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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Crônicas: Tempos Portenhos – Episódio 9 – Passeio por Buenos Aires (Parte II)

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • 8 de jun.
  • 56 min de leitura

Atualizado: 25 de jun.

Nesta continuação do nono capítulo da série não ficcional sobre como é a vida dos brasileiros na Argentina, vamos discutir as características da maioria das regiões da metrópole hermana. Após um tour pela Zona Norte (na parte I publicada há duas semanas), a ideia agora é percorrer as ruas, os bairros e as principais atrações do Centro, da Zona Sul e da Zona Oeste da capital argentina.


Passeio por Buenos Aires – Parte II é o complemento do nono episódio de Tempos Portenhos, coletânea de crônicas de Ricardo Bonacorci sobre como é a vida dos brasileiros que moram na capital da Argentina. Nesta nova publicação da série não ficcional do Bonas Histórias, conheceremos o Centro, a Zona Sul e a Zona Oeste da Grande Buenos Aires

Vamos combinar que o episódio 9 de “Tempos Portenhos”, Passeio por Buenos Aires, está diferentão. Pela primeira (e talvez única) vez nesta temporada da coluna Contos & Crônicas, tivemos que dividir um texto em duas partes. O motivo? A parte I do nosso tour pela capital da Argentina, narrativa não ficcional publicada no Bonas Histórias há duas semanas, ficou extensa demais – até mesmo para o padrão de um blog literário-cultural. Se não estiver enganado, nosso rolê inicial gerou cerca de 30 laudas, algo próximo de uma hora de leitura. E olha que não saímos da Zona Norte da Região Metropolitana de Buenos Aires. Para não cansar a beleza dos leitores nem calejar as mãos que digitam esta crônica, um intervalo comercial se fez necessário.


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Voltamos! Após um rápido intervalo comercial, acho que já estou preparado para seguir com a missão de realizar um raio-X completo pela cidade em que moro desde meados de 2023. As perguntas que acredito que os leitores de “Tempos Portenhos” estão se fazendo neste momento são: “Tá bom, Ricardo, mas além de bairros como Palermo, Núñez, Belgrano e Saavedra e de cidades como Vicente López, San Isidro e Tigre, o que o Distrito Federal da Argentina e a Região Metropolitana de Buenos Aires nos reservam de surpresas positivas e de atrativos, hein? Não vai me dizer que só há diversão e qualidade de vida na Zona Norte, né?!”.


Vocês têm toda a razão, galerinha sagaz e animada do Bonas Histórias. Não é porque eu prefira a Zona Norte de CABA (Ciudad Autónoma de Buenos Aires) que os turistas e os estrangeiros que querem morar na capital argentina devam desprezar as demais áreas da principal região metropolitana do país. Exatamente por isso, fiz esta Parte II de Passeio por Buenos Aires. Hoje, vamos percorrer juntos os bairros centrais da capital hermana, justamente o pedaço que os brasileiros mais conhecem. Também daremos uma voltinha pela Zona Sul e pela Zona Oeste de Baires, áreas um tanto desprezadas pelos gringos. E aproveitando o rolê, quero dar uma chegadinha em outras cidades metropolitanas da Provincia de Buenos Aires (sem acentuação em “província” para ficar igual ao espanhol), municípios raramente visitados pelo pessoal de fora.  


Se você chegou agora por aqui e ainda está perdido(a) com a geografia do nosso passeio, sugiro ler a parte I de Passeio por Buenos Aires. Lá explico sucintamente como Buenos Aires está distribuída no mapa e o significado de alguns termos espaciais comuns entre os argentinos. Contudo, se você ficou curioso(a) com os capítulos anteriores de “Tempos Portenhos” (Episódio 1 – Distopia Paulistana ou Carioca; Episódio 2 – Vida ao Ar Livre; Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes; Episódio 4 – O Espanhol Argentino; Episódio 5 – Sentando-se à Mesa com os Argentinos; Episódio 6 – La Verdadera Cancha del Fútbol; Episódio 7 – A Capital Cultural da América do Sul; e Episódio 8 – A Montanha-russa da Economia Argentina), aí a recomendação é dar uma espiada no conteúdo da coluna Contos & Crônicas. Mesmo eu sendo extremamente suspeito para falar, acho que os demais posts dessa série narrativa não ficcional de como é viver em Buenos Aires estão imperdíveis.


Feitos os esclarecimentos necessários para o início da viagem, creio que, enfim, podemos começar a segunda parte de nossa jornada pelas margens mais caóticas e divertidas do Rio da Prata. Assim como realizado na parte I deste rolê pela capital da Argentina, dividi esta crônica de “Tempos Portenhos” em subseções. Se não estiver enganado (algo que sempre acontece), são sete tópicos que abordam diferentes bairros, regiões e cidades metropolitanas. Nesta fragmentação, tentei reunir lugares da Grande Buenos Aires com características semelhantes e atrativos em comum tanto para turistas quanto para moradores. Dessa maneira, acredito dar certa organização e alguma lógica ao texto, tão comprido e detalhista quanto o anterior. Por isso, peço desculpas desde já ao povo que não curte ler e se perde em narrativas longas.  


Sem mais enrolação, desejo uma excelente sequência de passeio pela capital da Argentina para todos nós!


Passeio por Buenos Aires – Parte II, nova crônica do Bonas Histórias, apresenta os detalhes dos bairros centrais (Microcentro) e das zonas Sul e Oeste da capital argentina, além de algumas das principais cidades da região metropolitana

1) Microcentro (Constitución, Monserrat, Puerto Madero, Retiro, San Nicolás e San Telmo - Comuna 1) é o coração financeiro, comercial e turístico de Buenos Aires.


Em qualquer parte do planeta, com exceção do querido Brasil, os melhores passeios pelas maiores cidades do país começam pelo seu Centro. Felizmente, a Argentina segue a tradição mundial e não a curiosa situação do único vizinho que fala português. O Centrão de Buenos Aires reserva incontáveis atrações, principalmente para os turistas debutantes.


É ali que está, por exemplo, a rua mais famosa da metrópole portenha, a Avenida 9 de Julio. Segundo o povo local, esta é a via mais larga do mundo. Nem tente discordar deles, por favor! O Obelisco, a Casa Rosada, a Catedral Metropolitana, o Congreso Nacional, o Teatro Colón, a Plaza de Mayo, a Avenida Corrientes, a Calle Florida, a Galeria Pacífico, a Estação Retiro, o Café Tortoni, o Palácio Barolo, o Mercado de San Telmo, a Feira de San Telmo, a Puente de la Mujer, a Fragata Sarmiento e, ufa, a Reserva Ecológica Costanera Sur são outros lugares tradicionais de CABA. Goste-se ou não do turismo tradicional, esses lugares costumam integrar qualquer roteiro de primeira viagem pela capital argentina.


O Centro de Buenos Aires é mais conhecido localmente como Microcentro. Essa área da cidade reúne seis bairros: Constitución, Monserrat, Puerto Madero, Retiro, San Nicolás e San Telmo. Juntos, eles formam o coração financeiro (Puerto Madero), comercial (Retiro, Monserrat e San Nicolás), turístico (San Nicolás, Puerto Madero e San Telmo) e de transportes públicos (Retiro e Constitución) da capital argentina. Basta ir lá em um dia de semana no horário comercial para entender o motivo desse status. Suas ruas fervilham de gente, carros e barulho. Por outro lado, à noite e aos finais de semana e feriados, a calma e o silêncio imperam na maioria dos bairros centrais.


A boa notícia para os viajantes brasileiros é que comparado às áreas centrais de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, zonas há muitos anos degradadas, abandonadas e perigosas, o Microcentro de CABA é relativamente vibrante e seguro. É claro que os portenhos reclamam da perda de movimento e prestígio e do aumento acentuado de moradores de rua, principalmente depois da pandemia da Covid-19. Ainda assim, duvido que paulistanos, cariocas, belo-horizontinos e porto-alegrenses vão reclamar do passeio ou vão se sentir acuados no Centrão de Buenos Aires.


De qualquer maneira, é bom avisar para vocês tomarem cuidado. O principal crime dessa região é a ação dos batedores de carteira, um mal que assola as áreas centrais das principais metrópoles mundiais. Experimentem caminhar distraídos pelo centro de Paris, Londres, Roma, Barcelona e Amsterdã, para ficarmos apenas na Europa. Aí num passe de mágica, celulares, carteiras e bolsas podem sumir misteriosamente. Na Argentina (e na América do Sul como um todo) não é diferente. Por isso, como diriam os locais: ¡Ojo, ojo!


O Microcentro é a zona mais bem-servida de transporte público de Buenos Aires. Há incontáveis linhas de trem, metrô e ônibus. As grandes avenidas também ajudam na fluidez do trânsito. Isso é, quando não há protestos e mobilizações, algo extremamente frequente por essas bandas. Ao mesmo tempo, as ruas estreitas de calçadas minúsculas e os prédios históricos de arquitetura europeia dão um charme à paisagem urbana. Se por um lado o turista se sente, às vezes, no Velho Continente, em outros momentos a realidade o faz voltar rapidamente para a América Latina. Confesso que adoro essa mescla confusa e caótica de mundos.


Retiro é o segundo maior bairro da área central da cidade, só perdendo em extensão territorial para Puerto Madero. Ele faz divisa com a Recoleta (Comuna 2), com San Nicolás e com o próprio Puerto Madero. Sua principal característica é o caráter distinto de duas zonas: uma mais voltada para o transporte metropolitano e com residências horizontais beeem pobres (pedaço extremamente perigoso para o rolê dos turistas); e outra mais cosmopolita, verticalizada e rica (mais adequada para o passeio dos estrangeiros). Falemos agora de ambas as áreas do Retiro, senhoras e senhores.


A região ao redor da Estação Retiro (uma espécie de Estação da Sé de Buenos Aires, pois integra várias linhas de trem, metrô e ônibus) é uma das zonas mais perigosas do Centrão da Capital Federal, principalmente fora do horário comercial e aos finais de semana e feriados. Pelo menos é essa a sensação que temos ao perambular por suas ruas. Não é aconselhável, por exemplo, para os turistas caminharem à noite pelas redondezas da estação de trem e dos terminais de ônibus, pelas praças Comodoro, Canadá e Salvador María del Carril e pela sede da Imigração. Os motivos são: ruas vazias (fora do horário do vai e vem do transporte público), vias mal iluminadas (à noite), excesso de moradores de rua (para o padrão argentino) e de batedores de carteira (ávidos por turistas distraídos). Se precisarem ir para lá, por favor, não fiquem falando alto português (ou qualquer outro idioma gringo), não carreguem malas ou bolsas nem vão no look ostentação, pelo Amor de Deus!


Neste relato de suas experiências como morador de Buenos Aires, intitulado Passeio por Buenos Aires, Ricardo Bonacorci apresenta os pormenores de cada uma das áreas da capital da Argentina

Confesso que frequento bastante essa área do Retiro (apenas de dia e durante a semana). Quando vou ao Microcentro, costumo pegar trem na estação (indo e voltando de Núñez) e caminho sem problemas para os demais bairros centrais de Buenos Aires. Juro que nunca tive problema de segurança. Contudo, nunca dei mole e sempre ativei os modos “atenção total” e “discrição absoluta”. Além disso, aos finais de semana, à noite e de madrugada, quando essa região está completamente deserta, nunca caminho por lá. Aí prefiro pegar ônibus na Avenida Santa Fé ou na Avenida Leandro N. Alem, que sempre possuem bom movimento. As únicas exceções foram quando fiz o trâmite de residência na Imigração argentina, que fica nessa zona. Nesses casos, tive que encarar as ruas vazias no fim da madrugada/início de manhã. Mesmo assim, não tive nenhum problema.


É nessa área do Retiro que fica a Villa 31, a maior favela do país. Curiosamente, ela fica espremida entre as linhas de trem e a Autopista, não sendo visível para quem está a pé. Só quem está de carro ou ônibus pela Autopista ou pega trem consegue avistar pela janela as casinhas simples e apinhadas bem no Centrão da capital do país. A entrada para a Villa 31 é feita por uma rua simpática e até convidativa ao ladinho da Estação Retiro. A impressão é que ela dá acesso a um centro popular de compras. Por isso, para evitar sustos entre os desavisados de plantão, é comum haver policiais ou até moradores da favela desaconselhando o ingresso de gente de fora da comunidade. Não é preciso explicar os riscos de se adentrar numa favela sul-americana, ainda mais sendo estrangeiro, né?


