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  • Crônicas: Tempos Portenhos – Episódio 7 – A Capital Cultural da América do Sul

    Na sétima narrativa sobre como é viver em Buenos Aires, conhecemos a riqueza e a variedade da cena artística da metrópole argentina, polo do melhor do cinema, da televisão, do teatro, da literatura, da gastronomia, da arquitetura e das artes plásticas de nosso continente . Com sua heterogeneidade, a América do Sul possui várias capitais dependendo do tema enfocado. Quando o assunto é setor financeiro e empresarial, a minha São Paulo desponta na vanguarda continental. Se olharmos para a qualidade de vida, Montevideo surge como referência absoluta. No campo da gastronomia, os olhares se voltam há muitos anos para os sabores e a criatividade de Lima. Por falar no Peru, pela perspectiva da arqueologia e da história pré-colombiana, Cuzco e Machu Picchu são inigualáveis. Se pensarmos na beleza natural e na cultura praiana, o Rio de Janeiro é o número um da região. Sob a ótica da arquitetura colonial, Quito se destaca como um destino imperdível. Barranquilla, Medelín, Bogotá e Ibagué, por sua vez, podem ser vistos como o quadrilátero musical dos sul-americanos. Já o centro político, queiramos ou não, é Brasília. É claro que essas definições são extremamente subjetivas. Qualquer pesquisa rápida pela Internet e a simples consulta às mentes mais qualificadas mostrarão outros resultados. Por isso, preciso esclarecer desde já que o conteúdo do parágrafo anterior (e de todas as demais linhas deste post do Bonas Histórias ) refere-se única e exclusivamente à minha visão (limitada e, literalmente, míope) da realidade deste pedacinho quase sempre esquecido do mundo. Estamos, em outras palavras, na estrada da opinião pessoal, senhoras e senhores. Ao invés de discordar, brigar e afrontar aquele que toma voz no debate, como é tão comum na esfera digital, talvez valha a pena ouvir (neste caso, ler) o que o amiguinho esteja falando (ou escrevendo). Vai que dessa vez, subvertendo o histórico de equívocos e a falta de bagagem cultural, ele tenha, enfim, razão (mesmo que em parte) em algo, né? Fiz essa introdução totalmente desnecessária (ou, no melhor dos casos, excessiva) só para dizer que, na minha humilde percepção, Buenos Aires , a cidade em que vivo há dois anos y de quién sigo enamorado , é a capital cultural da América do Sul . Antes que as almas mais inconformadas de meus conterrâneos canalizem em mim e em meu texto os protestos, dou as boas-vindas ao episódio 7 de “Tempos Portenhos” , a coletânea de relatos sobre como é para um brasileiro viver na capital da Argentina . Não sou ingênuo e sei o quanto a rivalidade Brasil e Argentina torna qualquer debate inteligente e sadio sobre as vantagens e as desvantagens dos dois lados da fronteira em um campo fértil para a polêmica. Prova disso ocorreu em Episódio 5 – Sentando-se à Mesa com os Argentinos  e E pisódio 6 – La Verdadera Cancha del Fútbol , publicações anteriores de “Tempos Portenhos” . Alguns compatriotas não gostaram quando disse, respectivamente, que a metrópole argentina possui pizzas melhores do que as de São Paulo e que Buenos Aires tem o futebol mais fervilhante do nosso continente. A partir das análises frias e racionais, seriam mesmo absurdos da minha parte esses apontamentos?! Sinceramente, acho que não. Tanto é que expliquei detalhadamente o meu ponto de vista. Para os desavisados de plantão e para quem chegou agora a estas páginas escondidas nos recôncavos da Internet, aviso que “Tempos Portenhos” faz parte da coluna Contos & Crônicas . Desde 2024, estou relatando como é para um brasileiro viver em CABA  – Ciudad Autónoma de Buenos Aires . Se preferir, pode chamar as margens mais caóticas do Rio da Prata de Baires  ou BsAs , outros apelidos comuns do Distrito Federal da Argentina  entre seus moradores. Ou como gostava de cantar Gustavo Cerati, estamos falando de (En) La Ciudad de la Furia . Adoro esse rock clássico dos anos 1980 do Soda Stereo.     Além das duas crônicas que citei nos parágrafos acima, cujos temas eram, respectivamente, a culinária/gastronomia argentina e o cenário esportivo-futebolístico de Buenos Aires, esta série de narrativas não ficcionais (que se estenderá até meados de 2026) já tratou: da sensação de segurança que temos ao caminhar pelas ruas e avenidas de Baires ( Episódio 1 – Distopia Paulistana ou Carioca ) ; do hábito dos portenhos de curtir os ambientes externos de sua cidade ( Episódio 2 – Vida ao Ar Livre ); da adoração local pelos animais de estimação ( Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes ); e dos desafios dos brasileiros para aprender o castelhano rio-platense ( Episódio 4 – O Espanhol Argentino ). Para o ano que vem, estão programados mais três capítulos desta que é a nona temporada de coletâneas textuais da coluna Contos e Crônicas : a imprevisibilidade da economia local (Episódio 8: A Montanha-russa Chamada Economia); as diferenças entre as regiões portenhas (Episódio 9: Passeio pelos Bairros de CABA); e a integração afetiva entre brasileiros e argentinas (Episódio 10: Amores e Desamores). Por fim, ainda publicarei um panorama geral da minha estada em tierras hermanas  (Conclusão: Meu Lugar no Mundo). Essa é a visão completa de “Tempos Portenhos” , exclusividade do Bonas Histórias . Contudo, hoje tratarei apenas da questão da riqueza e da variedade artístico-culturais de Mi Buenos Aires Querido . Para quem não pegou a referência, alerto que a intertextualidade agora foi com o clássico tangueiro de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, dupla responsável por composições célebres como “Por Una Cabeza” , “El Día que Me Quieras”, “Volver” e “Sus Ojos Se Cerraron”. Até posso ouvir os versos de “Mi Buenos Aires Querido” ecoando no ar: “ Mi Buenos Aires querido/Cuando yo te vuelva a ver/ No habrás más pena ni olvido”. Voltando ao nosso assunto do episódio 7... comparada a qualquer metrópole brasileira, a capital argentina se transforma na meca das artes e da cultura sul-americana. Para meus argumentos ficarem mais bem organizados (tenho TOC com esse negócio de arrumação), divide o novo post em seis tópicos (ou subtópicos, como preferirem). Cada uma dessas partes mostrará o quão factual é a minha tese (ao menos aos meus olhos deveras parciais). Ainda assim, por mais que acredite pra valer nessa teoria que criei, sei que ela não deixa de ser uma mera hipótese. Nesse caso, contrariando o velho ditado, digo: contra fatos, há sim argumentos! 1) Na média, o portenho é mais culto do que o brasileiro Uma cidade não pode respirar (e transpirar) arte e cultura se o seu povo não for fortemente inclinado a essas temáticas. Dessa maneira, começo explicando que o portenho (gentílico da cidade de Buenos Aires) é, em média, bastante culto se comparado à realidade brasileira. Notei essa particularidade quando vivi pela primeira vez na capital da Argentina entre 2004 e 2005. Há pouco mais de vinte anos, trabalhava na área de Vendas da Coca-Cola e fui enviado para passar uma temporada na unidade de lá. E, assim, pude conversar e interagir com muitas pessoas. Com meus vinte e poucos anos (era uma criança!), o que mais me impressionou foi o nível cultural dos funcionários da Coca, até mesmo o pessoal mais humilde, e dos clientes que atendíamos diariamente, pequenos comerciantes.   Quando visitava supermercados, mercadinhos de bairro (os famosos chinos ) e kioscos  (negócio clássico de Buenos Aires), interagia com os repositores da minha empresa. Esse era o cargo mais simples da companhia. Basicamente, ele era ocupado por jovens que estavam entrando no mercado de trabalho. Sua função era levar as bebidas do estoque ao salão de vendas e organizá-las segundo as ações promocionais vigentes e o padrão de Merchandising da marca. Na interação cotidiana com esses jovens argentinos, eles me perguntavam da música brasileira – muitos eram fãs de Herbert Vianna e do Paralamas do Sucesso e alguns curtiam Roberto Carlos – e do cinema brasileiro – o filme nacional mais comentado por lá era “Cidade de Deus” (2002). A empolgação e a curiosidade deles pelo meu país eram intermináveis. Aí quando eles me questionavam o que eu sabia da música e do cinema da Argentina, o silêncio tomava conta da nossa conversa, para a minha vergonha. Com os vendedores da Coca-Cola acontecia algo parecido. Proseava com eles sobre a economia e a política do Brasil com enorme naturalidade. Me lembro que muitos portenhos sabiam de cabeça os nomes dos ministros da Fazenda (Antônio Palocci), das Relações Exteriores (Celso Amorim) e da Cultura (Gilberto Gil) daqui e comentavam o que eles estavam fazendo de positivo e de negativo. Juro que fiquei chocado. Eu, um executivo brasileiro momentaneamente expatriado, não sabia direito quem era o presidente da Argentina (Néstor Kirchner). O que dirá, então, os nomes de seus principais ministros e os projetos desses ministérios, né?! Foi aí que descobri o enorme hiato entre a educação, a cultura e o conhecimento dos dois povos. Passadas duas décadas, noto que essa essência não mudou muito em Buenos Aires, apesar do nível educacional da população local ter apresentado, na média, nítidos retrocessos. Geralmente, os portenhos e os migrantes que vivem em CABA há muito tempo aproveitam a imersão cultural e possuem excelente conhecimento do que ocorre tanto no país quanto no mundo, principalmente no cenário artístico. Assim, é normal uma sommelier argentina falar de Raul Seixas, Nelson Pereira dos Santos e Clarisse Lispector em um date com um brasileiro. Ou a colombiana que vive em BsAs há quinze anos e trabalha com Marketing debater a literatura de Isabel Allende , a ficção de Paulo Coelho  e o portfólio de J. J. Benítez de igual para igual com o escritor de São Paulo residente há pouco por lá. Ou a venezuelana gatinha com seis anos de Argentina e que nunca pisou no Brasil prosear com desenvoltura sobre as telenovelas da Rede Globo (apesar de não saber da recente saída de armário de Reynaldo Gianecchini) e a gastronomia brasileira (viva o brigadeiro e os doces de Festa Junina!). Sempre que relato essa diferença cultural para os meus compatriotas que vem me visitar no bairro de Saavedra (abraços, Paulo, Marcela, Eduardo, Carla, Luís, Mara e Daniella), ouço uma série de justificativa por parte deles. Contudo, nenhuma delas me convenceu até agora. O que serve de atenuante é que meu retrato das realidades brasileiras e argentinas é apenas um recorte mínimo e parcial. Vai que eu esteja sendo injusto para um lado e condescendente para o outro. Pode ser! Ainda assim, falo em alto e bom tom sem qualquer receio: considero, na média, os portenhos mais cultos, educados (no sentido de formação escolar) e bem-informados do que os paulistanos e os cariocas, para ficarmos na comparação com as duas maiores cidades brasileiras. Durmamos com essa bomba!  2) O mito de que Buenos Aires tem mais livrarias do que o Brasil inteiro Corroborando com o que expus no tópico (ou subtópico) anterior, um passeio rápido pelas ruas da capital argentina demonstra a força da literatura e dos livros, um excelente indicativo da força cultural de uma região e da intelectualidade de seu povo. Em qualquer bairro central de CABA, encontramos ao menos uma livraria de rua a cada sete ou oito quarteirões. É isso mesmo o que você leu. Em Buenos Aires, esse tipo de loja não desapareceu como em muitas metrópoles brasileiras (e mundiais). Por exemplo, a livraria mais perto de casa, a Metonimia Libros , está a menos de 150 metros do meu edifício. Quer dizer, então, que moro perto de uma grande avenida ou de ruas bastante movimentadas? Nada disso. Essa livraria está localizada no meio de um bairro residencial extremamente calmo e com baixa circulação de pessoas. Seria essa loja uma exceção? Batendo perna por aí, noto que não. Se há muitas livrarias é porque deve ter público consumidor, certo?! Essa hipótese básica da relação oferta-demanda é constatada quando observamos o hábito de leitura dos portenhos. No transporte público (ônibus, trem e metrô), nos parques da cidade, na Costanera e nos cafés, notamos muitas pessoas lendo. Por mais que a maioria ainda fique com a cara mergulhada nas telas de celulares e smartphones (provavelmente nas redes sociais e nas conversas do WhatsApp), temos uma parcela considerável de gente com livros, jornais (sim, ainda se lê jornal em Buenos Aires) e aparelhos Kindle em mãos. Curiosamente, só não vejo ninguém lendo revista – não sei o motivo. Talvez eu seja mesmo o último apreciador desse tipo de publicação. Com algum embaraço, admito que não largo meu tablet e não vivo sem a conta no GoRead . Portanto, se comparado ao que via em São Paulo e no Rio de Janeiro, posso garantir que há uma multidão de leitores em Baires. Infelizmente, meus compatriotas não são chegadinhos à leitura, independentemente da classe social, da faixa etária e do nível educacional. Convenhamos que isso explica muita coisa em nossa nação! E por mais que procuremos explicações para essa diferença cultural, vou logo avisando que o preço médio dos livros na Argentina é muuuito superior ao do Brasil. Se em meu país um romance convencional sai por R$ 50,00 ou R$ 60,00 (de 3 a 4% do salário mínimo nacional), na terra de Julio Cortázar  o valor de uma ficção comercial está entre AR$ 40.000,00 e AR$ 50.000,00. No câmbio atual, o livro argentino custa de R$ 140,00 a R$ 180,00 (de 13 a 16% do salário mínimo local). Convenhamos que o hobby da literatura é um hábito caríssimo por lá, né? Ainda assim, a população segue efetuando compras nas livrarias e lendo livros com mais frequência do que no Brasil.  O hábito portenho pela leitura alimentou por muitos anos o mito de que Buenos Aires teria mais livrarias do que o Brasil inteiro. Por mais que tal comparação não seja tão amalucada assim, preciso dizer que essa lenda não é verdadeira. A capital argentina tem sim muito mais livrarias do que qualquer grande cidade que se fala o português. Mesmo assim, ela não consegue superar a quantidade de lojas do país vizinho de tamanho continental. O que pode ter alimentado o bizarro mito foi o fato de que a palavra “librería”  no espanhol rio-platense designar tanto os estabelecimentos que vendem livros (as nossas livrarias tradicionais) quanto os locais em que se comercializam materiais escolares e de escritórios (o que para os brasileiros é a papelaria) e que prestam serviços de fotocópias e impressões (que chamamos popularmente de Xerox). Nesse caso, se somarmos as livrarias, as papelarias e as Xerox portenhas (que os argentinos chamam tudo de “ librerías ”), aí sim pode ser que haja maior número do que as livrarias (palavra exclusiva para as lojas de livros) no Brasil. Mesmo assim, ainda acho difícil e pouco provável essa vitória (um tanto trambiqueira) de los hermanos . De qualquer maneira, a quantidade de livrarias de Buenos Aires é de matar de inveja os apaixonados pela literatura. Inclusive, a El Ateneo Grand Splendid , a livraria mais famosa da Argentina (e talvez da América Latina), segue aberta, muito movimentada e lindíssima. Por aqui, as lojas de livros não faliram (como a Livraria Cultura, a Saraiva, a Nobel, a FNAC) nem fecharam para dar espaço para igrejas evangélicas, lojas de departamento, farmácias e outros comércios de finalidades pouco artístico-culturais. De tão interessante que é a visita ao El Ateneo Grand Splendid , ainda vou comentar no Bonas Histórias  a experiência de passear por seus corredores e estantes. Não por acaso, esse é um dos programas turísticos imperdíveis dos brasileiros em visita a Buenos Aires.      3) A indústria do cinema mais vigorosa do continente Como um bom brasileiro, celebrei bastante a vitória de “Ainda Estou Aqui” (2024), filme de Walter Salles baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, na última edição do Oscar. Conforme discuti no post sobre os vencedores da estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles em 2025 , esse foi o ponto máximo da cultura nacional. Apesar da alegria, da festa e do orgulho pela conquista verde e amarela, não concordei com quem afirmou que, enfim, tínhamos o melhor cinema do mundo (fora dos Estados Unidos). Pera lá!!! Não é porque uma produção arrematou o Oscar de melhor filme internacional que sua indústria cinematográfica se torne do dia para a noite a melhor do planeta, né? Para ser ainda mais preciso em minha avaliação, me sinto na obrigação de desmontar algumas crendices infundadas. O cinema brasileiro não é referência mundial, tampouco é líder continental. Na América Latina, as indústrias cinematográficas mais importantes são a da Argentina e do México. Enquanto a primeira se destaca pela qualidade das obras e pelo alto volume de longas-metragens exportados, a segunda é reconhecida pelo grande volume de títulos e pelo mercado interno vigoroso. Não por acaso, esses dois países colecionam estatuetas do Oscar há décadas. Se não venceram na última edição, têm encantado os cinéfilos dos quatro cantos do planeta há muito, muito tempo. Ao morar na Argentina por um período maior, consegui visualizar com mais nitidez a força do seu cinema. A sensação é que toda semana é lançado um novo filme nacional no circuito comercial. Sei disso porque no primeiro ano vivendo em Buenos Aires, um dos meus programas favoritos de final de semana era ir às salas escuras para curtir uma produção local. Assim, falo com propriedade sobre a excelência dos títulos do cinema argentino . Alguns deles comentei na coluna Cinema , como “El Duelo” (2023), thriller romântico dirigido por Augusto Tejada e protagonizado por China Suárez e Joaquín Furriel, “Mensagem em Uma Garrafa” (Mensaje en Una Botella: 2025), fantasia dramática de Gabriel Nesci com Luisana Lopilato, e “Homo Argentum”  (2025), comédia crítica de Mariano Cohn e Gastón Duprat com Guillermo Francella. Porém, a maioria não ganhou análises completas no Bonas Histórias , apesar de ter qualidade para tal. De modo geral, quatro aspectos me encantam quando falamos da sétima arte do meu novo país: (1) o volume de filmes produzidos anualmente; (2) a qualidade média dos longas-metragens argentinos; (3) a variedade de gêneros cinematográficos lançada no circuito comercial; (4) a consolidação e o vigor das estruturas da indústria audiovisual local. Tratemos com mais profundidade, nos próximos parágrafos, desses aspectos, senhoras e senhores. A Argentina lança em torno de 50 a 60 filmes anualmente. É claro que esse número não chega perto da escala de países como Estados Unidos, Índia, Nigéria, França, Inglaterra, Canadá, Austrália, China, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Itália e Alemanha, que apresentam produções anuais na casa dos três dígitos (em alguns casos, até de quatro dígitos). Porém, para o cenário da América Latina, trata-se de um excelente volume. Ainda mais porque esse patamar não é recente e sim uma constante de algumas décadas. Prova disso é que países bem maiores do que a Argentina, como México e Brasil, têm dificuldades para acompanhar esse ritmo e regularidade. Faça sol ou faça chuva, tenha crise econômica ou tenha crise econômica (por aqui não há outra opção além do caos permanente), as rodas do cinema argentino seguem girando com velocidade.      Ainda assim, como cinéfilo, o que mais me impressiona não é a alta quantidade de longas-metragens lançados aqui e sim a qualidade média de seus títulos. Pode perceber que são raras as produções de baixa qualidade. Elas até existem, mas são minoria. De dez filmes argentinos que vejo, um ou dois são espetaculares (nota de 9 a 10), cinco são bons ou muito bons (nota entre 7 e 8,5), dois ou três são regulares (nota 5 a 6,5) e apenas um é ruim (nota inferior a 4,5). Conheço muitas nações (não vale aqui as citações nominais, tá?) que a lógica é oposta: assistimos a muitos longas-metragens ruins até acharmos dois ou três bons e, quem sabe, um excelente.  Algo que estimula a qualidade do cinema da Argentina é a compreensão que este é um produto a ser exportado. Assim, a concorrência não é interna e sim externa. Por mais que os filmes nacionais ganhem destaque no mercado de exibição doméstico e sejam vistos pelos próprios argentinos, o foco quase sempre é a crítica e as plateias internacionais. Com tal perspectiva, não dá para entregar qualquer coisa. Para se ter êxito nos principais mercados do planeta, é obrigatória a excelência do roteiro, da fotografia, do elenco, da edição, do som, da iluminação, do figurino, do cenário etc. Em outras palavras, os altos padrões de qualidade movem os profissionais da sétima arte da Argentina. O mais legal é perceber que o cinema daqui é plural. Ele não fica restrito a um ou a dois gêneros cinematográficos. Anualmente, as salas de exibição recebem títulos de terror, suspense, drama histórico, thriller psicológico, comédia romântica, tragicomédia, animação, ficção científica, trama policial e ação. A qualidade e a quantidade são mais ou menos uniformes entre esses gêneros, o que só comprova a maturidade de produtores e do público espectador. Por fim, vem a parte que considero a mais difícil de se obter: o cinema argentino está inserido numa indústria cinematográfica local com bases vigorosas e consolidadas, algo que, infelizmente, ainda não vejo no Brasil. Mas o que é possuir a dinâmica de indústria?! É ter profissionais, processos, empresas, infraestrutura, tecnologia e parceiros responsáveis por entregar constantemente grande quantidade de produtos e em alta qualidade. Ao invés de desenvolver as obras artísticas de maneira informal, artesanal, amadora e no improviso, a Argentina exibe um complexo sistema cinematográfico e uma forte cultura cinéfila. Em Buenos Aires, há faculdades de cinema, cursos de direção (por aqui, não é loucura juvenil trabalhar nessa área), produtoras especializadas em sétima arte (Palermo Hollywood tem esse nome por ser o bairro que concentra as produtoras audiovisuais da cidade), roteiristas, editores, músicos e atores/atrizes focados em cinema. Há histórico de políticas de incentivo à produção audiovisual, patrocinadores privados interessados no fomento do cinema local e parceiros externos acostumados a distribuir os títulos argentinos no exterior. Existe também o hábito de se visitar as salas de exibição regularmente. Neste ambiente, não é surpresa que surjam bons filmes todos os meses. Se não fosse pouca coisa o que acabei de relatar sobre o cinema da Argentina, o país também tem um histórico admirável no campo da produção televisiva. Prova cabal disso é a overdose de sucessos recentes. De cabeça, posso citar alguns seriados de TV que conquistaram, nos últimos anos, os corações dos habitantes locais e das plateias mais exigentes nos quatro cantos do planeta: “O Faz Nada” (Nada: 2023), “Meu Querido Zelador” (El Encargado: 2022-2024) e “O Eternauta” (El Eternaura: 2025). Não é errado dizer que surge anualmente um grande êxito argentino nas plataformas de streaming. E que a televisão argentina seja um dos polos continentais neste período do Pós-Pandemia. Um dos charmes de Buenos Aires é caminhar pela cidade e encontrar os profissionais da televisão e do cinema fazendo gravações externas. Confesso que já perdi as contas de quantas vezes testemunhei tais cenas. E olha que moro em um bairro bem afastado do centro. Sempre que estou na companhia de visitantes brasileiros e vejo uma equipe de filmagem, aponto o dedo para a aglomeração e falo com convicção: “Olha quem está ali! É o Ricardo Darín. Que legal, né? Outra vez encontrei ele”. E saio andando normalmente (com um sorriso zombeteiro). Em 100% das vezes, meus amigos e familiares não percebem minha ironia e ficam procurando desesperadamente Darín, o único ator argentino que conhecem, no meio da pequena multidão. 4) Avenida Corrientes é a Broadway argentina Por mais apaixonado que eu seja pela literatura e pelo cinema (talvez devesse dizer pelo audiovisual) argentinos, o que mais me surpreendeu morando em Buenos Aires foi constatar a riqueza e o poderio do teatro portenho . Aí não há comparação que possa ser feita com nenhuma outra região do nosso continente. A capital da Argentina tem disparadamente a cena cênica mais pujante e encantadora da América Latina. Ponto final! Para quem duvida de minhas palavras (algo que SEMPRE recomendo aos leitores do Bonas Histórias ), sugiro visitar a Avenida Corrientes à noite, a via mais vibrante, movimentada e iluminada de CABA. Essa rua, que vai de Puerto Madero até Chacarita em mais ou menos oito quilômetros de comprimento, respira cultura e arte, principalmente teatro. Não à toa, ela é chamada de Broadway de Buenos Aires. Estão achando que é exagero da minha parte e dos argentinos?! Então, segurem-se na cadeira porque aí vai uma informação desconcertante: na Corrientes, estão mais de 200 salas de teatro. Para quem acha que leu errado ou que eu escrevi incorretamente o dado, vou repetir com calma: são mais de duas centenas de salas dedicadas às apresentações da dramaturgia. Isso em uma só avenida de Buenos Aires. Se você souber de outra cidade sul-americana que reúna algo parecido, por favor, me avise. Porque eu não conheço nada próximo dessa dimensão. Só no pedacinho entre a Avenida Callao (esquina que fica a La Opera Bar Restaurante ) e Avenida 9 de Julio (onde está o Obelisco), meu trecho favorito da Avenida Corrientes que deve ter um quilômetro de extensão, contei certa vez dez complexos teatrais. Cada um deles possuía uma porção de salas (daí os três dígitos no âmbito geral de salas desta via). É importante dizer que nessa minha conta de padaria e feita apenas com os olhos, não considerei os espaços cênicos que ficavam nas ruas laterais. Só valeram os teatros que tinham entrada/saída diretamente pela Corrientes. Incrível, né? Essa avenida é impressionante por vários motivos, além da overdose de casas de espetáculos. De dia, ela se parece com qualquer outra via movimentada da metrópole portenha. Porém, quando o sol desaparece e o céu escurece, a Corrientes se torna extremamente charmosa. Os luminosos gigantescos dos teatros dão realmente um ar de Broadway ao cenário. Metade das faixas destinadas aos carros é fechada e os pedestres ganham um calçadão extra para usufruir. O movimento é maior entre as sextas-feiras e os domingos, dias nobres do teatro. Ainda assim, é bom avisar, que as quartas e as quintas-feiras são bem animadas por ali. Porque a programação teatral da Corrientes vai, acredite se quiser, das quartas aos domingos, algo que não ocorre em São Paulo há muito, muito tempo. Só às segundas e às terças-feiras os teatros fecham (todo mundo tem direito ao descanso na escala 5x2, não é mesmo?) e avenida perde um pouco da efervescência e brilho. Se alguém pensou que os teatros portenhos são simples, pequenos e amadores, uso duas frases famosas de Compadre Washington: “Sabe de nada, inocente”; e “Que abundância, meu irmão, assim você vai matar o papai”. Na Avenida Corrientes, os principais complexos teatrais oferecem espetáculos de altíssima qualidade. Quem curte o melhor da dramaturgia, certamente ficará encantado(a) com a programação teatral de Buenos Aires. Como exemplificação prática do que é a experiência de acompanhar in loco  uma peça no templo teatral da capital da Argentina, analisei “Made in Lanús” na coluna Teatro , no ano passado. Essa é uma produção clássica da dramaturgia argentina que foi escrita por Nelly Fernández Tiscornia na década de 1980 e segue representando muitíssimo bem o drama de um povo castigado pelas oscilações da economia e pela vontade de emigrar. Na nova encenação que estive presente, o charme foi a presença de Luis Brandoni, diretor da peça e um dos atores mais famosos do país. Quem assistiu ao seriado “O Faz Nada” se recordará dele. Brandoni interpretou Manuel, o divertidíssimo crítico gastronômico.     O mais interessante da Corrientes é que sua vitalidade teatral vem integrada às experiências gastronômicas, literárias e cinematográficas. Porque ao lado das casas de espetáculos, há vários restaurantes, bares, pizzarias, lanchonetes e sorveterias de excelente qualidade. Também existem incontáveis livrarias e sebos com preços ótimos (para o padrão argentino). E, por fim, temos algumas boas salas de exibição da sétima arte. Portanto, a avenida une o útil ao agradável. Quando você for assistir às peças por ali, não tenha receio de estender o passeio cultural. Tenho certeza de que você não se arrependerá. Sempre que vou ao teatro ou ao cinema na Corrientes (o Cine Lorca  é o meu favorito naquele pedacinho de Buenos Aires, se bem que o Cine Gaumont , meu cinema preferido na cidade, não está tão distante ), chego pelo menos uma hora e meia antes da exibição. Aproveito para bater perna pelo calçadão ou mesmo pela via fechada para os carros. Invariavelmente, entro em alguns sebos e livrarias e dificilmente saio de lá sem um livro em mãos. Se você procura por lojas ao estilo do El Ateneo Grand Splendid , talvez fique frustrado(a). Nesse canto da cidade, os estabelecimentos literários são muitíssimo mais simples e voltados para o preço, algo que me apetece mais. Ao final das sessões teatrais e cinematográficas, não consigo resistir e vou à Pizzería Güerrín , a mais famosa casa de pizzas de Buenos Aires. Se você curte redondas e adora conhecer lugares diferenciados, certamente se encantará com esse estabelecimento icônico da gastronomia da Corrientes. Ela fica bem em frente ao Teatro Metropolitan , um dos complexos teatrais mais famosos da capital argentina. Gosto tanto da Güerrín que quando penso em teatro e cinema, automaticamente me vem à mente una porción de Muzzarella, Jamón y Morrones y una porción de Fugazzeta . Quando não saio da pizzaria rolando de tanto comer, caminho alguns metros pela avenida e dou uma parada estratégica na Cadore Gelato Artigianale , para mim a melhor sorveteria de (En) La Ciudad de La Furia . Para os brasileiros que se perguntam “Mas será que é perigoso caminhar à noite pela região central de Buenos Aires?!”, sugiro a leitura de Episódio 1 – Distopia Paulistana (ou Carioca) , a primeira crônica de “Tempos Portenhos” . A sensação de segurança que sentimos na metrópole argentina é de fazer meus compatriotas morrerem de inveja. É justamente nesse momento em que percebemos o quão perigosas são as cidades brasileiras. A impressão que tenho é que poucos países e lugares do mundo tem o nível de insegurança e criminalidade que as nossas capitais, seja de dia, seja de noite. Ai, ai, ai. Pobre Brasil. Pobre do povão brasileiro.     5) A metrópole que canta e dança Nesse novo post de “Tempos Portenhos” , já tratei de literatura, cinema, televisão e teatro. Além do mais, tangenciei algumas vezes o tema da gastronomia em Buenos Aires. O leitor mais atento da coluna Contos e Crônicas  irá perceber que, dessa maneira, estamos abraçando pouco a pouco todas as vertentes artístico-culturais da capital argentina. É justamente esta proposta desta publicação. Seguindo nessa caminhada, quero agora falar especificamente da música e da dança. Afinal, estamos numa cidade que respira Rock e baila Tango , uma combinação de difícil assimilação para o público estrangeiro. Talvez só os fãs do Bajofondo, banda de Tango Eletrônico formada por músicos argentinos e uruguaios, estejam acostumados com as mesclas sonoras mais heterodoxas desse pedacinho do nosso continente. Por mais que os gringos encarem Buenos Aires como a Meca do Tango, o ritmo musical que mais combina com a paisagem local, com os hábitos de seus habitantes e com a cultura metropolitana é o Rock. Nesse caso, estamos falando do bom e velho Rock and Roll das décadas de 1980 e 1990, que os argentinos chamam de clássicos do Rock Nacional. É esse o gênero que é mais tocado pela cidade. Logo atrás vem a Cúmbia e, mais recentemente, o Reggaeton. Obviamente, a fonte dessas informações é o DataRicardinho, instituto de pesquisa localizado em algum setor sombrio da minha mente. Pode reparar: na playlist do Uber, na caixa de som da baladinha descolada de Palermo ou Puerto Madero, no som ambiente da recepção do dentista em Belgrano ou do médico na Villa Crespo e no micro systems da barraquinha das onipresentes feiras livres das praças de CABA, o Rock em espanhol (e em inglês) predomina. Muitas vezes, a sensação é que voltamos duas ou três décadas no tempo, pois as bandas e os cantores há muito tempo saíram de moda (pelo menos nos outros cantos do planeta). Quando ouvimos algo dos anos 2000, pensamos assustados: “que legal, uma canção moderna”. Essa obsessão dos portenhos pelo Rock é um convite natural para os fãs desse ritmo – coloca o dedo aqui que já vai fechar! Quando os astros internacionais planejam uma nova turnê mundial, invariavelmente colocam Buenos Aires em sua escala porque sabem da enorme demanda existente na cidade. Conheço muitos roqueiros que vem para a Argentina, mas não vão para o Brasil. No caso das bandas e dos cantores de língua espanhola, essa dinâmica é ainda mais forte. Ou você se recorda da última apresentação do No Te Va Gustar (Uruguai), do Maná (México) e do Vetusta Morla (Espanha) em São Paulo ou no Rio de Janeiro, hein? Ou você soube da ida dos argentinos do Los Fabulosos Cadillacs e do Él Mató a un Policía Motorizado para nosso país?! Sinceramente não me lembro. Até os principais artistas brasileiros vem bastante para a Argentina. Quando vivi em Buenos Aires pela primeira vez, fui a um show no Monumental de Núñez do Paralamas do Sucesso. Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone são muito queridos pelos argentinos e possuem uma legião de fãs por aqui. Como consequência, o trio formado no Rio de Janeiro sempre coloca a capital hermana  em seu itinerário e tem a preocupação de compor e traduzir suas canções para o espanhol. Para os portenhos, o Paralamas é meio brasileiro, meio argentino. É tanto show bom acontecendo que fico com a impressão de que os moradores de Buenos Aires não têm a necessidade de frequentar grandes festivais de música, como o Rock in Rio, o The Town e o Lollapalooza. Porque a programação rotineira de sua cidade já contempla uma espécie de overdose musical todos os meses. Sei disso porque moro pertinho do Estadio Obras Sanitarias, o templo roqueiro da Argentina localizado em Núñez. E o movimento por lá é frenético, seja de pessoas comprando ingresso, seja de fãs aguardando a abertura dos portões. Há muita gente do interior do país que dá uma passadinha por lá só para conhecer o lugar. Na minha atual temporada pela capital argentina, o show mais marcante que fui foi o de Kevin Johansen  no Teatro Coliseo de Buenos Aires. Em maio do ano passado, meu cantor favorito lançou “Quiero Mejor” , seu décimo álbum, e pude estar presente na plateia. Juro que me emocionei pra valer naquela noite mágica, conforme relatei num post da coluna Músicas . Então quer dizer que só tem Rock em CABA, Ricardo? Não há Tango em nenhum lugar da cidade?!! Calma, calma, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Apesar da cena roqueira ser predominante, existe sim espaços para o ritmo mais famoso do país. A questão é que esses locais são mais voltados para os turistas do que para os moradores. Sinceramente, desconheço um(a) argentino(a) ou um(a) migrante que vive há muito tempo aqui que frequente assiduamente as casas de Tango. Falo por mim: só vou lá quando preciso levar o pessoal que vem me visitar do Brasil e deseja vivenciar essa experiência cultural. Nesses momentos, os estabelecimentos que mais vou são o La Catedral Club  e o El Boliche de Roberto . Ambos são locais bem alternativos no encantador e boêmio bairro de Almagro. O primeiro é uma antiga igreja que se transformou numa escola tangueira. À tarde, há aulas em suas salas. E à noite e de madrugada, o público do La Catedral Club  pode conferir shows de dança de professores, alunos e artistas convidados. Aí todos vão para o salão principal. A sua decoração gótica é um charme à parte. Por sua vez, El Boliche de Roberto , é um bar centenário que promove todas as noites cantoria de Tango. O ambiente é meio insalubre, ao estilo boteco de quinta categoria. Jamais vá ao banheiro de lá, por favor! Para quem tem espírito aventureiro (e nenhum pudor à higiene, ao constante empurra-empurra e à falta de conforto), as apresentações são muito legais. Para a galera que deseja vivenciar experiências mais sofisticadas de Tango  (e, portanto, está disposta a pagar mais caro por isso), as opções que recomendo são a Esquina Homero Manzi , no bairro de Boedo, e o Madero Tango , no bairro de Puerto Madero. O primeiro é uma tradicional casa de shows em que os clientes provam jantar completo (entrada, prato principal e sobremesa) e, nos intervalos das refeições, apreciam bons espetáculos de dança e cantoria. Ou seria o contrário: no intervalo dos shows, o pessoal come? Pode ser também. Fui uma vez na Esquina Homero Manzi  e achei bem legal. O Madero Tango  é a versão mais moderna e chique dessa proposta. A diferença é que a casa de espetáculo é maior e mais confortável e os shows de Tango  se assemelham às superproduções da Broadway. A brincadeira é beeem cara, mas vale cada tostão aplicado. É realmente para deixar os turistas (endinheirados) de boca aberta. 6) A valorização da história e da cultura local Outro aspecto que adoro em Buenos Aires é que tanto seus moradores quanto o governo do Distrito Federal valorizam a história, a arquitetura e a cultura local. Por exemplo, os bares, os cafés, os restaurantes e as confeitarias mais tradicionais ganham formalmente o título de Bares Notáveis. Com essa designação, eles se tornam patrimônio histórico-cultural da cidade. Assim, entram num roteiro gastronômico diferenciado da capital argentina e podem participar de ações promocionais e campanhas publicitárias promovidas pelo governo. Fazem parte do seleto grupo de Bares Notáveis o Café Tortoni  (cafeteria no Centrão), a Confiteria Ideal  (confeitaria no Centro), o El Preferido de Palermo  (bodegón em Palermo Soho), a Las Violetas  (confeitaria em Almagro) e mais algumas dezenas de estabelecimentos. É muito legal conhecê-los, seja nos períodos especiais (como na Noite dos Bares Notáveis, evento promovido anualmente pelo Ministério da Cultura e que neste ano ocorreu na quinta-feira retrasada), seja no dia a dia ( en la merienda riquísima  com a bela venezuelana de Almagro ou en el desayuno   divertido  com a turminha de amigos brasileiros em visita à Baires).  Por falar na Noite dos Bares Notáveis, é bom dizer que este tipo de evento promocional ocorre com frequência em vários campos artísticos. Normalmente, eles ganham a adesão de multidões, que lotam os estabelecimentos. Na Noite dos Museus, a população enche os mais de 250 espaços culturais de Buenos Aires entre o final da tarde e a madrugada. Fala sério: você consegue imaginar uma cidade em que há fila para entrar nos museus às 2h da madruga, hein?! Na América Latina, só mesmo os portenhos são capazes de um feito assim. Na última edição, o número de participantes beirou um milhão de visitantes nos museus de CABA em uma única noite. Quem gostou da proposta, já aviso que a Noite dos Museus de Buenos Aires em 2025 será no sábado, 8 de novembro. É tanto evento interessante acontecendo mensalmente que a melhor maneira para se inteirar das notícias do cenário artístico-cultural da capital argentina é acessando o site do Ministério da Cultura: https://turismo.buenosaires.gob.ar/es . Além da programação oficial, há também os passeios que já se tornaram clássicos pela cidade. Aos finais de semana, os bairros ficam mais coloridos com as feiras livres que são montadas nas ruas e nos parques. As mais famosas são a Feria de San Telmo (mais turística e voltada para o artesanato) e a Feria de Matadero (mais raiz e com pegada de cultura folclórica). Porém, existem várias. Praticamente cada bairro tem a sua feira livre que merece uma passada. A Feria de Saavedra, onde moro, acontece aos sábados, domingos e feriados ao lado do Parque Saavedra. Sou figurinha carimbada por lá. Outros centros populares de compra de Buenos Aires são o Once (versão portenha do Brás e da 25 de Março em São Paulo ou da Feira do Saara no Rio de Janeiro) e a Villa Crespo (com vários outlets). Para quem deseja mais cultura e menos consumismo, as opções ao ar livre são a Barrancas de Belgrano (todas as noites há aulas e gente dançando Tango  por lá), o Jardim Japonês (lindíssimo), o Rosedal (uma volta no pedalinho no lago é um passeio divertidíssimo) e a Costanera de Vicente López (o beira-mar mais legal da região metropolitana).     Quando o assunto é museu, a ida ao Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires) é obrigatória. Além de reunir o melhor da arte moderna e contemporânea da América Latina, ele tem uma arquitetura deslumbrante. Para coroar, é em suas paredes que está o Abaporu, a obra-prima de Tarcila do Amaral e o quadro mais valioso de um artista brasileiro. Por isso, é muito comum meus conterrâneos já entrarem no Malba à procura da icônica criação de 1928. Eles não sossegam enquanto não contemplam a imagem modernista de Tarcila. Uma vez visualizado o Abaporu, se sentem confortáveis para apreciar os demais quadros.      Até quem não gosta de Buenos Aires (sabe-se lá o porquê) terá que concordar que a intensidade artístico-cultural desta cidade é impressionante. Juro que não vejo tal força quantitativa e qualitativa em capitais brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Recife, Salvador, Brasília, Goiânia etc. Caminhar pela metrópole argentina é se embrenhar por lugares, paisagens e estabelecimentos com muita história, arquitetura, cultura e vibração. Como disse no começo deste post da coluna Contos & Crônicas , essa é a minha visão sobre a efervescência artística de Buenos Aires. Não é porque acredito nisso que necessariamente todos ao meu redor deverão se curvar aos meus pensamentos e às minhas crenças, né? Entendida tal ressalva, falo (tá bom, escrevo) sem vergonha de cometer injustiças: a capital argentina é também a capital da arte e da cultura da América do Sul. Não há cidade em nosso continente mais rica e plural nesse sentido. No início de 2026, retornarei aos “Tempos Portenhos” para debater os altos e os baixos da economia da Argentina. Esse será o Episódio 8: A Montanha-russa Chamada Economia. Enquanto não temos novidades de como é para um brasileiro viver em Buenos Aires, siga acompanhando as demais colunas do Bonas Histórias . Até porque, somos o blog de literatura, arte, cultura e entretenimento que reúne qualidades para ser chamado de capital da análise artístico-cultural em língua portuguesa. Ou seria outro exagero da minha parte?! Talvez...      Até a próxima, senhoras e senhores! ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos”  é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques, o amor incondicional aos cachorros, a paixão pela carne, a devoção pelo futebol, as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata, a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparada às cidades brasileiras, a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante, o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Livros: A Empregada – O best-seller internacional de Freida McFadden

