Gastronomia: Café Santa Thereza – As deliciosas empanadas do bairro de Perdizes

Inaugurada em dezembro de 2018, em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo, por João Baptista, a Mercearia Santa Thereza se mudou para a capital paulista em outubro de 2021. Num espaço minúsculo na Avenida Professor Alfonso Bovero, a casa alterou a essência de seu cardápio e passou a se chamar Café Santa Thereza. Felizmente, nesse processo de transformação, manteve intactas a qualidade dos produtos e a simpatia no atendimento. Hoje, oferece uma das mais deliciosas empanadas da Zona Oeste da maior metrópole brasileira.

Eu sei, eu sei que a coluna Gastronomia traz novidades bem variadas da culinária da cidade de São Paulo (e da capital argentina). Nas páginas mais calóricas deste humilde blog escondido no mato selvagem da internet, já comentei: restaurante venezuelano (La Perla Caribe na Rua), bar português (Tiro Liro), pastelaria (Pastelaria Malta Brasileira), restaurante árabe (Shawarma Anwar), kebaberia (Kebab Paris), lanchonete especializada em coxinha (Coxinharia Prime Taste), hamburgueria (Guarita Burger), pizzaria-bar (Primo Basílico), churrascaria raiz (Arcos da Cantareira), cafeteria (Café Terraço Sesc Paulista), padaria (Santa Etienne City) e, ufa, restaurante francês (On Va Manger). Isso sem contar os passeios pelas feiras gastronômicas de rua, como a Festa de Nossa Senhora Achiropita e a Festa de San Gennaro. Vamos combinar que a versatilidade é palavra de ordem por aqui, senhoras e senhores!
Digo isso porque o post de hoje do Bonas Histórias é sobre um dos lugares mais simpáticos e inusitados do bairro de Perdizes. Aposto que você ainda não o conhece. Estou falando do Café Santa Thereza, localizado na Avenida Professor Alfonso Bovero, 760 e administrado unicamente por João Baptista, seu proprietário. Confesso que é até difícil enxergar esse estabelecimento como uma simples cafeteria. Afinal, raramente vou lá para provar seus cafés. Quase sempre peço as empanadas e os choripanes. Nesse instante, o acompanhamento prioritário é uma boa taça de vinho sugerida pelo Seu João (quando vou à noite ou no finalzinho de tarde) ou a sempre refrescante soda italiana (para visitas na hora do almoço). Também gosto de comprar os sofiolis, massa de fabricação artesanal que vem congelada e é para ser preparada em casa. Que delícia!
Antes de comentar os pormenores do Café Santa Thereza, preciso relatar como conheci este lugar tão pitoresco da Zona Oeste de São Paulo. Ao retornar para a capital paulista no final do ano passado (vivi por dois anos em Buenos Aires), fui morar na própria Avenida Professor Alfonso Bovero. Até hoje não sei se meu apartamento (no caso, o edifício onde estou) está localizado no bairro de Perdizes ou se faz parte dos bairros da Pompeia ou do Sumaré. De qualquer maneira, independentemente da denominação geográfica oficial, passei a frequentar os estabelecimentos gastronômicos das redondezas. Ninguém é gordinho à toa, não é mesmo?!

E logo de cara, um quarteirão chamou minha atenção. Situado bem no meio da avenida em que moro, ele tem vários restaurantes um ao lado do outro. Por estar numa curva estreita e com o excesso de movimento nas calçadas (pedestres, clientes dos bares e pizzarias, motoqueiros dos negócios de delivery, garçons, mecânicos etc.), a sensação é de uma eterna bagunça. Diria bagunça festiva. Muitas vezes, é até difícil caminhar ou andar de carro por ali sem trombar com os infinitos obstáculos. Daí conferi o apelido de “Terra de Ninguém” para esse pedaço caótico do meu novo bairro.
Entre os estabelecimentos da “Terra de Ninguém”, posso citar o Chimichurri Parrilla (churrascaria argentina de excelente nível), a Pompeia Pizzaria (melhor pizza delivery da região), a Diavola Pizzeria (pizza superestimada) e o próprio Café Santa Thereza. Isso num lado da via. Do outro lado, estão o Al Capizza (adoro seus calzones), o Geni Bar (nunca fui, mas parece bem animado) e o China in Box (rede que nunca decepciona quando a fome bate). Acredite se quiser, mas esse mundaréu de estabelecimentos fica em um trecho que deve ter menos de 80 metros de comprimento. Incrível!