A outra parte do bairro, completamente diferente da primeira, fica no entorno da Plaza General San Martín (do sentido contrário à Estação Retiro) e da Plaza Liberdad, vias divididas pela suntuosa Avenida 9 de Julio. Essa parte do Retiro é infinitamente mais tranquila e caminhável, inclusive à noite e aos finais de semana.


Estão nessa zona alguns pontos turísticos imperdíveis da cidade: El Cuartito, uma das pizzarias mais tradicionais de Baires; a Galeria Pacífico, shopping central tradicional e lindíssimo; o Terminal Buquebus, área portuária que liga Argentina e Uruguai; o Sheraton, um dos hotéis e centros de convenções mais chiques de Buenos Aires; a embaixada e o consulado brasileiros, em prédios impecáveis; o Teatro Coliseo, onde assisti a “Quiero Mejor”, show de Kevin Johansen; e o Mercado de los Carruajes, novo polo gastronômico do Centrão. É nesse ponto do bairro que começa a famosa Calle Florida. Não é preciso dizer que a sensação de segurança é muito maior nessa parte do Retiro do que no entorno da Estação Retiro, né?


Entre 2004 e 2005, inclusive, morei na Marcelo T. de Alvear, entre a Calle Suipacha e a Calle Esmeralda. Na época, era novinho (tinha 23 anos) e trabalhava seis dias por semana (era executivo de vendas de uma multinacional de bebidas). Por isso, adorava viver na região central, com fácil acesso aos pontos turísticos e à malha de transporte público. Saía à noite e nunca tive problemas com segurança. Porém, é bom avisar que nas últimas duas décadas, o Microcentro de Buenos Aires ficou bem diferente. A movimentação noturna pelo Retiro caiu drasticamente. Não sei se moraria hoje ali e, uma vez morando, se sairia tanto de madrugada. Por isso, prefiro a calma e a maior segurança da Zona Norte de Buenos Aires.


Essa parte mais agradável e segura do Retiro se parece muito com outros dois bairros centrais: San Nicolás e Monserrat. Vamos falar agora deles dois. Para ser ainda mais preciso em meu relato, San Nicolás e Monserrat, as continuações naturais do Retiro para quem caminha pela Avenida 9 de Julio, são até mesmo mais movimentados tanto de dia quanto à noite. O motivo disso é o maior dinamismo nesses pontos da Avenida 9 de Julio e, principalmente, da Avenida Corrientes, a via mais boêmia da Região Metropolitana de Buenos Aires. Acho que a Corrientes merecia um post exclusivo em “Tempos Portenhos”, tamanha é a quantidade de atrações que ela possui.


A Avenida Corrientes (com cerca de 9 quilômetros de extensão, ela começa em Chacarita e termina em San Nicolás, atravessando Balvanera, Almagro e Villa Crespo) é conhecida como a Broadway argentina, por concentrar uma enorme quantidade de teatros. O mais legal é que as incontáveis salas teatrais dividem espaço com livrarias, cinemas, restaurantes e cafeterias. Além do charme da iluminação excessiva e do fechamento à noite de parte da via para o uso dos pedestres, a união de entretenimento gastronômico e diversão artístico-cultural atrai milhões de pessoas, não apenas turistas. Um dos passeios mais legais da capital argentina é justamente ir ao teatro ou ao cinema na Corrientes e emendar com uma pizza. Tudo isso funcionando a pleno vapor até altas horas da madrugada. De quarta a domingo é quando o lugar ferve de gente. Não por acaso, meu cinema (Cine Gaumont), meu teatro (Multitabaris), minha padaria (La Ideal) e minha pizzaria favoritos (Pizzería Güerrín) ficam nesse pedacinho agitado e boêmio da cidade, sendo possível percorrê-los a pé inclusive de madrugada.


San Nicolás reúne outras atrações que os turistas brasileiros adoram visitar. Do ponto de vista cultural, dá para citar o Centro Cultural Borges, o Centro Cultural Kirchner (que teve o nome mudado recentemente pelo atual presidente para Palacio Libertad), o Teatro Colón, o Obelisco e o Luna Park. Quem curte programas artísticos, tem que frequentar esse bairro sim ou sim.  


Passeio por Buenos Aires – Parte II, nova crônica de Tempos Portenhos, apresenta como é para um migrante brasileiro viver na capital da Argentina, cidade com bairros, zonas e regiões bastante distintos entre si

Se a Corrientes é um passeio imperdível à noite e de madrugada, admito que adoro caminhar pela Avenida de Mayo durante o dia, principalmente na primavera, quando ela adquire um colorido especial. Em uma ponta desta via, temos a tradicional Plaza de Mayo. Ali ficam a Casa Rosada, sede do Executivo, a Catedral Metropolitana, onde o finado Papa Francisco trabalhou por anos antes de se transferir para o Vaticano, e o Museo Histórico de la ARCA. Na outra ponta da Avenida de Mayo, está a Plaza del Congreso. Pelo nome da praça dá para deduzir que ali está o belíssimo palácio que abriga os congressistas argentinos. A sede do Legislativo se parece muito com o Capitólio, em Washington. No trajeto de quase dois quilômetros entre a sede dos dois poderes, passamos por várias atrações turísticas: o Café Tortoni, o Palácio Barolo, a La Panera Rosa (no térreo do Palácio Barolo), o Edifício La Prensa, o Cine Gaumont e a Casa Fernández Blanco. Dá para entender por que San Nicolás está entre os bairros mais fascinantes da cidade, não dá?


Frequentava quase que diariamente a região de San Nicolás quando fazia curso de espanhol. O Laboratório de Idiomas da UBA está localizado numa rua ao lado da Casa Rosada. Também é neste bairro que fica o mercado brasileiro que vou sempre, o Neway Market, na Avenida Callao. Não há melhor lugar na capital argentina para comprar arroz, feijão, tapioca e guloseimas típicas do nosso país. Já para quem curte carne argentina boa e barata, ao melhor estilo churrascaria-raiz sem frescura e sem qualquer sofisticação, as opções imperdíveis são a Parrilla Peña (na Viamonte y Rodríguez Peña) e, principalmente, a La Entrañita (na Venezuela y Tacuarí). Só não reparem na simplicidade desses lugares nem nos serviços extremamente espartanos. O lance no Parrilla Peña e na La Entrañita é focar na qualidade das carnes e, essencialmente, no preço imbatível para a região. 


Para ser sincero com vocês, vou muito mais à San Nicolás do que à Monserrat. Pensando agora cá com meus botões, acho que nunca fui a um lugar específico de Monserrat. Só passo por suas ruas no trajeto a pé entre San Nicolás e San Telmo. Isso não quer dizer, obviamente, que não haja atrações interessantes por ali. Eu é que não conheço nenhuma.


Por falar em conhecer, conheci algumas brasileiras que moram/moraram tanto em San Nicolás quanto em Monserrat (beijos, Mariana e Carol!) e adoravam a conveniência de estar perto de tudo, inclusive da proximidade com a Faculdade de Medicina da UBA (que fica no bairro vizinho de Balvanera). O maior problema dessa região é o barulho. Como os prédios são antigos e baixos (têm normalmente entre cinco e seis andares) e as ruas são movimentadas (e põem carro e buzina aí), a poluição sonora pega pra valer 24 horas por dia.


Já que citei San Telmo no penúltimo parágrafo, vamos adentrar de uma vez nesse bairro extremamente turístico e conhecido pelos brasileiros. Ele faz fronteira com Monserrat, Constitución e Puerto Madero (outras regiões do Microcentro) e com La Boca e Barracas (áreas da Comuna 4 – Zona Sul). O principal charme de San Telmo é exatamente seu caráter histórico. Não à toa, trata-se do bairro mais antigo de Buenos Aires. As ruas de paralelepípedos, os casarões coloniais bem preservados, a atmosfera de arte pela rua e as boas opções de bares, cafés e restaurantes conferem um ar de jovialidade e de diversão indescritíveis. Admito que não vou à noite para essa parte da cidade (prefiro ir para Palermo nesse horário), mas de dia e aos finais de semana ele é bem alegre e interessante.


A principal atração local é o Mercado de San Telmo, excelente polo gastronômico. Uma das melhores empanadas da cidade está ali. O El Hornero oferece a tradicional culinária crioula argentina e suas empanadas são realmente incríveis. Outro lugar que gosto é La Choripanería, especializada em choripan, meu sanduíche argentino favorito. Há também algumas opções de raclette, o sanduíche tipicamente suíço com carne coberto por muuuuuito queijo derretido na hora – só de pensar nele, começo a salivar.


Os únicos problemas do mercado são a muvuca no horário de pico (não dá para se sentar para comer e as filas para se fazer os pedidos são enormes) e o preço elevado. Como o local é voltado essencialmente para os turistas, os valores são inflacionados. Por isso, não costumo frequentá-lo com tanta assiduidade. Só vou para San Telmo quando recebo em casa visitas de brasileiros ávidos por percorrer o mercado e as charmosas ruas do bairro antiquíssimo.


Por falar em coisa antiga, um dos charmes dessa parte da cidade é a Feira de San Telmo, especializada em antiguidades. Ela ocorre aos domingos das 10h às 16h na Plaza Dorrego. Confesso que faz muito tempo que não a visito. Quando fui lá num passado distante, achei a feirinha divertida, mas bastante turística. Se você é morador de Buenos Aires, talvez tenha feiras mais adequadas para suas necessidades cotidianas no bairro onde mora. Por outro lado, se você é turista que está a fim de vivenciar a melhor experiência de feira de antiguidade da Capital da Argentina, aí sim a Feira de San Telmo vale muito a pena.


Passeio por Buenos Aires – Parte II, crônica de Ricardo Bonacorci que integra a série não ficcional Tempos Portenhos, revela os aspectos positivos e negativos dos bairros centrais da capital da Argentina, assim como das zonas Sul e Oeste da cidade

Um programa que acho interessante é unir o rolê pelo Mercado de San Telmo com a visita à Feira de San Telmo. Não por acaso, o domingo é o dia em que as ruas do bairro se enchem de pessoas e tornam o clima ainda mais festivo. Pelo visto, não sou apenas eu que tenho essa brilhante ideia de integrar a bateção de perna pelo mercado com a volta pela feirinha.  


Já que vocês estão por San Telmo, aproveitem para fazer o Paseo de La Historieta, uma das melhores atrações turísticas de Buenos Aires. Este bairro está recheado de estátuas das personagens de Quino, um dos principais cartunistas argentinos de todos os tempos. Entre suas criações memoráveis está Mafalda, a menina intelectualizada que se revolta contra o status quo (e as bizarrices) do seu mundo. O Paseo de La Historieta é tão legal e o apelo pela figura da Mafalda é tão grande que sempre há filas para se tirar foto com a estátua dela. Aos domingos, a espera pode chegar a quase uma hora e meia, duas horas. Contudo, existem outras tantas estátuas de Quino espalhadas por San Telmo. Descobri-las durante a caminhada pelo bairro é um dos programas turísticos de que mais gosto em Buenos Aires – e que não me canso de realizar. Façam o Paseo de La Historieta. Tenho certeza de que vocês vão curtir.


Como falei, San Telmo é mais turística do que Retiro, San Nicolás e Monserrat. Dessa forma, não costumo ir comer por lá. Talvez o único de seus restaurantes que eu tenha frequentado no passado distante é o La Brigada, minha parrilla favorita na cidade quando morei na Argentina pela primeira vez, entre 2004 e 2005. Nos últimos anos, voltei lá mais duas ou três vezes e confesso que não achei grande coisa. Teria meu paladar se desenvolvido ou será que deixei de encarar a gastronomia local como um turista?! Não sei. Ainda assim, acho que não voltarei tão cedo ao La Brigada.


