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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Livros: Perdido – O sexto romance de George dos Santos Pacheco

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • há 6 minutos
  • 25 min de leitura

Publicado inicialmente em folhetim eletrônico entre 2022 e 2023 e lançado em edição impressa em dezembro de 2024, este thriller policial do escritor de Nova Friburgo é ambientado na virada de 2010 para 2011, período em que a Região Serrana do Rio de Janeiro foi vítima de uma tragédia climática. Conheça os detalhes deste surpreendente trabalho literário de Pacheco, um dos autores fluminenses mais ecléticos e talentosos da atualidade.


O livro Perdido é a décima quarta obra literária e o sexto romance de George dos Santos Pacheco, um dos principais escritores de Nova Friburgo e da Região Serrana do Rio de Janeiro

No começo de abril, conheci um romance policial e um autor nacional que me reacenderam a crença de que a literatura brasileira contemporânea está recheada de grandes talentos e que vai muitíssimo bem. Apenas cabe aos publishers, editores, críticos literários, jornalistas, livreiros e leitores ávidos por novidades garimparem as promessas ficcionais de norte a sul do país. Como diz o velho ditado: só ganha na loteria quem joga. Seguindo tal lógica e adaptando-a para o mercado editorial, só descobre as pepitas literárias mais valiosas aqueles que desbravam as lavras das estantes das nossas livrarias.


Antes que minhas divagações assustem as almas mais apressadas, informo que a obra que me encantou no mês passado foi “Perdido” (Clube de Autores), 14º título literário e sexto romance de George dos Santos Pacheco. Admito que, até então, não conhecia o escritor friburguense de 44 anos que esbanja maturidade e versatilidade. Gostei tanto desta leitura que resolvi analisá-la hoje na coluna Livros – Crítica Literária. Este post é, portanto, uma espécie de raio-X de tudo aquilo que curti nesta narrativa ficcional surpreendente e inventiva. Se você é como eu, fanzaço dos thrillers criminais, aconselho a ficar de olho no trabalho de altíssima qualidade de Pacheco.


Antes de falar propriamente de “Perdido” e de seu autor, temas centrais desta nova publicação do Bonas Histórias, acho que vale a pena dar uma explicação singela sobre as mais significativas descobertas recentes que fiz no campo ficcional. Porque uma das partes mais legais de atuar como crítico literário é a oportunidade de conferir, antes do grande público, os melhores artistas das letras do Brasil (e das nações lusófonas). Como eu curto isso, senhoras e senhores!


Nos quase 12 anos alimentando o blog que vocês estão acessando agora, tive o privilégio de ler muitos ficcionistas competentes. Em alguns casos, antes mesmo de suas obras entrarem nos radares das principais editoras comerciais, da imprensa nacional e das grandes redes de livrarias, eu já vibrava com o conteúdo de suas páginas. Talvez eu seja como os olheiros futebolísticos que se gabam de ter visto os craques da Seleção Brasileira (na época em que ela tinha craques, claro!) desde os tempos em que não tinham alcançado a fama. Como não faço distinção entre títulos independentes e lançamentos dos grandes selos, vira e mexe comento no blog livros mais autorais que oferecem excelentes experiências literárias.


Para ninguém dizer que estou exagerando, posso nomear algumas autopublicações e publicações de pequenas editoras que comentei empolgado nos últimos sete anos. A coluna Livros – Crítica Literária é prova disso. Aí vão alguns exemplos: “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), drama histórico da paulistana Fernanda Caleffi Barbetta, em 2025; “Duas Guerras” (Publicação independente), novela distópica da portuguesa Graziella Moraes, em 2024; “O Homem que Ria Demais” (Páginas Editora), thriller fantástico do mineiro Magela de Faria, em 2023; “Refém da Memória” (Publicação Independente), suspense psicológico do paulistano Helio Martins Jr., e “A Verdade e A Vertigem” (Emporium), coletânea de microcontos do(a) português(a) José Vieira/Tereza Vieira Lobo, em 2022.


Thriller policial ambientado na maior tragédia climática da Região Serrana do Rio de Janeiro, Perdido é o sexto romance de George dos Santos Pacheco, um dos talentos da literatura brasileira contemporânea

Sigo com minha lista que parece não ter fim: “Maria Quitéria – A Soldada que Conquistou o Império” (Poligrafia), romance histórico da gaúcha Rosa Symanski, “A Contrapartida” (Valentina), drama aterrorizante do paulistano Uranio Bonoldi, e “Andante das Gerais” (Páginas Editora), coleção de crônicas das viagens do mineiro Roberto Marcio, em 2021; “A Peste das Batatas” (Pomelo), distopia divertidíssima do paulistano Paulo Sousa, e “Tijucamérica” (Paralela), aventura sobrenatural e futebolística do carioquíssimo José Trajano, em 2020; e “Sessão” (LunaPARQUE), maluquice experimental do também carioca Roy David Frankel.


Curiosamente, a maioria desses autores que acabei de citar se tornou meus amigos ou colegas de profissão. Falo com boa parte deles até hoje e sigo acompanhando com empolgação suas novas publicações. Muitos ainda me agradecem pelas críticas elogiosas que fiz no Bonas Histórias há tanto tempo. Mal sabem que somos nós, os apreciadores da boa literatura brasileira, que devemos agradecê-los pelo empenho e pela coragem de seguirem na produção das narrativas ficcionais, mesmo com as dificuldades inerentes de se fazer arte em nosso país. O mais legal é que, com alguns desses escritores, trabalhei depois em outros projetos literários em editoras comerciais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Se o mundo é pequeno, senhoras e senhores, aviso que o mercado editorial nacional é minúsculo.


