parques. As opções de lazer verde ficam com as pequenas e médias praças. A maior delas, se eu não estiver enganado, é a Plaza General Benito Nazar, de porte acanhado para o padrão de Buenos Aires.
Outro bairro que visitei algumas vezes (usei o tempo verbal no passado porque faz tempo que não vou para aqueles lados...), mas não com tanta assiduidade quanto Chacarita e Villa Crespo, é La Paternal. Essa é uma pequena zona ao Sul de Chacarita e a Oeste de Villa Crespo. Ela também faz fronteira com Agronomía (ao Leste), Parque Chas e Villa Ortúzar (ao Norte) e Villa del Parque e Villa General Mitre (ao Sul), essas últimas pertencentes a Comuna 9. Quando digo que La Paternal é pequena em extensão não estou exagerando, tá? O bairro é pouco maior do que o Cemitério de Chacarita.
Quando se fala em La Paternal, a primeira coisa que vem em minha mente é a torcida do Platense gritando a plenos pulmões no estádio Vicente López: “¡Vamos a queimar La Paternal!”. Isso ocorre porque este é o bairro do Argentinos Júniors, o principal rival do querido Calamar. Assim, do ponto de vista esportivo, eu não teria muito o que fazer por suas ruas (além de queimar tudo – brincadeira!). Pela perspectiva dos moradores de La Paternal, o Argentinos Júniors é o time que revelou Diego Armando Maradona para o futebol. Não por acaso, o estádio da equipe leva o nome de seu maior ídolo e é possível encontrar grafites do jogador por todos os cantos.
Além do clube e do estádio Diego Armando Maradona, o que mais há em La Paternal? Essa é uma boa pergunta, que estou me fazendo agora. Juro que não sei. Essa zona é essencialmente residencial, com o predomínio de casas térreas e sobrados. Seu comércio está concentrado na Avenida San Martín e atende apenas aos moradores locais. Sua maior área verde é o Parque La Isla, provavelmente o parque com menos árvores de Buenos Aires.
Assim, sempre que fui para La Paternal, estava em deslocamento para outras regiões da cidade e da província. Por exemplo, peguei incontáveis vezes o trem na estação La Paternal para visitar a gatinha do Exército Argentino que mora/morava em San Miguel (beijinho, July) e os rapazes mais divertidos de Pilar (abraços, Rai e Carlos), ambas cidades da Provincia de Buenos Aires. Também buscava e levava minha amiga paraguaia (beijão, Alba) nessa mesma estação para nossos rolês por Chacarita. De ônibus, passei por esse bairro em direção à zona Oeste de Buenos Aires.

Já os outros três bairros da Comuna 15, Agronomía (ao Oeste de La Paternal), Parque Chas (ao Noroeste de La Paternal e ao Sul de Villa Urquiza) e Villa Ortúzar (ao Norte de La Paternal e ao Sul de Belgrano), eu conheço muito pouco. E quando digo “muito pouco” é “muuuuuuito pooooouco meeeeesmo”. Lembro que fui à Agronomía uma única vez, para uma festa junina brasileira no Club Comunicaciones. Nesse passeio, vi que há várias unidades de universidades nas redondezas do clube. Isso é tudo o que me recordo dali.
No caso de Parque Chas, fui apenas para um date de final de tarde e fiquei encantado com sua zona residencial (mais do que a argentina que conheci e mais do que o bar visitado – desculpem-me pela sinceridade). Vale dizer que esse é o menor bairro de CABA (menor até do que La Paternal). Parque Chas é caracterizado por ruas com traçado peculiar e casas de bom padrão. Os prédios são poucos e baixos (tem no máximo quatro ou cinco andares). Com exceção da Avenida dos Incas (e uma pequena parte da Calle Pampa com pizzarias, bodegones e bares), o restante do bairro é extremamente tranquilo. Só não me lembro de ter visto nenhum parque ou praça, o que é estranho considerando o nome do lugar, né?
Por fim, chegamos à Villa Ortúzar. Eu só frequento esse bairro de passagem, caminhando a pé (inclusive à noite). Talvez tenha sido ali que fiz meu cadastro do bilhete metropolitano de transporte público (Tarjeta Sube), mas não tenho certeza. O que notei nas bateções de pernas por ali é que se trata de uma região muito mais movimentada e comercial do que o Parque Chas. As residências são mais verticalizadas, o que confere um ar mais cosmopolita para o bairro. É, portanto, bastante parecido a Villa Crespo.
Isso é tudo o que sei da Comuna 15, senhoras e senhores.
Assim, encerramos a primeira parte deste nosso tour pelas diferentes regiões da capital argentina. Como havia adiantado no início deste post da coluna Contos & Crônicas, basicamente permanecemos até aqui na Zona Norte, a área que mais gosto e conheço da Grande Buenos Aires. Porém, la ciudad de la furia tem muito mais atrativos e peculiaridades, que precisamos explorar com a devida atenção e bastante cuidado.
Por isso, em 8 de junho, retornarei ao Bonas Histórias para apresentar a parte II do Capítulo 9 – Passeio por Buenos Aires. No complemento desta narrativa não ficcional, iremos, enfim, para o setor mais turístico do Distrito Federal. Aí vamos percorrer o Microcentro, San Telmo, Recoleta, Puerto Madero e La Boca, os bairros queridinhos dos brasileiros em férias pela metrópole argentina. Também caminharemos pela Zona Oeste (Chacarita, Villa Crespo, Caballito, Almagro, Boedo e Flores) e pela Zona Sul (Barracas, Parque Patricios e Mataderos), zonas de CABA menos visitadas pelos estrangeiros.
É esse o restante do nosso itinerário, senhoras e senhores. Se vocês estão curtindo o rolê por Mi Buenos Aires Querido, permaneçam conosco para a sequência de “Tempos Portenhos”, a viagem mais intimista e detalhista pelo Distrito Federal da Argentina.
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Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques, o amor incondicional aos cachorros, a paixão pela carne, a devoção pelo futebol, as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata, a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às cidades brasileiras, a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante, o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha.
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