Por causa das delícias gastronômicas da Alfonso Bovero, comecei a frequentar com alguma assiduidade o Chimichurri Parrilla (“Olé, olé, olé/Olé, olé, olé/Olé, olé, olá/Cada día te quiero más/Soy argentino/Es un sentimiento/No puedo parar”) e a Pompeia Pizzaria (“Jammo, jammo/'Ncoppa jammo ja'/Jammo, jammo/'Ncoppa jammo ja'/Funiculì, funiculà/Funiculì, funiculà/'Ncoppa jammo ja'/Funiculì, funiculà”). Afinal, numa casa ítalo-portenha, não dá para viver sem pizza nem parrilla, né?
Por sua vez, o Café Santa Thereza era ignorado solenemente por minha pessoa. Qual o motivo desse desprezo inicial? Talvez seu tamanho diminuto não combinasse com os meus passos sempre acelerados, coisa de um paulistano típico. Com poucos metros quadrados, só duas mesas (bem apertadas) na parte interna e alguns bancos no lado de fora, ele simplesmente demorou alguns meses para entrar no meu radar gustativo.
A questão é que, num sábado à tarde de novembro, passei na “Terra de Ninguém” com Mara, minha melhor amiga (beijo, Maricota). Ela tinha acabado de sair de sua aula de dança do ventre na Dança & Expressão e estava morrendo de fome. Para ser sincero, eu também estava querendo comer algo. Uma vez taurino, sempre taurino, já dizia o velho hino clubístico do zodíaco. A ideia era irmos até algum lugar ali perto para forrar o estômago, talvez uma padaria (Delícias de Perdizes) ou uma pastelaria (Marquesa Brasileira).

Ao passarmos pelo Café Santa Thereza, entretanto, fomos impactados por uma placa na calçada que anunciava “empanadas assadas na hora”. Olhamos um para o outro como se disséssemos: que ótima ideia! O horário também ajudava. Era por volta das 16 horas. Naquele instante, seria difícil encontrarmos um restaurante aberto. Normalmente, no meião da tarde, o almoço já foi encerrado e o jantar ainda não começou a ser preparado. E há ainda quem diga que São Paulo é uma cidade que não para. Sabe de nada, inocente!
O problema é que o estabelecimento das “empanadas assadas na hora” também estava fechando. Para nossa surpresa, quando nos viu se aproximando, o dono da cafeteria não fechou a cara. Ele abriu um sorrisão e disfarçou que estava se preparando para ir embora. Ainda perguntamos se não estávamos atrapalhando, e ele respondeu com enorme franqueza: “Até estava indo embora, mas será um prazer atender vocês”. Na hora, já o adoramos. Essa sensação de alegria e bem-estar só aumentou quando as empanadas vieram. Por Dios, que ricas! Mara pediu uma de shimeji e eu, uma de costela. Em seguida, dividimos uma de pernil. Não soubemos qual estava melhor. Não estou exagerando em dizer que aquelas foram as melhores empanadas que comi no Brasil. Elas estão à altura das mais saborosas que provei em Buenos Aires e em Montevidéu.
Curiosamente, muitos brasileiros não conhecem a história desse quitute (beijão, Ana!). As empanadas são salgados tipicamente espanhóis. Feitas com massa de farinha (ou milho), elas são recheadas com carne, legumes, queijos, embutidos e outros ingredientes. São geralmente assadas, mas há opções fritas. Com a colonização da Espanha na América Latina, muitos países do nosso continente as adotaram como símbolo gastronômico.
Por exemplo, é comum a rivalidade entre argentinos e uruguaios e entre colombianos e venezuelanos sobre quem faz as melhores empanadas. Na própria Argentina, há uma intensa rixa regional. Salta, Tucumán, San Juan e Mendoza disputam tal primazia. Até hoje não sei as diferenças entre as salteñas, as tucumanas, as mendocinas e as sanjuaninas, mas isso é conversa para outro post da coluna Gastronomia. Confesso que as minhas favoritas são as de outra nação, a Bolívia. Adoro os salgados bolivianos (chamados por eles de salteñas).

