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  • Músicas: Lábios que Beijei - 80 anos do auge da valsa

    Em 1937, Orlando Silva era um rapaz de 22 anos que estava dando os primeiros passos na carreira de cantor. Em março daquele ano, ele entrou no estúdio para gravar seu disco. A expectativa da gravadora RCA Victor era tanta que ela selecionou sua principal orquestra, comandada pelo maestro Radamés Gnattali, para acompanhar o jovem intérprete. Em um dos lados do compacto seria cantado o samba "Juramento Falso", enquanto no outro a valsa "Lábios que Beijei". A música "Lábios que Beijei" tinha sido composta pela dupla J. Cascata e Leonel Azevedo. Naquela primeira gravação, a canção recebeu o acompanhamento de Pixinguinha na flauta. A valsa era um gênero musical que fazia muito sucesso na década de 1930. A voz potente de Orlando Silva acabou casando perfeitamente com o destacado naipe de cordas deste tipo de canção. O sucesso de "Lábios que Beijei" acabou servindo de referência para as demais valsas que foram criadas depois. Pode-se dizer que este foi o primeiro grande sucesso da carreira de Orlando Silva, que passou a integrar, depois do lançamento deste compacto de 1937, o primeiro time de músicos da sua gravadora. Era o começo da ascensão do "Cantor das Multidões". Veja, a seguir, a letra de "Lábios que Beijei" e ouça a interpretação original de Orlando Silva de março de 1937: Lábios que Beijei - J. Cascata e Leonel Azevedo (1937) Lábios que beijei Mãos que eu afaguei Numa noite de luar, assim, O mar na solidão bramia E o vento a soluçar, pedia Que fosses sincera para mim. Nada tu ouviste E logo que partiste Para os braços de outro amor. Eu fiquei chorando Minha mágoa cantando Sou estátua perenal da dor. Passo os dias soluçando com meu pinho Carpindo a minha dor, sozinho Sem esperanças de vê-la jamais Deus tem compaixão deste infeliz Porque sofrer assim Compadecei-vos dos meus ais. Tua imagem permanece imaculada Em minha retina cansada De chorar por teu amor. Lábios que beijei Mãos que afaguei Volta vem curar a minha dor A letra dessa canção narra o drama de um eu lírico masculino que foi abandonado pela mulher amada. As lembranças da imagem dela e, principalmente, dos "lábios que beijou" e das "mãos que afagou", provocam grande tristeza no rapaz. A cura para a melancolia desta vida de saudosismo é a volta da amada. Para o eu lírico, não há outro remédio para afagar suas mágoas. Os anos de 1930 representaram o auge da valsa. "Lábios que Beijei" é apontada, até hoje, como uma das melhores canções deste estilo musical. Na década seguinte, a valsa perdeu rapidamente espaço nas rádios. Em pouco tempo, este tipo de canção passou a ser vista como música da "velha-geração". O baião, o samba-canção e os boleros passaram a dominar as paradas de sucesso, monopolizando as atenções dos músicos, das gravadoras, das rádios e dos ouvintes. Nunca mais a valsa conseguiu se tornar tão popular. Ouvir este tipo de música, hoje em dia, é voltar a um passado um tanto distante e esquecido da música nacional. Em 1994, Caetano Veloso chegou a regravar "Lábios que Beijei". Repare no vídeo, a seguir. Nele, o cantor baiano encena uma volta ao passado, indo diretamente para os tempos onde as valsas eram populares. Neste álbum, intitulado "Fina Estampa", Caetano canta vários sucessos sul-americanos de diferentes épocas. Estão ali, juntamente com "Lábios que Beijei", "O Samba e o Tango", "Canção de Amor", "Suas Mãos", e "Você Esteve Com Meu Bem". Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Músicas: Los Hermanos - 20 anos da formação da banda

    Em 2017, completam-se duas décadas da formação de uma das bandas brasileiras mais icônicas do século XXI. "Los Hermanos" nasceu de uma experimentação artística de estudantes da PUC do Rio de Janeiro. Marcelo Camelo, Rodrigo Barba e Bruno Medina uniram a agressividade dos acordes do Rock N' Roll harcore com a leveza poética das letras românticas. O resultado foi uma música que mistura doses de indie rock, rock alternativo, ska punk, MPB, marchinha de carnaval, Jovem Guarda, Bossa Nova, batidas circenses e samba. Ainda em 1997, os músicos Rodrigo Amarante e Patrick Laplan uniram-se ao trio original da PUC. Em 2001, com a saída de Laplan, "Los Hermanos" passou a se apresentar como um quarteto. Em 1999, essa combinação musical incomum rendeu os primeiros frutos. A banda assinou seu primeiro contrato profissional com a Abril Music, uma das principais gravadoras do país. O primeiro CD, chamado simplesmente de "Los Hermanos", foi lançado naquele mesmo ano. O álbum contou com a produção de Rick Bonadio (um dos principais reveladores de bandas do país) e teve 14 faixas. Quase todas as composições são de autoria de Marcelo Camelo (apenas "Quem Sabe" e "Onze Dias" são de Rodrigo Amarante). Em relação à vendagem, este foi o trabalho mais bem-sucedido do grupo. Com mais de 300 mil unidades comercializadas, o álbum de estreia do "Los Hermanos" resultou na conquista do Disco de Ouro. Ele também foi indicado ao Grammy no ano seguinte e conquistou alguns prêmios em âmbito nacional. Os maiores sucessos deste CD inicial foram a melosa canção "Ana Júlia" e o poético single "Primavera". "Ana Júlia" é até hoje a música mais conhecida do grupo. Recentemente, a revista Rolling Stone Brasil a classificou como uma das 100 principais músicas brasileiras de todos os tempos. Exagero ou não, é inegável que a canção tenha deixado sua marca. É difícil encontrar alguém ainda hoje que não a conheça. Sua letra foi criada por Marcelo Camelo a partir da paixão do produtor da banda por uma estudante universitária. O sucesso da canção se propagou no exterior. "Ana Júlia" foi gravada em outros idiomas. Os integrantes do "Los Hermanos", porém, nunca gostaram dessa música. A balada romântica em nada combinava com o estilo do grupo e foi uma imposição da gravadora para o lançamento do álbum. Por isso, pouco a pouco, "Ana Júlia" foi sendo desprezada pela banda, que se recusava a cantar seu grande sucesso comercial em shows e na televisão. Veja o videoclipe: "Primavera" também é uma música calma, cadenciada e romântica. Entretanto, ela se aproxima mais das características do "Los Hermanos" do que "Ana Júlia". Percebe-se um maior esmero na letra e uma diversidade melódica um pouco maior. Há, por exemplo, o acréscimo do saxofone e uma batida mais forte para marcar a passionalidade da letra. Veja o videoclipe de "Primavera": Deste primeiro álbum, destacam-se também "Descoberta", "Tenha Dó", "Quem Sabe" e "Pierrot". Na verdade, são essas as faixas que têm a cara da banda. Elas possuem uma batida mais forte e uma alta intensidade dramática nas letras. Minha favorita deste CD é "Lágrimas Sofridas". Ouça-a: O segundo álbum do grupo foi lançado em 2001 e se chamou "Bloco do Eu Sozinho". Com o sucesso inicial, Marcelo Camelo e seus companheiros conseguiram fazer um trabalho totalmente autoral desta vez. Ou seja, eles não aceitaram a inclusão de canções de apelo comercial por parte da gravadora. Além disso, o grupo mudou bastante de estilo. Diminuiu-se consideravelmente o harcore e acrescentaram-se elementos mais melancólicos. As influências mais fortes, dessa vez, são do Samba e da Bossa Nova. Para completar, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante começaram a compor juntos (três canções foram feitas pela dupla). O esmero na composição das letras se manteve intacto, sendo o grande diferencial do trabalho do grupo desde o início. As 14 músicas do "Bloco do Eu Sozinho" agradou a banda e seu público cativo. Porém, elas representaram a saída do "Los Hermanos" do hall dos artistas midiáticos do país. A criação de canções de apelo mais alternativo ia claramente contra as vontades populares da maioria do mercado fonográfico nacional. O disco vendeu pouquíssimo (cerca de um décimo das unidades comercializadas pelo álbum anterior). Assim, o grupo deixou de se apresentar para multidões e de aparecer com tanta frequência na televisão. Os shows também se tornaram mais intimistas e realizados para grupos bem menores de ouvintes. Vale ressaltar que esse movimento foi calculado pela banda. "Los Hermanos" estava mais interessado em produzir algo de qualidade e com uma cara própria do que fazer músicas populares e que não representassem a essência do grupo. As principais músicas de "Bloco do Eu Sozinho" foram "Todo Carnaval Tem Seu Fim" (minha música favorita da banda), "A Flor" e "Sentimental". A letra de "Todo Carnaval Tem Seu Fim", faixa de abertura do álbum, é uma obra-prima. "Veja Meu Bem", "Mais Uma Canção" e "Assim Será" também são ótimas. Ouça esse CD na íntegra: Com "O Bloco do Eu Sozinho", "Los Hermanos" pavimentou um caminho interessante e incomum. Seus integrantes fugiram definitivamente do público massivo (interessado apenas em canções comerciais) e se aproximaram mais de uma galera alternativa (interessada em canções de um maior refinamento musical). Assim, tornam-se cult. Essa opção foi seguida à risca com os lançamentos seguintes. "Ventura", em 2003, e "4", em 2004, constituíram o terceiro e o quarto álbum da banda, respectivamente. Em 2007, o grupo, naquele instante com dez anos de existência e quatro discos lançados, optou por dar uma parada em seus trabalhos. "Los Hermanos" voltou a se apresentar esporadicamente depois disso, principalmente em 2011 e 2014. Nestas oportunidades, a banda realizou pequenas turnês pelo Brasil e cantou seus antigos sucessos. Atualmente, os integrantes da banda seguem trabalhando individualmente. "Los Hermanos" é conhecido até hoje como a banda que abriu mão do sucesso comercial para poder produzir um trabalho mais autoral e de uma qualidade superior. Incrível como isso, em tempos de busca obsessiva pelo sucesso, pela fama e pelas marcas grandiosas de vendagem, é tão raro. Essa banda icônica completa agora vinte anos. Parabéns, "Los Hermanos"! Seu som continua sendo tão interessante quanto foi lá no início dos anos 2000. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Músicas: Elvis Presley - 40 anos da morte do Rei do Rock