Mas o porquê estou gastando linhas e mais linhas do meu texto para falar de livros do passado, hein? Porque agora posso dizer que, em 2026, a minha grata revelação é “Perdido”. Adorei esse romance policial, que tem tintas peculiares e elementos que subvertem a lógica da narrativa ficcional. Provavelmente o público nacional ainda não conhece em detalhes a excelência do trabalho literário de George dos Santos Pacheco, um dos escritores mais conceituados da Serra Fluminense. Contudo, tenho a certeza de que ele tem potencial para voar para fora de sua região e conquistar admiradores nos quatro cantos do país.


Nascido em outubro de 1981, em Nova Friburgo, George é formado em Pedagogia, deu aulas em cursos preparatórios por alguns anos e atualmente trabalha como funcionário público em sua cidade natal. Até se tornar escritor, sempre se considerou um leitor mediano. Após o casamento, sob influência da esposa, ela, sim, uma leitora voraz, passou a ler mais e melhor. Porém, foi em 2007 que a vontade de produzir seus próprios textos ganhou intensidade. Ao assistir à entrevista da escritora Sônia Belloto, que lançava “Você Já Pensou Em Escrever Um Livro?” (Fábrica de Textos), sentiu-se encorajado a colocar suas ideias no papel. De maneira autodidata, já que nunca fez cursos de Escrita Criativa, George dos Santos Pacheco se lançou no ofício de escritor. Surgia, assim, um dos principais nomes da literatura friburguense. 


Sua estreia efetiva na literatura ocorreu em 2010, com o lançamento de “O Fantasma do Mare Dei” (Multifoco), romance policial ambientado em um navio de passageiros. Nesse mesmo ano, teve a narrativa curta “Um Assassinato Perfeito" publicada em “Assassinos S/A Vol. II” (Multifoco), antologia com 22 contos de suspense e tramas criminais organizada por Carolina Luz e Amanda Becker.


Autor do romance policial Perdido, George dos Santos Pacheco é um escritor natural de Nova Friburgo, no interior fluminense, que se destaca pela variedade e qualidade de seu portfólio literário

A partir daí, Pacheco mergulhou para valer no universo da produção ficcional, participando de revistas literárias, concursos de Escrita Criativa e eventos de escritores. Para exercitar rotineiramente o processo da escrita, se tornou colunista de vários veículos de imprensa no Rio de Janeiro, como a Revista Êxito Rio Turismo, o jornal A Voz da Serra e o Portal Multiplix, onde já escreve há seis anos. Como um bom cronista, seus textos tratam de temas do cotidiano, com linguagem informal e direta, boas doses de humor e ironia e pegada de crítica social e comportamental. Seus contos continuaram sendo publicados nos mais diferentes lugares. Dois deles, “A Dama da Noite” e “Tarde Demais Para Suzanne”, foram transformados em curtas-metragens.


Em 2015, Pacheco lançou mais dois livros: “Uma Aventura Perigosa” (Clube de Autores), romance tragicômico sobre um funcionário público frustrado, e “Sete – Contos Capitais” (Clube de Autores), coletânea de narrativas curtas sobre cada um dos pecados capitais. No ano seguinte, foi a vez de explorar a literatura infantil com a publicação de “Aventuras de Frog, o Ratinho” (Clube de Autores). Ainda em 2016, o público recebeu “Tarde Demais para Suzanne” (Clube de Autores), outra coleção de contos.


Foi nesta época que George dos Santos Pacheco ingressou na Academia Friburguense de Letras, o que aumentou a visibilidade para seu trabalho literário e a rede de relacionamentos no mercado editorial. Ele fez amizades, por exemplo, com Robério Canto, Tereza Malcher, Alberto Wermelinger, Catherine Beltrão, Ana Braga Asth, Marisa Maia, Francisco Amaral, Luiz Cláudio A. Mendonça e Ordilei Alves. Para potencializar o contato com os leitores, criou também um blog pessoal, em que apresenta alguns de seus textos e o descritivo de suas obras.


Em 2017, Pacheco foi organizador de “Nova Friburgo: Contos, Crônicas e Declarações de Amor” (Clube de Autores), antologia de textos de autores locais que celebrou o aniversário de 200 anos da cidade fluminense. Ainda nesse ano, apresentou mais dois livros autorais: “Pacto” (Clube de Autores), romance do sujeito que faz um delicado acordo com o diabo, e “Domingo Eu Vou Pra Praia” (Clube de Autores), coletânea de crônicas que foi mais tarde adotada como leitura nas escolas friburguenses. “Estamos Ficando Burros” (Clube de Autores), outra antologia de crônicas bem-humoradas, e “O Mundo é Pequeno Demais Para Nós Dois” (Clube de Autores), romance policial, chegaram ao público, respectivamente, em 2019 e 2020.


Com quatro publicações de gêneros distintos, 2022 foi um ano emblemático para o autor de Nova Friburgo. “A Paixão Secreta” (Clube de Autores), coletânea de crônicas, “Recado Poético” (Clube de Autores), antologia poética, “O Fabuloso Dr. Palhares” (Clube de Autores), romance histórico escrito em parceria com Janaína Botelho, e “O Mocinho Morre no Final” (Clube de Autores), coleção de contos, provam que estamos tratando de um escritor extremamente eclético e prolífico.