Como a presença da colônia espanhola não foi tão acentuada no Brasil como nos países vizinhos, infelizmente, não temos a tradição de comer cotidianamente as empanadas. Só adquiri esse hábito na minha última jornada portenha. Em dois anos vivendo na capital argentina, não devo ter ficado uma semana sem comê-las. Inclusive, em Buenos Aires, elas são vendidas em lugares próprios (que ficam abertos da manhã até a madrugada) e todas as pizzarias as comercializam. De certa maneira, trouxe de volta para São Paulo essa rotina. E como foi bom ter encontrado um local paulistano que produzisse esses salgados com excelente qualidade!
O mais legal, para ser bem sincero com os leitores do Bonas Histórias, não foi a dupla deliciosa de empanadas que provamos no Café Santa Thereza no fim do ano passado. O que nos deixou verdadeiramente encantados foi a simpatia do Seu João, o proprietário. Enquanto esperávamos os quitutes serem assados, ele ficou conversando conosco no banquinho no lado de fora do estabelecimento. Quando estudávamos as outras opções do cardápio, comentamos despretensiosamente que não sabíamos o que era um alho negro, um dos recheios do sofioli. Sem pensar duas vezes, Seu João voltou para o interior da cafeteria, abriu a geladeira e trouxe uma colher do tal alho para que provássemos. E ainda explicou o que era, como era cultivado e o efeito daquele item em suas massas. Foi aí que descobrimos que, além de tocar sozinho o minúsculo café, ele produzia em casa boa parte dos itens que vendia ali. Impossível não gostar de um cara assim e não querer provar seus pratos feitos com tanto capricho.
A partir daí, ir ao Café Santa Thereza se tornou um programa quase que obrigatório para mim. Vou lá tanto sozinho quanto com os amigos, seja durante a semana, seja aos finais de semana. Na minha segunda visita à casa, fui com Mara (sempre ela!), minha irmã Marcela e Enzo, amigo de longa data e um dos caras mais engraçados que conheço. Era uma sexta-feira à noite. Além das empanadas, a atração foi provar as taças de vinho sugeridas pelo Seu João. Para a nossa sorte, havia uma promoção naquela semana do tipo pague um e leve dois para determinados rótulos. É claro que aproveitamos. Dessa vez, sentamos nas mesas internas. Como estávamos em quatro pessoas, ocupamos a cafeteria inteira. Os visitantes que vieram depois ficaram na calçada e nos bancos do lado de fora, o que potencializou, claro, a confusão da “Terra de Ninguém”.
O clima do lugar é de enorme descontração. A sensação é que quase todos os clientes conhecem o proprietário e ele sabe o nome da maioria dos visitantes. Por causa do aperto, é normal as diferentes conversas serem canalizadas numa só. Por exemplo, a prosa com Mara, Marcela e Enzo naquela sexta se unificou com a de duas gaúchas que estavam no lado de fora. Outra impressão que tenho é que uma das graças do lugar é justamente prosear com o Seu João. Ele é um cara alegre, bom de papo e apaixonado por culinária. Quando vou sozinho, me divirto em jogar conversa fora com ele. E vejo muitos clientes fazendo a mesma coisa. O dono do lugar, acredite se quiser, é um dos atrativos da cafeteria.

Além das empanadas (já provei todos os sabores e a de carne picante é a minha favorita), adorei o choripan com queijo (combinação que, podem acreditar, não é tão usual na Argentina). É verdade que ele não está à altura dos lanches de chorizo com que me deliciava na capital hermana, mas serve pra matar as saudades do quitute futebolístico de “La ciudad de la fúria”. Nesse sentido, o choripan do vizinho Chimichurri Parrilla me pareceu ligeiramente mais interessante (e maior). Porém, como a empanada do Café Santa Thereza é muuuito melhor, não tenho dúvida de aonde ir quando a fome bate.
O sentimento é de que tudo o que é servido ali é delicioso. E que o proprietário nunca está mal-humorado. Sempre atendendo o público com sorriso e disposto a bater papo, Seu João é quase uma personalidade da Alfonso Bovero (e de Perdizes). Na minha terceira visita ao estabelecimento, outra vez com Maroquinha, compramos os sofiolis de brie com alho negro para levar para casa. Aí, no final de semana seguinte, os preparamos no apartamento da Marcela com molho branco. Santo Deus, que delícia. Sabe aquela massa caseira com gosto marcante que derrete na boca? Pois este é o sofioli do Santa Thereza. Uma porção dá tranquilamente para quatro ou cinco comensais.