    No dia 16 de agosto de 2017, completam-se 40 anos da morte do Rei do Rock (isto é, para aqueles que acreditam em sua morte...). Elvis Presley foi um fenômeno da música entre as décadas de 1950 e 1970. Seu legado artístico permanece até hoje, influenciando direta e indiretamente os artistas atuais. A extensão de seu trabalho ultrapassou o campo da música e se refletiu também na cultura da segunda metade do século XX. Ícone pop, símbolo sexual, referência musical, influenciador de comportamentos e estilos dos jovens, introdutor de um novo tipo de masculinidade e produto de um novo ritmo musical, Elvis é uma figura plural e complexa. No início de carreira, Elvis Aaron Presley ficou marcado por produzir uma música extremamente original, que os críticos consideram como sendo o princípio do Rock'n and Roll. Suas criações foram inspiradas nos animados ritmos do R&B, típico do sul dos Estados Unidos. Em plena época de intenso embate sobre a segregação racial em solo norte-americano, o jovem branco vindo de uma pequena cidade do Mississipi teve a ousadia de demolir os preconceitos sociais até então em voga. Ele apresentou nacionalmente para o "público branco" das grandes cidades um som parecido com a "música negra" e com forte influência das músicas caipiras. Ele uniu, assim, o Country do interior do país com o Blues, o Jazz e o Soul dos cantores negros sulinos. Estava criado um novo ritmo que varreu os Estados Unidos e, na sequência, todo o planeta nos anos seguintes. Elvis também ficou famoso, desde o começo, pelas suas performances recheadas de molejo e com danças sensuais. Essa sua característica no palco aumentou ainda mais a polêmica em torno de sua figura. O público jovem (principalmente o feminino) ia ao delírio com o jeito espevitado do cantor de se apresentar em público, enquanto os mais conversadores se revoltavam com o que consideravam uma indecência juvenil. Pela primeira vez no cenário musical norte-americano, um homem tinha a coragem de rebolar as cadeiras livremente no palco (algo até então exclusivo das mulheres dos cabarés). Isso em plena década de 1950, momento em que a televisão começava a se consolidar como principal meio de comunicação no maior país da América do Norte. Para completar, Elvis Presley era um exímio cantor e um ótimo intérprete, competências estas que foram sendo aperfeiçoadas ao longo do tempo. Com uma voz poderosa e marcante que conseguia alcançar timbres de difícil alcance e uma excelente noção interpretativa que valorizava as letras das suas canções, ele é considerado até hoje um dos melhores cantores populares de todos os tempos. Ou seja, Elvis não apenas inovou na maneira de se apresentar ao público e no tipo de som feito. Ele possuía também grande capacidade técnica, destacando-se dos seus pares. A carreira de Elvis Presley pode ser considerada meteórica para os padrões da época. Em 1953, ele gravou suas primeiras músicas de maneira experimental. No ano seguinte, já fazia sucesso em âmbito estadual. Em 1955, o rapaz com um orgulhoso topete e grandes costeletas já se apresentava nacionalmente, sendo estrela de programas de televisão. Um ano depois, sua imagem e sua voz eram conhecidas em grande parte do planeta. Nessa época, o cantor também passou a interpretar papéis no cinema. Os primeiros filmes do Rei como ator chegaram às telonas do mundo todo no começo da segunda metade da década de 1950. Seu público não apenas queria ouvi-lo como queria ver sua imagem peculiar e estilosa. A trajetória profissional de Elvis foi pródiga de momentos e de trabalhos marcantes. Sua música evoluiu ao longo das décadas de 1950 e 1960 até atingir seu auge nos anos 1970. Apesar dos problemas pessoais, das sérias complicações de saúde, do alcoolismo, do aumento de peso e de um período distante dos palcos, o cantor reencontrou seu papel de protagonista no cenário musical na primeira metade dos anos 1970, apresentando trabalhos maduros e de excelente qualidade. No dia 16 de agosto de 1977, contudo, o corpo de Elvis Presley foi encontrado sem vida pela namorada, Ginger Alden, na residência do músico. Até hoje, não se sabe exatamente o que aconteceu naquele fatídico dia que levou a morte da mítica figura do Rock. A causa oficial do óbito foi ataque cardíaco. O fim da vida de Elvis representou o início da lenda em tornou do seu nome. Há inclusive algumas teorias conspiratórias muito divertidas que asseguram que o cantor ainda está vivo, levando uma vida simples e longe dos holofotes. Difícil crer nessas versões alternativas da história. Até hoje, Elvis Presley é ouvido e reconhecido pelo público (afinal, um Rei jamais perde a majestade, né?). Com mais de 1 bilhão de álbuns comercializados, ele é um dos artistas solo recordistas em venda de discos no mundo. Trata-se de um feito notável para alguém que se despediu dos fãs há 40 anos. Suas músicas mais famosas são: "Can´t Help Falling In Love", "Hound Dog", "My Way", "Love Me Tender", "It's Now or Never", "Teddy Bear", "Don't Be Cruel", "Kiss Me Quick", "Crying In The Chapel", "All Shook Up", "Surrender", "Don't Cry Daddy", "Moody Blue", "My Boy", "Burning Love", "Bossa Nova Baby", "Jailhouse Rock", "Mystery Train", "An American Trilogy", "The Wonder Of You", "In The Ghetto", "Suspicious Minds" e "Bridge Over Trouble Water". Ouça alguns desses sucessos do Rei: E veja também a famosa apresentação do Rei no programa de Milton Berle Show, em 1956, quando sua performance dançante chamou tanta atenção quanto sua voz e sua música. A empolgação do apresentador é o retrato do sentimento do público em casa e na plateia. Repare, por que não, em como o jovem Elvis era um tanto tímido quando não estava atuando. Sempre que escuto essas canções, tenho a impressão que estou diante de um cantor atual e bastante moderno. Impressionante como Elvis e suas músicas se mantém contemporâneos e relevantes quatro décadas após a morte do artista. Sem sombra de dúvida, estamos diante de um gênio da cultura pop moderna e de um cantor único e com um legado musical riquíssimo. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #ElvisPresley