O que gosto pra valer de San Telmo é de seus barzinhos e cafés, um dos mais charmosos da cidade. Se estou com uma galera animada (geralmente de brasileiros), escolho qualquer bar e ficamos de bate papo por horas. Nos passeios a dois, a escolha recai sobre os cafés, que potencializam o clima romântico, principalmente no inverno. Quem descreveu essa atmosfera com perfeição foi Fernando Scheller em seu romance de estreia. O protagonista de “Amor Segundo Buenos Aires” (HarperCollins) adorava ir às cafeterias de San Telmo com a namorada. Impossível não reconhecer seu bom gosto.


O único bairro do Microcentro que não tenho capacidade para comentar com tanta propriedade é o Constitución. Só fui lá duas ou três vezes para pegar trem na Estación Plaza Constitución. Como fui de ônibus direto de casa até a estação e, depois, da estação até minha casa, não coloquei os pés em suas ruas. Assim, não consigo dizer exatamente como ele é em termos de segurança, qualidade de vida e atrações artístico-gastronômicas.


O que escutei dos portenhos é que a área perto da Faculdade de Ciências Sociais da UBA (Universidade de Buenos Aires) é até razoável para caminhar e morar. Isso é, se você não liga para poluição, barulho e pouca área verde à disposição. Essa região lembra bastante a vizinha Monserrat. No caso, a pessoa atravessa os dois bairros e não percebe a mudança de zona administrativa.


Contudo, ao cruzar a Autopista 25 de Mayo (não confundir com a Avenida de Mayo nem com a Autopista que liga o Centro à Zona Norte), o lance fica mais sinistro. Chega a ser mais perigoso caminhar por essa parte de Constitución, principalmente no entorno da Plaza Constitución, do que pela primeira área do Retiro, que comentei há pouco. Isso tanto de dia quanto de noite. No caso, quando o sol se põe, nem pensem em ir ou estar nesse canto da cidade, por favor! Como informei, nunca fui para lá para explorar a região. Só estou reproduzindo o que me disseram. Na dúvida, não quis comprovar se tais temores eram justificados ou apenas fruto de preconceito alheio.


Por fim, encerremos nosso passeio por Puerto Madero, a região mais nobre do Centro da cidade e de toda a Capital Federal da República da Argentina. Já ouvi até dizer que seu metro quadrado é o mais caro da América Latina. Será que essa informação é verdadeira ou seria consequência de mais um exagero tipicamente portenho?! Juro que não sei. O que posso garantir é que só milionário vive nos prédios altos, modernos e gigantescos deste bairro de Buenos Aires. As companhias mais renomadas do país e do mundo, como bancos, financeiras, petrolíferas (beijo, Ana María) e indústrias varejistas, também têm suas sedes em escritórios corporativos de tirar o fôlego nessa região da cidade.  


Na Parte II da crônica Passeio por Buenos Aires, novo texto da série não ficcional Tempos Portenhos, Ricardo Bonacorci apresenta em detalhes os bairros das zonas Central, Sul e Oeste da capital argentina e algumas cidades da região metropolitana

Puerto Madero é a prova concreta de que áreas urbanas de grandes metrópoles podem se reinventar. Localizado às margens do Rio da Prata, o bairro nasceu no final do século XIX como um porto comercial. Ele foi idealizado pelo empresário Eduardo Madero – daí o nome desta zona e a nomeação da avenida que a corta. Entretanto, o rápido crescimento de Buenos Aires inviabilizou em poucos anos o comércio marítimo daquela região. Era necessário um porto mais caudaloso que comportasse embarcações maiores. E com a inauguração de um novo e moderno local com tais características no início do século XX, Puerto Madero ficou escanteado. Seus antigos diques, armazéns e galpões perderam totalmente a função original e mergulharam em um longo período de decadência.


Durante décadas, o bairro permaneceu abandonado. Em plena área central de Buenos Aires, o antigo porto transformou-se em um território com depósitos vazios, terrenos ociosos e infraestrutura degradada. Diversos projetos de revitalização foram discutidos ao longo da segunda metade do século XX, mas nenhum saiu efetivamente do papel. Isso até 1989, quando foi implementada uma das operações de renovação urbana mais bem-sucedidas da América Latina.


A partir dos anos 1990, os antigos armazéns de tijolos vermelhos foram restaurados, novas avenidas foram abertas e uma sucessão de investimentos privados mudaram a paisagem de Puerto Madero. Torres residenciais de altíssimo padrão, hotéis de luxo, escritórios corporativos, restaurantes sofisticados e obras arquitetônicas emblemáticas, como a famosa Puente de la Mujer, transformaram o bairro em queridinho dos turistas, dos ricaços e das empresas financeiras. Assim, essa região tornou-se o símbolo de uma Buenos Aires moderna, combinando patrimônio histórico e arquitetura contemporânea.


Hoje, Puerto Madero não é apenas o bairro mais novo da capital argentina. É uma região sinônimo de exclusividade, luxo e prestígio. Se falei que os ricos vivem nas mansões e nos condomínios fechados das cidades da Zona Norte da Região Metropolitana de Buenos Aires (parte I desta crônica), preciso agora fazer uma complementação. Eles também moram em gigantescos e cinematográficos edifícios no antigo cais da cidade. Os charmes dessas construções são a vista para o Rio da Prata e o acesso à Reserva Ecológica Costanera Sur, a maior área verde da cidade – maior até mesmo do que os intermináveis Bosques de Palermo. Isso sem contar os vários restaurantes e as casas noturnas de altíssimo padrão.


Se vocês não são milionários (ponham o dedo aqui que já vai fechar!), esqueçam a ideia de alugar ou comprar um imóvel nesse canto da cidade. Juro que não conheço ninguém que viva neste bairro. O legal é passear pelo calçadão reformado das antigas docas. Dá para visitar, por exemplo, a Fragata Sarmiento, um museu naval, atravessar a Puente de la Mujer, tentando ver um casal dançando, e conferir o Cassino de Puerto Madero, situado em um navio. Claro que também é divertido ir à Reserva Ecológica Costanera Sur, conferir as atrações do cassino ou ficar observando os prédios suntuosos desta zona. Se o lance é comer e beber, escolham a dedo um restaurante ou um bar que não arranquem seus olhos. Gosto bastante do Siga La Vaca, parrilla ao estilo menu libre (rodízio) que tinha excelente preço quando me mudei para a Argentina em 2023, e do Negroni Bistro & Sushi Bar, que possui promoções para drinks em alguns dias da semana.


Ainda assim, saiba que Puerto Madero é um lugar exclusivamente para turistas (ou de executivos de multinacionais que vão para os escritórios). Daí seus preços elevados. Sempre que sinto saudades de ouvir o pessoal falando português (algo raríssimo em Saavedra, bairro em que moro), vou caminhar pelo calçadão do antigo porto. Aí me canso de ouvir sotaques de brasileiros do país inteiro. Portanto, se você está turistando por Buenos Aires, acho que é interessante conhecer essa região. Mas se você for um morador da capital argentina de longa data, certamente não irá para esse pedaço da cidade com tanta frequência. Não me recordo de nenhum portenho que curta fazer programas de lazer e de entretenimento pelo bairro mais nobre da cidade.


Assim, acredito ter encerrado el recorrido pelo Microcentro de CABA, senhoras e senhores.


2) Outras regiões centrais de CABA (Balvanera e San Cristóbal - Comuna 3) com propostas menos turísticas e mais comerciais.


Se para os portenhos o Microcentro reúne apenas Constitución, Monserrat, Puerto Madero, Retiro, San Nicolás e San Telmo, é preciso esclarecer que a região central de Buenos Aires abriga informalmente mais dois bairros: Balvanera e San Cristóbal. A diferença é que esses pedaços do Centrão são menos turísticos e mais comerciais. Esqueçam, portanto, os turistas gringos perambulando pelas ruas e as atrações históricas. O lance na Comuna 3 (divisão administrativa que reúne essas duas zonas) é a multidão de moradores de todos os cantos da cidade com necessidades cotidianas de consumo, o que confere um colorido e um burburinho particular a esta área.


Balvanera nasceu em torno da Paróquia de Nuestra Señora de Balvanera. O bairro cresceu principalmente entre o final do século XIX e o início do século XX, graças às sucessivas ondas imigratórias de italianos, judeus, árabes, armênios e espanhóis. Mais recentemente, foram paraguaios, bolivianos e venezuelanos que se integraram naturalmente ao dinâmico comércio local, dando uma maior diversidade cultural à região. Ainda hoje, caminhar pelas ruas de Balvanera significa interagir com comerciantes de várias nacionalidades, muitos deles atuando no comércio informal.


Na nova narrativa de Tempos Portenhos, coletânea textual da coluna Contos & Crônicas, Ricardo Bonacorci apresenta a segunda parte de Passeio por Buenos Aires, relato pessoal de como é agradável e tranquilo viver ou fazer turismo pelas diferentes áreas da capital argentina

A região do Once, em torno da estação ferroviária homônima, é uma espécie de 25 de Março de Buenos Aires. Ou deveria dizer que é a versão portenha do Brás, hein? Talvez o mais correto seja falar que esse bairro informal (está oficialmente dentro de Balvanera) é a união dos dois populares centros de compras paulistanos. O fato é que essa parte do município argentino reúne a nata do comércio popular de rua da cidade. Sempre que quero comprar coisas para casa, não penso duas vezes: corro para o Once. É tanta gente comprando no atacado e no varejo que é preciso organização por parte do consumidor. Portanto, planejem-se para ir para lá, adotando os cuidados básicos de segurança para circular numa região com milhares de pessoas.


É no Once que fica o Abasto Shopping, um dos maiores e mais populares centros de compras da capital da Argentina. Ele foi montado onde era o antigo Mercado de Abasto, imponente construção onde se vendia frutas e vegetais entre 1893 e 1984. Após a reforma na segunda metade da década de 1990, o belo edifício, que arquitetonicamente lembra bastante o Mercado Municipal de São Paulo, virou um shopping moderno. Sua reinauguração ocorreu em 1998. Fui lá só uma vez, em um dos dias mais aleatórios e caóticos da minha nova temporada portenha. Por falar nisso, beijo, Sub-30 – que há exatamente um ano deixou de ser uma legítima Sub-30. Saudades gigantescas de você!


Abasto também é conhecido como território gardeliano. Afinal, Carlos Gardel viveu muitos anos ali antes de se tornar famoso nacional e internacionalmente. Como consequência, há até hoje fortes referências ao Tango, perceptível em bares históricos, nas milongas tradicionais e nos murais espalhados pelas ruas. É possível visualizar melhor tal adoração no Museo Casa Carlos Gardel, a residência do cantor e compositor, e na Calle Zelaya, rua pitoresca com enfeites de Tango e grafites de seu maior intérprete.   


Ainda falando da perspectiva cultural, Balvanera abriga diversos teatros independentes. Basta explicar que a Avenida Corrientes corta o bairro, né? Outros pontos que valem a visita são o Ciudad Cultural Konex, antiga fábrica transformada em centro cultural, e a Confitería del Molino, um dos cafés notáveis de Buenos Aires e que possui uma arquitetura de tirar o fôlego. O bairro também é sede do Palácio das Águas Correntes, joia arquitetônica do século XIX. O edifício é revestido por milhares de peças de cerâmica importadas da Europa e chama a atenção na paisagem urbana. Descobri o Palácio das Águas Correntes em minhas caminhadas frequentes pela região.


Quanto à gastronomia, Balvanera acompanha a variedade de povos do comércio local. Assim, há muitos restaurantes espanhóis, cantinas italianas, cozinhas judaicas, casas árabes, estabelecimentos coreanos, restaurantes japoneses e empreendimentos chineses. Também há vários locais especializados em culinária peruana, venezuelana, paraguaia e cubana. Tudo isso em meio a bodegones tradicionais, pizzarias históricas e restaurantes com comida de várias partes da Argentina. Para quem diz que Buenos Aires é só parrilla, gosto de indicar uma voltinha por Balvanera. Se há um bairro eclético em CABA, é esse, pessoal!