Conversando depois com Seu João, conheci a história de seu estabelecimento. O lugar surgiu em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo, em dezembro de 2018. Naquele momento, ele se chamava Mercearia Santa Thereza. A proposta era servir café e vender queijos, produtos em compota e massas frescas feitas pelo proprietário. Rapidamente, a simpatia do Seu João e o sabor das massas conquistaram o público. Como muita gente pedia para comer no local, passou-se a servir os pratos da culinária italiana na própria mercearia. Os destaques do cardápio eram os sofiolis e a lasanha de banana com salame. Com a chegada da pandemia da Covid-19, o atendimento das refeições foi interrompido. Assim, a Mercearia Santa Thereza foi obrigada a voltar à dinâmica original – venda das massas congeladas para serem consumidas nas residências dos clientes.
Em 2021, veio a maior mudança. Seu João e a esposa, uma paulistana que não queria seguir vivendo em Santa Bárbara, se mudaram para a capital de São Paulo. O apartamento deles ficava/fica num prédio baixo da Avenida Professor Alfonso Bovero. E o que o casal poderia fazer na Selva de Pedra para ganhar dinheiro, hein? Felizmente, a ideia foi reviver os encantos e as delícias da Mercearia Santa Thereza, agora em plena metrópole paulista.

Cozinheiro de mão cheia, Seu João achou um pequeno espaço perto de sua casa e passou a oferecer o mesmíssimo cardápio do interior do estado: café, queijos, produtos em conserva, massas congeladas e muita, muita simpatia. Dessa forma, ressurgiu em Perdizes (ou na Pompeia ou no Sumaré, como queiram), em outubro de 2021, o estabelecimento que encantou os barbarenses num passado recente. Através de um cálculo rápido (no qual usei os dedos da mão porque sou péssimo em matemática), descobri que a versão paulistana desta casa está comemorando agora o quinto aniversário. Parabéns pela meia década de vida!
Com o passar dos anos, o menu foi sendo adaptado. Os queijos deram lugar às empanadas e aos lanches. Surgiram os bolos gelados e os vinhos. Alguns itens foram acrescidos ao cardápio, como as esfihas, para depois serem descartados. Sinto que a presença do Chimichurri Parrilla ali ao lado trouxe ares argentinos para a culinária italiana da Mercearia Santa Thereza. Por falar no termo mercearia, em março de 2026, o estabelecimento passou a se chamar simplesmente Café Santa Thereza. Afinal, há muito tempo ele havia expandido o conceito de mercearia, né? Hoje, para sermos fiéis aos fatos, esse espaço está mais para uma lanchonete ou um bar. Ou seria tudo isso junto? Pode ser.
Seu cardápio possui: café italiano (R$ 16,00), café árabe (R$ 20,00), café expresso (R$ 8,00), cappuccino (R$ 10,00), chocolate quente (R$ 10,00) e pingado (R$ 10,00). Para quem possa ter se assustado com os preços do café italiano e do café árabe, aviso que eles são servidos numa (charmosa) cafeteira e atendem tranquilamente duas pessoas. Há também opções como refrigerantes (R$ 8,00), sucos Del Valle (R$ 12,00), cervejas (R$ 12,00 a long neck e R$ 16,00 a lata), água sem e com gás (R$ 5,00 e R$ 6,00, respectivamente) e soda italiana (R$ 18,00).
De acompanhamento do café, são servidos bolo gelado de coco (R$ 16,00 a fatia), bolo de fubá com goiabada (R$ 10,00 a fatia) e a porção de pão de queijo (trio por R$ 14,00). Já os lanches são o choripan, sanduíche tipicamente argentino feito com linguiça e chimichurri (R$ 32,00), o Pulled Pork, sanduíche de lombo assado e especiarias (R$ 34,00), o Sanduba de Cupim, sanduíche de carne de cupim desfiada (R$ 37,00), e o Ovelha Negra, paleta de cordeiro desfiada (R$ 37,00). O pão anunciado é o italiano, mas sempre me serviram no pão francês mesmo. O acréscimo do queijo para os lanches custa R$ 2,00 e vale muito a pena. Junto com os sandubas, sempre vêm uns molhinhos, que são incríveis! O melhor é, por supuesto, o bom e velho chimichurri.