  • Músicas: Alegria, Alegria - Quando as guitarras elétricas invadiram a MPB

    Há cinquenta anos, os brasileiros não aceitavam a introdução de guitarras elétricas em suas canções populares. Na concepção da época, uma coisa era o Rock in Roll norte-americano e outra coisa completamente diferente era a MPB (Música Popular Brasileira). Se os músicos nacionais incorporassem as guitarras elétricas em suas composições, era como se o Brasil de alguma forma se sujeitasse definitivamente ao imperialismo estadunidense. Por isso, o preconceito contra o instrumento musical estrangeiro era consensual no país naquela época. Na metade da década de 1960, vários grupos musicais tinham sido vítimas da ira das plateias pelo Brasil. Ao menor som de uma guitarra, o público passava a vaiar incondicionalmente os artistas. Na maioria das vezes, o fim do show era decretado pela impossibilidade de se ouvir os músicos. Um das bandas que mais sofreu com isso foi o Beat Boys. Seus integrantes não entendiam porque eram vaiados sem parar toda vez que subiam ao palco por aqui. Ciente deste preconceito da plateia, Caetano Veloso teve uma atitude muitíssimo corajosa no dia 21 de outubro de 1967. Durante o 3o. Festival de Música Popular Brasileira promovido pela Rede Record de Televisão, o jovem cantor baiano (com 25 anos na época) apresentou-se no Teatro Record acompanhado por uma banda com algumas guitarras elétricas. Já prevendo as ensurdecedoras vaias, Caetano não esperou que os organizadores fizessem o seu anúncio. Ele começou a cantar "Alegria, Alegria" assim que subiu ao palco, pegando parte dos presentes de surpresa. A reação do público foi divertidíssima! Nos vídeos da época é possível ouvir as vaias que percorrem o teatro no início da canção. A reação negativa não intimidou o cantor. Visivelmente tenso e constrangido, Caetano segue com sua música e aos poucos os presentes vão sendo convencidos do valor daquela composição. Com o término das vaias, a plateia passa, em um segundo momento, a ficar em silêncio. Depois, o público passa a arriscar alguns versos, lendo a programação distribuída previamente pela organização do festival. Ao final da apresentação, o auditório já acompanha Caetano nos versos: "Eu vou/Por que não?/ Por que não?". A salva de palmas dá a medida exata daquela virada de jogo. Veja a incrível apresentação de Caetano Veloso naquele dia: "Alegria, Alegria" ficou em quarto lugar no festival de 1967. O vencedor foi "Ponteio", composição de Edu Lobo e Capinam. Completaram os primeiros lugares, "Domingo no Parque" de Gilberto Gil (segunda posição) e "Roda Viva" de Chico Buarque (terceiro posto). Apesar de não ter ficado com o prêmio máximo daquele concurso musical, "Alegria, Alegria" foi decisiva para o fim do preconceito em relação às guitarras elétricas. Nunca mais o público vaiou uma canção ou um músico só porque havia um instrumento norte-americano no palco. Curiosamente, o Festival de 1967 também ficou conhecido por uma célebre cena protagonizada por Sérgio Ricardo. Inconformado com as vaias do público, ele quebrou um violão durante sua apresentação, atirando depois o instrumento em direção à plateia. Ainda bem que Caetano Veloso teve mais sangue frio e soube contornar uma situação muito mais complicada do que aquela vivenciada por Sérgio Ricardo. Se não fosse a coragem, a habilidade e o talento de Caetano Veloso, a MPB não teria incorporado tantos acordes interessantes no final da década de 1960. Veja o chilique histórico de Sérgio Ricardo: O sucesso de "Alegria, Alegria" só aumentou com a passagem dos anos. A canção virou símbolo da juventude dos anos de 1960 e 1970. Não por acaso, a Rede Globo colocou a música de Caetano Veloso como tema de abertura da novela "Sem Lenço, Sem Documento", de 1977, e da minissérie "Anos Rebeldes", de 1992. A popularidade e a simbologia da canção podem ser explicadas pela sua letra que retrata o cotidiano da juventude brasileira nas grandes cidades do país no final da década de 1960. Caetano mistura nos versos o hábito de tomar Coca-Cola com a repulsão às guerrilhas, as aeronaves que ganham o espaço com as fotos de Claudia Cardinale e de Brigitte Bardot estampadas nas bancas de jornal e a vontade da namorada em casar com a necessidade da população de possuir telefone. Além disso, há referências à cultura de massa, à revolução sexual, à fragmentação da vida urbana, ao consumismo que se instaurava na sociedade, à repressão da ditadura, a ideologia comunista e à crítica à pobreza e à fome no país. Veja a letra completa da música: Caminhando contra o vento Sem lenço, sem documento No sol de quase dezembro Eu vou... O sol se reparte em crimes, Espaçonaves, guerrilhas Em cardinales bonitas Eu vou... Em caras de presidentes Em grandes beijos de amor Em dentes, pernas, bandeiras Bomba e Brigitte Bardot O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça Quem lê tanta notícia Eu vou... Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos Eu vou... Por que não? Por que não? Ela pensa em casamento E eu nunca mais fui à escola Sem lenço, sem documento, Eu vou... Eu tomo uma coca-cola Ela pensa em casamento E uma canção me consola Eu vou... Por entre fotos e nomes Sem livros e sem fuzil Sem fome sem telefone No coração do Brasil Ela nem sabe até pensei Em cantar na televisão O sol é tão bonito Eu vou... Sem lenço, sem documento Nada no bolso ou nas mãos Eu quero seguir vivendo, amor Eu vou... Por que não? Por que não? "Alegria, Alegria" é uma das canções mais simbólicas dos anos de 1960 e 1970. Agora ela se torna uma cinquentona. Parabéns, Caetano, pelo cinquentenário deste clássico da nossa música! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. 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  • Músicas: Com Defeito de Fabricação - O maluco (e excelente) álbum de Tom Zé