Por ser cortado por grandes avenidas e por possuir várias linhas de metrô, a sensação é que Balvanera está sempre movimentada e agitada. Daí a maior sensação de segurança que sinto ao percorrer suas ruas – apesar do povo local não compartilhar dessa minha opinião. Ando tranquilamente por seus centros comerciais e seus estabelecimentos gastronômicos. Admito que nunca tive um problema sequer nessa zona. De qualquer maneira, vale o alerta para todos ficarem ligados. Em qualquer área central de uma metrópole, ojo!


Ao sul de Balvanera surge San Cristóbal, um bairro menos conhecido pelos estrangeiros e ainda menos turístico. Oficializado em 1869, ele desenvolveu-se rapidamente durante o processo de modernização da capital argentina e se tornou um espaço de convivência entre as antigas famílias portenhas e a numerosa comunidade de imigrantes. A localização estratégica, entre o Centro Histórico e os bairros operários do Sul da cidade, moldou seu caráter de importante corredor de circulação de pessoas, mercadorias e ideias. Daí sua veia comercial – e semelhança com Balvanera. O histórico Mercado San Cristóbal, inaugurado em 1885 e ainda em funcionamento, simboliza a vocação mercantil que acompanha o bairro há mais de um século.


Embora possua menos atrações turísticas famosas do que seus vizinhos, San Cristóbal preserva uma atmosfera genuinamente portenha. Suas avenidas largas, edifícios de diferentes épocas e delicados cafés de esquina permitem observar uma Buenos Aires distante dos cartões-postais. O bairro também possui forte ligação com a história do tango e com a cultura popular da cidade, tendo sido palco do crescimento de diversas associações culturais e esportivas ao longo do século XX. A Plaza Martín Fierro, um dos poucos espaços verdes da região, funciona como ponto de encontro para moradores e visitantes, principalmente no fim de tarde e aos finais de semana. Se não estiver enganado, aos domingos tem uma feirinha animada ali.


As atrações do Microcentro e das zonas Sul e Oeste da capital da Argentina são retratadas na segunda parte de Passeio por Buenos Aires, a nova crônica de Tempos Portenhos, atual série narrativa da coluna Contos & Crônicas

Se Puerto Madero representa o luxo contemporâneo, Palermo a sofisticação cosmopolita e San Nicolás as sedes do poder da Argentina, Balvanera e San Cristóbal revelam outra face de Buenos Aires: a da mistura de povos, a vocação comercial das ruas populares, o charme dos cafés históricos, os mercados/shoppings tradicionais e a cultura do Tango. Apesar de estarem um pouquinho distantes da Avenida 9 de Julio, do Obelisco e das atrações históricas da capital, esses bairros são, ao menos na minha visão, pertencentes à região Central da cidade. Ou vai me dizer que não nos sentimos no Centrão diante dessa overdose multicultural de povos, produtos e sabores, hein?!


3) Recoleta (Comuna 2) é um dos bairros que melhor representam a sofisticação de CABA.


Tratemos, neste momento, da Recoleta, um dos bairros mais icônicos de Buenos Aires. É impossível investigar em detalhes a capital da Argentina em um post de “Tempos Portenhos” e não investir várias linhas nesta charmosíssima região. As ruas chiques, as atrações culturais, a arquitetura europeia, as praças elegantes, a gastronomia renomada e os imóveis de altíssimo padrão são suas marcas atemporais. Por sua grande dimensão (é o décimo maior bairro da cidade em extensão territorial) e por sua importância (possui um dos metros quadrados mais valorizados de CABA), a Recoleta constitui sozinha a Comuna 2.


A localização privilegiada é um dos fatores que explicam seu prestígio histórico e sua valorização imobiliária. Ela está entre o exuberante Palermo (ao Norte e ao Oeste), o agitado Microcentro (ao Leste) e a frenética Balvanera (ao Sul). Ou seja, em termos geográficos, é o melhor dos mundos. Dá para ir a pé ou mesmo de transporte público (não faltam opções de linhas de ônibus e metrô) para os parques e os restaurantes mais badalados da Zona Norte, para as instituições públicas do Centrão e para o comércio popular do Once e de Abasto. Se bem que duvido que os moradores endinheirados da Recoleta encarem transporte público ou vão até as ruas superlotadas de Balvanera para comprar produtos baratos de camelô, né?


Para muitos urbanistas argentinos, a Recoleta é o coração da Buenos Aires elegante, elitizada e historicamente rica. Difícil não concordar com essa visão. Ela funciona como elo entre a cidade histórica (representada pelo Microcentro) e os bairros modernos que cresceram em direção ao Norte. Ao mesmo tempo, serve de ligação entre o passado dourado da cidade e do país (século XIX) e os difíceis tempos atuais (século XXI).


Pela quantidade de atrações que o próprio bairro possui, muita gente acaba preferindo ficar nele ao invés de sair para explorar outras regiões da metrópole portenha. Por que abandonar esse oásis de áreas verdes, comércio elegante, monumentos históricos, boa gastronomia e arquitetura sofisticada, hein? Poucas áreas sintetizam com tanta eficiência a imagem que Buenos Aires gosta de projetar para o mundo quanto a Recoleta. Não por acaso, ela costuma ser comparada aos setores mais nobres e sofisticados de Paris e Madrid, o que enche os argentinos de orgulho.


Aí está um ponto interessante para os brasileiros que vão passear ou morar em Buenos Aires. Por ser cara e ter prédios muito antigos, a Recoleta não é a melhor opção para quem deseja alugar ou comprar um imóvel. Pelo menos esta é a minha opinião. Há várias alternativas com melhores custos-benefícios em outras partes da cidade. Contudo, para os turistas que vão ficar poucos dias na capital hermana, aí, sim, vale a pena investir num hotel, hostel ou Airbnb neste bairro. Quase sempre, eles não são muito mais caros do que os encontrados em Palermo e no Microcentro, por exemplo. E a posição privilegiada (que permite o deslocamento fácil até as principais atrações turísticas da cidade) e a enorme segurança (estamos falando de um dos bairros mais tranquilos da metrópole argentina) compensam o valor extra pago na estadia.


A origem da Recoleta remonta ao início do século XVIII, quando religiosos montaram suas congregações ali, com a construção de conventos e igrejas. Porém, por muito tempo, o bairro permaneceu relativamente isolado do Centro da cidade e da área portuária – onde tudo acontecia. Basicamente, esta zona era constituída por grandes chácaras e propriedades rurais. Era, portanto, um pedaço da capital argentina com baixíssima densidade populacional e jeitão de povoado do interior.  


A transformação da Recoleta começou na segunda metade do século XIX, quando uma epidemia de febre amarela atingiu os bairros portuários (inclusive San Telmo). Assim, as famílias ricas buscaram áreas mais altas e saudáveis para morar, iniciando o deslocamento para o Norte de Buenos Aires. A Recoleta tornou-se o destino preferido da aristocracia local justamente no período de maior prosperidade econômica do país. É bom lembrar que na virada do século XIX para o século XX, a Argentina era uma das nações mais ricas do mundo.


Ricardo Bonacorci relata, em Passeio por Buenos Aires – Parte II, novo texto da coluna Contos & Crônicas, como os brasileiros enxergam as atrações dos bairros do Centro, da Zona Sul e da Zona Oeste da capital argentina

Inspirando-se no modelo urbanístico e arquitetônico de Paris, então referência mundial em bom gosto e sofisticação, a elite argentina moldou seu novo bairro e seus novos imóveis à semelhança da capital francesa. Em outras palavras, não é mera coincidência a sensação de estarmos na Europa ao caminhar pela Recoleta. As construções vão do neoclássico ao art nouveau e as ruas são repletas de grandes avenidas e praças com muito lazer e espaços verdes.


O principal símbolo da região é o famoso Cemitério da Recoleta. Inaugurado em 1822, ele é o lar eterno de figuras emblemáticas da política do país. Se o Cemitério de Chacarita, como vimos no post “Passeio por Buenos Aires – Parte I”, abriga nomes conhecidos do Tango e da cena artística, a Recoleta é morada de presidentes e militares históricos, além de escritores e esportistas. Eva Perón, ex-primeira-dama da Argentina, e Domingo Faustino Sarmiento, ex-presidente conhecido como o "pai da educação pública", são as personalidades mais visitadas. Curiosamente, a entrada no cemitério é gratuita para os argentinos (e para os residentes com DNI – Documento Nacional de Identidad), mas é cobrada dos gringos. Pagar para entrar num cemitério?! Sim. Sejam bem-vindos a Baires!


Confesso que prefiro outros programas (menos fúnebres) no bairro. Por exemplo, acho muito mais legal visitar a Floralis Genérica, uma escultura metálica que simula o visual e a dinâmica de uma flor – abria automaticamente as pétalas com o aparecimento do sol e fechava as pétalas com a chegada da noite. Localizada na Plaza de Las Naciones Unidas, na Avenida Presidente Figueroa Alcorta, a Floralis Genérica ainda é bonita, apesar da nítida deterioração. Durante muitos anos, ela não realizava plenamente os movimentos automáticos de abertura e de fechamento, o que diminuía a graça da atração. No fim de 2023, para piorar o quadro, um pedaço da estrutura externa foi danificado por causa de uma forte tormenta. Após restaurações recentes, uma parcela do seu funcionamento e o seu visual foram recuperados, embora a escultura ainda apresente sinais do desgaste acumulado ao longo do tempo. O mais legal é que a escultura está numa praça incrível, em um espelho de água instagramável e com bastante árvores ao redor.


Por falar nisso, não faltam ótimas áreas verdes na Recoleta. Talvez a mais famosa seja a Praça Intendente Alvear. Ela está num grande terreno em declive, algo raro em Buenos Aires. Os visitantes adoram se sentar no seu gramado para descansar, ler, namorar, tomar mate, brincar com crianças e cachorros e fazer piquenique. Aos finais de semana, o local recebe uma das feirinhas de artesanato mais conhecidas do Distrito Federal. A Praça Francia, a Praça Mitre, a Praça Vicente López e a Praça Rodriguez Peña também são incríveis. Diferentemente de Palermo, que é constituída essencialmente por gigantescos parques, a Recoleta é formada por praças de tamanhos generosos. 


Para quem gosta de rolês culturais, as opções são: o El Ateneo da Avenida Santa Fé, uma das livrarias mais suntuosas da América Latina; o Museu Nacional de Bellas Artes, a instituição com a maior coleção de obras de arte do país; a Biblioteca Nacional, que além do elegante edifício oferece um mirante com belíssima vista; e o Centro Cultural Recoleta, com várias salas de exposições, teatro, cinema e auditório.


Então, a Recoleta é um bairro essencialmente turístico, Ricardo? Essa é uma boa pergunta, queridos leitores do Bonas Histórias. Na minha humilde ótica, fico inclinado a respondê-la com uma sonora negativa. A essência dessa zona é a sua pegada residencial – o apelo turístico é apenas uma consequência. Os edifícios de tamanho mediano e grudados uns nos outros, ao melhor estilo da arquitetura europeia, possuem fachada ativa, o que permite um comércio bastante vigoroso no térreo das edificações, principalmente em se tratando de gastronomia. Como consequência, suas ruas são movimentadas e perfeitas para caminhadas de dia e de noite. Juntamente com a área verde impecável e a ótima localização no mapa metropolitano, como já discutimos, temos o melhor dos cenários para um bairro residencial.  


Eu vou muito para a Recoleta? Admito que não. Isso não quer dizer que o bairro não seja agradável e interessante, principalmente para os turistas de primeira viagem. Vou para aqueles lados quando desejo visitar algum restaurante ou bar específico. É ali que ficam, por exemplo, o Locos X El Fútbol, um dos locais mais legais de Buenos Aires para assistir às partidas de futebol, e o El Sanjuanino, tradicional bodegón que serve empanadas incríveis. Antes do Juan Valdez, principal rede de cafés colombianos, abrir uma gigantesca unidade em Núñez, tinha que ir à Avenida General Las Heras para provar suas delícias.