Já os sabores das empanadas são: carne (R$ 14,00 a unidade), carne picante (R$ 14,00), caprese (R$ 14,00), cebola (R$ 14,00), shimeji (R$ 14,00), frango com catupiry (R$ 14,00), camarão com catupiry (R$ 16,00), pernil (R$ 16,00), costela (R$ 16,00) e Nutella (R$ 16,00). Quando eu disse lá atrás que tinha provado todos os sabores desse quitute, talvez tenha exagerado. Desculpem-me. Nunca provei o de camarão com catupiry (odeio camarão!) nem o de Nutella (nesse caso, foi falta de oportunidade mesmo, já que sou caidinho por doce). Já o restante da lista é muito bom, principalmente os de carne picante, costela, pernil e frango com catupiry. Pode pedir qualquer um sem medo de ser feliz. Tenho certeza de que você vai ficar encantado(a) com a quantidade de recheio, o sabor do tempero das carnes, um dos talentos do Seu João na cozinha, e a textura da massa.
Em relação aos vinhos, o cliente pode pedir a taça da casa (rótulo servido naquele momento pelo estabelecimento ao preço de R$ 18,00 cada taça) ou a garrafa (de preços variados). Há opções nacionais e internacionais. Obviamente que sempre vou de Malbec. É legal dizer que o cliente não precisa ser entendido neste ramo para degustar a carta de Baco. Afinal, Seu João dá sugestões e dicas bastante sensatas e honestas do que comprar e/ou do que consumir. Falo por experiência própria: como não entendo do riscado, sou guiado por suas indicações e sempre saio de lá bastante satisfeito.
Já a oferta de massas congeladas para levar para casa não é tão variada. Na última vez que fui, há coisa de uma semana, tinha sofioli, nhoque e lasanha. O que nunca parece faltar são o sofioli de queijo brie com alho negro e a lasanha de banana com salame, os queridinhos do público. Até onde sei, as opções de recheios são quase sempre diferentonas e sofisticadas: brie com alho negro, gorgonzola com damasco e nozes, caprese, chutney de manga com camembert, filet mignon com gorgonzola, banana com salame, ossobuco com funghi, cordeiro com coalhada de cabra, palmito com alho-poró etc. Como sempre compro os sofiolis (meu favorito é o de filet mignon com gorgonzola), sei de cabeça o preço: R$ 88,00 a porção. Pode parecer caro à primeira vista, já que a embalagem é pequena, mas asseguro que ela serve tranquilamente quatro ou cinco pessoas. Se o seu grupo for composto por trogloditas (abraços, Paulinho e Eduardo), aí a conta cai para dois ou três indivíduos.
Como disse, é o próprio Seu João que faz as massas em sua residência. Portanto, não é força de expressão dizer que esses produtos são caseiros. Ele brinca que não gosta de recheios comuns. “Se querem comer ingredientes normais, comprem em outro lugar”, costuma dizer em tom de chacota. Pior é que faz sentido. No Santa Thereza é possível comprar também os molhos que acompanham as massas (vermelho e branco). Porém, admito que nunca os adquiri. A gente sempre faz em casa essa parte da refeição. Por isso, nem sei o valor. Só reforçando a informação: não é possível consumir os sofiolis, as lasanhas e os nhoques no local. O consumidor compra o produto congelado e o prepara posteriormente em seu lar.

Normalmente, vou ao Café Santa Thereza no meio da tarde, mais ou menos às 16h ou às 16h30, nos dias em que não consegui almoçar. Aí mando ver numa empanada de carne picante e num choripan com queijo. Para acompanhar, a soda italiana cai perfeitamente. O almoço fora de hora costuma custar ao todo entre R$ 60,00 e R$ 70,00, já que não peço sobremesa. Como sou fã dos bolos gelados do Café & Expressão (Carol e Rebeca, topam um bolo molhadinho de coco?!), que fica ali do lado, caminho alguns metros morro acima quando quero um doce.
Na minha opinião, essa cafeteria tem três diferenciais muito claros. Em primeiríssimo lugar, seu atendimento é top, algo digno do Oscar da gastronomia paulistana. Seu João recebe os visitantes com a atenção e a simpatia típicas do interior. Para falar a verdade, os clientes não se sentem na capital paulista. A impressão é que estamos sendo recebidos na casa do dono e não no seu estabelecimento comercial. É incrível isso. Diferentemente do que ocorre nos restaurantes da metrópole cinzenta, no Santa Thereza todo mundo conversa com todo mundo e ninguém recusa um dedo de prosa com Seu João. Não por acaso, a animação é geral.