Perdido é o romance policial de George dos Santos Pacheco que investiga um serial killer que tira o sossego de Nova Friburgo, cidade interiorana do Rio de Janeiro, no verão de 2010/2011

Apesar do portfólio abrangente, acho que dá para dizermos que a especialidade de Pacheco é o romance policial noir. Fã dos suspenses criminais e bastante identificado com o Nouveau Roman, movimento literário francês que rompeu com os padrões estéticos e narrativos das histórias convencionais, o romancista friburguense é admirador da literatura de Agatha Christie, Conan Doyle, Fiódor Dostoiévski, George V. Higgins, Rubem Fonseca, Robert Bloch, Robert Rostand, Stephen King, Tom Clancy e Luiz Alfredo Garcia-Roza.


Publicado em dezembro de 2024, “Perdido” é o sexto romance de George dos Santos Pacheco e sua obra mais recente. O texto desta narrativa levou um ano e meio para ser desenvolvido. Como é sua prática, ele escreve os thrillers policiais capítulo a capítulo. Ou seja, revisa o conteúdo e a ortografia antes de avançar para a próxima seção. No final deste processo, faz ajustes pontuais no material e pode até mudar a ordem dos capítulos. Por isso mesmo, ele conseguiu testar algo novo para seu trabalho: o lançamento de “Perdido” em folhetim eletrônico. Em seu blog, Pacheco disponibilizou para o público a prévia das seções deste romance entre 2022 e 2023. Só depois consolidou a narrativa em livro físico e o lançou pelo Clube de Autores.


Como é típico da maioria das tramas ficcionais e não ficcionais de Pacheco, esse livro é ambientado em Nova Friburgo, cidade da Região Serrana do Rio de Janeiro com aproximadamente 200 mil habitantes. Cercado por montanhas (há picos com mais de 2 mil metros de altitude) e formado por grandes vales no entorno de rios, o município interiorano é alvo de constantes enchentes, principalmente no verão. Por sua vez, as temperaturas amenas, a arquitetura de estilo alpino e as belezas naturais lhe renderam o apelido de “Suíça Brasileira”. Não por acaso, é a rota obrigatória do turismo de inverno para os cariocas. Em uma associação simplista, Nova Friburgo é a versão fluminense de Campos do Jordão, em São Paulo, e de Gramado, no Rio Grande do Sul.


Aproveitando esse cenário idílico, George dos Santos Pacheco construiu “Perdido” subvertendo a lógica da ambientação convencional de sua cidade natal. Este romance policial está ancorado em um episódio real que até hoje, 15 anos mais tarde, ainda é traumático para os friburguenses. Só não conto o que foi (será que vocês se lembram?) para não estragar uma das melhores surpresas deste livro. Por isso, essa narrativa pode ser encarada como uma espécie de homenagem tanto para as vítimas quanto para os sobreviventes da tragédia climática na Serra Fluminense em janeiro de 2011.


Esse episódio é um dos mais trágicos da história recente do Brasil. Coloco-o ao lado dos rompimentos das barragens da Vale em Mariana em novembro de 2015 e em Brumadinho em janeiro de 2019; da enchente colossal de Porto Alegre (e em boa parte do Rio Grande do Sul) em abril e maio de 2024; no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em setembro de 2018; do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, no interior gaúcho, em janeiro de 2013; da queda da aeronave da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em julho de 2007; e dos deslizamentos de terra no Litoral Norte paulista, em fevereiro de 2023.


Romance policial de George dos Santos Pacheco que é ambientado em Nova Friburgo, Perdido foi publicado originalmente em folhetim eletrônico entre 2022 e 2023 e lançado em edição impressa em dezembro de 2024 pelo Clube de Autores

O mais interessante é que Pacheco utiliza-se de um episódio marcante de Nova Friburgo sem ser oportunista nem indelicado. Pelo contrário: ele usa a tragédia com enorme sensibilidade. A partir desse momento triste e real de sua cidade, o romancista desenvolveu uma trama ficcional eletrizante e com uma ambientação sombria. Impossível não sentir a tensão no ar em cada linha desta aventura policial.


O enredo de “Perdido” começa em dezembro de 2010. No clima de confraternização das festas de fim de ano, X, um rapaz solitário e mulherengo de 33 anos, mantém sua rotina em Nova Friburgo. Sim, é isso mesmo o que você leu, caros leitores da coluna Livros – Crítica Literária. O protagonista deste romance não tem um nome convencional nem mesmo sobrenome. Ele é chamado pelas demais figuras ficcionais por apenas uma letra, que, na matemática, assume a função de incógnita e possui valor desconhecido. Sejam bem-vindos às surpresas da literatura de George dos Santos Pacheco, senhoras e senhores!


Quando não está trabalhando na imobiliária do centro da cidade serrana, X está correndo atrás de rabos de saia. Aí, nenhuma mulher bonita passa despercebida por seu radar libidinoso. Nenhuma! Nem mesmo Heloísa, a jovem e charmosa esposa do patrão, Lorena, a simpática colega de profissão, e Gisele, a irmã-adotiva de curvas generosas, escapam de sua incansável volúpia. Quando não consegue uma boa companhia feminina para levar para a cama, ele contrata os serviços de uma profissional que o atende regularmente há alguns anos. De tão próximos, o rapaz considera a meretriz uma espécie de “namorada postiça”. Irônico, né?


O cotidiano divertido da personagem principal de “Perdido” se transforma numa manhã aparentemente banal. X acorda ainda de madrugada com a cantoria insistente de uma vizinha francesa. Como as ninfas mitológicas que seduziam os marinheiros em alto-mar, a gringa hipnotiza o corretor imobiliário pelo canto afinadíssimo. Ao espiar pela janela, ele encontra a belíssima mulher do prédio da frente totalmente nua, perambulando na varanda. Ou seja, além de ter uma voz maravilhosa, ela é linda. O que mais um viciado em sexo poderia desejar ao despertar, hein?!