Por outro lado, nunca fui ao La Biela, tradicional café no calçadão hiper charmoso da Presidente Roberto M. Ortiz. Por falar neste calçadão com ares românticos em frente ao cemitério, a vontade é de entrar em todos os seus restaurantes, pizzarias e cafeterias. Para tal, basta estar com os bolsos fartos de dinheiro para encarar as contas depois, geralmente bem salgadas. De qualquer maneira, reconheço que se trata de um excelente passeio, principalmente à noite e aos finais de semana, quando o lugar fica bem movimentado. Se vocês estiverem bem acompanhados e o friozinho portenho ajudar, o rolê ganha atmosfera romântica.


Passeio por Buenos Aires – Parte II, nova crônica do Bonas Histórias, apresenta os detalhes dos bairros centrais (Microcentro) e das zonas Sul e Oeste da capital argentina, além de algumas das principais cidades da região metropolitana

Isso é tudo o que sei sobre este bairro. Apesar de ele não estar entre as áreas que mais visito na cidade, sei reconhecer seus encantos.


4) Os cuidados necessários para se explorar os bairros da Zona Sul (Barracas, La Boca, Nueva Pompeya e Parque Patricios – Comuna 4): 


Deixemos a Zona Central e a sofisticação da Recoleta e rumemos para a Zona Sul de Buenos Aires, galerinha animada da coluna Contos & Crônicas. E o que eu conheço realmente da Comuna 4, que reúne os bairros de Barracas, La Boca, Nueva Pompeya e Parque Patricios, hein? Desculpe-me decepcioná-los (mais uma vez), mas não conheço nada desta área. Ou melhor dizendo, quase nada! Talvez as únicas exceções sejam algumas visitas ao Caminito, pedaço mais turístico de La Boca, e à La Bombonera, passeio imperdível para os amantes do futebol.


Mas por que será que não vou para a Zona Sul? O primeiro motivo é meramente geográfico. Como moro no extremo da Zona Norte, ir para a região mais astral da capital argentina é bastante demorado. Se da minha casa na Avenida García del Río até o Centrão de CABA leva entre 40 minutos (usando o metrô) e uma hora (de ônibus) por transporte público, quanto tempo levaria para ir, por exemplo, até La Boca, o primeiro bairro sulino? Talvez uma hora e meia (sem trânsito) ou duas horas e pouco (com trânsito). Nesse intervalo de tempo, a título de comparação, eu caminho (eu disse caminho!) até San Isidro, que oferece muito mais atrativos para o meu gosto.


O segundo fator é a falta de atrações gastronômicas, culturais, esportivas e de entretenimento mais óbvias neste canto da cidade. Novamente, a exceção é La Boca. Pelo menos eu, um imigrante brasileiro de quarenta e poucos anos, não conheço nenhum programa para se fazer ali. Pode ser falta de conhecimento da minha parte? Pode. Mas pode haver menor atratividade artística e gastronômica nessa região? Também pode.  


Barracas é um bairro residencial às margens do Riachuelo, um dos rios mais poluídos do mundo (segundo o DataArgentinosExagerados). Por muitos anos, essa região abrigou indústrias e galpões, além de casas humildes de operários imigrantes que trabalhavam no parque industrial local. Com a desindustrialização do país em meados do século XX, os grandes terrenos deram espaço para os edifícios residenciais de altura mediana. Como decoração de muros e edificações, surgiram grafites e mais grafites, uma das marcas dessa área da cidade.


Nueva Pompeya tem origem e desenvolvimento parecidos com os de Barracas, sendo local de moradia da massa trabalhadora da capital. É comum as citações deste bairro nas letras de Tango, em poemas e em produções audiovisuais. Homero Manzi, um dos maiores compositores da música argentina, vivia evocando as ruas, as esquinas e as paisagens de Nueva Pompeya em suas criações. Por não ter mudado muito nas últimas décadas, o bairro mantém a aura antiga, com cafés, clubes de bairro e construções históricas, o que confere forte identidade cultural.


Parque Patricios tem esse nome em função da enorme área verde homônima que oferece lazer, esportes e contato com a natureza aos seus moradores. Sua história começou parecida com Barracas, com zonas industriais, de matadouros e depósitos. Ao lado dos galpões, ficavam as zonas de moradia da classe trabalhadora. Porém, seu desenvolvimento foi mais notável do que nas áreas vizinhas. Nos últimos anos, um importante polo de inovação tecnológica atraiu várias startups, centros de pesquisa e empresas de tecnologia. A chegada de profissionais mais qualificados combinou com a modernização de antigos edifícios industriais, convertidos em usos residenciais para a classe média e para os jovens. Por isso, Parque Patricios é disparadamente o bairro com melhor qualidade de vida da zona Sul – o que, ainda assim, não quer dizer muita coisa.


Por fim, La Boca é a parte da Zona Sul mais turística e reconhecida pelos estrangeiros. Tudo graças à sua identidade cultural própria, marcada pelas casas coloridas, pelo espírito popular e festivo de sua gente, pela forte ligação com o porto e com a rica história futebolística. Basta dizer que foi ali que surgiram tanto o Boca Juniors quanto o River Plate, os dois maiores times do país. Poucos estrangeiros sabem, mas Los Millonarios nasceram em La Boca e depois se mudaram para o Norte da cidade.


Neste relato de suas experiências como morador de Buenos Aires, intitulado Passeio por Buenos Aires, Ricardo Bonacorci apresenta os pormenores de cada uma das áreas da capital da Argentina

Este bairro sulino foi fundado por imigrantes italianos pobres que vinham principalmente de Gênova. Eles faziam suas moradias com chapas metálicas e as pintavam com as sobras das tintas utilizadas nos navios. Com o tempo, essas características conferiram um caráter simplório, original e divertido à paisagem residencial do lugar.


O principal cartão-postal desta região é o Caminito, a zona totalmente turística de La Boca. É possível ver ali construções metálicas coloridas erguidas pelos antigos imigrantes italianos numa área que ocupava o antigo traçado ferroviário do bairro. O cenário é, atualmente, complementado por artistas, dançarinos de Tango e artesãos que oferecem seus produtos e serviços aos milhares de visitantes do mundo inteiro. Há também boas opções gastronômicas, mas com preços inflacionados, como tudo o que é voltado para os turistas gringos.


E, como não poderia deixar de citar, é nesta área que está a lendária La Bombonera, a mítica casa do Boca Juniors. Templo do futebol sul-americano (e quiçá mundial), la cancha de Boca é um passeio obrigatório para os amantes do principal esporte do planeta. Por mais apertadas e desconfortáveis que sejam suas arquibancadas, é um charme assistir aos jogos ali. Ainda mais cantando a plenos pulmões: “Y dale alegría, alegría a mi corazón/Lo único que te pido ganemos hoy/La Copa Libertadores es mi obsesión/Tenés que dejar el alma y el corazón/Ya vas a ver/ No somos como los putos de River Plate”.


Tirando o fato de que é muito legal visitar o Caminito e que é divertidíssimo conferir as partidas do Boca em La Bombonera, o que há de mais interessante na Comuna 4 para um brasileiro que vive em Buenos Aires há alguns anos, hein? Juro que não sei. Por isso, relatei a cinco parágrafos atrás o meu enorme desconhecimento em relação aos seus atrativos. Se alguém conhecer bons programas artístico-culturais ou gastronômicos nesta parte da cidade, por favor, me avise. Infelizmente, estou familiarizado apenas com os eventos futebolísticos desta zona. Além do Boca de La Boca, temos o Huracán (um dos rivais do Platense) de Parque Patricios, o Deportivo Riestra de Nueva Pompeya e o Barracas Central de Barracas, todos na primeira divisão.


O terceiro fator que me faz visitar pouco a Zona Sul é sua fama de apresentar índices de criminalidade mais elevados do que os observados em boa parte da Zona Norte. Essa percepção aparece com frequência tanto nas conversas entre moradores quanto em alguns levantamentos estatísticos divulgados pela prefeitura. Vamos combinar que não troquei São Paulo por Buenos Aires para ficar outra vez sujeito à violência urbana, né?! Assim, evito ir para esta área.


Sabendo disso, tomem cuidado, por favor, quando vocês forem ao Caminito ou a La Bombonera. A região mais turística de La Boca é até de boa para ir durante o dia (das 10 horas até às 16 horas). Por outro lado, evitem caminhar por ali ao entardecer ou mesmo à noite. Também não saiam em hipótese nenhuma do circuito turístico tradicional, o quadrilátero formado pela curvinha à beira-rio, por la cancha bostera, pela Plaza Matheus e pela Avenida Almirante Brown. Nem vão aos setores dos estádios destinados aos barra-bravas, PELO AMOR DE DEUS! A pior ideia que alguém pode ter é explorar La Boca, assim como Barracas e Nueva Pompeya, a pé ou de transporte público – algo supertranquilo de ser feito na Zona Norte. Não! Definitivamente, a Zona Sul não é para amadores nem para turistas.


A combinação desses três fatores (a distância da minha casa, o desconhecimento de atrações culturais, gastronômicas e de lazer interessantes e o alto índice de violência) me faz ir pouquíssimas vezes para essa parte de CABA. Acho que a última vez que rumei para lá foi, em maio de 2025, num jogo do Huracán. O El Palacio, a casa do El Globo, vale a menção, é um dos poucos estádios de futebol na América do Sul com arquitetura com estilo Art Déco. Antes disso, no fim de 2024, fui ao Caminito com a Bruxinha, minha melhor amiga que veio me visitar naquele Réveillon. Por mais que alertasse a teimosa brasileira de que havia outros programas mais legais (e seguros) para fazermos em Buenos Aires, ela insistiu para irmos a La Boca. E aí, como bom anfitrião que sou, a levei. Fazer o quê?


Para os turistas, até acho o Caminito um rolê bem legal, quando feito com o devido cuidado e segurança, claro. Já em La Bombonera, não vou faz muuuito tempo. Depois que os ingressos passaram a se esgotar rapidamente com as compras online dos sócios do clube, nunca mais consegui ir. A dificuldade é parecida com a venda de entradas no Monumental de Núñez, que ficam apenas nas mãos dos sócios do River. Em outras palavras, tornou-se impossível assistir partidas no campo dos dois principais clubes da Argentina. É uma pena!


Passeio por Buenos Aires – Parte II, nova crônica de Tempos Portenhos, apresenta como é para um migrante brasileiro viver na capital da Argentina, cidade com bairros, zonas e regiões bastante distintos entre si

Como disse, diferentemente da Zona Norte e do Microcentro, a Zona Sul é a parte de Buenos Aires que menos frequento. Portanto, minhas impressões aqui são mais limitadas e se baseiam tanto nas poucas visitas que fiz quanto nas conversas que tive com moradores da cidade. Justamente por isso, sinto que tenho uma dívida com a Comuna 4. Quem sabe, nos próximos anos, eu não tome coragem e explore algumas áreas de Barracas, Nueva Pompeya e, principalmente, Parque Patricios com a devida atenção, hein?!


5) As melhores atrações da Zona Oeste portenha (Almagro e Boedo, na Comuna 5, Caballito, na Comuna 6, e Flores e Parque Chacabuco, na Comuna 7).


Se não frequento tanto a Zona Sul de Buenos Aires, como acabei de explicar, admito que não sofro deste mal quando o assunto é a Zona Oeste portenha. Se tem uma região da cidade em que adoro bater perna é a extensa área formada pela Comuna 5 (que abrange os bairros de Almagro e Boedo), Comuna 6 (Caballito) e Comuna 7 (Flores e Chacabuco). Curiosamente, cada uma dessas três localidades reserva atrativos que me fazem visitá-las com relativa assiduidade, com enorme empolgação e por motivações distintas. E o mais legal de tudo: sem qualquer preocupação com a segurança. Estamos novamente em ruas tranquilas da maior metrópole argentina, senhoras e senhores.


Almagro e Boedo são, para mim, sinônimos de boemia e Tango (além de remeter às lembranças da professorinha gatinha de Santa Catarina!). Afinal, quase sempre rumo para lá à noite e para curtir bares ou casas tangueiras. Meus lugares favoritos são El Boliche de Roberto, bar com mais de 120 anos que tem apresentações musicais diárias que começam no finalzinho de tarde, e La Catedral Club, escola de dança que oferece ao público espetáculos musicais e dançantes à noite e madrugada adentro. Gosto desses estabelecimentos porque eles são beeem alternativos. Enquanto o primeiro é um bar minúsculo e porco com excelente cantoria (nunca vá à sua cozinha nem ao seu banheiro!), o segundo é uma antiga igreja transformada em templo gótico do Tango. Se vocês têm espírito aventureiro e pouco apreço pelo conforto e pela estética mais rebuscada, acredito que também vão curti-los. Juro que ainda farei análises completas do El Boliche de Roberto e da La Catedral Club no Bonas Histórias.