    Lançado em 2022, este thriller psicológico se tornou sucesso imediato nos Estados Unidos e em vários países e virou série literária com a publicação de mais dois romances. A história da jovem que trabalha como funcionária doméstica para uma estranha família de milionários chegará em breve aos cinemas . No primeiro domingo de outubro, li “A Empregada”  ( Arqueiro ), best-seller internacional de Freida McFadden , uma das boas revelações da nova safra da literatura norte-americana . Confesso que estava curioso para conhecer esse suspense psicológico  há muito, muuuito tempo. Sucesso imediato nos Estados Unidos e levado com êxito para mais quatro dezenas de países (o Brasil incluído), o mais famoso  romance  de McFadden merecia uma avaliação cuidadosa da coluna Livros – Crítica Literária . Vale lembrar que esta seção do Bonas Histórias  é justamente reservada para as análises pormenorizadas das obras mais impactantes da ficção nacional e da ficção internacional e, claro, da literatura clássica e da literatura contemporânea . Para quem reclama que só comento títulos cults e da alta literatura (classificações que não faço seja no   meu dia a dia profissional, seja no momento de degustar recreativamente as publicações literárias), “A Empregada” é a prova cabal de um típico exemplar da literatura comercial . Como uma só andorinha não faz verão, lembro de outros posts de 2025 nessa mesmíssima pegada editorial: “Uma Curva na Estrada” (Arqueiro), romance de Nicholas Sparks, “O Menino que Vivia no Mundo de...Marte!” (EV Publicações), mais recente infantojuvenil de Cíntia Ertel, e “O Construtor de Pontes” (Intrínseca), nova saga de Markus Zusak. Vamos combinar que não dá para chamá-los de publicações do tipo papo-cabeça, né? Ao mesmo tempo, esses livros são de excelente qualidade e empolgam até mesmo os leitores mais exigentes que buscam diversão e entretenimento. Para o público que curte uma prosa mais refinada e enredos com alta dosagem de excelência ficcional, aviso que não os abandonei por completo. Esse maior verniz artístico é encontrado, por exemplo, em “Um Copo Vazio” (Todavia), novela de Natalia Timerman, “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), romance de Fernanda Caleffi Barbetta, e “Nós Que Vivemos”  (Minotauro), clássico de Ayn Rand. Esse trio de obras foi analisada no blog neste ano e empolga as pessoas com paladar mais sofisticado. Portanto, garanto a gregos e troianos que a coluna Livros – Crítica Literária  segue contemplando a todos os gostos e preferências. A única exigência por aqui é que o título investigado tenha qualidade evidente. Curiosamente, o que serviu de motivação para a minha leitura de “A Empregada” neste princípio de primavera foi ver que a Paris Films , responsável pela distribuição nacional da adaptação deste romance de Freida McFadden para o cinema, já está divulgando o trailer do filme no Brasil. Ao assisti-lo no finalzinho de setembro no Youtube, soube que a produção cinematográfica foi dirigida por Paul Feig, de comédias como “A Espiã que Sabia de Menos” (Spy: 2015) e “As Bem-armadas” (The Heat: 2013), e roteirizada por Rebecca Sonnenshine, de suspenses como “Jovens Malditos” (The Haunting of Molly Hartley: 2008) e “Além da Vida” (The Keeping Hours: 2016). Estrelado por Sydney Sweeney, Amanda Seyfried e Brandon Sklenar, o longa-metragem estreará nos Estados Unidos e no Canadá em dezembro de 2025 e na América do Sul em janeiro de 2026. Meu Deus, já vão lançar o filme de “A Empregada”! Atordoado com o pensamento que brotou enquanto conferia o trailer, corri para adquirir, de uma vez por todas, esta obra literária e lê-la sem mais demora. Meu medo era acabar vendo a adaptação cinematográfica antes de conhecer o romance de McFadden. Por mais que o Bonas Histórias  seja um blog multicultural e a coluna Cinema  tenha bastante visualizações (muitas vezes, sendo a segunda ou terceira parte mais acessada deste portal informativo), me considero na obrigação de abastecer primeiramente a coluna Livros – Crítica Literária  (e as demais seções literárias). Coisa de quem é apaixonado pela literatura – não tente me entender, por favor. Publicado em e-book por uma editora inglesa em abril de 2022 (é isso mesmo o que você leu, um dos best-sellers atuais da literatura norte-americana saiu inicialmente por uma editora europeia na versão digital), “A Empregada” se tornou sucesso imediato de público. Em poucos meses, este título ficcional de Freida McFadden, até então uma autora desconhecida, foi subindo no ranking dos e-books mais vendidos e despertou o interesse das editoras comerciais dos Estados Unidos. Uma vez na versão física e levado às livrarias norte-americanas em agosto de 2022, “A Empregada” rapidamente entrou na prestigiosa lista dos mais comercializados do New York Times. E por lá ficou por 60 semanas, um feito para poucos best-sellers. Calcula-se que, só na América do Norte, a trama da jovem e bonita funcionária doméstica que padeceu nas mãos de uma patroa amalucada tenha vendido 2 milhões de exemplares. Com o êxito no mercado mais concorrido do planeta, o romance foi levado para o exterior, alcançando o topo do ranking das ficções mais procuradas em vários países e tendo gerado outras 2 milhões de unidades comercializadas. Entre as nações em que “A Empregada” fez enorme sucesso, podemos listar Brasil e Portugal, onde foi lançado com o nome de “A Criada” pela editora lusitana Alma dos Livros . Em nosso país, seus direitos de publicação foram comprados pela Arqueiro , editora famosa por publicar excelentes thrillers ficcionais . Com a tradução de Roberta Clapp , o best-seller de McFadden chegou às livrarias nacionais em junho de 2023 e rapidamente alcançou as primeiras posições entre os mais vendidos. Em outubro daquele ano, este livro já figurava entre as 20 ficções mais adquiridas pelos brasileiros. Quem acompanha as novidades da coluna Mercado Editorial  sabe do que estou falando. Do ano passado para cá, a procura por “A Empregada” em nosso país disparou. Na lista das ficções mais comercializadas em 2024 nas livrarias brasileiras , o best-seller internacional ficou na 11ª posição com mais de 29 mil exemplares vendidos. E em 2025, o resultado foi ainda melhor. Até o fim do mês passado, segundo os dados do PublishNews , a fonte mais segura da indústria do livro no Brasil, o título mais famoso de McFadden está na liderança entre as ficções adultas. “A Empregada” apresentou mais de 30 mil unidades em vendas de janeiro a setembro. No âmbito geral (livros de todas as categorias), ele só perde para “Do Dia Para a Noite” (HarperCollins), “Dias Quentes” (HarperCollins) e “Isso e Aquilo” (HarperCollins), volumes da série infantil de Bobbie Goods que somam, respectivamente, 40 mil, 33 mil e 33 mil exemplares comercializados por aqui. Além de possuir ótimo enredo, a história por trás da publicação desta obra e a sua trajetória pouco comum até o sucesso valem algumas linhas de um relato mais detalhado da minha parte. Quando “A Empregada” chegou às livrarias norte-americanas, Freida McFadden não tinha ainda se consolidado como autora ficcional. Atualmente com 45 anos, essa nova-iorquina é médica especializada em lesões cerebrais. Formada em Harvard e residindo na região metropolitana de Boston, um de seus hobbies era justamente escrever comédias românticas. Como uma boa escritora amadora, ela publicava suas histórias de maneira independente na Loja Kindle (no formato de e-book) e pelo sistema do KDP da Amazon (no formato físico). Assim, aumentava anualmente seu portfólio literário de um jeito despretensioso. Até o dia em que a Bookouture , editora inglesa especializada em publicações digitais na área da ficção, convidou McFadden para que enviasse um original. Ao procurar em suas gavetas (ou, no caso, arquivos do notebook) uma trama pronta, mas que ainda não tivesse sido lançada, a médica-romancista se deparou com a história de “A Empregada”. Depois de escrever esse thriller em 2019, ela não quis publicá-lo porque o considerou destoante do estilo que praticava até então. O mistério protagonizado por uma funcionária doméstica fugia totalmente do padrão das comédias românticas envolvendo médicos que Freida McFadden estava enviando para a loja Kindle e para o Amazon KDP. Por isso, não fazia sentido integrá-lo ao seu portfólio. Porém, como a editora inglesa queria algo novo, essa trama servia, pois estava pronta e apresentava bom potencial. O que ninguém esperava é que a versão digital de “A Empregada” fosse se tornar um sucesso instantâneo e estrondoso. Empolgada com o melhor resultado até ali de sua incipiente carreira literária, Freida McFadden contratou um agente literário para que o romance fosse lançado também nas livrarias comerciais dos Estados Unidos. Assim, seis meses mais tarde, a Grand Central Publishing  publicou o thriller na versão física. Em poucas semanas, novo êxito de vendas. Ainda no fim de 2022, o livro chegou, como contei, à lista dos mais vendidos do New York Times. No ranking dos best-sellers da Amazon, ele figurou por mais tempo: 83 semanas. Uma vez na posição de autora best-seller, a médica nova-iorquina foi procurada por várias editoras para que lançasse seus antigos e-books em livros físicos e para que apresentasse novas histórias na linha de “A Empregada”. Assim, suas antigas comédias românticas e seus novos thrillers psicológicos foram publicados nas livrarias e conquistaram uma legião de fãs. A ida para os mercados estrangeiros também foi um passo natural (e acertado). Na Europa, principalmente na França e na Inglaterra, vale a menção, esse título chegou, em 2024, à primeira posição dos mais vendidos. Para coroar a ótima fase, “A Empregada” ainda conquistou o Internacional Thriller Writers Awards de 2023 na categoria Melhor Romance Original no formato livro de bolso. Agora o sucesso estava completo. Não apenas o público adorara essa história como a crítica literária reconheceu sua qualidade. Vamos combinar que, em muitas oportunidades, agradar aos críticos é mais difícil e demorado do que satisfazer às exigências dos leitores recreativos, né?    Aproveitando a repercussão extremamente positiva, McFadden lançou nos Estados Unidos, em fevereiro de 2023 e em junho de 2024, respectivamente, “O Segredo da Empregada” (Arqueiro) e “A Empregada Está de Olho” (Arqueiro), as sequências de seu best-seller. Dessa forma, o romance bem-sucedido se transformou em uma série literária . No Brasil, os volumes 2 e 3 da coletânea “A Empregada” foram lançados, respectivamente, em janeiro e setembro de 2024 pela Editora Arqueiro . A única diferença é que a tradutora das sequências dessa saga foi Fernanda Abreu, de “Uma Curva na Estrada” , romance de Nicholas Sparks, e não mais Roberta Clapp, a tradutora do volume 1. Diante do sucesso de “A Empregada”, a Lionsgate , em parceria com Todd Lieberman, comprou os direitos para adaptar o romance de Freida McFadden para o cinema. O roteiro do filme foi desenvolvido de meados de 2023 até o final de 2024. Com um elenco hollywoodiano de bom nível, as gravações ocorreram entre janeiro e março de 2025 em Nova Jersey. Admito que estou curioso para conhecer a versão cinematográfica de Paul Feig. Prometo ir às salas de exibição no começo de 2026 para conferir esta produção. Se gostar de “A Empregada” (The Housemaid: 2025), pretendo analisá-lo na coluna   Cinema . Portanto, esperem por mais novidades nesse sentido no Bonas Histórias , tá? Voltando ao livro de McFadden, vamos detalhar agora seu enredo. A trama de “A Empregada” começa com a narradora assustada com o que lhe pode acontecer com a chegada da polícia ao seu lar. Em sua cabeça, é claro que será presa e acusada de assassinato. Afinal, há um corpo no sótão da luxuosa casa e, segundo todas as aparências, somente ela poderia estar envolvida com aquela morte. O mais correto seria dizer aos policiais: “Fui eu. Sou culpada. Podem me levar”. Contudo, a mulher respira fundo e tem o sangue frio de se mostrar surpresa com a cena trágica presenciada pelas autoridades naquela mansão. Por isso, ela chamou a polícia e não sabe explicar como algo tão violento se passou tão perto de si. Após a cena inicial, o romance regride três meses. A partir daí, acompanhamos o drama de Wilhemina Calloway, que todos chamam de Millie, em ordem cronológica. A jovem de 28 anos sofre para conseguir um novo emprego. Depois de passar dez anos presa, as pessoas a olham com extrema desconfiança. Para completar o drama, a demissão do bar em que trabalhava como garçonete pode complicá-la ainda mais. Como está em liberdade condicional, Millie precisa provar à Justiça que não oferece perigo à sociedade. Além disso, deve mostrar que tem emprego, residência fixa e dinheiro para se sustentar, tudo o que ela não possui no momento. Assim, a personagem principal de “A Empregada” dorme no carro, come qualquer coisa e busca obstinadamente um trabalho remunerado. A sorte da moça parece mudar quando Nina Winchester, uma ricaça na faixa dos 30 anos que vive numa mansão em Long Island, a chama para uma entrevista. A vaga é para empregada doméstica. A funcionária deve limpar a residência, cozinhar de vez em quando e cuidar quando necessário de Cecelia, a filha de Nina de 9 anos. Aos olhos de Millie, aquele é o emprego perfeito. Além de saber fazer as atividades exigidas, o salário é excelente e os patrões exigem que a empregada durma no serviço (o que para alguém sem residência é perfeito). O problema é que a ex-presidiária imagina que será preterida por Nina na fase final do processo seletivo. Assim que a dondoca checar o histórico criminal da jovem, a descartará de imediato. Felizmente, o presságio da moça não se comprovou. Passadas algumas semanas, Nina telefona informando que quer contar com os serviços de Millie o quanto antes. Radiante, a protagonista se apresenta ao novo trampo. Dessa maneira, ela conhece todos os ambientes da mansão e as particularidades da família de patrões. Aí a alegria pela obtenção do trabalho se transforma rapidamente em agonia. A casa é grande e muito sofisticada. O problema é que o lugar se encontra numa enorme bagunça e numa sujeira indescritível. A impressão é que os moradores são porcos, incapazes de retirar as embalagens vazias de pizza de cima da mesa. Além do mais, a empregada dormirá num sótão claustrofóbico. O ambiente é minúsculo, o teto é desnivelado para acompanhar o telhado da construção, a cama de solteiro é dobrável, a janela tem o tamanho de uma mão e a lâmpada é ligada por uma corda. Ao menos o espaço abriga um banheiro, o que proporcionará certa privacidade à funcionária. Ainda assim, o que deixa Millie temorosa é notar que a porta de seu quarto se tranca só por fora e a pequena janela não abre. A sensação é de que ela fora transportada de volta à penitenciária. A família Winchester também se prova bastante complicada. Não demora para Nina demonstrar uma faceta pouquíssimo agradável. Além de grosseira no trato diário, a patroa parece nutrir ciúmes doentio do marido e apresenta comportamentos transloucados. Ela passa instruções equivocadas para a empregada, suja de propósito os lugares para que a funcionária tenha trabalho extra e parece viver no mundo da lua. Cecelia, a criança da residência, é ainda mais difícil no trato rotineiro. A garotinha é mimada ao extremo, faz pirraça com Millie o tempo inteiro e possui hábitos extravagantes. Em outras palavras, a filha de Nina é um capeta para a empregada. O único morador que demonstra certa normalidade psicológica e empatia com a personagem principal do romance é Andrew Winchester, o marido de Nina e o padrasto de Cecelia. Na faixa dos 40 anos, o empresário multimilionário é um cara legal. Gente boa, tranquilo e simples nos hábitos, Andy, como todos os chamam carinhosamente, faz o papel de esposo ideal: bonitão, inteligente e educado. Para completar, é apaixonado pela esposa e exerce influência positiva sobre a afilhada, educando-a e tendo voz de comando sobre a menina. Diante de tantas características positivas do patrão, não demora para a pobre Millie se sentir atraída por ele. Depois de ficar uma década sem contato com homens na cadeia, conviver diariamente com um cara que rende suspiros em todas as mulheres do condomínio em Long Island não é fácil para a empregada. Mesmo sabendo que é errado tais desejos e que Nina, por mais amalucada que seja, não mereça ser vítima de traição conjugal, a jovem sonha cada vez mais com o carinho e o afeto de Andy. Ele, por sua vez, nota o quanto a empregada é atraente. Além de mais jovem, Millie passa o dia com roupas e atividades que valorizam seu corpo bem-definido. Notando os olhares nada convencionais entre patrão e funcionária, Nina se torna ainda mais ciumenta. Se a vida de Millie já era complicada nas primeiras semanas, agora se transforma em um inferno. Por mais que queira pedir as contas e fugir daquele lar com ambientação de filme de terror, a funcionária doméstica sabe que não encontrará tão cedo outra oportunidade de emprego. E sem trabalho, sua liberdade condicional será suspensa e ela retornará à cadeia. Assim, por mais que odeie sua rotina, sofra nas mãos da patroa e tema o que possa acontecer no seio de uma família tão desfuncional, a protagonista segue sua rotina desgostosa. Não é preciso dizer que essa história não acabará nada bem, conforme vimos nas primeiras páginas do livro. Quem tenta alertar Millie para os perigos de estar na residência dos Winchester é Enzo, o jardineiro. O rapaz fortão e bonito que desperta os olhares lascivos da mulherada da vizinhança é italiano e não domina o idioma inglês. Por isso, não consegue expressar-se com fluidez. Ainda assim, o pouco que diz para a colega é que ela corre grandes riscos estando ali e que deve ir embora o quanto antes. Obviamente, Millie imagina se tratar de exagero dele ou de erros de interpretação das palavras do jardineiro. “A Empregada” possui 304 páginas, que estão divididas em três partes, além do Prólogo e do Epílogo. São ao todo 61 capítulos. A primeira parte possui 37 capítulos, enquanto o segundo e o terceiro blocos têm, respectivamente, 13 e 11 capítulos. Levei aproximadamente oito horas para percorrer integralmente o livro de Freida McFadden no domingo retrasado. Basicamente, fiz três sessões de leitura: a de manhã demandou mais ou menos três horas; a de tarde outras três horas; e a noturna cerca de duas horas. Quem não gosta de longas imersões literárias, acredito que dê para ler esse romance em dois ou três dias ou mesmo em três ou quatro noites. Já quem curte, como eu, passar várias horas mergulhado(a) nas páginas de uma boa ficção, é possível ir tranquilamente de uma ponta à outra desta publicação em um ou dois dias ou mesmo em duas ou três noites consecutivas. Por falar nisso, o ritmo narrativo é o primeiro elemento que gostaria de elogiar nesta obra. O leitor recebe novidades interessantes sobre a trama e sobre as personagens o tempo inteiro. Não é errado dizer que da primeira à última página, “A Empregada” traz novos componentes da história que cativam a leitura e emocionam o público. Ora é o passado de Mille, ora é o passado de Nina que atraem a nossa atenção. Às vezes são os pormenores da personalidade de Andy, em outros momentos é o perfil de Enzo ou de Cecelia que suscitam a nossa curiosidade. A sensação é que sempre está acontecendo alguma coisa no livro, o que torna sua narrativa fluída e gostosa. Outro mérito de “A Empregada” está em sua linguagem fácil e acessível. Nota-se que McFadden não é uma autora pedante nem é amiga das palavras difíceis. Ela apresenta um texto saboroso com uma prosa cativante. Esta é aquela publicação que pode ser lida pela família inteira: adolescentes ansiosos em busca de dramas intensos, adultos com pouco tempo para diversão que fogem de títulos enfadonhos e idosos tranquilos à procura de boas experiências literárias. Vamos combinar que não é à toa que esse romance tenha se tornado um best-seller internacional, né? O que mais gostei nesta obra foi do ar de suspense e mistério  que permeia a trama desde o início. Para quem acha que é fácil construir uma ambientação  tensa e, principalmente, mantê-la por dezenas e dezenas de páginas na ficção literária, aviso que só os melhores escritores conseguem essa proeza. E “A Empregada” é um típico exemplar de trama que cria essa atmosfera e a mantém até o desfecho. Em termos de técnica literária, Freida McFadden dá aula de como produzir thrillers psicológicos. Prova do que estou dizendo é que este livro está cheio de surpresas e reviravoltas. Ou seja, “A Empregada” não oferece um caminhar narrativo previsível e linear. Quando achamos que estamos entendendo o que está acontecendo, a autora apresenta uma novidade que transforma completamente a realidade e alterna a evolução da trama. Confesso que adoro ser ludibriado por textos inteligentes e histórias sagazes que fogem do senso comum. Também gostei bastante da construção das personagens . Nota-se que McFadden preza pelas figuras redondas. Sinceramente, não me lembro de ter encontrado em “A Empregada” protagonistas ou coadjuvantes planos (ou personalidades caricatas). O melhor exemplo disso é Millie Calloway. A ex-presidiária está longe de ser uma heroína clássica. De certa maneira, ela pode ser descrita como uma anti-heroína. O mesmo ocorre com a vilã. Será que Nina é realmente uma maluca desumana e cruel?! Aproveito e estendo tal questionamento para o restante do núcleo da família Winchester: será que Andy e Cecelia são, respectivamente, o marido perfeito e a filha incorrigível? A evolução do enredo mostrará aos leitores as várias facetas de cada personagem, sendo difícil decretar previamente quem está certo e quem está errado e quem é bom e quem é mau. Por falar nisso, esqueça os maniqueísmos, tá? A realidade oferece muitos tons além do claro e do escuro.        A estrutura do enredo  de “A Empregada” está redonda, redondinha. Nota-se isso quando a própria trama vai justificando as possíveis contradições das personagens. Por exemplo, por que Millie não pede demissão já que está num ambiente tão tóxico? Porque ela não encontrará facilmente outro emprego com tantos benefícios. Lembremos que a jovem saiu recentemente da prisão e ainda está em liberdade condicional. E por que Nina não verificou o histórico criminal da candidata à doméstica e por que ela tem tantos ciúmes da jovem funcionária? Não posso contar os motivos das várias interrogações pois, assim, daria o spoiler do romance – algo que não fazemos no Bonas Histórias . O que dá para garantir é que todos os questionamentos que fazemos durante a leitura possuem explicações lógicas que o próprio texto/história nos oferece. Outro elemento da narrativa ficcional que está primoroso é o espaço narrativo . Em “A Empregada”, a residência dos Winchester é quase que uma personagem central da trama. Como nos filmes de terror ambientados em casas mal-assombradas, a propriedade dos vilões deste best-seller exerce uma forte pressão psicológica em Millie. Aí não é apenas a tensão dramática de dormir num sótão claustrofóbico o que gera suspense e mistério. Perambular de dia e de noite por um lar com pessoas pouco confiáveis provoca angústia na protagonista e deixa sua narrativa recheada de medos e preocupações. Qualquer coisa pode acontecer em um cenário sombrio. Por falar em filmes de terror, o clímax e o desfecho de “A Empregada” caminham nesse sentido. Ou seja, as águas do suspense desaguam no rio caudaloso das tramas aterrorizantes. Para ser mais preciso em minhas palavras, os capítulos finais deste livro exploram o subgênero do Terror Body Horror  (ou, em bom português, no Horror Corporal ). Talvez as almas mais sensíveis se sintam mal com essa pegada mais forte e cruel. Confesso que gostei das tintas mais fortes contidas nas partes derradeiras da narrativa. Ainda em relação ao epílogo, gostei bastante porque ele possui característica de moldura narrativa. Em outras palavras, o desenlace de “A Empregada” dá o pontapé para a vinda do segundo volume da série literária. Portanto, não foi mera casualidade ou oportunismo de Freida McFadden em lançar a sequência da história de Millie Calloway nos anos seguintes. De alguma maneira, essa semente já tinha sido plantada no título inicial da saga da empregada doméstica mais comentada da literatura norte-americana da atualidade.    Depois desse longo desfile de elogios a “A Empregada”, é natural que eu reserve um espaço deste post da coluna Livros – Crítica Literária  para a análise das derrapadas do romance de Freida McFadden. Sim, senhoras e senhores, ele tem também alguns tropeços (às vezes tropecinhos, outras vezes tropeções) de ordem narrativa. E eu não poderia deixar de comentá-los com os leitores do Bonas Histórias , né? Do contrário, meu texto adquiriria tom de chapa-branca e não é isso o que desejamos. Em primeiro lugar, o uso do duplo narrador em primeira pessoa é questionável do ponto de vista da Teoria Literária . Esse talvez seja o aspecto mais delicado do livro. Deixe-me explicar o que aconteceu exatamente e o motivo do meu desconforto em relação à escolha do foco narrativo . A parte I é narrada por Millie. Até aí tudo bem. O bloco II é relatado por Nina. E na parte III, temos a mistura de ambos os textos: Millie é a narradora em alguns capítulos e Nina é a narradora em outros capítulos. Já o Prólogo e o Epílogo exigem a sagacidade do leitor para compreender quem está falando o quê. É claro que grande parcela da graça da história de “A Empregada” está na série interminável de surpresas e reviravoltas que ocorre principalmente nas partes II e III do romance. Isso é inegável. E a mudança de narrador é parte essencial na elucidação dos aspectos da trama que permaneciam obscuros. Sei de tudo isso. O que questiono é a perda de qualidade literária que temos quando a narradora-protagonista não consegue atingir determinado nível/alcance/parte da história. Ao invés da autora procurar uma solução criativa para esse problema, ela simplesmente muda o narrador. Convenhamos que, dessa maneira, até eu consigo assumir o papel de autor ficcional, né? Admito que gosto quando o romancista sabe trabalhar o foco narrativo  de forma inteligente e sem condescendência, o que não foi o caso aqui. Obviamente que esse aspecto passa batido pelos leitores recreativos (99,9% do público). Porém, quem gosta de literatura de qualidade, se amarra na Teoria Literária  e curte os elementos da narrativa ficcional , ficará um pouco decepcionado.    Também preciso citar um ou outro vacilo do enredo. Por mais que “A Empregada” tenha uma trama muito bem encaixada e redondinha, ainda assim é possível encontrar alguns equívocos em sua história. O principal deles é sobre o quarto usado por Millie no sótão da mansão dos Winchester. No início do romance, ele é apresentado como uma suíte. Ou seja, há um banheiro acoplado ao quarto. Entretanto, nas partes II e III, quando esse aposento se torna fundamental para a dinâmica da trama, ele não tem mais o banheiro. Como assim?! Juro que não entendi essa mudança de cenário. Ou há um erro de sequência narrativa aí ou eu interpretei equivocadamente os capítulos iniciais (o que é bem possível!).   Por mais que seja uma história original, preciso confessar que senti um leve aroma de déjà vu no ar enquanto lia “A Empregada”. Só na estante da literatura norte-americana, minhas lembranças voaram para conflitos e personagens de “Nada Dura Para Sempre” (BestBolso) e “Se Houver Amanhã” (BestBolso), ambos romances dramáticos de Sidney Sheldon , “O Lado Bom da Vida” ( Intrínseca ), comédia romântica de Matthew Quick, e “Pacto Sinistro” (Nova Fronteira), clássico do romance policial noir de Patricia Highsmith que foi adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock – “Pacto Sinistro” (Strangers on a Train: 1951)  é uma obra-prima da sétima arte. Da prateleira do cinema hollywoodiano, posso citar uma coletânea de filmes com elementos narrativos um pouco parecidos à mais famosa obra de Freida McFadden: “O Garoto da Casa ao Lado” (The Boy Next Door: 2015), thriller psicológico dirigido por Rob Cohen e protagonizado por Jennifer Lopez; “ Homem nas Trevas” (Don't Breathe: 2016), terror de Fede Alvarez com Stephen Lang; “Doce Vingança” (I Spit on Your Grave: 2010), polêmico longa-metragem de Steven R. Monroe estrelado por Sarah Butler. Nos dois parágrafos anteriores, tive o cuidado de usar termos como “leve aroma de déjà vu” e “elementos narrativos um pouco parecidos”. Portanto, não estou dizendo que “A Empregada” peca por enredo, conflito, desenlace e personagens sem criatividade. Definitivamente não é essa a minha impressão. Porém, naturalmente, vamos nos recordando de tramas e protagonistas similares em outras obras ficcionais tanto da literatura quanto do cinema.   Em suma, apesar de um deslize aqui e outro acolá, algo perfeitamente normal e esperado em uma produção ficcional, admito que gostei bastante de “A Empregada”. De modo geral, o livro oferece uma excelente experiência literária. Acredito que o sucesso internacional deste romance de Freida McFadden seja merecido. Se você não leu esse best-seller, leia-o. Vale muito a pena. E se já teve a oportunidade de conhecê-lo, certamente estará propenso(a) a ver o filme em janeiro ou pegar o volume 2 da série narrativa nas estantes das livrarias. O importante, nesses casos, é seguir degustando as aventuras de Millie Calloway, uma das personagens mais interessantes e carismáticas da literatura norte-americana da atualidade. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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  • Crônicas: Tempos Portenhos - Episódio 5 - Sentando-se à Mesa com os Argentinos

    No quinto relato da série narrativa sobre como é viver em Buenos Aires, faremos um passeio completo pela cena gastronômica da capital argentina. Confira a riqueza e a variedade da culinária local, que muitas vezes passam desapercebidas pelo turista brasileiro. Asseguro que o novo capítulo de “Tempos Portenhos” , a coletânea desta temporada da coluna Contos & Crônicas , está muito apetitoso. Ou como diriam los hermanos : está rico. Re rico ! Afinal, hoje debateremos a   comida e a bebida argentina . A ideia é apresentar em detalhes as surpresas e os encantos que Buenos Aires , uma das capitais gastronômicas da América Latina, reserva a visitantes e moradores. Quando a atividade é sentar-se à mesa  nas margens do Rio da Prata, temos muito o que falar (e, por supuesto , degustar). Por isso, puxe uma cadeira, se acomode aí e prove esta página que tem cheirinho de assado e sabor de vinho Malbec, mas não possui as calorias dos alfajores de doce de leite. Conhecendo o paladar de meus conterrâneos, não duvido que o quinto episódio de meus relatos sobre como é para um brasileiro viver na capital da Argentina  seja disparado o mais aguardado. Para quem aportou por aqui só agora – bienvenido(as) ! –, aviso aos novos navegantes que já tratamos em “Tempos Portenhos” da sensação de segurança de caminhar pelas ruas de CABA  ( Ciudad Autónoma de Buenos Aires ), tema do Episódio 1 – Distopia Paulistana (ou Carioca) , e da paixão dos moradores locais pelas atividades outdoor, assunto do Episódio 2 – Vida ao Ar Livre . Na sequência, discutimos a capital argentina como o paraíso dos pets, em Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes , e as particularidades do castelhano rio-platense, em Episódio 4 – O Espanhol Argentino . Sei que sou suspeito para opinar, mas acho que tal conjunto de textos está bem legal e vale a consulta. Se você pretende visitar ou morar por esses lados, seguem dicas preciosas. E se você só tem sede de conhecimento internacional, “Tempos Portenhos” também pode ser uma boa pedida. Já deu para perceber que a proposta desta série não ficcional é justamente revelar a rotina e a identidade da metrópole que escolhi para viver nos próximos anos, né? Estou em BsAs  (ou Baires , escolha o apelido que preferir) há um ano e meio e, nesse período, reuni impressões e informações suficientes para compartilhar com os leitores do Bonas Histórias . Até o final de  2026, trarei discussões sobre a paixão dos argentinos pelo futebol ( Episódio 6 – La Verdadera Cancha del Fútbol ) , a riqueza da cena artística local ( Episódio 7 – A Capital Cultural da América do Sul ), as alegrias e os perrengues de uma economia pra lá de imprevisível (Episódio 8 – Montanha-russa Chamada Economia), as diferenças das principais regiões da Capital Federal (Episódio 9: Passeio pelos Bairros de CABA) e os relacionamentos afetivos com as nativas (Episódio 10: Amores e Desamores). Sei que temos muuuuuuuuita coisa para discutir e não tenho pressa em trazer todo o conteúdo na coluna Contos & Crônicas . Contudo, vamos focar agora no tema de hoje. Para a conversa sobre  a culinária da Argentina e  a gastronomia de Buenos Aires ficar minimamente organizada, dividi este post em cinco grandes blocos. Assim, além de separar os vários assuntos por seção, dá para fazermos pequenos intervalos durante nossa prosa – quase usei o termo “dedo de prosa”, mas acho que o bate-papo será mais longo do que isso. A ideia é usar essas paradas estratégicas para repor os petiscos na mesa e trocar a erva da cuia. Antes que alguém fale que não precisa, aviso que Dona Júlia me ensinou a sempre oferecer comes e bebes  a quem entra em casa. Não seria diferente no minúsculo monoambiente de Saavedra, transformado em uma espécie de Consulado brasileiro informal dos amantes da literatura, da cultura e das artes. No menu inicial que sirvo de bom grado aos gulosos visitantes do blog, trago uma fornada de empanadas clássicas – de carne suave, jamón y queso  e queso y cebolla . Apesar dos argentinos falarem que essa iguaria local não combina com o mate, confesso que aprecio essa combinação. Tá bom, tá bom! Não precisa ficar bravo(a) comigo. Sei que já enrolei demais. Até para os padrões do Bonas Histórias , em que a corda do texto parece não ter limite para ser esticada, esticada, esticada, esticada e esticada, acredito que tenha exagerado. Desculpe-me, senhoras e senhores. Prometo que não vai acontecer novamente (ao menos não nos próximos cinco minutos). Vou parar com o blábláblá sem graça e a conversa aleatória e, ufa, entrar efetivamente no novo assunto de “Tempos Portenhos” . Até porque, convenhamos, a fome está batendo e precisamos comer algo. Aí vamos nós, meu povo! 1) Indo muito além da carne e do vinho – a grande variedade culinária da Argentina Quando falamos de Argentina e de sua charmosíssima capital, as primeiras coisas que vem à mente dos brasileiros são carne  e vinho . Faça você mesmo o teste, magnânimo guru. Pergunte para um(a) conterrâneo(a) o que ele(a) gostaria de comer e beber em Baires e a respostas será, em 80% das vezes (número respaldado pela última pesquisa do DataRicardinho), parrilla e Malbec. A estatística só não é maior devido ao crescimento considerável nos últimos anos de vegetarianos e abstêmios – onde esse mundo irá parar, Santo Deus?! Para quem não gosta de dados quantitativos e prefere os estudos empíricos, relato de bom grado o comportamento padrão de amigos e familiares que vem me visitar em Mi Buenos Aires Querido . Ainda nas dependências do Aeroparque ou no saguão de desembarque de Ezeiza, eles me questionam sobre qual churrascaria  e loja de vinhos  irei levá-los. Dá para garantir que essa é uma das obsessões de todos os viajantes que falam português que vou buscar no aeroporto. Não importa a região do Brasil que chegam. Eles só pensam naquilo. Naquilo, no caso, é carne e vinho.   Eduardo Villela , meu amigo de infância e diretor da EV Publicações , conseguiu a proeza de nem sequer falar “oi” e “tudo bem?” ao chegar em CABA em dezembro. Tão logo me viu na ala de desembarque do Aeroparque, ainda com as malas em mãos, suas primeiras palavras foram: “Ricardo, em qual parrilla  vamos almoçar?!”. Só não fiquei chateado porque, em compensação, Dudu trouxe uma mala cheia de café e de queijo de Minas para mim. Isso a Globo não fala, né?! Paulo Sousa, outro de meus melhores amigos, escritor de mão-cheia e diretor da Epifania Comunicação Integrada , passou duas semanas em Saavedra em março de 2024. Sua alimentação jamais saiu da combinação carne e vinho. Inclusive, disponibilizei seu relato Buenos Aires – Experiências etílico-gastronômicas  nas colunas Passeios  e Gastronomia . Esse texto está imperdível. Não deixe de conferir. O único problema (que me sinto na obrigação de informar aos visitantes do Bonas Histórias ) é que um leitor acusou aumento considerável de colesterol só de ler a crônica do Paulinho. Juro que não duvido. Mesmo sabendo disso tudo, gostaria de desconstruir a ideia de monocultura gastronômica da cidade que mais amo e moro. Não é porque o brasileiro tem fixação por um só tipo de cardápio que necessariamente Buenos Aires seja uma localidade previsível e monótona. É justamente o contrário. Estamos numa metrópole extremamente rica e versátil. Pois foi a constatação do quão variado e plural é seu repertório culinário que me encantou – tá bom, tiveram outros motivos, mas esse ajudou! Obviamente, para realizar tal descoberta é necessário tempo, disposição e criatividade para fugir das obviedades, elementos que muitas vezes faltam aos apurados visitantes. Se você não acredita em minhas palavras, serei obrigado a apresentar as justificativas da minha tese. Então vamos a elas, senhoras e senhores. O que há além da carne e do vinho em BsAs capaz de maravilhar os bons comensais?! Logo de cara me vem à memoria a culinária italiana . Não por acaso, estamos em uma das cidades mais italianas do mundo. Nesse quesito, como apresentei no post Pizzarias de Buenos Aires – Diferenças e encantos das pizzas portenhas , a capital argentina é muuuuuito mais parecida com a Itália do que São Paulo, que se orgulha dessa possível semelhança. Além das pizzarias  que abrem de segunda a segunda (inclusive no Natal e em 1º de janeiro) das 7h (da manhã) às 2h (da madrugada) – sim, se come pizza  aqui em qualquer horário –, temos em Baires excelentes cantinas e belíssimos bodegones . Você não sabe o que é um bodegón ? Tá vendo o que perdemos ao não mergulhar na culinária local! Prometo que voltarei à coluna Gastronomia  só para detalhar esse tipo de restaurante , que é um dos meus favoritos (não fico uma semana sem visitá-lo) e foi trazido pelos imigrantes italianos (ou teria sido pelos espanhóis?! – agora não sei). O que posso adiantar é que se trata de uma ótima opção para se comer bem e barato em qualquer momento do dia e da noite. O cardápio dos bodegones  é muito mais variado, acredite em mim, do que o menu servido nas padarias paulistanas. Já que falamos da gastronomia internacional , Buenos Aires é farta em oferecer restaurantes franceses, espanhóis, alemães, gregos, peruanos, venezuelanos, paraguaios, brasileiros, cubanos, japoneses, chineses, sul-coreanos, vietnamitas, indianos, árabes, sírios, turcos, judaicos etc. Paradoxalmente, quem visita com mais frequência esses estabelecimentos são os moradores de CABA e não tanto os turistas. Enquanto os visitantes gringos fazem fila e pagam fortunas no Don Julio , no La Cabrera e no Siga La Vaca , por exemplo, (também conhecidos como casas pega-turistas), os portenhos legítimos preferem a culinária global. Para muitos argentinos, o melhor local para se comer carne é em casa. Quando saem para comer fora, eles gostam de novidade e variedade. Por falar nisso, há bairros especializados em um ou em alguns tipos de culinária. O Barrio Chino, como o próprio nome indica, concentra vários estabelecimentos asiáticos. É uma delícia caminhar por suas ruas e provar de corn dog  e melona  a mapo tofu  e bolo da lua. Belgrano e Once, por outro lado, têm vários restaurantes voltados à comida kosher. Em Liniers, encontramos bastante oferta de gastronomia boliviana (desculpem-me argentinos e uruguaios, mas as empanadas bolivianas são as campeãs!!!). E há bairros que são famosos por mesclar as várias culinárias, em uma espécie de Torre de Babel da boa mesa. Quando andamos por Palermo Soho, Palermo Hollywood, Recoleta ou mesmo Belgrano, é comum encontrarmos um restaurante espanhol ao lado de um francês, que está grudado a um bar brasileiro, que é vizinho de um japonês, que fica em frente a uma casa de comida peruana.     Como capital da Argentina, Buenos Aires também tem a propriedade de reunir o melhor da gastronomia regional. É como se cada província levasse o que tem de mais saboroso para a grande metrópole do país. Assim, você encontrará de restaurantes especializados em comida de Tucumán (prove as empanadas de lá, são imperdíveis), Salta (tamal de charqui), Mar del Plata (o alfajor salgado é o melhor), Patagonia (cordeiro patagônico e doce de Calafate), Mendoza (tomaticán) etc. Isso porque não estou falando da influência dos outros países sul-americanos na culinária argentina. Os vizinhos trouxeram para BsAs  pratos como o mondongo (Colômbia), a chipa  – que sempre pensei que fosse argentina – e mandi'o chyryry (Paraguai – beijão, Super Alba!), cevic e lomo saltado (Peru) e porotos granados (Chile). É uma variedade tão grande que chega a ser um pecado gastronômico se alimentar só de carne de churrasco. Por isso, adoro quem se propõe a fazer passeios gastronômicos menos tradicionais. No início deste ano, recebi a visita de um trio muito animado e amalucado de São Paulo – beijo, Marcelinha e Mara, e abraço, Luís. Por mais que tenha curtido algumas vezes la parrilla argentina  (e muito Malbec), a galerinha da Dança & Expressão  mergulhou pra valer foi nas pizzarias locais. Praticamente comemos pizzas todos os dias – cada louco com sua mania. Aí eles puderam conhecer diferentes sabores como Jamón y Morrones  (minha favorita!), Fugazzetta (uma das sete maravilhas da gastronomia moderna) e até a pizza com ovo frito (o prato da vida do Luís). Sim, pizza com ovo frito por cima. Vale a pena ressaltar que todos esses sabores são tipicamente argentinos – invenções feitas por pizzaiolos portenhos ou por pizzaiolos europeus que vieram morar aqui. Portanto, saiba que você não encontrará essas combinações em outros lugares, nem mesmo em São Paulo. Se eu falar para um(a) paulistano(a) que sua visita às pizzarias de Buenos Aires  proporcionará inesquecíveis experiências gastronômicas, certamente ele(a) me chamará de louco. Onde já se viu superar a metrópole paulista quando o assunto é as redondas italianas, hein?! Para quem pensa assim, só tenho uma coisa a dizer: sabe de nada, inocente! 2) Hábitos alimentares distintos – as quatro (ou cinco) refeições diárias na Argentina Os brasileiros que vem viver em Buenos Aires (há muitos estudantes de Medicina que cruzam as fronteiras atrás de universidades gratuitas ou de mensalidades com preços realistas) precisam se habituar com as enormes distinções culturais. Elas aparecem em vários aspectos do cotidiano. E não seria diferente na culinária, né? Por mais próximos geograficamente que sejam Brasil e Argentina (são países vizinhos), quando falamos de gastronomia assistimos por vezes ao estabelecimento de grandes distâncias. Não tem jeito. É sentando-se à mesa que constatamos as diferenças entre os povos. Vou listar, a seguir, algumas surpresas que tive em minha experiência como morador de Baires. Nesse instante, o mote da análise será as características das refeições diárias dos argentinos . Começo tratando da merienda , algo que definitivamente não existe em São Paulo, minha cidade natal. Pelo menos não no último quarto de século – isso era coisa do tempo das minhas avós. Diferentemente dos paulistanos, os portenhos ainda hoje adoram merendar. Merienda  é o lanche da tarde. Porém, não é qualquer paradinha rápida no meio da rotina, não! Ao invés de só enganar o estômago com alguma bobagem ou promover um pequeno intervalo no meio do expediente para um cafezinho (como os brasileiros poderiam supor), los hermanos  gostam de fazer uma paradona que dura no mínimo uma hora. Repare que usei a expressão “no mínimo”. Essa refeição tem caráter formal, principalmente nos dias de semana, e acontece entre 15h e 19h. Porém, o horário é variável, podendo ser mais cedo, substituindo o almoço, ou mais tarde, ganhando tons de merencena  – mistura de cena  com merienda , conforme me foi ensinado por Albita. Esse foi um dos bons hábitos que adquiri em Buenos Aires. Dependendo do dia, quando não paro para almoçar (a vidinha de escritor não é tão tranquila como pensam meus familiares e amigos), aproveito para merendar . E o que rola nessa refeição? Tudo. Desde pizza, empanada, tarta  e sanduíche até salada de fruta, alfajor, torta (enquanto a tarta  é sempre salgada, a torta é doce), iogurte e chipa. Dá para comer tomando café, suco, mate, refrigerante, chá, vinho, cerveja ou água. O mais legal não é apenas o lanche da tarde em si, um hábito que veio do chá da tarde dos ingleses no século XVII (obrigado, Duquesa de Bedford!!!) e que persiste inabalável em pleno século XXI. E sim ver o quanto merendar  faz parte da cultura da capital argentina e o quão prazeroso ele é na prática.        