Em seguida, vem o cardápio diferentão e extremamente delicioso como marca chamativa deste negócio. As empanadas e as massas caseiras são os pontos altos da casa, mas os sanduíches têm seu valor. Tudo ali parece ser muito bem-feito e com enorme capricho. Impossível reclamar da qualidade do que é oferecido. Por fim, a decoração desse pequeno espaço em Perdizes é um charme à parte. Reparo que muita gente para na frente só para curtir as quinquilharias expostas na parede interna do café.
Em relação aos pontos negativos, o conforto (ou a falta de conforto) é um deles. Há momentos em que o aperto e o tamanho diminuto têm seus charmes, principalmente numa refeição a dois num horário fora do rush ou numa parada rápida e solitária para almoçar. Entretanto, quando o lugar está cheio, quando o calorão é forte e/ou quando está chovendo, é impossível ficar tranquilo seja nas mesas internas, seja nos bancos externos. Nessa hora, a pegada rústica causa grande incômodo. Não à toa, não entro ou vou embora rapidamente.

Ainda assim, o que mais gera desconforto em mim é o horário estranho do Café Santa Thereza. Ele só abre das 11h às 19h de terça a sexta-feira. Aos sábados, o funcionamento é ainda mais limitado: das 10h às 15h. Não há operação aos domingos e às segundas-feiras. Como antes ele abria à noite, sinto falta dessa opção para tomar vinho. Mesmo com o horário restrito, muitas vezes a cafeteria nem sequer abre, desrespeitando a dinâmica anunciada. Juro que não sei o motivo disso. Seu João até brinca com a falta de assiduidade, deixando bilhetinhos no mural de aviso: “Abrimos quando chegamos, fechamos quando saímos. Se estiver fechado, ou não chegamos ou já saímos”. Quantas vezes fui lá e bati com a cara na porta fechada. Lamentável.
O dia mais crítico era a quinta-feira, quando o Santa Thereza não abria ou fechava mais cedo. O motivo era a concorrência com o Bistrô Hermínia, chamado inicialmente de Casa Jambalaia, pequeno espaço de eventos inaugurado no final do ano passado pelo Seu João. A nova casa opera somente às quintas-feiras, das 19h às 23h. Entre os pratos que serve, há as massas caseiras feitas pelo proprietário. Porém, é preciso fazer reserva com antecedência para jantar no Bistrô Hermínia. Como não conseguia ficar nos dois lugares ao mesmo tempo, o dono fechava o café para operar o restaurante. Agora há uma moça substituindo Seu João no Santa Thereza em suas ausências (desconfio que seja sua filha ou enteada, mas não tenho certeza).
Essa é a história da pequena portinha na Avenida Professor Alfonso Bovero, 760 que encanta a todos pela simpatia e pela excelência culinária. Juro que precisava compartilhar com os leitores da coluna Gastronomia essa incrível descoberta que fiz no ano passado. Até porque o Bonas Histórias é o espaço do que há de melhor no cenário literário, cultural, artístico, culinário e de entretenimento.
Quer comer uma ótima empanada e provar uma massa realmente marcante? Então, visite Seu João. Se você tiver a sorte de ele estar lá no horário combinado, você terá uma experiência gastronômica surpreendente. Só não vai ficar incomodado com a infraestrutura espartana do Café Santa Thereza nem com o caos da “Terra de Ninguém”, por favor. Por falar nisso, se há um pedaço da cidade de São Paulo em que as pessoas se apropriaram da calçada, é nesse trecho de Perdizes. Mesmo passando nervoso às vezes, principalmente nas voltinhas caninas de fim de tarde com Pescuitto Eny Júnior, não consigo reclamar por muito tempo da confusão generalizada. Que bom seria se vivêssemos numa localidade em que as fachadas ativas funcionassem como na “Terra de Ninguém” e a vida social rolasse com tanta festividade como nas calçadas da Alfonso Bovero, hein? Por isso, não ligo para uma ou outra complicação quando passo ali.
E para você, há empanada melhor do que essa em São Paulo? Quem souber, por favor, me avise. Como disse, as empanadas do Seu João são disparadamente as melhores que provei no Brasil. Por isso, vira e mexe, estou no Café Santa Thereza engordando mais um pouco. Falando nisso, não é que bateu a vontade de uma com um choripan, hein?
Até a próxima, pessoal!
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