Empolgado com o que considera uma “sorte grande”, X não pensa duas vezes: tira fotos pelo celular da francesa e envia para Carlos Roberto, seu melhor amigo e colega na imobiliária. Beto, como é chamado carinhosamente por todos, tem um estilo de vida mais tranquilo e regrado. Casado com Susana e extremamente fiel à esposa, ele é o exemplo máximo de retidão moral de Nova Friburgo. De tão certinho e obediente à mulher, acaba sendo alvo das brincadeiras zombeteiras de X, que o chama de Beto Já-Pra-Casa. O apelido é uma clara referência a sua mania de atender sem pestanejar aos pedidos (ou seriam ordens?!) da companheira. Basta uma mensagem de Susana para ele largar os amigos e correr para a residência.


Com uma ambientação noir e muitas reviravoltas na trama, Perdido é um dos principais romances policiais de George dos Santos Pacheco, escritor friburguense de 44 anos

Como era esperado, Beto se assusta com o conteúdo vulgar das imagens recebidas e telefona para o solteirão convicto. Vale lembrar que, em meio a tal bafafá, o sol ainda não havia despertado no alto da Serra Fluminense. Sem se importar com a bronca do melhor amigo, X reafirma radiante o que está vendo e avisa que já está de saída. Irá visitar a vizinha imediatamente. É a sua chance de fazer sexo com aquele mulherão. Mesmo sob os crescentes protestos de Beto Já-Pra-Casa, o protagonista corre para o outro lado da rua, ludibria o porteiro do edifício da francesa e sobe ao apartamento da moça. Só aí descobre o nome dela: Aimée. Não é preciso ser um gênio para intuir que o que começa mal irá terminar mal.


A expectativa de X é, obviamente, atirar o charme de sem-vergonha profissional em Aimée e seduzi-la num estalar de dedos. A partir daí, conseguirá levar sem demora a anfitriã para a cama. Na sua fértil (e superestimada) imaginação, aquele início de manhã será regado por uma transa selvagem por todos os cômodos do apê da vizinha. Infelizmente, a realidade é uma exterminadora de sonhos libidinosos, até mesmo para as melhores personagens ficcionais da literatura brasileira contemporânea.


Ao entrar no lar da linda gringa (não queira saber como ele fez isso!), X descobre que Aimée já está acompanhada. No caso, muito bem acompanhada. Pelos gemidos que vêm do quarto dela, ele não foi o primeiro a ter a ideia de seduzi-la no alvorecer friburguense. Decepcionado com “o grande azar” (ou com a perda do timing), o corretor imobiliário retorna para casa com o rabinho entre as pernas. De tão frustrado que fica, não tem a coragem de anunciar para Beto o fracasso de sua missão.


Curiosamente, X se encontra muito rapidamente com o melhor amigo naquele dia na imobiliária. Na pressa do expediente, a dupla não consegue trocar mais do que meia dúzia de palavras, o que agrada ao solteirão envergonhado. Pior do que a fracassada experiência sexual matutina é ter que dividir as frustrações íntimas com um sujeito casado e que obedece cegamente à esposa. Por isso mesmo, a personagem principal de “Perdido” até cogita mentir descaradamente para Beto. E se ele falasse que transou loucamente com a francesa, hein?


Em um dia com tantas surpresas (não vou contar todas para não estragar a graça dos capítulos iniciais do romance), a cereja do bolo ficou reservada para o finalzinho de tarde, início da noite. Ao retornar após o expediente, X nota uma movimentação estranha no prédio da frente da sua residência. A polícia está no local e há uma ambulância com as sirenes ligadas. Ao perguntar para os vizinhos o que está rolando, descobre que uma moradora foi assassinada. Quem seria a vítima dessa tragédia pré-natalina? A resposta não demora para aparecer e é aterradora: a jovem francesa.


Publicado em dezembro de 2024 pelo Clube de Autores, Perdido é o thriller criminal de George dos Santos Pacheco protagonizado por X, um corretor imobiliário de Nova Friburgo incorrigivelmente mulherengo

X sente um frio na espinha. Se o mulherengo incorrigível esteve no apartamento de Aimée na manhã do assassinato, automaticamente se transforma em um dos principais suspeitos. Isto é, se a polícia descobrir que ele esteve por lá. Será que, além de Beto Já-Pra-Casa, alguém está ciente da sua “quase invasão” ao apê da vizinha falecida?!


Esse é só o início de uma série de episódios estranhos que vão inquietar X. Os outros episódios aparentemente inexplicáveis são: o bizarro assalto ao banco da cidade – o ladrão levou apenas um punhado de notas de um dos caixas da agência; o furto do carro muitíssimo velho de Emílio Cariello, amigo de X que é proprietário de um hotel tradicional no centro do município – o veículo foi depois abandonado e recuperado pela polícia; um atropelamento fatal – com jeito de ação premeditada; e o ateamento de fogo em um mendigo – a suspeita é de diversão sádica do criminoso.


X descobre, por acaso, que essas são peças de um mesmo quebra-cabeça investigativo. Como só ele notou a ligação entre os crimes tão variados e desconectados, é o único capaz de descobrir a identidade do serial killer que está sorrateiramente aprontando em Nova Friburgo na virada de 2010 para 2011.


O problema é que o criminoso fica sabendo que X conseguiu relacionar os diferentes fatos, graças ao seu único movimento falho. Assim, coloca o protagonista de Pacheco na lista de próximos alvos. Se o corretor imobiliário morrer, ninguém saberá da ligação entre os vários crimes e, por consequência, a polícia não chegará ao culpado.