É comum amigos combinarem de se encontrar no meio da tarde para conversar e, aproveitando, comer algo. Vejo estudantes saindo das escolas e das faculdades e indo forrar o estômago (até porque o jantar é servido normalmente bem tarde na Argentina). Os funcionários das empresas fazem paradas estratégicas no meio do expediente vespertino para descansar e, claro, se alimentar. A coisa é tão séria que mais de uma vez precisei esperar os lojistas (tanto do shopping center quanto do comércio de rua) voltarem desta refeição. É algo inimaginável na cultura paulistana, em que não se para de trabalhar nem para o almoço, imagine só para o lanchinho!?! Aqui, eles fecham as portas do estabelecimento no meio da tarde como se todos os clientes fossem entender o motivo. É super comum o portenho agendar dates  para as meriendas – juro que me lembrei agora do filme “Encontro Marcado” (5 to 7: 2014), comédia romântica de Victor Levin com os excelentes Anton Yelchin e Berenice Marlohe. Acho esse hábito excelente. As melhores citas  que tive em CABA foram justamente nesse horário – aprendo rápido com as melhores práticas locais. Afinal, só há vantagens ao se reunir mais cedo com a(o) pretendente, principalmente se for um primeiro encontro. O dia ainda está claro, o que permite ver melhor a nossa companhia (meu Deus, falei agora como o lobo mal!!!). A cidade está bem movimentada, o que aumenta o ar de segurança. E merendar não é normalmente tão caro quanto cenar (desculpem-me o comentário monetário, mas sou pobre e isso é importante para mim). Para completar o pacote de benefícios da cita   de la tarde , se você não gostar da pessoa e do papo, dá para soltar uma desculpa que tem algo mais tarde para fazer e se mandar (quem nunca?!). E se você gostar do crush  e sentir que o date mexeu com seu coraçãozinho, dá para emendar um cineminha, um barzinho ou um parque na sequência. Perfeito, não?! Dessa maneira, a primeira diferença gastronômico-cultural que senti em Buenos Aires foi a presença da merienda . Pelos meus estudos de espanhol, aprendi que merienda  (com “i”) é a refeição e merendar  (sem “i”) é o ato de fazer a merienda . Se eu estiver errado, por favor, alguém me avise. Meu espanhol segue péssimo. Perdão! Ainda na linha das refeições portenhas, temos a cena (jantar) muito tarde. E põe tarde nisso! O jantar em BsAs é quase uma ceia – será por isso que cena  e ceia são termos foneticamente parecidos, hein?! O que sei com segurança é que a cena  acontece normalmente depois das 22 horas. É nesse momento em que as famílias se reúnem e comem comida para valer. Nada de refeiçãozinha leve para ir para a cama. Nananinanão. O lance é pratão com massa, carne e tudo mais o que se tem direito. Pelo que notei, essa é a principal refeição do dia dos argentinos. Se as demais refeições são supérfluas, inclusive o almoço, ninguém renuncia a um belo e substancial jantar. Confesso que esse hábito (ainda) não adquiri. Não gosto de comer à noite e odeio fazer refeições pesadas antes de dormir. Para você ter uma ideia, minha última boa refeição é, quando muito, a merienda às 17h, 18h. Para não ficar com a barriga totalmente vazia, gosto de tomar um chá entre 19h e 20h. E olha que estou dormindo tarde (para o padrão brasileiro): entre meia-noite e uma da manhã. Porque essa mania de ficar acordado até a madrugada, algo intrínseco da cultura portenha, abracei tão logo coloquei os pés por aqui. Em São Paulo, ia para a cama no máximo às 21h. Com a comilança noturna, não é surpresa que os moradores de Buenos Aires não tomem café da manhã – desayuno  no idioma deles. Pelo menos não como nós brasileiros fazemos, com pão, bolo, salgado, omelete e mais um monte de coisinhas gostosas. No máximo, eles tomam um café preto ( café negro , em espanhol) ou um mate (beeeem amargo!) antes de sair de casa em direção ao trabalho e aos estudos. Por isso, sou quase um E.T. em Saavedra. Sinto que os portenhos (no caso, as portenhas) se assustam vendo que acordo com fome e com disposição para engolir tudo o que há na geladeira de casa. Nenhuma das minhas namoradas argentinas comia algo de manhã. No máximo tomavam um cafezinho ou um mate. Prova maior desse hábito dos moradores de não comer nada (ou quase nada) ao acordar é que as padarias  (e as cafeterias ) da cidade abrem muuuuuuuito tarde. No meu bairro, por exemplo, é comum elas erguerem as portas só depois das 9h. Isso no verão, claro. No inverno, quase nada funciona antes das 10h. É complicadíssimo dar tal notícia para os paulistanos, que adoram tomar cafezinho com leite ( cortado  no espanhol da Argentina) e comer pão na chapa (com saída de requeijão) às 6 horas da matina. Quantas vezes já fiz isso em São Paulo, Santo Deus! Quem não estiver com a saúde mental em ordem, certamente precisará de orientação psiquiátrica tão logo descubra que as padocas ( panaderías , no caso) de seu bairro não abrem antes das 9h ou 10h. Até hoje tenho pesadelos com as portas fechadas. Por falar em diferenças culturais, as padarias em Buenos Aires param de operar por volta das 20h. As três que rodeiam minha casa, nem isso. Às 19h estão completamente cerradas . Desconfio que, nesse horário, os funcionários já chegaram em seus lares. Por incontáveis vezes, voltando da caminhada pela Costanera de Vicente López ou da corrida vespertina pelo Parque Saavedra, dei com a cara nas portas abaixadas. Ao olhar no relógio: 19h02. Que raiva! Ah, e esqueça a pegada das padarias paulistanas em que é possível chegar a qualquer hora, sentar-se à mesa e provar uma refeição gostosinha ali mesmo. Em Baires, padaria é só delivery , senhoras e senhores. Com raras exceções, se você quiser se sentar para comer e beber, terá que procurar uma cafeteria, um bodegón  ou uma pizzaria. Sim, é isso mesmo o que você leu, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Algumas pizzarias portenhas  servem café, medialunas , tostados e salgados nas mesas durante los desayunos y las   meriendas . E as panaderías  não. Para completar o drama, nem perca seu tempo procurando pão na chapa. Ninguém por aqui faz ideia do que seria isso. Note que não é por acaso que sinto muuuuuuuuuuitas saudades das padarias de São Paulo!!! Já que trouxe o relato de três refeições, não custa nada completar o ciclo e comentar sobre o almoço, né? Mas o que teria para falar sobre el almuerzo ? O almoço argentino, de modo geral, é parecido com o dos brasileiros. As principais diferenças estão no seu horário e na sua duração. Ele ocorre normalmente mais tarde do que no Brasil. Durante a semana, os restaurantes estão vazios das 12h às 13h. O movimento pra valer começa a partir das 14h. Aos finais de semana, jogue uma ou duas horas mais tarde. Já fui almoçar às 16h aos sábados e domingos e os lugares estavam bombando. Outra distinção cultural muito perceptível é que os argentinos não têm pressa à mesa. Nem durante a semana, quando se imagina que o expediente do trabalho e/ou do estudo exija alguma celeridade. Nesses dias, um almoço entre colegas de profissão demanda entre uma hora e meia e duas horas. E ninguém se desespera para voltar correndo ao batente, não! Aos finais de semana, é possível ver famílias por três ou quatro horas sentadas no restaurante conversando e comendo tranquilamente. Sei disso porque costumo marcar no relógio. Antes que alguém me olhe estranho, aviso que gosto de calcular o tempo em que as pessoas ficam à mesa e a quantidade de cachorros que andam com os passeadores de cão. Por falar em calma, é importante avisar, principalmente para os paulistanos que foram picados há muito tempo pelo vírus da pressa crônica, que o serviço de mesa em Buenos Aires é mais parecido ao do restante do Brasil (talvez um pouco mais lento do que a média brasileira) do que ao de São Paulo. Dou esse toque porque vejo muitos amigos e familiares nervosos com a demora dos garçons daqui. Eles não são lentos nem têm má vontade em atender aos brasileiros, como alguns turistas pensam equivocadamente. É só o timing  deles que é diferente do pessoal de fora (no caso, da galerinha de São Paulo). Se você entender que ninguém será tratado como rei ou rainha num restaurante portenho (não é porque se paga que tudo tem que acontecer instantaneamente ao seu sinal ou às suas ordens), certamente a experiência gastronômica não será frustrante. Por falar em garçom, pegue o hábito de deixar os 10% da propina  (gorjeta). Esse valor não vem estipulado na conta porque é convenção deixá-lo na mesa. Infelizmente, alguns brasileiros não sabem disso (imagino que o problema seja o desconhecimento, tá?) e vão embora sem pagar pelo serviço prestado pelo funcionário. É bom avisar que, diferentemente dos políticos que elegemos, alguns garçons não têm salário fixo e vivem só da propina . Portanto, se não pagamos, eles trabalham de graça. Como consequência, muitos atendentes adquirem birra dos turistas que falam português. Na visão deles, somos um povo ingrato, folgado e muquirana. Às vezes, não tenho como defender meus compatriotas dessas acusações. Para não haver mal-entendidos, é só deixar os 10% na mesa antes de ir embora. Simples assim.    Em relação à comida do almoço, talvez o mais surpreendente para os brasileiros de primeira viagem seja a ausência do bom e velho arroz com feijão. Como assim almoçar sem colocar arroz e feijão no prato?! É, querido(a) filhote de caimão, você terá que superar essa falta/ausência culinária. O lance é que os argentinos nem sequer sabem direito o que é feijão ( poroto  em espanhol). O arroz surge esporadicamente em risotos ou em alguns pratos bem específicos em que há mistura com carne, omelete e vegetais. O fato é que os dois ingredientes mais tradicionais da culinária diária dos meus compatriotas não estão presentes na rotina de Buenos Aires e não são encontrados facilmente nos restaurantes de comida argentina. Durma com essa bomba! A boa notícia é que é relativamente fácil achá-los nos supermercados e feiras – principalmente o arroz. Há alguns mercadinhos especializados em comida brasileira no Centro de Buenos Aires que são a salvação da lavoura. Vou muito ao Neway Market , misto de mercado e barzinho verde-amarelo que fica na Callao y Corrientes (na divisa entre os bairros San Nicolas, Congreso e Balvanera). Lá há inclusive arroz Tio João, o meu favorito. Também aproveito as visitas mensais ao Neway  para comprar tapioca. Confesso que até vivo sem arroz e feijão, mas não passo sem a tapioquinha matinal.   Para achar arroz e feijão nos restaurantes portenhos, a dica é procurar por estabelecimentos de comida cubana (que tem feijões mais gostosos até que os brasileiros), comida paraguaia (eles amam arroz assim como os brasucas) e comida chinesa (com o imperdível arroz primavera). Ou ir aos negócios voltados para turistas brasileiros. Nos famosos pega-turistas, certamente você achará porções desses alimentos, principalmente o arroz. Lembro que quando morei pela primeira vez na Argentina, coisa de vinte anos atrás, minha melhor experiência gastronômica foi no La Brigada , tradicional casa de carnes de San Telmo. Tudo porque, depois de vários meses de completa abstinência do cereal branco (nunca curti feijão), pude comer um belo ojo de bife  com uma porção de arroz. Aquele foi um dos grandes dias da minha primeira temporada em CABA. Para encerrarmos esse segundo bloco da nossa prosa gastronômica de “Tempos Portenhos” , me sinto na obrigação de falar sobre o onipresente mate . Ele adquire o caráter de uma “refeição curinga” ou de um quinto momento para se comer e beber. Exagero da minha parte? Então vamos à explicação pormenorizada, desconfiado(a) leitor(a). O mate, para quem não sabe, é o chimarrão da Argentina. Servido frequentemente bem amargo e quente, ele é degustado de manhã à noite, até no verão. Qualquer ocasião, principalmente encontros sociais, é motivo para se compartilhar a cuia. A obsessão é tão grande do povo local pela bebida que, assim como os gaúchos fazem no Rio Grande do Sul, eles levam para cima e para baixo a garrafa térmica, a cuia e o pote de ervas. É super comum encontrarmos os portenhos caminhando na praça ou pegando ônibus com a malinha do mate embaixo do braço. E, claro, degustando a bebida em todos os cantos da cidade. Pelo que entendi das falas e comportamentos da minha antiga professora particular de mate (saudades, July!), mais do que um hábito alimentar trata-se de um código social gravado no DNA da cultura argentina. Se você vai se encontrar e/ou prosear com um(a) argentino(a) seja em casa, na rua, no parque, na sala de aula, na praia ou na costanera, não dá para fazer no seco. Alguém precisa levar o mate. É uma obrigação moral e cívica. Assim, a dinâmica de partilhar a cuia ao longo das horas é sinal de amizade e companheirismo. Admito que me apaixonei por essa prática. Se quando vivi em Porto Alegre demorei para me afeiçoar ao chimarrão, aqui me entreguei facilmente aos prazeres do mate. Principalmente no inverno. Reconheço que no calorzão é difícil tomá-lo. Já quando a temperatura cai para baixo dos 10ºC, bebo inclusive sozinho em casa. Por curiosidade, enquanto escrevo essas linhas, estou degustando um. Sou ou não sou um portenho agora, hein?!    O argentino bebe tanto mate, mas tanto mate que às vezes tenho a impressão de que esse hábito se configura quase que em uma refeição informal. Porque enquanto toma a erva com água quente, sempre dá vontade de comer algo. Inclusive, minha professorinha me ensinou que não se deve beber mate em jejum. Dessa maneira, sempre tínhamos algo para beliscar. Podia ser salgado ou doce, não importa. O importante era forrar um pouco o estômago durante a hidratação. Como consequência, após a ingestão de litros e litros da bebida e de alguns incontáveis petiscos, não sentíamos/sentimos fome por um longo período. Será que é esse o segredo para as argentinas (juro que não reparei na silhueta dos argentinos) serem tão magrinhas? Desconfio que sim. Não sei se tem alguma relação (quanto maior o consumo de mate, mais magra é a pessoa), mas depois que passei a incluir a cuia e a garrafa térmica em minha rotina, emagreci dez quilos em três ou quatro meses. Acredite se quiser. O que está tocando? Essa música se chama “Guacamole”. É a minha canção favorita. É boa, não é?! O cantor é Kevin Johansen . Sou tão fã dele que comentei há alguns anos sobre seu repertório e sua trajetória artística na coluna Músicas . E no ano passado, fui a “Quiero Mejor” , seu mais recente show em Buenos Aires. Ouça essa parte: “Vamos a comer a lo de Beto, que nos hizo guacamole!/Carne con frijole', carne con frijole'!/Cuchufrito, habichuela, hot tamale, trucha al escabeche/Con café con leche, con café con leche/Chimichurri, zucundún con chequendengue, Caraguatatuba/Y uma caipiruva y uma caipiruva/Un poquito de manteca, cuatro cucharada e' milanesa/Queso con frambuesa, pongan bien la mesa!”. Não é ótima?! 3) Novidades do cardápio – aproveitando o melhor da culinária argentina Algo que aprendi ao morar em muitos lugares diferentes (às vezes, me sinto quase que como um andarilho) foi aproveitar o melhor da culinária de cada localidade. Ao invés de ficar me lamentando ou reclamando da falta disso ou daquilo, simplesmente abraço com empolgação as novidades e curto as particularidades da região em que estou vivendo. Há quem chame esse hábito/comportamento de maturidade. Até pode ser. Ainda assim, prefiro vê-lo como hedonismo de alguém que é maluco, maluquinho pelos prazeres à mesa. Em Porto Alegre, me encantei com o arroz carreteiro, o churrasco, a pizza de strogonoff e a à la minuta, além, claro, com o cachorro-quente do Rosário e o X-salada da Lanchera. No Sul de Minas (que saudades de lá, meu Deus!), a paixão foi pelos pães de queijo, pela cocada (na verdade, por todos os doces desse pedacinho do Brasil), pelo cafezinho tirado na hora e pelo feijão tropeiro (e olha que nunca fui muito de feijão). Em Varginha especificamente, fiquei fã dos hamburgueres – quem é de lá entenderá a referência. Do Nordeste, trouxe o hábito da tapioca matinal e a admiração pelo bolo de rolo, pela carne de sol e pelo cuscuz (se bem que ainda prefiro o cuscuz marroquino). De Manaus e Curitiba, sinto saudades do abacaxi (melhor abacaxi do muuuuuuuuuuundo) e do pão no bafo, respectivamente. Do interior de São Paulo, minhas memórias afloram com o suco de milho e o bolo de milho. Ai, ai, ai. Por que fico lembrando dessas coisas?! Deu para notar que não sou gordinho à toa, né? Mesmo dez quilos mais magro (ou menos roliço), ainda falta bastante para eu chegar a uma circunferência digna. Quando volto a morar em São Paulo, aí me delicio com os quitutes tradicionais da minha terrinha. Quem disse que Sampa não tem uma gastronomia característica, hein? Meus lugares favoritos na selva de pedra sempre foram as padarias (bauru, coxinha de frango com catupiry e pão na chapa com saída com requeijão – se acompanhados com uma longa prosa com Paulinho, Enzo e Debinha melhor ainda!), as feiras-livres, no caso as pastelarias delas (pastel com caldo de cana é o suprassumo da culinária outdoor), e as pizzarias (qualquer pizza paulistana me agrada). Com a crença inabalável de não olhar o que estou perdendo e sim o que estou ganhando no novo lugar em que passo a morar, Buenos Aires foi uma gratíssima surpresa. Vou listar nessa parte da quinta crônica de “Tempos Portenhos” os hábitos alimentares que adquiri na capital argentina. Por supuesto,  não me esquecerei de citar também as ciladas e as esquisitices que encontramos nessa charmosa cidade. Começo pela medialuna , item indispensável na culinária local e maior paixão argentina da Marcelinha (depois da Mafalda). E não vai pensar que se trata de croissant. Medialuna é uma coisa, croissant é outra coisa. Só não sei explicar a diferença. Perdão pela ignorância! O que posso garantir com a convicção dos gordinhos felizes é que as minhas medialunas favoritas são as de manteca . Elas são perfeitas para um desayuno  mais requintado ou para una rica merienda . Curiosamente, em São Paulo, comia croissant duas ou três vezes AO ANO. Em BsAs, compro medialunas  pelo menos uma vez POR SEMANA. É uma diferença substancial. E apesar dos protestos das argentinas (e até da uruguaia de Belgrano), não consigo comer medialuna de manteca  sem nada – como os locais fazem com muito gosto. Sempre passo muito requeijão ou mesmo manteiga. “Mas já tem manteiga, Ricardo! Não precisa colocar mais!”. Pode até não precisar, minhas queridas, mas que fica bom com o complemento, ah isso fica. Pensando bem, talvez ainda falte muito para eu me tornar um legítimo portenho. Outro item que foi incorporado naturalmente à minha rotina alimentar foi a empanada . Se antes de vir para cá comia raramente esse quitute (geralmente quando a Tia Gê lembrava de fazer), agora não passo a semana sem prová-lo. Vou frequentemente às unidades do Tomasso  ou do Big Pizza , redes populares que vendem pizzas e empanadas, mais perto de casa e faço a festa. Sei que os produtos desses lugares não são os melhores que podemos encontrar na cidade, mas dá para o gasto. Minhas favoritas são as empanadas de queso y cebolla , jamón y queso  e carne suave , nessa ordem. Quase sempre, monto um mix desses três sabores em minhas visitas às empanaderías . Na minha cabecinha curta (ou seria no meu estômago longo?), as empanadas combinam perfeitamente com la merienda  – só não fale isso perto dos argentinos, por favor.     Ainda na linha “não comia antes e agora não vivo sem”, preciso falar do alfajor . Em São Paulo, quando muito, o provava uma vez por ano. Talvez uma vez a cada dois anos. Sei lá. Esse é um doce que passa desapercebido da rotina dos brasileiros. Comigo não era diferente. Contudo, agora em Buenos Aires, os compro semanalmente. Juro que não consigo ficar muitos dias sem me lambuzar com um alfajor de chocolate ou de doce de leite. Aí podem ser os industrializados mesmo (bon o bon triple e Cofler Block double são os melhores) ou os caseiros (o da cafeteria Moshu em frente de casa é um espetáculo!). Outro dia estava pensando sobre tal mudança de hábito/comportamento. Em Buenos Aires, o pessoal não come muito chocolate, daqueles que compramos nos caixas das padarias no Brasil. Os chocolates aqui são caros e não são gostosos. Dessa maneira, para aplacar a vontade de doce que vive batendo na gente no meio do dia ou à noite, a melhor alternativa é o alfajor. Ele é gostoso, barato (mais barato do que os chocolates) e aplaca a necessidade de açúcar. Talvez a maior surpresa que eu tenha vivenciado nessa passagem por Buenos Aires foi a mudança da minha relação com o doce de leite . Nunca gostei muito dele. Verdade verdadeira. Sempre o achei muito forte, adocicado e enjoativo. Só o comia quando surgia como ingrediente de um bolo e de uma receita que me eram servidos numa festa ou numa visita à casa de alguém. Óbvio que eu não recusava. Ninguém é gordo por acaso. Sin embargo, nunca he sido fanático de los dulces de leche . Assim, dificilmente o consumia no dia a dia. Era impensável, por exemplo, comprar bolacha de doce de leite no supermercado ou pedir um sorvete desse sabor. E o que dizer, então, de adquirir um pote no mercado para levar para casa? Impossível. Impossível, no caso, no Brasil. Na Argentina, esse item se tornou rotineiro na minha lista de compras. Juro que não sei como esse milagre se efetuou. Só sei que, após alguns meses por aqui, uma das atrações gastronômicas do meu apê é comer bolacha de chocolate (de preferência a Chocolinas, que não tem gosto de nada) com doce de leite geladinho. Hummmmm. Essa combinação é perfeita. Sabendo disso, quando hospedo brasileiros em casa, a primeira coisa que ensino é o caminho até a geladeira e o poder da mistura das galletitas  com os dulces de leche . Dos meus hóspedes mais recentes, os maiores fãs dessa dobradinha foram Menino Paulo (e olha que ele não é de doce) e Menina Mara (que não nasceu efetivamente formiga por um detalhe da composição do DNA). E qual doce de leite você costuma comprar, Ricardo? Boa pergunta, intrépido(a) amigo(a) imaginário(a) que insiste em visitar meus textos. Para sua ótima indagação, apresento a resposta mais rasteira do meu portfólio: o mais barato. Como me ensinou uma linda médica natalense (ou futura médica, como preferir), todos os doces de leite argentinos são excelentes. Então, vá pelo preço (no caso, o menor) que você não se arrependerá. Muito sagaz essa moça, não?! A partir desse insight, só compro o que estiver em promoção.      Já que entramos na seara dos doces, o que falar do sorvete argentino ?! Mamma Mia! Asseguro que ele é maravilhoso. Juro que ainda não tomei helado  ruim em Buenos Aires. Se você não der sorte e porventura entrar num lugar em que eles não são ótimos, no pior dos casos serão muito bons ou só bons. Porém, aviso: será complicado não os adorar. Geralmente vou ao Grido Helado , uma das mais baratas redes de sorveterias da Capital Federal. Como já disse, sou pobre e não tenho muito dinheiro para gastar. No Grido , quase sempre peço o Bombón Escocés – Sub-30, você tinha razão, o Bombón Escocés é muito melhor do que o Bombón Suizo. Ainda assim, todos os produtos dele são incríveis. E olha que essa é uma heladería  chinfrim (para o padrão portenho, claro). Em outras palavras, se eu já gostava de provar os sorvetinhos no Brasil, chegando à Baires aumentei bastante as visitas a esses estabelecimentos. Mesmo na friaca que faz na maior parte do ano, é impossível não entrar e pedir um helado . Nessas horas, costumo ir de vanilla , chocolate clásico  e dulce de leche . No Freddo , meu preferido é o chocotorta  – mistura de chocolate e doce de leite. O ser humano (se foi um ser humano...) que inventou isso terá seu lugarzinho reservado no céu, no caso de ainda não ter batido às botas.     Para ninguém pensar que me transformei em um sacaromaníaco (eu, imagina!), trago para o debate as frutas argentinas . Esse país tem cada fruta deliciosa. Acho que muitos brasileiros já conhecem o sabor das maçãs daqui. Elas são as melhores que já provei. Não consigo fazer compras para casa e não trazer meia dúzia das mais vermelhinhas. Por outro lado, confesso que não acho as peras daqui tão apetitosas. As do Brasil me parecem mais saborosas (principalmente a pera portuguesa, minha predileta). O que não tem comparação são os morangos. O que são os morangos vendidos em Buenos Aires, senhoras e senhores?! Além de gigantescos, são muito doces. Dá para comê-los sem acompanhamento nenhum. Só acrescento creme de leite ou doce de leite porque sou safado, mas precisar, precisar, não precisava. Talvez as frutas expliquem bem a importância de nos adaptarmos à realidade local. Em São Paulo (Rio Grande do Sul, Minas Gerais etc.), adorava comer melancia, melão e caqui. E não vivia sem devorar uma bela salada de fruta à tarde. Na minha cumbucona com granola e aveia, iam mamão, banana e maçã. Em poucos dias em CABA, percebi que não seria possível fazer essa combinação afrutisíaca – perdão pelo neologismo! Em primeiro lugar, o mamão daqui é muito caro e ruim. Risquei-o da lista de compras na primeira semana. A banana também tem uma qualidade discutível. A cada três compras, fico frustrado em duas. Além de estragarem rapidamente (muitas vezes já chegam passadas e pretas), não são tão gostosas. Dessa maneira, passei a comer a maçã sozinha (adeus, salada de fruta). E a melancia, o melão e o caqui, Ricardo? Esquece, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Os dois primeiros são caros e deixam a desejar. O último não vi em lugar nenhum (nem sequer sei o nome dele em espanhol). Talvez a maior frustração para um paulistano, como eu, seja o pão portenho . Se até aqui listei essencialmente as boas novidades que encontrei em Buenos Aires, preciso abrir espaço para uma gigantesca decepção. A panificação local é uma tragédia. Pelo menos do ponto de vista de alguém vindo da capital de São Paulo. Não sei explicar o que se passa, só sei que é assim. Até Chicó, que jamais veio para esses lados nem foi para Sumpaulo, iria concordar comigo. Os pãezinhos da minha terra natal são muuuuuuuuuito mais gostosos do que os da minha nova cidade. Talvez tenha ficado mal-acostumado. E olha que já visitei várias panaderías  em BsAs e já provei todos os tipos de pães argentinos. A coisa é tão louca, mas tão louca, que os melhores pães que você provará em piso hermano  não serão servidos nas padarias e sim nos restaurantes. Muitas casas de carne, cantinas e bodegones fabricam seus próprios pãezinhos. E, acredite se quiser, eles são geralmente deliciosos e chegam quentinhos à mesa. Quanto melhor for a comida principal, melhor costuma ser a entrada. Portanto, depois de enfrentar a dificuldade para achar uma padaria operando (lembre-se que elas abrem super tarde e fecham super cedo) e sofrer para decorar os vários nomes dos produtos no espanhol rio-platense ( flauta , flan , milonga , baguete , mignon , pan francés , pan flute , flauta dulce  etc.), sua experiência de consumo não será das mais agradáveis. Ouço até os brasileiros de fora do estado de São Paulo reclamando. Portanto, não é coisa só de paulista chato. Tenho uma teoria que os próprios argentinos sabem que seus pães não são bons. Pelo menos os atendentes das panaderías  de Buenos Aires têm ciência disso pelo comportamento demonstrado no dia a dia. Porque a maneira como eles tratam os produtos vendidos diz muito sobre a qualidade do que é ofertado. Faça você mesmo o teste que vou relatar a seguir. Eu o tenho realizado há meses e nunca o script é diferente. É hilário. Depois de um tempo, começamos a achá-lo tragicômico. Do jeito que falo/escrevo, até pode parecer um texto de ficção, coisa de um escritor com a mente criativa. Porém, não é invenção da minha parte, não! É a realidade nua e crua da cidade em que vivo (e tanto gosto!). Vá a uma padaria (pode ser qualquer uma) e peça medialunas (ou algumas facturas  de sua preferência). E repare na postura do rapaz ou da moça do outro lado do balcão. Logo de cara é perceptível que seus olhos brilham. A alegria deles é contagiante. Eles pegam uma bandejinha de papelão para depositar o que foi solicitado. Às vezes, colocam um papel vegetal sobre a bandeja. Em seguida, vestem um par de luvas descartáveis e, com uma pinça em mãos, retiram delicadamente as medialunas / facturas  do cesto ou da vitrine. Como se fossem cirurgiões em momentos-chave da intervenção médica, colocam com todo o capricho do mundo os produtos no suporte de papelão. Depois, acrescentam mais um papel vegetal por cima. Aí embrulham o pacote em um bonito papel com o emblema do estabelecimento. Ainda passam durex, para se certificar que o embrulho, tal qual um presente de Natal ou um recém-nascido bem agasalhado, não abrirá no caminho até a casa do cliente. Por fim, colocam a compra no melhor saquinho plástico que encontram na padaria. Para encerrar com chave de ouro a operação que pode durar alguns minutos, independentemente da fila que vai se formando no salão de vendas, entregam para você o pedido com um enorme sorriso no rosto. A impressão é que a maior felicidade não é de quem provará o quitute e sim daquele que o embalou. Só diz que o desfile das escolas de Samba no Carnaval do Rio de Janeiro é o maior espetáculo da Terra quem nunca assistiu aos argentinos embalarem as medialunas  nas panaderías de Mi Buenos Aires Querido . Vá neste estabelecimento nos dias seguintes no mesmo horário. E faço um novo pedido para o(a) mesmíssimo(a) atendente. Só que dessa vez, peça alguns pãezinhos. Pode ser qualquer pão: flauta , flan , milonga , baguete , mignon  ou francés . Eu quase sempre compro flautas . Só não pode solicitar medialuna  ou qualquer outra factura , tá? Tem que ser pão. Só pão para essa segunda fase do nosso teste empírico ter validade. Feita a requisição, repare no quão diferente é a reação dos funcionários. De repente, o sorriso que nutriam com sua chegada desaparece. A cara que fazem é: “não acredito que vou ter que pegar pão comum para esse sujeitinho aí!?”. Com toda a má vontade do mundo (alguns arrastam o pé como se tivessem acabado de descobrir um problema grave de locomoção), vão até o cesto/vitrine e retiram o que foi pedido com as mãos. Com as mãos! Se você tiver o mínimo de sorte, os atendentes se lembrarão de colocar um saco plástico na palma (luvas descartáveis nem pensar para essa situação) antes de manusear o produto. Aí eles jogam (não estou exagerando quando uso o verbo “jogar”) o pão no primeiro saco de supermercado que seus olhos acham por perto. Saquinho de padaria? Esquece, meu/minha amigo(a). Esse artigo não tem por aqui. E se tem, é usado exclusivamente para embalar as medialunas  e as demais facturas – em uma nova camada de papel que deixa o embrulho impecável. A primeira vez em que vemos o pão sendo atirado brutalmente no saco de supermercado nos sentimos mal. É uma cena realmente forte, muito forte, principalmente para quem adora os pãezinhos (e tem algum cuidado com a higiene alimentar). Contudo, garanto que você se acostuma. Da terceira ou quarta vez em diante, não se incomodará. É mais ou menos o que os argentinos passam quando vão morar em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Na primeira vez em que têm os celulares roubados na rua, eles se assustam e ficam mal. Depois da terceira ou quarta vez, aquilo entra na rotina e não há mais surpresas. É tudo questão de hábito e de se adaptar à cultura local. Voltando para a padaria portenha... Aí os funcionários atiram (outro verbo escolhido para descrever com perfeição à reação da bem treinada e motivada equipe do local) o saco plástico quase sempre xexelento em cima do balcão. Se você não estiver atento, pode ser que ele caia no chão. Por isso, não dê bobeira. Agarre se algo pular para fora do balcão. Nesse instante, os atendentes olham para você com cara de poucos amigos e fazem a delicada pergunta: “Algo más?!”. Se você, meu/minha querido(a) e inocente brasileirinho(a), falar “nada más”, saiba que você terá feito um inimigo implacável no bairro. Enquanto você não voltar lá e não pedir algumas medialunas , sua pessoa e toda a sua família serão odiadas. Não está acreditando em mim? Faça, então, essa experiência. O resultado é assustador. Agora falando sério: dá para viver bem sem pãozinho de qualidade? Dá. Existem várias alternativas para suprir a ausência desse item na mesa. A medialuna de manteca é uma belíssima opção – entendeu agora o porquê a incorporei no cardápio?! Os pães de forma também são outra possibilidade. Como já disse, costumo recorrer à tapioca, que compro no Neway Market  ou que a brasileirada me traz. O que não concebo é viver sem um bom café em casa. Pelo menos no meu lar, isso é impensável. É só falar de café na Argentina que aí o caldo entorna para os brasileiros. Não por acaso, tal aspecto foi o que mais me assustou quando cheguei a Buenos Aires. Se a questão do pão foi uma decepção, o problema do café é uma tragédia. Se os produtos oferecidos pelas cafeterias da cidade são excelentes (alternativa preferida dos turistas), os vendidos nos supermercados são péssimos e caros (a opção principal dos moradores de Baires). E falo com propriedade de causa: testei vários. VÁRIOS! NENHUM pode ser considerado minimamente aceitável. Após algumas semanas de sofrimento, passei a fazer cappuccino caseiro – receita da Dona Cidinha que desenterrei. Era melhor do que os cafés argentinos vendidos nos mercados. Qualquer coisa era melhor do que os pacotes dos hermanos . Mesmo assim, admito que não estava totalmente feliz. Meu cappuccino era/é razoável (houve até lotes exportados para o bairro de Almagro, na época da imersão cultural com a geração Z), mas não era/é um café, caféééé, daquele que aquece a alma e alimenta o espírito. O drama durou até a chegada da primeira leva de visitantes brasileiros. Como requisito para hospedá-los em casa, comecei a cobrar uma singela comissão: pacotes de café brasileiro. A partir daí, fez-se a luz. Agora, o problema é arranjar espaço no armário para armazená-los. Cada grupo de visitante que desembarca em CABA e fica em Saavedra quer superar em quantidade o grupo anterior. Eduardo Villela  apareceu em dezembro com doze pacotes (eu disse DOZE!!!), recorde absoluto até agora. Importante avisar que recordes servem para serem batidos. Jejeje. Não é preciso dizer que Dudu ganhou um cantinho no céu. No meu apê, a geladeira e a dispensa até podem viver vazias (algo normal em fase de câmbio cada vez mais desfavorável para o pobre e combalido real). Porém tenho café para alguns anos. De todos os sabores e marcas. Ufa! 4) Não dá para negar a realidade – Buenos aires é mesmo o paraíso da carne Estamos conversando há um tempão sobre comes e bebes da capital da Argentina e não entrei ainda no tema preferido de 8 entre 10 conterrâneos (novamente a fonte é o DataRicardinho). Claro que estou me referindo à dupla imbatível “carne e vinho”. Sendo sincero no nosso bate-papo, até trouxe esse assunto no começo deste post de “Tempos Portenhos” . Aposto que você se lembra. Entretanto, o intuito foi desconstruir a ideia de que Buenos Aires seria uma cidade de uma só nota (está bem, duas notas) melódica(s). Nota(s) melódica(s) no quesito culinário, tá? Na cabecinha da maioria dos brasileiros, BsAs é sinônimo de carne & vinho e vinho & carne. Se fui minimamente bem-sucedido na minha argumentação, acho que ficou mais ou menos evidente a pluralidade da cena gastronômica do lugar que escolhi para viver. Por melhor que seja essa combinação (e ela é!), vejo como um desperdício de tempo, energia e experiência sinestésica se limitar às parrillas e às copas de vinos  quando se busca bons momentos à mesa.    Agora que alinhamos o mindset  (há mais ou menos dez anos não usava essa palavra), podemos retornar ao início da nossa prosa e falar de carne e vinho sem medo da consciência ficar pesada – só a barriga pode se avolumar. Porque sim, estamos no paraíso das carnes bovinas e dos vinhos Malbec. Tudo o que você ouviu (e não ouviu) de positivo a respeito dessa temática era verdade. Só não dava para abrir meus relatos por tal seara, né? Do contrário, meu texto pareceria recheado de clichês culinários e temperado com o sabor do mais do mesmo. Você pode acusar o Bonas Histórias  e a coluna Contos & Crônicas  de tudo, menos de cair no senso comum e de trazer conteúdos rasos. Cruz-credo! Seguramente não há metrópole no planeta que permita que comamos carne tão bem quanto Buenos Aires. Meus amigos uruguaios vão me desculpar, mas mesmo Montevideo não chega aos pés de sua vizinha do outro lado do Rio da Prata. A diferença entre as duas capitais do cone Sul do continente não está na qualidade do que é ofertado. Ambas são excelentes e ganham avaliação máxima no quesito churrasco – CHURRASCO, noooota 10!!! Se há algo que argentinos e uruguaios são disparadamente os melhores do mundo é na arte de preparar e servir uma memorável parrilla . A principal distinção está no porte de seus cenários gastronômicos. Como Baires é uma cidade maior e mais dinâmica, as opções se potencializam. Em Montevideo, a sensação é que falta movimento e variedade. Sempre que vou à capital uruguaya , fico com a impressão de ter visto tudo e de que não surgiu nada de novo nos últimos anos. Aí está o grande mérito de Buenos Aires. Você encontra boas carnes em todos os lugares. Além disso, estão sempre surgindo novidades. Estou há um ano e meio aqui e sigo descobrindo pérolas ocultas. A última grata revelação foi o La Entrañita , em San Telmo. Numa portinha pouquíssimo convidativa para turistas na Calle Venezuela, se encontra um vacio delicioso a um custo-benefício que nem mesmo o câmbio desfavorável é capaz de estragar. Tudo num ambiente extremamente simples para quem não é afeito à badalação e à pompa. Notei que os clientes estavam ali por causa do sabor da comida e não pela beleza da ambientação ou pelo status do estabelecimento. Não por acaso, eu era o único gringo nas apertadas mesas do barulhento salão. Apesar do meu exemplo acima, os bons restaurantes não estão concentrados no Centro nem no setor turístico da cidade. Eles estão espalhados por dezenas e dezenas de bairros. Para ser bem franco com quem me lê, até acho que as melhores casas de carne são aquelas que atendem aos moradores e não aos visitantes. Aqui em Saavedra, uma localidade no extremo da Zona Norte onde se vive prioritariamente argentinos (acho que sou o único brasileiro nas redondezas, pois o maior contingente de estrangeiros é de russos e ucranianos), tem algumas excelentes parrillas . A minha favorita é Los Amigos de Siempre , que visito semanalmente – “ Martina, te pido, por favor, un bife de chorizo con papas fritas del menú executivo ”. Mas não é a única. Tem várias churrascarias primorosas! Em Núñez, bairro vizinho, sou fãnzaço do BesAres Parrilla . Quase sempre saio rolando de lá e com um sorrisão no rosto. Em Chacarita, numa caminhada um pouco mais longa, gosto de ir ao Barcelona Asturias . Eles têm uma carne al horno con papas españolas  que é uma coisa. Se bem que essa última citação é um bodegón  e não uma churrascaria. É possível notar a cultura da parrilla  em Buenos Aires principalmente aos domingos e feriados. Proponho um novo teste para você. Caminhe pelas ruas e avenidas portenhas entre 11 e 16 horas. Se der, visite algum parque ou dê um pulo na Costanera (calçadão à beira do Rio da Prata). Um dos elementos que mais chamam minha atenção até hoje é o cheiro de churrasco que a cidade exala nos dias de descanso. A sensação é que todos estão fazendo parrilla . Quando volto do passeio dominical (geralmente faço uma caminhada de algumas horas pela Costanera de Vicente López) e dou uma olhada pelo terraço do meu apartamento, noto que não se tratava de uma mera impressão. Boa parte dos vizinhos está mesmo entretida nas churrasqueiras de suas varandas. Porque é impensável uma casa ou um apartamento daqui sem um local para preparar as carnes. E aqueles que não estão entretidos no preparo do almoço, certamente estão visitando um dos restaurantes do bairro que bombam naquele horário. A variedade das carnes acompanha a pluralidade de locais para degustá-las. Há cortes nobres que podem ser pedidos em qualquer lugar, como o bife de chorizo   (seria a nossa alcatra), ojo de bife   (uma espécie de contrafilé), asado de tira (mais ou menos como a costela), lomo   (nosso filé mignon) e solomillo   (lombinho). Se você não quer errar, vá de um deles. São todas carnes bovinas de primeira e proporcionam uma experiência magnífica aos mais exigentes comensais. Confesso que raramente vejo um portenho pedir ou fazer ribeye , filet mignon, T-bone ou picanha brasileira. Vamos combinar que esses são itens voltados para fazer a cabeça da turistada pouco conhecedora da gastronomia argentina. Por isso, desconfie se o restaurante em que você estiver oferecer esses cortes como as melhores alternativas da carta . Certamente, você está num legítimo pega-turista – estabelecimento que não oferece a melhor experiência culinária local e ainda assim cobrará beeeeeeem caro pelo que lhe foi entregue na mesa.      Para quem não quer ficar só nos cortes nobres, há outras excelentes opções, como vacio , tapa de cuadril e costillita  (juro que até hoje não sei a diferença do asado de tira para a costillita, mas tudo bem). Sou suspeito para falar, pois sou apaixonado tanto pelo vacio  quanto pelo tapa de cuadril . Comeria essa dupla tranquilamente todos os dias. Dói no coração pensar que não são carnes nobres. Só na Argentina para algo desse tipo acontecer, né? Porque em qualquer outro país esses cortes seriam considerados de primeiríssima linha. Só não curto muito a costillita pela quantidade de ossos, mas é inegável que seja uma carne saborosíssima. Também não peço muito asado de tira pelo mesmíssimo motivo. Pode ser coisa minha (ou de um paulistano que não entende nada da cultura churrasqueira), mas os termos “osso” e “churrasco” não combinam um com o outro. Sei lá. É coisa da minha cabecinha. Os melhores temperos das parrillas  são o chimichurri , molho picante feito com salsinha, alho, cebola, pimenta, orégano, pimentão, mostarda, vinagre, azeite de oliva e mais alguns condimentos, e a salsa criolla , uma espécie de vinagrete latino-americano feita à base de cebola, pimentão, tomate, vinagre, azeite e mais algumas coisas que não sei o que são. O chimichurri  e a salsa criolla  são colocados nas carnes no momento de comê-las. Muitos hermanos  gostam de misturar um pouco de cada. Eu prefiro colocar um ou outro para sentir seus sabores. O churrasco ganha outra dimensão quando complementado com esses molhos. Como a carne argentina é servida sem sal, quando colocamos o chimichurri  e/ou a salsa criolla estamos temperando o prato. Aí ele fica apetitoso. Quem não quiser utilizá-los, certamente terá que colocar sal na carne para sentir o sabor. Por falar nisso, quase nenhuma comida servida na capital argentina vem temperada. Essa é uma tarefa que os comensais fazem na mesa. Só tome cuidado com o hábito argentino de comer carnes pouco aceitáveis para o paladar dos brasileiros. Ou, no caso, da maioria dos brasileiros. Talvez os sulinos (beijinho, Gaby) e quem foi criado em fazendas no interiorzão (abraço, Dudu) consigam entender a adoração dos hermanos pelas partes esquisitas das vacas e dos porcos. Quer deixar um argentino feliz é lhe servir chinchulin  (intestino delgado), riñones (rins) e morcilla  (espécie de linguiça ou salsicha com SANGUE!). Repare que nem os nomes são convidativos: chinchulines , riñones  e morcillas . Aos meus ouvidos sensíveis, soam como filmes de terror. Sempre que os vejo no cardápio ou na churrasqueira, me afasto como se estivesse diante do capeta.   