Quando o meu programa por esta região não é musical, é com certeza gastronômico. Ninguém é gordinho à toa, né? A parrilla que mais frequento na Comuna 5 é a Cooperativa Alé Alé. Durante a semana, seu menu ejecutivo oferece ótimo custo-benefício para os comensais que prezam mais pela quantidade do que pela qualidade. Coloca o dedo aqui que já vai fechar...


Contudo, quando a proposta é comer bem em um lugar charmoso, aí vou direto ao El Gran Mosquito. Nesta parrilla de excelente qualidade e encantadora ambientação, há inclusive menu libre, algo que os brasileiros (e as venezuelanas charmosas deste bairro) tanto apreciam. Por 38 mil pesos por pessoa, mais ou menos R$ 130,00 no câmbio atual, come-se algumas das melhores carnes da cidade. Esse preço inclui, além das carnes e dos acompanhamentos (salada ou batata frita) à vontade, uma opção de bebida (vinho, cerveja, refrigerante ou água) e uma sobremesa. Incrível, né? E imaginar que, quando me mudei para a Argentina em 2023, o preço deste menu libre no antigo câmbio era de mais ou menos R$ 35,00. Santo Deus!!!


Outras dicas gastronômicas de Almagro e Boedo (nunca sei exatamente onde termina um e começa o outro) são o Café Cortázar e a Confeitaria Las Violetas. O primeiro é uma cafeteria-bar extremamente charmosa decorada segundo seu homenageado: Julio Cortázar. Desde que analisei os principais livros do mais maluco dos escritores argentinos no Desafio Literário, sou fã de sua literatura. Assim, não consigo passar em frente ao Café Cortázar e não dar uma paradinha.


Já a Las Violetas é para ir com tempo e bem acompanhado (beijinho, Ana María). Além de estar em um prédio de arquitetura clássica, que vale a visita por si só, tenho a impressão de que tudo nesta confeitaria é apetitoso. Ainda assim, minha preferência vai para seus chás e doces. Juro que não sei qual sabor de bebida quente e qual sobremesa é a melhor. Na dúvida, peça um dos combos que traz uma opção de cada doce. Ele dá para quatro ou cinco pessoas tranquilamente.


Há também boas pizzarias, ao melhor estilo portenho – massa grossa e muitíssimo queijo. De cabeça, me recordo da Pin Pun, na Avenida Corrientes, da Pizzería Tuñin, na Avenida Rivadavia, e da Pizzeria Imperio, na Avenida Corrientes (não confundir com a quase homônima de Chacarita). E, por supuesto, não poderiam faltar os queridos bodegones, né? O La Capitana e o Lo de Fredy não são os meus preferidões na cidade, mas oferecem uma decoração com pegada histórica que remete à política da Argentina. Como curiosidade turística é legal conhecê-los. Vá pelo menos uma vez.


Passeio por Buenos Aires – Parte II, crônica de Ricardo Bonacorci que integra a série não ficcional Tempos Portenhos, revela os aspectos positivos e negativos dos bairros centrais da capital da Argentina, assim como das zonas Sul e Oeste da cidade

Se não fosse tão apaixonado por Saavedra, juro que moraria sem problema nenhum em Almagro e Boedo. Além de muitas atrações artísticas e gastronômicas, esses bairros têm boas áreas verdes (destaques para a Plaza Almagro, o Parque de la Estación e a Plaza Mariano Boedo) e várias linhas de trem (Once/Moreno), metrô (B – Leandro N. Alem /Los Incas; E – Bolívar/Plaza de los Virreyes; e H – Facultad de Derecho/Hospitales) e ônibus. Para completar, possuem comércio pujante, inclusive à noite e de madrugada, e bons indicadores de segurança e de qualidade de vida. Falo com conhecimento de causa: nunca tive nenhum problema, mesmo perambulando à noite e de madrugada por suas vias.


Contudo, o mais legal é ver que suas ruas exibem uma mistura de edifícios residenciais de tamanho mediano com pequenas lojas, cafés e centros culturais nos térreos. É a tal fachada ativa, que os arquitetos tanto pregam como o ideal para as metrópoles dinâmicas. Confesso que acho essa característica um charme de Almagro e Boedo! Ao mesmo tempo em que, aos finais de semana e nos fins de tarde, reina um espírito familiar e tranquilo, durante os dias da semana o ritmo é agitado e intenso. Dá para fazer tudo a pé, a poucos metros de casa, sem a necessidade de pegar carro ou usar transporte público.


Não dá para terminar este texto da Comuna 5 e não citar o San Lorenzo, um dos cinco times grandes do futebol do país. El Ciclón nasceu em Almagro e cresceu em Boedo. E possui uma história linda, que se mistura com a resistência contra o autoritarismo da última ditadura militar. Na Argentina, vale a menção, foram vários os períodos ditatoriais dos milicos – uma interminável sucessão de golpes contra a democracia. Duante boa parte do século XX, o principal e maior estádio da nação foi o Gasómetro, a casa do San Lorenzo, em Boedo. Inaugurado em 1916, ele tinha capacidade para 75 mil torcedores e servia também como principal sede da Seleção Argentina. Esse campo assistiu a duas eras douradas da equipe azulgrana: na década de 1940 e na virada dos anos 1960, quando o campeonato nacional foi dominado pelos jogadores de Boedo/Almagro.


Na década de 1970, veio o maior golpe ao tradicional clube portenho. Como o San Lorenzo era contrário à perseguição e à violência aos civis praticadas pelos militares, o Gasómetro se tornou um famoso local de abrigo aos opositores do governo federal. Por vingança, os milicos fecharam o estádio, alegando problemas de segurança, o demoliram e forçaram sua venda. O Carrefour comprou o terreno e construiu no lugar um supermercado. Dá para imaginar a dor dos torcedores, né?! Apenas em 1993, um novo estádio, chamado de Nuevo Gasómetro, foi construído a quilômetros de distância do original, no bairro de Flores. Com capacidade para 45 mil lugares, ele é, na minha opinião, o mais feio de Buenos Aires.


Desde então, o maior sonho dos torcedores do San Lorenzo é comprar o antigo terreno da rede varejista francesa e erguer em Boedo um novo estádio, aos moldes do anterior. Assim, o clube voltaria para sua verdadeira casa, jogando no mítico local em que fez história. Quando soube desse acontecimento, comecei a olhar com outros olhos para o San Lorenzo, uma equipe pela qual não tinha me afeiçoado ainda. Sigo torcendo pelo Platense e tendo um carinho descomunal pelo Racing. Porém, agora, nutro certa simpatia pelo El Ciclón (e desejo de coração a reconstrução do Gasómetro).


Atravessando a Calle Rio de Janeiro ou a Avenida La Plata, chegamos à Caballito. Este bairro é tão grande (em extensão territorial, só é um pouco menor do que Almagro e Boedo juntos) que compõe sozinho uma única comuna (a de número 6). Para ser bem franco com os leitores de “Tempos Portenhos”, fui poucas vezes para lá. Em quase todas as oportunidades, o motivo foi a visita a um de seus belíssimos parques. Os melhores são o Parque Centenário e o Parque Rivadavia. Eles são mesmo incríveis e valem a visita, principalmente se você morar nas redondezas ou tiver amigos que vivam por ali. Curiosamente, acho Caballito muito parecido com Almagro e Boedo. A principal diferença é a presença de grandes e exuberantes parques, enquanto na comuna 5 há apenas praças acanhadas.


Pensando melhor agora, com exceção aos meus passeios pelo Parque Centenário e pelo Parque Rivadavia, as razões das demais idas a esta localidade foram: um protesto organizado pela comunidade brasileira na estação Río de Janeiro do metrô em março de 2024 (os protestos em Buenos Aires são programas imperdíveis independentemente da temática); e uma visita no ano passado à Faculdade de Filosofia e Letras da UBA (que fica num charmoso prédio na Calle Puán). Do contrário, passei por este bairro apenas a caminho de Almagro e Boedo.


Outra distinção que sinto é que Caballito tem uma área comercial mais forte do que os dois bairros vizinhos. Não sei explicar esse sentimento. Talvez a maior proximidade com Flores, esta sim uma área extremamente comercial, reforce tal sensação. Ainda assim, por mais que pareça mais movimentado e verticalizado do que Almagro e Boedo, Caballito também tem umas zonas com casas (geralmente sobrados) e ruas bem tranquilas. É incrível esse contraste entre o agito comercial e a calma residencial.


Na Parte II da crônica Passeio por Buenos Aires, novo texto da série não ficcional Tempos Portenhos, Ricardo Bonacorci apresenta em detalhes os bairros das zonas Central, Sul e Oeste da capital argentina e algumas cidades da região metropolitana

Confesso que fico encantado principalmente com o Barrio Inglés, área com edifícios ao estilo britânico construídos no final do século XIX. Por falar em imigração, essa zona da cidade recebeu muitas comunidades estrangeiras nos séculos passados. Por isso, há vários clubes com nomes de diferentes nacionalidades: Club Portugués e Club Italiano. Outro clube tradicional desta área é o Club Ferro Carril Oeste, que atualmente está na segunda divisão do Campeonato Argentino – competição chamada de Primeira B Nacional.


Outro destaque é que Caballito está bem no meio do mapa de Buenos Aires. Uma empresa de logística que quisesse atender igualmente todas as zonas da capital argentina certamente montaria ali seu depósito. A questão é que a metrópole portenha não é uma localidade homogênea, né? Em outras palavras, o centro geográfico não acompanha o grau de importância, a riqueza e a densidade populacional de todos os bairros do município. Nesse sentido, ainda acho a Recoleta (e talvez Balvanera) como as regiões mais privilegiadas quando analisamos as partes mais centrais de Buenos Aires. Falo isso do ponto de vista dos turistas e dos estrangeiros que buscam boas moradias e as melhores opções de lazer e entretenimento.


Ao sul de Caballito, temos a Comuna 7, que é formada por dois bairros extremamente distintos: Flores e Parque Chacabuco. Flores é uma das áreas mais comerciais da cidade, enquanto Parque Chacabuco é um oásis residencial cercado por áreas verdes. Vamos combinar que a diferença entre eles é gritante.


Sempre que penso em Flores, automaticamente me vem à mente o polo de vestuário da Avenida Avellaneda – não confundir a via da Zona Oeste com a cidade homônima, que fica na Zona Sul. É neste bairro de CABA que fica o principal centro atacadista e varejista de roupas da cidade. As lojas se estendem por vários quarteirões e apresentam excelente preço. Sempre que quero comprar roupa barata em Buenos Aires, não penso duas vezes: rumo com a cara e a coragem para Flores. Em uma comparação bem simplista, a região da Avenida Avellaneda é como o Brás em São Paulo ou o SAARA no Rio de Janeiro. Por isso, há diariamente milhares de sacoleiros e consumidores perambulando por suas ruas, o que torna o local fervilhante e caótico.


Por sua vez, o bairro de Parque Chacabuco é considerado o pulmão verde da Zona Oeste do Distrito Federal da República da Argentina. Não é preciso dizer que o bairro pega emprestado o nome de sua grande e bonita área verde, que é cortada (por cima) pela Autopista 25 de Mayo. Não é errado dizer que Chacabuco é um dos mais completos e bonitos parques da cidade, lembrando bastante os Bosques de Palermo. Sempre que fui para estes lados, admito que a ideia era dar o rolê por sua área verde.  


Outro aspecto interessante é que esta zona é constituída principalmente por casas e não prédios. Meu destaque vai para a região chamada de Cafferata, uma espécie de sub-bairro com casinhas históricas e de telhados inclinados. Para potencializar a bela arquitetura desta zona, as ruas são essencialmente de paralelepípedos, o que confere um ar de volta ao passado ou de ida aos povoados do interior. Este é um lugar incrível!