    Desde o final da década de 1960, Tom Zé é um dos mais criativos e talentosos músicos de nosso país. Em 1968, ano de lançamento do seu primeiro LP, chamado simplesmente de "Tom Zé" (álbum que celebra agora seu quinquagésimo aniversário), o artista baiano venceu o IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. A canção premiada foi "São Paulo, Meu Amor". Nos anos seguintes, a proximidade com os cantores da Tropicália evidenciou o jeito irreverente e único de Tom Zé. Ao mesmo tempo em que inovava musicalmente, ele também era mestre em polemizar. Impossível não nos lembrarmos da imagem da capa de "Todos os Olhos", álbum de 1973, que supostamente era uma bola de gude pousada no centro do ânus de uma mulher. Impagável! Contudo, as experimentações cada vez maiores e mais intensas de sua música acabaram levando Tom Zé ao ostracismo na segunda metade da década de 1970. Esse período de ocaso se prolongou durante boa parte dos anos de 1980. Suas composições se tornaram incompreensíveis para os ouvidos sensíveis do público e da crítica, sendo rejeitadas pelas massas. De certa maneira, suas maluquices haviam alcançado alguns pontos acima da capacidade de compreensão do mercado comercial fonográfico. A virada na carreira de Tom Zé aconteceu na década de 1990. Sua música foi levada para os Estados Unidos, no final dos anos de 1980, por David Byrne, ex-integrante do Talking Heads. E merecidamente ela se tornou um sucesso na América do Norte. Byrne conheceu o talentoso músico baiano e suas canções inusitadas em uma viagem ao Rio de Janeiro. Com a valorização no exterior, os brasileiros, principalmente os profissionais do mercado fonográfico, passaram a ver Tom Zé com outros olhos. A revalorização do seu trabalho e a nova mensuração do seu potencial artístico fizeram com que as portas das gravadoras, até então fechadas, fossem novamente abertas para ele. No comecinho dos anos 1990, Tom Zé não era mais visto como o maluco que criava canções difíceis e álbuns herméticos. Ele voltava a ser pop. Ao longo da década de 1990, Tom Zé lançou quatro álbuns: "The Hips of Tradition", em 1992, "Parabelo", em 1997, "No Jardim da Política", em 1998, e "Com Defeito de Fabricação", também em 1998. Desses trabalhos, aquele que teve a repercussão mais positiva foi o último. "Com Defeito de Fabricação" é um dos melhores e mais criativos álbuns brasileiros das últimas duas décadas. Para se ter uma ideia do seu alcance, ele foi eleito pelo The New York Times como um dos dez melhores discos daquele ano lançados no planeta. Nada mal, hein? Em "Com Defeito de Fabricação", Tom Zé consegue surpreender e agradar o público ao mesmo tempo em que não abre mão de sua polifonia sonora, das misturas de gêneros e das letras ousadas, engraçadas e muito engajadas (características essas que sempre marcaram sua carreira e seu estilo musical). Ouvir esse trabalho na íntegra é mergulhar em um mundo novo, poucas vezes acessível à música comercial. É impossível dizer qual faixa é a melhor. Sempre que ouço esse álbum acho que sua riqueza maior está no conjunto da obra e não nas canções isoladas. Ouça, a seguir, esse disco de Tom Zé, que completa agora 20 anos de existência: Com 14 canções ("O Gene", "Curiosidade", "Politicar", "Emerê", "O Olho do Lago", "Esteticar", "Dançar", "Onu: Vendem-se Armas", "Juventude Javali", Cedotardar", "Tangolomango", "Valsar", "Burrice" e "Xiquexique"), "Com Defeito de Fabricação" tem pouco mais de meia hora de duração. As minhas músicas favoritas são "O Gene", "Curiosidade", "Politicar" e "Tangolomango". Hoje em dia, Tom Zé já é um senhor de mais de 80 anos. Mesmo com o acúmulo de décadas e décadas de vida, é legal perceber que ele continua ativo e criando com a mesma qualidade de sempre. Seu último álbum, "Canções Eróticas de Ninar", de 2016, mantém a pegada irreverente e ousada (a começar pelo nome). É ou não é um artista excepcional com uma riqueza singular, hein?! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Músicas: Nas Curvas da Estrada de Santos – Um dos maiores sucessos de Roberto Carlos

    Um dos maiores sucessos da carreira de Roberto Carlos completa, em 2019, 50 anos. A música em questão é “Nas Curvas da Estrada de Santos”, a principal faixa do décimo primeiro álbum do cantor capixaba. Criada, em 1969, por Roberto e Erasmo Carlos, a canção foi gravada naquele mesmo ano pelo Rei. Para completar a trajetória da agora cinquentona, ela integrou a trilha sonora do filme “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa” (1970), uma das maiores bilheterias do cinema nacional até hoje. Em termos de relevância histórica e musical, “Nas Curvas da Estrada de Santos” só perde para “Detalhes” como a principal criação de Roberto Carlos. Eu, pessoalmente, sou muito mais fã de “Detalhes” do que “Nas Curvas da Estrada de Santos”. Porém, é inegável a força desta música. Atualmente, ela é pedida obrigatória nos shows e nos especiais de fim de ano do cantor. É impensável ouvir uma boa coletânea do Rei e não ter entre as faixas a melancólica e angustiante viagem em alta velocidade pela estrada que liga São Paulo à Baixada Santista. O álbum de 1969 dá início a fase mais madura de Roberto Carlos. No final dos anos 1960, ele foi, pouco a pouco, deixando para trás muitas das características da Jovem Guarda. Isso se acelerou quando ele deixou o programa semanal na TV Record e se distanciou dos colegas que integravam esse movimento musical. Neste disco, Roberto inova ao incorporar em seu repertório alguns elementos típicos do soul e do funk. Curiosamente, “Nas Curvas da Estrada de Santos” é uma das músicas mais Jovem Guarda do LP. Ao lado de “Do Outro Lado da Cidade” e “Não Adianta”, ela revive um pouco a fase precedente do músico. Veja a letra desta canção: Nas Curvas da Estrada de Santos (1969) – Roberto Carlos e Erasmo Carlos: Se você pretende Saber quem eu sou Eu posso lhe dizer Entre no meu carro na Estrada de Santos E você vai me conhecer Você vai pensar Que eu não gosto Nem mesmo de mim E que na minha idade Só a velocidade Anda junto a mim Só ando sozinho E no meu caminho O tempo é cada vez menor Preciso de ajuda, Por favor me acuda Eu vivo muito só Se acaso numa curva Eu me lembro Do meu mundo Eu piso mais fundo, Corrijo num segundo Não posso parar Eu prefiro as curvas da Estrada de Santos Onde eu tento esquecer Um amor que eu tive E vi pelo espelho Na distância se perder Mas se amor que eu perdi Eu novamente encontrar As curvas se acabam E na Estrada de Santos Não vou mais passar Não, não vou mais passar Veja a interpretação original de Roberto Carlos: Muita gente considera que o disco de 1969 representou simbolicamente o fim da Jovem Guarda (período musical também chamado de Iê-iê-iê). Afinal, com a decretação do AI-5 (Ato Institucional Número 5) pelo governo de Artur da Costa e Silva, em dezembro de 1968, ficava difícil para os músicos brasileiros continuarem cantando a futilidade juvenil da classe média (primeiros amores, viagens, festonas, carros e aventuras românticas) como tinha sido feito até então. A partir de 1969, temos o apogeu das músicas de protesto e o início do Tropicalismo. Além disso, com a chegada da década de 1970, Roberto Carlos, nessa altura um homem casado e com filhos, passou a compor e a gravar mais letras românticas. Assim, ele deixava de lado a fase musical do jovem cabeludo, rebelde e namorador e começava a incorporar o homem maduro, responsável e extremamente romântico. De certa maneira, “Nas Curvas da Estrada de Santos” é uma das últimas músicas de Roberto Carlos com o DNA da Jovem Guarda. Nesta canção, o personagem principal é um jovem solitário e triste que encontra um pouco de adrenalina quando pisa fundo na Estrada de Santos. Os únicos prazeres que tem são dentro do veículo. Depois que foi deixado pela amada, o rapaz vê seu carro como a melhor companhia. E é nas altas velocidades do veículo que ele desafia as amarguras da vida, talvez desejando morrer para aplacar toda a dor que sente ou ansiando encontrar um novo amor que o tire daquela vida perigosa. Nos raros momentos de lucidez, ele grita por socorro. Essa trinca temática (carro, velocidade e sofrimento amoroso) foi muito abordada por Roberto Carlos e pelos cantores da Jovem Guarda ao longo de toda a década de 1960. De cabeça, por exemplo, lembro-me de “Por isso Eu Corro Demais”, do álbum do próprio Roberto de 1967, e “Rua Augusta”, de 1963, o maior sucesso de Ronnie Cord (criação de Hervé Cordovil). “Nas Curvas da Estrada de Santos” é uma das principais músicas brasileiras de todos os tempos. Em toda lista séria, ela aparece entre as 100 maiores composições nacionais. Esta dobradinha de Roberto Carlos e Erasmo Carlos é realmente cativante. Seu carisma resiste ao tempo e ainda consegue emocionar o público. E imaginar que esta canção é agora uma cinquentona. Incrível! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #RobertoCarlos #ErasmoCarlos #JovemGuarda

  • Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2018

    O evento mais aguardado do mercado fonográfico nacional foi realizado na noite de ontem, em uma festa de gala na cidade de São Paulo. O Blog Bonas Histórias tem o prazer de divulgar, hoje, os vencedores das Melhores Músicas Ruins de 2018, a premiação musical mais divertida do Brasil. A cerimônia de entrega das honrarias é organizada anualmente pelo Bonas Histórias, que divulga os resultados da premiação com exclusividade em seu blog. O Prêmio Melhores Músicas Ruins chegou, neste ano, à sua quarta edição. Para quem não se lembra, os vencedores das últimas edições foram: Edson & Hudson com "Meu Amor é Dez”, em 2015, Anitta com “Essa Mina é Louca”, em 2016, e MC Livinho com “Fazer Falta”, em 2017. Com mais uma premiação, dessa vez para as músicas lançadas em 2017, seguimos firmes no propósito de enaltecer as preciosidades da música brasileira. Nesta quarta edição, como não conseguimos alugar o Teatro Municipal para o evento deste ano, a cerimônia de entrega das estatuetas foi realizada em um pub minúsculo e fedorento da Avenida Augusta. Infelizmente, por contrato, o estabelecimento nos proibiu de divulgar seu nome e endereço. O patrocínio Máster da edição deste ano ficou com a VASP, enquanto as três cotas de patrocínio Super Plus Golden Magic ficaram com o Banco Econômico, com o Mappin e com a Yopa. Pela primeira vez em sua história, o evento teve cobertura televisiva para o país inteiro. A Rede Manchete ficou responsável pela transmissão. Agradecemos nossos parceiros pela realização conjunta de um evento dessa magnitude. Depois dessa longa (e desnecessária) introdução protocolar, vamos ao que realmente interessa. A seguir, apresentamos a lista com as dez canções vencedoras do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2018 na categoria principal. Os critérios das escolhas são confidenciais e estão no interior da cabeça dos jurados contratados pelo Bonas Histórias (que se mantêm anônimos para segurança de todos). Aí vão os ganhadores: 11º colocado: - “Cobaia” - Lauana Prado (Sertanejo) 10º colocado: - “MC Lençol e DJ Travesseiro” - Luan Santana (Pop) 9º colocado: “Jenifer” - Gabriel Diniz (Forró) 8º colocado: “Atrasadinha” – Felipe Araújo e Ferrugem (Sertanejo) 7º colocado: “10 Beijos de Rua” – Léo Santana (Pagode) 6º colocado: “Deixa Ela Beijar” – Matheus & Kauan e MC Kevinho (Funk) 5º colocado: “Cobertor de Orelha” – Turma do Pagode (Pagode) 4º colocado: “Que Tiro Foi Esse” - Jojo Maronttinni (Funk) 3º colocado: “Apelido Carinhoso” – Gusttavo Lima (Sertanejo) 2º colocado: “Romance com Safadeza” - Wesley Safadão e Anitta (Forró) 1º colocado: “Dona Maria” – Thiago Brava (Sertanejo) Parabéns a todos os vencedores. Esperamos ver todos vocês no evento do próximo ano. Quem não conseguiu ser premiado, desejamos bom trabalho e boa sorte em 2019. Quem sabe não nos vemos em janeiro de 2020, hein? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas. Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MelhoresMúsicasRuins #Premiação #LauanaPrado #LuanSantana #MCNandoDKJerrySmith #FelipeAraújo #Ferrugem #LéoSantana #MatheusKauan #MCKevinho #TurmadoPagode #JojoMaronttinni #GusttavoLima #WesleySafadão #Anitta #ThiagoBrava

  • Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2019

    É inegável que 2019 foi um período farto de músicas ruins em nosso país. Não é preciso ser um ouvinte muito exigente para reconhecer esse fato. Porém, ao invés de reclamar, vamos celebrar a abundância. Pela perspectiva das Melhores Músicas Ruins, premiação anual do Bonas Histórias que chega agora à sua quinta edição, essa é uma excelente notícia. Foram tantas as opções de canções que pela primeira vez na história do prêmio selecionamos 20 faixas para entrar no ranking das melhores do ano (até então a tradição mandava escolhermos apenas 10). A grande vencedora de 2019 foi Marília Mendonça. A cantora goiana não apenas emplacou a melhor música do ano passado, o incrível “Todo Mundo Vai Sofrer”, como colocou outros dois hits na lista: “Supera”, 6ª posição, e “Some que Ele Vem Atrás”, 9ª colocação. O sucesso é merecido. Marília Mendonça sempre foi figurinha carimbada no Melhores Músicas Ruins. Nas últimas edições, ela sempre esteve entre as indicadas. “Meu Cupido é Gari” foi além e ficou no Top 5 de 2016. Portanto, não é nenhuma surpresa o desabrochar dela. Também foram destaques da última temporada musical os jovens Vitor Kley (revelação do ano), com o pop de “O Sol”, 2ª posição, e Gustavo Mioto, com o sertanejo “Solteiro Não Trai”, 4ª posição. Entre os experientes, 2019 foi das duplas Paula Fernandes e Luan Santana, do impagável “Juntos”, 3ª colocação, e Anitta e Kevinho, do estrondoso “Terremoto”, 5º lugar. Afinal, música boa precisa ser compartilhada por um bom parceiro, não é? Das 20 músicas da edição de 2019 do Prêmio Melhores Músicas Ruins, 13 são canções sertanejas. Realmente este é o gênero mais popular no Brasil nos últimos anos e que fornece os maiores sucessos nacionais. Porém, uma olhada atenta ao ranking dos melhores do ano passado, mostrará que não é só de Sertanejo que vive nosso país. Entre os melhores há um pouco de tudo: Pop Romântico, Funk, Gospel, MPB, R&B Contemporâneo e Rap. Só senti falta do Pagode na lista, um dos meus gêneros musicais favoritos (reconheço que 2019 não foi positivo para os grupos de Pagode). O campeão da última edição das Melhores Músicas Ruins, Tiago Brava, até tentou, mas não conseguiu repetir o êxito de “Dona Maria”. Seu novo hit “Dá Preferência Pra Mim”, parceria com Gusttavo Lima, até apareceu entre as finalistas. Porém, não chegou entre os 20 primeiros colocados. Uma pena! 2019 parece ter sido mesmo um período complicado para nossos antigos campeões. MC Livinho, vencedor da edição de 2017 do prêmio com “Fazer Falta”, e Edson & Hudson, campeões da edição de 2015 das Melhores Músicas Ruins com “Meu Amor é Dez”, nem foram indicados desta vez. A exceção foi a onipresente Anitta, vencedora do Prêmio de 2016 com “Essa Mina é Louca”. Depois disso, a carioca sempre esteve no nosso Top 5. Em 2017, ela emplacou “Você Partiu Meu Coração”, parceria com Nego do Borel, e “Vai Malandra”. No ano retrasado, foi a vez de “Romance com Safadeza”, sucesso com Wesley Safadão. Em 2019, o que pegou no repertório de Anitta foi “Terremoto”, parceria com Kevinho. Chega, então, de papo furado. Vamos logo à revelação de todos os vencedores. A seguir, vai o ranking das 20 Melhores Músicas Ruins de 2019 em ordem decrescente. O Bonas Histórias agradece a contribuição de quem enviou, ao longo dos últimos doze meses, sugestões de canções que poderiam figurar na lista. Saibam que muitas delas estão agora entre as campeãs. Também precisamos reconhecer o trabalho da comissão julgadora do prêmio, que precisou perder um percentual da sanidade mental e dos tímpanos para chegar ao seleto grupo das melhores. Obrigado a todos vocês. Pronto: aí vão as músicas que botaram para quebrar no ano passado. 20ª posição: “Casal Raiz” - Xand Avião (Sertanejo) 19ª posição: “Tijolão” - Jorge & Matheus (Sertanejo) 18ª posição: “Aham” - Lucas Lucco (Sertanejo) 17ª posição: “Nem Tchum” - Maiara & Maraisa (Sertanejo) 16ª posição: “Surto de Amor” - Bruno & Marrone (Sertanejo) 15ª posição: “Não Pare” - Midiam Lima (Gospel) 14ª posição: “Quando a Bad Bater” - Luan Santana (Pop Romântico) 13ª posição: “Largado às Traças” - Zé Neto & Cristiano (Sertanejo) 12ª posição: “Brisa” - Iza (R&B Contemporâneo) 11ª posição: “Espaçosa Demais” - Felipe Araújo (Sertanejo) 10ª posição: “Gelo” - Melim (Pop/MPB) 9ª posição: “Some que Ele Vem Atrás” - Marília Mendonça e Anitta (Sertanejo) 8ª posição: “Café” - Vitão (Funk/Rap) 7ª posição: “Você Humilha” - Lauana Prado (Sertanejo) 6ª posição: “Supera” - Marília Mendonça (Sertanejo) 5ª posição: “Terremoto” - Anitta e Kevinho (Funk) 4ª posição: “Solteiro Não Trai” - Gustavo Mioto (Sertanejo) 3ª posição: “Juntos” - Paula Fernandes e Luan Santana (Sertanejo) 2ª posição: “O Sol” - Vitor Kley (Pop) 1ª posição: “Todo Mundo Vai Sofrer” - Marília Mendonça (Sertanejo) Parabéns aos vencedores! Esperamos ver todos vocês novamente na premiação de 2020. Que o próximo ano seja um período de fartura e excelência musical. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas. Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2017

    O momento mais divertido de janeiro chegou! E olha que não estou me referindo ao Réveillon, ao verão, às férias, às praias... Para muitos dos leitores do Bonas Histórias, o evento mais aguardado desse início de ano é a premiação "Melhores Músicas Ruins", uma tradição aqui do blog. Depois do sucesso da edição de 2016 (vencida com méritos por Anitta com a antológica "Essa Minha é Louca") e da edição de 2015 (marcada pela incrível canção "Meu Amor é Dez", de Edson & Hudson), chegamos agora ao terceiro ano da premiação. A pergunta que todos se fazem é: Quem irá ganhar a honraria máxima das "Melhores Músicas Ruins" de 2017? Depois de doze (longos) meses colecionando as piores músicas que passaram pelos meus ouvidos (sim, eu coleciono música ruim!), chegou a hora de divulgar as melhores (ou seriam as piores?). Dessa vez, a lista foi monopolizada pelo funk (que bombou nesse ano) e pelo sertanejo (já esteve mais forte, admitamos). O pop apareceu timidamente (ele sempre dá as caras em qualquer lista musical, né?). Sem mais rodeios, aí vão as dez incríveis canções que marcaram o ano de 2017 em nosso país e, muito provavelmente, entrarão para o hall dos clássicos do trash. 10º lugar: "Eu Tô com Ismo" - Maykow & Bruno 9º lugar: "Tô Apaixonado nessa Mina"- MC Kevinho 8º lugar: "Deu Onda" - MC G15 7º lugar: "Regime Fechado" - Simone & Simaria 6º lugar: "Gordinho Saliente" - Henrique e Juliano 5º lugar: “Vai Malandra” – Anitta, Mc Zaac, Maejor e Tropkillaz & DJ Yuri Martins 4º lugar: "Corpo Sensual" - Pabllo Vittar 3º lugar: "Você Partiu Meu Coração" - Nego do Borel 2º lugar: "Cheguei" - Ludmilla 1º lugar: "Fazer Falta" - MC Livinho Parabéns aos vencedores! Aqueles que não foram agraciados dessa vez, pedimos à compreensão. Nem sempre é possível vencer. Para conferir as edições anteriores da premiação, clique em Melhores Músicas Ruins. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui e curta a página do blog no Facebook. #MelhoresMúsicasRuins #MaykowBruno #MCKevinho #MCG15 #SimoneSimaria #HenriqueeJuliano #Anitta #PablloVittar #NegodoBorel #Ludmilla #MCLivinho #Premiação

  • Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2015

    O ano de 2015 já está próximo da sua reta final e gostaria de compartilhar as minhas descobertas no gênero musical. Quem me conhece sabe que além de apreciar um bom filme trash, eu também adoro uma boa música brega. Sabe aquelas músicas do tipo classe B (ou seria C?) que nem as piores estações de rádio têm coragem de tocar? Saiba que eu adoro essas canções. Eu me divirto com elas. De tão ruins, de tão ridículas e de tão repugnantes, elas se tornam até admiráveis. Não tem homem que gosta de mulher feia? Não tem mulher que gosta de homem tranqueira? Não tem gente que torce para o Palmeiras? Não tem quem se vista com roupas bregas? Eu gosto de música ruim, fazer o quê? Gosto é gosto! Antes de listar as cinco Melhores Músicas Ruins que ouvi nesse ano, nesta minha categoria específica (que alguns teimam em chamar de trash, de lixo, de música ruim ou de atentado terrorista aos ouvidos), eu preciso deixar algo claro: não as ouço diariamente. Como um bom vinho, este tipo de canção precisa ser degustado aos poucos e em pequenas doses. O motivo, entretanto, é inverso ao da bebida. Se uma taça de vinho consumido diariamente faz bem ao organismo, a apreciação deste tipo de música feita todos os dias é muito perigosa. A saúde mental e física do ouvinte pode ficar profundamente abalada com o excesso de exposição. Por isso, é preciso certa dose de ponderação. Tome cuidado! Feita esta importante ressalva, vou à lista das melhores cinco músicas ruins que ouvi neste ano. Prepare-se e veja se tenho ou não tenho um ótimo péssimo gosto musical. 5º lugar: "Senha do Celular" - Henrique & Diego Parte em destaque: "Se não deixa pegar o celular É porque tá traindo E tá mentindo Alguma coisa tem Se não deixa pegar o celular É porque tá devendo Me enganando De papo com outro alguém" Observação: Este é o corno moderno. Ele tem medo do celular da amada! 4º lugar: "Escândalo de Amor" - Edson & Hudson Parte em destaque: "Peça pro porteiro aliviar Diga que eu preciso entrar Quero te ver mais uma vez Ou será que tenho que escalar No décimo terceiro andar Só chego ai daqui um mês Eu tô me acabando na saudade E a minha felicidade Está nas mãos desse porteiro" Observação: Uma ode aos porteiros deste país. Que coisa linda! 3º lugar: "Dá Álcool Pra Mim" - Fábio Henrique e Fabiano Parte em destaque: "Se você quer beber, Lembra que eu estou afim Dá álcool pra mim Dá álcool pra mim Eu só fico junto, de mulher que bebe bem Porque quando ela bebe, dá álcool pra mim também Eu conheço um ditado, não existe discussão Se for com mulher do lado, beba com moderação". Observação: A graça desta música está em ouvi-la e não em lê-la. Porém, não achei nenhum vídeo do Fábio Henrique & Fabiano. Acredite: eu tenho essa música em um CD (alguém me deu de presente e achei esta preciosidade). 2º lugar: "O Caipira e a Roqueira" - Matos e Matteus Parte em destaque: "Mas outro dia caminhando pela rua, Encontrei uma gatinha doida demais, Ela me olhou e meio que pintou um clima Sem dizer que essa menina me tirou a paz. Ela é tão diferente de mim, Camiseta escrito Bad Boy, Um cabelo ouriçado, Um jeitão bem largado E um assunto que dói. Acontece que eu me apaixonei Isso ela também não nega Essa menina é roqueira, Só não pita e não cheira, Mas tem o corpo tatuado, Tem brinco pra todo lado, No umbigo, na orelha, no nariz, A coisa é feia. Feia de fazer dó!". Observação: É ou não é bonitinha esta música? Não dizem que os opostos se atraem, hein? Curiosamente, eu conheci essa dupla sertaneja pessoalmente (Eles eram meus vizinhos em Perdizes). Também tenho o CD deles. Foi o próprio Matos, ou teria sido o Matteus, que me presenteou. Os caras são gente fina, mas que "O Caipira e a Roqueira" é uma das melhores músicas ruins do ano, isso é. 1º lugar: "Meu Amor é Dez" - Edson & Hudson Parte em destaque: "Se eu te chamo pra ir no Habib's Três esfihas, quatro kibes Já ta bom demais da conta Axe é o meu desodorante Quando bebo é espumante Tira gosto é azeitona Você tá igual o Titanic Submerge, perde o pique Tá se achando minha dona Eu não tomo whisky importado, Meu carro é financiado, meu apê é de aluguel. O meu telefone é pré-pago, Minha geladeira é Consul, Meu colchão é da Probel" Observação: Até hoje não sei como o Edson e o Hudson não conquistaram um Grammy com esta canção... Parabéns aos campeões da edição 2015 das "Melhores Músicas Ruins"! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas. Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MelhoresMúsicasRuins #Premiação #HenriqueDiego #EdsonHudson #FábioHenriqueeFabiano #MatoseMatteus

  • Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2016

    Aproveitando que faltam poucos dias para o término do ano, vou revelar agora as Melhores Músicas Ruins de 2016. Como os antigos leitores deste blog já sabem, sou um dedicado colecionador de música ruim. Trata-se de um vício que tenho há muitos anos. Não consigo ficar indiferente às canções que maltratam os ouvidos. Sinto grande prazer em ouvi-las. Sabendo disso, vários amigos e leitores do blog me enviam constantemente novidades. Por isso, gostaria de agradecer a eles pelas inúmeras preciosidades reveladas ao longo do ano. Abaixo vão as 10 Melhores Músicas Ruins de 2016, segundo minha classificação (nisso sou especialista, acreditem!). Este ranking já está virando uma tradição de final de ano do Blog Bonas Histórias. Há quem já tenha me revelado esperar dezembro chegar para curtir esta lista. Por isso, aproveitem! 10º lugar: "Fila da Tequila" - Bruno Araújo 9º lugar: "Ai Ai Ai Ui Ui" - Thaeme & Thiago 8º lugar: "Baile na Favela" - MC João 7º lugar: "Isso Cê Num Conta" - Bruno & Marrone 6º lugar: "Frentista" - Gabriel Grava 5º lugar: "Meu Cupido é Gari" - Marília Mendonça 4º lugar: "DNA" - Leo Magalhães 3º lugar: "Pisadinha" - Alex Ferrari 2º lugar: "Tá Tranquilo, Tá Favorável" - MC Bin Laden 1º lugar: "Essa Mina é Louca" - Anitta Essa foi a premiação das Melhores Músicas Ruins de 2016. Parabéns aos vencedores! E até o próximo ano com a edição de 2017. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas. Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #Anitta #MCBinLaden #AlexFerrari #LeoMagalhães #MaríliaMendonça #GabrielGrava #BrunoMarrone #MCJoão #ThaemeThiago #BrunoAraújo #MelhoresMúsicasRuins #Premiação