O problema é que esses são itens indispensáveis numa boa parrilla  (churrascada). Aqui vale a pena um parêntese. A palavra parrilla tem quatro significados distintos em espanhol, que em português ganha quatro palavras diferentes. Pelo menos foi essa a interpretação que fiz e que adquiriu algum sentido lógico no meu mundinho. Se eu estiver errado (o que não é difícil), por favor alguém me corrija. Parrilla pode ser: (1) a churrasqueira (onde se prepara a carne); (2) o churrasco em si (a carne do churrasco); (3) a churrascaria (restaurante especializado na venda do churrasco); e (4) a churrascada (evento social/familiar em que o prato principal é o churrasco). Por isso, sinalizei algumas vezes no texto o real sentido da palavra parrilla  em nosso idioma. Estou mencionando tal questão porque se você for convidado para uma parrilla , pode ser que seja para ir a uma churrascada. Antes de se empolgar, saiba que a churrascada argentina é constituída por muitos chinchulines , riñones  e morcillas . Eca! Quase sempre, essas são as carnes mais esperadas pela galerinha local e, portanto, têm em grande quantidade. Em outras palavras, a tradicional parrilla argentina  (no sentido de churrascada) é sinônimo de cilada para os brasileiros sem a alma rural. E tenha a certeza de que pela amabilidade dos anfitriões desse tipo de evento, eles vão querer que você experimente “só uma porção” dessas iguarias. Não sei se você é como eu, mas prefiro pular na piscina e tentar um afogamento do que provar rins e intestinos bovinos e linguiça com sangue. Se não tiver piscina, tento o suicídio numa pia de banheiro mesmo. A parrilla (churrascada) é servida em muitos restaurantes e parrillas  (churrascarias) de Buenos Aires. O turista brasileiro desavisado pensa que se optar por esse item do cardápio receberá ótimos cortes e excelentes carnes. Em muitos casos, é inclusive propagado que o prato dá para três ou quatro pessoas (o que é verdade). O que ninguém avisa é que a maior parte do que é servido ali será desprezada pelos brasileiros nascidos nas grandes cidades do Paraná para cima. Se você for fresquinho como eu, conseguirá comer uma pequena porção do que é ofertado. Por mais que chegue à mesa uma bandeja cheia de carne, o maior volume é de chinchulines , riñones e morcillas. Aí não! Pior é que não dá nem para levar para casa o que sobrou. No meu apê por exemplo, não entra essas partes dos bichos mortos. Nananinanão. Eles estão proibidos de passar pela porta. Uma de minhas paixões do universo da parrilla argentina  é o chorizo  (linguiça). Porque um bom churrasco não é feito só de carne bovina, certo? Eu não fico sem o choripan (chorizo + pan = choripan), sanduíche de linguiça com chimichurri ou salsa criolla. Sempre peço com chimichurri pois o casamento dele com  chorizo  é perfeito! Nos jogos do Platense, simpático time do bairro de Saavedra, passo no A Mofar , considerado o melhor restaurante de 2024 pela crônica CABA que não acaba , e devoro um choripan con fritas. Se as partidas do Timão no Pacaembu pediam pastel (não ria, sou do tempo em que os duelos do Coringão eram no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho), aqui la comida de la cancha del fútbol  é outra. Quando o passeio dominical é pela Costanera de Vicente López, San Isidro, San Fernando e/ou Tigre, a melhor opção é o choripan  do El Chaqueño , restaurante pequeno e familiar do ladinho de casa. Ao chegar do rolê pelas margens do Rio da Prata, gosto de ir lá e pegar um lanche com linguiça e batatas fritas que dá para duas refeições (ou para duas pessoas, como queira). É incrível! Ainda no mundo da carne de porco, um corte que aprecio é a bondiola . Para ser sincero, não faço ideia de que parte do bicho ela vem. Nem tive curiosidade de pesquisar. Talvez seja melhor assim. Vai que... A bondiola  tem um gosto forte, bom sabor, é molinha e tem nome agradável (não seria um título de filme de terror). Com esses predicados, já me dei por satisfeito. Costumo colocar bastante limão e salsa criolla , que nesse caso cai melhor do que o chimichurri . Como a bondiola  tem um gosto marcante, acho que fica pesado acrescentar um tempero picante. Contudo, é bom dizer que para essa carne ficar realmente boa é preciso saber prepará-la. Na dúvida, não a coma onde você desconhece o talento do cozinheiro. Para quem deseja sair do roteiro churrasco-churrasco-churrasco ou já se enjoou das parrillas  só de ouvir falar delas por intermináveis parágrafos, aí as boas pedidas são a carne de ternera , carne al horno , albóndigas e escalopes . Porque carne não é sinônimo de churrasco, né? Há alternativas de preparo que passam longe da churrasqueira e dos cortes nobres/clássicos. A carne de ternera é comumente usada nas imperdíveis milanesas  – item que não pode faltar na mesa dos argentinos e que entrou definitivamente no meu cardápio semanal. Ao visitar Buenos Aires, prove a milanesa napolitana  (com presunto, queijo e tomate/molho de tomate) e a milanesa fugazzetta  (com queijo e cebola) de algum bodegón . São realmente deliciosas. Para mim, os bodegones  são sinônimos de milanesa – o meu predileto é o La Farola de Saavedra . Além desse prato, é muito comum os restaurantes utilizarem a ternera  em outras composições. Se ela estiver presente em algum item ofertado, saiba que você pode pedir sossegado que não haverá risco de decepção. Já a carne al horno  e as albóndigas  são, respectivamente, a carne assada e as almôndegas. Escalope  é, obviamente, o escalope. Não sei que tipo de carne é usada para fazê-los, mas nunca fiquei desapontado. O que posso assegurar é que, assim como as milanesas, esse trio se constitui em pedidos interessantes para serem feitos nos bodegones . Por falar nisso, como esse tipo de estabelecimento não possui parrilla (churrasqueira), é bom evitar pedir os cortes de churrasco nesses lugares. Parrillas (churrasco) são para serem pedidas nas parrillas  (churrascarias) e nas steak houses. Não vá inventar de querer achá-las onde não há. Além de não virem tão saborosas, elas podem surpreender negativamente os incautos turistas brasileiros. Isso aconteceu com Paulinho. Em sua última visita à CABA, ele conseguiu a façanha de realizar péssimas escolhas em quase todos os restaurantes visitados. Deu dó. Tão bonzinho. Não merecia. Quando fomos ao BesAres , uma das melhores parrillas  da Zona Norte, ele pediu uma milanesa de cordeiro. Não!!!!! Milanesa se come em bodegón . Indiferente ao meu apelo do que via como um equívoco gigantesco, Paulo seguiu irredutível em sua escolha. Como tinha mais pessoas conosco, que inclusive pediram o mesmo prato que ele, não deu para eu insistir. É claro que quando chegou meu bife de chorizo  e a milanesa dele, meu amigo reconheceu instantaneamente a falha absurda. O curioso é que ele não precisou dizer isso verbalmente. Vi em seus olhos o desapontamento. Alguns dias mais tarde, estávamos faceiros na mesa do Barcelona Astúrias . Querendo se redimir do vacilo anterior, Paulinho tomou a iniciativa e foi logo pedindo um bife de chorizo  para o garçom. O espanto foi duplo: do funcionário do restaurante e da minha pessoa. O problema é que agora estávamos num bodegón . Novamente, dei um toque sutil que o melhor prato ali era a carne al horno  e disse que nunca tinha pedido uma parrilla  por aquelas bandas. Talvez com a imagem do meu prato no BesAres em mente (ou envergonhado em mudar o pedido depois de ter sido tão enfático com o garçom), meu amigo seguiu convicto em sua escolha. O arrependimento bateu quando ele viu o prato da carne al horno  e notou que seu bife de chorizo  veio frito. Bife de chorizo frito, Ricardo? Pode isso?! Sinceramente, jamais tinha visto uma atrocidade daquele nível. Nos bodegones , há o risco de fritarem até as carnes nascidas para jazerem felizes na parrilla . Agora pensa num sujeito decepcionado. Esse era Paulo depois daquela refeição. E de ter acumulado os mesmos tropeços ao longo de uma semana inteira. Não cometa esse erro crasso, por favor. Saiba o tipo de estabelecimento que você está e peça de acordo com o que se oferece de melhor ali. E não com o que você tem vontade na hora. Não é porque Buenos Aires é la tierra de la parrilla  que você a encontrará em todos os lugares. Já vi brasileiro entrar numa cantina (não foi o Paulo, tá?) e reclamar que não tinha asado de tira  no menu. Não adiantou o garçom explicar com toda a paciência do mundo que ele estava em um estabelecimento de comida italiana e que não havia parrilla  no cardápio. A frase hilária que o cliente nervosinho proferiu foi memorável: “Então quer dizer que italiano não come churrasco?!”. Meu conterrâneo, para desespero do resto da comitiva, permaneceu revoltado e ameaçando ir embora. Tem cada um nesse mundo. Um corte que não sou muito fã é o matambre , que conheci nos tempos em que vivi no Rio Grande do Sul. Trata-se de um pedaço de carne extraído entre a pele do gado e a costela. Acho que é algo nessa linha, pelo que me lembre. Em Buenos Aires, ele é assado e servido quase sempre enrolado, em um grande bolo de carne com alguns condimentos e temperos. No Sul do Brasil, há a alternativa de vir fatiado e colocado dentro do pão. Confesso que até pode existir esse jeito na Argentina, mas eu não o vi ainda. O meu problema com o matambre  é que acho seu gosto muito, muito forte. Não sei explicar. Não curto. Você come um pedaço e fica com aquele sabor na boca por um tempão. Além disso, sempre vi o pessoal colocar muito limão. Por isso, peguei esse hábito, o que ajuda a minimizar seu gosto intenso. De qualquer maneira, essa é uma das últimas opções que cogito na hora de comer carne. Digo últimas opções porque as tranqueiras como chinchulines , riñones  e morcillas nem sequer figuram na minha lista de alternativas válidas. Meu Deus, o quanto já falei de carne. Se vocês deixarem, fico proseando por dias e dias. Contudo, preciso entrar no assunto da próxima seção: o vinho. Vou correndo lá antes que alguém pegue o banquinho e saia de mansinho. Não faça isso! Estamos quase terminando nosso passeio culinário por Buenos Aires. Sirva-se de mais uma chipa, que acabou de sair quentinha do forno, e tome mais um gole desse cafezinho que acabei de passar.     5) Não sei se bebida faz parte da gastronomia – ainda assim, falemos de vinho argentino Infelizmente, meus conhecimentos sobre essa última pauta do nosso debate são mais limitados, muito mais limitados. Quando a matéria é vinho , sou costumeiramente o pior aluno da turma. Diferentemente de meus amigos mais chegados, que são especialistas nesta disciplina e poderiam muito bem ser professores. Enquanto eles só tiram nota 10 nas provas etílicas e voltam para casa quase sempre alegrinhos, eu nunca tiro nota azul e invariavelmente retorno sóbrio. Mesmo assim, vou tentar falar sobre los vinos argentinos . Compromisso é compromisso! É bom avisar que no Brasil eu raramente tomava vinho. Por quê? Porque não tinha esse hábito. Simples assim. Porém, conforme você já deve ter percebido, sou daqueles que gostam de absorver a cultura local. Como diz o velho ditado, que adoro dar uma complementada: em Roma, como os romanos (e coma as romanas). Antes de morar em Minas, não era viciado em café. Difícil de acreditar, né? Hoje não vivo sem um copão pela manhã (e um copinho à tarde). Em Buenos Aires, vivenciei o mesmo processo, só que com os vinhos. Se antes desprezava as taças, agora tenho o maior respeito por elas e as curto de vez em quando. De abstêmio convicto, agora sou um fã amador do universo de Baco.  A mudança ocorreu porque em Buenos Aires se toma muito, muito vinho. Faz parte da cultura da cidade. É muito legal. Há bares só de vinhos, que são uma delícia de ir à dois. A bebida também é servida no menu executivo dos melhores restaurantes. Isso em pleno horário do almoço. Juntamente com o prato principal, escolhe-se o que beber: água, refrigerante ou uma taça de vinho da casa. Por mais que eu siga pedindo água sem gás, noto que o pessoal prioriza a opção mais etílica, ainda que estando no intervalo de meio de expediente. Nessa hora, sempre me recordo de quando era estagiário na Gradiente Eletrônica , no início dos anos 2000. Numa cantina italiana de Pinheiros, em São Paulo, um analista de TI recém-contratado chocou os colegas quando, em pleno almoço de trabalho, pediu uma tacinha de vinho. Na visão de todos ali, o cara era antiprofissional por beber álcool antes do fim do expediente. Outra questão que ajuda é o preço. Você vai num restaurante portenho e não é extorquido se pede uma garrafa. Confesso que sequer cogitava fazer isso em São Paulo (Porto Alegre, Varginha, Curitiba, Campinas, Recife, Jundiaí, Manaus...). No Brasil, meus olhos nem mesmo iam para a parte das bebidas produzidas pelas vinícolas. Na Argentina, sinto-me convidado a bebericar um tinto. Se você estiver sozinho, dá para pedir una copa (uma taça). Se estiver (bem) acompanhado, é quase que automático pedir um Malbec no jantar. Muitas vezes, admito que comecei a olhar o menu pela carta de vinho. No supermercado, talvez a questão do preço fique ainda mais evidente. Una buena botella  tem valor próximo aos das bebidas não-alcóolicas. Darei como exemplo o rótulo que sempre tenho em casa, o Cordero con Piel de Lobo. Este é um vinho basicão para se consumir no dia a dia. No meu caso específico, dia a dia é figura de linguagem. Não tomo rotineiramente. Só quando recebo visitas e precisamos de uma bebida de uva para acompanhar a pizza, a carne ou mesmo o pão de queijo. Pão de queijo, Ricardo? Claro. Esta é uma casa brasileira com certeza. Eu paguei 6 mil pesos argentinos na minha última compra do Cordero con Piel de Lobo de 750 ml. Isso dá, no câmbio de hoje (fevereiro de 2025 em que 1 real é 200 pesos argentinos), R$ 30,00. Para se ter uma ideia, uma garrafa de 2 litros de suco de laranja natural sai, em promoção, por 5 mil pesos (R$ 25,00). Uma garrafa de Coca-Cola de 2,25 litros (não compro essa porcaria, mas pesquisei só para citar) custa 4 mil pesos (R$ 20,00). Vamos combinar que vinho cabe no bolso da maioria das pessoas de classe média. Pelos valores citados, deu para ver que o câmbio deixou de ser favorável para quem ganha em real, como é o meu caso. Aquela alegria de a Argentina estar barata para os brasileiros acabou há pelo menos um semestre. Agora está tudo bem caro. Quando me mudei para BsAs, em setembro de 2023, me recordo que encontrava a garrafa do Cordero con Piel de Lobo por US$ 1,20, cerca de 1.200 pesos argentinos ou R$ 5,80. O dólar naquele momento valia, acredite, R$ 4,80. Um bom vinho por menos de R$ 6,00. Pode isso, Arnaldo? Há dois anos, podia. Lembro com clareza dos números porque foi nessa época que recebi a visita de Daniella (minha priminha brasileira) e Markos (o alemão que torce para o Borussia Dortmund). O casal mais engraçado da Suíça ficou hospedado em Saavedra e, numa tarde chuvosa de verão em que ficamos presos em casa, servi o vinho que tinha no armário. Foram duas garrafas de Cordero con Piel de Lobo com queijo. Eles acharam gostosinho, mas nada demais. É, afinal, um produto corriqueiro. Contudo, o espanto surgiu quando me perguntaram quanto tinha custado. Os dois têm essa mania de perguntar o valor de tudo. Foi Dani quem fez os cálculos do câmbio. E Markinhos só acreditou que aquela garrafa custava pouco mais de um dólar quando a mostrei na gôndola do chino do bairro. Certamente, o alemão voltou para a Europa incrédulo como a Argentina podia se comer carne e beber vinho com algumas moedinhas de euro. Presente no meu apartamento e sendo opção nos jantares mais divertidos fora de casa, o vinho soube me seduzir com seus encantos. Continuo não entendendo absolutamente nada, mas gosto de provar, principalmente com carne e massa. O que percebi é que os(as) argentinos(as) de mais de 40 anos tomam muuuuito mais vinho do que os(as) brasileiros(as). Já a moçadinha de menos de 30 anos acaba preferindo a cerveja. É uma distinção entre as gerações. Cada idade se embebeda de um jeito. Os velhotes vão de uva etílica e a molecada vai de cevada encorpada. Além disso, em Baires, vinho é uma bebida que normalmente se consome mais fora de casa – exatamente o contrário do que se passa em quase todo o Brasil. Já dentro de casa, os(as) portenhos(as) preferem beber cerveja. Estranho isso, não? Descobri essa particularidade local com a policial de Belgrano, a primeira amiga que fiz por aqui. Estava há dois ou três meses em Buenos Aires quando, para agradar a gatinha com quem comecei a prosear, a convidei para tomar um vinho em casa. Ela bateu a mão na cabeça com decepção e me questionou: “acho que você está me convidando para tomar uma cerveja na sua casa, né?”. Como estava ainda pouco familiarizado com o idioma, a corrigi. “Não, não. Falei vinho mesmo. Não cerveja”. Até porque odeio cerveja e não tinha uma latinha em casa. Com toda a paciência do mundo, ela bufou e retrucou como se estivesse ensinando uma criança: “Ah, que bom que você está me convidando para tomar cerveja. Porque ninguém toma vinho em casa. Se fosse vinho, não iria. Mas como é cerveja, é claro que eu topo”. Só me restou balançar empolgado a cabeça para cima e para baixo. “Pois foi exatamente isso o que falei – para tomarmos cerveja. Adoro cerveja”. É bom esclarecer que vinho por essas bandas é quase sempre Malbec. Por mais que haja uma boa variedade de rótulos e sabores, ainda assim a preponderância desse tipo de uva é avassaladora. Como entendo bulufas do assunto, para mim é bom. Ao tomar só Malbec, posso ir aprimorando o paladar para esse tipo de bebida e conhecendo os principais produtores. Além do mais, o Malbec harmoniza (perfeitamente) com carne e (mais ou menos) com massa com molho vermelho. Estando em Buenos Aires, o que mais vocês querem da vida, senhoras e senhores?! Para encerrar essa crônica, que está ganhando dimensão de um livro, preciso contar a experiência que tive com Eduardo e Paulo, amigos que aportaram em Buenos Aires em dezembro do ano passado e que vivem aparecendo em meus textos. Essa duplinha tem cada história maravilhosa. Eles vieram para os festejos dos 10 anos do Bonas Histórias  (versão que eu gosto de acreditar) e para que fizéssemos os planejamentos estratégicos das suas empresas, respectivamente, a EV Publicações  e a Epifania Comunicação Integrada  (versão que eu não gosto de crer, mas que se aproxima da realidade). Como os dois são fanáticos por vinhos, parte do nosso tempo livre era para visitar lojas de bebida. Uma chatice para mim e uma diversão incalculável para eles. Não podíamos caminhar pelas ruas e avistar uma lojinha bonitinha que lá iam os dois correndo porta à dentro. Isso durou até o dia em que precisamos ir a um chino, os supermercados famosos por oferecer bons preços. Enquanto fui para a prateleira para pegar o que precisávamos para casa (os dois ficaram hospedados comigo), Dudu e Paulinho foram automaticamente para as estantes de vinho. Às vezes, penso que os corpos deles estavam tão habituados a procurar por bebida que agiam inconscientemente. Foi nessa hora que eles ficaram chocados com os preços. Os mercadinhos simplórios de bairro vendiam os rótulos por quase a metade dos valores praticados nas lojas bonitinhas que eles estavam frequentando. A partir daí, aconteceu o milagre: não precisamos mais ir às lojas. Ufa! Dei graças a Deus. Por outro lado, aí vem a má notícia, tínhamos que entrar em todos os chinos que passávamos em frente. Ai, ai, ai. Como existem muito mais chinos do que lojas de vinhos em CABA, calcule o nível do meu drama. Até hoje, não sei como não enlouqueci naquela semana. Jejeje. Chegamos ao fim do episódio mais longo (até aqui) de “Tempos Portenhos” . Juro que não acredito que conseguimos concluí-lo. E, por favor, não quero ouvir reclamações. Se você que está lendo se cansou, imagine eu que tive que escrever esse monte de ladainha! Falar de comida e bebida dá mesmo pano para manga. Manga? Que saudades de comer uma. Quando se empurra um gordinho para esse tipo de atividade, dá nisso: ele não para nunca mais de tagarelar. Ainda mais quando está com fome. Falando nisso, posso assar mais algumas empanadas?! Tenho agora só de carne. Pode ser? Enquanto você pensa se vai ou não comer mais, preciso dizer que, em maio, retornarei à coluna Contos & Crônicas  para apresentar um panorama completo sobre o futebol argentino. É ou não é outro assunto fascinante, hein? Como é a paixão dos moradores de Buenos Aires pelos seus times? Como funciona os campeonatos locais? Como são os estádios e a infraestrutura esportiva da cidade? Eles são mesmo mais fanáticos do que a gente? Obviamente, essas reflexões partirão do olhar de um brasileiro que está misturado entre os adoradores de Messi e Maradona. Em suma, essa é a ideia do Episódio 6: La verdadera Cancha del Fútbol . Não perca o restante da atual série não ficcional do Bonas Histórias . Até lá, galerinha!  ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques; o amor incondicional aos cachorros; a paixão pela carne; a devoção pelo futebol; as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata; a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às das cidades brasileiras; a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante; o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . Para conferir os demais posts sobre restaurantes, bares, pizzarias e experiências culinárias, clique na coluna Gastronomia . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Crônicas: Tempos Portenhos – Episódio 6 – La Verdadera Cancha del Fútbol

    Na sexta narrativa sobre como é viver em Buenos Aires, o tema em destaque é a paixão dos argentinos pelo futebol. Afinal, a maneira como eles torcem e vivem o esporte mais popular do planeta é igual ou é diferente da dos brasileiros? Confira mais um passeio cultural pelo país de Diego Armando Maradona e Lionel Messi. Quando falamos em Argentina  e em Buenos Aires , alguns aspectos saltam automaticamente à cabeça dos brasileiros. Impossível não pensarmos em carne, vinho, Tango , arquitetura europeia, parques deslumbrantes, caos econômico, Peronismo e, claro, futebol , muuuito futebol! Se não me esqueci de algo, esse é o mapa mental feito pelos meus conterrâneos. Até mesmo aqueles que jamais visitaram a nação albiceleste e sua fascinante capital têm esse raciocínio previamente configurado. Ou vai me dizer que você não cai muitas vezes nesses clichês culturais, hein?! Falo envergonhado por mim: antes de viver em terras portenhas, era exatamente essa a imagem um tanto estereotipada que tinha del país hermano e y su ciudad más grande . Será que agora que estou vivendo por quase dois anos em Mi Buenos Aires Querido  mudei de pensamento? Hummmm. Essa é uma boa pergunta, que confesso que ainda não tenho uma resposta de bate-pronto. De qualquer maneira, à medida que vou tendo insights e definições a esse respeito, não vacilo em compartilhá-los com os leitores do Bonas Histórias . Minhas descobertas e impressões recentes são justamente o foco dos relatos de “Tempos Portenhos” , a atual série narrativa da coluna Contos & Crônicas . Se você chegou agora a este pequeno e por vezes incompreensível blog de literatura, cultura e entretenimento, informo que estamos no sexto capítulo dos meus depoimentos de como é para um brasileiro viver na capital da Argentina . Em cada episódio de “Tempos Portenhos” , apresento alguma particularidade da realidade de BsAs , CABA  ou Baires (siglas e diminutivo da metrópole argentina mais comumente usados pelos moradores locais). Se esse assunto é do seu interesse (seja para viver também por aqui, seja só para visitar a cidade por uma perspectiva menos turística ou para simplesmente aumentar seus conhecimentos culturais), o(a) convido a se juntar comigo a esse delicioso passeio internacional pela margem mais caótica do Rio da Prata. O tema de hoje de “Tempos Portenhos” , como você viu no título, subtítulo e imagem principal do post, é a paixão dos argentinos pelo futebol . Numa retrospectiva rápida, tratei no relato de estreia desta coletânea de crônicas , Episódio 1 – Distopia Paulistana (ou Carioca) , da sensação de segurança ao se percorrer as ruas e avenidas de CABA ( Ciudad Autónoma de Buenos Aires ). Em Episódio 2 – Vida ao Ar Livre  e Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes , falei, respectivamente, do hábito dos argentinos da capital de amarem os passeios fora de casa e de suas devoções pelos animais de estimação. Por fim, em Episódio 4 – O Espanhol Argentino  e Episódio 5 – Sentando-se à Mesa com os Argentinos , discorri, respectivamente, sobre as nuances idiomáticas e a riqueza culinária da nação que agora chamo de minha. É ou não é um passeio fascinante, hein?! Deixando de lado o conteúdo antigo e entrando efetivamente no assunto da nova crônica de “Tempos Portenhos” , tenho algumas interrogações para distribuir de antemão. Afinal, os argentinos são mesmo mais apaixonados pelo futebol? Sua relação com o esporte  e com seus times é diferente daquela tida pelos brasileiros? O que há de exagero na visão que temos deles e o que é real nesta passionalidade albiceleste que beira muitas vezes o absurdo aos olhos do estrangeiro desavisado? E, por supuesto , seria mesmo uma enorme maluquice crer que Diego Armando Maradona  e, quiçá, Lionel Messi  foram melhores do que Pelé ? Vamos combinar que esses são questionamentos relevantes que atiçam a curiosidade até mesmo daqueles que não são chegadinhos ao universo esportivo ou que não se apegam à rivalidade futebolística entre os dois maiores países sul-americanos. Seja bem-vindo(a) à terra que respira futebol, senhoras e senhores! 1) Muito além do futebol: um país poliesportivo Tá bom, eu sei que esse é um post para tratar do amor dos argentinos pelo futebol . Mesmo ciente disso, quero começar falando de algo que me encanta em Buenos Aires e que, na verdade, apenas tangencia o assunto de hoje da coluna Contos & Crônicas . O primeiro tópico dessa crônica é sobre o quão plural é o paladar esportivo dos portenhos. Por mais que sejam loucos por futebol, eles não ficam presos à monocultura desportiva, um problema grave no Brasil. Para entendermos o que quero dizer, vou usar uma comparação simples e didática. O brasileiro médio só entende de futebol. Com raras exceções, ele só acompanha os times nacionais e internacionais e as seleções dessa modalidade. Prova maior dessa fidelidade esportiva aparece nas programações das emissoras de televisão e na cobertura jornalística. A mídia dedica 90%, 95% ou, em alguns casos, 99% do espaço e do tempo ao velho esporte bretão. O ápice dessa adoração acontece na Copa do Mundo de Futebol, quando o país literalmente para. Acompanhamos os lances dos jogadores canarinhos como se o destino da nação estivesse ligado ao resultado das quatro linhas. E os outros esportes? Ninguém dá a mínima atenção! Vôlei, basquete, automobilismo, tênis, atletismo, natação, ciclismo, handebol, artes marciais, futsal, ginástica e rugby, entre outros, são ignorados pela massa de torcedores, jornalistas, patrocinadores e políticos. No Brasil, os atletas de fora do futebol e as demais modalidades só têm seus quinze minutos de fama quando conquistam alguma façanha internacional. Aí o patriotismo fala mais alto e os brasileiros olham com admiração seus conterrâneos bem-sucedidos nas disputas com os gringos. Contudo, passado o momento efêmero de êxtase verde-amarelo, os olhos da população voltam-se outra vez apenas para o futebol. São raríssimas as pessoas que têm o paladar mais plural para o esporte. Posso contar nos dedos quantos familiares, amigos e conhecidos entendem para valer de outros gêneros. Esportivamente falando, o brasileiro é um Homer Simpson. Ao invés de ficarmos repetindo “rosquinha, rosquinha, rosquinha” vinte e quatro horas por dia (inclusive enquanto dorme) como a personagem de Matt Groening, nosso mantra é “futebol, futebol, futebol”. Na Argentina não é igual, Ricardo?! Nananinanão. Sinto que na capital do país, a galera possui gostos esportivos mais versáteis. Você conversa com os portenhos e eles falam naturalmente de tênis, automobilismo, rugby e basquete. É muito legal notar que acompanham os esportes independentemente de ter ou não ter um conterrâneo na disputa. É claro que quando há argentinos na parada, o interesse aumenta. Eles são tão, ou até mesmo mais, patriotas do que nós. Contudo, a ausência de atletas e equipes nacionais na disputa não arrefece o apelo da modalidade em si e o destaque aos desportistas internacionais. Os portenhos são apaixonados por vários esportes. Eles não apenas assistem como os praticam. Buenos Aires tem, por exemplo, incontáveis clubes esportivos privados e públicos e academias poliesportivas. Os vários parques da cidade disponibilizam espaços para partidas de vôlei de areia, basquete 3x3, tênis de mesa, hóquei sobre grama, futevôlei (sim, ele também chegou por aqui), skate, ciclismo etc. As quadras de tênis e os campos de rugby, por exemplo, fazem parte da paisagem local. Há locais, como Palermo e Belgrano, que é comum avistarmos campos e até estádios de polo. No Rio da Prata, é possível constatarmos a prática de esportes aquáticos.   Você nota essa pluralidade no dia a dia. Caminhando pelas ruas de BsAs ou tomando o transporte público (metrô, trem ou ônibus), é corriqueiro nos depararmos com mulheres com tacos de hóquei sobre grama e patins à tira colo. E com homens com skate e bolas de basquete. Raquetes de tênis, quimonos e bicicletas estão por todas as partes e são itens cotidianos. Por maior que seja a paixão dos hermanos  pelo futebol, notamos que esse relacionamento não é monogâmico. Há espaço para todos os tipos de amores e práticas. Nesse caso especificamente, confesso que aprecio mais essa postura liberal e versátil deles do que a mania pela monocultura de minha terra natal. 2) Buenos Aires é a capital do futebol mundial ao lado de Londres Qual é a capital do futebol mundial? Na minha humilde (e míope) visão, as duas cidades que podem ostentar esse título são Buenos Aires e Londres. O motivo? Elas reúnem a maior quantidade de clubes e estádios do que qualquer outro lugar do planeta. Chegam a ser impressionantes seus números. Para quem tem a mania de dizer que vive na terra do futebol e que seus torcedores são os mais apaixonados (sabe-se lá de onde tiraram essa ideia), vale a pena analisar de forma racional o que acontece nos verdadeiros centros futebolísticos. Enquanto a região metropolitana de BsAs abriga cerca de 70 equipes, a Capital Federal da Argentina é a sede de 31 agremiações. Dá para citar como times legitimamente portenhos o Boca Juniors , River Plate , San Lorenzo , Vélez Sarsfield, Argentinos Juniors, Huracán, Platense , Nueva Chicago, Ferro Carril Oeste, Defensores de Belgrano, San Telmo, Club Almagro, Deportivo Español, Chacarita, Chacarita Juniors, Atlanta, All Boys, Barracas Central, Sportivo Barracas, Comunicaciones, Deportivo Riestra, Excursionistas, Sacachispas, Atlético Lugano, General Lamadrid, Yupanqui, Deportivo Armênio, Estudiantes de Buenos Aires, Fênix, Liniers e, ufa, Deportivo Paraguayo. É importante dizer que esses são os que conheço ou já ouvi falar. Pode ser que tenha mais. De qualquer maneira, é ou não é um número incrível, hein?! A impressão é que cada bairro tem o seu clube. Em alguns casos, existe mais do que um clube por bairro, o que alimenta a rivalidade. Você vira uma esquina, dá de cara com um estádio. Caminha algumas ruas, vira para outro lado e dá de cara com uma nova cancha . Para os amantes do futebol é um deleite. Buenos Aires disputa com Londres a primazia mundial no futebol porque a capital inglesa possui em torno de 60 equipes. Ou seja, quando considerada apenas a área da cidade, os europeus são o número 1. Quando englobada a região metropolitana, aí os sul-americanos tornam-se imbatíveis. Por isso, não há uma definição clara de quem é a capital do futebol. O correto é dizer, como fiz no início desse tópico, que tanto Londres quanto Buenos Aires são referências globais nesse assunto. Em relação aos estádios, a região metropolitana de Buenos Aires tem 36 palcos futebolísticos com capacidade igual ou superior a 10 mil lugares. Trata-se de um recorde difícil de igualar. A minha São Paulo, a segunda colocada nesse ranking, tem 15. Ou seja, é menos da metade. Londres possui 12. Talvez o mais correto fosse considerar apenas  las canchas  de CABA, a Capital Federal da Argentina. Ainda assim, os portenhos seguem imbatíveis. Baires tem 19 estádios, o que a deixa ainda na primeiríssima posição. Não dá para ficarmos indiferentes a uma cidade com essa característica e com tal efervescência futebolística! 3) Os encantos dos times de bairro de Buenos Aires Independentemente de quem tem mais agremiações, o mais legal é notar o quanto os bairros de Buenos Aires respiram seus clubes. Eles fazem parte da identidade local e da cultura dos moradores. Aí temos uma grande diferença para as grandes cidades brasileiras. Enquanto as principais capitais nacionais têm dois (Porto Alegre, Florianópolis, Salvador, Fortaleza, Maceió, Natal, Aracajú, Vitória, Teresina e Manaus, por exemplo), três (São Paulo, Recife, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia, Belém do Pará e São Luís) ou no máximo quatro (Rio de Janeiro) times que monopolizam as atenções do público, em CABA as torcidas vivem com mais afinco o dia a dia das pequenas agremiações. Na metrópole argentina, não tem aquele lance do cara torcer para um time grande e ter um pequeno como segundo time, algo corriqueiro no Brasil. Isso seria um sacrilégio na terra de Maradona e Messi. Por aqui, a galera torce pra valer pelas cores do clube do bairro. Eles chegam a perder a cabeça e ficar indignados, mesmo com partidas da segunda, terceira, quarta e quinta divisões. Confesso que demorei para entender o nível de passionalidade desses fãs. Depois que compreendi suas relações com os times distritais, mudei completamente de opinião e visão sobre a paixão dos argentinos pelo futebol. Agora acho que el amor de los hinchas de equipos del barrio  é mais puro, romântico e intenso do que el amor de los hinchas de equipos más grandes . Esse é o verdadeiro espírito do torcedor de futebol. A pessoa até pode se mudar de bairro, mas continua regressando aos finais de semana para o local de nascimento só para acompanhar o time do coração ao lado dos velhos companheiros. Além disso, é muito fácil estar ao lado do clube nos momentos de alegria, nas grandes conquistas e nas disputas dos campeonatos de primeiro nível. Quero ver manter a chama acesa quando as derrotas se avolumam, quando a briga é para não ser rebaixado outra vez e quando ano a ano as competições passam a ser realizadas em divisões menores. Aí tem que ter muito amor para não abandonar o barco. Como já disse algumas vezes na série “Tempos Portenhos” , vivo em Saavedra, um bairro da Zona Norte de Buenos Aires. O time local é o Platense. Andar pelas ruas e avenidas desse distrito é se deparar o tempo inteiro com as cores e o distintivo do Calamar, como a equipe marrom é carinhosamente chamada. Núñez, o bairro vizinho, abriga o River Plate, o Defensores de Belgrano e o Deportivo Armênio (que acaba jogando em Escobar). Belgrano, outro distrito que faz fronteira com Saavedra, é a casa do Excursionistas. Dessa lista, talvez o caso mais impressionante seja o Excursionistas. Fundada em 1910, a equipe verde e branca está na terceira divisão do Campeonato Argentino. Contudo, sua torcida segue animada e fanática. Caminhando por Belgrano, sabemos quando há jogo do time do bairro pelo fluxo constante e vibrante de seus torcedores. Mesmo não sendo hincha  do Excursionistas, admito que vire e mexe fico com vontade de ir à bilheteria para comprar um ingresso. Só a visita ao pequeno e charmoso estádio já vale a entrada. El Coliseo del Bajo Belgrano foi construído em 1911 e faz o tipo estádio raiz. Atualmente, tem capacidade para pouco mais do que 7 mil torcedores. Obviamente, essa estimativa segue o padrão argentino. Num país minimamente racional, organizado e com bom senso, a casa do Excursionistas não poderia comportar nem a metade desse número. Isso é a Argentina, pessoal! 4) Quem é o melhor jogador de futebol de todos os tempos? Qual é o melhor jogador da história? Tenho a impressão de que os únicos países que têm essa preocupação são Brasil e Argentina. Prova disso é que você pode interagir com qualquer pessoa no planeta por anos, décadas ou, quiçá, séculos e esse assunto nunca entrará em debate. Por mais apaixonados que sejam os torcedores internacionais, esse tema acaba relegado ao segundo (ou terceiro) plano. Entretanto, quando um argentino e um brasileiro se encontram, basta alguns minutos (em alguns casos, poucos segundos) para a discussão enveredar por essa seara. Pelé ou Maradona? Pelé ou Messi? Maradona ou Messi? Messi ou Neymar? Não vou entrar (pelo menos não agora) no mérito de quem foi maior. Afinal, o que menos encontramos nessa controvérsia é embasamento racional e objetivo. Muita gente (inclusive eu) argumenta sem nem ter visto em campo a maioria dos envolvidos. Aí fica difícil opinar com propriedade. E quase todos os debatedores colocam o patriotismo como fiel da balança. Ou você conhece um argentino que diga que Pelé foi o número 1? Ou um brasileiro que aponte Maradona ou Messi como o maioral? Eu não conheço. Ao invés de ficarmos discutindo quem foi melhor, porque não unimos forças e propagamos juntos que os mais incríveis jogadores da história do futebol foram/são argentinos e brasileiros, hein? Aí a discussão terminaria e poderíamos disseminar o debate para fora da América do Sul. Até porque, com exceção dos italianos (que pregam historicamente que os melhores atacantes do planeta são brasileiros, enquanto os melhores meio-campistas são argentinos), não vejo os europeus de modo geral, os asiáticos e os africanos batendo continência para os futebolistas sul-americanos. Isso não deveria nos incomodar?! Acho que sim. Ficar com a rivalidade fronteiriça mina o alcance dos feitos tanto de brasileiros quanto de argentinos. Repito: a pergunta não deveria ser quem foi melhor, Pelé ou Maradona? Nem quem é mais talentoso, Messi ou Neymar? E sim quem de fora desse pedacinho da América do Sul se aproxima deles, de Garrincha, Di Stéfano, Ronaldo, Kempes, Romário, Batistuta, Zico, Fillol, Ronaldinho Gaúcho e Passarella? 5) O argentino não torce; ele vive doente pelo futebol! É estranho comparar paixões. Pergunte para os pais quais dos filhos eles preferem e você sentirá o quão complicado é estabelecer critérios para o amor. Sabendo dessa dificuldade natural para se medir aspectos imensuráveis, não vou cometer a indelicadeza de apontar quem ama mais o futebol: se argentinos ou brasileiros. O que posso fazer, sem cometer injustiças, é discorrer rapidamente sobre as diferenças de cultura futebolística entre os dois maiores países da América do Sul. No Brasil, sinto que os heróis esportivos (salvo raras exceções, como Ayrton Senna) não são colocados eternamente no panteão das divindades infalíveis. Uma vez que cumpriram seu papel esportivo, são humanos e possuem vários defeitos. Pelé, nosso maior jogador, nunca foi uma unanimidade nacional. É claro que o racismo estrutural contribuiu para esse olhar enviesado. Tenho a sensação de que os gringos o respeitavam/respeitam mais e o valorizava/valorizam mais do que seus próprios conterrâneos. No meu ponto de vista, por maior que tenha sido Pelé como jogador, o que sempre me encantou foi a humildade e a grandeza humana de Edson Arantes do Nascimento. Você consegue, por exemplo, imaginar se outros atletas nacionais estivessem na posição do Rei? O que fariam e como agiriam? Tenho até medo de pensar... Noto que os brasileiros têm a mania de encarar de um jeito bem pejorativo seus ídolos. Garrincha é lembrado mais como bêbado, sujeito de cognição fraca e Don Juan dos anos 1960. Atualmente, poucos se recordam dele como exímio driblador e como líder da seleção canarinha na Copa de 1962. Ronaldo é o gordo preguiçoso que saiu certa vez com um travesti. Ronaldinho Gaúcho é o dentuço feio que abdicou da carreira e de mais títulos para cair na noitada com a mulherada. Romário é o malandro carioca que possui uma arrogância e uma marra que não cabem em seu 1,67 metro de altura. Já Neymar... Talvez não seja nem mesmo adequado falar o que penso sobre ele, né? Na Argentina é diferente. Muuuuuito diferente. Eles nutrem uma adoração cega e patológica por seus ídolos. Isso se aplica tanto aos esportes quanto à política (lembremos de Juan Domingo Perón e Evita) e ao cenário cultural (Carlos Gardel e Charly García). Diego Armando Maradona é talvez a melhor exemplificação do quão obsessiva e lunática pode ser a adoração dos argentinos. Por mais trôpegos que tenham sido os passos do camisa 10 dentro e, principalmente, fora do gramado, muita gente só enxerga suas qualidades. É assustador perceber o quanto a visão do povo é limitante e até mesmo burra. Messi está vivenciando algo parecido. Até conquistar a Copa de 2022 pela Seleção da Argentina , ele era ridicularizado e subvalorizado por seus conterrâneos. Agora que entrou no panteão de figuras irretocáveis, ganhou ar de santidade. Tudo por causa de um jogo ou do resultado de uma disputa de pênaltis. Não estou aqui para falar quem está certo ou quem está errado nesse relacionamento com as personalidades históricas. Até porque não acho saudável a maneira como brasileiros e argentinos encaram seus ídolos. Não devemos ser nem 8 nem 80. Me parece equivocado tratar com desdém, de um jeito pejorativo ou mesmo esquecimento os heróis de qualquer seara. E me parece perigoso colocar seres humanos no lugar de deuses acima do bem e do mal. Ao caminhar por Buenos Aires, você sente a onipresença de Maradona e de Messi, algo que definitivamente não acontece nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Rio Grande do Sul, Brasília, Goiânia, Salvador, Fortaleza, Manaus ou Pará em relação a Pelé e Neymar. Para os argentinos, as imagens do camisa 10 de ontem e do camisa 10 de hoje merecem ser grafadas em muros, fachadas, camisetas, brindes etc. Em alguns casos, eles viram temas de estabelecimentos comerciais, pratos de restaurantes e, acredite se quiser, fio condutor para a fundação de novas religiões. Parece maluquice? Pois os hermanos  são mesmo loucos pelo futebol. A impressão que tenho é que os argentinos não torcem e sim padecem por este esporte viciante. Em dia de jogos importantes, CABA pulsa descontroladamente. Sei disso porque não dá para ficar indiferente à paixão deles. Se você estiver andando distraído pela cidade, ouvirá gritarias e buzinaços de torcedores. Se estiver de boa em seu apartamento, a vizinhança berrará e o prédio balançará à medida que os lances forem acontecendo. Chega a ser divertidíssimo.   Uma vez entendida essa diferença cultural de encarar os jogadores do presente e do passado, me parece evidente a resposta para a grande pergunta formulada no tópico anterior: quem é o melhor jogador de futebol de todos os tempos? Diante do desprezo dos meus conterrâneos por seus principais jogadores e constatando a idolatria desmedida dos hermanos por seus maiores atletas, a solução do enigma parece pipocar facilmente na minha mente. Só não deixo registradas em pormenores as minhas crenças para não ferir as emoções dos brasileiros mais sensíveis. Sabe como é quando falamos de assuntos tabus, né? Os intolerantes atiram pedras e bombas sem pestanejar. Tô fora de polêmicas e brigas inúteis.   6) Como virei hincha  do Racing Todo lugar em que moro, adoto um time. Foi assim em Porto Alegre (até a pé nós iremos!) e no Sul de Minas (Eu sou de Boa e de Boa eu vou ficar!). Quando vivi pela primeira vez em Buenos Aires entre 2004 e 2005, não tinha pensado nessa possibilidade. Afinal, como corintiano, tinha aversão a todas as equipes hermanas . Elas sempre foram implacáveis conosco na Libertadores e não dava para ter afinidade com nenhuma delas. Contudo, isso mudou ao visitar o estádio do Racing Club  em outubro de 2004. É bom dizer que já tinha estado nas maiores canchas da região metropolitana: Monumental de Núñez, La Bombonera, El Fortín de Liniers (para mim o mais bonito) e Estádio Libertadores de América. Conhecer os principais palcos do futebol argentino era um programão para o Ricardo com então vinte e poucos aninhos. Por isso, a visita ao El Cilindro, cujo nome oficial é Estádio Presidente Perón, num fim de tarde de sábado parecia excitante, ao mesmo tempo que só seria mais um passeio na minha lista de novidades turísticas. Porém, aquele dia não foi nada convencional. Por não conhecer Avellaneda, uma cidade vizinha à Buenos Aires, cheguei cedo ao El Cilindro. O jogo era às 18h e já estava lá às 13h. Ao não encontrar a boletería, perguntei para um homem que andava apressado onde eu poderia comprar o ingresso. Ao ver meu espanhol terrível, na hora ele perguntou: “Turista?”