Como disse no início desta seção, sou fã deste pedacinho da Zona Oeste de Buenos Aires. Cada uma de suas comunas possui atrativos que me fazem frequentá-las com alguma regularidade.


6) As áreas de Baires que não tenho quase nenhuma familiaridade (Villa Lugano, Villa Riachuelo e Villa Soldati, na Comuna 8; Liniers, Mataderos e Parque Avellaneda, na Comuna 9; Floresta, Monte Castro, Vélez Sársfield, Versalles, Villa Luro e Villa Real, na Comuna 10; e Villa del Parque, Villa Devoto, Villa Mitre e Villa Santa Rita, na Comuna 11).


Até aqui, neste post da coluna Contos & Crônicas, só tratei de lugares da capital da Argentina que conheço pra valer. Foi assim tanto em “Passeio por Buenos Aires – Parte I”, publicação da semana retrasada, quanto em “Passeio por Buenos Aires – Parte II”, texto de hoje que está concluindo o nono episódio desta série não ficcional.


Na nova narrativa de Tempos Portenhos, coletânea textual da coluna Contos & Crônicas, Ricardo Bonacorci apresenta a segunda parte de Passeio por Buenos Aires, relato pessoal de como é agradável e tranquilo viver ou fazer turismo pelas diferentes áreas da capital argentina

Ou seja, alguns dos bairros já citados, eu frequento com grande regularidade, sendo até íntimo deles. Por exemplo, estão nessa lista: Palermo, Núñez, Belgrano, Saavedra, Coghlan, Villa Urquiza, Colegiales, Chacarita, Almagro, Retiro, San Nicolás, Monserrat, San Telmo e Puerto Madero. Em outros, vou bem de vez em quando, possuindo um conhecimento vago de suas dinâmicas e características. Integram essa nova listagem: La Boca, Nueva Pompeya, Constitución, Parque Patrícios, Agronomía, Parque Chas e Villa Ortúzar. De qualquer maneira, repare que, muito ou pouco, eu já caminhei por suas ruas e visitei alguns de seus estabelecimentos, tendo material vivencial para compartilhar.  


“Então, você conhece a metrópole portenha inteira, Ricardo?!”, um leitor ou uma leitora do Bonas Histórias mais empolgado(a), e talvez desavisado(a), poderia me questionar. Infelizmente, minha resposta é negativa. Acredito que não deva conhecer nem a metade da cidade em que vivo atualmente. Pensando agora com o devido cuidado, acho que isso é até normal. Como paulistano da Zona Oeste, confesso que fui pouquíssimas vezes para a Zona Leste da capital paulista. Nem sei como é a sua geografia nem quais são os bairros que compõem essa enorme área da minha terra natal. O mesmo princípio se aplica a Porto Alegre, São Leopoldo-RS, Varginha-MG, Campinas e Jundiaí, localidades em que vivi por certo tempo. Simplesmente, não tenho ciência do que se passa na maioria de seus territórios.


Como não sou um taxista velho de guerra e bocudo, o único tipo de pessoa que fala com a boca cheia que conhece toda a cidade em que trabalha, admito meu desconhecimento de uma parcela importante de Buenos Aires. E a grande região em que nunca ou raramente coloquei os pés é justamente a Zona Oeste, o tema deste tópico. São quatro comunas em que desconheço quase totalmente: a Comuna 8 (composta pelos bairros de Villa Lugano, Villa Riachuelo e Villa Soldati), a Comuna 9 (Liniers, Mataderos e Parque Avellaneda), a Comuna 10 (Floresta, Monte Castro, Vélez Sársfield, Versalles, Villa Luro e Villa Real) e a Comuna 11 (Villa del Parque, Villa Devoto, Villa Mitre e Villa Santa Rita).


“Isso quer dizer, Ricardo, que estas são áreas que não têm tantos atrativos nem merecem ser exploradas, né?”. Não! Não foi isso o que disse, queridos leitores de “Tempos Portenhos”. Apenas falei que não tive oportunidade de visitá-las. Não sei explicar os motivos exatos. Talvez fiquem distantes de onde moro. Ou talvez eu simplesmente nunca tenha conhecido ninguém dessas regiões que justificasse uma visita. Perceba que não há motivo ou motivos evidentes. Como diria Chicó, personagem clássica de “O Auto da Compadecida” (Nova Fronteira) de Ariano Suassuna: “Não sei. Só sei que foi assim”.


Talvez seja exagero dizer que nunca fui para as comunas 8, 9, 10 e 11. Contudo, o fato é que as visitei de forma tão pontual e rápida que não tenho embasamento para detalhar os perfis de seus bairros. Quando morei em Buenos Aires pela primeira vez, entre 2004 e 2005, vi um jogo do Vélez Sarsfield no Estádio José Amalfitani, em Versalles. O estádio é lindo (na época, era o melhor da capital argentina) e a experiência foi excelente. Porém, fui em um final de tarde e voltei à noite de táxi, conversando com amigos. Em suma, não vi absolutamente nada no caminho nem nos arredores de la cancha de El Fortín.


Uma década mais tarde, na segunda passagem como morador de CABA, almocei num sábado no El Ferroviario, parrilla pertinho do Estádio José Amalfitani, mas localizada em Liniers, na comuna vizinha. Acho que nunca comi tanto na vida quanto naquele dia. El Ferroviario é um restaurante simples, que atende principalmente a gente local. Sua principal atração é o churrasco excelente e farto. Ele trabalha no sistema de tenedor livre (ou “garfo livre”, em que se paga um preço fixo e se come à vontade). Fui e voltei de trem, mas ainda assim, não vi quase nada nos entornos da parrilla e da estação.


Mais recentemente, bati perna no Shopping Devoto, que fica no bairro homônimo, na Comuna 11. A ideia era comprar um presente numa loja que aparentemente só tinha nesse centro comercial. Fui a pé de casa, numa caminhada de cerca de duas horas. Mesmo assim, não posso afirmar que tenha conhecido efetivamente Villa Devoto. O caminho de Saavedra até lá foi essencialmente pela Villa Urquiza e Villa Pueyrredón, bairros da Comuna 12 que estou bastante familiarizado. Pelo pouco que vi de Villa Devoto, dá para dizer que é um bairro residencial tranquilo, com muitas áreas verdes e grandes residências. Gostei bastante.


Essas foram as três únicas vezes em que estive nas comunas 9, 10 e 11. Juro que não me lembro de ter ido uma vez sequer para a Comuna 8. Sei disso porque ela fica justamente no extremo da Zona Oeste, na divisa com outras três cidades metropolitanas: La Matanza, Lomas de Zamora e Lanús. Nem quando trabalhava em uma multinacional de refrigerantes, como executivo de vendas, estive por aqueles lados. E olha que, naquela época, passava o dia inteiro indo de um lado para outro na Região Metropolitana de Buenos Aires. Bons tempos!


As atrações do Microcentro e das zonas Sul e Oeste da capital da Argentina são retratadas na segunda parte de Passeio por Buenos Aires, a nova crônica de Tempos Portenhos, atual série narrativa da coluna Contos & Crônicas

Por isso, vou ficar devendo para vocês o relato de quase duas dezenas de bairros, que, em extensão, ocupam entre 25% e 30% do território do Distrito Federal da Argentina. Quem tiver informações detalhadas dessas áreas ou puder compartilhar suas experiências conosco, o espaço de comentários do blog é para isso. Por favor, deixem suas contribuições aos demais leitores do Bonas Histórias.


Como não faz sentido fingir intimidade com lugares que mal conheço, prefiro encerrar por aqui nossa passagem pela Zona Oeste. No próximo itinerário, volto a territórios mais familiares da fascinante Buenos Aires.


7) Outras cidades da Região Metropolitana (Avellaneda, Lanús, Quilmes, Lomas de Zamora, Esteban Echeverría, La Matanza e Morón) que conheci.


Já expliquei que esta é a segunda vez que moro na capital da Argentina. A primeira oportunidade foi há mais de duas décadas. Tinha 20 e poucos aninhos e trabalhava na área de vendas de uma multinacional de refrigerantes. O meu dia a dia era basicamente visitar clientes da empresa: restaurantes, bares, bodegones, parrillas, kioscos, padarias, confeitarias etc. A questão é que fui alocado na equipe que atendia a Morón, La Matanza, Esteban Echeverría, Lomas de Zamora e Lanús, cidades da Região Metropolitana de Buenos Aires. Para quem deseja se situar geograficamente, esse quinteto de municípios fica ao sul e ao oeste da metrópole argentina.


À princípio, confesso que fiquei um pouco chateado por ter que sair do Distrito Federal. Recordo-me de pensar em casa: “Que azar viajar diariamente para tão longe”. Contudo, rapidamente notei que seria uma excelente chance para perambular por uma parte da Provincia de Buenos Aires que, de outro modo, jamais conheceria com tanta profundidade. Dito e feito! Enquanto meus colegas brasileiros percorriam ruas e bairros que já estávamos cansados de visitar aos finais de semana e nas horas de lazer, eu me aventurava por zonas desacostumadas a receber estrangeiros. Aí meu desânimo inicial se transformou em empolgação genuína.


O mais hilário foi constatar o desespero da galera do RH da unidade brasileira da minha companhia quando soube que um brasileiro expatriado ainda em fase de treinamento (eu integrava a turma de trainee de vendas) iria passar o expediente no subúrbio bonaerense. Tive que ficar mais de duas horas ao telefone no escritório da sede argentina da empresa explicando para meus conterrâneos que não tinha nada demais atuar numa região menos tradicional. Eu nasci na Lapa, em São Paulo, e fui criado em Pirituba. Nunca tive qualquer receio nem preconceito com lugares mais simples e longe dos holofotes sociais. Me sentia mais em casa ali do que em Palermo, Belgrano e Recoleta, por exemplo.


Mesmo tendo tranquilizado o pessoal no Brasil, intuí que os argentinos não me deixavam sozinho quando tinha que ir para fora de CABA. Sempre havia um vendedor ou um executivo de vendas querendo me acompanhar quando rumava alegremente para Morón, La Matanza, Esteban Echeverría, Lomas de Zamora e Lanús. Será que essa marcação cerrada era mera desconfiança minha? Até pode ser coisa da minha cabeça. Só sei que acredito até hoje que tal atitude deles era, além da boa vontade natural com um gringo recém-chegado à companhia, fruto do pedido categórico dos meus colegas brasileiros para que nada de ruim me acontecesse.


A realidade é que adorei a região em que fui designado para trabalhar. Morón, La Matanza e Esteban Echeverría eram bem diferentes da região central de Buenos Aires, que eu estava habituado a percorrer. Com construções mais simples, muito mais casas do que edifícios, algumas ruas de chão batido, zonas essencialmente residenciais e cachorros por todos os lados, essas três cidades da Zona Oeste constituíam o típico subúrbio de um país latino-americano. Em algumas partes, parecia que estava no interiorzão. Em outras, percebia que estava num bairro-dormitório. De qualquer maneira, o que mais chamou minha atenção foram a simpatia das pessoas dali e os kioscos de ventana, um tipo de estabelecimento que não imaginava ser tão popular.


Em relação à simpatia dos moradores de fora da metrópole, não me canso de elogiar essa característica. Quanto mais nos afastamos dos grandes centros, mais calorosa se torna sua gente. Na Argentina não seria diferente. Enquanto os clientes do Distrito Federal eram indiferentes aos profissionais de vendas que os atendiam, na província eles adoravam prosear conosco e nos consideravam seus amigos. Foi muito legal notar essa diferença no trato. Quando percebiam que eu era brasileiro, aí o atendimento se transformava numa festa. Para não atrapalhar os vendedores e os executivos de vendas que estava acompanhando, muitas vezes preferia ficar calado. Aí ninguém percebia que eu era gringo – passava simplesmente por um cara quieto ou tímido.


No caso dos kioscos de ventana, eles demonstraram o nível de violência da região por onde eu circulava. Embora eu jamais tivesse tido qualquer problema de insegurança no subúrbio de Buenos Aires, dava para ver que a coisa ali era mais complicada do que no Distrito Federal.