  • Livros: Breve Romance de Sonho - A novela disruptiva de Arthur Schnitzler

    Imagine se um autor, no início do século XX, produzisse uma obra literária em que pudesse dar vazão, a partir dos conceitos da psicanálise, aos seus desejos sexuais mais bem guardados. Parece inacreditável, né?! Pois saiba que Arthur Schnitzler, um dos principais escritores austríacos na virada do século XIX para o XX, realizou esse feito incrível. “Breve Romance de Sonho” (Companhia de Bolso) é a novela de Schnitzler que mistura vários ingredientes até então inusitados na ficção comercial: terror com erotismo, fantasia com realidade e psicanálise com moralidade. Impossível ficar indiferente a esta composição narrativa. Passados quase cem anos de sua produção, “Breve Romance de Sonho” continua extremamente interessante aos olhos dos leitores contemporâneos. Ao menos foi essa a impressão que tive nessa semana ao ler pela primeira vez este livro. Uma boa prova do quão atual é sua história é que ela foi adaptada para o cinema há alguns anos. Ninguém menos do que Stanley Kubrick, se não o maior cineasta da história, ao menos um dos principais, levou a trama de Schnitzler para as telonas. “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut: 1998) foi o último longa-metragem do diretor, falecido em março de 1999. A versão cinematográfica de “Breve Romance de Sonho”, que se arrastou por três anos de idas e vindas, teve o protagonismo de Tom Cruise e Nicole Kidman. Além de romancista, Arthur Schnitzler também escreveu contos, ensaios e peças teatrais. A escrita só se tornou sua principal profissão depois dos quarenta anos. Médico de formação, ele sempre esteve muito ligado à medicina, seja como assistente, médico titular ou proprietário de clínica em Viena. Sua grande paixão, porém, foi a psicologia, mais especificamente a psicanálise. Contemporâneo e conterrâneo de Sigmund Freud, Schnitzler usou a literatura para dar vazão a boa parte dos dramas internos de suas personagens. Sua técnica narrativa baseada no fluxo de consciência era propícia à canalização do subconsciente dos indivíduos retratados. “Breve Romance de Sonho” foi indubitavelmente a trama mais polêmica de Arthur Schnitzler. Lançada em 1926, esta novela causou burburinho na época ao revelar os desejos sexuais de seu protagonista, um médico respeitado e bem-casado. Apesar das intenções libidinosas da personagem ficarem quase sempre na imaginação ou no plano onírico, a obra foi taxada de pornográfica. Obviamente, essa era sua classificação no início do século XX. Hoje em dia, duvido que alguém fique escandalizado com seu conteúdo. Ambientado em Viena, “Breve Romance de Sonho” se passa na época de Carnaval. Fridolin, um médico conceituado de 35 anos, e Albertina, uma dona-de-casa de hábitos pacatos, estão casados há alguns anos. Apaixonados um pelo outro, eles possuem uma filhinha de 6 anos. A vida conjugal deles está ótima, mas é inegável que o longo tempo juntos tenha esfriado o ímpeto sexual do casal. Após irem a uma festa carnavalesca de máscara na capital austríaca, Dr. Fridolin e Albertina têm surpreendentemente uma noite de paixão tórrida. Nem mesmo no início do relacionamento, o sexo tinha sido tão intenso. O clima amoroso e a condição de grande proximidade do casal permitiram que ambos extrapolassem todas as barreiras da intimidade. Assim, na noite seguinte à festa, tanto Albertina quanto Fridolin, no conforto de seu quarto, revelam um para o outro segredos sentimentais do passado. Ela quis trair o marido na última viagem de férias à Dinamarca. O alvo foi um jovem e bonito soldado alemão que estava hospedado no mesmo hotel. O médico, por sua vez, se sentiu atraído por uma desconhecida de quinze anos que conheceu por acaso na praia naquela mesma viagem. Tudo não passou de uma paixonite platônica dos dois cônjuges. Se Albertina não ficou chocada com o que ouviu do marido, entendendo o viés onírico dos relatos, Fridolin acabou abaladíssimo. Ele não pôde demonstrar a raiva para a esposa porque precisou sair correndo para atender a uma consulta médica urgente. Um conselheiro da cidade, sujeito muito idoso e acometido há tempos por várias doenças, estava agonizando em seu leito. Com as palavras da esposa ainda atormentando a sua mente, Dr. Fridolin partiu em direção à casa do conselheiro. Lá, ele não conseguiu salvar o enfermo. Porém, pela primeira vez, o médico deu trela para Marianne, a filha do dono do lugar. Marianne sempre foi apaixonada pelo doutor e, só agora, ele se perguntava se não deveria ter um caso extraconjugal com a jovem, apesar da aparência desleixada e pouco atrativa da moça. De certa forma, o médico queria se vingar de sua esposa por ela ter concebido mentalmente uma traição. Este é o início da aventura do protagonista madrugada à dentro. Revoltado com a postura pouco digna de Albertina (ao menos foi assim que ele interpretou as palavras dela), Fridolin parte disposto a concretizar boa parte de suas vontades sexuais. Por isso, ele beija Marianne, aceita se encontrar com uma prostituta menor de idade e, em seguida, parte para uma festa secreta (e mascarada) onde as mulheres ficam nuas à disposição dos homens. O estado de loucura do médico durará algumas horas e essa experiência incomum trará consequências graves. O que faz “Breve Romance de Sonho” uma obra tão interessante é um conjunto de fatores. Em primeiro lugar, a narrativa da noite/madrugada catártica do Dr. Fridolin é surpreendente. O protagonista da novela se mete em uma sucessão interminável de confusões. O médico está com a intenção de transar com a primeira mulher que lhe der bola, mas não consegue. Como consequência, ele torna-se vítima de situações pouco comuns para um homem de sua posição social. De certa maneira, essa trama lembra “Se Beber Não Case” (The Hangover: 2009), filme de Todd Philips, e “Pornopopéia” (Objetiva), romance de Reinaldo Moraes. Por falar em referências intertextuais, impossível não relembrar de “Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras), clássico literário de Philip Roth. Assim como o escritor norte-americano, o austríaco também vinha de uma família judia. O mais incrível é perceber que a criação de Arthur Schnitzler antecede esses títulos citados em muitas e muitas décadas. Curiosamente, a revolta de Fridolin se dá pela revelação dos sonhos e da imaginação de sua esposa. Se na prática ela continua sendo uma mulher correta (afinal, não fez nada de errado), para o marido ela é agora uma esposa traiçoeira, infiel e, acima de tudo, cruel (por escancarar seus desejos e seus fetiches). Não apenas o médico não consegue levá-la mais à sério como também quer se vingar da forma mais vil possível. A vingança proposta por ele, entretanto, possui um duplo drama psicológico. Enquanto quer dar livre caminho aos seus desejos sexuais, a personagem principal do livro ainda sim se sente preso aos laços do matrimônio (ele ainda ama irrestritamente a esposa). Fridolin sempre pende para um lado e aí, logo em seguida, vai para o outro. É um vai-e-volta interminável. Além da dicotomia desejo sexual versus obrigações do casamento que o consome (libido versus razão), o médico também é atormentado pela imprecisão do que é realidade e do que é fantasia em sua aventura noturna. Como estamos acompanhando um fluxo de consciência, não sabemos, como leitores, o que é sonho, o que é imaginação e o que é concreto nos relatos da personagem. É muito legal embarcar nessa confusão de planos narrativos. Por fim, achei simplesmente fantástico o desfecho aberto desta narrativa. A maioria das perguntas que o leitor se faz durante o livro não é respondida (e talvez não deveria mesmo). O charme desse tipo de história está mais na interpretação dos leitores do que nos apontamentos do autor/narrador. Porém, sei que esse recurso poderá frustrar alguns leitores, que preferem respostas fechadas aos devaneios intermináveis. Por falar em frustração, para quem espera que Dr. Fridolin se comporte como o professor Phil Wenneck em Las Vegas, como o cineasta José Carlos Ribeiro na noite paulistana ou mesmo como o advogado Alexander Portnoy em sua adolescência, saiba que o protagonista de Schnitzler está mais para um romântico fracassado do que para um herói dos homens libertinos. Esse choque entre o que ele pretende ser e o que é de fato traz um humor melancólico e delicado à obra. É preciso sutileza para compreender esse nuance - quem não tiver, na certa ficará decepcionado(a). Impossível falar de “Breve Romance de Sonho” sem falar dos conceitos psicanalíticos trazidos pelo seu autor e incorporados à trama. Nesse sentido, quem conhece mais profundamente a teoria freudiana irá se encantar ao correlacioná-la com cada parte dos dramas fictícios do protagonista. Schnitzler construiu uma novela com forte intertextualidade com a Psicologia. Quem gosta de livros curtinhos e de leituras rápidas, na certa vai se encantar com esta obra de Arthur Schnitzler. Com apenas 112 páginas, é possível ler “Breve Romance de Sonho” (daí o termo breve em seu título, né?) em uma única tarde ou mesmo em uma só noite. Foi o que fiz na última quinta-feira. Comecei a leitura por volta das 19 horas e às 22 horas já a tinha concluído. Sei que este título não é o mais indicado para esta época do ano (não tem nada a ver com o espírito natalino), mas gostei do seu conteúdo. Agora entendi em qual fonte foram beber Philip Roth, Todd Philips e Reinaldo Moraes. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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