. Expliquei que não estava de passagem. Morava há alguns meses em Buenos Aires, pois trabalhava na Coca Cola. E um colega da empresa disse que “ la verdadera cancha del fútbol es la cancha de Racing ”. Curioso para saber se aquilo era exagero de um torcedor da Academia, fui lá para conferir. O rapaz me olhou abismado e quis saber exatamente em qual planta eu trabalhava e qual era minha função. Detalhei que era trainee de vendas no Brasil e estava em desenvolvimento na Argentina. Ficava geralmente em Alcorta, mas visitava várias unidades de vendas da região metropolitana. Sua fisionomia de espanto foi maior ainda. Aí ele disse: “Meu irmão trabalha na fábrica de Alcorta da Coca-Cola. Vou ligar para ele agora e você fala com ele”. Dito e feito. O cara sacou o celular do bolso e tive que prosear com seu irmão. Vendo que eu falava a verdade, o homem que até então eu pensava ser um torcedor fanático do Racing (que também chegara várias horas antes do jogo) quis saber o que eu faria até a noite, hora do jogo. Disse que não faria nada. Iria provavelmente me sentar em um bar e esperar as 18h. Então, ele perguntou se eu gostaria de conhecer El Cilindo. Disse que sim, imaginando que daríamos simplesmente uma volta na parte externa do estádio. Foi nesse momento que ele se apresentou: “Meu nome é Argentino. Sim, esse é o meu nome. Ninguém esquece. Sou o responsável pela administração da cancha . Vou te levar para conhecer a casa do Racing”. Confesso que não acreditei até que ele, enquanto caminhava ao meu lado, começar a cumprimentar os funcionários e adentrar na parte interna do estádio. Meu Deus, ele era mesmo da administração. Argentino me levou para conhecer todo o lugar. Ou quase todo. Envergonhado, disse que não poderia me levar aos vestiários porque seriam usados em breve pelos times, que estavam para chegar. “Mas é claro. Não se preocupe. Não pensei em ir lá”, respondi com sinceridade. Argentino me levou para as cabines de rádio e televisão, subimos onde ficam os refletores, caminhamos por dentro das bilheterias, percorremos os principais setores das arquibancadas e espiamos os trabalhos das lanchonetes. Aonde íamos, ele me apresentava aos funcionários, informando que eu era o colega brasileiro de seu irmão na Coca-Cola. Pior é que não o conhecia pessoalmente e, naquele instante, nem mesmo me lembrava o nome do funcionário da fábrica de Alcorta. O clímax do passeio foi quando entramos no campo de jogo. Sim, ele me levou para o gramado e me apresentou ao jardineiro do palco das partidas do Racing. Incrível. Dali, fomos para um setor ao lado do campo onde ficavam as personalidades de honra do clube. Pelo que entendi, algumas pessoas eram convidadas pelo time para ver o jogo na beirada do gramado, à la quadra da NBA. Incrível! Fiquei batendo papo com vários hinchas , que se admiraram de ver um brasileiro em Avellaneda. Uma hora antes da partida, Argentino recebeu uma ligação no celular e, ao desligar, disse que o estavam chamando e que precisava trabalhar. E falou: “O Racing perdeu os últimos oito jogos do campeonato. Estamos na rabeira da tabela de classificação. Se ganharmos hoje, os méritos são seus, Ricardo. Você é nosso pé de coelho (não me lembro a expressão exata que ele utilizou, mas era no sentido de pé de coelho, algo que dá sorte). Saiba que se vencermos hoje, você será convidado para acompanhar todas as nossas partidas em casa até o final do campeonato”. Imaginando essa possiblidade, fui empolgado para o meu lugar na arquibancada. Antes, me despedi de Argentino, agradeci o tour e trocamos e-mails (estávamos em 2004, pessoal! Eu não tinha celular). E como torci naquela noite! O adversário era o Rosário Central, equipe que estava no meio da tabela e provavelmente não representaria grandes complicações. Pelo menos era essa a ideia de quase todos os torcedores da Academia presentes ao estádio naquela noite. O problema é que a equipe de Avellaneda era mesmo ruim, muito ruim. Perdemos de 2 a 0. Nona derrota seguida no campeonato. O Racing seguia atolado na zona de descenso. Ai, ai, ai. Diferentemente do que imaginei, não voltei triste para Buenos Aires. Retornei empolgadíssimo com a melhor experiência futebolística que tive na vida até então. Realmente, la cancha de Racing era la verdadera cancha del fútbol argentino . Na segunda-feira seguinte, contei para todo mundo no escritório o que tinha acontecido comigo. Alguns não acreditaram. Isso até o diretor do RH da Coca vir saber quem era o brasileiro que esteve em Avellaneda no sábado à noite. Pelo visto, o irmão do Argentino contara para ele. No fim daquele expediente, fui para o Retiro comprar uma camisa da Academia, que tenho até hoje. A partir dessa data, virei más un   hincha de Racing. Nunca mais voltei ao El Cilindro, mas acompanhei atentamente o final daquela temporada do Campeonato Argentino. Das seis partidas finais, o Racing venceu cinco e empatou uma. Dessa forma, se salvou do rebaixamento. Festa azul e branca em Avellaneda.      7) Como me tornei hincha  do Platense Se na primeira vez que vivi em Buenos Aires eu era torcedor do Racing Club, agora sou hincha  do Platense. Essa mudança foi muito natural   (ou não planejada). Inclusive, trouxe para Buenos Aires minhas velhas camisas da Academia para usar na nova temporada na Argentina. A ideia era voltar a visitar com regularidade El Cilindro, la cancha azul y blanca  de Avellaneda. Segundo minha concepção de vida, se estou num lugar, preciso respirar sua atmosfera futebolística. Contudo, fui arrebatado pela fase dourada do Calamar   e pela paixão genuína dos fãs do Marrón. Assim, me esqueci completamente do Racing (não usei nenhuma vez suas camisas nesta nova temporada em CABA) e agora só penso no Platense (desfilo orgulhoso com seu fardamento pela cidade inteira). Desde meados de 2023, moro no bairro de Saavedra, que está situado na Zona Norte da Capital Federal. Como essa localidade é pouco conhecida, sempre sinto a necessidade de contextualizá-la geograficamente para os brasileiros. Saavedra é vizinho de Núñez, Belgrano e Villa Urquiza, distritos da cidade de Buenos Aires, e está grudado ao município de Vicente López, que pertence à Província de Buenos Aires. Como é o último bairro de CABA no extremo Norte, muita gente acha equivocadamente que ele já não pertence à Capital e sim à Província. Mas não, Saavedra fica em BsAs. Estou falando sobre isso porque, desde que cheguei, mergulhei na cultura do bairro. Sou fascinado pela sua pegada carnavalesca (o melhor Carnaval de Buenos Aires, o que não quer dizer muita coisa, acontece nas murgas de Saavedra), pelas constantes referências a Roberto “El Polaco” Goyeneche (famoso cantor de Tango e principal personalidade desse pedaço da cidade), pela identidade visual dos grafites (andar pelas ruas de Saavedra é interagir com os desenhos urbanos) e pelos intermináveis parques e praças (de 25% a 30% do bairro é constituído de espaços verdes). É claro que também virei um grande admirador de bodegones, parrillas y cafeterías locales. No estabelecimento que vou com mais assiduidade, sou visto como o brasileiro de Saavedra. Conforme notei, não há outro conterrâneo ou outra conterrânea por essas paradas de Buenos Aires. Neste processo de imersão cultural, foi natural começar a visitar o Estádio Ciudad de Vicente López, a casa do Platense. O Platense é o pequeno time de Saavedra. Fundado em 1905, ele passou quase toda a sua história nas divisões inferiores do Campeonato Argentino. Aí com o expressivo aumento do número de equipes da primeira divisão (uma das bizarrices recentes do futebol argentino), El Calamar conseguiu em 2020 o acesso à elite nacional. Portanto, desde 2021, joga com os grandes o Apertura e o Clausura, competições também chamadas de Superliga Argentina e de Copa da Liga Argentina – para o seu bem, não queira entender as diferentes denominações! No primeiro jogo que assisti, em outubro de 2023, vitória por 2 a 1 sobre o Estudiantes. Gostei do estádio e, principalmente, da animação e da atmosfera da torcida. Só achei horríveis a coloração da equipe (quem teve a ideia de usar o marrom e o branco não entende nada de estética), o uniforme (um dos mais feios que já conheci), o distintivo (extremamente simples) e o futebol praticado (pense num time ruim!). Juro que saí de la cancha  pensando: “Coitado desse pessoal que acompanha o Platense e precisa vestir esse uniforme horripilante”. Minha ideia era não voltar ao Estádio Ciudad de Vicente López. Uma vez que conheci o Platense, queria me aventurar por novas experiências futebolísticas, mas ou menos como fizera na primeira passagem pela cidade em 2004 e 2005. Só que agora tinha o desejo de vivenciar a atmosfera dos times de bairro de Buenos Aires e não mais os grandes clubes. Que legal seria ir aos estádios do Chacarita, do Argentino Juniors, do Barracas Central e do Huracán. Contudo, algumas semanas mais tarde da primeira visita ao campo do Calamar, ouvi uma conversa no Parque Saavedra entre dois torcedores do Marrón . Se a equipe local vencesse o próximo jogo em casa contra o Sarmiento, teria chance de classificação para a fase de mata a mata da principal competição daquele semestre. Achei interessante a proposta de ver in loco uma partida decisiva. Ainda assim, estava mais empolgado em sair com a Policial de Belgrano, meu primeiro crush en tierras hermanas . A questão foi que no sábado de manhã, a moça que usava o uniforme da Policía de la Ciudad me deu um belíssimo de um bolo. Sem nada para fazer naquele dia, decidi ver o jogo do Platense que até então tinha desprezado. E foi nessa tarde que me apaixonei pelo Calamar. A qualidade do jogo manteve-se horrível. Eita time ruim esse, Santo Deus! Porém, a empolgação da torcida esteve em patamares inimagináveis. Como já sabia cantar algumas canções, entrei no clima. O 1 a 0 chorado (ao melhor estilo corintiano, que estou acostumado desde criança) levou a arquibancada à loucura. Para um time que viveu um século nas divisões inferiores almejar a classificação para as quartas de finais já era uma realização. Entretanto, não dependíamos apenas dos nossos próprios passos.   Entusiasmado com a perspectiva de classificação inédita para os playoffs, passei a acompanhar com mais afinco o clube. Resumidamente, o Platense conseguiu ir para a próxima fase do Argentinão a trancos e barrancos. Na segunda-feira seguinte, o San Lorenzo ganhou em casa do Central Cordoba, que disputava com o time de Saavedra a oitava colocação da primeira fase. Festa em Saavedra! Platense terminou em oitavo, posição limite para a classificação. Daí em diante, foi um conto de fadas (quase) perfeito. Vencendo as quartas e as semifinais nos pênaltis (jogando muuuuuuuuuuito mal e feio), o Calamar chegou à final do Campeonato Argentino. Você consegue imaginar o clima no bairro? Depois de aproximadamente 120 anos, os sofridos torcedores da pequena agremiação do esquecido e ignorado bairro da Zona Norte de Buenos Aires poderia entrar para a história e colocar seu nome no panteão dos grandes campeões. É claro que na decisão contra o Rosário Central, em 16 de dezembro de 2023, eu estava vestido com a camisa marrom e branca (que um dia achei feia). Fui ao bar mais futebolístico da cidade, o Locos X Futebol, na Recoleta, para ver a partida realizada em Santiago del Estero. Só não viajei para o Noroeste do país com as caravanas do Calamar porque minha irmã chegara alguns dias antes para me visitar em Buenos Aires. Não dava para deixá-la sozinha por causa de um jogo, né? Infelizmente, o Platense perdeu por 1 a 0 e ficou com o vice-campeonato. Para quem acha que a torcida ficou triste, não conhece a alma marrom. A alegria por ter se tornado um protagonista do futebol nacional contagiou os velhos e novos torcedores do clube. Depois disso, virei figurinha carimbada na arquibancada do Estádio de Vicente López. Ciente dos encantos do meu novo time, meus amigos no Brasil passaram a me acompanhar a la cancha de Vicente López sempre que vinham me visitar em CABA. Em pouco tempo, a legião de hinchas  de Calamar tinha se propagado no meu círculo. Para meu espanto, o raio caiu no mesmíssimo lugar pouco tempo depois. No Apertura de 2025 que ainda está rolando, novamente o Platense se classificou para o mata a mata na bacia das almas. Dessa vez, iam para os playoffs os 16 mais bem pontuados. Nas oitavas de finais, jogando na casa do Racing (lembra dele?!), vitória não sei como por 1 a 0. Nas quartas de finais, na casa do poderoso River Plate, empate por 1 a 1 no tempo normal e vaga para semifinais conquistada nos pênaltis. Ontem rolou o  confronto com o San Lorenzo fora de casa. E nova conquista épica. Vitória por 1 a 0. Festa indescritível em Saavedra. Acreditem se quiser, o Calamar está na final outra vez. Será que agora a pequena e simpática equipe marrom conseguirá erguer o inédito título nacional da primeira divisão? A resposta será dada no próximo domingo em Santiago del Estero . Só sei que o Platense está me dando mais alegrias nos últimos anos do que meu time brasileiro, o Timão. Ai, ai, ai. Será que agora sou um torcedor do Calamar que tem admiração pela equipe do Parque São Jorge ou sou um integrante do Bando de Loucos com fixação pelo Platense? Juro que não sei. Durmamos com essa bomba, senhoras e senhores. Para quem está curtindo os textos desta coletânea da coluna Contos & Crônicas , aviso que em outubro retornarei com mais um post. O próximo tema de “Tempos Portenhos” será a pluralidade artístico-cultural da capital hermana . Portanto, prepare-se para ler em breve o Episódio 7 – A Capital Cultural da América do Sul . Até lá! ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques; o amor incondicional aos cachorros; a paixão pela carne; a devoção pelo futebol; as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata; a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às das cidades brasileiras; a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante; o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Crônicas: Tempos Portenhos - Apresentação

    A nona temporada da coluna Contos & Crônicas será sobre a vida na cidade de Buenos Aires. De 2024 a 2026, acompanharemos os relatos pessoais de um brasileiro que está morando na capital da Argentina. Confira os detalhes e a programação da nova série narrativa do Bonas Histórias. Novidade! Olha a boa nova aí, gente! Exclusivo: temos notícia quentinha saindo do forno! Bomba, bomba que acabou de ser revelada! Vocês viram a última? Ninguém fala de outra coisa no Brasil nas últimas horas. Conheça as revelações INACREDITÁVEIS que poucos tiveram a coragem de mostrar ao grande público. O país está parado na expectativa do que será dito sobre esse assunto. Emulando as manchetes sensacionalistas dos antigos jornais popularescos (que os sites pseudojornalísticos tão bem incorporaram nos últimos anos para angariar milhares de cliques) informo que teremos uma nova série narrativa  na coluna Contos & Crônicas . Sim, senhoras e senhores, esta era a grande novidade que eu tinha para revelar com tanta avidez. Antes que comecem a voar tomates e ovos na minha direção (não façam isso por favor; os alimentos estão caros e a fome no mundo é grande!), deixem-me explicar o inexplicável. Em 2023, foi a primeira vez (na história deste país) que não tivemos uma coletânea de textos exclusivos  no Bonas Histórias . Por que interrompi a tradição de nove anos de apresentação regulares de narrativas ficcionais (romances, novelas e contos) e não ficcionais (crônicas e memórias) no blog, hein? Simplesmente porque não tive inspiração para produzi-las. Sei que é feio falar sobre isso, mas é a verdade (verdadeira). Fazer o quê?! Esconder o bloqueio criativo e a aridez literária embaixo do tapete? Nananinanão. Aqui revelo a realidade nua e crua sem moderação. Sou adepto do doa a quem doer e do custe o que custar. Contra o mundo idílico propagandeado pelas redes sociais e em oposição à rotina maravilhosa estampada pelos colegas blogueiros (à la comercial de margarina), trago o que Nelson Rodrigues convencionou chamar de a vida como ela é. Já que apertei duas vezes a tecla S (da Sinceridade Suicida), vou mais longe nos detalhes sórdidos. Em 2022, já não tinha nenhuma novidade para apresentar aos leitores do blog. Por isso, reciclei uma coletânea de crônicas  antiga (desenvolvida originalmente em 2012), "O Ano que Esperávamos Há Anos" . Acho que o resultado até que foi muito satisfatório para um material tão antigo (diria até que pré-histórico – uma época em que estava engatinhando na escrita criativa e no  fazer literário ). Pelo menos o feedback que recebi dos leitores mais assíduos sobre a última série narrativa foi positivo. Ou no pior dos casos, a coleção não ficcional do torcedor corintiano que viveu os melhores anos de sua vida em 2012 deu para o gasto. Se bem que sou suspeito para falar, né? Os tempos em que o Timão era imbatível dentro e fora das quatro linhas e o técnico Tite tinha personalidade invejável até hoje trazem ótimas recordações para a Fiel Torcida. Em outras palavras, meu bloqueio criativo não era algo momentâneo – já durava dois anos! Se preferir, eram 24 meses, 104 semanas, 730 dias de página em branco. Com medo que ficasse mais uma temporada no vazio criativo (ou que esse virasse o meu novo normal), resolvi promover grandes transformações na minha nada edificante vida. O meio de 2023 representou o momento que chamei de “revolução pessoal do Ricardinho”. Foi aí que apertei outro botão, o F no teclado da minha vida. Em busca de inspiração para novas histórias, matéria prima essencial da coluna Contos & Crônicas  e do meu trabalho como escritor ficcional, troquei de empregos (sim, no plural), me mudei de cidade, rompi antigos relacionamentos e alterei sensivelmente minha rotina. Achou muita coisa? Sabe de nada, inocente! Passados quase seis meses do estopim da “revolução pessoal do Ricardinho” (que minha família prefere ver até hoje como “surto de maluquice do Ricardo”), me pergunto: valeu a pena?! Algo mudou efetivamente no meu trabalho literário? Deu certo virar a rotina do avesso? A resposta, ufa, é a melhor possível. Os resultados têm se mostrado extremamente compensadores até aqui. Não apenas a criatividade e as ideias retornaram com abundância como tive tempo para produzir esta que será a nona temporada de Contos & Crônicas , uma das mais tradicionais colunas do Bonas Histórias . Em longevidade, talvez ela só perca para Livros – Crítica Literária , Cinema , Mercado Editorial  e Músicas . Se você acabou de chegar por aqui e não conhece essa seção do blog, posso dizer que ela é o espaço para a divulgação de minhas próprias narrativas literárias (e, esporadicamente, de tramas de colegas escritores). Neste bololô textual, já apresentei ora materiais ficcionais (as coletâneas de contos “Paranoias Modernas” e “Diálogos Urbanos” , a novela “O Ghost Writer” e os possíveis romances de “Primeira Página” ), ora materiais não ficcionais (as coletâneas de crônicas “Eu e o Mundo” , “Março Negro” e “Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora” e as memórias de “O Ano que Esperávamos Há Anos” ). Para completar, ainda tivemos, em 2016, a novela “Histórias de Macambúzios” do talentoso Paulo Sousa. Enquanto nas demais partes do Bonas Histórias  eu analiso as mais diferentes manifestações artístico-culturais produzidas por outros artistas (com destaque especial para a literatura), nos posts de Contos & Crônicas  crio coragem e exibo meus textos autorais (e de autores que admiro). Agora que a lufada criativa voltou a soprar perto da minha embarcação literária, voltarei à tradição que remonta às origens do blog. Ao longo de 2024, 2025 e 2026, quero trazer para vocês uma nova série de crônicas . Meus novos textos serão relatos pessoais sobre como é para um brasileiro viver na cidade de Buenos Aires , a localidade que escolhi para morar nos próximos três ou quatro anos. Nesta próxima coletânea textual intitulada “Tempos Portenhos” , vou revelar um olhar diferenciado sobre o dia a dia em Mi Buenos Aires Querido. Nos meus textos, pretendo abordar a cultura da Argentina , os hábitos locais, a história da capital dos hermanos e a rotina nessa que é para mim a metrópole da qualidade de vida na América do Sul. A proposta é trazer no mínimo um texto por bimestre e no máximo um texto por mês. Neste primeiro ano de “Tempos Portenhos”, a frequência de posts será provavelmente mais baixa porque a nova temporada de Contos & Crônicas  será publicada juntamente com a nova coletânea de entrevistas do Talk Show Literário . No próximo ano, com o encerramento (definitivo ou provisório, juro que não sei ao certo) dos bate-papos de Darico Nobar com as personagens clássicas da literatura brasileira, certamente teremos um número maior de relatos pessoais sobre a incrível Buenos Aires. Caso alguém tenha ficado curioso do porquê deixei São Paulo (minha cidade natal e onde estava vivendo havia oito anos) e escolhi Buenos Aires (nessa segunda passagem por aqui), posso gastar algumas linhas explicando. Comecemos pela saída. Confesso que poderia dizer que me cansei da violência paulistana, da sensação de constante insegurança, do barulho, da sujeira e do caos urbano. Também poderia alegar decepção com um país que se polarizou nos últimos anos em dois extremos políticos igualmente repugnantes e que me fazem enojar a mentalidade de meus conterrâneos. Também poderia dizer que me decepcionei tanto com algumas pessoas que a distância seria o mais prudente para mim (e para elas!). Ao mesmo tempo que tudo isso é verdade, essas justificativas não explicariam exatamente o tchau tchau São Paulo, o bye bye Brasil. O motivo real do embarque foi a minha necessidade pessoal de voltar para a estrada. Depois do término do período pandêmico, que me fez ficar mais tempo do que imaginei em Sampa, era hora de voltar a viver novos (e bons) ares. Eu adoro conhecer culturas distintas e morar em diferentes regiões. Já até perdi a conta em quantas cidades já residi: Campinas (SP), Porto Alegre (RS), São Leopoldo (RS), Varginha (MG), Buenos Aires (ARG) e Jundiaí (SP). Admito que não compartilho o sentimento (bastante arrogante por sinal) de muitos paulistanos (e de neopaulistanos) que acham que o Brasil se resume a São Paulo. Não concordo. Os períodos mais interessantes de minha trajetória pessoal e profissional e as fases com maior qualidade de vida foram justamente aqueles em que vivi (bem) longe da capital paulista. Exatamente por isso, a vontade de voar para terras distantes. Como trabalho em home office (muito antes desse formato se popularizar na pandemia de 2020), tenho a vantagem de levar o escritório na mala. Se é para revelar o plano inteiro, vamos a ele. Minha ideia é não voltar tão cedo para São Paulo (abraço, Ricardo Nunes e Tarcísio de Freitas). Quero viver dois ou três anos em um lugar diferente e depois me mudar para outra localidade, onde também ficarei por mais dois ou três anos. Pretendo levar essa fase seminômade entre uma década e uma década e meia. Na minha rota (de desejo de consumo) para morar estão, em ordem decrescente de vontade, Montreal (para aprender francês), Melbourne (para deixar o inglês à la Crocodilo Dundee), Montevideo (no caso de eu ficar rico, casar e ter filhos – essas coisas que eu não desejo para ninguém!), Florianópolis (nos meus melhores sonhos, estou entre Beira-Mar Norte e Lagoa da Conceição), Coimbra (para fazer o Mestrado em Escrita Criativa na Universidade de Coimbra), Ponta Delgada nos Açores (no caso de eu precisar fugir do mundo e ficar em um lugar bem remoto), Patagonia Argentina – San Martín de Los Andes, Villa de Angostura ou Ushuaia (mas para tal terei que convencer a policial de Belgrano a vir comigo – não dá para passar tanto frio estando sozinho!) e Copenhage (com o único objetivo de me casar com uma dinamarquesa padrão FIFA). E onde entra Buenos Aires nesse lindo plano, Ricardinho?! Bom questionamento, atento(a) e astuto(a) leitor(a) desse meu querido blog. A Argentina, admito, não estava no plano original de imigração. Porém, eu precisava começar por algum lugar, não é? E a América do Sul me pareceu mais viável. Além disso, é mais fácil conseguir fixar residência nos países do Mercosul, onde ser brasileiro já facilita em muito os trâmites legais. As quatro cidades sul-americanas que cogitei para essa primeira etapa do meu plano foram: Montevideo (achei uma cidade muitíssimo cara, totalmente inviável para meu orçamento atual, e pouco vibrante), Santiago do Chile (está fora do Mercosul, o que dificultaria um pouco a obtenção do visto de residência), Assunção (o local com o maior elemento de aventura pois não conheço NADA do Paraguai!) e Buenos Aires (lugar que conheço relativamente bem por já ter morado aqui quando trabalhava na Coca-Cola entre 2004 e 2005). Com essas cartas colocadas na mesa, a escolha da capital argentina foi quase que natural. Além de ela estar muito barata (para quem ganha em real e gasta em peso argentino), é uma cidade encantadora. Sou apaixonado por Buenos Aires. Gosto tanto daqui que não me importaria de viver para sempre nessas terras (o difícil vai ser deixá-la em 2026!). Se por um lado estar novamente em CABA perde um pouco do ar de novidade, por outro lado acho que posso aproveitar mais o local agora do que na minha primeira passagem (há quase vinte anos!). Como trabalhava muito naquela época (isso quer dizer que não trabalho muito hoje?!), acredito que não tenha mergulhado como deveria na cultura portenha. Para completar, eu tinha só 22 aninhos, era quase uma criança (se você tem essa idade hoje até pode se sentir um adulto, mas eu era um garotão bastante imaturo, tá?!). Não creio que eu tivesse a capacidade intelectual e emocional para analisar a cultura, os hábitos e as particularidade da Argentina e dos argentinos naquela fase da minha vida. Em suma, falei tudo isso para explicar como vim parar aqui. Estou vivendo desde meados de 2023 na Zona Norte de Buenos Aires. Meu primeiro apartamento ficava em Núñez e o segundo, onde ficarei pelo menos mais um ano, está em Saavedra. Escolhi propositadamente bairros pouco turísticos para poder vivenciar a experiência de estar entre os locais. Faço curso de espanhol três vezes por semana no Laboratório de Idiomas da Universidade de Buenos Aires (UBA) , que está localizado no Microcentro (ao ladinho da Casa Rosada). Dessa forma, acabo percorrendo a cidade inteira (de ônibus, trem, metrô e, claro, em longas caminhadas) com bastante frequência. Em “Tempos Portenhos”, quero dividir com vocês as observações, as surpresas e as reflexões que estou fazendo nesses meses iniciais na capital argentina. Mesmo próximo do Brasil, a Argentina é um lugar extremamente diferente do meu país natal. E a rotina e a atmosfera social de Buenos Aires não poderia ser mais distinta de São Paulo. Chega ser absurda a comparação entre as duas cidades. É sobre isso que vou revelar na nova coletânea de crônicas que começa oficialmente hoje. Como deu para perceber, possivelmente haverá no futuro novas séries narrativas não ficcionais sobre a experiência de viver em outros locais do mundo. Por ora, preciso segurar a ansiedade e me restringir aos relatos atuais: sobre a rotina em Buenos Aires e as observações do cotidiano portenho. Pensando nisso, fiz a programação do que a série “Tempos Portenhos” apresentará nos próximos meses. Segue, abaixo, o calendário estimado de publicações da nova coletânea de crônicas do Bonas Histórias  sobre a capital da Argentina:    - 29 de janeiro de 2024 – Apresentação (também conhecido como o texto que você está lendo agora!). - 29 de abril de 2024 – Episódio 1: Distopia Paulistana (ou Carioca) . - 17 de junho de 2024 – Episódio 2: Vida ao Ar Livre . - 19 de agosto de 2024 – Episódio 3: Dogland – Cães Felizes . - 11 de novembro de 2024 – Episódio 4: O Espanhol Argentino . - 24 de fevereiro de 2025 – Episódio 5: Sentando-se à Mesa com os Argentinos . - 26 de maio de 2025 – Episódio 6: La verdadera Cancha del Fútbol . - 27 de outubro de 2025 – Episódio 7: A Programação Artístico-cultural de BsAs . - 19 de janeiro de 2026 – Episódio 8: A Montanha-russa Chamada Economia. - 13 de março de 2026 – Episódio 9: Passeio pelos Bairros de CABA. - 25 de maio de 2026 – Episódio 10: Amores e Desamores. - 20 de julho de 2026 – Conclusão: Meu Lugar no Mundo. Esse é o cronograma de 2024 a 2026 da coluna Contos & Crônicas , senhoras e senhores. Por enquanto acho que é isso, pessoal. Boas crônicas de “Tempos Portenhos” para todos nós! ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques; o amor incondicional aos cachorros; a paixão pela carne; a devoção pelo futebol; as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata; a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às das cidades brasileiras; a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante; o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Premiações: Nobel de Literatura de 2025 – László Krasznahorkai

    Segundo húngaro laureado pela Real Academia Sueca de Letras, o escritor de 71 anos tem um portfólio que abrange romances, contos, novelas e ensaios e é conhecido pela prosa densa, pelas narrativas herméticas e pelos enredos melancólicos. Na quinta-feira de manhãzinha (início da manhã no Brasil, começo da tarde na Europa), conhecemos o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2025 . A surpresa dessa vez foi que não houve surpresa. László Krasznahorkai , escritor húngaro de 71 anos, era o favorito para receber a maior honraria das artes literárias. Tanto é que, na bolsa de apostas dos meus amigos mais intelectualizados (abraço, Paulinho! Beijo, Maroca!), discutíamos exatamente essa questão no início da semana passada. Na nossa concepção, a Real Academia Sueca de Letras  criara, nos últimos anos, certo padrão na hora de premiar os escritores com as medalhas douradas (e cheques no valor de aproximadamente um milhão de dólares). Assim, estava mais fácil (ou menos difícil) descobrir o felizardo. Deixe-me explicar a lógica do nosso raciocínio, senhoras e senhores. Num ano o laureado é europeu, no outro é um não europeu. Numa temporada é um homem, na outra é uma mulher. Se numa edição o vencedor é um autor de não ficção (poeta, dramaturgo, ensaísta ou músico), nos próximos dois anos os contemplados são ficcionistas (geralmente romancistas). O que não tem mudado é o perfil do Nobel de Literatura: escritores com produções textuais densas, estilos diferenciados e obras que retratam a essência humana e a realidade mundana de maneira acachapante. É esse o padrão que detectamos nos últimos cinco anos e que permanece inalterado no Pós-Pandemia. Por isso, na redação do Bonas Histórias , as fichas estavam depositadas em Krasznahorkai. Afinal, a última vencedora fora Han Kang , uma romancista não europeia, e o penúltimo ganhador fora Jon Fosse , dramaturgo europeu. Seguindo a nossa lógica nem um pouco cartesiana, o novo laureado só podia ser um ficcionista masculino e europeu. Touché ! Com essa reflexão tão sagaz da nossa parte (nos sentimos inteligentes como há muito tempo não acontecia), a chinesa Can Xue e o japonês Haruki Muraki , outros fortes candidatos ao Nobel literário, se tornaram cartas fora do baralho. E por mais que, nas últimas semanas, alguns brasileiros mais ufanistas levantaram a lebre do nome de Milton Hatoum, autor manauara de “A Noite da Espera” (Companhia das Letras) e “Dois Irmãos” (Companhia de Bolso) e favorito para faturar o Prêmio Camões de 2027 (achamos que o ganhador em 2026 será um português), convenhamos que essa possibilidade era remotíssima. Infelizmente, os ventos que têm soprado de Estocolmo não se direcionam à literatura sul-americana, muito menos à literatura brasileira. Por mais que ansiamos por essa conquista (o Oscar já papamos, né?), ela não deverá chegar tão cedo para alguém do nosso país. Mas quem é, afinal de contas, László Krasznahorkai, hein?! Se essa é a sua inquietação, a ideia deste post da coluna Premiações e Celebrações é justamente elucidar tal questão. Até porque, como costumo brincar, o laureado com a medalha do Nobel de Literatura é quase sempre uma figura desconhecida do grande público. Até mesmo os leitores mais assíduos e de bom gosto literário não fazem ideia de quem é o ganhador quando o nome é revelado no início de outubro. Daí a sensação de que o Nobel é o autor que devemos conhecer após sua premiação e não antes. Uma vez que entendi essa dinâmica, passei a dormir com a consciência mais tranquila. Ufa! Voltemos à dúvida: quem é Krasznahorkai? Para começo de conversa, podemos dizer que ele é uma das mais respeitadas figuras da literatura europeia contemporânea . Depois de estudar Direito e Letras na Universidade de Budapeste, o húngaro se lançou no papel autoral aos 31 anos. Sua estreia na ficção ocorreu em 1985 com a publicação de “Sátántangó”  ( Companhia das Letras ). Esse romance só ganhou uma edição brasileira em outubro de 2022 , conforme destaquei na coluna Mercado Editorial  em novembro daquele ano. A tradução foi feita por Paulo Schiller e conquistou o Prêmio Paulo Rónai de melhor adaptação oferecido pela Biblioteca Nacional.    “Sátántangó” é considerado até hoje o melhor trabalho de László Krasznahorkai e foi levado para o cinema em 1994 pelo também húngaro Béla Tarr. O filme tem nada mais, nada menos do que sete horas de duração. Vamos combinar que não é um longa-metragem e sim uma saga-metragem, né? Para quem pense que possa ser mais rápido ler o livro de 232 páginas do que ver a produção cinematográfica, aviso desde já que a obra literária é densa, o que torna sua leitura extremamente lenta. O nome do jogo aqui é concentração máxima e busca pela interpretação nas entrelinhas. A beleza da narrativa ficcional do novo Nobel está prioritariamente nas camadas mais profundas do texto. Por tal perspectiva, confesso me lembrar bastante da ficção de Milan Kundera, outro romancista do Leste da Europa, autor de “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), “A Brincadeira” (Companhia de Bolso) e “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso).        Essa é a primeira característica que descobrimos do autor recém-premiado: Krasznahorkai não é um escritor fácil. Seu estilo mescla frases longas (em alguns casos, gigantescas!), narrativas com poucos respiros aos leitores (a sensação é que nossa cabeça vai fundir), prosas com alguma musicalidade (obviamente no texto original), personagens melancólicas (a miséria do Pós-Segunda Guerra, a implementação do Comunismo, a Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim foram períodos de intenso pessimismo para a Hungria) e temáticas apocalípticas (algo bem propício para os tempos atuais, que parecem caminhar para o fim do mundo). Ou seja, suas histórias têm o tom de absurdo e flertam com o terror. O enredo de “Sátántangó” se passa em uma pequena aldeia no rincão da Hungria. Os moradores do lugar são desajustados, desiludidos e bêbados. Até a natureza é estranha, pois chove sem parar. A tênue calma da localidade termina com a notícia da iminente chegada de Irimiás, um sujeito misterioso e com fama de bruxo que todos imaginavam já ter morrido. Ele está caminhando em direção à aldeia ao lado de seu amigo, Petrina. A chegada da dupla promove um mix de medo e alegria na sofrida população. No sentido figurado, a dupla de antigos-novos visitantes pode ser associada à perspectiva de retorno do Capitalismo ao país que queria dar um pé na bunda da União Soviética e do sistema comunista. Com esse entendimento da trama oculta, a leitura do romance se torna muito mais interessante. Mesmo com a excelente estreia, László Krasznahorkai só alcançou o sucesso de fato com o segundo livro ficcional. Publicado em 1989, “Melancolia da Resistência”  (Ainda sem tradução para o português, mas com uma edição em espanhol) tem um enredo parecido ao de “Sátántangó”. Nesse título, uma pequena e tranquila cidadezinha do Sudoeste da Hungria fica intrigada com um misterioso circo que se apresenta ali. Contrariando as lógicas mercadológico-comercial e de bom-senso, a única atração da companhia circense é a exibição de uma baleia. What ?! É isso mesmo o que vocês leram, queridos leitores do Bonas Histórias . A baleia é a grande novidade dos artistas mambembes, um paradoxo curioso. A trama é narrada por um trio de personagens, cada qual com uma perspectiva sobre o circo e seu impacto sociocultural no município de ares interioranos. Não é preciso dizer que esse subtexto dialoga diretamente com o da obra de estreia de Krasznahorkai, né?! Apesar das temáticas e do estilo narrativo parecido, as quase 400 páginas de “Melancolia da Resistência” têm tons mais contundentes de mistério, surrealismo e inconformismo do que “Sátántangó”. Assim como o romance anterior, esse livro ganhou uma adaptação audiovisual em 2000. A produção cinematográfica também foi dirigida por Béla Tarr (o nome em húngaro pode enganar, mas se trata de um cineasta e não de uma cineasta). Antes que alguém me pergunte, já vou logo avisando: o longa-metragem tem duração aceitável. São mais ou menos duas horas e meia de extensão. Portanto, não é preciso reservar dias e dias para vê-lo tal qual uma minissérie de televisão. Outros dois títulos importantes de Krasznahorkai são “O Retorno do Barão Wenckheim”  (ainda sem publicação no Brasil, apesar da Companhia das Letras  ter prometido seu lançamento para breve em nosso país – a tradução será de Zsuzsanna Spiry), romance de mais de 500 páginas lançado em 2016, e “Herscht 07769”  ( Cavalo de Ferro ), obra ficcional de 400 páginas que foi publicada originalmente em 2021 e que acabou de sair em Portugal (no Brasil ainda é inédita).   Em “O Retorno do Barão Wenckheim”, um homem volta à vila em que nascera para se despedir. À proximidade da morte e as lembranças da infância, pontos opostos de sua trajetória, o fazem refletir sobre o sentido da vida. Por sua vez, “Herscht 07769” é o livro esteticamente mais inusitado do autor. Em uma única frase (sim, o romance do tipo tijolão não tem nenhuma pontuação), o protagonista está certo de que o fim trágico do mundo está próximo. Ele chegou a essa conclusão a partir das aulas de Física em um curso ministrado para adultos. Ciente do apocalipse, a personagem tenta se comunicar com as principais lideranças europeias para avisá-las do risco que a humanidade corre. Nesse rápido apanhado geral, deu para notar os principais temas da literatura de László Krasznahorkai : falta de esperança, decadência pessoal e social, alienação, mistério surrealista e destino trágico. De modo geral, seus romances são misturas de thriller psicológico, terror (ao melhor estilo fim do mundo) e reflexão existencialista (do tipo pessimista e melancólica). Convenhamos que não é uma ficção das mais palatáveis, né? Falo isso sem medo de ser alvo das críticas pesadas dos fãs do autor húngaro. Na minha visão superficial, os livros de Krasznahorkai são difíceis, complexos e pouco charmosos. É preciso espírito aventureiro e muita concentração para encará-los. Por isso, eles nunca fizeram parte da minha estante. Com o tempo, talvez inclua o autor húngaro nas análises do Desafio Literário . Aí sim terei mais propriedade para falar de seu trabalho.     Nesse momento, o que me incomoda mais no portfólio literário de László Krasznahorka é as frases longas (e as gigantescas também). Sinceramente, não gosto da estruturação textual ancorada na emulação do fluxo de pensamento. Sei que às vezes tal recurso pode funcionar muito bem, dependendo da proposta da obra e do tipo do narrador. Porém, não sempre, né? Aí está justamente o problema: autores que abraçam a narrativa caótica como estilo. Como alguém que cuida muito bem do próprio texto, encaro como displicência a falta de pontuação e a dificuldade do leitor em percorrer as linhas dos romances. Pode até ser preconceito da minha parte, mas não me sinto estimulado a ler, por exemplo, “Herscht 07769”, um bloco de centenas de páginas com palavras sem divisão formal. Atualmente com 71 anos e vivendo nas montanhas de Szentlászló, no Sudoeste de seu país, László Krasznahorkai foi o segundo integrante da literatura húngara  a ser condecorado com o Nobel de Literatura. O primeiro foi, em 2002, Imre Kertész, autor de “Sem Destino” (Planeta), novela lançada em 1975 e que foi traduzida para o nosso idioma apenas por editoras portuguesas. Contudo, com o novo laureado da Hungria, a tendência natural é que as casas editoriais do Brasil olhem com mais atenção e com mais carinho para os escritores da Bacia dos Cárpatos. Pelo menos é essa a nossa torcida. Antes que alguém pense que se trate de descaso de nossas editoras para com a literatura húngara, é bom lembrar que o húngaro é um dos idiomas europeus mais complicados que existem. O motivo para isso é que ele não tem raízes nas demais línguas do continente. Ou seja, não é um idioma indo-europeu. Por isso, é tão difícil encontrar profissionais fluentes para fazer traduções e versões. Para se ter uma ideia do nível de dificuldade, o húngaro não utiliza preposição nem possui verbos no futuro. Além disso, só tem um tempo verbal no presente e um no passado (o indicativo). E vale-se da aglutinação de palavras, tal qual o alemão. Agora imagine o trabalho de um tradutor brasileiro encarregado de adaptar para o português os livros de Krasznahorkai, um autor que, por si só, tem narrativas consideradas difíceis e densas e não é nem um pouco chegadinho a usar a pontuação formal!? Juro que não queria estar no lugar desses profissionais. Pensando melhor agora, assumir o papel de leitor dos títulos do novo Nobel de Literatura não parece a pior posição nessa equação literária. Perigo mesmo nós corremos se tentarmos pronunciar o nome do romancista húngaro. Ainda bem que a coluna Premiações e Celebrações  só produz conteúdo textual. Glória ao Pai! Por falar nisso, alguém aí saberia me dizer como se fala o nome de László Krasznahorkai, hein?! E eu pensando que era difícil pronunciar Abdulrazak Gurnah, Svetlana Alexijevich e J. M. Coetzee... Com essa dúvida nada edificante, me despeço. Até a próxima, senhoras e senhores. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações . E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Mercado Editorial: Livros infantis mais vendidos em 2024

    Confira quais foram os best-sellers da literatura infantil nas livrarias brasileiras no ano passado . O ano de 2025 caminha para o final e eu sigo apresentando a conta-gotas a coletânea de posts sobre os livros mais vendidos no Brasil em 2024 . Quem está ligado no conteúdo da coluna Mercado Editorial  sabe que já detalhei os best-sellers gerais de nossas livrarias no ano passado  (publicação de fevereiro), os principais sucessos da ficção na última temporada (em março), os títulos ficcionais de autores brasileiros mais procurados pelos leitores de nosso país em 2024  (em junho) e as obras infantojuvenis que figuraram no alto do ranking dos mais comercializados no ano passado  (post de agosto). Agora é a vez de comentar os livros infantis mais vendidos nas livrarias brasileiras em 2024 . Portanto, sejam bem-vindos aos best-sellers da literatura infantil , senhoras e senhores! Antes de tratar dos títulos e dos autores campeões de vendagem nas estantes da criançada, acho válido esclarecer que utilizamos no Bonas Histórias  os números do PublishNews , a principal fonte de informação do mercado editorial do Brasil . Com 24 anos de existência, o PublishNews  oferece pesquisas confiáveis, estudos abrangentes e auditorias com credibilidade sobre a indústria nacional do livro. No caso dos levantamentos sobre as publicações mais vendidas, eles utilizam os dados diretamente dos sistemas de venda das principais livrarias nacionais. Assim, revelam semanalmente as obras mais comercializadas no país tanto nas operações físicas quanto nas operações digitais das maiores lojas. Daí a relevância de suas informações. Como estamos falando de literatura infantil no post de hoje, é bom esclarecer também que, na visão do Bonas Histórias , os livros infantis são aqueles direcionados para o público na faixa etária de 2 a 12 anos. Basicamente, há dois grupos de crianças do ponto de vista das editoras (e deste blog): os leitores de 2 a 5 anos (fase de pré-alfabetização) e os leitores de 6 a 12 anos (fase de alfabetização e início do letramento). Depois dos 13 anos, é bom que se diga, a molecadinha passa a ser considerada adolescente (entrando na categoria infantojuvenil). Feitas essas observações de caráter estritamente técnico (desculpe-me pelas formalidades protocolares), podemos debater os best-sellers infantis no Brasil no ano passado. Sem mais enrolação, vamos ao conteúdo de fato da coluna Mercado Editorial  de hoje! Na listagem dos 13 títulos voltados para o público mirim que figuraram no alto do pódio dos mais comercializados no país em 2024 estão trabalhos de basicamente cinco escritores: Enaldinho , Maidy Lacerda , a dupla Gabriel Dearo & Manu Digilio  e Jeff Kinney . Com exceção de Enaldinho, novidade da última temporada, os demais são autores com coleções exitosas entre a molecada há alguns anos. Por isso, quem acompanha o ranking das obras de maior sucesso da literatura infantil certamente conhece esses nomes e seus livros de cor e salteado. Por exemplo, Maidy Lacerda, influenciadora digital natural de Minas Gerais, emplacou três títulos de “O Diário de Uma Princesa Desastrada”  (Outro Planeta) e lançou no ano passado a primeira história de “O Caderno de Maldades do Scorpio” (Outro Planeta), extensão da trama de “O Diário de Uma Princesa Desastrada”. Esse conjunto de quatro publicações (o segundo volume de “O Caderno de Maldades do Scorpio” só chegou às lojas no bimestre passado) alcançaram mais de 100 mil unidades comercializadas entre janeiro e dezembro do ano passado. Vamos combinar que é um desempenho espetacular, né?! Gabriel Dearo e Manu Digilio, o casal de influencers do interior de São Paulo, obtiveram números ainda mais expressivos com a coleção “As Aventuras de Mike” (Outro Planeta). Os cinco títulos dessa série geraram vendas de aproximadamente 120 mil exemplares e ficaram todos no top 10 dos best-sellers infantis. Incrível! Ou alguém conhece uma outra dupla de escritores que colocou 5 livros no grupo dos 10 mais comercializados em sua categoria, hein? Eu juro que não conheço. Como adiantei, a grande surpresa de 2024 entre os best-sellers infantis foi Enaldinho, outro influenciador digital amado pela garotada. Pelo visto, para levar as crianças às compras nas livrarias, é preciso cativá-las antes no Youtube e nas redes sociais. Com o sucesso de seu canal de vídeos, o jovem de Belo Horizonte foi o autor do livro infantil mais vendido em 2024. “Elo Monsters Books – Flow Pack” (Pixel) teve mais de 59 mil unidades comercializadas no ano passado. Isso porque essa obra foi publicada no finalzinho de outubro. É isso mesmo o que vocês leram. Em apenas dois meses e pouco, aproximadamente 60 mil exemplares do livro de Enaldinho foram adquiridos. Se isso não é um best-seller instantâneo, não sei mais o que seria um êxito imediato. O único gringo entre os best-sellers infantis no Brasil (e o único escritor legítimo – não se trata de um influencer) é Jeff Kinney, autor da coleção “Diário de Um Banana” (VR Editora). Sua famosa série sobre os relatos bem-humorados sobre a infância conturbada foi lançada em 2007 e chegará neste mês ao 20º volume. Em nosso país, os vários títulos de Jeff Kinney somaram vendas em torno de 100 mil unidades e emplacaram três obras entre os top 13 dos mais requisitados pelo público mirim. Esse é um panorama geral dos sucessos da literatura infantil no Brasil no ano passado . Para que possamos analisar título a título os best-sellers de 2024 na prateleira da criançada, segue abaixo o ranking dos livros mais vendidos dessa categoria por ordem decrescente. Assim, acredito que dê para termos uma melhor dimensão do que tem agradado aos meninos e às meninas na hora da leitura ficcional. Confira! 1º “Elo Monsters Books – Flow Pack” (2024) – Enaldinho (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Pixel – 59,8 mil unidades. 2º “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (2022) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 33,6 mil unidades. 3º “Diário de Um Banana – Um Romance em Quadrinhos” (2007) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 31,1 mil unidades. 4º “As Aventuras de Mike – A Origem de Robson” (2023) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 30,0 mil unidades. 5º “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 27,2 mil unidades. 6º “O Diário de Uma Princesa Desastrada 2” (2023) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 20,5 mil unidades. 7º “As Aventuras de Mike 3 – Mudando de Casa” (2022) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 20,5 mil unidades. 8º “O Caderno de Maldades do Scorpio” (2024) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 19,4 mil unidades. 9º “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê Chegou” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 18,7 mil unidades. 10º “As Aventuras de Priminha Irritante no Reino dos Unicórnios” (2024) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 15,3 mil unidades. 11º “O Diário de Uma Princesa Desastrada 3” (2024) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 12,7 mil unidades. 12º “Diário de Um Banana – Rodrick É O Cara” (2008) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 10,7 mil unidades. 13º “Diário de Um Banana – Cabeça Oca” (2023) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 10,1 mil unidades. Com esse post, encerro a série de publicações da coluna Mercado Editorial  sobre os livros mais vendidos em 2024. Em fevereiro de 2026, prometo retornar ao blog com uma nova coletânea de análises dos best-sellers. Obviamente, a ideia será debater as obras mais comercializadas em 2025 nas livrarias do Brasil. Até lá, siga acompanhando as demais pautas do Bonas Histórias . Porque tenho certeza de que não faltarão, nas próximas semanas e meses, discussões de altíssima qualidade sobre o melhor da literatura, cinema, música, dança, teatro e tantas outras representações artístico-culturais. Nos vemos por aí, senhoras e senhores!   Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Dança: Bolero – A história e os passos do ritmo mais romântico da Dança de Salão