Ricardo Bonacorci relata, em Passeio por Buenos Aires – Parte II, novo texto da coluna Contos & Crônicas, como os brasileiros enxergam as atrações dos bairros do Centro, da Zona Sul e da Zona Oeste da capital argentina

Kiosco é uma típica venda portenha e bonaerense que comercializa guloseimas, chocolates, alfajores, refrigerantes, água, cerveja, cigarros, pilhas, preservativos, chips para celular e todo tipo de quinquilharia. Alguns oferecem até lanches rápidos e serviços de recarga de celular e do cartão de transporte público. Enquanto em Buenos Aires os kioscos são normalmente abertos e o cliente tem acesso aos itens que vai comprar, pegando-os diretamente do balcão/estante/caixa, em Morón, La Matanza e Esteban Echeverría eles eram beeem diferentes!


Nesses municípios (e em boa parte da província), a maioria funcionava no modelo conhecido como kiosco de ventana. Nesse estabelecimento, os consumidores sequer entravam na lojinha. Eles faziam o pedido da janelinha mesmo (daí seu nome – ventana em espanhol é janela), sem precisar entrar e sem ter contato com os produtos e os funcionários do local. O atendente, geralmente o dono do kiosco ou alguém da sua família, ficava completamente fechado no lado de dentro para sua proteção. Ele recebia o pagamento e entregava a solicitação do cliente pela janelinha.


Confesso que achava muito curiosa essa dinâmica pois tinha alguns kioscos de ventana muito grandes, do tamanho de lojas de conveniência paulistanas e cariocas. Apesar de limpíssimos, bem-arrumados, impecavelmente abastecidos e com equipamentos de Merchandising de primeiro nível, eles eram, na prática, inacessíveis para quem não fosse funcionário. A clientela só podia espiar o interior pelas frestas das portas e das janelas.   


Quando questionava meus colegas argentinos do porquê daquilo, eles não entendiam meus questionamentos. Suas respostas eram sempre iguais: “Se as pessoas entrarem vão roubar tudo. Estamos numa área perigosa, Ricardo! No Brasil, não é assim?”. Juro que tinha enorme dificuldade para explicar as diferenças culturais entre os países. Na minha terra natal, andar pelas ruas da zona periférica é disparadamente mais perigoso do que caminhar por áreas idênticas na Argentina. Em compensação, as lojas brasileiras são sempre abertas para os clientes, algo que não ocorre no país vizinho. Engraçada essa distinção, né? Como explicar isso para eles? Nunca consegui.


Não coloquei Lomas de Zamora e Lanús nesse relato sobre Morón, La Matanza e Esteban Echeverría porque achei que as duas tinham características bem distintas. Lomas de Zamora é a cidade de classe média com ares cosmopolitas ao Sudoeste da capital. Suas ruas são bem arborizadas, possuem ótimas casas, geralmente sobrados, têm bons parques e abrigam comércios mais sofisticados. Há algumas universidades e escolas tradicionais, boa oferta de hospitais e serviços públicos e uma intensa vida cultural, gastronômica e esportiva. Seu centro é uma fofura tanto de dia quanto de noite. Por outro lado, há também bairros mais simples, onde a pobreza é evidente e o bicho pega pra valer. Aí notamos que estamos efetivamente fora da capital do país.


De certa maneira, Lomas de Zamora lembra um pouco os municípios ao norte de CABA, mas sem o glamour nem a pompa daquela área e com pitadas generosas de pobreza e de contraste social tipicamente latino-americano. Numa comparação simplista com São Paulo, diria que este município bonaerense é como Santo André e São Caetano do Sul, no ABC paulista. Afinal, é grande, consolidado e, majoritariamente, de classe média. Porém, tem bairros com grande pobreza e sem infraestrutura urbana básica.


Já Lanús não é nem parecido com Morón, La Matanza e Esteban Echeverría (cidades-dormitórios onde reina o bucolismo e o jeitão interiorano) nem é parecido com Lomas de Zamora (cidade de classe média com boas casas e várias atrações sofisticadas). Não sei explicar exatamente a minha impressão. Achei Lanús muito parecida com Buenos Aires. Ela é uma área bem populosa, com vários prédios residenciais de tamanho mediano, comércio intenso e zonas industrializadas. Nota-se que o perfil de seus moradores são trabalhadores de classe média. A diferença para a capital é a ausência de áreas verdes e de bons serviços para a população.


Lembro-me que pegava a Linha Roca para chegar lá. O trem saía da estação Constitución e ia em direção a La Plata. No caso, ele passa por todas as cidades que estou descrevendo (Morón, La Matanza, Esteban Echeverría, Lomas de Zamora e Lanús) e que irei descrever (Avellaneda e Quilmes) nesta subseção. Impossível não comentar a diferença de qualidade entre os trens que serviam/servem a Zona Norte e os trens que iam/vão para a Zona Sul e Oeste. Eram/São dois mundos completamente distintos. Enquanto as primeiras linhas eram/são excelentes, as segundas eram/são horríveis.


Contudo, o que mais me surpreendeu em Lanús foi a sua forte identidade cultural. Tal qual vários bairros portenhos que têm peculiaridades que enchem de orgulho seus moradores, essa cidade ao Sul de Baires possui elementos marcantes para sua gente. O time do Lanús, por exemplo, é adorado pelos lanusenses. Fundado em 1915, o Club Atlético Lanús é intitulado como o "maior clube de bairro do mundo". Vale dizer que, para muitas pessoas, Lanús é um bairro de Buenos Aires e não um município da Provincia de Buenos Aires. Nem queira discutir com os locais sobre esse assunto, tá? Outro elemento que reforçou a identidade local foi a peça teatral “Made in Lanús”, de Nelly Fernández Tiscornia. O espetáculo cênico que se passa nesta cidade se tornou um clássico nacional na segunda metade da década de 1980 e foi levado com êxito ao cinema. A partir daí, Lanús entrou no coração de grande parte dos argentinos.


Passeio por Buenos Aires – Parte II, nova crônica do Bonas Histórias, apresenta os detalhes dos bairros centrais (Microcentro) e das zonas Sul e Oeste da capital argentina, além de algumas das principais cidades da região metropolitana

Aproveitando que vivia nessa região, comecei a frequentar aos finais de semana o estádio Presidente Perón, mais conhecido como El Cilindro. A imponente casa do Racing Club fica na cidade vizinha, Avellaneda, também na Zona Sul. Por influência de um colega de trabalho, virei torcedor de La Academia. Vale recordar que estamos falando dos anos de 2004 e 2005. Hoje, sou hincha de Platense. Mas naquela época, desconhecia el Marrón e os encantos do Calamar de Saavedra. Assim, minha torcida ia exclusivamente para o Racing, que vivia péssima fase. Quando o assunto é futebol, acho que sempre gostei de sofrer.


“E o que você achou de Avellaneda, Ricardo? Gostou da cidade já que ia de vez em quando para lá?”. Acho engraçadas essas perguntas porque não tenho como respondê-las. Eu ia de carro (táxi) para El Cilindro por causa dos apelos insistentes dos meus colegas de trabalho. Quando souberam que virei hincha de Racing, viviam repetindo que a região em volta do estádio era muito perigosa e que andar por Avellaneda exigia cuidados redobrados. Inclusive, me fizeram prometer que só iria para lá de táxi, um tipo de transporte que nunca uso – não existia Uber naquela época.


Achava graça da preocupação excessiva deles. Aí os lembrava que estava batendo perna a semana inteira por Morón, La Matanza, Esteban Echeverría e Lanús. Mesmo assim, eles insistiam com cara de desespero: Avellaneda é muito mais perigosa!!! A impressão que tive é que Avellaneda era tão insegura quanto La Boca. Diante de tantos alertas, jamais tive coragem de conhecer o restante da cidade nem quis ir para lá de transporte público. O mais longe que me arrisquei a caminhar foi até a cancha de nosso maior rival, o Independiente. No caso, o estádio vermelho fica a apenas 500 metros de distância da cancha de Racing. Por esse motivo nada nobre, meu relato desta localidade acaba por aqui.  


Outro lugar dessa região que conheci pontualmente foi Quilmes. Sim, o município é homônimo à cerveja mais famosa da nação hermana. No caso, a marca de bebida é que pegou emprestado o nome da cidade. Afinal, foi ali que surgiu a cervejaria queridinha dos argentinos. O complexo industrial continua operando até hoje. Assim, Quilmes segue conhecida como a “Capital Nacional da Cerveja”. Antes que alguém me acuse de ser um adorador da cevada, aviso que minha visita ao município não foi por questões etílicas.


Há dois anos, em pleno escaldante verão portenho, fui convidado para ir a uma praia de Buenos Aires. Praia em Buenos Aires? Isso não existe, falei com a convicção de quem não acredita em unicórnios. Meus amigos insistiram que havia, sim, uma em Quilmes, cidade ao Sul de Avellaneda e Lanús. Como não conhecia essa área, fui com eles para atestar se havia realmente uma praia na Região Metropolitana de Buenos Aires. E não é que existe mesmo este unicórnio, senhoras e senhores. No caso, o unicórnio está mais para cabrito, né?


O que os meus amigos argentinos chamaram de praia é simplesmente a Costanera de Quilmes. A diferença para a área verde que visito regularmente em Vicente López é o acesso à água do Rio da Prata – algo proibido de ser feito na Zona Norte de Baires, mas aparentemente permitido na Zona Sul. Mesmo com todo mundo entrando festivamente na água, admito que não tive coragem. Ao olhar a cor do rio, entre o marrom e o cinza, fiquei temoroso. As imagens das placas em Vicente López alertando “água imprópria para banho” não saíam da minha mente. Não era a mesma água nos dois lugares, hein? Claro que sim. Então, por que em uma área era proibida a entrada no rio e na outra não? Ninguém soube me dizer.


A Costanera de Quilmes me pareceu bem divertida, mesmo sem o banho de mar (no caso, banho de rio). A alegria da criançada e a animação caótica das famílias são muito maiores ali do que na Zona Norte. Talvez se morasse mais perto, iria mais vezes para lá. Porém, como moro muito longe, nunca mais voltei. Mas ainda hoje não tenho coragem de chamar este lugar de praia. Praia? Não, não conheço nenhuma em Buenos Aires.


Dessa maneira, encerramos o Capítulo 9 – Passeio por Buenos Aires. Confesso que juntando a parte I e a parte II del recorrido por la capital de la Argentina, sinto que contei para vocês tudo o que desejava sobre como é viver e passear pela minha cidade. Daí a extensão superlativa de ambos os textos. Se por um lado fico feliz que eles pareçam completos, por outro me sinto um tanto envergonhado com o acúmulo de linhas e mais linhas. Infelizmente, cada vez mais as narrativas longas e de caráter pessoal são vistas como um artigo fora de moda pela sociedade apressada, iletrada e fã da Inteligência Artificial. Fazer o quê?


Neste relato de suas experiências como morador de Buenos Aires, intitulado Passeio por Buenos Aires, Ricardo Bonacorci apresenta os pormenores de cada uma das áreas da capital da Argentina

Para os fãs de “Tempos Portenhos” (que não se importam com os relatos quilométricos e em primeira pessoa deste humilde escriba), relembro que até o final deste ano irei publicar mais três episódios dessa série não ficcional no Bonas Histórias. No fim de junho, a coluna Contos & Crônicas trará o Episódio 10: Amores e Desamores. Na última semana de setembro, a ideia é exibir o Episódio 11: Álbum Musical da Vida em Buenos Aires. E, para encerrar os trabalhos com chave de ouro, no apagar das luzes de novembro, trarei o Episódio Conclusivo: Meu Lugar no Mundo. Assim, teremos completado o giro pela nona temporada desta seção do blog, que vem se estendendo de 2023 a 2026.  


Não percam, por favor, as próximas novidades de “Tempos Portenhos”. E até o próximo rolê por Mi Buenos Aires Querido!


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Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques, o amor incondicional aos cachorros, a paixão pela carne, a devoção pelo futebol, as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata, a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às cidades brasileiras, a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante, o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha.


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