Este é o conflito que faz a roda da narrativa ficcional girar a todo vapor. Por um lado, X tenta desvendar a identidade do serial killer, enquanto precisa provar sua inocência no assassinato de Aimée. Por outro lado, o criminoso número 1 da Serra Fluminense quer eliminar seu maior oponente o quanto antes, evitando maiores riscos. Quem sairá vitorioso nesse embate perigoso, imprevisível e emocionante, hein?!


“Perdido” é um romance policial de tamanho mediano. Suas 280 páginas estão divididas em 17 capítulos. Mantendo a organização concebida pelo autor, as seções da obra são: Exórdio, Epílogo, 12 partes numeradas em ordem decrescente (e em numeração romana), dois Prólogos e Catástase. Há ainda o prefácio de Robério Canto, escritor, ex-presidente da Academia Friburguense de Letras e cronista do jornal A Voz da Serra.


Sexto romance de George dos Santos Pacheco, escritor fluminense especializado em suspenses policiais, “Perdido” (Clube de Autores) é o thriller psicológico ambientado em Nova Friburgo, na virada de 2010 para 2011

Levei entre cinco e seis horas para percorrer integralmente o conteúdo deste thriller de George dos Santos Pacheco no primeiro fim de semana de abril. Basicamente, o li em duas sessões: metade da obra no sábado à tarde e a outra metade no domingo de manhã. Confesso que só não fui de ponta a ponta num único tiro porque precisei sair na noite de sábado – cineminha básico seguido de La Perla Caribe Na Rua, meu restaurante venezuelano favorito. Se não fosse o rolê com Bruxinha, certamente teria ido da capa à quarta capa do livro em apenas um dia.


O primeiro elogio que tenho que fazer a “Perdido” é que sua trama está redonda, redondinha do início ao fim. Se porventura alguma peça do quebra-cabeça narrativo parecer momentaneamente fora do lugar ou até mesmo esquisita, espere o avançar das páginas. Não sejam ansiosos, por favor! O que soa estranho ou falho logo de cara se encaixará perfeitamente no conjunto ficcional mais à frente, potencializando a experiência literária. Falo isso por ter vivenciado exatamente essa sensação. Alguns pontos do enredo me soaram inicialmente inverossímeis. Porém, a própria história se encarregou de provar que quem estava equivocado era eu.


Talvez o melhor exemplo seja a cena inicial do misterioso criminoso no banco de Nova Friburgo. Por que alguém se sujeitaria ao enorme risco de assaltar uma agência bancária para pegar somente um punhado de dinheiro que cabe num envelope?! Vamos combinar que não faz o menor sentido. Se é para ludibriar a polícia e enfrentar a segurança de uma instituição financeira, que seja para ficar milionário! Minha indignação com essa passagem só terminou no meio da publicação. Foi aí que entendi o motivo verdadeiro do assalto tão peculiar e compreendi que não havia nada de equivocado na narrativa ficcional.


Outra situação que me surpreendeu positivamente foi a estrutura do romance. Confesso que, durante minha leitura inicial, não entendi a razão da nomeação dos capítulos vir em ordem decrescente. Afinal, “Perdido” começa pelo Epílogo e termina no Prólogo. O capítulo XII vem antes do XI, que precede o X (não estou falando agora do ordinário protagonista e, sim, do numeral ordinal). A sequência do livro segue essa lógica: IX, VIII, VII, VI, V, IV, III, II e I.


Ao notar essa dinâmica pitoresca, minha expectativa era que a trama também estivesse na sequência invertida. Em outras palavras, ao invés de caminhar para frente, o enredo de Pacheco caminharia para trás. Não é preciso dizer que se trataria de uma inovação digna das novelas e romances mais disruptivos da literatura internacional. De cabeça, me lembro de alguns títulos que inverteram preceitos básicos dos componentes da narrativa ficcional: “A Visita Cruel do Tempo” (Intrínseca), de Jennifer Egan, “Se um Viajante numa Noite de Inverno” (Planeta DeAgostini), de Italo Calvino, e “Bonsai” (Cosac Naify), de Alejandro Zambra.


Romance que mescla personagens redondas, ambientação impecável, enredo surpreendente e altas doses de tragicomédia, Perdido é um dos livros ficcionais mais interessantes de George dos Santos Pacheco

Porém, para minha frustração, a narrativa de “Perdido” é apresentada mais ou menos no tempo cronológico. Por que, então, a inversão da numeração dos capítulos, hein?! Só entendi a lógica da estrutura atípica, uma espécie de contagem regressiva, na última página. Aí a decepção deu lugar novamente à empolgação. Quando a ficha caiu, a escolha do autor não só fez todo o sentido como se mostrou perfeita. Adoro conhecer romancistas que são mais sagazes do que os leitores, nos derrubando e nos dobrando de forma tão inteligente e sem pressa.


Por isso, não estou exagerando ao afirmar que esse livro é espetacular. Ele é capaz de agradar ao público mais exigente de diferentes formas. Nota-se que George dos Santos Pacheco tem larga experiência na produção ficcional e vocação para a contação de boas histórias. É inegável que estamos diante de uma publicação madura, bastante impactante e, por que não, original. Se você acha que romance policial é tudo igual, então precisa ler “Perdido”, além de selecionar melhor suas leituras e estudar Tzvetan Todorov – “As Estruturas Narrativas” (Perspectiva) é um ensaio literário brilhante.


Juro que fico radiante ao conhecer as boas figuras da literatura brasileira contemporânea e as nuances dos suspenses criminais. Provavelmente o último thriller policial nacional que havia me surpreendido dessa forma foi "Estado Vegetativo" (Callis), uma das melhores obras de Tiago Novaes, escritor, tradutor e professor de Escrita Criativa. E olha que, por ser fã desse gênero, leio vários títulos dessa prateleira e os analiso com regularidade na coluna Livros – Crítica Literária.