    Conheça o surgimento, o crescimento, as influências e as principais características do Bolero, dança nascida na Espanha no século X e modernizada em Cuba e no México entre o final do século XIX e o início do século XX. Famosa pelo romantismo e pela elegância, essa modalidade é capaz de nos surpreender até hoje. Sei que fazia um tempinho que estava longe da coluna Dança . Nossos últimos encontros por aqui foram em junho e fevereiro de 2024, quando falamos, respectivamente, da Salsa , o contagiante e frenético ritmo caribenho, e do Tango , a apaixonante e intensa modalidade argentina. Mas não se preocupem: estou de volta ao Bonas Histórias  para tratar das belezas e dos desafios do universo dançante. E para aquecer (ou descongelar) os corações nesse fim de inverno, vou debater hoje uma das danças mais românticas que conheço. Vamos devagarinho, passo a passo, deslocando dois para lá e dois para cá. Vale até um rostinho colado para os casais que já tem mais afinidade. E aí, já conseguiu imaginar sobre qual ritmo iremos nos aprofundar neste novo post? Convido a todos para um bailar nostálgico, cheio de encantos, histórias e surpresas pelos mais célebres salões aristocráticos do império espanhol. Vamos adentrar, assim, nos passos, na passionalidade e na melodia do Bolero , um dos ritmos da Dança de Salão  mais tradicionais e queridos. Vale dizer que o Bolero vem conquistando os corações e os pezinhos de muitos casais de dançarinos até os dias atuais. Muitas pessoas podem até, num primeiro instante, ter certo preconceito com uma modalidade tão antiga e com ar formal. Contudo, logo se envolvem pela sua elegância e por sua atmosfera romântica. Se você é daqueles que ainda veem o Bolero como um ritmo pouco divertido, continue comigo por esse bailar de linhas. Quero provar que essa dança também tem incontáveis charmes e vai conquistar sua preferência na hora de entrar no salão de dança. Infelizmente, muitos aspectos e pormenores da História da Dança  se perderam ao longo dos séculos. Por muito tempo, não havia a concepção de se registrar os acontecimentos sobre essa arte. Porém, juntando um registro aqui com um pedacinho de história acolá, conseguimos ter uma ideia aproximada das origens, evoluções e alcances de alguns ritmos. Por isso, o nascimento do Bolero é um tanto incerto. Não há evidências que comprovem onde ele teria surgido exatamente. Alguns acreditam que tenha nascido na Espanha. Outros falam que seu verdadeiro berço foi Cuba. Nessa polêmica inicial, eu acredito mais na versão que confere sangue espanhol ao Bolero e vou explicar o porquê. No século X, durante o domínio árabe na Península Ibérica, existia uma dança chamada de Bolero de Algodre . O termo “bolero” teria duas possíveis origens: “ boleras ” eram as bolas que ornamentavam os vestidos de influência cigana que as dançarinas espanholas utilizavam em suas apresentações; e analogia à palavra “ volero ” (de “ volar” – voar), referência à ideia de que as dançarinas, que ao se movimentarem com vestidos longos, pareciam voar pelo salão. Ou seja, o nome desse estilo de dança teve origem na Espanha. Nessa época, séculos X e XI, as músicas do Bolero de Algodre já tinham temáticas mais românticas, mas ainda com forte ligação religiosa. Na Idade Média, é bom que se diga, a Igreja Católica era a instituição mais importante em grande parte da Europa e da Península Ibérica. A dança era executada por um homem e duas mulheres, com movimentos elegantes e suaves. Em nenhum momento, os dançarinos se abraçavam, como hoje é característico da Dança de Salão . Eles dançavam quase sem se tocar, em movimentos que alternavam entre o afastar e o aproximar. Naqueles tempos, esse vai e vem corporal adquiria alguma sensualidade. Muitos séculos mais tarde, essa dança e essa música continuaram fazendo parte da cultura espanhola. Contudo, pouco a pouco, o Bolero foi ganhando novos passos, jeitos e contornos, diferenciando-se dos elementos originais. Um marco para o ritmo dançante se deu em 1780, quando o bailarino espanhol Sebastian Cerezo  colocou o seu estilo pessoal nos movimentos. Ele adicionou figuras mais simples e compassos mais lentos. Sob influência das danças francesas, o Bolero passou a ser executado por apenas duas pessoas. Além disso, o casal começou a se aproximar mais. Dessa maneira, a modalidade adquiriu o status de dança popular em seu país. Ele não só conquistou a preferência de dançarinos nos salões de baile da corte espanhola, como também caiu no gosto de grande parte da população. Num período em que a Espanha era uma das principais potências mundiais e colonizava regiões nos quatro cantos do planeta, sua dança nacional era propagada com orgulho pelos espanhóis em suas viagens ao exterior.   E foi assim que os passos cadenciados e românticos do Bolero chegaram à Cuba por volta dos anos de 1880. Curiosamente, foi somente nessa época que o ritmo ganhou, na América Central, as características que conhecemos hoje. Esse é o motivo que leva muita gente a afirmar que o berço do Bolero seria a ilha caribenha. Há, inclusive, quem aponte o nascimento dessa modalidade com o lançamento da música  “Tristeza”  do cubano José Pepe Sanchez . Em Cuba, o Bolero se misturou com as músicas e os estilos africanos e ganhou elementos dançantes mais versáteis, como os giros. O que não mudou muito foi a melodia sentimental, há muito tempo mais pagã e menos religiosa. O casal de dançarinos também passou a ficar com os braços entrelaçados e os corpos colados. A aristocracia e a burguesia cubana receberam bem o novo estilo, mas com uma ressalva: as filhas deveriam dançar com os quadris mais afastados dos seus pares. Foi nesse momento em que o ritmo passou a ser chamado, em terras cubanas, apenas de “El Bolero” . Com a repaginada, o Bolero chegou ao México. No novo país, ele absorveu as influências da cultura local e ganhou ainda mais força e colorido. Foram incorporados à dança ainda mais giros e misturaram-se passos lentos com passos acelerados. A mudança de dinâmica contribuiu para que o ritmo se espalhasse mais rapidamente por toda a América Latina. Não por acaso, ele está até hoje muito presente no Brasil, Porto Rico, República Dominicana, Argentina, Colômbia, Peru e Uruguai. Assim, o México pode ser considerado o país que mais modificou o Bolero e o moldou para a versão que conhecemos atualmente. Nessa nova fase, a música teve profundas alterações. O Bolero passou de um ritmo ternário para um compasso binário e quartenário. Como consequência, a diversificação melódica impactou na forma como os dançarinos se expressavam. Seus passos se tornaram mais ritmados, alternando entre o lento e o rápido. A poética musical, no entanto, se manteve fiel às origens. Os versos seguiram falando de amor, felicidade conjugal, incertezas da vida à dois e desespero pela perda da pessoa querida. As maiores diferenças foram na utilização de letras mais elaboradas e no emprego de linguagem mais culta e sofisticada. Em cada país que chegava, o Bolero absorvia algumas das particularidades da cultura local. O que permaneceu mais ou menos homogêneo foi o ritmo com pegada mais lenta, o que sempre intensificou o clima romântico e é justamente uma das marcas dessa modalidade. Para quem conhece a Rumba, outra das danças cubanas, ela até pode se parecer com o Bolero, mas com uma proposta mais rápida e com mais variações de movimentos. De tão queridinho, o Bolero influenciou outros estilos como a Salsa , o Mambo e o Cha Cha Cha. Nos anos de 1960, na República Dominicana, surgiu uma variante do Bolero, a Bachata , que é moda atualmente em vários países (inclusive no Brasil). Ainda iremos nos aprofundar nesses outros ritmos latino-americanos em novos posts da coluna Dança , exclusividade do Bonas Histórias . Se você ainda não está relacionando o Bolero às suas músicas, acho que posso ajudar. Muitas canções famosas desse ritmo conquistaram a preferência de grandes intérpretes nacionais e internacionais. No Brasil, temos Altemar Dutra , Trio Irakitan , Nana Caymmi , Emilinha Borba , entre outros. No exterior, os mais conhecidos são Trio Los Panchos , Agustin Lara , Bienvenido Granda , Pedro Vargas , Consuelo Velásquez , John Serry Sr. , Armando Manzanero  e Lucho Barrios . Uma figura mais contemporânea é o cantor mexicano Luis Miguel , que tem uma legião de fãs. Seu último show no Brasil aconteceu em 2024, no Allianz Park, em São Paulo. O estádio estava lotado com uma plateia eclética. Os Boleros mais famosos surgiram em Cuba. O primeiro sucesso internacional foi “Aquellos Ojos Verdes” , de 1929, do cubano Nilo Menéndez . No mesmo ano, “Quiéreme Mucho”  foi lançado por Gonzalo Roig . Em 1946, Bobby Collazo  criou “La Ultima Noche” , que ganhou fama com a interpretação de Pedro Vargas . Dessa época, tivemos “Dos Gardénias” , criação de Isolina Carrillo  que catapultou a carreira do cantor Daniel Santos . O México também contribuiu com grandes Boleros. O maior sucesso do país foi “Bésame Mucho”,  do compositor Consuelo Velásquez . Criado em 1941, esse hit teve grandes intérpretes em vários países. Beatles , Plácido Domingo , Diana Krall , Frank Sinatra , Céline Dion ,  João Gilberto  e Simone foram alguns de seus mais famosos intérpretes. No final da década de 1940, Armando Manzanero  contribuiu com “Contigo Aprendi” , “Adoro”  e “Esta Tarde Vi Llover” , entre tantos sucessos. No Brasil, o maior expoente foi Lindomar Castillo , conhecido como o “Rei do Bolero”. Na década de 1970, ele compôs (ao lado de Ronaldo Adriano ) e cantou “Você é Doida Demais” , grande sucesso nas rádios nacionais. Agora vamos nos ater à dança propriamente dita. Afinal, estamos na coluna Dança , né? No Brasil, o Bolero ganhou uma nova roupagem, o que o diferencia das danças praticadas nos demais países da América Latina. Em nosso país, ele pousou no Rio de Janeiro, onde ganhou influência do Samba e do Tango  e adquiriu características peculiares. Até o início da década de 1990, seguiu de forma mais ou menos homogênea nas demais regiões. Os passos básicos (e quase que constantes) eram os famosos dois para lá e dois para cá. Em 1994, o Bolero carioca chegou em São Paulo. Roberto Mendonza , que foi meu primeiro professor de Dança de Salão , contratou dois grandes dançarinos cariocas: João Carlos Ramos e Elaine Delatorre . Eles introduziram na capital paulista o estilo carioca. Foi na escola de dança de Mendonza, a Strapolos , que o Bolero, como dançamos hoje em dia no Sudeste, foi inaugurado em terras paulistanas. Essa escola, onde comecei a dar meus primeiros passinhos, sempre teve o papel de trazer as novidades da dança do Brasil inteiro para São Paulo. Nessa época, Roberto Mendonza também contribuiu para a chegada por aqui do Samba de Gafieira e do Rock-Soltinho, com o linguajar mais acadêmico da Dança de Salão  que conhecemos atualmente. É quase impossível não nos apaixonarmos pelo Bolero ao vermos alguém dançando. Em nosso país, essa modalidade de dança variou bastante quando comparada aos demais países do continente. Por aqui, ela vai muito além dos movimentos básicos e lentos. O Bolero brasileiro mistura passos cadenciados, realizados a tempo de forma lenta e pausada, com outros de grande explosão, feitos em contratempo. Priorizando a elegância, os dançarinos mantêm a postura ereta e esticam as pernas ao máximo para frente e para atrás para alongar o movimento. As bases do Bolero são simples e até mesmo muito parecidas com as do Forró . Essa dança mistura a base lateral, o famoso e já citado dois para lá e dois para cá, com a base frontal, em que a perna esquerda desloca para frente em um vai e volta e a direita fica para trás, também indo e vindo. Por ser um ritmo romântico, o casal tem que dançar abraçado e bem agarradinho. É importante não deixar espaço livre entre o casal. O braço direito do condutor envolve a conduzida pelas costas e o braço esquerdo dela fica por trás do ombro dele. As outras mãos ficam abertas e juntas, fechando a dança. Se você não desistir nos primeiros passos, logo estará se mexendo com Trocadilhos, Caminhadas, Cruzadas e muitos Giros. Do Samba e do Tango , o Bolero trouxe os ganchos de pernas, que são os encaixes entre o casal, e o deslocamento contínuo pelo salão, sempre respeitando o direcionamento anti-horário da roda e as figuras de grande expressão. No Bolero, os dançarinos emulam o tempo inteiro a arte da conquista e da sedução. A conexão entre o casal se dá pelo abraço e pelas torções de tronco. Apesar de ser um ritmo mais sentimental, a maior parte dos passos acontece quando cavalheiros e damas estão posicionados lado a lado e não totalmente de frente. A dança inicia-se com os dançarinos frente a frente. Entretanto, logo em seguida, o condutor já sai ao lado. Ainda assim, ele mantém o tronco conectado ao da conduzida, em uma delicada torção de peito para que o par possa seguir olhando um para o outro. É assim que ambos os dançarinos giram pela pista, na maioria das vezes mantendo o deslocamento. Quero muito incentivar os leitores da coluna Dança  para que comecem a bailar esse estilo o quanto antes. Por isso, vou deixá-los familiarizados com as nomenclaturas dos principais passos do Bolero. Por exemplo, a Cruzada  ocorre geralmente no lugar onde o dançarino faz suas pernas cruzarem por trás da outra, enquanto o parceiro faz o mesmo, só que levando a cruzada pela frente. O passo é lento, sempre com uma pausa alongada a cada cruzada. O Trocadilho  deriva desse movimento, mas acontece a partir do deslocamento pelo salão. As pernas vão alternando o movimento, cruzando pela frente e por trás em uma sequência eletrizante, sem pausas, apenas em contratempo. Nesse momento, cabe até uns giros de quem está sendo conduzido. O “S” é o movimento que pode ser executado pelos dois dançarinos, não necessariamente juntos, igual ao que se passa no Tango . Os pés desenham a letra "S" pelo chão, em um movimento contínuo que lembra muito mais a figura do número 8. O Leque  também é bem característico do Bolero. O casal se posiciona bem ao lado, com os dois dançarinos virados na mesma direção, e desloca os pés lateralmente. Assim, entram na frente um do outro de forma alternada, com as pontas dos dedos fazendo o semicírculo de um leque pelo chão. Por sua vez, o Túnel  é o passo de giro do condutor. Ele caminha para trás, a partir de um giro. Daí em diante, os movimentos seguem as combinações desses elementos, que fazem surgir muitos outros, como o Lápis , a Tolha , o Ioiô , a Trava , o Penteado etc. Sempre rodando o salão com movimentos ora lentos, ora rápidos, o Bolero brasileiro é muito mais dinâmico e envolvente. No início dessa nossa conversa do Bonas Histórias , mencionei que muitas pessoas ainda têm certo preconceito com o Bolero. Pensam se tratar de uma dança parada, pouco animada e voltada exclusivamente para pessoas idosas. Porém, essa impressão está totalmente deslocada da realidade. O Bolero é divertido e envolve dançarinos de todas as faixas etárias com o seu dinamismo e sua versatilidade. Minha afirmação se aplica tanto aos passos dançantes quanto às músicas. Com os poucos passos que acabei de apresentar, poderíamos dançar várias músicas sem repeti-los. Afinal, eles possuem incontáveis variações. E não é apenas a dança que irá surpreendê-los. A música também é contagiante. Para se dançar essa modalidade, não é necessário ficar restrito ao seu gênero musical. Por ser uma dança romântica, o Bolero pode ser praticado e experimentado ao som de uma grande gama de possibilidades sonoras. A única exigência é que a canção seja romântica. Esse dinamismo faz com que o ritmo atraia públicos de várias gerações e de gostos musicais ecléticos. É muito legal dançar Bolero com músicas da MPB, Michael Jackson, Maroon 5, Backstreet Boys, Ed Sheeran, Michael Bublé, Madona, Djavan, Marisa Monte e Shakira.   Espero ter feito seus pezinhos coçarem de vontade de dar uma dançadinha. E gostaria que os corações dos leitores vibrassem e sonhassem com essa dança romântica e elegante por natureza. Assim, concluo o post sobre o Bolero já pensando no próximo conteúdo da coluna Dança . E não se preocupe porque nosso novo encontro será em breve. Não ficaremos mais tanto tempo sem nos vermos por aqui. Acho que até o fim de 2025 ou no mais tardar no início de 2026, trarei novidades dançantes ao blog. Até lá! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão . Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança . E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Filmes: Homo Argentum – A comédia argentina mais esperada do ano

    Em cartaz nos cinemas de Buenos Aires desde o início de agosto, o novo longa-metragem de Mariano Cohn e Gastón Duprat é estrelato por Guillermo Francella, ícone do humor argentino e um dos atores mais carismáticos de seu país. Na primeira quinta-feira de agosto, recebi a visita da minha irmã Marcela em Mi Buenos Aires Querido . Tão logo ela surgiu no saguão do Aeroparque para mais uma minitemporada na capital argentina (a terceira em dois anos), sentenciei com a convicção dos irmãos mais velhos (e dos anfitriões nem um pouco flexíveis): amanhã vamos ver um filme argentino  que estreia hoje nos cinemas. E ainda emendei que aquele seria o único programa inegociável de sua visita. Quando lhe mostrei empolgado que já havia até mesmo comprado nossos ingressos, Celinha concordou sem qualquer contestação. Sua única pergunta foi: o que vamos assistir exatamente? Sem esconder a ansiedade, respondi que era “Homo Argentum”  (2025), a comédia dramática  de dois diretores que adoro. Para completar, o principal humorista da Argentina  era o protagonista. Juro que não exagerei nas minhas palavras introdutórias. Não à toa, este longa-metragem  era o mais aguardado da nova temporada pelos cinéfilos portenhos (grupo do qual me sinto pertencente, tá?). Prova disso é que queria ver “Homo Argentum”   desde abril, quando li que sua estreia nos cinemas seria no segundo semestre de 2025. Cheguei até a comentar sobre essa minha enorme expectativa no post de maio ou junho que tratava de “Mensagem em Uma Garrafa” (Mensaje en Una Botella: 2025), outra comédia dramática argentina. No meio da análise do então recém-lançado título de Gabriel Nesci que foi protagonizado por Luisana Lopilato, escrevi: “(...) preparem-se porque em agosto chega aos cinemas argentinos ‘Homo Argentum’, a comédia local mais esperada do ano”. Isso foi há três ou quatro meses, senhoras e senhores. Estava eu ansioso ou não?! Voltando à história com minha irmã.... Só no dia seguinte à sua chegada En La Ciudad de La Furia , Marcela quis saber mais detalhes sobre o título que iríamos conferir no Multiplex Belgrano  naquela noite. Enquanto pedalávamos do meu apartamento em Saavedra para o Bellagamba Restorán , meu bodegón favorito em Palermo Soho, fui explicando os pormenores desta produção cinematográfica. Disse que “Homo Argentum” era o novíssimo filme de Mariano Cohn  e Gastón Duprat , dupla de cineasta argentina famosa por sucessos tanto nas telonas quanto na televisão. Na coluna Cinema , comentei alguns de seus grandes êxitos na Sétima Arte. Por exemplo, “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016) e “Minha Obra-prima” (Mi Obra Maestra: 2018) ganharam análises completas nas páginas do Bonas Histórias . Considero essas duas comédias dramáticas impecáveis (ou seriam dramas cômicos de excelente qualidade, hein?!). Mais recentemente, Cohn e Duprat foram responsáveis por dois dos seriados de TV mais assistidos e elogiados em seu país: “Meu Querido Zelador” (El Encargado: 2022-2024) e “O Faz Nada” (Nada: 2023). Se você não os viu, por favor, veja o quanto antes! Eles são formidáveis! Gostei tanto dessas produções televisivas (estou aguardando ansioso pela quarta temporada de “Meu Querido Zelador” – “O Faz Nada” teve uma temporada apenas) que quero comentá-las em breve na coluna TV, Rádio e Internet . Portanto, ainda vou voltar a esse assunto logo mais. Não perca as novidades do blog sobre os seriados dessa dupla de diretores. Voltando à apresentação inicial de “Homo Argentum”... Também disse para Celinha, enquanto tentávamos não morrer nas ciclofaixas portenhas, que o nosso filme daquela noite era estrelado por Guillermo Francella , o principal humorista argentino e um dos atores mais carismáticos da terra de Maradona, Evita, Gardel e Quino. É curioso falar sobre isso, pois o público brasileiro só conheceu Francella recentemente, por seu protagonismo em “Meu Querido Zelador”, talvez seu trabalho mais genial na esfera dramática e de maior repercussão internacional. Entretanto, é bom que se diga, os argentinos curtem a comicidade desse experiente artista do audiovisual há muito, muito tempo. Eu, por exemplo, conheci Guillermo Francella no início dos anos 2000, quando ele estrelava os mais hilários sitcons da televisão argentina e lançava os melhores bordões do país. “ No es lo que parece ”, “ Quiero irme a casa! ”, " Un poquito de respeto ” e “ Si es una nena ” são ainda hoje repetidos no dia a dia de Buenos Aires  – essas frases permanecem no imaginário coletivo e foram incorporadas ao repertório cultural da nação. Por isso, é impossível não lembrarmos do espetacular “Poné a Francella” (2001 a 2002), programa humorístico que reunia várias enquetes curtas, sempre protagonizadas por Francella (daí seu título). Para mim, suas personagens inesquecíveis dessa época são Arturo Petrocelli de “La Nena”, Fernando de “El Masajista”, Rafael Campuzano de “Cuñados” e Marcos de “No es Lo que Parece”. Confesso que vi todos os episódios de “Cuñados” e “No es Lo que Parece” e muitos de “La Nena”. Apesar de conterem um humor datado e politicamente incorretos (aos olhos atuais), eles ainda funcionam superbem.   Guillermo Francella também fez muito sucesso na televisão com “Casados con Hijos” (2005 a 2006), versão argentina de “Married with Children” (1987 a 1996) que era tão boa quanto a original, e “El Hombre de Tu Vida” (2011 a 2012), uma espécie de mescla satírica de “Nove Rainhas” (Nueve Reinas: 2000) e “Amores Materialistas” (Materialists: 2025). Vale citar que na década de 1990, ele ainda protagonizou “La Familia Benvenuto” (1991 a 1995) e “Brigada Cola” (1992 a 1994), mas nunca vi nenhum episódio desses programas (sequer conheço seus enredos). Assim, Francella se tornou um dos atores mais queridos e populares da Argentina, principalmente nas comédias televisivas. Talvez esse destaque tenha dificultado a obtenção de bons papéis dramáticos no cinema. Recordo que ele participou pontualmente de “Os Segredos dos Seus Olhos” (El Secreto de sus Ojos: 2009), última produção argentina que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Por isso, “O Clã” (El Clan: 2015) é considerado um filme tão emblemático em sua carreira. Nesse thriller policial, enfim o experiente ator que fez os argentinos rirem por décadas na televisão brilhou como protagonista dramático nas telonas (algo que faria mais tarde na TV em “Meu Querido Zelador”). Falei tudo isso para a Marcela (enquanto pedalávamos!!!) como uma tentativa de mostrar que juntar a direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat com a atuação de Guillermo Francella era realmente um programa cinéfilo imperdível na Buenos Aires invernal. Para fechar minha explanação, contei ainda que “Homo Argentum” reunia 16 pequenas histórias sobre a argentinidade. Ou melhor dizendo, como o próprio título da película informa explicitamente, os enredos girariam em torno do ser humano natural da Argentina – não o Homo sapiens  tradicional como conhecemos, mas o Homo argentum , uma variação bem específica da nossa espécie que nasceu e se alastrou no cone sul do continente americano. Todas as tramas cômicas seriam protagonizadas por Francella, que assumiria os mais distintos tipos em cada historieta. Em suma, tratava-se de um longa-metragem formado por uma série de curtas-metragens. Segundo a publicidade local desta produção, eram “ 16 mini películas en una sola grand película ”. Se fosse um livro, poderia enxergar “Homo Argentum” como uma coletânea de contos ou crônicas. Por isso, imediatamente me lembrei de “Relatos Selvagens” (Relatos Salvajes: 2014), uma das melhores produções argentinas do século XXI e merecedora do Oscar de Melhor Filme Internacional na cerimônia da Academia de Los Angeles de 2015 – estatueta entregue injustamente para “Ida” (2013), drama polonês chatérrimo de Paweł Pawlikowski. Estaríamos, então, diante de uma versão mais cômica e mais moderna de “Relatos Selvagens”?! Admito um pouco envergonhado que essa era a minha expectativa antes da sessão de cinema. Curiosamente, a proposta para a criação de “Homo Argentum” surgiu durante as gravações da primeira temporada de “Meu Querido Zelador”. No set de filmagem, Guillermo Francella comentou que gostaria de interpretar a versão argentina de “Os Monstros” (I Mostri: 1963), comédia neorrealista italiana de Dino Risi que narrava duas dezenas de tramas sobre os vícios, os paradoxos, as mazelas e as hipocrisias da Itália no Pós-Segunda Guerra Mundial.   De imediato, Mariano Cohn e Gastón Duprat gostaram da proposta do ator e, encerrada as filmagens da temporada de estreia do seriado de televisão, começaram a trabalhar na confecção do enredo do novo longa-metragem. O roteiro de “Homo Argentum” ainda contou com a participação de Andrés Duprat  (irmão de Gastón) e Horacio Convertini . A diferença para o filme italiano é que apenas um ator (Francella) interpretaria todos os protagonistas da coletânea de pequenas histórias. Por mais que esse seja o filme de uma estrela incandescente no centro do sistema planetário da sétima arte argentina, acho de bom tom comentar os demais integrantes do elenco de “Homo Argentum”. Clara Kovacic , de “A Casa dos Mistérios” (The Caregiver: 2023), Guillermo Arengo , de “A Teoria dos Vidros Quebrados” (La Teoria de Los Vidrios Rotos: 2021), Eva de Dominici , de “Sangre Blanca” (2018), Gastón Soffritti , de “Ustedes Deciden” (2023), Dalma Maradona , de “Orillas” (2011), Juan Luppi , de “Luz Mala” (2022), e Vanesa González , de “Los Últimos Románticos” (2019), têm papéis de destaque. Pelo menos essas são as figuras que contracenaram com Francella que eu conheço, além de rostos famosos da música, do teatro e do campo esportivo. Com orçamento de US$ 5,5 milhões, esta produção foi filmada basicamente em Buenos Aires entre outubro de 2024 e janeiro de 2025. Só um dos curtas-metragens foi gravado na Itália, onde aquela trama se passava. “Homo Argentum” foi lançado nas salas de cinema da Argentina, Uruguai e Chile em 7 de agosto. Segundo o que li e ouvi, a previsão de chegada às redes de exibição brasileiras é em 20 de novembro. Já nos serviços de streaming (leia-se Disney+ ), ele deve estar disponível em 19 de dezembro. Pelo menos são essas as informações que coletei. Se algum(a) leitor(a) do Bonas Histórias  souber de mais alguma novidade sobre a vinda desse filme para nosso país, por favor, use o campo de comentários abaixo do post para compartilhar conosco as notícias. O que dá para ser dito de concreto é que “Homo Argentum” se tornou um sucesso imediato na Argentina. Em apenas dez dias, ele foi visto por 1 milhão de expectadores e obteve receita superior ao valor investido. Além disso, o longa-metragem sobre as idiossincrasias da sociedade argentina se tornou a produção mais exitosa no Pós-pandemia em seu país. Nada mal para um longa-metragem que nasceu de uma ideia no set de filmagem e que é uma paródia de um clássico italiano, né? Vamos combinar que os nomes de Mariano Cohn e Gastón Duprat na direção e de Guillermo Francella na interpretação convenceram qualquer um a rumar para a sala escura. Foi o meu caso (e, por consequência, da minha irmã). Ao mesmo tempo em que movimentou o mercado cinematográfico argentino, “Homo Argentum” também mergulhou na forte polarização política da nação albiceleste. Tudo porque Cohn e Duprat são figuras públicas de direita, uma raridade no campo artístico tanto lá quanto cá. Inclusive, a dupla apoiou, na última eleição presidencial, Javier Milei, o amalucado economista anarcocapitalista que foi alçado ao sillón de Rivadavia  (a cadeira de comando da Casa Rosada). Até então, vale a menção, a posição ideológica dos cineastas não representou grandes problemas para eles (afinal, todo mundo tem o direito de apoiar quem quiser e de acreditar no que lhe convém, não é mesmo?!). As coisas mudaram de figura justamente no lançamento de “Homo Argentum”, quando Peluca de León resolveu elogiar o longa-metragem que não havia recebido incentivos governamentais (pelo menos não da esfera federal). Para o presidente que conversa com o espírito de seu cachorro falecido, o sucesso da produção cinematográfica dirigida por dois de seus fãs mais conhecidos era a prova cabal de que o cinema nacional não precisava de recursos públicos. Para aumentar a confusão, Guillermo Francella declarou à imprensa que não gostava de assistir aos filmes custeados com dinheiro público, o que evidenciou sua inclinação política (ou a vontade de agradar ao cada vez mais impopular mandatário do Executivo). Pronto, o barraco estava armado! Os comentários de Milei e Francella provocaram uma enxurrada de discussões acaloradas tanto na mídia quanto nas redes sociais. Enquanto o pessoal de esquerda avacalhava impiedosamente o filme, a galera de direita não se cansava de enaltecê-lo. Para os dois grupos, as obras artísticas devem ser avaliadas única e exclusivamente pelo verniz ideológico de seus criadores/produtores. Eita mente mais limitada dessas pessoas, Santo Deus! É bom dizer que não cometemos tal equívoco no Bonas Histórias  – nossos tropeços são de outra natureza. Para a gente, não importa se os artistas são de direita ou de esquerda (até porque, as duas correntes têm mais semelhanças do que diferenças, principalmente quando localizadas nos extremos). O que vale é a qualidade do trabalho cultural entregue. E, nesse sentido, continuo admirando Mariano Cohn, Gastón Duprat e Guillermo Francella. Não é porque não goste nem um pouco de Javier Milei (que fez uma ou outra coisa positiva em dois anos de mandato, mas uma infinidade de maldades à população argentina) que vou odiar seus apoiadores, né? Só trouxe essa questão para o debate na coluna Cinema  porque, na Argentina em constante ebulição política, esse assunto acabou chamando mais a atenção do que a qualidade em si do principal blockbuster de 2025. Muitas críticas sobre o longa-metragem recém-lançado adquiriram tonalidades ideológicas que nada tinham a ver com os parâmetros da Sétima Arte. Ai, ai, ai. Saio do Brasil para fugir da irracionalidade de uma sociedade dividida entre o idiota e o babaca e vou para uma nação que fica em eterna disputa entre o pior e o péssimo. Aí fica difícil, senhoras e senhores! Voltando ao conteúdo técnico do meu post... As 16 histórias de “Homo Argentum” são: “Aquí No Ha Pasado Nada”, “Una Noche de Suerte”, “Piso 54”, “Bienvenidos a Buenos Aires”, “El Niño Eterno”, “Un Hombre Decidido”, “La Fiesta de Todos”, “El Auto de Mis Sueños”, “Experiencia Enriquecedora”, “Cadena Nacional”, “La Novia de Papá”, “Las Ventajas de Ser Pobre”, “Ezeiza”, “Un Juguete Carísimo”, “Un Film Necesario” e “Troppo Dolce”. Como o filme ainda não foi traduzido para o português (apenas sabemos que seu nome se manterá como no original quando for lançado no Brasil), tive que recorrer aos títulos em espanhol dos curtas-metragens (que provavelmente ganharão uma versão em nosso idioma).   Em “Aquí No Ha Pasado Nada”, assistimos a uma festa noturna num apartamento grã-fino de Buenos Aires. Na conversa entre os amigos cultos e bem-educados, um senhor explica que os argentinos são um povo incrível, de vasta qualidade. Porém, eles não têm a capacidade de formar coletivamente um país as suas imagens e semelhanças. Para o desespero desse senhor, ele provoca sem querer um pequeno acidente na varanda, quando sai para fumar. Assim, terá que tomar uma decisão ética que espelhará seu verdadeiro caráter.   “Una Noche de Suerte”, a segunda história do longa-metragem, Guillermo Francella é um segurança particular de uma rua de classe média alta da capital argentina. Ao encerrar o expediente, ele acaba vivenciando uma experiência sexual inusitada com uma jovem e carente moradora da vizinhança. Por sua vez, “Piso 54” demonstra o drama de um dos empresários mais famosos e ricos do país. Ao pegar o elevador para ir ao restaurante na cobertura do prédio, ele é alvo da chantagem de uma golpista atraente.  Em “Bienvenidos a Buenos Aires”, um cambista da Calle Florida atende com muita simpatia a um casal de turistas brasileiros que quer trocar reais por pesos argentinos. “El Niño Eterno” mostra as dificuldades de um casal de idosos com o filho quarentão que não quer morar sozinho. “Un Hombre Decidido” é sobre um sujeito inconformado com a inseguridade de seu bairro. Diante da leniência da polícia, ele propaga aos quatro ventos que fará justiça com as próprias mãos. A sétima trama é “La Fiesta de Todos”. Nela, presenciamos a locução esportiva de um jornalista argentino apaixonado por sua seleção justamente na final da última Copa do Mundo. Quando os jogadores do time albiceleste conquistam o tricampeonato de futebol em cima da França, o locutor encara fortes emoções. “El Auto de Mis Sueños” trata da façanha de um senhor que, depois de décadas e décadas de trabalho árduo e de muita economia financeira, consegue comprar o automóvel que tanto desejava. Em “Experiencia Enriquecedora”, um milionário de mais idade se encanta ao ver como seu dinheiro pode fazer um rapaz pobretão feliz. Ao invés de pedir artigos caros e inusitados, o garoto pede itens simples como comida e tênis. Assim, aquela inusitada interação se transforma em uma experiência antropológica marcante para o velho ricaço. “Cadena Nacional” retrata a dificuldade do presidente da nação em comunicar decisões difíceis para a população. Dessa maneira, seu pronunciamento ao vivo pela televisão não sai como o planejado. “La Novia de Papá”, 11ª trama ficcional de “Homo Argentum”, é sobre a disputa pela herança de um idoso de classe média alta. Após um ano de viuvez, ele revelou à família que está namorando a empregada doméstica. Obviamente, este relacionamento mexe com os seus filhos ambiciosos. Em “Las Ventajas de Ser Pobre”, um padre prega os ideais do Catolicismo para um grupo de favelados famintos. O problema é que o religioso escolhe justamente o momento da refeição para falar sobre Jesus Cristo. Já “Ezeiza” retrata a tristeza de um casal obrigado a levar a jovem filha ao aeroporto internacional. Ela emigra para a Espanha em busca de mais oportunidades e deixa os pais sozinhos na capital da Argentina. Em “Un Juguete Carísimo”, a antepenúltima história do filme de Mariano Cohn e Gastón Duprat, Guillermo Francella interpreta um avô que tenta provar ao neto que o presente caro que trouxe do exterior é um item difícil de ser encontrado em Buenos Aires. “Un Film Necesario” demonstra a incompatibilidade entre o discurso bonito e humanista e as ações arrogantes e cruéis de um diretor de cinema consagrado. E, por fim, “Troppo Dolce” retrata a viagem de um empresário argentino à Itália. Seu sonho é conhecer os parentes do outro lado do Atlântico. Porém, a interação com a parte italiana da família não sai como a personagem imaginava. Com aproximadamente uma hora e 50 minutos de extensão, “Homo Argentum” se destaca positivamente pelo excelente ritmo narrativo. Como todas as suas tramas são rápidas (com duração mínima de dois minutos e máxima de quinze minutos), o espectador fica o tempo inteiro ligado na telona. A sensação é que não podemos piscar os olhos, do contrário perderemos algo importante e divertido. É claro que, como na maioria das coletâneas de histórias curtas, há aquelas que chamam mais a atenção e que gostamos de imediato e há aquelas mais fraquinhas e que não curtimos tanto. Adorei, por exemplo, “Aquí No Ha Pasado Nada” e “Ezeiza”, que, respectivamente, retratam muito bem os dramas históricos e contemporâneos dos argentinos. Juro que nos dias seguintes à sessão de cinema, repeti várias vezes a frase do protagonista da primeira história: “ El argentino, solo como individuo, siempre se destaca. Es familiero, somos solidarios, tenemos valores. Solo no puedo entender como no podemos salir de adelante como país” . Vamos combinar que essas palavras são de uma ironia maravilhosa (e poderiam ser usadas muito bem para o nosso querido e amado Brasil, né?). Em outra cena de humor fino, o pai e a mãe que viram a filha única partir para o exterior choram desolados, enquanto pregam que não existe país melhor no mundo do que a Argentina, onde podem comer uma boa parrilla .  “El Niño Eterno”, “El Auto de Mis Sueños” e “Un Juguete Carísimo” também são ótimos dramas cômicos, mas possuem um caráter mais universal (e menos local). Ou seja, mostram as maluquices dos seres humanos de maneira geral (e não tanto a argentinidade, como era a proposta do filme). Esses mesmos episódios poderiam, na minha humilde opinião, servir para retratar as angústias de norte-americanos, costa-riquenhos, alemães, japoneses, iranianos, sul-africanos, australianos e brasileiros. Onde estão as particularidades do Homo argentum aí?! Juro que não as encontrei.     Os curtas-metragens mais fracos foram: “Una Noche de Suerte” (impossível não nos recordarmos de “Meu Querido Zelador”), “La Fiesta de Todos” (clichê futebolístico), “Las Ventajas de Ser Pobre” (tema abordado desde a época do Monty Python) e “Un Film Necesario” (infelizmente, um episódio trivial no universo artístico-cultural em todos os cantos do planeta e que não tem nada de original). A sensação é que eles entraram no filme apenas para que a sessão cinematográfica chegasse as quase duas horas de duração, tempo médio dos longas-metragens.   Há algumas cenas e enquetes cômicos que exigem da plateia estrangeira certo repertório histórico, cultural e jornalístico sobre a Argentina. Sem essa bagagem, o espectador não acha tanta graça nos conflitos tragicômicos das personagens de Guillermo Francella. Isso fica mais evidente em “Aquí No Ha Pasado Nada”, “Piso 54”, “Bienvenidos a Buenos Aires”, “Un Hombre Decidido”, “La Fiesta de Todos”, “Cadena Nacional”, “Las Ventajas de Ser Pobre”, “Ezeiza” e “Troppo Dolce”. Não por acaso, achei que “Homo Argentum” é uma produção que vai agradar mais aos argentinos (e à galera que vive por aqui há muitos anos) do que aos gringos (ou àqueles que não estão tão familiarizados com a realidade nas margens mais caóticas do Rio da Prata). Paradoxalmente, saí da sessão de cinema do Multiplex Belgrano  bastante decepcionado. Apesar de ter entendido boa parte das nuances das histórias, esperava muuuito mais de “Homo Argentum”. Aí está justamente o X da questão. Talvez o filme não seja tão ruim. O problema estava na minha altíssima expectativa, o que influenciou na percepção de qualidade. Juro que imaginava ser impactado como fui em “Relatos Selvagens”, essa sim uma coletânea de histórias tragicômicas memorável do cinema argentino . Porém, a nova produção de Mariano Cohn e Gastón Duprat com Guillermo Francella é apenas razoável ou, na melhor das hipóteses, uma boa película. Não mais do que isso. Se comparado, por exemplo, ao filme indicado ao Oscar de 2015, “Homo Argentum” perde de goleada para “Relatos Selvagens” – alguém aí pensou em 7 a 1?! Prova do que estou dizendo é que Celinha, que não tinha expectativa nenhuma ao chegar à sala de cinema (nem sequer conhecia os diretores e o ator protagonista), gostou bastante deste longa-metragem. Curiosamente, minha irmã saiu radiante do Multiplex Belgrano  por ter entendido de 70% a 80% do filme (ela não é fluente em espanhol). Quem leu “Episódio 4: O Espanhol Argentino” , texto não ficcional da série “Tempos Portenhos” , conteúdo da coluna Contos e Crônicas , entenderá o drama de muitos turistas brasileiros ( y de mi hermana ) adeptos do portunhol por Buenos Aires. Além do fator entendimento, ela gostou, conforme me confidenciou na volta para casa naquela noite, da maioria das histórias de “Homo Argentum”. Por isso, repito: não estamos diante de um longa-metragem ruim. Ao mesmo tempo, não espere que ele vá ganhar prêmios cinematográficos importantes (nem será o filme argentino indicado ao Oscar de 2026) ou ser lembrado daqui a uma ou duas décadas. Nem mesmo posso dizer que esse é o melhor trabalho cinematográfico de Cohn e Duprat. “O Cidadão Ilustre” continua ocupando esse posto. No caso das produções televisivas, o primeiro lugar é de “Meu Querido Zelador”. Esses dois títulos são sim merecedores de incontáveis elogios e de numerosos prêmios da indústria audiovisual latino-americana. Mas o porquê me decepcionei tanto com “Homo Argentum”? E o porquê considero alguns degraus abaixo da excelência de “Relatos Selvagens”? Aposto que os leitores mais curiosos da coluna Cinema  estão fazendo essas perguntas. Acho que já adiantei os principais motivos. Em primeiro lugar, a maioria das tramas são universais e não possuem o colorido local. Como um apaixonado pela cultura e pela sociedade argentina (materializadas na série de crônicas “Tempos Portenhos” ), esperava ver mais da argentinidade, que aparece em apenas meia dúzia (quando muito!) dos 16 curtas-metragens. Vamos combinar que é muito pouco. Outra razão foi o recorte muito pontual da realidade do país em que vivo. A visão ofertada pelas histórias do filme é bastante específica e não geral. Em outras palavras, assistimos às tragicomédias de homens idosos, brancos e das classes média e alta de certos bairros de Buenos Aires. E o restante da sociedade argentina, cadê? Ela simplesmente não aparece aqui. Por exemplo, não temos protagonistas femininas, jovens ou do interior. Também não há personagens principais pobres, negras, indígenas ou estrangeiras. Nesse sentido, “Os Monstros”, longa dos anos 1960 que inspirou o filme argentino, é um pouco mais plural (ainda que não represente a totalidade da sociedade italiana no Pós-Guerra) do que sua versão contemporânea. Mas por que os enredos de Mariano Cohn, Gastón Duprat, Andrés Duprat e Horacio Convertini não foram versáteis? Por que essa equipe talentosa não construiu protagonistas mais heterogêneos? A resposta para essas questões é muito simples: porque queriam que Guillermo Francella interpretasse todas as principais figuras da coletânea de pequenas histórias argentinas. Lembremos que foi o ator de 70 anos que teve a ideia dessa produção. Não dava, portanto, para sacá-lo de algumas enquetes ou deixá-lo como coadjuvante ou figurante de algumas mini películas, né?! E essa concentração em apenas um intérprete foi errada? Só responderá positivamente a tal questionamento quem ainda não conferiu “Homo Argentum”. Afinal, a atuação de Francella é de tirar o chapéu. Para completar, é um charme para o público que é tão fã de seus trabalhos (coloque o dedo aqui que já vai fechar!) assistir novamente ao experiente humorista vivenciando uma coleção de figuras bizarras, tal qual tínhamos em “Poné a Francella”, saudoso programa humorístico da televisão argentina.   Em suma, precisamos reconhecer que Guillermo Francella vivencia uma ótima fase como ator dramático e que, não por acaso, segue sendo um dos artistas/humoristas mais carismáticos e queridos de seu país. Parte da comicidade do filme está justamente em ver sua transmutação para os vários tipos interpretados. Ora ele é empresário frio e calculista, padre comunicativo, viúvo apaixonado por uma novinha e vizinho sanguinolento em busca de vingança, ora é avô vaidoso, vigia noturno entediado pela rotina, presidente vacilante e diretor de cinema prepotente. Já que falamos sobre essas transmutações do ator em várias personagens, me sinto na obrigação de apontar os trabalhos de maquiagem (responsabilidade de Araceli Farace ) e figurino (méritos de Constanza Balduzzi ) como maravilhosos. Esses sim são dignos de indicações ao Oscar. Eles são tão bem-feitos que aposto que terá espectadores de fora da Argentina que demorarão para notar que se trata do mesmo intérprete em todas as histórias. Por fim, aviso que “Homo Argentum” está carregado de merchandising. De cabeça, me recorde de ter visto três ou quatro marcas sendo estampadas de forma nem um pouco sutil na telona. Por um lado, entendo a necessidade de se usar os espaços do longa-metragem para gerar faturamento. Até porque, esta produção não usou recursos da INCAA (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales). Por outro lado, é bom que se diga, o melhor merchandising cinematográfico e televisivo é aquele que se encaixa naturalmente na história – lembremos da Wilson e da Fedex em “Náufrago” (Cast Away, 2000). Assim, a marca comercial chega ao espectador de um jeito natural. Convenhamos que não é o que se fez em “Homo Argentum”, que mais pareceu as propagandas explícitas que a Rede Globo faz dentro de suas telenovelas. Aí não dá! Assista, a seguir, ao trailer de “Homo Argentum” (2025): Os brasileiros que estiverem por Buenos Aires nesse princípio de primavera ainda conseguem ver “Homo Argentum” nas salas de cinema. Sei que a rede Multiplex  e o Cine Gaumont , as duas exibidoras que mais frequento, seguem com sessões vespertinas. Acredito que vale a pena conferi-lo nas telonas. Quem não tiver esse privilégio, será preciso esperar sua estreia nos cinemas brasileiros e no streaming no fim do ano.   O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? 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  • Livros: Copo Vazio – A novela best-seller de Natalia Timerman