Diante dessas comparações, o mérito de Pacheco é maior ainda quando sabemos que suas obras são lançadas pelo Clube de Autores, uma plataforma de autopublicação e de publicação independente sob demanda. Nesse ambiente, o autor praticamente faz tudo sozinho: edição, revisão, diagramação, projeto gráfico etc. Não é preciso dizer que, por consequência, a qualidade desses livros não é normalmente elevada. Principalmente quando os associamos à excelência das editoras comerciais, que oferecem aos escritores ótimos e abrangentes serviços editoriais.


Ainda assim, “Perdido” não fica aquém de nenhum thriller ficcional lançado pelos grandes selos brasileiros recentemente. Por isso que eu compartilho com vocês a admiração pela enorme competência deste romancista fluminense. Se apresenta um título independente com tal maestria, fico imaginando o que ele não faria se tivesse o suporte de uma boa casa editorial.


Sexto romance de George dos Santos Pacheco, escritor fluminense especializado em suspenses policiais, “Perdido” (Clube de Autores) é o thriller psicológico ambientado em Nova Friburgo, na virada de 2010 para 2011

Outro aspecto que adorei nesta publicação de George Pacheco dos Santos foi a mistura de humor, mistério investigativo, drama e erotismo. Em suma, não estamos falando aqui de um romance policial convencional com atmosfera noir. Há também doses elevadas de ironia, suspense psicológico, crítica social, sarcasmo, ação eletrizante, sensualidade, crônica local e divagação onírica. Tudo em meio a uma busca criminal que adquire tons de caçada dupla: o anti-herói tenta pegar o vilão, que, por sua vez, quer eliminar o protagonista. Na maioria das vezes, os diferentes ingredientes narrativos vêm juntos, provocando um mix de reação nos leitores. Ao mesmo tempo em que queremos rir de algo, ficamos tensos, indignados, curiosos e excitados.


De certa forma, “Perdido” dialoga intimamente com “Pornopopéia” (Objetiva), clássico contemporâneo de Reinaldo Moraes, “Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras), romance mais polêmico e famoso de Philip Roth, e “O Silêncio da Chuva” (Companhia das Letras), estreia de Luiz Alfredo Garcia-Roza nas tramas policiais. E, por supuesto, com a literatura de Rubem Fonseca, que dispensa apresentações. Não falo isso como demérito criativo ao trabalho de Pacheco e, sim, como ênfase à sua qualidade ficcional. Até porque, quem curte Teoria Literária, sabe que a intertextualidade (ou textualidade) é um dos elementos da composição ficcional.


Não faltam excelentes cenas nesse livro. Dá para citar o assalto ao banco; a visita matutina da personagem principal ao apartamento de Aimée; o choque de X ao avistar o melhor amigo em uma situação pra lá de suspeita na rua (essa passagem é tão boa que preferi omiti-la em minha descrição do enredo para não estragar a surpresa dos leitores); a primeira noite de Gisele no apartamento do protagonista (não nos esquecemos que ela é a irmã adotiva dele!); a surpresa do policial ao descobrir, na delegacia, o grau de parentesco entre a moça atacada pelo serial killer e X; e, claro, o jantar de Réveillon no Hotel Cariello entre os amigos de longa data. É até difícil dizer qual desses trechos do romance é o melhor.


Além das cenas muito bem construídas, as escolhas do que encenar e do que sumarizar também estão perfeitas, contribuindo para o ótimo ritmo narrativo. Sempre que alguém me pergunta o que eu entendo como ritmo narrativo, digo que é a vontade que temos de seguir com a leitura do livro somada à velocidade do desenrolar da trama. Como não queria largar o texto de “Perdido” de jeito nenhum e sua história caminhou naturalmente bem, dei (leia com a voz de Jorge Perlingeiro, por favor) “nooooota deeeeez” para esse quesito.


Publicado em dezembro de 2024 pelo Clube de Autores, Perdido é o thriller criminal de George dos Santos Pacheco protagonizado por X, um corretor imobiliário de Nova Friburgo incorrigivelmente mulherengo

Um aspecto que ajuda no desenrolar da trama é a qualidade literária das personagens de “Perdido”. Ao mesmo tempo em que são extremamente reais, elas são figuras essencialmente redondas. Em outras palavras, possuem características positivas e negativas simultaneamente. Assim, extermina-se qualquer possibilidade de maniqueísmo do enredo e se potencializa o suspense. Afinal, todos se tornam suspeitos. Todos! Vai me dizer que isso não é espetacular, senhoras e senhores?! Eu adorei.


A prova maior das dualidades entre certo-errado, bom-mau e mocinho-bandido é o narrador-protagonista, que adquire tons de anti-herói e vira, em determinado momento do romance, o principal suspeito dele mesmo. É isso mesmo o que vocês leram, caros leitores do Bonas Histórias! X é tão doido, mas tão doido, que cogita, à la James Sheppard, o narrador de “O Assassinato de Roger Ackroyd” (Globo), a obra mais genial de Agatha Christie, se ele não seria o próprio criminoso a tumultuar Nova Friburgo.  


Vamos combinar que se há algo que George dos Santos Pacheco se mostra mestre é na construção de suas personagens. Elas são extremamente fidedignas, o que confere veracidade e força à trama. Além de X, adorei Beto, Heloísa, Gisele, Emílio e Beatrice. E há algumas figuras reais que entram na história e dão um colorido maior à narrativa. O próprio autor, em uma excelente brincadeira de mistura das realidades ficcionais, aparece numa cena. Sensacional!