    Publicado em fevereiro de 2021, o drama sentimental de uma mulher vítima de ghosting se tornou uma das obras ficcionais mais vendidas no Brasil nos últimos anos e catapultou a carreira literária da psiquiatra paulistana . No final de semana passado, li um livro  que repousava há muito tempo na minha estante. “Copo Vazio”  ( Todavia ) é a novela  que alavancou a carreira literária de Natalia Timerman . Até hoje, esta obra é considerada a melhor da escritora paulistana, que também é médica psiquiatra e psicoterapeuta. Depois desse título, é bom que se diga, Timerman não apenas passou a ser vista como uma das principais autoras da literatura brasileira   contemporânea  como virou best-seller da ficção nacional . Impossível não querer conhecer o trabalho de alguém que conquistou tanto a admiração do público leitor quanto o respeito da crítica literária. Mesmo sabendo do êxito impressionante de “Copo Vazio”, uma das publicações ficcionais mais vendidas no biênio 2021/2022 no Brasil, adiava, adiava e adiava, não sei o porquê, o mergulho profundo em suas páginas. Para falar a verdade, meu problema nunca foi a indisposição para a literatura . E sim o excesso de livros na fila de leitura. Seja como crítico literário e crítico cultural do Bonas Histórias , seja como ghostwriter e editor da EV Publicações  e produtor de conteúdo da Epifania Comunicação Integrada , minha rotina é ler e escrever, ler e escrever, ler e escrever, ler e escrever. Assim, fui preterindo esse exemplar à medida que outros entravam na prateleira de próximas leituras (e furavam descaradamente a ordem de chegada). Para não cometer o pecado da mentira com a meia dúzia de pessoas que insiste em me acompanhar por aqui, eu já tinha feito a leitura recreativa de “Copo Vazio” há mais ou menos quatro anos. Basicamente, conferi rapidamente sua trama na época do lançamento. A ideia era conhecer sua qualidade narrativa e textual. Contudo, não chamo esse trabalho superficial de leitura analítica, que é o caminhar atento pela obra contemplada e a confecção de uma série de anotações em meu caderno de estudos artístico-culturais. É sobre isso o que estou me referindo, senhoras e senhores. Se não faço o raio-X completo do título ficcional investigado, sinto que não o li direito. Coisa de crítico literário. Coisa da época em que atuava com pesquisa acadêmica na área da teoria literária. Vai entender! Maluquices à parte, a longa espera acabou no domingo passado. Quando acordei com a boa e velha preguiça matinal de fim de semana, achei por bem ficar largado no sofá residencial do que encarar a friaca do lado de fora do apê. Por falta de venezuelanas ou paraguaias gatinhas como companhia, achei melhor recorrer à literatura e desprezar os encantos do Tinder ou do Happn. Aí ao olhar para a capa de “Copo Vazio” na estante de perfis disponíveis na biblioteca doméstica, dei, enfim, match. Uhu! E como foi prazeroso o date com esta belíssima trama sentimental. Confesso que gostei tanto da experiência que resolvi dar um passo além em nosso incipiente relacionamento e eternizar minhas impressões em um novo post da coluna Livros – Crítica Literária . Portanto, aqui vai a prova cabal (ou seria textual?!) do quão sérias são minhas intenções com a mais recente paixonite ficcional. Publicado em fevereiro de 2021 pela Editora Todavia , “Copo Vazio” é a terceira obra literária de Natalia Timerman, mas sua primeira novela/ romance . O título de estreia foi “Desterro” (Elefante), de 2017, uma coletânea de crônicas de quando a autora trabalhou como médica psiquiatra no hospital do sistema penitenciário de São Paulo. Nessa coleção impactante e visceral de narrativas curtas, assistimos ao drama de presos, carcereiros e médicos obrigados a conviver em um dos ambientes mais atrozes de nossa sociedade. Esse livro foi republicado há poucos meses, em uma nova e mais completa edição pela Editora Todavia . A segunda publicação de Timerman foi “Rachaduras” (Quelônio), coletânea de contos de 2019 que foi finalista do Prêmio Jabuti – o vencedor daquele ano nessa categoria foi “Urubus” (Confraria do Vento), de Carla Bessa. Em “Rachaduras”, conferimos 22 pequenas histórias ficcionais que retratam dramas bem contemporâneos. Com uma prosa elegante e narrativas sedutoras, a escritora disseca as incongruências da sociedade moderna e lista uma série de medos, traumas, desejos ocultos, impasses, amarguras, doenças físicas e psíquicas, sonhos e absurdos dos cidadãos dos tempos atuais. Vamos combinar que essa é uma leitura reveladora sobre nossas loucuras. Assim, quando “Copo Vazio” chegou às livrarias brasileiras, Natalia Timerman não era mais uma autora novata, nem na ficção nem na alta literatura. Convenhamos que para ser finalista do Jabuti, a principal premiação literária do país, o artista das letras precisa ter estofo de qualidade. Contudo, o apoio de uma grande editora (com todo o respeito à Editora Elefante  e à Editora Quelônio , respectivamente, uma pequena e uma média casas editoriais) e o apelo popular das tramas com maior fôlego (querendo ou não, novelas e romances têm mais aceitação pelo grande público do que os contos e as crônicas) foram decisivos para catapultar a carreira literária de Timerman. Para provar que não estou exagerando, hoje ela é vista como uma escritora que também atua como médica e não mais uma psiquiatra que se dedica à literatura. Em 2022, a autora paulistana lançou seu quarto livro, o primeiro infantil. “Os Óculos de Lucas” (Brinque-Book) foi publicado por um dos selos da Companhia das Letras  direcionado aos leitores mirins e teve como coautora Bel Tatit, psicóloga com mestrado e doutorado em Psicanálise. As ilustrações ficaram à cargo de Veridiana Scarpelli, uma das principais designers de livros infantojuvenis do Brasil. A trama dessa obra gira em torno de um menino que ganhou de presente óculos mágicos. Ao colocá-los, ele vê o mundo por uma perspectiva singular. É como se as lentes lhe dessem a capacidade para enxergar o mundo a partir do ponto de vista onírico, poético e encantado. “As Pequenas Chances” (Todavia) é o quinto livro de Natalia Timerman e seu primeiro romance (se considerarmos, obviamente, “Copo Vazio” como uma novela). Publicado em agosto de 2023, conforme destaquei no post dos principais lançamentos das livrarias brasileiras daquele bimestre , conteúdo exclusivo da coluna Mercado Editorial , “As Pequenas Chances” é o drama autobiográfico de uma médica que assiste à doença terminal do pai, também médico. Com a volta do câncer agressivo dele, a narradora retrata as tristezas e as dores da família com a chegada da morte iminente e o tom de despedida de uma figura tão querida por todos. Com texto impecável e narrativa poética, Timerman extrai beleza de uma trama profundamente triste. Para quem acha que a moda da autoficção é exclusividade dos autores norte-americanos e europeus, temos aqui um exemplar genuinamente nacional deste gênero. Por essa rápida passagem pelo seu portfólio, é possível notar que estamos falando de uma escritora beeeeem eclética. Cada um dos seus cinco títulos é de um gênero narrativo distinto: coletânea de crônicas (“Desterro”), coleção de contos (“Rachaduras”), novela (“Copo Vazio”), literatura infantil (“Os Óculos de Lucas”) e romance (“As Pequenas Chances”). O que os une é o retrato original dos relacionamentos humanos, as tramas sensíveis, os conflitos contundentes e as personagens com enorme riqueza psicológica. Só faltou mesmo Natalia Timerman entrar na seara da poesia para que adquirisse a pluralidade completa de figuras como Veronica Stigger, autora de “Opsianie Swiata” (Cosac Naify) e “Anões” (Cosac Naify), Fabrício Corsaletti, de "Golpe de Ar" (Editora 34) e “Quadras Paulistanas” (Companhia das Letras), e Carolina Zuppo Abed, de “Passatempoemas – Desafios Verbo-lógico-matemáticos” (Quelônio) e "Tecle 2 para Esquecer" (Patuá). Esses sim são escritores nacionais que navegam com propriedade por todos os tipos textuais. Ainda assim, a literatura praticada pela médica paulistana é de uma diversidade invejável.   Como os fãs de Timerman já perceberam, ela está há pouco mais de dois anos sem lançar nenhuma novidade. Esse longo tempo sem publicações inéditas seria o indicativo que vem por aí um novo romance ou uma nova novela de grande qualidade? Tomara! Os argentinos responderiam a essa pergunta com uma das palavras mais charmosas do espanhol: ojalá . Para aplacar essa longa ausência da autora paulistana, vale a pena avisar que ela escreve frequentemente para duas das melhores revistas literárias do país: a Quatro Cinco Um  e a Cult . Ou escrevia, já que faz um tempinho que não a encontro pelas páginas desses periódicos. Pelo visto, o silêncio tem sido maior do que poderíamos supor, né? Já que o post de hoje do Bonas Histórias é sobre “Copo Vazio”, deixe-me focar nesse livro. Foco, Ricardinho, foco! Tá bom, senhoras e senhores, vou me ater às obrigações da coluna Livros – Crítica Literária . Atendendo aos insistentes pedidos dos leitores imaginários que insistem em rondar minha mente, informo que essa novela é um drama sentimental  que flerta o tempo inteiro com o suspense psicológico . Abordando temáticas da rotina moderna das grandes cidades, “Copo Vazio” é protagonizado por uma mulher que tinha uma vida aparentemente ajustada: êxito profissional, independência financeira, rede de amigos saudável, ótimos relacionamentos com os familiares, rotina cultural e intelectual ativa etc. Isso até cometer o erro básico de se apaixonar. Atire a primeira pedra quem nunca escorregou nessa casca de banana. O problema não é ficar de quatro por alguém que não merecia o seu coração. O sufoco é enlouquecer quando o(a) amado(a) vai embora sem qualquer explicação plausível. Natalia Timerman escreveu “Copo Vazio” quando fazia a pós-graduação de Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz. Curiosamente, essa história foi apresentada como trabalho de conclusão de curso. Porém, ela tinha outro título e outra proposta naquela época. Passados vários anos, a escritora resolveu modificar completamente a trama para lançá-la comercialmente. Aí repensou a narrativa inteira, reorganizou a estrutura dos capítulos, coloriu as personagens, cortou frases, acrescentou cenas. Ou seja, a novela foi potencializada a partir da perspectiva de uma escritora não mais iniciante e sim de uma autora com certa rodagem no ofício ficcional. Obviamente, Timerman usou sua experiência como psiquiatra e psicoterapeuta para a construção das personagens, principalmente da protagonista e do antagonista, que possuem uma grande riqueza psicológica. Além disso, como pesquisadora da teoria literária e amante dos bons livros, ela se inspirou diretamente nos clássicos da literatura universal para confeccionar esse drama. De certa maneira, “Copo Vazio” é a versão contemporânea e abrasileirada de “Razão e Sensibilidade” (Principis), obra-prima de Jane Austen. Antes que considerem um absurdo da minha parte tal comparação, comunico que quem fez essa associação foi a própria escritora paulistana em uma das entrevistas de divulgação da novela. Portanto, como diria o outro, “me inclua fora” dessa polêmica, por favor. Apresentando com mais detalhes o enredo de “Copo Vazio”, sua história se passa essencialmente na cidade de São Paulo nos dias de hoje. Mirela é uma arquiteta bem-sucedida de 32 anos que vive sozinha em um apartamento confortável no bairro de Higienópolis. Sua vida é tranquila e sem grandes complicações. Após um namorico morno com Fernando, a protagonista desta novela de Natalia Timerman curte a solteirice. Por isso, ela tem tempo para sair com os amigos e visitar a família, aproveita a cena cultural da capital paulista e pode passar um tempo consigo mesma, além de investir na carreira em um respeitado escritório de arquitetura. Diferente da música chiclete de Ana Castela, Mirela não é um(a) solteiro(a) forçado(a) – canção congratulada com o Orelhão de Ouro no Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2023 . Diria até que ela está sozinha momentaneamente e por vontade própria, o que não a preocupa de forma nenhuma.   Contudo, sua solteirice inquieta Marieta, a irmã dois anos mais nova e que ainda vive com a mãe (o pai delas é falecido). Para a jovem, é um desperdício uma mulher bonita, inteligente e divertida como a mana não ter um namorado fixo. Assim, Marieta insiste que Mirela entre num aplicativo de encontros, tais como Tinder, Happn, Bumble e Hinge. Só a ideia de se expor numa plataforma que cataloga as pessoas por fotos e perfis gera indignação na personagem principal da trama. Mesmo assim, após sucessivas negativas de se cadastrar no app, certa noite ao visitar a casa da mãe e já um tanto embriagada, ela dá o braço a torcer e muda de opinião. Sob a supervisão da irmã, Mirela faz sua conta e dá alguns likes. Não demora para pintar o primeiro match. O rapaz se chama Pedro e é bonitão. Na conversa inicial, Mirela descobre que ele é mineiro de São João del-Rei e que está em São Paulo por causa do doutorado em Ciências Políticas. O bate-papo flui naturalmente, ainda que a moça permaneça descrente de que aquilo pode dar certo, e eles marcam um encontro num barzinho da Rua Augusta. O date no domingo à noite se sai melhor do que o esperado e termina com a dupla na cama do apartamento dela. Num piscar de dedos (ou seria de olhos?!), Mirela e Pedro se tornam um casal. No caso, um casal daqueles que não consegue se desgrudar. Eles falam abertamente de todos os assuntos, adoram passar momentos à dois, passam os finais de semana inteiros juntos seja na casa dela, seja na casa dele, compartilham alguns planos e apresentam um ao outro aos amigos, parentes e colegas na capital paulista. Até uma viagem para Minas pensam em fazer. Nesse passeio, ele poderia mostrar Mirela para a avó e alguns familiares. Em outras palavras, a impressão é que os dois estão namorando sério. A química imediata e a fluidez do relacionamento permitem a intimidade quase que instantânea entre eles e a formulação de sonhos futuros em conjunto. Os três meses de união parecem maravilhosos para Mirela. Por mais que o novo crush  fale que seja fechadão, pouco sociável, travado em relação aos sentimentos, atrapalhado no convívio com as outras pessoas e com dificuldade para se envolver emocionalmente, na prática ele se prova de fácil trato e de excelente convívio. Nem mesmo o recente término de namoro de Pedro e o jeitão esquisito do rapaz parecem ser problemões. Afinal, ele raramente fala da ex e não demonstra pensar na antiga paixão. Para completar, aos olhos apaixonados de Mirela, a postura introspectiva dele se torna um charme irresistível. O que mais ela pode desejar da vida, hein? Finalmente, as peças de seu cotidiano se encaixam perfeitamente, tal qual Marieta comentou que deveria ser. Se o copo existencial da moça já estava com bastante volume, agora ele ficou completo. Até o dia em que Pedro para simplesmente de falar com a nova namorada e nunca mais a visita. Sem qualquer motivo lógico, ele lê as conversas de Mirela no WhatsApp e não as responde. Bloquei as redes sociais dela depois de ignorar por semanas seus chamados. O silêncio do rapaz mexe com a personagem principal, que não aceita o término injustificado do relacionamento e insiste como uma louca em reencontrá-lo. Ela cria perfis falsos nas redes sociais para monitorá-lo. Vai até a casa dele, mas não o encontra. Assim, deixa um bilhete para que ele volte a se contactar. E, o que é pior ainda, Mirela não para de pensar em Pedro: sonha rotineiramente com ele, tem pesadelos malucos, lembra do moço a qualquer instante do cotidiano, se deprime com sua ausência, não quer namorar mais ninguém, se torna uma profissional displicente no escritório de arquitetura, não vê tanta graça em sair com os amigos... Em suma, ela crê na volta de Pedro a qualquer momento, mesmo quando os dias se transformam em semanas, semanas viram meses e meses se constituem em um ou mais anos. Essa é uma história clássica de ghosting (Pedro desaparece da vida de Mirela sem razão aparente e evita a todo custo estabelecer comunicação com ela) e, por que não, de stalker  (Mirela não aceita o fim da relação e persegue obsessivamente o antigo namorado). Convenhamos que se trata de uma trama para lá de contemporânea, não é mesmo? Ainda mais porque o relacionamento das personagens principais do livro de Timerman nasceu da interação em aplicativos de namoro, uma praga modernosa, e caminhava a passos de amor líquido, para citar um dos conceitos filosóficos mais famosos de Zygmunt Bauman. Em um resumo simplório desta trama, vejo o conflito desta novela/romance como o drama de uma mulher que insiste em correr atrás de alguém que foge dela como o diabo da cruz. Ou deveria dizer que o namorado (namorado?!) ignora Mirela ao ponto de seu silêncio e distanciamento representarem um grito desesperado para a mente cada vez mais doentia (e perturbada) da moça, hein?! Pode ser. Fazendo um paralelo com o título da obra, não é errado dizer que, após a partida de Pedro, o copo existencial da protagonista perdeu todo o conteúdo. Se antes de o rapaz aparecer o recipiente figurativo de Mirela estava cheio (ela era feliz), sua saída de cena dragou toda a água (a jovem entrou em depressão profunda). “Copo Vazio” é uma ficção enxuta. Este livro de Natalia Timerman possui 144 páginas, que estão divididas em 36 capítulos. Por seu tamanho intermediário, o classifiquei como novela (narrativa ficcional de extensão mediana – está entre o conto, história mais curta e simples, e o romance, enredo mais longo e complexo). Apesar disso, é bom dizer que a Editora Todavia , a casa editorial responsável por sua publicação, chama esta obra de romance. Independentemente se é novela ou romance (para mim, é novela), li este título em cerca de duas horas e meia no final de semana passado. Precisei de apenas uma sessão de leitura no domingo pela manhã para ir de uma ponta (capa) à outra (quarta-capa). Para quem não é chegadinho(a) às longas sentadas literárias, acredito que dê para lê-lo em duas ou três imersões, de mais ou menos uma hora, uma hora e meia cada. A primeira característica de “Copo Vazio” que chama a atenção é o conjunto de temáticas modernas. Estamos falando de um título ficcional que aborda diretamente o ghosting  (sumiço da pessoa amada sem motivo aparente), o stalker ( perseguição muitas vezes virtual), a solidão contemporânea (tanto Mirela quanto Pedro são almas solitárias dentro de uma metrópole superpovoada), os relacionamentos líquidos (contatos humanos cada vez mais efêmeros, superficiais e remotos); os vícios em jogos eletrônicos (há uma cena divertidíssima da protagonista jogando Candy Crush); a muleta dos aplicativos de namoro (há quem não saiba mais flertar nem azarar fora das telas); e a ânsia por procurar no mundo esotérico evidências do futuro (beijo, Bruxinha!). Sinceramente, não me recordo de ter lido um drama sentimental que mergulhasse de maneira tão profunda em questões tão atuais. Em outras palavras, o livro de Natalia Timerman oferece um retrato extremamente sagaz dos tempos em que vivemos. Essa história dialoga com nossa realidade e nos faz refletir sobre os acertos e os erros da rotina modernosa. Eu mesmo, por vezes, me vi no papel de Mirela (dilacerado por uma professorinha catarinense que foi embora de Buenos Aires sem ao menos dar um tchau) e, em outras oportunidades, vesti a carapuça de Pedro (fugi do crush que adquiria doses cada vez maiores de loucura e psicopatia). Por isso, é impossível ficarmos indiferentes aos dramas dessa dupla, que parece extraída da vida real.      Por falar na construção das figuras ficcionais  de “Copo Vazio”, podemos classificá-las como personagens redondas. Não à toa, esse é um dos elementos mais interessantes desta trama. Mirela não é a heroína clássica à prova de falhas nem está imune aos erros. Por vezes, ela se torna amalucada, obsessiva e egoísta. De tão preocupada com o próprio umbigo, toma decisões eticamente questionáveis. Assim, está longe de ser a moça equilibrada, independente, segura e ajuizada que conhecemos nas primeiras páginas do livro. Quanto mais a história avança, mais Mirela adquire a personalidade de anti-heroína, o que literariamente falando é excelente. Juro que vejo paralelo entre esta criação ficcional de Natalia Timerman e as características de Luiza Martins Couto, a anti-heroína de “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), romance da genial Fernanda Caleffi Barbetta, e Maria Júlia, a protagonista de índole para lá de questionável de “Suíte Tóquio” (Todavia), uma das melhores obras de Giovana Madalosso. Mesmo Pedro está looonge de ser o mocinho tradicional que estamos acostumados a encontrar na literatura (no cinema, na televisão, no teatro etc.). Ele é inseguro, dúbio, imaturo, travado no quesito sentimental e, quase sempre, frio com as pessoas. Como consequência, foge o tempo inteiro dos amigos, dos familiares e das mulheres por quem se apaixona. O medo de se envolver o torna bastante arredio e pouquíssimo confiável. Na primeira metade do livro, confesso que fiquei com raiva dele – Freud explicaria minha reação de um jeito que eu não iria gostar! Curiosamente, na segunda metade da novela, minha impressão mudou consideravelmente. Aí fiquei mais assustado com os comportamentos e as decisões de Mirela do que a postura (ou não postura) de Pedro. Legal notar essa transmutação de nossos sentimentos e avaliações durante a leitura, né? Do ponto de vista estético, “Copo Vazio” exibe uma prosa muito elegante e tece uma narrativa com profundidade dramática. Quem gosta de boa ficção, certamente curtirá a literatura de Natalia Timerman. A autora paulistana sabe como poucos contar boas histórias. Ela constrói normalmente excelentes personagens e, principalmente, consegue mergulhar nas dores íntimas das pessoas comuns. Por isso, me identifiquei de imediato com seu texto e seu estilo. Dos elementos da narrativa ficcional  utilizados pela autora, o que mais gostei foi do tipo de narrador . A trama é narrada em terceira pessoa. Até aí nada demais. Porém, o narrador está extremamente próximo da protagonista e das principais personagens. Ele tem livre acesso aos sentimentos, pensamentos, medos, comportamentos e históricos de vida das figuras retratadas. Inclusive, tem a propriedade de recuar e avançar no tempo de maneira indiscriminada. Dessa forma, para o leitor pouco atento, a sensação é que o texto de “Copo Vazio” está na primeira pessoa do singular e não na terceira pessoa. Sempre acho incrível esse efeito, mesmo não sendo tão original! Nesse sentido, o narrador de Timerman se parece bastante com os narradores de J. M. Coetzee, autor de clássicos contemporâneos como “Desonra” (Companhia das Letras), “Vida e Época de Michael K” (Companhia das Letras) e “À Espera dos Bárbaros” (Companhia das Letras). Outro componente ficcional  que potencializa a experiência literária (e dá maior dimensão à qualidade dessa novela/romance) é a mescla de realidades. Segundo a teoria literária , estamos falando aqui da realidade ficcional . Digo isso porque temos dúvidas se a narrativa bebe ou não dos transtornos psicológicos da protagonista. Até onde o que Mirela vê, sente e entende é mesmo real ou é mero reflexo de sonhos/pesadelos, desejos e alucinações? Não sabemos exatamente. Por exemplo, os textos do primeiro e do último capítulos estão no futuro – e não no presente, a base dos tempos verbais da maior parte da publicação. Quer dizer, então, que os fatos narrados acontecerão de fato (certeza) ou que a protagonista gostaria que acontecesse (suposição)? Não sabemos. Há outros capítulos que estão na condicional e com verbos no subjuntivo, o que potencializa ainda mais a desconfiança no leitor mais atento de que saímos da esfera real e adentramos na imaginação e nos desejos da personagem principal.     Depois de confundir várias vezes Pedro com outros homens pela cidade, será que Mirela o encontrou efetivamente? Ou, mais uma vez, o projetou em outra pessoa?! Como disse: não dá para precisarmos. Exatamente por isso, classifiquei o desfecho de “Copo Vazio” como aberto. Aberto, Ricardo? Sim! Por mais que ele indique um caminho aparentemente óbvio nas últimas cenas – fique tranquilo(a), não damos os spoilers das obras analisadas no Bonas Histórias  –, ainda assim fiquei com um pé atrás quanto à exatidão do local de chegada desta trama. Será mesmo que depois de tantas camadas de subjetividade, o desenlace seria com um ponto final tão contundente como os leitores mais desavisados poderiam supor?! Acho que não. No meu ponto de vista, não é maluquice acreditar que Mirela enlouqueceu e criou uma história com final fantasioso para encaixá-lo dentro de sua fixação doentia por Pedro. Por falar no fim da novela/romance, preciso dizer que os três últimos capítulos são surpreendentes. É justamente aí que notamos a genialidade da autora e o primor desta obra ficcional. Com o eletrizante e inusitado desfecho, todas as peças do quebra-cabeça narrativo se encaixam perfeitamente. Ao fechar o livro de Natalia Timerman, a impressão que temos é parecida ao de contemplar um jogo de quebra-cabeça recém-finalizado: o cenário geral forma uma imagem bonita e impactante. Em outras palavras, as várias pecinhas que isoladamente não tinham efeito ou razão óbvia se provam fundamentais para a composição do retrato visual global. Incrível!        Outro elogio que “Copo Vazio” merece é por embaralhar o tempo narrativo  capítulo a capítulo. Basicamente, o livro mistura passado, presente e futuro (além do que já tratamos neste post da coluna Livros – Crítica Literária  que é a mescla de realidades ficcionais distintas). Repare que este é um dos recursos narrativos  mais fortes dessa obra. A publicação começa com um capítulo no futuro. Em seguida, surge um texto no passado. A terceira seção está ancorada no presente. Os capítulos 4 e 5 são novamente de eventos antigos. O capítulo 6 é outra cena da atualidade. Logo depois, vem um capítulo no passado e um capítulo no presente. Esse vai e volta no espaço temporal  dá à tônica da narrativa e apresenta as peças do quebra-cabeça ficcional que citei há pouco. Admito que adoro ler novelas/romances que brincam com a linha cronológica e não se preocupam em apresentar a trama de maneira tão ordenada. Quem faz isso geralmente é o(a) escritor(a) que valoriza a inteligência de seus leitores. A pessoa que encara o desafio de percorrer as páginas de um livro ficcional tem normalmente competência para ligar os pontos deixados soltos (propositadamente) ao longo da contação da história. Assim, não é preciso excesso de didática nem muita organização temporal, um erro que a maioria dos autores comete e que, felizmente, Natalia Timerman passa longe de fazer. Para encerrar essa seção do post com os aspectos positivos da experiência de leitura de “Copo Vazio”, não posso me esquecer de comentar o agradável passeio por São Paulo, minha cidade natal. Ou, conforme a teoria literária  prefere nomear, curti o espaço narrativo dessa novela. As cenas se passam em avenidas e bairros muito conhecidos por mim: Higienópolis, Paulista, Pacaembu, Augusta, Consolação, Sumaré/Sumarezinho e Vila Mariana. De certa maneira, a rotina das personagens deste livro é parecida com aquela que tinha quando morava na capital paulista. Só faltou uma voltinha pela Pompeia, Perdizes, Vila Madalena, Lapa e Parque São Domingos, né? Aí poderia dizer que me senti de volta à casa. Por mais que essa obra tenha me impressionado positivamente e tenha conquistado o posto de melhor leitura do mês (daí sua análise em setembro na coluna Livros – Crítica Literária ), vale a pena dizer que ela não está imune às críticas negativas ou aos questionamentos. É sobre esses aspectos que tomarei a liberdade de comentar nos próximos parágrafos. Um dos pontos que não gostei em “Copo Vazio” foi da utilização conjunta do discurso indireto livre – expediente à la José Saramago, autor de “Ensaio Sobre a Cegueira” (Companhia das Letras), “Memorial do Convento” (Companhia das Letras) e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), que mescla a fala das personagens à narrativa, sem qualquer recurso gráfico de separação entre as duas partes – e do discurso direto – o tradicional, com travessão e a reprodução literal da fala da pessoa. Por que às vezes a autora optou por um tipo de discurso  e outras vezes por outro? Juro que não entendi. Para mim, pareceu falta de padronização ou de definição estilística. Ou, o que é mais provável, o uso de um recurso de produção de diálogo desnecessário para esta proposta literária. Outro ligeiro tropeço foi a nomeação dos capítulos indicando quando a ação acontecia: passado, presente e futuro (ou mesmo no subjuntivo). Será mesmo que era necessário esse apontamento temporal nos títulos das seções? Talvez não. O leitor consegue sozinho e sem muito esforço fazer a composição da ordem narrativa. Não precisa que o nome do capítulo indique previamente o que vai encontrar no texto principal. Se por um lado achei que Natalia Timerman valorizou a inteligência do público leitor na maior parte de sua construção narrativa, nesse quesito especificamente ela escorregou no didatismo e na antecipação das surpresas.    O maior vacilo, ao menos para o meu gosto, foi a inconsistência do ritmo narrativo. Infelizmente, o livro oscilou bastante, mesmo se tratando de uma trama enxuta. Considerei o primeiro quarto de “Copo Vazio” (primeiras 36 páginas) excelente: rápido, preciso e instigante. No segundo quarto (da página 37 à página 72), a velocidade caiu um pouco e as novidades se tornaram mais raras. Ainda assim, a narrativa esteve razoável. O problemão surgiu particularmente no terceiro quarto (entre as páginas 73 e 108), quando a história se tornou bastante arrastada, repetitiva e sem NENHUM grande acontecimento. A impressão é que somos tragados ao vazio existencial de Mirela (talvez fosse esse mesmo o intuito de Natalia Timerman). De qualquer maneira, a leitura se tornou chatérrima nessa altura. Quando já começava a desgostar do livro, entrei no trecho derradeiro. O quarto final (página 109 à página 144) é ESPETACULAR, como já disse alguns parágrafos acima. Aí me esqueci totalmente das páginas enfadonhas percorridas pouco antes e enxerguei a complexidade desta narrativa. Em suma, entre os incontáveis acertos e um tropeço aqui e outro acolá, “Copo Vazio” é um livrão e pode ser ranqueado como a melhor leitura que fiz até agora neste segundo semestre. Para quem se amarra nas listas do blog, é bom dizer que faz algumas semanas que divulguei, na coluna Recomendações , o ranking das cinco melhores obras literárias do primeiro semestre de 2025 . Tem cada leitura imperdível lá. Voltando ao assunto de hoje, confesso que, ao fechar as páginas de “Copo Vazio” na hora do almoço no domingão passado, já tinha virado fãnzaço da literatura de Natalia Timerman. Ela é realmente uma das melhores escritoras da ficção em língua portuguesa na atualidade. Como escreve bem e de forma profunda, Santo Deus! Impossível não ficarmos admirados com a beleza de seus textos e com o encanto de suas tramas. Juro que minha vontade é (re)ler de uma vez seus outros títulos, principalmente “Rachaduras” e “As Pequenas Chances”. Quem sabe não volte logo ao Bonas Histórias  para comentá-los, hein? Portanto, não se surpreenda se pintar novas análises desta excelente autora no blog, senhoras e senhores. E até a próxima! 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  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em julho e agosto de 2025

    Conheça as mais de 150 obras de ficção e poesia que foram publicadas no Brasil no quarto bimestre . Vamos às novidades das livrarias brasileiras em julho e agosto de 2025 , senhoras e senhores. Como é tradição da coluna Mercado Editorial , as boas novas que trago são referentes aos lançamentos da ficção literária e da poesia . E no bimestre passado, o quarto do ano (e o primeiro do segundo semestre), selecionei mais de 150 livros recém-publicados no Brasil . Certamente, muitos desses exemplares vão cair no gosto dos leitores mais exigentes. Em minha lista das principais novidades editoriais dos últimos dois meses, há romances , novelas , coletâneas de contos ,  coleções de crônicas , ensaios sobre teoria literária , títulos da literatura infantojuvenil , obras da literatura infantil  e antologias poéticas . Antes de apresentar o listão completo de novas publicações de julho e agosto, gostaria de pinçar três livros que chamaram minha atenção. E, curiosamente, o trio que mais me apeteceu foi de séries narrativas . Os leitores assíduos e antigos do Bonas Histórias , este blog de literatura, arte, cultura e entretenimento escondido nos recôncavos da internet, sabem o quanto gosto das sagas literárias . Quanto mais volumes e páginas tiverem uma história ficcional, mais atrativa ela é para mim. Inclusive, na coluna Recomendações , fiz três posts, em 2022, sobre as 12 coleções da literatura internacional que considerei mais interessantes. E, em 2020, comentei 15 tijolões da ficção literária  mais apetitosos para os amantes das longas sessões de leitura. Portanto, falo com propriedade do que é ou não é uma boa coleção de livros. Meus destaques de julho e agosto de 2025 vão para “ A Contra-corrente ” ( EV Publicações ), o livro 5 da “Saga A Contrapartida”  de Uranio Bonoldi, “O Caderno de Maldades do Scorpio 2” ( Outro Planeta ),   segundo volume da “ Série O Segredo do Floreante” de  Maidy Lacerda, e “A Aranha” ( Alfaguara ) ,   novo título da “Coleção Joona Linna” do casal sueco Lars Kepler  que ganhou tradução para o português brasileiro. A seguir, vou comentar cada um desses títulos com o devido cuidado. Começando pela literatura brasileira , não poderia deixar de citar o trabalho impecável feito por Uranio Bonoldi, autor paulistano que despontou recentemente na produção de thrillers de terror  e suspenses psicológicos  de altíssima qualidade. “A Contra-corrente” encerra a Pentalogia “A Contrapartida”, uma das sagas ficcionais mais originais e impactantes que tive a oportunidade de conhecer nos últimos cinco anos. Os leitores da coluna Livros – Crítica Literária  foram apresentados aos primeiros títulos dessa coletânea. Em setembro de 2021, comentei “A Contrapartida” (Valentina), obra de abertura da série best-seller de Bonoldi. Em junho de 2022, detalhei “O Contra-ataque” (Valentina), o segundo volume. Mesmo não tendo feito no Bonas Histórias  as análises de “A Contra-história” (Valentina), o livro 3, e “A Contra-escuridão” (EV Publicações), o livro 4 de “A Contrapartida”, segui acompanhando com empolgação a evolução do drama do médico Octávio Albuquerque Júnior em busca de respostas para o assassinato do pai que abalou sua infância. “A Contra-corrente” coloca um ponto final à segunda linha narrativa de “A Contrapartida” . Segunda linha narrativa, Ricardo?! Exatamente. Os fãs da literatura de Uranio Bonoldi vão entender o que estou dizendo. Só não posso dizer muito para não dar os spoilers dos livros anteriores – um pecado para os adoradores do suspense literário. Se “A Contra-escuridão”, o volume anterior da coleção, fechou a parte original do embate entre os Albuquerque e os Rodrigues, o novo lançamento da EV Publicações  conclui a parte alternativa dos cinco thrillers. É verdade que o novo desfecho não está tão emotivo quanto ao da primeira linha narrativa. Ainda assim, “A Contra-corrente” é capaz de mexer de maneira profunda com os leitores. Neste caso, a pegada é de racionalidade. Até onde vai a capacidade humana para perdoar e recomeçar? É essa a resposta que descobrimos no quinto livro ficcional de Uranio Bonoldi. É bom dizer que, enquanto a primeira linha narrativa de “A Contrapartida” mostrava os podres do Executivo e do Legislativo de Brasília e o lado obscuro das decisões pessoais de Tavinho, a segunda linha apresenta a monstruosidade do Judiciário nacional e os efeitos negativos das escolhas (aparentemente) acertadas de Otto Jr. Se você ainda não conhece a Saga “A Contrapartida”, saiba que está perdendo uma série literária incrível! Outra coleção brasileira de enorme qualidade é “O Segredo do Floreante”, de Maidy Lacerda. Natural de Minas Gerais, a influencer do público mirim virou escritora e é uma das best-sellers infantis do nosso país. Ela rivaliza com a dupla Gabriel Dearo & Manu Digilio, da Série “As Aventuras de Mike” (Outro Planeta), com o norte-americano Jeff Kinney, da Série “Diário de Um Banana” (VR Editora) e, desde o ano passado, com Enaldinho, do livro “Elo Monsters Books” (Pixel), no alto do pódio dos mais vendidos da literatura infantil . É bom dizer que o maior sucesso de público de Lacerda é a Coletânea “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (Outro Planeta), que possui três volumes (o último lançado em 2024) e atingiu os seis dígitos em vendas. Tão logo concluiu a saga de Amora Maria Florentina de Florentia, a jovem mineira se lançou em uma nova série literária. Contudo, aproveitou o universo ficcional da Princesa Desastrada e alçou seu vilão, o carismático Scorpio, ao papel de protagonista do novo conjunto de livros. Assim, na virada de abril para maio de 2024, Maidy Lacerda lançou “O Caderno de Maldades do Scorpio” (Outro Planeta). Nos oito meses finais do ano passado, esse título vendeu aproximadamente 20 mil exemplares – oitavo título infantil mais comercializado em nosso país na última temporada. E agora a escritora mineira apresenta o segundo livro da série. “O Caderno de Maldades do Scorpio 2” chega com potencial de ser um dos best-sellers de nossas livrarias em 2025 e se tornar uma febre entre a garotada. Quando o assunto é ficção infantil , admito que adoro o trabalho de Lacerda (e de Gabriel Dearo & Manu Digilio e Jeff Kinney também!). Se por um lado não faço ideia do que ela faz nas redes sociais e em seu canal no Youtube (sou muito analógico, tá?), aprecio suas construções literárias. De modo geral, nossas crianças estão em boas mãos quando o assunto é a ficção contemporânea. Tanto “O Diário de Uma Princesa Desastrada” e “O Segredo do Floreante” quanto “As Aventuras de Mike” e “Diário de Um Banana” são excelentes leituras. Por fim, quero dar uma passada na estante da literatura internacional . Mais precisamente, vou para a prateleira da literatura sueca . A boa nova que os brasileiros receberam no bimestre passado foi um novo livro da “Coleção Joona Linna”, de Lars Kepler. Lars Kepler é o pseudônimo do casal Alexander Ahndoril  e Alexandra Coelho Ahndoril . Best-sellers do romance policial contemporâneo , eles vivem em Estocolmo e produzem juntos tramas criminais protagonizadas pela inspetora Joona Linna (daí o nome da saga). “A Aranha” é o sétimo livro de Lars Kepler que chega ao público brasileiro. Em nosso país, já foram publicados: “Hipnotista” (Intrínseca), “O Pesadelo” (Intrínseca), “Homem de Areia” (Alfaguara), “Stalker” (Alfaguara), “O Caçador” (Alfaguara) e “Lázaro” (Alfaguara). Lançado originalmente na Suécia em 2022, “A Aranha” retrata mais uma investigação da dupla Joona Linna e Saga Bauer. As duas policiais suecas procuram o serial killer que há anos assusta a população de Estocolmo. Será que vão conseguir descobrir a identidade do criminoso? É esse o mistério por trás do novíssimo romance policial de Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. A “Série Joona Linna” bebe da melhor tradição da literatura nórdica, com histórias de tintas fortes, personagens cruéis, crimes sanguinolentos e protagonistas exóticos. Vale lembrar do sucesso da “Saga Millennium” (Companhia das Letras), best-seller internacional de Stieg Larsson e uma das minhas coletâneas ficcionais favoritas. Nesse sentido, o casal Lars Kepler perpetua a produção de excelentes romances policiais advindos da Suécia. Quem foi que disse que as paisagens gélidas e as cidades calmas do Norte da Europa não escondem segredos cabulosos, hein?!   Agora que apresentei os três principais destaques do bimestre passado – um trio de séries literárias que vão encantar adultos e crianças –, posso exibir os demais livros de ficção e poesia. Afinal, quais foram os títulos que chegaram às livrarias brasileiras em julho e agosto de 2025? Como disse inicialmente, são mais de 150 novidades saindo do forno (ou das gráficas). Portanto, vamos sem demora para o novo listão de lançamentos da coluna Mercado Editorial : FICÇÃO BRASILEIRA: “A Contra-corrente – Livro 5 da Saga A Contrapartida” (EV Publicações) – Uranio Bonoldi – Romance – 248 páginas. “Te Dou Minha Palavra” (Companhia das Letras) – Noemi Jaffe – Romance – 208 páginas. “Os Urubus Não Esquecem” (Todavia) – Pedro Cesarino – Romance – 160 páginas. “A Chave de Casa” (Record) – Tatiana Salem Levy – Romance – 208 páginas. “Memória do Chão” (Companhia das Letras) – Marcelo Labes – Romance – 320 páginas. “Foi Acabar Bem Na Nossa Vez” (Rocco) – Mariana Brecht – Romance – 320 páginas. “Eterna Fantasia” (Dublinense) – Danichi Hausen Mizoguchi – Romance – 224 páginas. “Degola” (Companhia das Letras) – Monique Malcher – Romance – 176 páginas. “Ligeiramente Fora de Órbita” (Rocco) – Pedro Aguilera – Romance – 336 páginas. “Piscinas Russas” (Tusquets) – Renata Belmonte – Romance – 352 páginas. “Frankito em Chamas” (Todavia) – Matheus Borges – Romance – 160 páginas. “Boca do Mundo” (Companhia das Letras) – Dia Bárbara Nobre – Romance – 200 páginas. “Tomara que Você Seja Deportado – Uma Viagem pela Distopia Americana” (Nós) – Jamil Chade – Romance – 256 páginas. “Corsária” (Fósforo) – Marilene Felinto – Romance – 176 páginas. “Mais Baseados que Fatos Reais” (Badoque Livros) – Gil Luz Mendes – Romance. “Um Rio Sem Fim” (Alfaguara) – Verenilde S. Pereira – Romance – 184 páginas. “Um Labirinto Chamado Família” (L&PM) – Renato Caminha – Novela – 144 páginas. “Filha” (Companhia das Letras) – Manoela Sawitzki – Novela – 128 páginas. “Viver o Medo – Uma Novela Pornô-gourmet” (Companhia das Letras) – Jean-Claude Bernardet e Sabina Anzuategui – Novela – 128 páginas. “Apolinária” (Fósforo) – Bianca Santana – Novela – 112 páginas. “Salve, Rainha! E Outras Histórias” (Malê) – Estevão Ribeiro – Coletânea de Contos – 192 páginas. “O Anonimato dos Afetos Escondidos” (Tusquets) – Jean Wyllys – Coletânea de Contos – 192 páginas. “Sala de Armas” (Record) – Nélida Piñon – Coletânea de Contos – 176 páginas. “Brincadeiras à Parte” (Planeta) – Letícia Novaes – Coletânea de Contos – 176 páginas. “A Outra Face – Contos Afrofantásticos” (Planeta) – Sandra Menezes – Coletânea de Contos – 104 páginas. “Minhas Estranhas Loucuras” (Todavia) – Evandro Luiz da Conceição – Coletânea de Contos – 88 páginas. “Um Século em Cem Crônicas” (Biblioteca Azul) – Maria Amélia Mello e Cláudia Mesquita (Org.) – Coletânea de Crônicas – 456 páginas. “Não Sei Se É Bom, Mas É Teu” (Record) – Maria Ribeiro – Coletânea de Crônicas – 176 páginas. “A Nudez de Afrodite” (Difel) – Cláudio Moreno – Coletânea de Crônicas – 140 páginas. “Se A Vida Tivesse Receita” (EV Publicações) – Silvia Leite – Coletânea de Crônicas e Biografia – 200 páginas. “Guia 7F – Como Mudar de País e Construir Uma Vida de Sucesso no Exterior” (EV Publicações) – Neymar Lima – Coletânea de Crônicas, Ensaios e Biografia – 220 páginas. “Como Ser Expulso de Casa” (Rocco) – Bruna Zielinski – Literatura Juvenil – 336 páginas. “Metade Peixe, Metade Gente” (EV Publicações) – Victor Baraldi – Literatura Juvenil – 226 páginas. “O Ano em que Criei um Mundo do Zero” (Escarlate) – Janaina Tokitaka (autora), Pedro Aguilera (autor) e Guilherme Bethlem (ilustrador) – Literatura Juvenil – 152 páginas. “O Caderno de Maldades do Scorpio 2 – O Segredo do Floreante” (Outro Planeta) – Maidy Lacerda – Literatura Infantil – 304 páginas. “Revida, Max!” (GloboClube) – Caio Tozzi (autor) e Otávio Bressane (ilustrador) – Literatura Infantil – 88 páginas. “Tulipa” (Pequena Zahar) – Paula Schiavon – Literatura Infantil – 64 páginas. “Vovô, Fica Comigo?” (Brinque-Book) – Iêda Carvalhêdo e Fran Matsumoto – Literatura Infantil – 48 páginas. “Escolha Uma Palavra” (Companhia das Letrinhas) – Marília Garcia e Lígia Franchini – Literatura Infantil – 44 páginas. “O Espelho” (Rocquinho) – Caulos – Literatura Infantil – 40 páginas. “Tudo É Mar” (Brinque-Book) – Madu Costa e Josias Marinho – Literatura Infantil – 32 páginas. “Maqueira de Tucum” (Pequena Zahar) – Márcia Kambeba e Michelle Cunha – Literatura Infantil – 32 páginas. “Biguru” (Companhia das Letrinhas) – Eva Potiguara e Lumina Pirilampus – Literatura Infantil – 32 páginas. “Eu Sou Eu” (Brinque-Book) – Tatiana Wlasek e Laura Jäger – Literatura Infantil – 32 páginas. “Kayodê em Quadrinhos” (Companhia das Letrinhas) – Kiusam Oliveira e Amora Moreira – Literatura Infantil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “A Aranha – Livro da Série Joona Linna” (Alfaguara) – Lars Kepler (Suécia) – Romance – 536 páginas. “O Desabamento” (Todavia) – Édouard Louis (França) – Romance – 168 páginas. “Histórias de Amor no Novo Milênio” (Fósforo) – Can Xue (China) – Romance – 400 páginas. “As Meninas do Laranjal” (Companhia das Letras) – Gabriela Cabezón Cámara (Argentina) – Romance – 216 páginas. “O Ninho do Pássaro” (Alfaguara) – Shirley Jackson (Estados Unidos) – Romance – 264 páginas. “Triste Tigre” (Amacord) – Neige Sinno (França) – Romance – 288 páginas. “O Tempo da Infância” (Todavia) – Françoise Ega (Martinica) – Romance – 192 páginas. “Os Mistérios de Sir Richard – Volume 4 da Série Quarteto Smythe-Smith” (Arqueiro) – Julia Quinn (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Você Precisa de um Gato” (Bertrand Brasil) – Kiyoshi Shigematsu (Japão) – Romance – 304 páginas. “Nossos Destinos Eternos” (Galera) – Laura Steven (Estados Unidos) – Romance – 406 páginas. “Redeming 6: O Amor é a Última Chance – Livro 4 da Série Os Garotos de Tommen” (Bloom Brasil) – Chloe Walsh (Irlanda) – Romance – 784 páginas. “A Estranha no Espelho” (Rocco) – Megan Lally (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Berg” (DBA) – Ann Quinn (Inglaterra) – Romance – 184 páginas. “A Loja de Cartas de Seul” (Intrínseca) – Baek Seung-Yeon (Coreia do Sul) – Romance – 256 páginas.Parte superior do formulário “Porrada” (Todavia) – Rita Bullwinkel (Estados Unidos) – Romance – 192 páginas. “GOTH – Almas Obscuras” (Darkside) – Otsuichi (Japão) – Romance – 320 páginas. “Um Toque de Caos – Livro 7 da Série Hades & Perséfone” (Bloom Brasil) – Scarlett St. Clair (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Um Jogo de Deuses – Livro 6 da Série Hades & Perséfone” (Bloom Brasil) – Scarlett St. Clair (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Jacarandá” (Editora 34) – Gaël Faye (França/Ruanda) – Romance – 240 páginas. “Eu Sei Quem Você É” (Record) – Louisa Luna (Estados Unidos) – Romance – 378 páginas. “Discípulos de Caos” (Rocco) – M. K. Lobb (Canadá) – Romance – 352 páginas. “Me Leve Pela Mão” (José Olympio) – Dolen Perkins-Valdez (Estados Unidos) – Romance – 406 páginas. “Pelos Olhos de Sisun” (Planeta) – Chung Serang (Coreia do Sul) – Romance – 272 páginas. “Obsessão Mortal” (Bertrand Brasil) – J. D. Robb (Estados Unidos) – Romance – 476 páginas. “Repatriação” (Companhia das Letras) – Ève Guerra (Congo) – Romance – 184 páginas. “A Garota da Cabine Telefônica” (Rocco) – Lee Su-Yeon (Coreia do Sul) – Romance – 288 páginas. “Corregidora” (Instante) – Gayl Jones (Estados Unidos) – Romance – 176 páginas. “Mentiras e Casamentos” (Record) – Kevin Kwan (Singapura) – Romance – 490 páginas. “A Rosa Acorrentada” (Harlequin) – Julie Soto (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “A Luz Entre as Frestas – Volume 9 da Série Inspetor Gamache” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) – Romance – 464 páginas. “No Meio da Noite” (Intrínseca) – Riley Sager (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Parteira de Auschwitz” (Vestígio) – Anna Stuart (Inglaterra) – Romance – 304 páginas. “A Chuva – Livro 6 da Série Blackwater” (Arqueiro) – Michael McDowell (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “A Fortuna – Livro 5 da Série Blackwater” (Arqueiro) – Michael McDowell (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Um Romance Fora de Série” (Verus) – Kate Robb (Canadá) – Romance – 308 páginas. “Desejos Calados” (Harlequin) – Lorraine Heath (Inglaterra/Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Coração do Mundo” (Rocco) – Amie Kaufman (Austrália/Irlanda) – Romance – 352 páginas. “Um Amor como nos Livros” (Verus) – Moira McDonald (Estados Unidos) – Romance – 322 páginas. “Uma Grande História de Amor” (Bertrand Brasil) – Susanna Tamaro (Itália) – Romance – 210 páginas. “O Primeiro Homem Mau” (Amarcord) – Miranda July (Estados Unidos) – Romance – 266 páginas. “A Regra Dixon” (Paralela) – Elle Kennedy (Canadá) – Romance – 400 páginas. “Jogada Certa” (Rocco) – Liz Tomforde (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Dia de Ressaca” (Record) – Maylis de Kerangal (França) – Romance – 240 páginas. “O Último Vale Verdejante” (Planeta) – Mark Sullivan (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Morramos ao Menos no Porto” (Biblioteca Azul) – Franscisco Mota Saraiva (Portugal) – Romance – 240 páginas. “Madrinha de Aluguel” (Essência) – Meghan Quinn (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “A Colmeia” (Vestígio) – Margaret O´Donnell (Irlanda) – Romance – 296 páginas. “O Adorável Café dos Dragões” (Harlequin) – A. T. Qureshi (Paquistão/Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Era Uma Vez Uma Livraria...” (L&PM Editores) – Éric de Kermel (Marrocos/França) – Romance – 256 páginas. “A Última Carta” (Arqueiro) – Rebecca Yarros (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Electra” (Planeta Minotauro) – Jennifer Saint (Inglaterra) – Romance – 384 páginas. “Seis Formas de Não Se Apaixonar” (Rocco) – Erin Connor (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “A Ascensão das Estrelas” (Gutemberg) – Imani Erriu (Inglaterra) – Romance – 384 páginas. “A Convidada” (Intrínseca) – Emma Cline (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “O Livro de Aisha” (Dublinense) – Sylvia Aguilar Zéleny (México) – Romance – 160 páginas. “Assassinatos & Torta de Morango” (L&PM Editores) – Joanne Fluke (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Alice no País das Ideias – Um Romance para Descobrir a Filosofia” (Record) – Roger-Pol Droit (França) – Romance – 392 páginas. “A Serpente e o Lobo – Livro 1 da Série Herança Sombria” (Arqueiro) – Rebecca Robinson (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Se o Destino nos Trouxer de Volta” (Planeta) – María Dueñas (Espanha) – Romance – 448 páginas. “98,8% de Compatibilidade” (Harlequin) – Lyla Mars (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “O Cão de Terracota” (L&PM Pocket) – Andrea Camilleri (Itália) – Romance – 304 páginas. “Aprendendo a Fingir – Volume 1 da Série Universidade Hall Beck” (Arqueiro) – Selina Mae (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Aposta na Perdição – Volume 3 da Série Temporada de Escândalos” (Harlequin) – Kelly Bowen (Canadá) – Romance – 288 páginas. “Quicksilver” (Rocco) – Callie Hart (Inglaterra/Estados Unidos) – Romance – 560 páginas. “Amor com Gelo e Açúcar” (Harlequin) – Elliot Fletcher (Escócia) – Romance – 368 páginas. “As Promessas de Areia e Fogo” (Darkside) – Jessica Khoury (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Os Sorrentinos” (Autêntica Contemporânea) – Virginia Higa (Argentina) – Novela – 144 páginas. “O Garoto do Colorado” (Suma) – Stephen King (Estados Unidos) – Novela – 144 páginas. “Permafrost” (Dublinense) – Eva Baltasar (Espanha) – Novela – 144 páginas. “Salão de Escrita e Beleza” (Suma) – Juan Pablo Villalobos (México) – Novela – 112 páginas. “Mitz: A Sagui que Não Teve Medo de Virginia Woolf” (Instante) – Sigrid Nunez (Estados Unidos) – Novela – 112 páginas. “Grito” (Editora 34) – Lu Xun (China) – Coletânea de Novelas e Contos – 576 páginas. “Os Mujiques – Penúltimos Contos e Novelas” (Todavia) – Anton Tchékhov (Rússia) – Coletânea de Novelas e Contos – 480 páginas. “Papai” (Intrínseca) – Emma Cline (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 272 páginas. “Educação da Tristeza” (Biblioteca Azul) – Valter Hugo Mãe (Angola/Portugal) – Coletânea de Crônicas – 192 páginas. “Aliada do Vilão” (Alt) – Hannah Nicole Maehrer (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 608 páginas. “O Cavaleiro e a Mariposa” (Alt) – Rachel Gillig (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 464 páginas. “Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros” (Intrínseca) – Grandy Hendrix (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 432 páginas. “Os Davenport – O Preço da Felicidade” (Alt) – Krystal Marquis (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 432 páginas. “Mentiras Inofensivas” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 400 páginas. “O Acordo das Rosas” (Seguinte) – Sasha Peyton Smith (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 376 páginas. “Livros & Ossos – Livro 2 da Série Cafés & Lendas” (Intrínseca) – Travis Baldree (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 368 páginas. “Espelho de Água” (Galera) – Samantha Sotto Yambao (Singapura) – Literatura Juvenil – 364 páginas. “No Sigilo” (Alt) – Elle Kennedy (Canadá) e Sarina Bowen (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 360 páginas. “Só Pra Mim – Uma História de Amor Rebel Blue” (Paralela) – Lyla Sage (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 328 páginas.  “Quase Belo” (Verus) – Jamie Mcguire (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 322 páginas. “Amor e Outras Conspirações” (Intrínseca) – Mallory Marlowe (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 320 páginas. “Sempre Vou Te Escolher” (Verus) – Carrie Elks (Inglaterra) – Literatura Juvenil – 294 páginas. “Sentinela – Livro 5 da Série Covenant” (Bloom Brasil) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Literatura Juvenil – 288 páginas. “A Cor da Vingança – Livro 4 da Série Mundo de Tinta” (Seguinte) – Cornelia Funke (Alemanha) – Literatura Juvenil – 280 páginas. “Vida Encantada – Volume 1 da Série Os Mundos de Crestomanci” (Galera Junior) – Diana Wynne Jones (Inglaterra) – Literatura Juvenil – 238 páginas. “Naruse Vai Dominar o Mundo” (Intrínseca) – Mina Miyajima (Japão) – Literatura Juvenil – 192 páginas. “A História do Contador de Histórias” (GloboClube) – Miyase Sertbarut (Turquia) – Literatura Juvenil – 120 páginas. “Diário de Uma Garota Nada Popular – Volume 16” (Verus) – Rachel Renée Russell (Inglaterra) – Literatura Infantil – 232 páginas. “Kitty e a Caçada nas Árvores” (L&PM Editores) – Jenny Løvlie (Noruega) – Literatura Infantil – 128 páginas. “Esta História Não É Sobre Gatinhos” (Companhia das Letrinhas) – Randallde Sève (Estados Unidos) e Carson Ellis (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Carlota Limpa-Toca” (Brinque-Book) – Katerina Gorelik (Rússia) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Pimentinha e Eu” (Companhia das Letrinhas) – Beatrice Alemagna (Itália) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Minha Amiga da Casa ao Lado” (Tatu-bola) – Lucia Franco (Uruguai) – Literatura Infantil – 48 páginas. “Meu Pai É Uma Árvore” (Pequena Zahar) – Jon Agee (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 48 páginas. “A Pequena Violinista” (Companhia das Letrinhas) – Jon Fosse (Noruega) e Øyvind Torseter (Noruega) – Literatura Infantil – 40 páginas. “O Pote Vazio” (Reco-reco) – Demi (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 32 páginas. “Rio Infinito” (Companhia das Letrinhas) – Mia Couto (Moçambique) e Danuta Wojciechowska (Canadá/Portugal) – Literatura Infantil – 32 páginas. “Urso-Polar, Urso-Polar, O Que Você Está Ouvindo?” (Companhia das Letrinhas) – Bill Martin Jr. (Estados Unidos) e Eric Carle (Estados Unidos) – Literatura Infantil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Pequeno Manual de Como Me Amar” (Planeta) – Liana Ferraz – 160 páginas. “Voo Breve sob o Sol” (Círculo de Poemas) – Ana Costa dos Santos – 112 páginas. “Por Isso As Papoulas” (Círculo de Poemas) – Andreev Veiga – 64 páginas. “Outras Peles” (Círculo de Poemas) – Lucas Guimaraens – 40 páginas. “As Cidades” (Círculo de Poemas) – Caetano W. Galindo – 40 páginas. No post da coluna Mercado Editorial  do início de outubro, vou apresentar os livros infantis mais vendidos em 2024. E na publicação do início de novembro, retornarei à divulgação das obras ficcionais e poéticas lançadas em nosso país no quinto (e penúltimo) bimestre de 2025. Enquanto esses materiais não pintam por aqui, não percam o conteúdo das demais seções do Bonas Histórias . Até a próxima, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. 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  • Gastronomia: BesAres Parrilla Urbana – O meu restaurante de carnes favorito em Buenos Aires

    Fundada em 2009 e com três unidades na mesma rua do bairro de Núñez, esta parrilla de ambientação contemporânea apresenta pratos com porções generosas, carnes de ótima qualidade e serviço eficiente . Vamos falar de carne argentina , senhoras e senhores. Para ser mais exato em minhas palavras iniciais deste novo post da coluna Gastronomia , nosso assunto de hoje é a boa e velha parrilla . Ou, numa tradução direta do espanhol portenho para o português brasileiro, debateremos as delícias do melhor churrasco  do mundo (desculpem-me os uruguaios por minhas preferências pela culinária do outro lado do Rio da Prata) e os encantos das imperdíveis churrascarias   de Buenos Aires  (a meca global para os carnívoros de todos os credos, etnias e idiomas). Afinal, não dá para morar ou visitar a metrópole argentina e ignorar os suculentos assados  locais, né? Te pido, por favor, un bife de chorizo con papas fritas . O caso é tão sério, mas tão sério que conheço duas brasileiras pretensamente vegetarianas que só mudam as restrições alimentares en   tierras hermanas . Pode parecer uma anedota da minha parte? Pode. Porém, garanto sem ruborizar que esse relato é a mais pura verdade – na minha infância cada vez mais distante, eu usaria o termo “verdade verdadeira”. Beijo, Marcelinha. Beijo, Carlota. Na Argentina , acredite se quiser, até os turistas que não comem carne habitualmente em seus países acabam entrando na onda carnívora e provando ojo de bife , bife de lomo , vacio , bife de chorizo , asado del centro , colita de cuadril , picaña , bondiola , matambre , pamplona de cerdo , pamplona de pollo , chorizo  e salchicha parrillera . Hummmmm. Não dá para dizer que não se trata de uma sábia decisão. Os muito vegetarianos que me perdoem, mas churrasco é fundamental. Sei que tenho explorado bastante, nos últimos meses, as temáticas da culinária argentina  e dos melhores restaurantes de Buenos Aires . Às vezes, acho que o Bonas Histórias  está se transformando num blog de alimentação sul-americana e de refeições latino-americanas. E eu, ao invés de crítico literário e cultural, áreas em que conheço e navego com alguma propriedade, estou virando uma espécie de crítico gastronômico de parcos recursos e de paladar limitado. Tá bom, tá bom. Talvez tenha exagerado quanto ao alcance desse assunto no site. Contudo, é como me sinto às vezes. Na coluna Gastronomia , por exemplo, apresentei os detalhes da Pizzería Güerrín , minha casa de pizza favorita en la ciudad de la furia . Também trouxe um roteiro completo dos tipos de redondas e das melhores pizzarias da capital argentina . E imaginar que os paulistanos acreditam ter a melhor pizza do mundo, Santo Deus!? Na coluna Contos & Crônicas , fiz um post exclusivo sobre a gastronomia da Argentina na série narrativa “Tempos Portenhos” . O título dessa publicação é “Sentando-se à Mesa com os Argentinos” . Sou suspeito para falar, mas acho esse episódio da coletânea não ficcional sobre viver em Buenos Aires uma delícia.   Até na coluna Passeios , seção por vezes renegada do blog, tivemos um texto enfocando as extravagâncias dos turistas brasileiros nos campos das carnes e dos vinhos em CABA – Ciudad Autónoma de Buenos Aires . O autor desse post, nomeado de “Experiências Etílico-gastronômicas na Capital Argentina” , foi Paulo Sousa, colunista de Miliádios Literários  e autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), da coletânea de haicais “Acinte 2020” (Pomelo) e da coletânea de contos “Histórias de Macambúzios” . Além de divertidíssimo, o relato de Paulinho ( Pablito, El Caníbal, su apodo en tierras porteñas ) descortina os excessos comuns de meus conterrâneos às mesas dos restaurantes de BsAs  (ou Baires , chame a maior cidade argentina pelo apelido que quiser). Impossível não nos identificarmos com tais prazeres. Apesar de tanto conteúdo, é bom avisar que, até agora, não divulguei para os leitores deste blog perdido nos recôncavos da internet qual é a minha parrilla  favorita na cidade em que vivo há dois anos. Pelo menos não me lembro de ter feito isso até agora. Só notei esse pequeno lapso da minha parte recentemente. Por isso, a ideia de divulgar o quanto antes o meu lugar preferido para provar as carnes em Mi Buenos Aires Querido . E sem mais rodeios, já faço a revelação que pode interessar a algum(a) carnívoro(a) perdido(a) por essas páginas: quando quero me empanturrar de asado  (em espanhol, a grafia é com um “s” apenas) de excelente qualidade, vou ao BesAres Parrilla Urbana . Só de digitar esse nome, começo a salivar. Ai, ai, ai. Vai ser difícil seguir com esse texto, senhoras e senhores! O Besares é uma churrascaria ( parrilla em espanhol) situada em Núñez , bairro da Zona Norte do Distrito Federal da Argentina (coladinho à cidade de Vicente López), e possui três unidades. Se bem que há quem diga que essa região pertence ao bairro de Belgrano. Vai entender as maluquices da geografia local, né?! Curiosamente, o trio de casas desta rede de restaurantes está localizado na mesmíssima rua, a Calle 11 de Septiembre de 1888. A bizarrice só aumenta quando descobrimos que suas unidades ficam a uma distância máxima de um quilômetro uma da outra (dois estabelecimentos estão ainda mais perto – são separados por uma distância de apenas 100 metros). Incrível!   Para completar o panorama introdutório desse estabelecimento que há muito tempo habita meu coraçãozinho cambaleante de gordura e colesterol, o BesAres Parrilla Urbana não integra a rota turística da gastronomia de Buenos Aires. Assim, dificilmente iremos ouvir falar dele, seja pelas redes sociais e pelos posts dos influenciadores digitais, seja pelas reportagens dos grandes veículos de comunicação e pelas propagandas institucionais na mídia tradicional. Eu o achei do modo raiz: batendo perna pela cidade. No mergulho pela cultura gastronômica do bairro que escolhi como morada, visitei a maioria dos estabelecimentos ao redor de casa. Foi aí que descobri os encantos das carnes do BesAres. Antes de explicar os motivos da minha preferência, sinto-me na obrigação de contextualizar os leitores do Bonas Histórias sobre o cenário culinário da   capital argentina quando o assunto é parrilla . Os portenhos têm geralmente seus restaurantes de carne favoritos perto de suas casas, onde são atendidos como fregueses habituais e com a calorosa receptividade latina (sim, os argentinos podem ser muito efusivos e carinhosos). É como as padarias e pizzarias em São Paulo, as praias no Rio de Janeiro, os bares em Belo Horizonte e as lanchonetes de xis em Porto Alegre, que são geralmente escolhidos por um mix de comodidade, proximidade, qualidade e simpatia dos funcionários. Em Buenos Aires, ninguém atravessa a cidade para degustar bons assados. Por quê? Porque existem vários lugares excelentes por toda a metrópole, inclusive perto da residência de todo mundo. Assim, não faz sentido se deslocar por muitos quilômetros e pegar trânsito para ser tratado com indiferença por uma equipe de funcionários que não conhece seus gostos e suas preferências. Além disso, os portenhos fogem dos locais mais turísticos, que cobram caro dos gringos e não oferecem a verdadeira experiência da parrilla argentina  ( parrilla gaucha o parrilla criolla ). A ideia dos nativos é aproveitar as melhores carnes de seu país a bons preços e com atendimento familiar. Sem perceber, acabei adotando essas práticas. Assim, vocês não me verão comentar na coluna Gastronomia a ida ao Don Julio , ao La Cabrera , ao La Brigada , ao El Preferido de Palermo . Porque simplesmente não vou a esses lugares com regularidade. E quando vou, o que acontece uma vez na vida e outra na morte, sou forçado por amigos brasileiros deslumbrados por pagar caro para receber carnes normais (pelo menos na Argentina) e para aspirar ambientes metidos a besta (que não me apetecem de forma nenhuma). Confesso que jamais curti as experiências e as comidas dos lugares pega-turistas de Buenos Aires. Sou mais propenso a descobrir bons bodegones  de bairro e boas parrillas  frequentadas pelos locais, que sabem reconhecer as melhores opções à disposição na sua cidade. Como moro em Saavedra desde setembro de 2023, naturalmente vou mais aos estabelecimentos das redondezas. A parrilla que mais visito é (disparadamente) o Los Amigos de Siempre , na Vilela y Amenábar . Essa churrascaria com ambiente familiar e jeitão rústico possui bom preço, atendimento simpático e carne boa. O que mais um carnívoro pode querer da vida, hein? E, claro, esse estabelecimento está a cinco minutos de caminhada do meu apartamento – lembre-se da importância da proximidade! Nos tempos de câmbio favorável para os brasileiros (leia-se, na fase Pré-Milei), ia semanalmente ao Los Amigos. Aposto que se vocês perguntarem aos funcionários de lá (beijo, Martina; e abraços, Mariano e Alberto!) pelo brasileiro do bairro, eles vão dizer o meu nome (ou vão se lembrar de mim). Agora, mudei a frequência de visitas para mensal ou mesmo bimestral (obrigado, câmbio maldito!). Ainda vou comentar sobre essa parrilla encantadora na coluna Gastronomia  (e das dificuldades econômicas para os gringos en la ciudad de la furia  em algum post de “Tempos Portenhos” , material da coluna Contos & Crônicas ). Aguardem novidades nesse sentido para breve! Por mais que goste de Los Amigos de Siempre e o frequente assiduamente, a minha churrascaria favorita em Buenos Aires, aquela que faz meu coraçãozinho disparar e minha boca salivar, é o BesAres Parrilla Urbana , localizado no bairro vizinho. Saavedra e Núñez estão coladinhos e eu moro justamente na divisa deles. Ainda assim, a unidade mais distante do BesAres está a apenas 15 minutos de caminhada de casa (algo que classifico como próximo). A mais perto está a apenas 12 minutos. Uhu! Às vezes, me sinto morando no Paraíso. Por ser um pouco mais cara (e com pratos mais generosos e carne de excelente qualidade), a parrilla de Núñez nunca foi minha alternativa de visita regular – posto ocupado pelo Los Amigos desde a minha chegada à Buenos Aires nessa segunda temporada (vivi na capital da Argentina pela primeira vez há cerca de vinte anos).   Mesmo assim, nos tempos de bonança, quando a terra de Messi e do Papa Francisco era muuuito barata para quem ganhava em real e gastava em peso argentino, visitava o BesAres apenas mensalmente. Quando muito, dava uma passada por lá a cada duas ou três semanas. Agora, só vou quando tenho dinheiro – o que é algo, infelizmente, bem raro. Acho que tenho ido lá trimestral ou quadrimestralmente. Geralmente, o visito apenas em eventos especiais, como aniversários, saídas com excelentes companhias e na hospedagem de brasileiros queridos em meu apartamento ao lado do Parque Saavedra (uma espécie de consulado brasileiro informal em CABA). Aí não dá para recusar os encantos dessa parrilla saborosíssima de Núñez, não é mesmo?! Minha última passada por lá foi na semana passada, quando recebi a visita da minha irmãzinha Marcela em Mi Buenos Aires Querido. Aí aproveitei para pegar imagens para este post. De modo geral, posso classificar o Los Amigos de Siempre  como a minha parrilla  rotineira. É aquela que meu corpo vai naturalmente, sem pensar. É a opção da razão. Afinal, sei que lá encontrarei boas carnes a preços populares (bom custo-benefício). Ele não oferece uma experiência espetacular, mas também nunca decepciona. Já o BesAres Parrilla Urbana  é a parrilla  da minha preferência, aquela que meu coração indica com disparos acelerados e arritmia (seria o efeito da gordura e do colesterol?!). Vou nele quando a vontade e a emoção afloram. Lá, encontro alta qualidade e fartura por preços medianos. Essa churrascaria oferece uma experiência maravilhosa, mas cobra um pouco mais do que os restaurantes populares da região. Vale a pena dizer que costumo frequentar as parrillas porteñas  durante a semana e no horário do almoço. De segunda à sexta-feira do meio-dia às quatro horas da tarde, muitos restaurantes da capital argentina (inclusive as parrillas ) oferecem o menu ejecutivo , algo que os brasileiros conhecem como prato-feito. Nesse pacote promocional com excelente custo-benefício, o cliente recebe a entrada, o prato principal com guarnição, uma bebida e a sobremesa ou o café. Tudo por um preço fixo, geralmente mais barato do que as versões à la carte do cardápio. Em alguns estabelecimentos, há também o menu ejecutivo  no jantar durante a semana, mas essa opção é mais rara. O Los Amigos de Siempre e o BesAres Parrilla Urbana, por exemplo, só o têm no almoço. À noite e aos finais de semana, é só à la carte. Quando me mudei para a Argentina, os valores do menu ejecutivo  do Los Amigos e do BesAres eram, respectivamente, 4 mil pesos (R$ 23,50 no câmbio da época) e 6 mil pesos (R$ 35,00). Hoje, eles saem por 16 mil pesos (R$ 70,00 no câmbio atual) e 24 mil pesos (R$ 105,00). Portanto, a segunda parrilla  sempre foi 50% mais cara do que a primeira. O lance é que o valor superior é compensado com carnes melhores, guarnições mais generosas, entradas mais completas e excelentes opções de sobremesa. Além de possuir um ambiente mais requintado. Aí a oferta de valor do BesAres se prova imbatível. Curiosamente, quem vive em São Paulo ou no Rio de Janeiro, para ficarmos com as duas maiores metrópoles nacionais, não encontra algo na qualidade do BesAres Parrilla Urbana  pelo preço que ele pratica. As opções brasileiras nesse nível começam com valores pelo menos 25% mais caras. Ou você conhece um bom restaurante de carne argentina ou uruguaia na capital paulista e na capital fluminense com um pacote tão generoso quanto o menu executivo   portenho (com direito a taça de vinho e sobremesa inclusa) por menos do que R$ 125,00, hein?! Juro que eu não conheço.  Por tal perspectiva, o que se cobra em Núñez é ainda vantajoso para os brasileiros. O problema para quem vive há algum tempo na Argentina como eu é que nos acostumamos a pagar um terço desse valor. Assim, ele nos parece agora muito caro. Daí meu olhar com relutância para os números ao lado direito dos cardápios portenhos, que continuam aumentando, aumentando e aumentando. Enquanto o preço em peso argentino quadruplicou no BesAres (saiu de 6 mil para 24 mil), o câmbio se manteve quase igual nesse período (R$ 1,00 valia 170 pesos argentinos em setembro de 2023 e agora R$ 1,00 representa, em setembro de 2025, 230 pesos argentinos). Por falar nisso, é bom alertar os turistas do meu país que faz um ano que a Argentina deixou de ser barata (e dois anos que deixou de ser super em conta). Se antes, era possível passear por Buenos Aires e comer muito bem sem gastar muito, essa realidade não existe mais. Os preços são parecidos aos ofertados nas principais cidades do Brasil. Em alguns casos, como os cafés e as confeitarias, os valores cobrados em BsAs são muito superiores aos de minha terra natal. Outro dia, fui a Las Violetas , uma simpática e tradicional confeitaria de Almagro. Um pedido simples de um combo para duas pessoas custou 40 mil pesos argentinos (R$ 200,00 no câmbio daquele momento, que era 200 pesos argentinos para cada real). Sim, fui à padoca para merendar con la hermosa venozolana e o bolso voltou vazio. Ser pobre não é fácil, viu?   Fundado em 2009, o BesAres Parrilla Urbana tem, como disse, três unidades em Núñez/Belgrano: na Rua 11 de Septiembre de 1888 no número 4.098 (esquina com a Besares, daí seu nome) fica a casa original; e na Rua 11 de Septiembre de 1888 no número 3.900 (esquina com a Paroissien) e na Rua 11 de Septiembre de 1888 no número 3.301 (na esquina com a Manuel Pedraza) ficam as duas filiais. Confesso que não conheço outro restaurante que tenha um trio de unidades com a mesma proposta tão perto um do outro. Essa frase se aplica tanto ao Brasil quanto à Argentina. Por exemplo, o Sujinho  em São Paulo tem duas unidades: uma em cada lado da Avenida da Consolação. E a Famiglia Mancini  tem várias casas na mesma rua (pelo menos tinha, quando por lá vivia), mas com propostas distintas (uma é cantina, outra é pizzaria, outro é restaurante...). Agora, três churrascarias idênticas da mesma marca e com o mesmíssimo cardápio a menos de um quilômetro, só mesmo o BesAres. Vale a pena avisar que há ainda o Besares Dolce , uma confeitaria colada à churrascaria da Manuel Pedraza. São, portanto, quatro estabelecimentos coirmãos. Fui em todas as parrillas  do BesAres (mas nunca entrei na confeitaria – assim como meu pai, não sou muito de doce) e a minha preferida é a mais recente, a da calle  11 de Septiembre de 1888 do número 3.301 (a da esquina com a Manuel Pedraza). Por quê? Além de ser a mais perto de casa, essa unidade tem um salão mais amplo, um ambiente mais moderno e uma decoração mais cosmopolita. Sua pegada é empresarial. Na hora do almoço, há muita gente que trabalha nas redondezas frequentando suas mesas. Para completar, eles oferecem uma cesta mais generosa de pães de entrada (única diferença que notei para as casas coirmãs). A unidade original (a da esquina com a Besares) é a mais intimista e com a clientela mais familiar. Nota-se que os funcionários são mais antigos e divertidos – ainda mais quando notam que você é brasileiro. Já a unidade da esquina com a Paroissien é a mais acanhada, com pegada informal e serviço mais polido. O cardápio e os preços são idênticos nas três casas (uma delas ainda tem opção de pizzas, mas nunca provei). Geralmente, saio do BesAres rolando de tanto comer. Isso pedindo só o menu ejecutivo , que basicamente é a alternativa padrão da carta/cardápio. Para vocês terem ideia do que vem nesse pacote promocional, vou descrever em detalhes as opções que os clientes têm à disposição durante o almoço de segunda à sexta-feira do meio-dia às quatro da tarde. Porém, já adianto: é muita coisa! Vocês precisam estar com bastante apetite para encarar o banquete que é servido. De entrada, podemos pedir: chorizo (linguiça), empanada de carne, muzzarella milanesa , mix de achuras (miúdos) ou bruschetta . O pedido é entregue com uma cesta de pães e três molhos: salsa criolla  (que basicamente é o vinagrete argentino), o chimichurri (melhor tempero para o churrasco do muuuuundo) e um patê que não sei do que é (suspeito que seja de atum, mas não tenho certeza pois nunca tive vontade de provar). Curiosamente, a cesta de pães e molhos não são para serem degustados à parte, como a maioria dos brasileiros está acostumada a fazer nas visitas aos restaurantes. Na Argentina, esses artigos são acompanhamentos da carne, a estrela principal das refeições. Ou seja, não são aperitivos para serem misturados entre si. Acho válido fazer esse alerta porque a quantidade de conterrâneos que chegam às parrillas  e aos bonegones  portenhos e colocam a salsa criolla  e o chimichurri  nos pãezinhos (sem carne) é colossal. Não faça isso – é um crime cultural para los hermanitos . Os temperos devem ser colocados nas carnes (quem vem sem sal e sem nenhum tipo de condimento). E os pãezinhos são para serem provados com as carnes. Se pensarmos bem, faz todo o sentido.     Quando estou sozinho, peço de entrada o chorizo . Como ele é enorme e vem assado na churrasqueira, faço três minisanduíches com ele – é assim que se usa os pães, senhoras e senhores! Para meus pequenos choripanes ficarem perfeitos, ainda acrescento salsa criolla ou chimichurri . Hummmm. Quando vou acompanhado ao BesAres, gosto de pedir um chorizo e uma muzzarella milanesa  de entrada (um para cada comensal, claro). Aí dividimos o choripan (um minisanduíche de linguiça para cada) e o queijo empanado (metade para cada um). Huuuuuum. Já provei a empanada de carne e gostei bastante. Mesmo sendo muito boa, ainda prefiro o chorizo e a  muzzarella milanesa . O mix de achuras , para quem gosta de miúdos (abraços, Paulo e Eduardo!) é generoso. Os malucos que comeram isso na minha frente apreciaram tanto a qualidade quanto a quantidade servida. O que nunca pedi foi a bruschetta . Vamos combinar que ir a uma bela parrilla  e escolher pão recheado de entrada não é uma das decisões das mais inteligentes, né? As opções de bebida são: água com e sem gás, refrigerante da linha da Coca-Cola (refrigerante em espanhol é gaseosa ) e taça de vinho da casa (taça de vinho em espanhol é copa de vino ). O vinho é sempre Malbec argentino de qualidade aceitável. Como não sou um sommelier , para mim está sempre ótimo. Se bem que na maioria das vezes em que vou ao BesAres, peço a boa e velha água sem gás. Ela vem numa garrafa de vidro que dá vontade de levar para casa. Caso você também tenha pensado nisso, saiba que ela é retornável. Há inclusive no rótulo o pedido para o cliente do restaurante não a levar embora. Além de linda, a embalagem de vidro faz com que o líquido fique ainda mais saboroso. Para quem não acredita que a água gelada pode ser apetitosa, tem que provar essa linha de produto. Por falar em bebida alcóolica, outra particularidade local que merece menção é a quantidade de clientes que tomam uma taça de vinho na hora do almoço, mesmo em dia de semana e no meio do expediente de trabalho. Na Argentina, não é sacrilégio os profissionais entornarem una copa de vino en el almuerzo. Interessante notar essa diferença cultural. As opções de prato principal são variadas. O cliente pode pedir: bife de chorizo  (nunca pedi nada diferente disso por lá – essa é a melhor carne que há no mundo para um menú executivo!), milanesa napolitana de ternera o pollo  (não peça milanesa nas parrillas  – deixe para comê-las nos bodegones ), 1/4 de pollo deshuesado, pollo a la portuguesa, caesar con pollo (puta que pariu: você vai para a Argentina para comer frango?!!!), bondiola   (um tipo de carne suína saborosa), matambrito tiernizado a la pizza   (carne de vaca um tanto forte para o meu gosto – por isso não curto muito), ravioles de pollo y verdura , canelones de pollo y verdura , noquis caseros salsa rosa  e pasta seca/barilla italiana (se era para pedir massa, por que você não foi numa cantina italiana, hein?!). De acompanhamento ( guarniciones), há papas fritas (batatas fritas) , puré de papas (purê de batata) , puré de calabaza (purê de abóbora) , ensalada con hasta 3 gustos: lechuga, tomate, zanahoria, cebolla, apio, choclo, huevo, papa o remolacha (salada com até três opções: alface, tomate, cenoura, cebola, aipo, milho, ovo, batata ou beterraba). Peça qualquer uma dessas opções sem preocupação. Elas são excelentes e vem em porções generosas. O que falei para a carne também se aplica a todos os pratos servidos na capital argentina: eles vêm sem nenhum tempero. Assim, precisamos salgá-los na mesa. Pelo que entendi, trata-se de uma lei local. Eu não costumo colocar sal nos assados. Ao acrescentar a salsa criolla ou o chimichurri , a carne já fica deliciosa. Mas nas guarnições, é preciso usar o saleiro. Inclusive nas batatas fritas.    Se vocês já se cansaram de comer tanta coisa, saiba que ainda tem a sobremesa ( postre , em espanhol). E o BesAres possui doces incríveis no menu ejecutivo . O meu favorito é o budín de pan con dulce de leche o crema . Ele é enorme e delicioso. Se é para sair rolando de lá, façamos o serviço bem-feito, né? Logo depois na minha escala de preferências, vem o helado (sorvete) .  Ele também é incrível (melhor até do que o encontrado em muitas sorveterias pela cidade). Porém, em algumas vezes que o pedi, veio apenas uma bola, numa porção minúscula. Em outras, veio grandão. Por que essa variação de tamanho? Acho que o motivo é a inflação galopante do país. Sempre antes de uma atualização de valor do menu ejecutivo  (por exemplo, no dia seguinte à minha última visita, o preço mudou de 23 mil para 24 mil pesos argentinos), as porções do helado sofrem uma considerável redução de tamanho (algo que não ocorre com os demais postres ). Vai entender. O que nunca achei graça foi do flan casero con dulce o crema   (os argentinos que me desculpem, mas o flan mineiro é muuuuuito melhor) e do queso y dulce – de batata o membrillo (esse é o tradicional romeu e julieta, a sobremesa mais besta que existe). Entre esses dois últimos doces, admito que prefiro pedir a ensalada de frutas (salada de frutas). Ela vem em uma boa porção (ainda mais se rememorarmos a comilança recém-terminada). Se vocês não quiserem nem doce, nem fruta de sobremesa, dá para pedir um cafezinho no lugar. Vamos combinar que o menu ejecutivo  do BesAres Parrilla Urbana  é uma excelente opção. Seu custo-benefício é interessante para quem procura fartura e produtos de alta qualidade. Isso por um preço aceitável/mediano em se tratando do universo das churrascarias de bom padrão. Reafirmo: essa casa de carnes de Núñez não é tão barata (como o Los Amigos de Siempre  e a Parrilla Jorge , em Saavedra, minhas opções mais em conta para o dia a dia). Porém, perto do ofertado pelos seus concorrentes diretos nas redondezas, como El Pobre Luis (superestimado, além de ser bastante turístico), Solomía Parrilla  (com proposta parecida ao BesAres, sempre o visitei com regularidade e nunca saí decepcionado de lá), La Brasería  (de um nível inferior, mas também muito bom), Parrilla Marucha  (caríssimo!), Tierno Parrilla  (nunca fui, pois sempre me pareceu excessivamente custoso para meu bolso) e Parrilla Núñez  (a maior frustração do bairro: cobrança excessiva por pratos, ambientação e serviços triviais). Antes que alguém me pergunte, eu confirmo: sim, bati perna por todos esses lugares. A Zona Norte da capital argentina é um encanto, inclusive gastronômico. Seguindo o famoso ditado: em Roma, como os romanos (e coma as romanas). Qual é a graça de viver em Buenos Aires e não visitar suas parrillas , né?! Enquanto o câmbio ajudou, aproveitei como devia! Fui muito feliz e sabia disso.   É claro que estou comentando os valores do BesAres para quem pede o almuerzo ejecutivo . Quando vamos para as opções à la carte, essa churrascaria se torna mais cara. Um suculento e grande bife de chorizo  (450 gramas) sai por 29 mil pesos argentinos (R$ 125,00). Um bife de chorizo de corte uruguayo   (600 gramas – no caso, três bifes de 200 gramas cada), um pedaço do Céu em forma de carne, custa 37 mil pesos (R$ 160,00). O ojo de bife  (450 gramas) e o bife de lomo (450 gramas) são, respectivamente, 33 mil pesos (R$ 142,00) e 36 mil pesos (R$ 155,00). O preço do vacio (800 gramas) é de 51 mil pesos argentinos (R$ 220,00). Pelo tamanho desses pratos, eles servem pelo menos duas pessoas normais. No caso do vacio , três comensais se satisfazem. Note que usei o termo “normais” na primeira frase desse parágrafo. Porque tenho amigos que devoram sozinhos essas carnes num piscar de olhos e ainda pedem mais. Abraço, Dudu e Paulinho! Entretanto, em condições normais de temperatura e pressão (no caso, de fome convencional), um casal que pede uma boa carne para compartir, uma guarnição para dois, bebidas convencionais (água, refrigerante, taça de vinho ou cerveja) e sobremesas, acaba pagando entre 70 mil (R$ 300,00 – R$ 150 por cabeça) e 80 mil pesos argentinos (R$ 350,00 – R$ 175,00 cada um). É um valor mais alto realmente, mas nada de outro mundo (pelo menos para quem está habituado ao universo da boa gastronomia paulistana e carioca). Para quem gosta de vinho, dá para incluir uma garrafa no pedido (mas não computei na minha conta). Por aqui, não é um assalto beber Malbec nas refeições fora de casa, como ocorre em quase todo o Brasil. Dos vinhos tintos que conheço e gosto, o D.V. Catena Cabernet/Malbec custa nesta parrilla 35 mil pesos argentinos (R$ 150,00). A opção mais barata é o Cordero con Piel de Lobo, o vinho que nunca falta aqui em casa. Ele sai por 14 mil pesos (R$ 60,00).    Com ou sem garrafa de vinho à mesa e considerando os padrões atuais de Mi Buenos Aires Querido , o BesAres Parrilla Urbana  tem um valor razoável. E imaginar que eu pagava um terço disso quando cheguei... Quem quiser consultar o cardápio completo dessa casa, segue o link: carta do BesAres .   Por hoje é só, senhoras e senhores. Na minha próxima passagem pela coluna Gastronomia , quero apresentar para vocês os detalhes do Los Amigos de Siempre , minha parrilla  do dia a dia em Saavedra. Como disse, essa é a churrascaria que mais frequentei na capital argentina (e acho que na minha vida). Ou será que falo na próxima oportunidade sobre o Bellagamba de Palermo , meu bodegón favorito em Buenos Aires, hein?! Juro que ainda não sei sobre o que vou comentar. Vou pensar direitinho a respeito e depois apareço no Bonas Histórias  com mais uma publicação com pegada de textão interminável. De qualquer maneira, temos muito o que falar sobre os meus restaurantes portenhos favoritos. Até a próxima! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer as demais críticas gastronômicas do blog, clique na coluna Gastronomia . E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

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