Não é preciso dizer que não faltam surpresas e reviravoltas em “Perdido”. Como sempre ocorre nos melhores romances policiais que leio, não acertei a identidade do culpado. Para ser bem franco, passei muuuito longe de acertar. Por falar nisso, o desfecho é sensacional. E não estou falando apenas da revelação do assassino de Aimée (e dos demais crimes de Nova Friburgo). O desenlace tem a ver com um episódio marcante da Região Serrana do Rio de Janeiro que, infelizmente, diante de tantas tragédias dos últimos anos de norte a sul do país, acabou esquecido pelos demais brasileiros (mas segue na memória dos friburguenses). Repito: só não digo exatamente o que é para não estragar a surpresa de quem for ler o livro (e não se lembra dos eventos de 15 anos atrás). Contudo, já adianto que esse fato está intimamente atrelado ao enredo e influencia tanto a ambientação quanto o final do romance.


O texto de “Perdido” está em primeira pessoa. Entretanto, engana-se quem pensa que temos aqui apenas um narrador. O narrador principal é realmente X, que domina os relatos de quase todos os capítulos. Daí sua classificação de narrador-protagonista. A curiosidade é que há outras partes do romance que também estão em primeira pessoa, mas são fruto das vozes de outras personagens. Lembro, por exemplo, dos relatos de Emílio Cariello, um dos melhores amigos de X que vai à delegacia prestar boletim de ocorrência, e do próprio assassino/criminoso, que descreve momentos marcantes de sua rotina recente, como o roubo ao banco e a consulta médica.


Com uma ambientação noir e muitas reviravoltas na trama, Perdido é um dos principais romances policiais de George dos Santos Pacheco, escritor friburguense de 44 anos

Por falar em narrador, adorei as brincadeiras de misturar a realidade (texto normal) e a imaginação (texto em itálico) de X. Confesso que, às vezes, precisei voltar na leitura para entender o que era fato e o que era divagação do protagonista. Por mais que imaginamos que o texto em itálico pode ser oriundo das maluquices do corretor de imóveis mais sem-vergonha de Nova Friburgo, ainda assim caímos na cilada do autor (durante a primeira leitura). Por isso, achei essa confusão na cabeça do leitor MARAVILHOSA! Além de ser corajoso deixar o leitor descobrir sozinho onde está o muro da realidade ficcional, trata-se de um expediente literário dos mais sofisticados. Tá dando para entender o porquê fiquei encantado com esse romance de Pacheco, hein?!


Ainda que fique listando os pontos positivos de “Perdido”, se tivesse que apontar apenas um elemento da narrativa ficcional que se sobressai, diria que é a ambientação. Para ser bem sincero com os leitores da coluna Livros – Crítica Literária, a atmosfera desta obra é uma das melhores que conferi nos últimos anos na literatura brasileira. Não acho que esteja exagerando em classificá-la como sublime!


Em primeiro lugar, realmente me senti percorrendo as ruas de Nova Friburgo entre dezembro de 2010 e janeiro/fevereiro de 2011. Em seguida, a chuva e o clima quente são quase que personagens centrais desta história, contribuindo para a tensão dramática e a atmosfera noir. Além disso, esses componentes dialogam intimamente com o enredo e, o que é mais legal, fazem parte da proposta narrativa/estética do autor (algo que só descobrimos no finalzinho).


Também merece elogio a fina ironia de chamar a cidade serrana do Rio de Janeiro de Suíça Brasileira, tal qual é vendido turisticamente e enaltecido o tempo inteiro pelo narrador-protagonista. Por outro lado, o que se vê na prática é o oposto do que é anunciado. Como um típico município brasileiro (e fluminense), Nova Friburgo revela-se na prática bagunçada, caótica e insalubre. A incompetência estatal, o trânsito irritante, os trambiques nacionais, a violência urbana, o calorão tropical e as enchentes não têm nada, absolutamente nada, a ver com a paz e a calmaria do país no centro da Europa. É hilário verificar a contradição entre discurso e realidade.


Não à toa, “Perdido” é uma das melhores leituras que fiz em 2026. Certamente, estará na minha lista de cinco melhores livros deste primeiro semestre, conforme publicarei na coluna Recomendações no fim de junho, início de julho. O romance policial de George dos Santos Pacheco rivaliza em excelência com “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), thriller macabro de Raphael Montes, “Tripla Espionagem” (Arqueiro), suspense de espionagem de Ken Follett, e “O Silêncio dos Inocentes” (Record), drama psicológico clássico de Thomas Harris. Desde janeiro, esses foram os títulos literários que mais me impressionaram positivamente.


Romance policial de George dos Santos Pacheco que é ambientado em Nova Friburgo, Perdido foi publicado originalmente em folhetim eletrônico entre 2022 e 2023 e lançado em edição impressa em dezembro de 2024 pelo Clube de Autores

Por mais incrível que seja, “Perdido” tem alguns aspectos que me incomodaram um pouco e que preciso compartilhar com vocês. Afinal, as análises do Bonas Histórias não são rasgação de seda. Apresentamos os dois lados da moeda das obras investigadas. Depois dos pontos positivos, tenho a obrigação de expor os aspectos da narrativa que poderiam ter sido desenvolvidos com mais cuidado ou de outra maneira.


Talvez a maior falha deste livro, na minha humilde visão, seja sua linguagem, por vezes, petulante, meio afetada. É como se o romancista fluminense tivesse a necessidade de sempre deixar uma palavra difícil ou rebuscada em cada frase, em cada parágrafo. Juro que não gostei disso. Escrever difícil não é sinônimo de habilidade de comunicação, assim como a procura por sinônimos não deve tornar o texto desnecessariamente pomposo. Para não reclamarem que estou exagerando, segue, abaixo, uma evidência do que estou relatando:


“Beto calou por segundos, talvez conferindo se a mulher não estava realmente ao seu lado, assim como eu havia sugerido – e subitamente, também eu fui tomado pela expectativa tão extraordinária. Apostaria na loteria caso tivesse acertado, apesar de não ser tão difícil assim de concluir. Beto Já-Pra-Casa. A alcunha insultuosa de nosso preclaro e impoluto personagem surgiu quando, certa feita, sua mulher apareceu em frente ao Bar do Balboa, imponente feito uma poderosa entidade a cobrar por seus preceitos” (Página 36).    


No exemplo acima, nota-se a mudança brusca de tom bem no meio do trecho. O parágrafo começa informal e termina com pegada rebuscada. Juro que não entendi essas oscilações, que vão do início ao fim do livro. O pior é que X, o narrador principal, é um cara simples, comum. Isso fica evidente no seu discurso despojado e coloquial. Aí na hora da narrativa, ele se torna, muitas vezes, um forte candidato à próxima cadeira na Academia Brasileira de Letras. Portanto, a narrativa não combina com o perfil do narrador-protagonista do romance.


Para completar o desconforto, a formalidade de algumas passagens de “Perdido” se contradiz com o tom de oralidade do relato, que descobrimos só no final da leitura se tratar de (cuidado, aí vai um pequeno spoiler!) uma consulta terapêutica. Por mais que haja alguns vocativos como “doutor” ao longo dos capítulos, a ficha só cai no desfecho. Ou seja, esse texto muito certinho e erudito não combina com a conversa despojada do protagonista com o Dr. Cassius Lutterbach. Certamente, um paciente não ficaria medindo as palavras na consulta, né?


Thriller policial ambientado na maior tragédia climática da Região Serrana do Rio de Janeiro, Perdido é o sexto romance de George dos Santos Pacheco, um dos talentos da literatura brasileira contemporânea

Portanto, o problema não é a sofisticação vocabular em si, algo que surge com frequência na literatura, mas a oscilação brusca de registro e a incompatibilidade com o perfil do narrador-protagonista. Como comparação, cito “A Peste das Batatas”, romance de estreia de Paulo Sousa, que tem um texto naturalmente mais rebuscado. Porém, lá, esse expediente não me soou inconsistente. O motivo? O narrador, Jameson Playfair Lindley, é um pesquisador arrogante e ambicioso que sonha em conquistar o Prêmio Nobel e entrar para a história do Brasil como salvador da pátria. Assim, uma das maneiras de demonstrar sua suposta superioridade intelectual sobre os conterrâneos é justamente por meio do linguajar técnico e pelo vocabulário extremamente refinado. Afinal, não estamos lendo o texto de um brasileiro qualquer!


No caso dos clássicos da ficção nacional, como “Grande Sertão: Veredas” (Companhia das Letras), de João Guimarães Rosa, e “O Coronel e o Lobisomem” (Companhia das Letras), de José Cândido de Carvalho, outros títulos com narrativas mais difíceis que me vêm agora à mente (e que integram o Talk Show Literário), os textos diferentões possuem função estética clara e coerência com as personagens centrais. Convenhamos que não parece ser o caso de “Perdido”. Para mim, o livro de Pacheco funcionaria melhor se adotasse uma linguagem mais próxima da oralidade irônica e espontânea de obras como “Pornopopéia” e “A Senhorita Simpson” (Companhia das Letras), novela de Sérgio Sant'Anna, nas quais o estilo narrativo combina organicamente com o perfil de seus protagonistas.


Por falar no rigor textual, outra questão incômoda é que os diferentes narradores (lembrem-se que são mais de um!) escrevem do mesmíssimo jeito. Infelizmente, as vozes com estilos idênticos afetam a verossimilhança da trama. Se são diferentes pessoas (X, Emilio Cariello e o vilão...) relatando partes de uma história, imaginamos que suas palavras e suas orações tivessem características distintas. O lado positivo dessa semelhança é o aumento do suspense da trama. As surpresas do leitor ao descobrir que está acompanhando múltiplos narradores compensa esse escorregão.


O que me pareceu incompreensível foi a inserção de longas partes da narração no meio do discurso. Em vários trechos do romance, dava para separar tranquilamente o que as personagens falam do que o narrador pensa. Por falar nisso, achei confusos certos usos do travessão no meio do diálogo. No discurso, ele serve normalmente para separar o que as personagens estão expressando diretamente do que o narrador está relatando. Uma vez que se amplia seu uso no meio do diálogo, os leitores ficam um pouco confusos. Foi o meu caso, que tive que interromper o ritmo natural de leitura para entender o que fora grafado.


Escritor de romances, coletâneas de contos e crônicas, literatura infantil e antologia poética, George dos Santos Pacheco é um dos autores mais versáteis e prolíficos do interior do Rio de Janeiro

Deu para notar que não são problemas que afetam substancialmente a experiência literária. Sendo bastante honesto, repito sem medo nenhum de parecer repetitivo ou exagerado: “Perdido” é um livro excelente e não fica atrás de nenhum thriller recente das grandes editoras comerciais. E o mérito dessa façanha é totalmente de George dos Santos Pacheco. Exatamente por isso, vale a pena ficarmos de olhos abertos para suas novas publicações ficcionais. Uma vez que descobrimos um novo e ótimo autor da literatura brasileira contemporânea, nos cabe conferir seu crescimento e as novidades que ele irá nos proporcionar.


Até a próxima, senhoras e senhores!


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